Edward

Eu acordei antes do alarme tocar.

Não porque queria, mas porque Emerald começou a se mexer no berço portátil ao lado da cama. Ainda estamos organizando as coisas da mudança e o quarto dela não ficou pronto. Ela emitiu primeiro um resmungo baixo, depois o choro engasgado de quem ainda está entre o mundo dos sonhos e o real.

Me levantei devagar, tentando não fazer barulho. Tanya estava virada para o outro lado da cama, de costas para nós, como tem estado nos últimos... meses? Talvez mais que isso.

Peguei minha filha no colo e a balancei suavemente. Ela se acalmou quase de imediato, como se soubesse que estou ali. Como se fosse fácil assim.

— Shh, está tudo bem. O papai está aqui. Estamos em casa.

Eu digo isso com naturalidade, mas às vezes me pergunto se é mesmo verdade. Se eu estou mesmo aqui. Porque a sensação que eu tenho, na maior parte do tempo, é que estou vivendo a vida de outra pessoa.

Queria poder dizer que me arrependo de tudo o que me trouxe até aqui. Mas não é tão simples assim.

Eu sempre quis uma família. Queria estabilidade, uma casa com cheiro e som de crianças e brinquedos espalhados no chão. Queria construir algo meu, que ninguém pudesse tirar de mim.

Tanya parecia a escolha certa na hora certa. Ela me desafiava, me atraía, e quando disse que estava grávida, mesmo que tenha sido totalmente inesperado e acidental, eu acreditei que finalmente tinha chegado a minha hora.

— Vamos fazer dar certo — foi o que eu disse a ela, no dia em que sentei no chão da sala com o exame dela na mão. Ela estava apavorada, eu também, mas tentei parecer forte. Era meu papel.

Mas fazer dar certo não é o mesmo que estar certo.

Nosso relacionamento virou uma série de acordos não ditos. Silêncios longos demais entre uma refeição e outra, monólogos cansados sobre coisas que já deixamos de sentir. A verdade é que nunca a amei de verdade. Eu só… continuei. Paixão, sim. Amor, não.

Tanya era bonita, inteligente e articulada. Ela já tinha tentado fazer de tudo: tentou atuar, até participou de algumas produções, depois tentou modelar, cantou (e, por Deus, ela devia se restringir a cantar canções de ninar no quarto da nossa filha) e, a mais recente, tentava vender a imagem de influenciadora de maternidade.

Tentar era o que ela sabia fazer de melhor, na verdade. Ela tentava, tentava e tentava, sempre com o objetivo de se tornar relevante. Minha mãe tentou me alertar, mas não dei ouvidos porque, na minha cabeça, ela odiaria qualquer uma que não fosse minha primeira ex. Eu conseguia ouvir as palavras na minha cabeça: Edward, ela vai te usar como escada, assim como fez com os outros. Talvez fosse isso mesmo, mas eu não me importei.

Não me importei porque, naquele momento, eu não ligava. Ela era boa de cama, tinha contatos para conseguir qualquer tipo de substância em qualquer lugar do mundo, e ainda me mantinha na mídia porque misteriosamente, sempre que eu saía em público com ela, alguém conseguia um registro.

Minha irmã, Rosalie, odiava Tanya. Quando liguei para contar que seria pai, ela gritou comigo que eu tinha caído no golpe mais antigo do mundo. Mas não era assim. Nós nos relacionamos por tempo o suficiente para que ela tivesse engravidado antes, se esse fosse seu objetivo inicial. Nós chegamos a conversar sobre isso uma vez, depois de uma noite inteira enchendo a cara. Ela disse que não queria ser mãe ainda, que não se sentia adulta o suficiente para cuidar de outra pessoa. Eu ri, porque me sentia pronto desde os vinte e dois anos. Desde… ela.

Apesar disso, ela era uma boa mãe. Amava Emerald. Nossa dinâmica como pais funcionava bem: dividimos os banhos, os preparos de refeições e mamadeiras, as idas às consultas, as horas de dormir. Mas era só isso. Nossa relação era essa. Puramente física, quando necessário, mas zero emocional. Nós éramos, no máximo, amigos. Às vezes, nem isso.

Tanya não me beijava de verdade há meses. Os poucos toques entre nós eram programados, secos. E os “eu te amo” viraram frases automáticas, repetidas em público, com um sorriso treinado e os olhos desviando logo em seguida.

Aos olhos dos outros, eu estava vivendo o sonho: uma carreira consolidada, uma filha linda, uma mulher bonita ao meu lado. Tinha estabilidade, fama, projetos engatilhados, o nome em capas de revistas e os comentários certos nas redes sociais.

Mas ninguém sabia o que tinha por trás da mudança para Los Angeles.

Morávamos em Londres até poucas semanas atrás. Foi lá que Emerald nasceu e viveu seu primeiro ano, minha família toda estava lá e era lá que eu planejava viver o resto da vida. E a verdade é que eu teria ficado lá. Por mim, continuaria vivendo numa casa tranquila, com as janelas grandes e os vizinhos que não se importavam com quem éramos.

Londres era mais silenciosa. Era o lugar onde eu podia respirar entre um set e outro, onde eu ainda acreditava que conseguia ser artista sem ser um produto.

Mas Tanya começou a empurrar a ideia de voltar para Los Angeles logo depois do primeiro aniversário de Emerald. Disse que precisava de visibilidade. Que estava estagnada, que não queria viver à sombra da minha carreira. Falou em oportunidades, em marcas que queriam trabalhar com ela, como se o mundo hoje em dia não fosse totalmente conectado e ela não pudesse fazer esse trabalho de qualquer lugar do mundo.

E eu sabia o que isso significava: likes, stories patrocinados, brunch com pessoas que falam em networking como se fosse a resolução de todos os problemas. Mas eu cedi. De novo. Talvez por cansaço. Talvez porque a ideia de mais uma discussão me esgotava mais do que o próprio voo de mudança. Talvez porque não quisesse viver longe da minha filha.

Tanya já tinha vivido aqui antes, quando estava tentando emplacar como atriz. A impressão que eu tinha era de que a cidade era uma espécie de fantasia mal resolvida pra ela. Ela dizia que voltar agora, como mãe, traria respeito. Eu achava que só traria mais cobranças.

Deixei minha equipe adaptar meus compromissos, suspendi alguns projetos na Europa, aceitei uma proposta ruim aqui só para dar tempo ao tempo e não ficar parado. Mas nada disso nos deu paz. Pelo contrário.

Desde que chegamos, o apartamento vive cheio de caixas que nunca terminaram de ser abertas, Tanya vive cheia de ideias que nunca se concluem, e eu… cheio de vazio. Um papel mal escrito que tento interpretar como se ainda acreditasse no personagem.

Hoje foi um desses dias em que o silêncio vira uma arma. Eu comentei que talvez pudéssemos sair só nós três, dar uma volta, respirar fora da rotina, nos reaproximar como família, conhecer melhor o bairro. Ela levantou os olhos do celular e soltou um:

— Agora você quer fazer programa de família? Que milagre, será que consigo ter algumas fotos da minha filha ou você vai barrar isso também dizendo que estou aparecendo às suas custas?

Ela tinha essa habilidade de ser cortante sem gritar. De ferir como quem só está “sendo honesta”. Emerald começou a chorar no segundo seguinte. Era como se sentisse tudo também.

— Foda-se você e suas fotos, Tanya.

Peguei a pequena nos braços e saí. Não falei nada. Nem ela. Só ouvi o barulho da porta.

As ruas ainda estavam acordando. Um ou outro carro passava, algumas pessoas apressadas demais para notar a expressão de um homem andando com uma bebê no colo como quem segura o último pedaço de si mesmo. Eu não sabia para onde estava indo. Só sabia que precisava sair daquele apartamento.

— Vai ficar tudo bem, Emmie — murmurei, mesmo sem saber se era verdade.

Ela me olhou com os olhos grandes, cópias dos meus, como se estivesse me avaliando. Depois sorriu, mostrando seus únicos quatro dentes, e encostou o rosto no meu peito.

E foi aí que doeu. Porque ser pai dela me faz querer ser um homem melhor.

Mas ultimamente, nem eu sei onde esse homem foi parar.

Talvez por isso eu tenha virado para a rua do café quase sem perceber. Aquele lugar parecia calmo, quase familiar. Um desses cantos da cidade que passam despercebidos por quem vive correndo, mas que guardam um tipo de paz, e era disso que eu precisava.

Entrei com a bebê ainda agarrada em mim, a cabeça dela apoiada no meu ombro.

Foi quando vi. De primeira, achei que fosse minha mente me pregando uma peça ou uma coincidência maldosa do universo.

Mas não era. De todas as pessoas que viviam naquela cidade, ela estava ali. Sentada na parte externa, com um cachorro deitado aos pés, um copo de café entre as mãos e um olhar perdido em algum ponto que não sei se era o presente ou o passado.

Bella.

O nome surgiu na minha cabeça como um sussurro. Como algo que nunca foi embora de verdade.

Ela estava diferente. E ao mesmo tempo, exatamente igual.

Mais madura. Mais cansada, talvez. Mas ainda ela. Com a mesma postura meio encolhida, como se estivesse tentando ocupar menos espaço. Com o mesmo tipo de beleza que não precisa de esforço, e nunca precisou.

Nossos olhos se encontraram e foi como se o tempo deixasse de existir.

Por um segundo — só um mísero segundo — eu não era o Edward que morava com uma mulher que não ama. Nem o ator que não sabe mais o que sente. Nem o pai que tenta, todos os dias, não falhar. Eu era só um garoto de vinte e dois anos que sonhava em ter uma família com aquela mulher. E ela era a garota que me fazia acreditar que eu podia.

Eu devia ter virado as costas. Devia ter saído dali e continuado a caminhada. Devia ter fingido que não a vi. Mas alguma coisa me prendeu no lugar e a próxima coisa que notei foi Emerald se esticando na direção do cachorro.

— Au au, papai — ela murmurou, com a voz sonolenta e encantada, como se fosse a coisa mais fascinante do mundo.

O vira-lata, por sua vez, levantou a cabeça com as orelhas em alerta, e em segundos estava de pé, abanando o rabo. Dessa posição, eu conseguia perceber o real tamanho dele, o que me fez dar um passo atrás. Um misto de pastor alemão com alguma criatura mítica da floresta. Dei mais um passo instintivo para trás, me preparando para proteger minha filha de um possível ataque.

Por que diabos Bella andava com um cachorro daquele tamanho? Ela tinha perdido completamente a noção? E se ele se revoltasse e saísse arrastando ela por aí? E se decidisse atacar alguém? Ela não era exatamente conhecida por sua força física, não seria capaz de contê-lo.

— Papai, au-au! — Emerald insistiu, puxando minha camiseta com a mãozinha gordinha.

— Não sei, bebê — murmurei, ainda tentando avaliar a situação. O cachorro continuava encarando a minha filha com a língua de fora e o rabo balançando como se tivesse encontrado uma amiga de infância.

Antes que eu pudesse decidir o que fazer, ouvi a voz dela.

— Jake é inofensivo, Edward.

Congelado. Foi assim que me senti.

Olhei para cima. Bella estava de pé agora, a mão ainda segurando a guia com tranquilidade.

— Gosta de crianças? — perguntei, cauteloso.

— Mais que de alguns adultos — ela respondeu, sorrindo.

Ela estava agindo como se não estivéssemos diante de um cavalo de guerra peludo que poderia arrancá-la do chão com um único puxão. Típico.

Minha filha agora estava completamente desperta e se agitava no meu colo, balançando as pernas com impaciência. Ela balbuciou algo entre sons que só ela entendia e começou a se contorcer mais. Queria ir. Queria tocar. Já tinha decidido.

Suspirei. Essa ideia de Emerald tem tudo o que quer, na hora que quer era coisa de Tanya e eu precisaria conversar com ela sobre isso. Como se lesse meu pensamento, minha filha deu um gritinho agudo e bateu as mãos no meu peito, frustrada por não ter seu desejo atendido.

— Ele é treinado, não vai machucá-la. Pode se aproximar.

Engoli seco e olhei o cachorro, que agora estava sentado, abanando o rabo como se fosse um golden retriever e não uma máquina de pelos e músculos, antes de agachar ainda segurando minha filha pelos braços. Ela deu dois passinhos cambaleantes e esticou a mãozinha sem medo. Jake se aproximou devagar, com o focinho abaixado, e cheirou sua mão. Depois, encostou o focinho na bochecha dela, como um beijo. Eu quis arrancá-la ali.

Emerald deu uma gargalhada, como não fazia há vários dias, e então se virou para mim, orgulhosa da própria coragem, e bateu palminhas. Jake deitou-se de novo, e ela tentou se agachar do jeito torto que crianças dessa idade fazem, para passar a mão nos pelos grossos dele.

— Qual é seu nome, princesa? — a voz de Bella me tirou da espécie de transe que eu estava, e percebi que ela tinha se abaixado para ficar na nossa altura.

Emerald olhou para ela com curiosidade, os olhos grandes e escuros analisando aquele rosto novo, aquela voz doce. Depois apontou para si mesma com o dedo cheio de baba e respondeu, com toda sua independência.

— Me!

Bella sorriu, aquele sorriso que começa nos olhos, e assentiu como se tivesse entendido perfeitamente.

— É mesmo? Que nome lindo.

— Emerald — completei, com a voz mais baixa do que pretendia — Mas ela ainda não consegue falar tudo, então chamamos de Emmie.

— Emerald — Bella repetiu, como se quisesse guardar o som na boca por mais um segundo — Como seus olhos. Combina com ela.

Assenti, engolindo em seco, por ela ter feito essa conexão.

Jake se acomodava com a cabeça entre as patas, completamente entregue aos carinhos desajeitados da minha filha, como se fossem grandes amigos.

— Você tem um au au em casa, Emmie? — Bella perguntou, depois de um tempo, sem me olhar diretamente.

Emerald balançou a cabeça com força, como se aquilo fosse a pergunta mais absurda do mundo, enquanto afundava os dedos no pelo outra vez

Bella riu baixinho, um som quase imperceptível, mas que me fez fechar os olhos por um instante. Era estranho ouvir isso de novo. Familiar. Como entrar num cômodo antigo que ainda guarda um cheiro que não existe mais.

— Ela está apaixonada — Bella comentou, voltando o olhar para a minha filha — E Jake também, ele só age assim quando confia.

— Confiança imediata — falei, observando os dois — Algo que desaprendemos com o tempo.

Ela não respondeu, mas algo em sua postura encolheu.

— Vocês estão passeando por aqui? — perguntou, e dessa vez me olhou nos olhos.

— Mudamos há algumas semanas.

— De vez?

Assenti. Bella não comentou nada e Jake se deitou outra vez, agora com a cabeça repousando ao lado de Em, que parecia ter entrado num transe de felicidade.

— Você passou bastante tempo em Londres… — ela continuou.

— Sim. Ela nasceu lá. Nós... — pausei, procurando a forma certa de dizer — Eu gostava de lá.

— Eu lembro — ela disse, como se isso também doesse um pouco.

Silêncio.

— Ela é linda, Edward. É até engraçado dar rosto e nome a alguém que eu só conhecia de costas pelas fotos. E parece... tranquila.

— Às vezes — sorri — Quando está bem alimentada e de bom humor. Você aprende rápido a respeitar o temperamento de uma criança.

Bella sorriu, mas o olhar perdeu o foco por um segundo. Como se tivesse se afastado de si mesma.

— Você sempre quis ser pai.

A frase ficou no ar. Não como uma pergunta. Mas como algo que ela lembrava.

— Quis — respondi — E ainda quero ser um bom pai. Mesmo quando não sei se estou fazendo certo.

Ela assentiu de novo. Ainda sem olhar pra mim.

— Está fazendo certo. Ela mostra isso.

Fiquei em silêncio, deixando o elogio me atingir com a força que não consegui demonstrar. Bella finalmente ergueu os olhos.

— Quer se sentar? — perguntou, indicando a mesa onde seu café esfriava — Jake parece ter feito uma nova melhor amiga.

Olhei para minha filha brincando no chão. Ela estava segura. Rindo. Feliz.

E Bella… Bella estava ali, depois de tanto tempo.

— Claro.