Daylight
18 Capítulo 17
Notas iniciais
Edward
Ver um acidente acontecer bem na sua frente e não desviar o olhar era uma reação natural de qualquer ser humano. O problema era quando você estava na rota de colisão da tragédia e não conseguia escapar.
O som de crianças rindo, correndo e brincando era o mais alto naquele jardim, e eu me afastei por um segundo para buscar uma bebida. Claro que Emerald escolheu aquele segundo para se afastar de mim e sair caminhando, como a criança independente que ela era. Tanya estava por perto, Claire a seguia, o que poderia dar errado?
A mãe de Emmett se aproximou para me cumprimentar e meu foco foi desviado para ela, que comentava sobre como as meninas — Maggie e Emerald — estavam crescendo rápido. Eu só não contava que minha filha iria diretamente na direção da última pessoa que eu gostaria que chamasse sua atenção. Foi como se tudo ao redor silenciasse quando a ouvi chamar pelo nome de Bella. Ou Bewa, na linguagem dela.
Virei o rosto na mesma hora.
Emerald estava a poucos passos dela, com seu equilíbrio ainda discutível de quem andava há pouco tempo, mas compensava qualquer falta de técnica com a convicção absoluta de que conseguiria chegar ao objetivo. Claire vinha logo atrás, rápida o bastante para impedir uma queda, mas não rápida o bastante para impedir aquilo.
Bella ficou imóvel por um segundo, ainda com um copo na mão, como se também estivesse tentando entender se tinha ouvido direito. Emmett, a alguns metros, pareceu reconhecer o desastre potencial antes de qualquer outra pessoa, porque a expressão dele mudou para aquela mistura insuportável de atenção e vontade de rir que só ele conseguia sustentar em momentos péssimos.
E Tanya.
Eu nem precisei procurá-la imediatamente para saber que tinha ouvido. Senti antes de ver. Aquela mudança mínima na atmosfera que só existe quando alguém percebe que perdeu o controle de uma cena em público.
Merda.
— Bewa! — Emerald repetiu, com mais convicção dessa vez, como se estivesse frustrada com a lentidão com que tudo se desenrolava ao redor dela.
Bella apoiou o copo em uma mesa, e por um instante achei que ela fosse recuar. Teria sido compreensível, dado ao que conversamos (e ela mesma sugeriu). Mas ela fez o oposto: se abaixou na altura da minha filha, sem transformar aquilo em alguma coisa maior do que já era.
O que, claro, só piorou a situação.
— Oi, meu bem — ela disse, baixo.
A voz dela teve um efeito imediato em Emerald, que abriu um sorriso, satisfeita consigo mesma, como se tivesse resolvido um problema complexo. Então deu mais um passo cambaleante até Bella e segurou a barra do vestido dela.
Claire parou logo atrás das duas, sem saber se pedia desculpas, se pegava Emerald no colo ou se agia como se não houvesse nada de particularmente preocupante naquilo.
Eu estava a caminho delas, mas Tanya foi mais rápida e chegou primeiro.
— Emerald, vem aqui — chamou, e notei que sua voz tinha assumido um tom perigoso.
Bella ergueu os olhos para ela, mas não fez nenhum movimento para se distanciar da minha filha. A cena diante de mim deixava claro que as duas tinham algum tipo de proximidade e eu comecei a pedir para Deus, os anjos, o universo, qualquer força superior, que não deixasse Tanya juntar dois mais dois, concluir que eu tinha permitido aquela aproximação sem que ela soubesse, e fizesse um escândalo bem ali.
Claire, totalmente perdida em relação à tensão daquele momento, tentou amenizar o clima.
— Acho que ela gostou de você, Bella — Claire tentou, com um meio sorriso nervoso, dando um passo à frente. — Me desculpe, eu só… Não consegui segurá-la, foi muito rápido.
— Está tudo bem — ela sorriu. — Ela é um amor.
Eu vi no exato momento em que aconteceu. Não era sobre o gesto, mas sim o que ele significava para quem estava assistindo. Tanya chegou perto o suficiente para que a distância deixasse de ser confortável, mas não o bastante para criar uma cena.
— Emerald — ela repetiu, dessa vez estendendo a mão. — Vem aqui com a mamãe.
Emerald olhou para a mão da mãe, depois para Bella, como se estivesse comparando duas possibilidades igualmente válidas. Não havia tensão para ela, nenhuma consciência do campo minado em que estava parada.
— Bewa — insistiu, puxando novamente o tecido do vestido de Bella.
Bella respirou fundo e tentou se afastar.
— Ei — ela disse, agora com um tom um pouco mais firme, dessa vez tentando soltar com cuidado os dedinhos. — Sua mãe está te chamando.
Ela hesitou, mas acabou cedendo quando Tanya se abaixou também e a pegou no colo. O movimento foi suave, se não fosse pelo jeito como os dedos dela apertaram levemente mais do que o necessário.
Elas não se afastaram, e Emerald ainda não tinha terminado.
— Bewa — ela disse de novo, se inclinando levemente para frente como se a mãe fosse um artifício para ajudá-la a cruzar o caminho que tinha começado.
A mãozinha abriu e fechou no ar, procurando. Tanya ajustou o peso dela no quadril, um pouco mais firme dessa vez.
— Agora não, Emmie — disse, com aquele mesmo tom doce, mas agora com uma camada nova de firmeza.
Emerald ignorou completamente. Os olhos dela estavam grudados em Bella, curiosos, insistentes, como se estivesse tentando resolver alguma coisa que só fazia sentido na lógica simples dela.
— Papai… — ela se virou para mim e jogou a última pá de terra no meu caixão. — A Bewa!
O impacto foi quase físico. Eu não consegui responder porque, daquela vez, ficou muito claro que não havia espaço para outra interpretação. Nada que eu dissesse poderia justificar para além do óbvio. Ela tinha acabado de me associar à Bella, na frente da mãe dela.
Eu tinha sido exposto. Tudo que tentei esconder nos últimos meses estava ali, claro como o dia, para que Tanya visse.
Tanya, por sua vez, ficou imóvel por apenas um minuto antes de reagir.
— A Bella o quê, amor? — ela perguntou, ainda no mesmo tom, quase leve. Quase.
Emerald franziu a testa, irritada com a incapacidade dos adultos de acompanharem o raciocínio óbvio dela.
— Papai… — insistiu, apontando pra mim com uma mão, e depois, com a outra, esticando de novo na direção de Bella. — Bewa.
Enquanto o mundo se quebrava e se reconstruía ao meu redor, Tanya agiu e demonstrou mais uma vez porque sempre estava um passo à minha frente.
— Eu não lembro de vocês duas terem se visto mais que uma vez, naquele evento.
Eu torci para que Bella escolhesse a saída mais fácil e desviasse o assunto, encerrando aquela cena de vez. Mas claro que ela não iria para o caminho mais fácil.
— Pois é, Tanya. Já ouviu dizer que crianças são mais espertas do que nós imaginamos?
Ela estava entrando no confronto.
O silêncio entre as duas não chamou atenção de mais ninguém, mas ali, naquele pequeno círculo, ficou denso o suficiente para me sufocar. Emerald soltou um som baixo, impaciente, e se inclinou de novo no colo da mãe, praticamente jogando o corpo na direção de Bella.
— Bewa, colo!
Claire deixou escapar um “oh” quase inaudível, levando a mão à boca como se pudesse puxar o momento de volta. Eu senti o impulso imediato de intervir, encerrar, pegar minha filha e acabar com aquilo antes que saísse completamente do controle. Mas não consegui me mexer.
Tanya, por sua vez, assumiu a postura defensiva naquele momento e deixou a voz subir um tom.
— Emerald, eu disse não.
O efeito foi imediato. Nossa filha travou, surpresa pelo tom usado pela mãe, e então seu lábio tremeu. No segundo seguinte, ela se jogou para trás e deu um grito alto demais para seu tamanho.
Pronto, agora sim tínhamos atenção.
Eu me movi dessa vez, e a puxei para o meu colo, tentando segurá-la enquanto ela se debatia e chorava, virando o rosto, irritada, frustrada, sem entender por que estavam complicando algo que, para ela, era tão simples. Ela queria o colo de Bella, não o meu, o da mãe ou o da babá, então por que ela não podia?
— Ei — murmurei, ajustando ela contra o meu peito antes que ela se jogasse de novo. — Já passou.
Ela não aceitou. O choro aumentou, agudo, irritado, o corpo pequeno ainda tenso nos meus braços enquanto ela empurrava meu ombro com uma força desproporcional ao tamanho.
— Eu sei o que você quer — falei, segurando-a com firmeza para que não se machucasse no meio daquela revolta. — Mas não é assim que funciona.
Ela chorou mais um pouco, frustrada por não conseguir o que queria, até que os soluços ficaram mais espaçados.
— Agora você vai respirar — disse, passando a mão no cabelo dela. Eu sabia que ela entenderia. — E depois nós vamos brincar. Você quer brincar com a Maggie?
— Maggie — repetiu, entre respirações entrecortadas.
— Isso — confirmei. — A Maggie está ali. Você quer ir até ela?
Ela não respondeu de imediato, mas também não voltou a chorar. Só encostou a testa no meu ombro por um segundo. Bom o suficiente.
Esperei mais um pouco, até sentir o corpo dela realmente ceder, então a afastei só o suficiente pra limpar o rosto dela com o polegar. Atrás de mim, Claire finalmente se mexeu de novo, como se tivesse recebido permissão implícita para existir.
— Vai com a Claire.
Ela hesitou e seus olhos passaram por mim, depois inevitavelmente desviaram na direção de Bella rapidamente, mas não o suficiente para passar despercebido.
— Depois — eu reforcei, trazendo a atenção dela de volta pra mim. — Agora você vai brincar.
Dessa vez, ela cedeu. Soltou a mão da minha camisa e se inclinou na direção de Claire, que a pegou com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse reiniciar todo o drama.
Eu acompanhei com o olhar até ter certeza de que ela estava realmente distraída, sendo absorvida de volta pela dinâmica simples das crianças. Só então respirei fundo e, quando virei de novo, Tanya ainda estava ali.
— Eu ainda quero entender o que aconteceu aqui, Edward — ela disse, olhando ao redor. — Mas, em respeito especialmente à Maggie, não será agora. Sinto que todos: você, Emmett, Rosalie; estão agindo pelas minhas costas, e não gosto disso, então vou embora porque já entendi que não é o meu lugar. Conversaremos mais tarde.
Não era uma ameaça, só o inevitável. Assenti, confirmando que ela teria sua conversa. Ela sustentou meu olhar por um instante, depois se virou e fez o caminho de volta para a saída.
Só quando ela passou pelo portão consegui soltar o ar de verdade. Eu estava tão absorto que não percebi a presença de Emmett ao meu lado.
— Porra, isso aí foi…
— Emmett, por favor. Agora não.
Por milagre, ele ficou em silêncio.
Me virei para falar com Bella, mas ela não estava mais ali. A encontrei do outro lado do jardim, próxima da mesa de doces, com Rosalie e Alice — Deus me abençoe.
Bella segurava seu copo com as duas mãos, ouvindo Alice dizer alguma coisa, enquanto Rosalie mantinha a atenção dividida entre as duas e a mesa principal, monitorando discretamente o que Maggie fazia a cada trinta segundos. Nenhuma das três tinha a postura de quem tinha acabado de assistir a alguma coisa relevante. Era esse o ponto, o dia precisava seguir.
Maggie escolheu aquele momento para gritar do outro lado do jardim que o reino dela estava sob ataque dos meninos bobos que queriam pegar sua coroa. Emmett soltou um suspiro resignado, bateu no meu ombro e foi atender a emergência da filha. Eu fiquei onde estava por alguns segundos, assistindo Claire se sentar em uma toalha de piquenique com Emerald e mais duas meninas pequenas. Era impressionante a rapidez com que as crianças seguiam em frente.
Emerald bateu o bloco no chão mais duas vezes, aparentemente satisfeita com o resultado, e então desviou a atenção para Claire, que ainda tentava convencê-la de que comer um pedaço de fruta era uma boa ideia.
Do outro lado do jardim, Maggie seguia existindo em volume máximo. Aparentemente, os “meninos bobos” tinham sido afastados do trono e a coroa estava segura outra vez. Emmett ainda estava no meio da confusão, grande demais, paciente demais, com aquela energia de quem parecia se divertir um pouco mais do que admitiria, mediando problemas infantis que, para Maggie, eram criminosos.
— Ela está ótima — Alice comentou ao meu lado, e levei um segundo para entender que ela falava de Emerald, não de Bella.
— Quem?
Ela me olhou como se eu estivesse sendo deliberadamente lento.
— As duas, na verdade. Mas agora eu estava falando da sua filha.
Segui o olhar dela até a toalha no gramado. Emerald tinha conseguido arrancar metade do morango da mão da Claire e agora o segurava com uma expressão absorta, mais interessada na textura do que no gosto.
— Está — concordei. — Ela não faz ideia do caos que os adultos ao redor dela inventaram.
Alice cruzou os braços, observando a cena.
— Sabe, eu espero que você não esteja arrastando a Bella para suas loucuras mais uma vez — ela soltou, como se dissesse que o sol brilhava. — Ela é adulta e vacinada, mas se esse envolvimento com você significar que eu terei que recolher os pedaços dela daqui alguns meses, é melhor que pare agora.
— Alice, eu não…
— Eu sei que não. Você nunca quer, nunca faz nada com a intenção de machucá-la. Já ouvi esse discurso antes, Edward, e me lembro de como terminou. Não quero suas desculpas, isso é um aviso.
Sem ter o que responder, voltei o olhar para Claire, que havia conseguido limpar a mão da Emerald sem incidentes. A festa, por sua vez, tinha voltado ao próprio ritmo como se o momento de antes tivesse sido absorvido pela quantidade suficiente de sol, música e açúcar. Rosalie permanecia bonita e vigilante a uma distância estratégica de tudo. Bella, agora alguns passos adiante da mesa de doces, falava com uma mulher que eu não conhecia.
Quando nossos olhos se encontraram, foi por pouco tempo. O bastante para reconhecer que ela também tinha entendido a mesma coisa: o dia continuava. E nós continuaríamos com ele.
Em algum momento, Maggie reapareceu ao lado da toalha de piquenique como se tivesse decidido inspecionar o núcleo das crianças menores. Abaixou-se diante de Emerald com toda a autoridade de uma menina que fazia seis anos e, portanto, se considerava basicamente adulta.
— Você merece uma coroa também, Emmie.
Emerald a encarou.
— Coa — repetiu, ou alguma versão muito próxima disso.
Maggie ficou satisfeita demais com a resposta.
— Isso. Coroa.
Maggie olhou em volta por um segundo e a própria coroa permaneceu firmemente na cabeça dela, mas no instante seguinte, ela se levantou e arrancou uma pequena tiara da decoração, trazendo-a de volta.
— Porque todas as meninas merecem uma coroa! — declarou.
Claire lançou um olhar rápido na minha direção, claramente questionando se deveria intervir ou não. Optei por não interferir. Emerald, por sua vez, observava a tiara como se ainda estivesse avaliando o que era aquilo.
Maggie se aproximou mais um pouco.
— Fica quietinha — disse, num tom surpreendentemente paciente. — Eu sei fazer.
Emerald não ficou quieta exatamente, mas também não protestou. Continuou sentada na toalha, séria, enquanto Maggie apoiava a tiara entre os dois pequenos laços amarelos no cabelo dela com a concentração de uma profissional. Foi nessa hora que me aproximei.
Não por urgência. Só porque, vistas de longe, as duas pareciam pequenas demais no meio daquele jardim grande demais, e porque havia alguma coisa quase absurda em assistir Maggie, coberta de tule e convicção, transformar a Emerald em parte do próprio reino.
— Está dando certo, Mag? — perguntei.
Maggie nem levantou o rosto.
— Sim, mas ninguém pode falar alto agora porque eu estou terminando.
— Entendido.
Claire mordeu um sorriso. Emerald me viu e abriu um pouco mais os olhos, como se quisesse me atualizar sobre o estado da situação, mas Maggie terminou antes que ela se levantasse.
— Pronto — anunciou, se afastando um passo para admirar a própria obra. — Agora você está perfeita!
Emerald levou a mão até a cabeça e tocou a tiara, testando o peso novo. Depois olhou para Maggie e para mim.
— Coa! — disse de novo, com mais convicção dessa vez.
Maggie ficou radiante. A coroa improvisada estava torta, mas não de um jeito ruim. Só infantil, compatível com a lógica da tarde. Emerald a tocou outra vez, como se precisasse confirmar que o objeto ainda existia, e então me mostrou um sorriso satisfeito consigo mesma.
— Você está muito elegante, amor — falei.
Ela me encarou por um instante e depois bateu palmas uma única vez, provavelmente para si mesma. Maggie pareceu interpretar aquilo como aprovação total.
— Eu disse — respondeu, cruzando os braços. — Todas as meninas merecem uma coroa.
— Essa é uma política excelente, Mag — falei.
Maggie assentiu com a satisfação de quem gostava de ter as próprias decisões validadas por adultos, mas só quando os adultos tinham bom senso suficiente para concordar com ela. Emerald ainda tocava a tiara de tempos em tempos, como se estivesse verificando se seu título seguia válido, e a cada nova confirmação parecia um pouco mais convencida de que aquilo fazia sentido.
Maggie se agachou de novo diante dela.
— Você gostou, Emmie?
Emerald olhou para a filha de Emmett, depois para mim, e então bateu palmas outra vez, duas agora, mais decididas.
— Viu, didi? — Maggie disse, radiante. — Ela amou.
Sorri sem perceber quando ela usou o apelido que me chamava quando nem sabia falar direito. Observei as duas por um instante: Maggie com a própria coroa, reinando absoluta, Emerald com a versão menor e mais simples, ainda sentada na toalha, séria. Havia alguma coisa muito boa ali. Peguei o telefone do bolso quase sem pensar.
— Quero uma foto de vocês duas com suas coroas.
Maggie abriu um sorriso satisfeito e já começou a se posicionar antes que eu terminasse a frase. Passou um braço pelos ombros de Emerald, que aceitou o contato com relativa tranquilidade. Tirei a foto e minha afilhada imediatamente se levantou e veio na minha direção.
— Deixa eu ver, didi, deixa eu ver.
Mostrei a tela e ela analisou com concentração demais, antes de assentir e voltar ao seu lugar na toalha.
— Selfie! — Maggie anunciou de repente, como se tivesse tido uma ideia revolucionária. — Tira uma selfie.
Me aproximei um pouco mais para cabermos os três no enquadramento. Maggie se enfiou imediatamente do meu lado esquerdo, já inclinando o rosto para a câmera com a naturalidade de quem não tinha nenhum traço de vergonha. Do outro lado, me abaixei mais perto de Emerald e ajustei a inclinação do telefone.
— Agora olhem aqui — pedi.
Tirei a foto bem na hora que as duas, por um milagre, olharam para a câmera ao mesmo tempo.
— Essa ficou boa — falei.
— Deixa eu ver — Maggie exigiu de novo.
Mostrei a tela. Ela abriu um sorriso lento, satisfeito.
— A Emmie parece uma princesa!
— Você também.
Emerald bateu a mão na minha manga, pedindo atenção sem qualquer cerimônia. Quando abaixei o telefone, ela estendeu os braços na minha direção daquela forma objetiva e inevitável.
— Ah — Maggie disse, observando. — Ela quer colo.
A acomodei no meu braço. A tiara ameaçou escapar, mas resistiu. Ela se encaixou contra mim com facilidade, a mão fechando quase imediatamente na gola da minha camisa. Maggie observou a cena com uma expressão curiosamente fofa.
— Tenho que achar minha mãe. Acabei de decidir que preciso de um irmão.
E então foi embora.
Fiquei olhando enquanto ela atravessava o gramado com o vestido inflando um pouco a cada passo e a coroa já torta de novo, perfeitamente como a filha de Rosalie que ela era. No meu colo, Emerald tocou a própria tiara mais uma vez e depois o meu rosto, como se estivesse comparando texturas ou simplesmente verificando se eu ainda estava ali.
Ela sorriu um pouco, mais com os olhos do que com a boca, e então apontou para o gramado, para as crianças correndo, para a direção vaga em que Maggie tinha desaparecido. Não ficou claro se queria ir atrás, comentar o ambiente ou apenas exercer o direito de apontar para tudo.
Era simples. E talvez fosse justamente por isso que minha cabeça, traidora como sempre, resolveu voltar ao que viria depois.
Porque Tanya não tinha ido embora sem intenção de voltar ao assunto, aquela conversa aconteceria. Eu já conseguia ver com nitidez desconfortável o ponto em que ela me olharia e perguntaria, de novo e de um jeito menos público, como exatamente a Emerald conhecia Bella o suficiente para chamá-la pelo nome e pedir colo.
Não havia uma resposta que fosse boa. A verdade parecia ruim demais e a mentira, fraca demais.
Todas as desculpas soavam artificiais antes mesmo de serem ditas. E Tanya não era uma mulher fácil de enganar, especialmente quando já tinha decidido o que procurava. Ela podia exagerar, distorcer, manipular, transformar qualquer coisa em narrativa conveniente, mas quase nunca errava ao perceber que havia alguma coisa debaixo da superfície e isso era algo que ela já desconfiava há algum tempo.
Emerald bateu na minha mão, exigindo mais uma vez minha atenção, e eu obedeci sem pensar.
A resposta, fosse qual fosse, teria de vir mais tarde.
***
A volta para casa foi silenciosa.
Emerald mal se acomodou no carro antes de apagar e eu dirigia com os olhos fixos na rua, as mãos presas ao volante com força além do necessário.
Claire ficou alguns minutos quieta, olhando para trás de tempos em tempos para conferir se Emerald ainda dormia. Depois pigarreou, insegura.
— Devo acordá-la quando chegarmos? Ela precisa de um banho e talvez fique com fome logo.
— Vamos esperar para ver o que a mãe dela prefere.
Eu conseguia sentir nela o desconforto da festa, embora Claire provavelmente não entendesse metade do que tinha acontecido. Entendia o suficiente: o nome de Bella saindo da boca de Emerald, o colo pedido com insistência, o jeito como Tanya tinha mudado de expressão.
— Me desculpe — ela soltou, de repente. — Eu devia ter segurado ela antes.
Virei o rosto só o suficiente para olhar para Claire de relance.
— Não.
— Mas eu vi quando ela foi e—
— Claire — cortei, sem elevar a voz. — Você não fez nada errado.
Ela se calou na mesma hora, apertando os dedos no colo.
O celular vibrou no console, uma vez. Depois outra. Não olhei, não precisava olhar para saber quem era.
Quando entramos na garagem do prédio, Emerald continuava dormindo, com a boca entreaberta e o cabelo bagunçado numa confusão de laços e tiara. Soltei o cinto e a peguei no colo. Ela resmungou, mas só enterrou o rosto no meu pescoço.
Ao abrir a porta, Tanya já estava nos esperando na sala. Ela tinha trocado de roupa, prendido o cabelo e tirado a maquiagem, mas mesmo parecendo cansada ainda continuava com o mesmo ar de sempre: controlada, metódica e, possivelmente, letal. Seus olhos foram primeiro para a filha no meu colo.
— Há quanto tempo ela está dormindo?
— Dormiu quando entramos no carro, o que deve significar uns vinte minutos — Claire foi quem respondeu.
Tanya pensou por um momento.
— Ótimo, então temos tempo. Pode levá-la para o quarto e quando voltar, preciso que vá até a farmácia.
Claire olhou para mim, sem saber se pegava Emerald dos meus braços ou não, mas eu só balancei a cabeça e fui em direção ao corredor. No quarto, a cama estava arrumada e a luz já baixa, além do aparelho que emitia o tal de ruído branco que a ajudava a dormir. A coloquei na cama, tirei os sapatos e cobri suas pernas com o lençol.
Voltamos para a sala e Claire saiu para comprar o que quer que Tanya tinha pedido. Eu sabia que era só uma desculpa para ficarmos sozinhos.
Ela esperou a porta da frente se fechar antes de começar a falar.
— Há quanto tempo você vem me fazendo de idiota?
Não houve nenhuma preparação e a pergunta veio atravessando a sala como um objeto lançado.
— Tanya—
— Não fala meu nome desse jeito. — Ela apontou para mim. — Não comece com essa voz baixa e essa expressão de homem razoável porque eu juro, Edward, eu prefiro que você me ofenda.
Eu prendi o ar por um segundo.
— Você quer saber o quê exatamente?
Ela deu uma risada curta, incrédula, quase histérica de tão seca e deu dois passos na minha direção.
— Eu quero saber desde quando você mente. Desde quando você olha na minha cara e me faz duvidar da minha própria cabeça.
Eu a encarei em silêncio por um segundo longo demais. Foi um erro.
— Fala! — a voz dela subiu de uma vez, cortando o apartamento. — Fala, Edward! Ou você vai esperar a Emerald acordar para contar isso também?
A frase me atingiu no meio do peito.
— Não faça isso.
— Eu faço o que eu quiser! — rebateu, já tremendo de raiva. — Eu passei meses ouvindo você negar!
— Naquele momento—
— Cala a boca.
A ordem saiu tão rápido que até eu obedeci antes de pensar. Ela riu outra vez, agora mais alto, sem humor nenhum.
— Naquele momento o quê? Não tinha acontecido nada? Não era bem assim? Não estava definido?
Passei a mão no rosto.
— Não começou de forma simples como você pensa.
— “Não começou de forma simples.” Quem é capaz de falar desse jeito numa hora dessas?
Ela andou até a mesa lateral e voltou, inquieta, desorganizada, sem conseguir ficar parada dentro do próprio corpo.
— Eu perguntei se tinha outra pessoa — continuou, apontando para mim de novo. — Eu perguntei se era ela e você negou. Então não me trate como imbecil agora.
— Eu não estou tentando—
A voz dela falhou num ponto entre o grito e o choro, mas ela não parou.
— E hoje eu tenho que ficar parada enquanto a minha filha chama sua amante pelo nome e pede colo pra ela na minha frente?
Amante. Exatamente o que Bella havia dito que não queria ser.
Eu não corrigi e ela percebeu e riu, raivosa.
— Nem isso você vai negar.
— Tanya, escuta—
— Não! Você me escuta! Eu já sabia! Talvez não tudo, talvez não o suficiente, mas eu sabia. Eu sentia, via, perguntava. E você me fez parecer louca. Você me fez parecer descontrolada, paranoica, histérica, como se eu estivesse inventando coisas porque não aceitava o fim.
Essa eu ouvi sem responder porque qualquer resposta seria mentira. Ela respirou fundo, o peito subindo rápido, e a próxima frase saiu pior justamente por sair mais baixa:
— E o pior é que eu deixei você me convencer que era coisa da minha cabeça.
— Tanya, não foi assim.
— Não! Não me olhe com essa cara porque eu não preciso da sua culpa, Edward, eu preciso entender o tamanho da humilhação.
Ela se aproximou tanto que ficou a poucos passos de mim.
— Quando ela esteve com a minha filha? — perguntou.
Meu maxilar travou na hora e ela percebeu. Eu quase consegui ouvi o barulho das peças se encaixando.
— Aquele apartamento… — assentiu sozinha, o rosto se contorcendo em confirmação. — Era a casa dela, não era?
— Eu precisava de ajuda.
A frase soou errada no instante em que deixou minha boca. Tanya ficou me encarando por dois segundos em absoluto silêncio. Depois explodiu.
— E você foi para a casa dela? — gritou, alto o suficiente para ecoar pelo corredor. — Você pegou a minha filha doente e foi para a casa dela?
— Fala baixo.
Outro erro.
— Não me manda falar baixo! — gritou outra vez.
No segundo seguinte, ela pegou o primeiro objeto ao alcance da mão — um porta-retrato da estante — e arremessou na minha direção. Eu desviei por reflexo. O objeto bateu na parede ao meu lado e caiu no chão, vidro quebrando em pedaços.
O barulho ficou suspenso entre nós por um segundo. Tanya estava ofegante.
— Você não manda em mais nada agora — disse, a voz rouca. — Nada.
Olhei automaticamente na direção do corredor. Emerald não chorou. Ainda.
— Você enlouqueceu? — soltei, antes de conseguir segurar.
Aquilo piorou tudo. O rosto dela mudou na hora.
— Eu enlouqueci? — Ela deu um passo à frente, incrédula, furiosa. — Eu enlouqueci? Você mente, se esconde, leva a nossa filha pra casa da outra, me deixa descobrir em público, e a maluca sou eu?
— Eu não disse isso.
— Acabou de dizer!
Ela pegou uma almofada, depois largou no meio do gesto, como se percebesse que não servia para nada. A mão foi parar num controle remoto sobre a mesa. Esse ela arremessou, sem pensar. Bateu no meu braço e caiu no tapete.
— Você me usou de escada! — gritou. — Usou o meu pior dia como mãe, a minha pior falha, e transformou isso em ponte pra ir atrás dela!
— Não foi assim.
— Foi exatamente assim!
A voz dela rachou dessa vez, e por um segundo eu achei que ela fosse chorar. Não foi o que aconteceu. A raiva veio primeiro. Sempre vinha.
— Eu estava chapada, eu sei! — bateu a mão no próprio peito. — Eu sei melhor do que você como eu estava naquele dia! Mas você pegou isso e fez o quê? Transformou em justificativa? Em “coitado de mim, precisei recorrer à Bella”?
— Não.
— Então me esclareça! Me explique por que a minha filha conhece ela! Me explique por que ela pediu colo! Me explique por que sua amante olhou para mim hoje como se eu fosse a última idiota da sala a entender o que estava acontecendo!
Eu abri a boca. Fechei.
Tanya riu, mais uma risada curta, quebrada, amarga.
— Exatamente isso. Não tem explicação que não te deixe imundo.
Ela andou até a cozinha, abriu a geladeira, fechou sem pegar nada, voltou no mesmo ritmo desordenado. Parecia tomada pela própria energia, sem conseguir se controlar.
— Isabella sabe que estamos nos separando? — perguntou de repente.
— Sabe. Ela sabe de tudo.
Tudo. Tanya sabia a implicação daquela palavra e ficou parada, pela primeira vez desde que Claire saiu. Ela levou as duas mãos ao rosto por um segundo, esfregando como se quisesse arrancar a própria pele. Quando tirou, os olhos estavam úmidos, mas ela ainda não chorava.
— Que vergonha — disse, quase num sussurro. — Meu Deus, Edward. Que vergonha! Por que você precisava me humilhar dessa forma?
— Não era minha intenção que você se sentisse assim.
Ela soltou um som seco, entre riso e incredulidade, e balançou a cabeça como se eu tivesse acabado de provar tudo o que ela pensava de mim.
Então, soltou uma gargalhada absolutamente histérica.
— Ah, claro. Sempre a sua intenção. — sacudiu a cabeça, incrédula. — Você trai, mente, omite, expõe, mas a intenção nunca é ruim. Deve ser fantástico viver dentro da sua cabeça.
— Tanya—
— Não! — rebateu, já alta outra vez. — Não estou interessada na sua culpa, Edward. Eu estou interessada no tamanho da humilhação que você me fez passar.
Ela se virou num movimento brusco demais, a mão indo direto para a bancada da cozinha. Eu vi quando os dedos dela fecharam em torno de um copo baixo de vidro, esquecido ali sabe-se lá desde quando.
— Tanya, não—
Mas já era tarde. Ela arremessou e, dessa vez, eu não consegui desviar. O copo me acertou na lateral da testa, com um impacto seco o bastante para embaralhar minha visão por um segundo. O vidro caiu no chão logo depois, estilhaçando perto dos meus pés.
Levei a mão ao rosto por reflexo. Quando a afastei, ela voltou molhada e vermelha. Sangue.
Tanya congelou. O peito dela ainda subia rápido demais, mas toda a raiva no rosto pareceu esvaziar de uma vez, substituída por um tipo de choque branco, mudo.
Do corredor, ouviu-se um barulho leve. Nós dois viramos o rosto ao mesmo tempo para o som de Emerald se mexendo na cama, incomodada pela tensão ou pelo volume. Nós dois ficamos em silêncio, esperando para ver o que viria.
Nada, só um resmungo sonolento, provavelmente causado pelo barulho, e depois o silêncio. O bastante para que a realidade voltasse inteira para a sala.
Tanya foi a primeira a se mexer, mas já não havia raiva no movimento. Havia pressa, culpa, desorientação.
— Meu Deus — disse, quase sem voz. — Edward…
Ela deu um passo na minha direção, os olhos presos na lateral do meu rosto, no sangue descendo pela minha têmpora, e parou no meio do caminho como se não soubesse se me tocar pioraria ainda mais as coisas.
— Não chegue perto — falei.
A frase saiu mais baixa do que eu pretendia, mas bastou. Ela travou na hora.
— Me desculpe, eu não queria acertar você.
Soltei uma risada curta, que fez a pele aberta repuxar e me fez fechar os olhos por um segundo.
— Não. Claro que não.
Aquilo acertou nela como se eu tivesse devolvido o copo. Ela se virou rápido demais para a cozinha, abrindo gavetas sem coordenação, batendo em armários, procurando alguma coisa para fazer com as próprias mãos antes que desabasse de vez. Eu continuei onde estava, sentindo o sangue escorrer entre os dedos e pingar no chão. Minha camisa já devia ter se tornado um desastre.
Quando ela voltou, trazia um pano de prato e gelo embrulhado de qualquer jeito.
— Deixa eu ver.
— Não.
Ela parou outra vez, segurando o pano com força demais.
— Você pode precisar levar pontos.
— Não preciso.
— Você não sabe disso.
— E o que você sabe, Tanya?
Ela abriu a boca para rebater, mas nada saiu. Pela primeira vez desde o começo da discussão, parecia não haver nada nela para rebater.
Do corredor, Emerald se mexeu de novo. Foi algo pequeno. Um suspiro mais pesado, um protesto quase inaudível no sono. Ainda assim, foi o bastante para mudar a atmosfera inteira. A lembrança exata e brutal de que nossa filha estava a poucos metros dali, dormindo no meio dos destroços daquela conversa e daquela relação.
Tanya fechou os olhos por um instante e respirou fundo pelo nariz, tentando puxar o corpo de volta para algum controle possível. Quando abriu de novo, ainda estava pálida.
— A minha filha não vai ser uma peça nesse jogo de vocês — disse, agora mais baixo, mas não menos firme. — Não vai ser um amaciante para sua culpa. Você está me ouvindo? Não vai. Eu não me importo se isso entre vocês é antigo, profundo, grandioso ou o que for. A minha filha não vai fazer parte disso.
Eu tirei a mão do rosto por um segundo só para trocar a pressão de lugar. O sangue já diminuía, mas continuava escorrendo pelos meus dedos, quente demais.
— Eu entendi.
— Você não entendeu porra nenhuma — rebateu, num sussurro raivoso para não elevar a voz de novo. — Se tivesse entendido, isso não teria acontecido.
Não respondi. Ela deu um passo atrás e voltou os olhos para o corte outra vez. Aquilo a atingia de novo toda vez que via.
— Você também não vai decidir sozinho quando, como e em que condições a Bella chega perto da Emerald de novo — continuou. — Isso acabou. Qualquer coisa envolvendo a nossa filha passa por mim.
— Tudo bem.
— E não me responda “tudo bem” como se eu estivesse exagerando.
Levantei os olhos para ela.
— O que você quer que eu diga, Tanya?
A pergunta saiu cansada demais para soar desafiadora, mas foi o suficiente.
— Eu queria que você tivesse me dito a verdade antes da nossa filha precisar fazer isso por você.
Aquilo ficou entre nós por um segundo pesado e imóvel. No fim, Tanya passou a mão pelo rosto e falou sem me encarar direito.
— Sabe o que é pior? Nem é ser trocada pela ilusão da sua ex. — ergui os olhos. — O pior é que a única pessoa sincera naquela festa inteira foi a minha filha. Você, seus amigos, sua amante… Todo mundo me enganou.
Um barulho na porta fez com que nós dois virássemos o rosto ao mesmo tempo.
Tanya enxugou o canto do olho antes que qualquer lágrima de verdade caísse, puxou o ar e recompôs o rosto o suficiente para não assustar Emerald caso ela acordasse. Quando abriu a porta, Claire entrou com a sacola da farmácia e congelou por meio segundo ao ver a cena de guerra em que a sala havia se transformado.
Depois os olhos dela subiram para mim e pararam no sangue. Ela abriu a boca, mas não disse nada.
— Pode deixar as coisas na cozinha e ir para o quarto — Tanya mandou, rápida demais.
Claire assentiu imediatamente e fez o que foi mandado, sem olhar para nenhum dos dois de novo. Tanya esperou até que ela desaparecesse no corredor antes de voltar a falar.
— Nós vamos rever todos os horários da Emerald, e você não toma mais nenhuma decisão sobre a minha filha sem me avisar antes. Nenhuma.
Pressionei o pano improvisado contra a testa por mais um segundo antes de responder.
— Nossa filha, Tanya. Eu sou tão pai dela quanto você.
Ela me encarou. O susto inicial já tinha dado lugar de novo àquela mistura instável de raiva, humilhação e culpa.
— Então aja como um.
Fiquei olhando para ela por um instante, até perceber que nada útil sairia dali. Depois peguei minhas chaves sobre a mesa.
— Edward… — meu nome saiu diferente dessa vez. Baixo, meio incerto.
Parei com a mão na maçaneta, mas não me virei.
— Eu não queria…
— Eu sei.
E sabia mesmo. Mas aquilo não tornava o corte menos real, nem o sangue. Nem o resto.
Abri a porta e saí sem esperar outra palavra.
No corredor, o silêncio parecia ofensivo de tão limpo. Apertei de novo o pano contra a lateral da testa e senti a ardência latejar mais forte. Que merda.
O elevador demorou poucos segundos para chegar.
Foi tempo suficiente para eu saber exatamente para onde estava indo.
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