Daylight

20 Capítulo 19


Notas iniciais
Esse capítulo está disponível no fanfiction.net desde a última quarta-feira, mas o site aqui estava instável e não me permitiu postar antes.

Bella

Na semana seguinte, eu descobri que existe um tipo de dor que não melhora com silêncio.

Isso me irritou mais do que devia.

Sempre acreditei, talvez por arrogância, talvez por prática, que quase tudo podia ser administrado.

Irina e eu acabamos por um desgaste tão gradual que, quando o fim veio, ele já estava acontecendo havia tempo demais para me surpreender. Doeu, claro. Doeu o constrangimento social, a burocracia, a sensação humilhante de fracasso. Doeu descobrir que eu tinha me acostumado a pedir tão pouco.

Mas nada daquilo me desorganizou desse jeito. Nada daquilo me arrancou de mim.

O fim com Irina foi como tirar um sapato apertado depois de horas em pé. Havia marcas na pele, alívio, algum incômodo residual, o tipo de dor que ainda conversa com a razão. O que eu sentia agora não conversava com nada. Era uma ausência, uma coisa viva e estúpida instalada no centro do peito, reorganizando o resto do meu corpo em torno dela.

Sem Edward, toda minha vida parecia vazia.

Eu continuava acordando, escovando os dentes, respondendo mensagens, trocando de roupa, abrindo janelas, dando comida e levando Jake para passear, mas havia alguma coisa ofensiva em todas essas atividades. Como se o cotidiano tivesse se tornado uma performance mal ensaiada e eu estivesse representando para uma plateia que não existia. Às vezes eu me pegava parada no meio da cozinha, a mão na porta da geladeira, sem a menor ideia do que tinha ido fazer ali. Em outras, entrava no banho e só percebia vários minutos depois que não tinha lavado o cabelo, embora já estivesse debaixo d’água havia tempo suficiente para isso.

Na quinta-feira, que pareceu durar quarenta e oito horas, fiquei sentada no chão do closet por quase meia hora, olhando para um sapato como se ele tivesse alguma resposta que eu ainda não tinha considerado.

Na sexta, chorei porque Jake demorou a voltar do quintal e pensei que ele tivesse fugido.

No sábado, uma semana depois, tive certeza de que estava começando a enlouquecer porque ouvi um carro parar em frente de casa e meu corpo inteiro se levantou por dentro antes que minha cabeça pudesse lembrar o óbvio: Edward não viria. Eu tinha pedido que ele não voltasse.

Essa era a parte mais difícil de suportar. Não havia um cenário que pudesse me acomodar como vítima absoluta. Eu tinha fechado a porta. Eu tinha feito a coisa certa, tentando negociar um espaço para lidar com minha própria humilhação.

E, ainda assim, todo dia uma parte de mim esperava.

Na segunda-feira de manhã, vomitei meu café da manhã.

Não foi dramático. Nem cinematográfico. Só abrupto e profundamente irritante. Um enjoo seco, violento, sem nenhum respeito pelo fato de que eu já estava fazendo um esforço admirável apenas para existir. Fiquei de joelhos no banheiro, uma mão espalmada no azulejo e a outra segurando meu cabelo, esperando passar.

Quando passou, escovei os dentes com raiva.

Atribuí ao estresse, à infinidade de cigarros que eu tinha fumado nos últimos dias, à combinação entre sofrimento e hábitos autodestrutivos. Havia explicações suficientes disponíveis e eu aceitei a primeira que não exigia pensar muito.

Nos dias seguintes, meu corpo continuou estranho. Um cansaço que me acompanhava como se eu estivesse me recuperando de uma gripe que nunca passava. Desenvolvi uma sensibilidade ridícula a cheiros e até o cheiro das minhas próprias roupas me parecia agressivo demais.

Talvez fosse porque minha mente já estivesse estafada tentando responder perguntas de natureza mais urgente como, por exemplo, o que se faz depois de perder a única pessoa diante da qual a vida parecia finalmente apontar numa direção? Como se volta a habitar uma existência que, até duas semanas antes, vinha sendo secretamente organizada em torno de uma promessa? Como se desfaz o impulso íntimo e vergonhoso de imaginar um futuro com alguém?

Eu tinha dito, naquela noite, que continuava querendo uma vida inteira quando olhava para ele. A humilhação maior era que isso continuava sendo verdade mesmo depois do fim.

Eu ainda o queria nas coisas mais banais. Não só na cama, não só no corpo, não só na falta obscena que ele fazia do lado errado da noite. Queria o tipo de amor que envelhece, mas permanece. Queria tanto a parte inteira e agora não havia nada.

Ou pior: havia o quase. O que eu quase tive.

Aquela casa, a que eu tinha feito questão de manter no divórcio, agora parecia grande demais para eu e Jake sozinhos. Jake, aliás, começou a me seguir com um grau de atenção que achei ofensivo, como se tivesse percebido antes de mim que eu estava a meio passo de me tornar um daqueles seres humanos que esquecem de comer, de dormir ou de abrir a porta para o mundo.

Ele deitava na porta do banheiro enquanto eu tomava banho. Encostava o focinho no meu joelho quando eu ficava tempo demais parada. Latiu uma vez quando me viu sentar no chão da cozinha sem nenhum motivo aparente além de um cansaço inexplicável que começou no peito e se estendeu para o resto do meu corpo.

— Estou ótima — murmurei para ele, porque mentir para um cachorro parecia proporcional ao resto da semana.

O pior sofrimento não era sequer o choro. Chorar, na verdade, era quase prático. A garganta apertava, os olhos ardiam, a respiração saía em intervalos ridículos, e depois havia o esgotamento.

O pior era o intervalo. As horas em que eu só existia. Horas em que aquele término não doía como uma facada, mas como uma dor fantasma.

No início da terceira semana, precisei ir ao escritório da produtora e quase cancelei em cima da hora. Acabei indo por hábito e por pânico de ficar sozinha em casa comigo mesma por tempo demais. No carro, meu reflexo no vidro me devolveu uma mulher mais pálida do que eu lembrava e com uma expressão de quem tinha começado a se ausentar do próprio rosto.

No meio de uma reunião, o cheiro do café me embrulhou o estômago outra vez. Empurrei a xícara para longe.

— Você está bem? — alguém perguntou, e eu respondi que sim.

Mais tarde, no banheiro, lavei o rosto e fiquei me olhando no espelho por um segundo longo demais.

Havia olheiras. Minha pele estava mais opaca. Havia aquela estranha combinação entre exaustão e tensão que me fazia parecer doente. Eu toquei minha própria bochecha como se estivesse verificando a presença física de alguém.

— Reaja, Isabella — falei para meu reflexo.

A mulher ali não reagiu.

Voltei para casa no fim da tarde com uma irritação muda e um cansaço que parecia vir de dentro dos ossos. Tirei os sapatos na entrada, larguei a bolsa no aparador e fui direto para a cozinha procurar qualquer coisa salgada, porque só de pensar em doce eu sentia o estômago virar. Acabei comendo torradas secas em pé, sem fome real, só porque parecia adulto alimentar-se de alguma coisa antes do próximo café.

No terceiro gole do que antes era minha bebida favorita, a náusea voltou.

— Que ótimo.

Jake me observava da porta com uma mistura de preocupação e julgamento que eu considerei inadequada. Aquilo era ridículo.

Estresse, pensei de novo. Hormônios bagunçados. Sono ruim. Café demais. Nicotina de menos ou de mais. Tristeza. O corpo sempre arrumava formas humilhantes de traduzir o que a cabeça queria esconder.

Acontece que, naquela noite, deitada sozinha na cama, sem conseguir encontrar posição confortável, uma ideia muito pequena e muito inconveniente tentou atravessar meu cansaço. Eu a afastei antes mesmo de lhe dar forma, não porque fosse impossível, exatamente. Só porque eu já não tinha espaço para mais nenhuma catástrofe.

Rolei de lado, puxei o travesseiro para mais perto do peito e encarei a escuridão do quarto.

Sem Edward, eu não sabia como imaginar o futuro. Essa era a verdade mais feia. Não porque eu fosse incapaz de viver sem outra pessoa — Deus, eu odiava mulheres que se reduziam a isso e agora me via ameaçada dessa forma —, mas porque não era sobre qualquer pessoa. Era sobre ter encontrado, tarde demais e da forma errada, uma direção. Uma possibilidade concreta de casa. E então perdê-la pelas mesmas razões que, no fundo, sempre tinham estado ali: atraso, medo, danos.

Eu deveria estar com raiva. E estava. Deveria estar aliviada por ter saído da posição humilhante em que me deixei ficar. Também estava.

Mas nenhuma dessas coisas me orientava.

Eu me sentia como alguém que finalmente avista terra depois de anos no mar e, no exato instante em que reconhece a linha da costa, vê o continente desaparecer de novo sob a névoa.

Fiquei deitada por muito tempo, ouvindo a casa. Jake respirando no tapete. O ruído distante de um carro na rua. Meu próprio corpo, estranhamente barulhento, como se estivesse tentando me dizer alguma coisa para a qual eu ainda não tinha conhecimento para entender.

Na manhã seguinte, acordei com gosto metálico na boca e a nítida sensação de que estava perdendo alguma coisa. Só não sabia ainda o que.

Os dias passaram do jeito mais humilhante possível: sem acontecimento nenhum.

Nenhuma mensagem, nenhuma ligação, nenhuma tentativa torta de reaparecer com culpa, exaustão ou a pior verdade disponível. Edward fez exatamente o que eu tinha pedido que ele fizesse: não voltou.

Alice me mandava mensagem todos os dias. Ela estava em Washington com Jasper, acompanhando alguma agenda política insuportavelmente importante, e essa era a única razão pela qual não tinha aparecido pessoalmente antes para me arrancar a verdade à força. Perguntava como eu estava, se estava comendo, se estava dormindo, se queria que ela voltasse mais cedo.

Eu respondia com mentiras e Alice sabia.

Eu conseguia sentir isso até na pontuação das mensagens dela, mas mesmo assim, continuei mentindo.

Na quarta semana, meu corpo começou a exigir atenção de um jeito que já não aceitava ser tratado como dano colateral do sofrimento.

O enjoo vinha em ondas breves e desagradáveis. Não era constante, o que talvez tenha me permitido ser negligente por mais tempo. Só aparecia nos horários mais aleatórios: no meio da manhã, no elevador, diante do cheiro de café, diante do meu próprio perfume. Eu me sentia exausta de um jeito novo, como se cada tarefa exigisse uma quantidade ofensiva de energia.

Eu estava triste, fumando demais, comendo mal, dormindo pior. Meu corpo podia estar reagindo a qualquer coisa.

Na quinta-feira, acordei com dor. Era uma cólica ruim, bem ruim. Possivelmente a pior que eu já tinha sentido, mas isso por si só não era alarmante. Eu tinha começado a menstruar na noite anterior, um sangramento leve que significava que ainda duraria alguns dias.

Sentei na cama esperando passar. Não passou. Só mudou de forma. Uma pontada funda, do lado direito, seguida de uma pressão, um calor estranho, um enjoo tão repentino que precisei correr para o banheiro.

Depois de vomitar, fiquei sentada no chão frio por alguns minutos, respirando fundo para tentar melhorar. Jake apareceu na porta, me olhou daquele jeito quieto e concentrado que os cães têm quando percebem antes de você que alguma coisa saiu do eixo.

— Não começa — murmurei, mais para mim do que para ele.

Levantei, lavei o rosto, escovei os dentes e tentei seguir o dia. Tomei dois goles de água, comi uma torrada que não consegui terminar e engoli um comprimido de analgésico. A dor cedeu um pouco, o suficiente para eu mentir para mim mesma mais uma vez.

Até a campainha tocar perto do meio-dia.

Demorei mais do que devia para abrir. Alice entrou já tirando os óculos escuros e falando alguma coisa sobre ter vindo direto do aeroporto, mas parou no meio da frase quando me viu direito.

— Bella.

Era só meu nome. Ainda assim, o jeito como ela disse me fez entender imediatamente que eu estava pior do que vinha admitindo.

— Oi para você também.

Ela fechou a porta com o pé, deixou a bolsa no aparador e ficou me olhando com uma atenção tão direta que tive vontade de discutir só por reflexo.

— Você mentiu para mim.

— Isso é um cumprimento horrível.

A dor voltou bem nessa hora, mais funda, e precisei apoiar a mão na lateral da mesa. O sorriso morreu no meio do caminho e Alice atravessou a sala na mesma hora.

— O que foi?

— Só estou passando mal, Alice.

Ela me lançou um olhar.

— Há quanto tempo?

— Alguns dias.

Ela respirou fundo pelo nariz, tentando manter a calma, e segurou meu braço com firmeza suficiente para me levar até o sofá. Ela ficou agachada na minha frente, analisando meu rosto como se estivesse montando um quebra-cabeça irritante.

— Me diz exatamente o que você está sentindo.

— Cansaço, um pouco de enjoo, dor.

— Onde?

Apontei e ela hesitou um segundo.

— Quando foi sua última menstruação?

Essa era fácil.

— Agora. Começou ontem à noite.

Ela fechou os olhos por um instante. Quando abriu, a decisão já estava tomada.

— Vamos ao hospital.

Soltei uma risada curta, completamente sem humor.

— Não vou ao hospital por causa de uma cólica forte.

— Isso não é uma cólica.

— Alice…

— Você está com dor, enjoo, sangramento e uma cara péssima. Nós vamos ao hospital.

— Posso marcar uma consulta.

— Hoje é quinta-feira. Você não vai esperar uma consulta.

Levantei devagar, esperando que a irritação passasse.

— Eu consigo ir sozinha.

— Ótimo — ela disse, já pegando a bolsa no aparador. — Eu vou com você.

Eu devia ter brigado mais. Devia ter insistido. Mas, naquele instante, a perspectiva de continuar sozinha dentro de casa com aquela dor começando a se espalhar pelas costas me pareceu mais difícil do que ceder à objetividade brutal de Alice.

No carro, fui em silêncio. Ela também.

O hospital era frio demais, branco demais, eficiente demais. Alice me levou até a recepção e ficou ao meu lado enquanto eu respondia perguntas com a vaga sensação de estar falando sobre outra mulher.

Na triagem, a enfermeira mediu minha pressão, temperatura, frequência cardíaca. Perguntou quando o sangramento tinha começado, se eu costumava ter cólicas fortes, se a dor piorava de um lado específico, se eu tinha desmaiado, se havia chance de infecção urinária, apendicite, endometriose, uma lista de possibilidades que me fez sentir ainda mais distante do próprio corpo. Alice ficou encostada na parede, braços cruzados, o rosto quieto demais.

— Data da última menstruação? — a enfermeira perguntou.

— Ontem à noite — respondi, imediatamente.

Ela ergueu os olhos do monitor.

— Ontem à noite você começou a ter um sangramento, certo?

Assenti, irritada pela precisão da pergunta.

— Sim.

— E o seu último ciclo? O anterior.

Eu abri a boca para responder e fechei de novo. Eu tentei fazer a conta e senti uma hesitação incômoda surgir. As semanas tinham se empilhado umas sobre as outras desde que Edward saiu pela minha porta e eu tinha permitido que o calendário se tornasse algo irrisório.

— Eu não sei.

Ela anotou alguma coisa.

— Tudo bem. Vamos coletar urina e sangue, e o médico vai te avaliar. Como a dor é mais forte do lado direito e há sangramento, provavelmente vão pedir exames de imagem também.

Voltei para a sala de espera da emergência alguns minutos depois, sentindo a cólica recomeçar. Alice se levantou quando me viu.

— E aí?

— Fui examinada.

— Isso eu imaginei, o que mais?

— Fico feliz que a experiência de Washington tenha refinado seu talento para observações brilhantes. Não tenho nada além disso, temos que esperar.

A boca dela quase se moveu, mas o alívio que eu esperava da tentativa de humor não veio. Fui chamada pouco depois para um leito de observação; Uma residente apareceu primeiro, jovem, objetiva. Fez perguntas, apalpou meu abdômen, viu a dor me atravessar quando pressionou do lado direito e sua expressão se alterou só o suficiente para me deixar menos confortável.

— Vou pedir uma ultrassonografia pélvica — disse. — E, quando saírem os exames, decidimos o próximo passo.

— Próximo passo para quê? — perguntei.

Ela me olhou por um segundo, medindo o quanto eu queria mesmo a resposta.

— Ainda é cedo para dizer. Pode ser uma cólica menstrual muito forte, pode ser um cisto, pode ser outra coisa. O sangramento e a dor localizada merecem investigação.

“Outra coisa” parecia um termo apropriado para o meu corpo que, já entediado de tristeza, tinha resolvido produzir também uma emergência médica inespecífica.

Alice pegou minha mão em algum momento sem comentar, como se soubesse que qualquer gentileza corria o risco de me fazer chorar ali mesmo.

— Você quer que eu peça algo? — ela perguntou baixo.

— Não.

— Quer que eu ligue para alguém?

A pergunta me fez virar o rosto na direção dela.

— Não.

Ela sustentou meu olhar por um segundo e assentiu. Não perguntou quem, não precisava.

O resultado dos exames chegou antes da ultrassonografia.

A médica que entrou dessa vez não era mais a residente, era uma plantonista. Segurava um tablet numa mão e uma prancheta na outra.

— Isabella?

— Infelizmente sou eu.

Ela me lançou um olhar breve, talvez avaliando se eu estava sendo difícil ou só tentando sobreviver com sarcasmo. A acompanhei até o consultório, quase implorando para que alguém me medicasse logo e me mandasse de volta para casa, onde eu poderia continuar existindo na minha miséria.

— Recebemos alguns dos resultados dos seus exames e acredito que já tenhamos a causa da sua queixa, tanto do sangramento quanto da dor, o que faz seu caso me preocupar um pouco. Como você não sinalizou nada no primeiro atendimento, acredito que ainda não saiba, certo? — balancei a cabeça em negação, sem entender o que ela queria dizer. — Isabella, você está grávida.

O quarto pareceu ficar completamente sem som. Eu pisquei uma vez.

— O quê?

Ela repetiu, com a mesma voz estável, como se essa frase não tivesse acabado de alterar a estrutura interna do universo.

Eu estava grávida?

Ao meu lado, Alice apertou minha mão com mais força.

— O exame de sangue quantificou o hormônio, o que nos deu a estimativa de uma gestação entre seis e oito semanas, mas a ultrassonografia vai nos ajudar a entender a localização e a evolução — a médica continuou. — Como você está com dor e sangramento, isso precisa ser avaliado com rapidez.

De todos os elementos da frase, “grávida” era, perversamente, o mais difícil de processar. Meu cérebro preferiu se agarrar ao restante, ao que era clínico e urgente, antes de admitir a parte central.

— Isso deve estar errado — eu ouvi minha própria voz dizer. — Eu não posso estar grávida.

Não havia convicção nenhuma nela. Só recusa.

A médica não reagiu à frase. Talvez porque a ouvisse com frequência. Talvez porque soubesse que discutir naquele momento seria inútil.

— É o que seu exame aponta. Vamos esperar as ultrassonografias e conversar de novo quando as imagens chegarem.

Quando ela saiu, eu continuei olhando para o espaço onde ela tinha estado.

Alice não falou imediatamente. Ainda bem.

— Bella — ela disse, por fim, tão baixo que quase pareceu uma pergunta.

Eu balancei a cabeça.

— Não, ainda não.

Era pouco. Era ridículo. Era tudo o que eu tinha.

A ultrassonografia demorou mais do que eu achei possível.

Primeiro me levaram para outra ala. Depois veio a instrução para esvaziar parcialmente a bexiga, não esvaziar demais, depois deitar, abrir espaço para a técnica, aceitar o gel frio, a pressão do transdutor no abdômen, a inconveniência de tudo aquilo. A imagem na tela era um borrão cinza que eu não sabia ler e não queria aprender naquele minuto. A técnica media, ajustava, media de novo, o rosto profissionalmente neutro.

— A dor piora aqui? — perguntou, pressionando um pouco mais à direita.

— Sim.

Ela não comentou.

Quando terminou, fui devolvida ao leito para esperar a médica. Alice estava sentada com as pernas sobre a cadeira e os braços fechados em volta do próprio corpo, numa postura tão pouco usual nela que me deu medo antes mesmo de qualquer diagnóstico.

— Diga alguma coisa — murmurei.

Ela me olhou.

— Eu não sei o que dizer.

Ficamos em silêncio. Quando a médica voltou, sentou no banco ao lado da maca. O gesto foi o suficiente para me deixar imediatamente alerta.

— Sua gravidez é intrauterina — disse.

Eu a encarei.

— Isso é bom?

Ela assentiu.

— Significa que o embrião está dentro do útero. Isso exclui, neste momento, uma gravidez ectópica, que era minha preocupação por causa da dor e do sangramento.

Assenti, embora o tamanho todo daquela situação estivesse agora fazendo um trabalho grande demais dentro do meu peito para que eu realmente acompanhasse qualquer lógica.

— No ultrassom, vemos uma gestação dentro do útero. O embrião tem tamanho compatível com algo entre sete e oito semanas. Há atividade cardíaca, mas… — A médica interrompeu a frase por um instante enquanto ajustava alguma coisa na tela. Meu peito apertou antes mesmo de ela continuar. — Os batimentos estão um pouco abaixo do esperado para essa fase. Existe a chance de evolução mesmo assim, mas isso mostra que precisamos acompanhar com cuidado.

— Mas tem batimentos? — perguntei rápido demais, como se velocidade pudesse alterar a resposta.

— Tem. Só não com a intensidade que gostaríamos de ver hoje.

Ao meu lado, Alice permaneceu completamente imóvel. Tão imóvel que parecia estar se segurando para não quebrar alguma coisa dentro dela.

— O sangramento que você está tendo — a médica continuou. — É compatível com o hematoma que apareceu no exame, que chamamos de subcoriônico. Ele explica a cólica, o volume de sangue e o aspecto de menstruação que você descreveu. Em muitos casos, o hematoma regride sozinho com o passar das semanas.

Em muitos casos.

A frase caiu em mim com violência imediata. Médicos nunca diziam “em muitos casos” quando queriam tranquilizar alguém. Diziam isso quando não podiam prometer nada.

— E quando não regride? — Alice perguntou.

A médica olhou primeiro para ela, depois para mim.

— Sangramentos no primeiro trimestre sempre exigem acompanhamento próximo. Enquanto existe sangramento e dor, tratamos como uma ameaça de aborto — eu e Alice suspiramos tão alto que o som pareceu reverberar na sala. — Isso não significa que a gestação vá terminar. Significa apenas que ainda existe risco e que precisamos observar a evolução.

A palavra aborto atravessou o consultório inteira e se alojou direto no meu estômago. Soltei o ar, mas meu corpo continuou duro, atravessado por um medo tão físico que parecia ocupar espaço.

— O que eu faço agora? — perguntei.

— Repouso relativo pelos próximos dias. Evitar esforço físico, exercícios, relação sexual e longos períodos em pé. Hidratação, controle da dor e acompanhamento obstétrico. Eu também quero repetir o ultrassom em cerca de uma semana para avaliarmos crescimento embrionário, batimentos e o comportamento do hematoma.

Uma semana.

Parecia uma sentença absurda pedir que alguém sobrevivesse normalmente durante sete dias inteiros.

— Então o bebê está vivo? — Alice perguntou de novo, numa calma artificial demais para soar humana.

A médica sustentou o silêncio por um segundo antes de responder.

— Neste momento, existe atividade cardíaca. Isso é um sinal positivo. Mas ainda não conseguimos afirmar a viabilidade da gestação com segurança. Precisamos observar a evolução.

Viabilidade.

Era impressionante a quantidade de palavras clínicas inventadas para descrever algo que, dentro de mim, já tinha deixado de ser clínico há muito tempo.

Alice apertou minha mão outra vez e só então percebi que ela estava gelada.

— Vou deixar as orientações por escrito — a médica disse, levantando-se. — E pedir para repetirem seu exame em curto intervalo, além do retorno com obstetra.

Eu quase ri. A pergunta parecia vir de um universo paralelo onde minha vida ainda obedecia a estruturas previsíveis.

Alice foi a primeira a se mover. Levantou, puxou a cadeira para mais perto da maca e sentou de frente para mim.

— Bella.

— Não — eu disse, imediatamente.

— Você nem sabe o que eu ia dizer.

— Sei o suficiente.

Ela inspirou fundo, as mãos cruzadas no colo por um segundo tenso demais para ser casual.

— Tudo bem. Então eu digo outra coisa: você não vai passar por isso sozinha.

Foi uma frase simples. Foi também, por algum motivo, quase insuportável.

— Eu estou grávida.

Ouvir aquilo na minha própria voz foi diferente de ouvir da médica. Mais real. Mais grotesco. Mais íntimo. A frase parecia incompatível comigo, como uma peça de roupa no corpo errado. Ainda assim, depois de dita, ela não podia mais ser recolhida.

Eu ri. Um som curto, seco, completamente sem humor. O tipo de riso que aparece quando o corpo falha em escolher entre histeria e colapso.

— Isso é ridículo.

— Não é ridículo.

— Não? — virei para ela, finalmente, sentindo alguma coisa já perigosamente próxima de raiva procurar uma saída. — Alice, isso é o quê, então? Porque eu consigo pensar em várias palavras e nenhuma delas melhora o quadro.

Ela sustentou meu olhar sem recuar.

— É terrível. É complicado. É cruel, em timing e em contexto. Mas não é ridículo.

Eu passei a mão pelo rosto devagar. Minha pele parecia estranha ao toque, como se pertencesse a alguém ligeiramente febril. Cinco a seis semanas.

O quarto perdeu o foco por um instante e precisei fechar os olhos. Sete a oito semanas significava que o bebê — a ideia do bebê, o risco do bebê, a existência ainda microscópica e já devastadora daquele bebê — já existia muito antes da porta fechada. Antes da última conversa. Antes de tudo se organizar na forma definitiva do irreparável.

— Bella? — Alice chamou baixo.

Só então percebi que estava chorando. Não de forma bonita, só lágrimas silenciosas escorrendo. Passei a mão pelo rosto, irritada.

— Me desculpe.

— Você não precisa pedir desculpa — ela disse.

Eu virei o rosto para ela.

— Devo ter fumado mais nas últimas semanas que nos últimos anos inteiros.

— Você não sabia.

— E eu não sei o que fazer com isso — falei, a voz baixa, rouca, menor do que eu gostaria.

Alice ficou em silêncio por alguns segundos. Quando respondeu, a voz dela estava firme, limpa.

— Você não precisa decidir tudo hoje.

Fechei os olhos. Não precisava decidir sobre Edward, nem sobre explicações, nem sobre o que fazer com uma notícia que ainda mal cabia dentro de mim. Mas havia uma coisa decidida antes de qualquer escolha consciente, antes mesmo de qualquer pensamento coerente, e percebê-la me apavorou.

Eu não queria perder aquele bebê. A verdade surgiu sem cerimônia, inteira, e me atravessou de um jeito quase obsceno. Levei a mão ao ventre por puro reflexo, como se o gesto fosse inevitável.

Edward não sabia. Edward não estava ali. Edward talvez ainda acreditasse que a maior consequência entre nós tinha sido o fim.

A ironia era tão brutal que meu corpo parecia incapaz de acomodá-la sem dor.

— Alice — chamei. Ela olhou imediatamente. — Fica comigo hoje?

Ela não hesitou nem por um segundo.

— Claro que sim.

Assenti, porque qualquer outra resposta teria me feito chorar de novo.

Quando finalmente me deram alta, Alice cuidou da papelada, das instruções, da minha bolsa, de pegar o carro. Eu só a acompanhei em estado de obediência, tentando entender como alguém entra num pronto-socorro com a convicção arrogante de estar só com uma cólica horrível e sai de lá carregando uma gravidez de cinco ou seis semanas e o risco concreto de perdê-la.

No caminho para casa, encostei a testa no vidro frio da janela e fechei os olhos.

A cidade continuava a mesma. O trânsito continuava o mesmo. As pessoas continuavam atravessando a rua, falando ao telefone, comprando café, vivendo sem saber que o meu corpo tinha se tornado, nas últimas duas horas, o lugar mais instável e mais importante do mundo.

Eu ainda não sabia o que faria, mas sabia de duas coisas: primeiro, eu estava grávida. Segundo, pela primeira vez desde que Edward saiu pela minha porta, o futuro tinha voltado a existir.

Não de um jeito bonito ou justo, mas existia.

E isso me aterrorizava quase tanto quanto me obrigava a continuar viva.


Notas finais
Não me matem, rs. Até o próximo.