Daylight
17 Capítulo 16
Bella
Os dias seguintes ao divórcio não foram exatamente como eu esperava. Na verdade, eu não sei bem o que esperava.
Eu sabia que não seria uma mudança de chave mágica, mas também não esperava me sentir tão… normal. Normal de um jeito que chegava a ser irritante.
O mundo não parou. Ninguém parecia especialmente impressionado com o fato de que meu casamento tinha acabado no cartório de um prédio em Beverly Hills, entre assinaturas, um café ruim e uma troca educada demais de palavras que, meses atrás, teriam terminado em gritos.
Meu telefone continuou tocando. As reuniões continuaram existindo. Um projeto entrou em fase de aprovação, outro teve problema de financiamento, e duas páginas online publicaram textos com fontes próximas que obviamente não sabiam de nada.
Eu continuei acordando cedo, trocando um pijama pelo outro e fingindo que a sensação de estar levemente fora do meu próprio corpo era apenas cansaço. Talvez fosse isso que eu tivesse esperado: algum tipo de grande colapso. Algo que justificasse a dimensão da mudança.
Em vez disso, tudo o que eu sentia era uma quietude estranha. Como se alguma coisa muito antiga tivesse finalmente terminado, mas o eco ainda não tivesse alcançado todas as partes de mim.
Passei aquela manhã inteira entre chamadas e e-mails, respondendo no automático, ouvindo minha advogada me dizer pela terceira vez que o processo tinha sido o mais civilizado possível, como se isso devesse me confortar. No fim da tarde, a casa estava silenciosa demais.
Tirei os sapatos na entrada, deixei a bolsa sobre o aparador e fiquei alguns segundos parada, olhando para a sala vazia. A cidade começava a acender lá fora, engolida por aquele céu dourado do começo da noite em Los Angeles.
Eu conhecia aquele tipo de silêncio. Não era paz. Ainda não.
Peguei uma taça no armário por puro reflexo e só percebi o que estava fazendo quando ela já estava na minha mão. Fiquei olhando para o vidro por alguns segundos antes de soltá-la sobre a bancada. Não queria nada que entorpecesse as bordas daquele dia até ele parecer menor do que era.
Queria sentir aquilo inteiro, mesmo que não soubesse exatamente o que aquilo era.
Meu telefone vibrou em algum lugar da bolsa. Ignorei.
Voltou a vibrar.
Com um suspiro, puxei o aparelho para fora, esperando alguma crise de produção, Alice perguntando se eu estava bem ou meu advogado querendo revisar mais alguma cláusula que, teoricamente, já não importava.
Nenhuma das opções.
Era Edward. Fiquei olhando para o nome na tela por tempo demais e só isso já dizia coisas suficientes sobre mim que eu preferia não analisar.
De: E.
Como você está?
Sentei na ponta do sofá com o telefone na mão e reli aquelas três palavras várias vezes, sabendo que era impossível responder com qualquer coisa além da verdade sem que ele percebesse.
Digitei bem. Apaguei.
Digitei viva. Apaguei também.
Por fim, mandei um: Ainda não decidi.
Os três pontos apareceram quase na mesma hora. Pararam. Voltaram.
De: E.
Quer que eu vá aí?
Fechei os olhos por um instante. Era impressionante como ele conseguia ser direto sem jamais soar invasivo. Como se estivesse sempre me oferecendo uma saída ao mesmo tempo em que se colocava exatamente na porta dela.
Olhei para a sala de novo. Para a casa grande demais. Para a luz caindo atrás das árvores da linha da vista. Para a taça vazia sobre a bancada.
Querer que ele viesse e achar que ele devia vir eram coisas completamente diferentes. O problema era que, com Edward, essa diferença raramente impedia alguma coisa.
De: Bella Swan
Isso seria uma péssima ideia
Dessa vez, ele levou um pouco mais de tempo para responder.
De: E.
Provavelmentesim.
Apesar de tudo, sorri.
De: Bella Swan
Você não está ajudando.
De: E.
Não achei que essa fosse a minha função.
Soltei uma risada curta, sozinha, e odiei o efeito imediato que aquilo teve em mim. Como se alguma parte do meu corpo reconhecesse o humor dele antes mesmo que minha cabeça pudesse erguer suas defesas usuais.
A verdade era que eu sabia exatamente o que aconteceria se dissesse sim.
Edward chegaria com aquela expressão de sempre, como se estivesse se segurando o tempo inteiro. Entraria na casa — e não mais no apartamento — olhando tudo por meio segundo antes de me olhar. Perguntaria se eu tinha comido, se queria algo para beber. Me observaria como se tentasse decidir o quanto de mim estava intacto. E então haveria aquele espaço entre nós em que qualquer gesto pequeno demais poderia significar tudo.
Eu sabia disso porque já tinha acontecido antes. E porque, pior ainda, eu queria que acontecesse de novo.
Meu polegar pairou sobre a tela.
De: Bella Swan
Você tem vinte minutos.
Enviei, antes que o bom senso pudesse me alcançar. A resposta veio quase imediatamente.
De: E.
Chego antes disso.
Fiquei encarando a conversa por alguns segundos, sentindo algo entre ansiedade e exaustão se espalhar pelo corpo. Não era alívio. Ainda não. Mas era a primeira coisa do dia que parecia remotamente com expectativa.
Levantei e fui até o banheiro, acendendo a luz sobre o espelho. Meu rosto parecia cansado, mais do que eu tinha admitido. Havia restos de maquiagem sob os olhos e uma tensão discreta na linha da boca que eu conhecia bem.
Você é uma recém-divorciada, pensei, encarando meu reflexo. A expressão ainda parecia pertencer a outra pessoa.
Prendi o cabelo, soltei de novo. Lavei o rosto. Considerei trocar de roupa e imediatamente me achei ridícula de considerar isso. Acabei ficando com a mesma calça e blusa larga que usava desde a manhã. Se Edward viesse, ele me veria exatamente assim.
Quando a campainha tocou, meu coração bateu uma única vez, forte demais e fiquei parada por um segundo inteiro antes de andar até a porta.
Ao abrir, encontrei Edward do lado de fora com uma jaqueta, o cabelo um pouco desalinhado e aquela expressão que eu tinha previsto. Os olhos dele passaram pelo meu rosto rapidamente, como se procurassem sinais de alguma coisa que nem ele saberia nomear.
— Oi — ele disse.
A voz baixa teve um efeito físico em mim, imediato e silencioso.
Por um instante, nenhum de nós se moveu. A distância entre a porta e o corredor parecia pequena demais para tudo o que carregávamos para dentro dela. Foi Edward quem quebrou o impasse, levantando levemente uma sacola de papel na mão.
— Trouxe comida — disse. — Achei que havia uma chance razoável de você não ter jantado.
Olhei para a sacola, depois para ele.
— Isso é muito presunçoso da sua parte.
— E você não negou, o que significa que acertei.
Edward deixou a sacola sobre a bancada da cozinha e tirou a jaqueta, dobrando-a sobre o braço.
— Alice me mandou três mensagens hoje — ele comentou, olhando para mim de novo. — Em duas, ela ameaçou me processar se eu não viesse ver como você estava pessoalmente. Na terceira, disse que talvez você estivesse precisando de supervisão.
Revirei os olhos.
— Claro que disse.
— Ela só está cuidando de você, Bella.
— E você veio cuidar de mim também?
O silêncio que veio depois não foi exatamente desconfortável. Edward abriu a sacola e começou a tirar as embalagens com a naturalidade irritante de alguém que sabia que eu precisaria de alguma estrutura mínima para atravessar aquela noite.
— Comprei naquele tailandês que você gosta — disse. — Ou que dizia gostar antes de passar a existir oficialmente como mulher divorciada. Não sei se seus critérios mudaram nos últimos seis dias.
— Já faz tanto tempo assim?
— Quase sete dias, para ser mais exato.
— Uau. Uma vida inteira.
Encostei na bancada, observando-o alinhar as caixas como se estivesse ocupando as mãos de propósito. Eu reconhecia aquele tipo de movimento porque era a minha especialidade também.
— Então, você vai ao aniversário da Maggie na semana que vem? — ele me perguntou, e eu agradeci silenciosamente pela mudança de assunto. Meu divórcio não era exatamente algo que eu gostaria de falar com ele, não agora.
Olhei para ele por um segundo, tentando entender se aquilo era só conversa ou alguma forma cuidadosa de medir terreno.
— Emmett me mandou o convite ontem — respondi. — Disse que, se eu inventasse qualquer desculpa, ele mesmo apareceria aqui e me arrastaria pelos cabelos.
A boca de Edward se curvou de leve em um sorriso.
— Parece plausível.
— Considerando o remetente? Bastante.
Ele abriu uma das embalagens, o vapor subindo entre nós.
— Então você vai.
Não era exatamente uma pergunta. Cruzei os braços.
— Você também vai.
— Maggie me mataria se eu não fosse.
— Maggie vai fazer seis anos.
— Exato. E já é perfeitamente capaz de organizar a minha execução.
Soltei um riso baixo, involuntário. Edward me observou por meio segundo a mais do que deveria, como se aquele som tivesse feito alguma coisa nele também. Então desviou os olhos e me estendeu um garfo.
— Sente-se — disse. — Pelo menos finja que aceita ordens de vez em quando.
Fui com ele até a ilha da cozinha e puxei um banco alto. Edward ocupou o lugar ao meu lado, não perto o bastante para me tocar por acidente, mas perto o suficiente para que eu percebesse o calor do corpo dele quando se movia.
Comemos por alguns minutos em silêncio. Não um silêncio vazio — nunca era, com Edward. Havia sempre alguma coisa circulando por baixo, alguma corrente invisível passando de um lado para o outro sem precisar de linguagem.
— Tanya provavelmente vai levar Emerald.
Os nomes caíram entre nós com delicadeza demais para o peso que tinham. Ergui os olhos para ele.
— Provavelmente?
Ele soltou o ar pelo nariz, num quase riso sem humor.
— Significa que ela disse que vai, mas comigo as coisas entraram naquela fase em que qualquer resposta simples vem acompanhada de uma tensão desnecessária.
Aquilo me fez pousar o garfo.
— Edward...
— Está tudo bem — ele disse rápido demais, o que significava exatamente o contrário. — Quer dizer. Não está, mas vai ficar.
Inclinei a cabeça.
— Você não precisa fazer isso comigo.
— Fazer o quê?
— Mentir.
Os olhos dele voltaram para os meus. Havia exaustão ali, e alguma coisa mais áspera por baixo, algo que ele vinha guardando em silêncio há tempo demais.
— Eu disse a ela que queria terminar — disse, por fim. — Não deixando espaço para interpretações, nem para esse limbo absurdo em que tudo parece temporário só porque ninguém quer encarar a palavra fim.
Esperei. Ele passou a mão pela nuca.
— Não foi bom.
Aquilo eu já sabia antes mesmo de ele dizer. Não pelos detalhes, mas pela forma como ele estava sentado, pelo jeito excessivamente controlado com que segurava o garfo, pelo fato de ter vindo até a minha casa com comida e humor seco quando o próprio mundo dele claramente também estava cedendo em pontos importantes.
— Ela não aceitou — concluí.
Edward soltou uma risada curta, cansada.
— Essa é uma forma educada de colocar.
— E a forma não educada?
Ele me olhou por um instante.
— A forma não educada é que ela ouviu tudo como se eu estivesse tendo uma crise passageira de caráter.
Fiquei em silêncio por um instante, observando o jeito controlado demais com que ele empurrava o arroz de um lado para o outro da embalagem aberta. Edward sempre teve esse talento irritante para parecer contido mesmo quando estava claramente a um passo de ceder em algum lugar mais fundo.
— Ela vai dificultar as coisas, não vai? — perguntei, já sabendo a resposta.
— Claro que vai, o máximo que puder. Ela está com raiva — disse por fim. — E eu entendo isso. Só que… algumas coisas que ela disse deixam de ser só raiva quando envolvem a Emmie desse jeito.
Fiquei imóvel.
— Desse jeito como?
Edward sustentou meu olhar por um instante inteiro antes de responder, e eu odiei a cautela dele porque ela confirmava o tamanho do problema antes mesmo que ele o nomeasse.
— Ela acha que eu quero separá-las, o que não é verdade.
Apoiei a caixa de volta na bancada, de repente sem apetite.
— Você acredita que ela possa fazer algo precipitado?
— Sim.
A resposta veio rápido demais para me deixar fingir que eu tinha entendido errado.
— Que tipo de coisa?
— Não sei ainda — disse ele, e aquela era talvez a parte mais honesta e mais alarmante de tudo. — Mas Tanya não lida bem com a perda de controle, e nem estou julgando, é estatístico se tratando dela.
Expirei devagar, olhando para a sala escura além da cozinha.
— Isso é ruim.
— Eu sei.
— Não, Edward. Isso é realmente ruim.
Ele não discutiu. Apenas assentiu, como se já tivesse repetido a mesma frase para si mesmo o caminho inteiro até a minha casa. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Eu sabia que havia mais. Ele também sabia que eu sabia.
— O que mais aconteceu?
Edward desviou os olhos pela primeira vez de forma realmente nítida. Foi para a bancada, para a própria mão, para qualquer ponto que não fosse eu.
— Nós brigamos.
— Isso eu imaginei.
— Não desse jeito.
O mundo pareceu se estreitar um pouco.
— Edward. Não minta para mim.
Ele fechou os olhos por um instante breve, como se estivesse escolhendo entre poupar a mim ou parar de poupar todo mundo naquela noite.
— Ela jogou algumas coisas, gritou. E, em algum momento, precisei segurar os pulsos dela para impedir que ela quebrasse mais alguma coisa em cima de mim.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
— Meu Deus, Edward…
— Não aconteceu nada além disso.
— Além disso? — repeti um pouco estridente, antes de conseguir modular melhor a voz. — Você está me dizendo como se fosse pouco.
Ele respirou fundo, e eu percebi o exato instante em que decidiu não se defender.
— Tudo bem — disse. — Não foi pouco.
O silêncio caiu outra vez, mais pesado agora. Eu queria organizar as peças em alguma ordem racional — término, raiva, Emerald, objetos lançados, Edward no centro de uma sala tentando não piorar uma situação já péssima — mas a verdade era que nenhuma ordem melhorava a figura final.
Eu abaixei os olhos por um instante. Quando tornei a encará-lo, ele ainda estava ali com o mesmo rosto cansado, a mesma contenção quase dolorosa, o mesmo tipo de presença que nunca exigia nada abertamente e, talvez por isso, sempre exigia demais.
— Bem, o que faremos em relação ao aniversário da Maggie, então? Porque imagino que eu não seja a pessoa favorita da Tanya agora e não quero causar uma cena.
— Você não precisa ir se isso for piorar as coisas.
Soltei uma risada breve.
— Isso não é uma opção, você sabe.
— Realmente, mas se houver qualquer chance de isso respingar em você…
— Um pouco tarde para isso.
Edward ficou absolutamente imóvel. Eu também, porque aquela era a primeira vez, naquela noite, que algo tão próximo da verdade era dito em voz alta.
Não era sobre imprensa. Não era sobre Tanya. Não era sobre agendas, advogados, culpa ou festas infantis organizadas por gente rica. Era sobre o fato simples, brutal e impossível de contornar de que eu já estava dentro disso o bastante para me comprometer. Tanya podia ser muitas coisas, mas burra? Obviamente não.
Edward deu um passo na minha direção, devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar alguma coisa que nenhum de nós saberia remontar depois.
— Bella —
— Não.
Levantei a mão antes que ele encurtasse mais a distância. Ele parou. Fechei os olhos por um segundo e quando abri de novo, ele ainda estava onde eu o havia parado. O que, de algum jeito, era pior.
— Você precisa ir à festa — eu disse, porque precisava voltar para algum terreno que parecesse administrável. — E eu também.
Ele esperou.
— E, quando isso acontecer, nós vamos agir como dois adultos capazes de existir no mesmo espaço sem transformar um aniversário infantil em uma extensão dos nossos desastres pessoais.
— Certo.
— Certo — repeti. — Nada de conversas em cantos do jardim. Nada de desaparecer da sala ao mesmo tempo. Nada de olhares longos demais na frente da Tanya.
Uma sombra quase imperceptível passou pela expressão dele ao ouvir o nome dela.
— Certo.
— E, principalmente, nada de me procurar com a filha no colo como se isso fosse tornar qualquer coisa menos complicada.
Dessa vez, apesar de tudo, a boca dele cedeu de verdade num sorriso curto e cansado.
— Isso foi estranhamente específico.
— Porque você já fez antes.
Ele deu de ombros.
— Tudo bem. Manter distância, não olhar por tempo demais e não usar a Emerald como desculpa. Acho que entendi.
Eu tinha certeza que ele faria exatamente o contrário, mas decidi confiar.
****
O aniversário de Maggie ocupava todo o jardim da casa.
O que, honestamente, não chegava a ser surpreendente. Emmett nunca soube fazer nada pela metade e Rosalie não parecia capaz de organizar um evento que não fosse grande o suficiente para parecer uma produção de estúdio: toalhas em tons pastel perfeitamente alinhadas, arranjos perfeitos demais para terem sido baratos, uma mesa de doces tão meticulosamente montada que provavelmente tinha sido finalizada com pinças e crianças correndo com níveis de energia que desafiavam qualquer lógica humana.
Parei por um instante antes de atravessar o portão lateral, com os óculos escuros ainda no rosto e a sensação muito específica de que eu estava entrando em alguma coisa maior do que um aniversário de seis anos.
Alice tinha insistido em escolher minha roupa, o que explicava o vestido azul-claro de corte simples e as sandálias baixas que eu jamais compraria por conta própria, mas que, contra todas as probabilidades, eram confortáveis.
Emmett foi o primeiro a me ver.
— Bella! — A voz dele atravessou metade do jardim antes que o restante dele chegasse junto. Em três segundos, ele já estava na minha frente, abrindo os braços. — Você veio. Eu sabia que você tinha coração.
Ele me puxou para um abraço rápido, esmagador e completamente sem cerimônia, como sempre. Quando me soltou, pegou a sacola da minha mão antes que eu pudesse protestar.
— Maggie está em algum lugar ali sendo feliz — disse, apontando para o outro lado do jardim. — Rosalie está fingindo que não está monitorando cada detalhe da mesa principal. E, se Alice ainda não te sequestrou, então ela provavelmente está ocupada sequestrando outro convidado.
— Isso tudo parece muito específico.
— E teria como ser diferente?
Ele começou a me conduzir pelo jardim quando Rosalie apareceu. Ela estava impecável, claro. Cabelo preso em uma trança elegante demais para uma festa infantil, vestido sem uma marca, expressão perfeitamente composta e aquele olhar clínico que fazia parecer que ela tinha identificado tudo em três segundos, inclusive a qualidade do meu sono, minhas escolhas recentes de vida e o fato de eu ter considerado ir embora duas vezes antes de estacionar.
— Você veio — ela disse, me abraçando de leve.
No vocabulário da Rosalie, aquilo equivalia a um discurso emocionado. Ela se afastou só o suficiente para me analisar melhor e sua boca quase cedeu num sorriso.
— Maggie vai gostar de te ver.
Aquilo me atingiu de um jeito inesperadamente bom. Era curioso e amável ser querida por crianças.
— Onde ela está?
Rosalie apontou para perto de um brinquedo inflável, onde Maggie corria de um lado para outro com uma coroa torta na cabeça.
— Comandando o próprio império — disse Rosalie.
— Puxou a mãe.
— É evidente.
Emmett escolheu esse momento para voltar e colocar um copo de alguma coisa na minha mão. Dei um gole enquanto meu olhar percorria o jardim, havia gente suficiente para tornar tudo seguro. O suficiente para me fazer relaxar os ombros.
Talvez fosse isso. O barulho de crianças. A previsibilidade. A organização daquele jardim. Depois de tantas semanas em que tudo parecia excessivamente adulto, difícil e carregado, havia alguma coisa quase ofensivamente boa em estar diante de um problema real como impedir que uma menina de seis anos ingerisse açúcar o suficiente para entrar em combustão espontânea.
Foi então que vi Tanya. Ela estava entrando pelo lado oposto do jardim com Emerald no colo e Edward ao seu lado, usava um vestido amarelo e óculos escuros grandes demais, o cabelo preso num rabo de cavalo polido que a deixava com um ar quase esportivo. Bonita, óbvio.. Do tipo que parecia ter sido cuidadosamente montada. Em qualquer outra circunstância, eu talvez admirasse o esforço daquilo.
Emerald estava com um vestido do mesmo tom e um dois laços de cada lado da cabeça, séria como se estivesse avaliando se aquele evento merecia de fato a sua presença. Uma jovem os acompanhava, que presumi ser a babá.
Rosalie acompanhou a direção do meu olhar, mas não comentou nada. Emmett também viu e, para crédito dele, teve a decência de não abrir a boca.
Tanya ainda não tinha me visto. Estava falando com alguém perto da entrada, alguém suficientemente conveniente para conversa superficial. Emerald olhava por cima do ombro dela para o jardim inteiro com um tipo de desconfiança que me fez querer rir.
— Ela está enorme — murmurei.
— Crianças fazem isso — Emmett disse. — Crescem sem consultar a gente. Acho uma atitude bem rude, especialmente vinda do meu bebezinho.
Antes que eu respondesse, Maggie surgiu como um pequeno furacão decorado com tule.
— Tia Bella!
Mal tive tempo de me abaixar antes que ela me abraçasse pelas pernas com toda a força de uma criança feliz demais.
— Oi, aniversariante.
Ela se afastou só o suficiente para me mostrar a coroa.
— Eu sou a rainha hoje.
— E eu estou aqui como sua humilde súdita, meu bem.
— Sabia que o papai disse que posso comer doces antes do almoço porque é meu aniversário?
Rosalie, ao meu lado, falou sem alterar um músculo do rosto:
— Isso ainda está em negociação.
Maggie ignorou completamente a própria mãe e voltou a me olhar.
— Gostei do seu vestido! Agora preciso ir porque meu reino está sozinho!
E foi embora antes que qualquer adulto pudesse opinar. Fiquei olhando enquanto ela corria, a coroa torta, os braços abertos, a certeza absoluta de que o mundo inteiro naquela tarde existia para acomodar a felicidade dela.
Emmett estendeu a mão para mim.
— Vem, Bella, vou te mostrar a mesa de doces antes que as crianças a transformem em zona de guerra.
Deixei que ele me puxasse mais para dentro da festa, e foi só então, já perto da mesa principal, que percebi que ele me levava diretamente até onde Edward estava.
Ele usava uma camisa clara com as mangas dobradas até o antebraço, óculos escuros e Emerald agora estava no colo dele. Uma das mãozinhas dela estava presa na gola da camisa do pai como se aquele fosse seu lugar de direito. Nossos olhares se encontraram.
Nada dramático aconteceu. Ninguém ao redor parou de falar. Nenhuma música cessou. Nenhuma criança percebeu uma ruptura no eixo da Terra. Foi só um olhar, breve o suficiente para passar por acaso, longo o suficiente para eu saber que não foi.
Então Emerald puxou o rosto dele de volta para si com a autoridade de quem tinha prioridades mais importantes que qualquer tensão adulta, e eu quase ri.
Tomei um gole do meu drink e decidi, com toda a firmeza possível, que o restante daquela tarde seria simples. Civilizado. Leve, até. Eu cumprimentaria quem precisasse cumprimentar, elogiaria a decoração, ajudaria Maggie a abrir um ou dois presentes, evitaria qualquer cenário ridículo e iria embora antes que meu autocontrole começasse a ceder.
Era um plano excelente.
Que durou exatamente cinco minutos.
Eu quase não percebi quando Emerald veio correndo na direção em que eu estava, com passos cambaleantes e a babá andando atrás dela. Ela não correu para mim, mas quando se aproximou, levantou os olhos e um brilho de reconhecimento passou por ali.
— Bewa!
Foi como se ela tivesse disparado um canhão de luz diretamente sobre mim, atraindo a atenção de todos que estavam próximos. E isso incluía a mãe dela.
Puta merda.
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