Daylight
4 Capítulo 3
Bella
Ele se sentou na cadeira à minha frente, mantendo uma distância segura, mas ainda sim, próximo demais. Mais próximo do que tinha estado em muito tempo. Por alguns segundos, tudo que consegui ouvir foi o som do meu coração tentando acompanhar o que estava acontecendo.
Fingi naturalidade, assim como esperava que ele também estivesse fingindo. Nós dois éramos atores, afinal.
Adicionamos mais uma xícara de café ao pedido, enquanto Jake continuava deitado perto de Emerald, absolutamente rendido aos carinhos pequenos e desajeitados da criança. E ela parecia completamente em paz.
É claro que Irina odiaria isso se estivesse aqui. Ela dizia que ele era grande demais, peludo demais, exigente demais, que assustava visitas e ocupava espaço demais em casa. Ela preferia gatos, apesar de Jake ter feito amizade com os gatos dela também.
E agora… ele tinha causado esse encontro. Se ela soubesse — e em algum momento, vai saber — ia desgostar dele ainda mais.
— Você está bem? — Edward perguntou, com a voz baixa, quase cuidadosa.
Levantei os olhos devagar. Ele estava me observando com uma expressão que eu conhecia bem: testa levemente franzida, preocupação disfarçada, e os olhos… os mesmos de sempre. Verdes, intensos, e agora, com um pouco mais de cansaço.
— Estou — menti — Na medida do possível.
Ele assentiu, e por um momento ficamos apenas ouvindo a bebê no chão soltar pequenos sons, encantada com o rabo que Jake mexia para um lado e para o outro.
— Você parece... diferente — ele disse, depois — Não sei explicar.
— Cansada? Amargurada? — tentei brincar, mas saiu mais ácido do que eu queria.
Ele sorriu de lado.
— Eu ia dizer mais forte, mas se você diz… Gostei do corte de cabelo.
Senti meu estômago dar um leve nó. O tipo de elogio que não se ouve todo dia. Muito menos dele.
— Obrigada.
Mais silêncio. Um incômodo confortável.
— E você? Está bem?
Ele deu uma risada curta.
— Isso depende do dia. Mas, num geral... sim.
Eu queria perguntar tanta coisa. Sobre a filha, sobre Londres, tirar todas as dúvidas que viviam na minha mente, saber se ele sentia falta de alguma coisa. De mim. Mas tudo parecia perigoso demais.
— Emerald é linda. E um doce — comentei, escolhendo um território neutro.
— Ela é meu mundo inteiro — ele respondeu, olhando para ela com um carinho tão genuíno que meu peito apertou.
Assenti, mas não consegui sustentar o olhar por muito tempo. A verdade era que ver Edward com a filha era como ver uma versão dele que eu só imaginei e que nunca me pertenceu. E isso doía mais do que eu queria admitir.
— Eu vi as fotos do seu casamento — comentou, e eu sabia que era só uma forma de puxar assunto, mas mesmo assim… Não era exatamente sobre o que eu gostaria de falar com ele.
— Pois é — respondi — Não foi exatamente como eu queria, mas foi bom.
Ele assentiu, como quem entende mais do que deveria.
— Quando você se tornou essa pessoa, Bella?
— O que quer dizer? — devolvi a pergunta, mesmo sabendo exatamente o que ele queria dizer.
Edward me olhou fixamente antes de responder, como se procurasse algum vestígio em mim que desse a resposta que ele queria.
— A Bella que eu… — uma pausa — Conhecia, não se casaria da forma que fosse apenas “bom”— ele fez aspas com os dedos.
Eu ri. Um riso seco, curto.
— A Bella que você conhecia não existe mais, Edward. Às vezes, precisamos fazer concessões para ter paz.
Concessões que eu não fiz por você, pensei, mas não falei.
Ele desviou o olhar por um segundo. Eu sabia que ele entendeu o que eu queria dizer. E talvez até por isso, tenha hesitado antes de falar.
— E valeu a pena? Digo, você conseguiu ter paz?
— Honestamente? Não como imaginei. Mas em alguns dias me pergunto se de fato fiz escolhas ou só me acomodei com o que me restou.
— O que restou? Você pode ter o que quiser, Bella, precisa se dar mais crédito.
Soltei uma risada baixa, sem humor.
— Engraçado ouvir isso de você.
Ele me encarou, confuso, e de repente me senti confiante para continuar falando.
— Você me dizia isso antes. Você dizia que eu podia mais, que merecia mais.
— E ainda acho.
Bobinho, pensei.
— E mesmo assim você me traiu, olha só — falei, antes que pudesse me censurar. A frase saiu calma, quase fria, como quem apenas atesta um fato antigo.
Edward ficou em silêncio. Não se defendeu. Não desviou o olhar.
— Eu errei, tá bem? — ele disse, por fim — Eu era jovem, e quando percebi que estava fodendo com tudo… já era tarde demais.
Assenti devagar.
— E mesmo assim, fui eu quem terminou me odiando.
Ele franziu o cenho.
— Pelo que aconteceu depois? Você se odeia por ter devolvido o que eu te fiz?
Eu desviei os olhos. Fiquei em silêncio por tempo o suficiente para que ele entendesse a resposta.
— Bella...
— Não vamos fazer isso agora — cortei, com a voz mais baixa do que eu queria — Não aqui.
Ele assentiu, respeitando o limite que eu mesma ainda não sabia se queria manter, mas ficou me olhando como se quisesse dizer tudo o que nunca disse. Como se estivesse tentando costurar com o olhar o que tínhamos rasgado com as palavras erradas.
Eu olhei de volta, mesmo sem querer.
E então, como se o universo não suportasse o silêncio, Emerald soltou um som agudo e bateu a mãozinha no chão. Jake respondeu com um leve latido, baixo, interagindo com ela.
— Ela vai sentir falta dele — Edward comentou, tentando puxar o momento de volta para um lugar mais leve — Aposto que vai pedir pra vir aqui todo dia.
— Quem sabe não nos encontramos de novo? Desde que você prometa que não vai me perseguir — respondi, e ele riu. Um riso verdadeiro. Curto, mas real. Eu não ouvia aquele som há anos.
— Prometo não me tornar seu stalker, Bella Swan.
Nós ficamos em silêncio por um tempo, dando goles ocasionais nos cafés e despedaçando panquecas, que Edward de vez em quando colocava na boca da filha.
— Eu queria poder voltar — ele disse, sem me olhar, como se confessasse a si mesmo — Só por cinco minutos, para fazer diferente.
— Você não sabe se teria feito.
— Eu sei. Agora eu sei exatamente o que faria de diferente.
A tela do celular dele acendeu pela terceira vez, vibrando sobre a mesa com a mesma urgência de antes. Ele não olhou, nem respirou fundo dessa vez. Apenas abaixou a cabeça.
— Realidade chamando?
Ele não respondeu, mas se levantou, como se cada movimento custasse mais do que estava disposto a pagar, e pegou a filha no colo.
— Hora de dizer tchau para o Jake, Emmie.
Ela acenou e recostou a cabeça no ombro dele de imediato, como se soubesse que o momento tinha acabado.
— Obrigado pelo café — ele disse, me olhando como se agradecesse por mais do que só isso.
— Sem problemas. Cuide dela, Edward.
— Sempre — e então acrescentou, quase num sussurro — E cuide de você, Bella.
Assenti, só isso, porque, se dissesse mais, poderia não saber parar.
Ele se virou e caminhou devagar até o portão da cafeteria. Jake observou os dois indo embora como se entendesse exatamente o que estava acontecendo. Como se soubesse que, de alguma forma, tinha feito parte daquilo.
E eu fiquei ali, sozinha com o cachorro que não era exatamente bem-vindo pela minha esposa em casa, tentando entender como é que um encontro de meia hora pode remexer tanto o que passei anos enterrando.
Ainda havia um resto de café na minha xícara e alguns pedaços de panqueca no prato, mas eu não tinha mais a mínima vontade de comer. Jake suspirou alto e deitou de volta ao meu lado, quase como se dissesse “então é isso”. Mas não era.
Eu sabia que, assim que colocasse o pé em casa, voltaria a ser a Bella que calcula o tom de voz para não provocar reações. A que pensa duas vezes antes de expressar frustração. A que vive pisando em ovos, sorrindo em público, e apagando rastros do que sente para não atrapalhar os planos de outra pessoa.
Paguei a conta e puxei a guia para fora do café, caminhando e não mais correndo, durante o caminho de volta para casa. Quando passamos pelo portão de ferro, notei que a luz da sala estava acesa. Irina estava em casa. Meu estômago revirou com o que ainda restava do café da manhã.
Entramos e o som dos meus passos pelo cascalho do caminho até a entrada parecia mais alto agora. O peso do que eu estava carregando era invisível, mas gritava em cada parte do meu corpo. Irina estava sentada no sofá com o notebook no colo e não levantou os olhos de imediato, mas falou, com a voz firme e controlada.
— Onde você estava?
Sorri, com o mesmo jeito ensaiado de sempre.
— Saí para correr, acabei parando para tomar um café.
Jake entrou logo atrás de mim e deitou no canto preferido dele, sem cerimônia. Irina finalmente olhou e seus olhos passaram por mim, depois por ele.
Ela não disse nada, mas eu soube que ela sabia que algo tinha acontecido. E eu soube também que não adiantava fingir por muito mais tempo.
— Pensei que estivesse doente — Irina disse, fechando o notebook com um estalo seco.
Sua voz não era irritada, mas tinha um tom frio. O julgamento viria em seguida, eu já estava acostumada com esse padrão.
— Era uma dor de cabeça, Irina. Eu te falei — respondi, sem hesitar, soltando a guia que estava amarrada na minha cintura e pendurando no gancho dos casacos. Jake ainda estava deitado no canto da sala, quieto, mas com as orelhas em pé, como se sentisse a mudança no ar.
— E dor de cabeça se cura andando por aí com esse… — ela lançou um olhar breve, carregado de julgamento — …Cachorro?
Fiquei de costas por mais tempo do que precisava, fingindo olhar alguma coisa no celular.
— Eu só precisei de um tempo. Não queria tomar remédios de novo — me virei, tentando manter o tom neutro.
— Engraçado, porque eu precisei de você na reunião hoje. Sua presença teria sido útil.
— Você disse que era só para alinhamento de cronograma.
— E era. Mas talvez, se você aparecesse de vez em quando, as pessoas lembrassem de que você também é dona da produtora.
Engoli a resposta que veio com a vontade de perguntar por que ela fazia tanta questão de me apagar nos bastidores das nossas decisões e de escancarar que o dinheiro que fazia a produtora rodar ainda era o meu. Mas não hoje. Eu estava cheia, cansada. E ainda não era nem meio-dia.
— Foi só um café, Irina. Uma volta no bairro. Eu precisava disso. Jake precisava.
— Claro, porque os dois estão exaustos da rotina estafante de fazer o mínimo.
Me calei. Por mim. Por Jake. Pela paz momentânea.
Irina se levantou, andou até a cozinha, abriu a geladeira e pegou uma garrafinha de água como se cada movimento fosse um manifesto silencioso de que ela era a parte funcional desta casa. A minha casa.
— Da próxima vez, só me avise onde está, que aí não preciso perder tempo me preocupando.
— Aviso. Claro.
Ela passou por mim sem mais uma palavra e sumiu no corredor, batendo a porta do quarto com força suficiente para ser ouvida, mas não comentada.
Quando pareceu seguro, Jake se aproximou devagar, encostou o focinho no meu joelho e soltou um suspiro longo. Acariciei sua cabeça em silêncio, sentindo o peso voltar a se espalhar sobre mim como um cobertor molhado.
Meu celular vibrou com uma nova mensagem. A porra do número que eu deveria ter apagado e bloqueado anos atrás.
Edward Cullen
Obrigado por hoje. Acho que eu precisava disso mais do que percebi.
E a Emmie te adorou. Ela não para de falar “au au” e bater palminhas. 🐾
Meu dedo pairou sobre a tela. Eu deveria apagar. Deveria ignorar. Mas ao invés disso, deixei o celular virado para baixo na mesa e sorri. Ainda que com culpa, ainda que com medo, eu sorri.
Fiquei ali sentada por alguns minutos, só ouvindo o tique-taque do relógio de parede. Jake se deitou aos meus pés, como se soubesse que era melhor ficar perto, e logo os gatos também se aproximaram, como se soubessem que eu estava prestes a desmoronar.
A verdade é que ver Edward mexeu em coisas que eu jurei que estavam resolvidas. Talvez nunca tenham estado. E por alguns minutos, vendo ele com a filha nos braços, eu me deixei esquecer.
Esquecer de como ele me fez duvidar de mim. De como ele me partiu antes mesmo que eu tivesse me encontrado por inteiro. Antes de entender quem eu era.
Eu era tão nova. Tão ingênua. Me entreguei a ele como quem se joga no mar, achando que vai flutuar só porque o outro prometeu segurar. Mas ele não segurou e, quando afundou, me puxou junto.
As traições foram só a superfície. A quebra de verdade veio depois.
Nos silêncios. Nas vezes em que ele se afastava, como se eu não fosse suficiente para mantê-lo ali. Na forma como ele pedia desculpas, mas nunca mudava. Na sensação constante de estar tentando consertar algo que ele não queria mais que funcionasse.
E ainda assim, quando acabou, fui eu quem ficou com a culpa. Fui eu quem cometeu o erro final. Fui eu quem tentou ferir de volta e falhei miseravelmente. Porque machucá-lo nunca me deu alívio, só mais dor. E eu nem sei se tinha conseguido machucá-lo de verdade, não da mesma forma que eu estava.
Irina sempre disse que eu era uma acumuladora, que guardava mágoas como quem coleciona cicatrizes. Talvez ela estivesse certa. Talvez eu só tenha aprendido a me anestesiar melhor.
Mas ver Edward hoje… Ver aquele olhar cansado, e ainda assim gentil, me fez lembrar da versão dele que eu amava. A que me escrevia cartas mesmo dormindo ao meu lado. A que dizia que eu era o lar dele.
E por um segundo, por um maldito segundo, eu quis perguntar:
Por que você não ficou?
Por que não lutou por mim, quando eu lutei tanto por você?
Mas não perguntei. Porque agora ele tem outra vida. Uma filha. Uma história que não me inclui. E eu tenho as escolhas que fiz.
Passei a mão pelo rosto, tentando afastar qualquer resquício de emoção, e voltei a encarar o celular. A mensagem ainda estava ali. Apagar? Responder? Ignorar?
Nenhuma opção parecia certa ou segura. Toquei a tela, editei o nome do seu contato para deixar apenas um “E”, caso Irina visse a mensagem e, em seguida, abri o bloco de notas e digitei, sem coragem de enviar:
“Eu também precisava.”
Depois apaguei. Porque, no fundo, eu não tinha tanta certeza assim. Mesmo que fosse errado, mesmo que fosse só mais uma concessão.
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