Daylight

14 Capítulo 13


Edward

Um mês não é tempo suficiente para mudar quem você é.

Mas é tempo suficiente para perceber quando fingir começa a exigir mais energia do que encarar as coisas de frente.

Bella e eu continuamos nos encontrando. Não com a frequência que gostaríamos, nem com a espontaneidade que tivemos um dia. Agora existe uma logística: mensagens curtas, horários quebrados e, às vezes, uma noite inteira juntos. A única coisa que não mudou foi o lugar: sempre o mesmo apartamento.

Eu comecei a fazer terapia na mesma semana daquele dia em que Tanya ficou a um passo de descobrir tudo. O psiquiatra que Bella indicou não perguntou por que eu estava ali, mas perguntou se eu estava disposto a não mentir. Pareceu um bom começo.

— E você se droga para sustentar o que, Edward? — perguntou, na segunda sessão.

Fiquei alguns segundos olhando para o ponto exato entre a mesa dele e a parede, como se ali estivesse a resposta certa.

— Para continuar funcionando — respondi, por fim. — Para não cair fora do ritmo.

— Ritmo? Do quê?

— De tudo — dei de ombros. — Trabalho, casa, paternidade… a versão de mim que as pessoas esperam.

Ele anotou algo, sem pressa.

— E o que acontece quando você não usa nada?

A resposta veio antes que eu pudesse polir.

— Tudo fica mais alto.

Ele levantou o olhar.

— Mais alto?

— Pensamentos. Culpa. Medo. — respirei fundo. — A sensação constante de que eu estou atrasado em alguma coisa, mesmo quando não sei no quê.

— Então não é sobre prazer — ele concluiu. — É sobre controle.

Assenti.

— E você acredita ter controle?

A pergunta me arrancou uma risada curta, sem humor.

— Não.

Ele assentiu, como se aquilo confirmasse algo que já sabia.

— Ótimo — disse. — Então temos por onde começar.

Não saí da sessão me sentindo melhor. Saí me sentindo visto, o que era bem mais perigoso. Emmett achou graça quando contei que estava fazendo terapia.

— Então agora você paga alguém para te dizer o que eu digo de graça? — perguntou, enquanto colocamos Emerald e Maggie no banco de trás do carro.

— A diferença é que ele não bebe comigo depois.

— Covarde — ele riu, fechando a porta.

Mesmo assim, Emmett continuava aparecendo. Para buscar a Emerald para brincar. Para me tirar de casa. Para me lembrar, sem palavras, de que eu não estava sozinho, mesmo quando fazia questão de agir como se estivesse.

Bella também não estava exatamente melhor.

Ela dizia que a separação da Irina estava “em andamento”, uma expressão vaga demais para algo que claramente doía mais a cada semana. Às vezes, Bella chegava ao apartamento com o olhar distante, o corpo tenso de quem tinha acabado de se defender por horas.

— Ela faz parecer que eu estou desistindo de nós por impulso — Bella comentou certa noite, sentada na bancada da cozinha, um copo de vinho esquecido na mão. — Como se eu estivesse jogando fora algo sólido por um caso mal resolvido.

— E você está? — perguntei.

Ela me encarou por um segundo longo.

— Não — respondeu. — Mas às vezes quase acredito que sim.

Alice era quem costurava os pedaços que eu não alcançava. Bella falava dela como um salva-vidas.

— Alice disse que eu tenho medo de ficar sozinha — Bella me contou uma vez. — Que eu preciso ser vista para estar confortável.

Eu não discordei, não tinha esse direito.

Apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo, o apartamento virou um ponto fixo. Naquela noite, Bella chegou mais tarde do que o combinado.

— Desculpe pelo horário — disse, largando a bolsa no sofá. — A conversa se estendeu.

Eu encostei no balcão da cozinha, observando enquanto ela passava as mãos pelo rosto como quem tenta reorganizar os próprios pensamentos antes de falar.

— Irina? — perguntei.

Bella assentiu sem olhar para mim.

— A minha advogada, na verdade. Mas a conversa com Irina veio antes, ela acha que ainda podemos consertar.

Algo em mim vibrou de uma forma estranha, quase como um aviso de que aquela conversa não seria boa.

— Consertar como…?

Ela suspirou, mas continuou sem me olhar.

— Irina me ofereceu algo.

A frase ficou suspensa no ar entre nós. Bella abriu a bolsa, tirou o maço de cigarros e o girou entre os dedos como se estivesse ganhando tempo.

— Posso?

— Você nunca precisou pedir.

Ela assentiu e caminhou até a varanda. A porta de vidro deslizou, trazendo o ar abafado da noite atipicamente quente para dentro. Bella acendeu o cigarro e ficou alguns segundos olhando para a cidade. As luzes espalhadas pelas colinas, os carros passando como pequenos rios lá embaixo. Eu fiquei apoiado na porta.

— Ela me ofereceu um filho.

Eu demorei um segundo para entender.

— Achei que ela não quisesse filhos — eu disse.

— Nunca quis — Bella respondeu, olhando a ponta acesa do cigarro. — Ela falou como se fosse a solução mais lógica do mundo. Disse que estamos em uma fase ruim porque nossa vida ficou confortável demais e que, se um filho era o que eu precisava para ser feliz no casamento, eu poderia ter.

Ela tragou, depois soltou a fumaça ao vento, mexendo no cabelo.

— Ela pesquisou clínicas, doadores, médicos. Já tinha nomes, prazos, tudo — continuou. — Eu fiquei sentada ouvindo como se ela estivesse apresentando um plano de negócios enquanto ela tentava me dar algo que eu quisesse.

— Doadores?

Bella tragou o cigarro outra vez, como se a pergunta fosse óbvia.

— Sim, nós precisaríamos de um doador e podemos escolher o perfil, as características físicas, esse tipo de coisa.

Eu sabia como aquilo funcionava, obviamente. Clínicas, banco genético, perfis anônimos cheios de informações clínicas e características físicas cuidadosamente listadas. Não havia nada de surpreendente na ideia em si, mas mesmo assim, algo dentro de mim pareceu queimar.

Porque eu lembrava de uma conversa que, agora, parecia muito distante. Da promessa que eu tinha feito depois, a promessa que parecia tão sólida enquanto ainda estava no quarto escuro, longe da realidade. Eu disse que estava disposto a construir um futuro com ela e agora, existia uma clínica, uma lista de doadores e um plano perfeitamente funcional que não precisava de mim para existir.

— Você considerou a oferta?

Ela revirou os olhos para mim.

— É claro que não, Edward. Realmente não está nos meus planos trazer uma criança ao mundo como uma tentativa de consertar um relacionamento falido — disse.

Eu sabia que não era uma crítica direcionada a mim, especificamente, mas me atingiu porque era a realidade que eu vivia.

— Não foi isso que eu quis dizer — se apressou em adicionar, mas o estrago já tinha sido feito.

— Não?

O cigarro na mão dela estava quase no filtro agora, e ela puxou outro do maço, sem se importar em pegar um isqueiro, só acendendo um no outro.

— Você sabe que não critico suas escolhas, Edward. Estou falando sobre mim aqui, sobre o meu divórcio e sobre a tentativa da minha esposa de me manipular mais uma vez.

Eu cruzei os braços.

— Claro, você parece muito confortável falando sobre relacionamentos falidos hoje.

— Meu Deus, Edward. Nem tudo é sobre você!

— Me desculpe se a frase sobre “relacionamento falido” soa um pouco familiar para mim.

Ela cruzou os braços dessa vez.

— Você perguntou se eu considerei a oferta e eu respondi.

— E aproveitou para fazer um comentário bem conveniente.

Bella abriu os braços com tanta força que o cigarro na mão dela voou pelo ar.

— Você é inacreditável.

A ponta acesa fez um pequeno arco antes de cair no chão da varanda e nenhum de nós se moveu para apagá-la imediatamente. Eu cruzei os braços com mais força, tentando conter a reação automática que sempre vinha quando Bella e eu entrávamos nesse tipo de território.

Havia algo na forma como ela falava que tornava difícil não reagir. Ela era sempre direta demais, sempre alguns passos à frente da parte de mim que ainda tentava organizar o que estava sentindo.

Ela se abaixou por fim, esmagando o resto do cigarro contra o concreto com a sola do sapato. Quando se levantou de novo, havia algo diferente na postura dela. Bella passou a mão pelo cabelo, afastando-o do rosto, e ficou olhando para a cidade por alguns segundos antes de falar novamente. Não era um silêncio confortável.

Eu tentei acompanhar o caminho que tinha nos trazido até ali: começamos falando sobre Irina, sobre a proposta absurda de um filho como solução para um casamento que já estava quebrado. Em algum momento, a conversa tinha se deslocado para outro lugar, um lugar que parecia perigosamente perto da minha própria vida, e eu me dei conta, com um atraso incômodo, de que não entendia exatamente o que estava acontecendo.

Por que ela estava dizendo aquelas coisas? Por que transformar aquela conversa em algo que soava perigosamente próximo de uma acusação?

Outra possibilidade se insinuou antes que eu pudesse evitá-la. Será que ela estava tentando me empurrar para alguma coisa? A ideia veio rápida, quase defensiva. Eu a reconheci imediatamente como um tipo de pensamento que meu terapeuta provavelmente desmontaria em trinta segundos. Ainda assim, ela ficou ali.

Bella estava se separando, estava atravessando as partes mais difíceis daquele processo e queimando pontes que ainda estavam intactas na minha vida, enquanto eu ainda voltava para casa todas as noites, acordava na mesma cama e tomava café da manhã com a minha filha, antes de viver uma vida dupla.

Ou talvez — uma parte mais honesta de mim insistiu — ela estivesse apenas falando de si mesma, e eu estivesse fazendo exatamente o que ela tinha acusado: trazendo tudo de volta para mim.

Bella soltou um suspiro baixo, quase imperceptível, e quando finalmente virou o rosto na minha direção, seus olhos estavam menos inflamados do que alguns segundos antes, mas ainda tensos. Entretanto, não parecia raiva pura. Frustração, talvez, ou cansaço.

— Eu realmente achei que pudéssemos ter uma boa noite hoje.

Eu demorei um segundo para responder, mais por não saber o que dizer do que por qualquer outra coisa. Bella não parecia mais com raiva, o que havia no rosto dela agora era algo mais simples e mais difícil de lidar: decepção. Ela deu alguns passos para dentro do apartamento, deixando a varanda para trás, e caminhou até o sofá, pegou a bolsa que tinha largado ali mais cedo e abriu o zíper com um movimento que parecia metade irritação, metade resignação.

— Eu trouxe algumas coisas para nós — disse, tirando uma garrafa que eu não tinha percebido antes. — Sei que você não está bebendo, mas achei que uma taça não faria mal.

Ela colocou a garrafa sobre a mesa de centro e voltou a mexer na bolsa.

— E… — começou, parando por um segundo, como se estivesse reconsiderando a própria ideia de continuar aquela demonstração. — Algumas outras coisas.

Quando levantou o olhar para mim outra vez, havia um pequeno traço de constrangimento no rosto dela. Não era exatamente timidez, mas talvez fosse a consciência repentina de que aquilo tudo parecia ridículo depois da discussão.

Bella tirou um pequeno saco de tecido da bolsa e o colocou no sofá.

— Eu pensei que poderíamos simplesmente… desligar um pouco hoje. Só algumas horas sem pensar demais.

O silêncio que veio depois foi diferente do anterior. Não havia mais aquela energia agressiva da discussão, mas também não havia leveza ainda. Era um espaço suspenso, como se estivéssemos ambos tentando decidir se ainda havia algo daquela noite que podia ser salvo.

— Eu sei que parece… um pouco patético agora — ela mordeu o lábio inferior enquanto virava o conteúdo no sofá.

— Não parece.

Bella arqueou uma sobrancelha, claramente pouco convencida, e algumas coisas deslizaram para fora do saco de tecido: uma peça de renda preta dobrada e um pequeno objeto de silicone escuro que rolou alguns centímetros antes de parar. Demorei um segundo a mais do que deveria para entender exatamente o que estava olhando. Bella percebeu.

— Ok — ela disse rapidamente, já estendendo a mão para reunir tudo de volta na bolsa. — Talvez eu tenha superestimado o clima da noite.

Eu segurei o pulso dela antes que ela conseguisse pegar tudo.

— Espera.

Ela parou, me olhando com uma mistura de cautela e constrangimento.

— Você pode fingir que não viu — disse, com um meio sorriso tenso. — Eu claramente estava… otimista demais quando saí de casa.

Eu olhei novamente para o que estava sobre o sofá, juntando as peças do quebra-cabeça. A lingerie, delicada e convidativa, e outro item, sugeriam uma camada de intimidade mais ousada, mas não agressiva — algo para explorar juntos, também relembrando de noites há muito tempo, quando éramos só nós dois e nossa curiosidade.

Meu coração acelerou levemente, não de choque, mas de uma curiosidade misturada à ternura. Bella havia se esforçado por isso, por nós, apesar de tudo.

— Não é patético — respondi baixinho, soltando o pulso dela com delicadeza e pegando a peça de renda entre os dedos. — Você trouxe isso pensando em nós, em tornar esta noite algo especial. E eu quero isso também.

Seus olhos se suavizaram, o constrangimento dando lugar a uma vulnerabilidade que me tocou profundamente. Ela se sentou no sofá ao lado dos itens, as mãos cruzadas no colo, como se esperasse um veredicto.

— Depois de tudo que dissemos... você ainda quer?

Eu me aproximei, sentando-me perto dela, o calor de seu corpo irradiando através da fina distância entre nós.

— Claro que sim — confirmei — Só... nós dois, deixando o resto para depois.

Bella cedeu, seus lábios curvando-se em um sorriso genuíno pela primeira vez naquela noite.

Abrimos a garrafa e tomamos um gole juntos, o vinho tinto aquecendo a garganta, trazendo um conforto que contrastava com a tensão anterior. Conversamos sobre coisas leves e, aos poucos, o vinho e as palavras afrouxaram os nós em nossos ombros.

Eu me inclinei para frente, depositando a taça na mesa baixa, e tracei o contorno de seu rosto com os dedos. Ela fechou os olhos por um instante, inclinando-se para o toque.

— Quero te ver com isso — murmurei, erguendo a lingerie que ainda estava entre nós no sofá. — Só para imaginar como você se sentiu ao escolhê-la.

Ela hesitou por um segundo, mas então assentiu, levantando-se na minha frente, e puxou a camiseta pela cabeça, deixando-a cair no chão, revelando a pele clara e as curvas suaves de seu corpo, seguida pelo top esportivo.

De costas para mim, ela vestiu a camisola rendada, o preto contrastando belamente com sua pele, acentuando a elegância de suas formas. Meu olhar a percorreu com admiração, um desejo calmo e profundo.

— Linda — disse, sincero, estendendo a mão para puxá-la de volta para perto de mim.

Bella se sentou em meu colo, com as pernas de cada lado das minhas. Nossos lábios se encontraram em um beijo lento, exploratório, as línguas se tocando com gentileza. Suas mãos subiram para o meu cabelo, massageando o couro cabeludo enquanto eu deslizava as palmas pelas costas dela, sentindo o calor através da renda.

O beijo se aprofundou naturalmente, nossos corpos se movendo em um ritmo sincronizado. Ela se ergueu ligeiramente, ajudando-me a remover o resto das roupas, e logo estávamos pele contra pele, o sofá nos envolvendo como um ninho.

Peguei o pequeno objeto de silicone, mostrando-o a ela com um olhar interrogativo.

— Se você quiser... — sugeri, e ela sorriu, pegando-o e ligando-o com um zumbido.

Ela o pressionou contra si enquanto eu a beijava no pescoço, os gemidos suaves dela ecoando em meus ouvidos como uma melodia. Meus dedos traçaram caminhos lentos por seu corpo, explorando, construindo o prazer em camadas.

Quando o desejo nos envolveu completamente, nos movemos juntos, os quadris se encontrando em um compasso que priorizava a conexão sobre a urgência. Seus braços ao redor do meu pescoço, meu rosto enterrado em seu ombro, sentimos o clímax chegar como uma onda gentil, nos levando ao êxtase em uníssono. Ficamos ali, entrelaçados, o mundo lá fora distante. Pela primeira vez naquela noite, o silêncio era leve, preenchido por uma paz conquistada.

Não havia mais resquícios da briga. O eco das palavras ainda existia em algum lugar, mas parecia distante, como uma tempestade que já tinha passado para outra parte do céu. O apartamento estava quieto, iluminado apenas pela luz da sala e pelo reflexo distante da cidade através da varanda.

Bella estava encostada em mim, o peso do corpo dela distribuído de um jeito confortável, como se tivesse encontrado ali um lugar natural para descansar. A respiração dela ainda estava um pouco irregular, mas já desacelerando.

Eu passei a mão pelas costas dela lentamente, mais por reflexo do que por intenção. O gesto era automático agora, um movimento familiar que parecia existir há anos, mesmo que na realidade tivéssemos passado muito tempo sem sequer dividir o mesmo espaço.

Ela suspirou baixo.

— Isso foi melhor do que a nossa conversa na varanda — murmurou.

Eu soltei uma pequena risada pelo nariz.

— Seu padrão está bem baixo.

— Mesmo assim.

Bella ajustou a posição, apoiando o queixo no meu peito para me olhar. O cabelo dela estava um pouco bagunçado, algumas mechas caindo sobre o rosto. Havia um traço de cansaço ali, mas também algo mais suave que eu não tinha visto nela desde que chegou.

— Eu realmente não queria brigar hoje — disse ela.

— Eu sei, me desculpe.

Ela ficou me olhando por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se acreditava completamente naquilo.

— Às vezes parece que só sabemos fazer duas coisas — continuou. — Ou discutir até alguém dizer algo que não queria ou fingir que nada disso existe.

Eu pensei na varanda, na conversa sobre Irina, na forma como aquilo tinha escorregado rapidamente para um território muito mais pessoal.

— Talvez porque as duas coisas existam ao mesmo tempo — respondi.

Bella franziu um pouco a testa e, depois, apoiou novamente a cabeça no meu peito.

— Isso não ajuda muito — disse.

Eu percebi, depois de alguns segundos, que Bella estava desenhando pequenos círculos no meu braço com a ponta dos dedos. O gesto era quase inconsciente.

— Você vai voltar para casa hoje?

— Provavelmente.

Ela assentiu.

— Vai tentar pegar a Emerald acordada?

— Não, ela já está dormindo agora — olhei para o relógio na parede, vendo que já passava das oito.

— Ela ainda está obcecada com os peixes do aquário que você a levou?

Eu ri baixo.

— Ah, sim. Ela tem certeza que podemos colocar um polvo na piscina.

Bella levantou o rosto novamente, divertida.

— Isso parece… complicado.

— Eu expliquei que não cabe no apartamento, mas ela ficou bastante ofendida e se recusou a falar comigo por cinco minutos.

Bella riu, e o som foi leve de um jeito que eu não tinha ouvido desde o começo da noite. A vibração, entretanto, teve outro efeito em mim. Nenhum de nós falou nada por um momento.

— Eu gosto de te ouvir falar dela — disse depois de um momento. — Você fica feliz, feliz de verdade.

Feliz.

A palavra ficou entre nós. Eu não respondi imediatamente e Bella percebeu, mas não pressionou.

Depois de alguns segundos, ela se moveu novamente contra mim.

— Nós devíamos parar de ter conversas existenciais durante e depois de… — ela fez um pequeno gesto vago com a mão — Tudo isso.

— Provavelmente.

— Nosso timing é horrível.

— Historicamente, sim.

Ela sorriu contra meu peito. O silêncio voltou mais uma vez, agora completamente tranquilo. Lá fora, a cidade continuava viva, mas parecia muito distante. Bella estava quase adormecendo quando murmurou, com a voz já arrastada:

— Mesmo assim… fico feliz que você esteja aqui.

Eu não respondi imediatamente, mas a mão que estava nas costas dela ficou ali, segurando-a um pouco mais perto.

Bella ficou quieta por um tempo depois disso, a respiração finalmente regular contra meu peito. Pensei que ela tivesse adormecido, mas depois de alguns minutos senti os dedos dela se mexendo de novo, distraídos, desenhando linhas preguiçosas na minha pele. O apartamento estava silencioso.

— Edward — ela disse de repente, a voz baixa

— Hm?

Ela não respondeu imediatamente. Levantou um pouco a cabeça, apoiando o queixo no meu peito outra vez, mas dessa vez não parecia estar olhando para mim.

— Nós… — ela começou, parando de novo.

Algo na pausa fez um pequeno alerta acender na minha cabeça.

— Nós…?

Bella levantou os olhos finalmente.

— Nós não usamos nada.

Ah.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, ambos olhando para o teto agora. Não havia acusação no tom dela, o que tornava a constatação ainda mais estranha. Ela voltou a apoiar a cabeça no meu peito, mas agora parecia um pouco mais desperta.

— Estatisticamente falando — disse depois de um momento. — As chances ainda são pequenas.

Eu deslizei a mão lentamente pelas costas dela, mais para me acalmar do que qualquer outra coisa.

— Se você quiser, podemos… resolver isso amanhã.

Bella franziu levemente a testa.

— Como?

— Pílula.

Ela levantou os olhos para mim por um momento e então balançou a cabeça.

— Tudo bem. Vamos ver amanhã.

O silêncio voltou mais uma vez, mas agora havia algo diferente nele — uma pequena possibilidade pairando no ar entre nós, ainda indefinida demais para ser chamada de qualquer coisa concreta.

Bella foi a primeira a ceder ao cansaço novamente. Quando a respiração dela finalmente ficou profunda e regular, eu continuei acordado por alguns minutos a mais, olhando para o teto e tentando não pensar demais em como algumas decisões importantes às vezes começam exatamente assim.