Daylight

13 Capítulo 12


Notas iniciais
Boa leitura.

Edward

— Você ouviu tudo.

Dava para perceber na forma como ela saiu do quarto, e Bella nunca foi boa em fingir.

Ela assentiu e, de algum jeito, aquilo me deixou mais exposto do que a discussão com a Tanya.

Eu ainda sentia o peso de Emerald nos braços. O cheiro do cabelo dela. A maneira como ela se encolheu quando eu a acordei. Eu tinha feito a coisa certa, sabia disso, mas fazer a coisa certa não anulava o fato de que eu estava a dois passos de perder o controle da minha própria vida.

— Você fez o certo, Edward — ela disse.

Eu queria acreditar que aquilo bastava.

Passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço acumulado de noites mal dormidas, decisões mal digeridas e escolhas que pareciam sempre ligeiramente tortas.

— Não estou exatamente em posição de apontar o dedo para ninguém.

Ela não me absolveu, também não me condenou. Bella nunca foi de extremos morais.

Ela caminhou até a mesa que dividia a sala da cozinha, tirou um maço de cigarros da bolsa, girou entre os dedos, mas não acendeu.

Eu reparei nesse detalhe. Pequenas ações de contenção me chamam atenção agora, porque sei o quanto é fácil não ter nenhuma.

— Eu preciso ficar sóbrio hoje e tomar decisões conscientes — eu disse, antes que a ideia escapasse. Falar em voz alta tornava mais real.

Ela não sorriu.

— Então fica.

Simples assim.

Eu pedi que ela ficasse comigo. E, quando as palavras saíram, eu soube que não eram sobre procurar uma distração dentro daquele apartamento, era só sobre não atravessar aquela ponte sozinho.

Ela disse que ficava, mas não para me salvar. Graças a Deus.

O resto da tarde passou devagar. Pedimos comida e, enquanto esperávamos a entrega, joguei fora as sobras de bebidas que tinham ficado esquecidas de outras noites naquele apartamento. Não era nenhum ato grandioso, só joguei na pia e vi o líquido descer pelo ralo, acabando com qualquer chance que eu tivesse de não me manter sóbrio.

Conversamos sentados no chão da sala, com as costas apoiadas no sofá. Falamos de Emerald, de como às vezes eu me sentia um impostor quando ela me olhava como se eu soubesse o que estou fazendo.

Bella ouviu e falou um pouco sobre o próprio casamento e as decisões que havia tomado hoje. O suficiente para eu entender que o silêncio ali era mais pesado do que qualquer briga e aquilo me incomodou de um jeito específico. Não por ciúme, mas porque eu conhecia aquele tipo de desgaste.

Quando a noite caiu de vez, a cidade começou a brilhar pelas janelas grandes do apartamento. O reflexo das luzes desenhava sombras no rosto dela.

— Eu deveria ir embora — ela disse, mas não se moveu.

Também não me movi.

Havia uma linha invisível entre nós desde que Tanya saiu pela porta, levando minha filha. Ela estava ali, vibrando no ar.

Eu me levantei primeiro, estendi a mão para ajudá-la a ficar em pé. O contato foi breve, mas o suficiente para o meu corpo reagir com uma memória que nunca foi embora. Ficamos próximos demais por alguns segundos.

— Se isso for só porque o dia foi difícil… — ela começou.

— Não é — eu respondi, antes que ela terminasse.

Eu queria aquilo quando as coisas estavam fáceis também. Principalmente quando estavam.

Minha mão subiu devagar até o rosto dela, e Bella não recuou. O primeiro toque foi quase tímido, reconhecendo a pele quente. Familiar. Diferente. Tudo ao mesmo tempo. Ela se aproximou meio passo, depois outro, até que nossas respirações se misturaram.

Aquele beijo não veio com pressa ou choque, foi puro e simples encaixe. Um encaixe quase perfeito, porém cauteloso, como se estivéssemos reaprendendo um idioma no qual já fomos fluentes.

Eu senti o gosto dela, o cheiro do perfume misturado com algo que era só dela. Meu corpo respondeu antes que minha cabeça pudesse interferir.

Mas, diferente de dez anos atrás, eu não me deixei ser arrastado e me afastei o suficiente para encostar minha testa na dela.

— Podemos parar — eu disse.

Era verdade. Eu precisava que fosse. Ela abriu os olhos.

— Eu não quero.

E então me puxou de volta.

O segundo beijo teve menos hesitação. As mãos dela deslizaram pelo meu peito, agarraram o tecido da minha camiseta como se precisassem de apoio. Eu a segurei pela cintura, sentindo o corpo dela se alinhar ao meu.

Quando nos movemos em direção ao quarto, não foi impulsivo. Foi quase silencioso. Como se qualquer barulho pudesse transformar aquilo em algo clandestino demais. E, ainda assim, quando Bella deslizou os dedos pelo meu rosto e me beijou de novo, eu escolhi ficar. E, pela primeira vez em muito tempo, eu estava completamente sóbrio para isso.

A porta se fechou com um clique atrás de nós, a luz fraca do lado de fora lançando sombras longas sobre a cama. Ela puxou minha camisa, erguendo-a e passando-a pela minha cabeça sem desviar o olhar. Seu olhar desceu, absorvendo as linhas gravadas na minha pele, as cicatrizes de um acidente anos atrás, o modo como meu peito subia e descia um pouco rápido demais.

Eu alcancei a barra da blusa dela, os nós dos dedos tocando a pele macia de sua barriga enquanto a levantava. Ela não era mais a garota de antes, seu corpo havia se preenchido com curvas que pressionavam contra mim enquanto eu deslizava o tecido pelos ombros dela. O sutiã era um pedaço de renda preta que abraçava seus seios, e eu o abri com mãos que se lembravam do movimento, mas tremiam levemente agora.

Ficamos ali por um instante, nus da cintura para cima, o ar entre nós de repente denso. Então ela avançou, seus mamilos esfregando meu peito enquanto me beijava com mais força, sua língua escorregando para dentro da minha boca. Eu gemi baixo, minhas mãos percorrendo suas costas para envolver sua bunda através da calça jeans. Bella se esfregou mais contra mim e eu senti seu sorriso contra meus lábios.

— Cama — murmurou, e eu assenti, guiando-a para trás até que seus joelhos tocassem a borda do colchão. Ela se sentou, me puxando para baixo com ela, nossas bocas nunca se separando. Meus dedos trabalharam no botão e no zíper dela, empurrando o tecido para baixo. Ela os chutou para longe, junto com as meias.

Eu me ajoelhei entre suas pernas, beijando seu pescoço, chupando levemente a pulsação que saltava sob minha língua. Suas mãos se entrelaçaram no meu cabelo, não puxando, apenas segurando enquanto eu traçava minha boca mais para baixo, sobre a clavícula, até seu seio. Eu tomei um mamilo na boca, girando a língua ao redor dele, sentindo-o endurecer. Bella arqueou o corpo, um suspiro suave escapando dela, seus dedos apertando no meu cabelo.

— Edward…

Foi menos que um sussurro, mas enviou um choque direto para o meu pau. Eu mudei para o outro seio, mordiscando levemente com os dentes enquanto minha mão subia pela coxa. Ela abriu mais as pernas, convidando, e eu pressionei a palma contra ela, sentindo o calor através do tecido.

Ela se ergueu, necessitada agora, e eu enganchei os dedos na cintura da calcinha, puxando-a para baixo. Sua boceta estava lisa, recém depilada, me dando a visão perfeita dos lábios inchados e brilhando de excitação.

Eu olhei para ela, encontrando seus olhos escuros, dilatados, cheios de desejo e algo mais profundo, não dito. Ela assentiu, e eu me inclinei, beijando a parte interna da coxa, depois mais alto, até que minha boca encontrou seu clitóris.

Eu a lambi devagar no início, provando o sal e o almíscar de sua excitação. Bella gemeu, erguendo seus quadris na minha direção, e eu deslizei um dedo para dentro dela, sentindo o quão molhada ela estava, depois de todos esses anos. Ela se contraiu ao meu redor, e eu adicionei um segundo dedo, curvando-os para acariciar aquele ponto que fazia sua respiração falhar.

— Porra, sim — ela arfou.

Suas coxas tremeram ao redor da minha cabeça, e eu podia sentir seu orgasmo se construindo no modo como seu corpo se tensionava e suas respirações vindo em fôlegos curtos. Eu não parei, não diminui o ritmo, até que ela se estilhaçou, pulsando ao redor dos meus dedos, um grito baixo escapando de seus lábios enquanto gozava.

Eu beijei meu caminho de volta pelo corpo dela, provando o suor em sua pele enquanto ela me puxava para outro beijo. Suas mãos tatearam meu cinto, empurrando minha calça jeans e cueca para baixo de uma vez. Meu pau saltou livre e Bella envolveu a mão ao meu redor, acariciando firmemente da base à cabeça, o polegar espalhando a umidade sobre a parte sensível. Depois de alguns instantes de provocação, ela me empurrou gentilmente para trás na cama, invertendo nossas posições.

Agora ela estava por cima, ajoelhando-se entre as minhas pernas. Seus seios roçavam meu peito enquanto ela se inclinava, beijando meu pescoço, descendo pela linha do meu abdômen. Ela usou a mão para me masturbar ritmicamente, o polegar circulando a cabeça a cada passada, me levando a um ponto sem volta.

Eu observei, fascinado, enquanto ela se movia para cima, posicionando sua boceta molhada contra o meu pau. Ela se esfregou contra mim e o calor úmido daquela fricção deliciosa que nos fazia ofegar juntos era torturante. Minhas mãos subiram para seus seios, apertando os mamilos entre os dedos, e ela arqueou, acelerando o movimento dos quadris.

— Assim... Isso é tão bom — ela murmurou, a respiração entrecortada.

Eu levantei os quadris para encontrar os dela, meu pau escorregando entre suas dobras, pressionando contra seu clitóris a cada passada. Ela gemia alto, com uma mão apoiada no meu peito para se equilibrar, a outra no meio de nós para nos guiar com mais precisão.

Depois de minutos que pareceram eternos, ela se inclinou para frente, oferecendo um seio para minha boca.

— Faça o que quiser, são seus — ordenou, com a voz rouca.

Eu chupei, mordi e apertei forte, sentindo seu corpo tremer enquanto ela se aproximava de outro clímax só com isso.

— Quase lá… — ela sussurrou, e eu usei uma mão para circular seu clitóris enquanto ela se esfregava, empurrando-a por cima da borda.

Bella gozou de novo, o corpo convulsionando e caindo por cima do meu, com sua umidade escorrendo pelo meu pau. O peso dela era bem vindo, quente e real, sua pele suada colando na minha. Eu a abracei pelas costas, traçando círculos preguiçosos com os dedos ao longo da sua espinha, sentindo o modo como ela se derretia contra mim.

Mas eu ainda queria mais. Eu queria me afundar dentro dela, reivindicá-la como minha de todas as maneiras que poderia fazer dentro daquele apartamento. Fazia anos desde que eu me sentia assim, consumido, como se cada toque dela estivesse reacendendo algo que eu havia enterrado sob camadas de arrependimentos e rotinas vazias.

Ela ergueu a cabeça, os olhos castanhos encontrando os meus, um sorriso lento e satisfeito curvando seus lábios.

— Duas vezes seguidas. Quase me esqueci como você é bom nisso — murmurou, a voz rouca de prazer, enquanto se inclinava para me beijar.

Suas mãos desceram pelo meu peito, as unhas curtas arranhando levemente a pele, descendo até onde nosso calor se encontrava. Ela me tocou de novo, a palma envolvendo meu pau com firmeza, bombeando devagar, espalhando a mistura de nós dois pela pele sensível. Eu gemi no beijo, os quadris se erguendo involuntariamente para o toque dela.

— Bella… — comecei, mas as palavras saíram como um rosnado baixo.

Nada mais importava agora, não com o cheiro dela me envolvendo, não com o modo como seu corpo se encaixava ao meu, como se os anos não tivessem passado.

Ela se afastou um pouco, com os joelhos de cada lado dos meus quadris. Seus seios balançaram levemente com o movimento, os mamilos ainda rosados e endurecidos do que eu havia feito. Ela me olhou de cima, avaliando.

— Eu quero isso — disse, mas sua mão parou de me acariciar. — Mas precisa ser devagar.

Assenti, pronto para fazer o que ela quisesse, e estiquei o braço para a calça jogada no chão, pescando a carteira do bolso e retirando a embalagem prateada. Seus olhos seguiram cada movimento.

— Eu faço isso.

Sua voz tinha um tom prático, quase desafiador, enquanto desenrolava o látex no meu pau, os dedos ágeis mas cuidadosos. O toque dela me fez inspirar fundo. Ela não era ingênua, sabíamos dos dois lados da nossa bagunça, das vidas que estávamos traindo aqui, mas isso só tornava o momento mais urgente.

Eu a segurei pelos quadris, sentindo o tremor leve em suas coxas.

— Devagar — ela repetiu, e eu assenti, os olhos presos nos dela.

Eu fui devagar, polegada por polegada, gemendo com o calor apertado me envolvendo. Ela estava tão molhada, tão receptiva depois das preliminares, mas ainda assim, levou um momento para se ajustar, para sentir ela se esticar ao meu redor. As unhas de Bella cravaram nos meus ombros, sua respiração quente contra o meu pescoço enquanto eu cheguei ao fundo, nossos quadris colados.

— Você comanda o ritmo — eu disse, a voz baixa, porque o controle era dela agora.

Ficamos parados por um momento até que Bella começou a se mexer lentamente, gemendo baixinho enquanto se ajustava, os músculos internos se contraindo ao meu redor. O prazer era intenso, quase doloroso de tão bom, mas eu me segurei, focando no rosto dela, na forma como seus olhos se reviraram antes que ela pudesse impedir.

— Mais — ela sussurrou finalmente, e eu obedeci, saindo e afundando devagar até que nossos corpos se encontrassem completamente, preenchendo-a por inteiro.

Então, o movimento começou, lento, ritmado, como se estivéssemos testando as águas de novo. Cada investida era uma redescoberta, o modo como ela me apertava, o som úmido de nós dois nos movendo juntos. Eu queria mais, queria perdê-la em mim, mas por enquanto, isso bastava: o prelúdio para o que viria, o segredo que nos unia no silêncio do quarto.

Eu enterrei o rosto no cabelo dela, inalando seu cheiro enquanto acelerava o ritmo e Bella me encontrou empurrão por empurrão, seus quadris rolando para cima, a cama rangendo suavemente sob nós. Suor molhou nossa pele, e eu a beijei em uma bagunça de bocas abertas e línguas se enroscando enquanto penetrava mais fundo.

— Mais forte — ela ofegou, e eu atendi, o som de pele batendo contra a pele enchendo o quarto. Seus seios balançavam a cada investida, e eu me inclinei para capturar um mamilo novamente, chupando forte enquanto ela gemia sob mim.

A pressão se acumulou na minha espinha, me apertando cada vez mais, mas me segurei, querendo ela comigo. As paredes de Bella tremulavam ao redor do meu pau, suas respirações irregulares.

— Estou tão perto, não pare.

Eu não parei. Eu continuei me movendo implacavelmente, roçando contra seu clitóris a cada mergulho do meu corpo contra o seu, até que ela gozou novamente, sua boceta se contraindo ao meu redor. Isso foi tudo, eu a segui pelo precipício, empurrando fundo enquanto me esvaziava na camisinha, com um gemido gutural rasgando da minha garganta.

Nós desabamos juntos, meu peso metade sobre ela, metade ao lado, ambos ofegantes. Eu fiquei ali por um minuto a mais, antes de sair para o banheiro e voltar. Bella se aninhou ao meu lado, com a cabeça no meu peito e uma perna jogada sobre a minha.

O quarto estava quieto agora, exceto por nossas respirações desacelerando e o zumbido distante da cidade lá fora. Sem palavras ainda, apenas o calor e a realidade do que havíamos feito se instalando como um segredo compartilhado. Por esta noite, era o suficiente.

Ou pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo.

Bella respirava contra o meu peito, o ar quente e irregular ainda encontrando ritmo. A perna dela sobre a minha era um peso confortável, familiar demais. O tipo de familiaridade que não desaparece com o tempo, só se transforma em memória… até deixar de ser memória.

Passei a mão devagar pelos cabelos dela, mais por instinto do que por decisão. O gesto saiu natural, automático. Como se meu corpo não tivesse esquecido nada. Talvez nunca tivesse mesmo.

O teto do quarto parecia distante, neutro demais para o que tinha acabado de acontecer ali. O abajur na mesa lateral lançava uma luz baixa, quase cúmplice. Não era escuridão total. Não era dia. Era esse meio-termo perigoso onde as decisões parecem menos definitivas.

Eu sabia que aquilo não tinha sido só uma rodada de sexo, e esse era o problema. Se fosse apenas físico, eu saberia lidar. Eu sempre soube lidar com o físico. Com o rápido, o funcional, o que não exige explicação no dia seguinte.

Mas Bella nunca foi isso.

Ela se mexeu levemente, o dedo traçando uma linha distraída no meu peito. Eu deveria dizer alguma coisa. Algo maduro. Algo que colocasse limites. Algo que provasse que eu ainda era capaz de tomar decisões responsáveis.

Em vez disso, fiquei ali, sentindo. O cheiro dela. O calor dela. O peso exato do corpo dela encaixado no meu. E tudo era tão bom.

Eu tinha prometido a mim mesmo que seria melhor. Mais presente. Mais inteiro.

Inteiro. A palavra ecoou com ironia. Eu estava dividido entre duas camas, duas versões, dois futuros possíveis.

Bella se ajustou mais perto, como se procurasse abrigo. E eu deixei. Deus, eu deixei, porque, ali, com ela, era fácil esquecer o resto.

Eu não era um garoto de vinte anos mais. Não podia agir como se as consequências fossem abstrações que se resolvem sozinhas.

Bella inclinou o rosto para me olhar. Os olhos dela estavam mais suaves agora, mas havia algo ali — uma pergunta.

— Você está longe — ela murmurou.

Eu forcei um meio sorriso.

— Só pensando.

Ela sustentou meu olhar por um segundo a mais, como se estivesse decidindo se acreditava ou não. Talvez estivesse fazendo a mesma conta que eu.

O que isso significa?

O que tínhamos feito não foi um acidente. Tinha sido uma escolha deliberada, consciente.

Eu senti medo, então.

E se ela quisesse mais do que eu podia dar? E se eu quisesse mais do que devia? E, ainda assim, ali estava eu, com Bella deitada sobre mim como se o tempo tivesse dado uma volta completa só para nos colocar exatamente naquele ponto.

Ela ainda estava na mesma posição quando eu senti a mudança. Ela se afastou primeiro, só o suficiente para me olhar direito. Não havia arrependimento ali. Também não havia leveza.

— Nós precisamos conversar — ela disse.

Eu soube, na hora, que aquilo não era conversa de depois. Não era uma conversa que podia ser adiada com mais um beijo ou com qualquer distração conveniente.

Ela sentou na cama, puxando o lençol até a cintura mais por instinto do que por pudor. Passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço que vinha depois do pico. Eu conhecia aquele padrão, o da sensação de intensidade como substituta de clareza.

Eu já tinha feito isso antes. Mas não com ela.

Bella respirou fundo antes de começar.

— Mais cedo eu decidi que não quero mais viver no meio. Não quero ser metade de nada. Não quero continuar casada enquanto desejo estar com você. Não quero continuar te encontrando como se fosse um segredo conveniente.

O ar no quarto mudou. Ali estava. A luz.

Eu senti o impulso quase automático de desacelerar aquilo. De dizer que podíamos ir com calma, que não precisava ser tão definitivo. Mas eu não tinha sido o primeiro a dizer que precisávamos decidir?

— Você vai se separar? — perguntei.

Ela sustentou meu olhar.

— Não posso afirmar que sim, não agora. Eu vou ser honesta com ela. E comigo.

Não era uma resposta simples. Era maior do que isso. Meu estômago apertou porque eu sabia que ser honesto tinha efeito dominó.

— E se eu não puder oferecer o que você está esperando? — eu perguntei, antes que pudesse filtrar.

Ela não desviou.

— Então eu preciso saber agora, Edward.

Eu me sentei também, passando a mão pelo cabelo.

— Eu tenho uma filha.

— Eu sei.

— E eu não posso… — parei, procurando a palavra certa — Explodir a vida que ela conhece porque ainda sinto algo por você.

Bella assentiu devagar.

— Eu não estou pedindo que você exploda nada. Estou dizendo que eu não fico mais no escuro.

A diferença era sutil mas, novamente, não tinha sido eu mesmo a dizer que mudaria as coisas? Não fui eu quem disse, horas atrás, que não viveria mais sob o mesmo véu de inseguranças, mentiras e fugas fáceis?

Eu pensei em Emerald de novo. Pensei nas noites em que eu prometi para mim mesmo que faria melhor. Pensei nas recaídas que quase ninguém via. Pensei no quanto era fácil usar intensidade ao invés de estabilidade.

Bella percebeu. Ela sempre percebia.

— Você disse que isso não era uma fuga, Edward.

Eu ri, sem humor.

— Eu sou especialista em fuga.

— Eu sei.

A voz dela saiu tão quebrada que doeu mais do que qualquer crítica. Passei as mãos pelo rosto, tentando organizar os pensamentos.

— Eu não quero que você seja a próxima coisa que eu uso pra me anestesiar.

Ela se aproximou um pouco, mas não me tocou.

— Então não me use. Simples assim.

Eu a encarei.

— Eu não sei como fazer isso direito — admiti.

Era a verdade mais limpa que eu tinha.

— O que você sabe, Edward? Eu preciso de uma resposta concreta porque, ao que me parece, estamos em momentos diferentes aqui — ela respondeu.

A pergunta ficou suspensa entre nós, pesada.

Eu poderia ter respondido com algo bonito. Algo que soasse decidido, romântico, firme. Eu sabia montar frases assim, já tinha feito antes. Mas ela não estava pedindo poesia, ela queria — precisava de — realidade.

— Eu sei que o que aconteceu aqui não foi impulso. Eu quis estar aqui. Eu escolhi estar aqui — Passei a mão pelo cabelo outra vez, tentando manter o raciocínio alinhado. — E eu sei que, se a gente continuar se encontrando escondido, isso vai virar exatamente o que você disse que não quer ser.

Ela assentiu, mas não me poupou.

— E mesmo assim você ainda está hesitando.

Eu soltei um ar curto pelo nariz.

— Porque amar você não é a única coisa na equação e eu sei que eu preciso colocar minha vida em ordem — continuei. — Não por você, não por nós, mas por mim. Porque, se eu não fizer isso, qualquer coisa que eu construa com você vai estar em cima de um chão instável.

Ela absorveu aquilo.

— E quanto tempo isso leva?

Pergunta justa. Cruel, mas justa. Eu balancei a cabeça devagar.

— Não tenho um cronograma e não vou mentir pra você dizendo que semana que vem tudo vai estar resolvido. Não vai.

Os olhos dela brilharam e eu me odiei um pouco mais.

— Então você está me pedindo para te esperar.

Eu hesitei. Era isso que eu estava fazendo?

— Eu estou pedindo para não transformarmos isso numa explosão impensada — eu disse. — Se você sair do seu casamento amanhã por minha causa, e eu ainda estiver… no meio do meu próprio caos, isso vai nos destruir.

Ela cruzou os braços, ainda segurando o lençol.

— Eu não estou saindo por sua causa. Estou saindo porque não quero mais mentir, isso é diferente. E estou disposta a enfrentar o caos, você está?

A pergunta me acertou em cheio e eu pensei nas manchetes possíveis. Pensei em Tanya e em tudo que ela poderia fazer. Pensei na logística da guarda compartilhada. Pensei na minha filha. E pensei em mim mesmo daqui dez anos, me perguntando o que teria acontecido.

O silêncio entre nós se esticou. Eu poderia continuar enumerando riscos, poderia transformar tudo numa lista racional e seria mais confortável. Mas não era isso que ela estava perguntando.

Ela queria saber se eu tinha coragem.

— Eu estou com medo — eu disse, finalmente.

Ela não desviou o olhar.

— De quê?

— De fazer isso do jeito errado. De machucar minha filha no processo. De repetir padrões. De usar você como catalisador de uma mudança que eu já deveria ter feito sozinho. Mas não estou com medo de nós.

O ar pareceu mudar. Ela respirou fundo, como se estivesse medindo cada palavra antes de responder.

— Eu não preciso que você não tenha medo, Edward. Eu preciso saber se você vai agir apesar dele, porque eu tenho uma vida inteira me esperando para ser vivida. Quero saber se você está disposto a vir comigo.

Vida inteira. Eu engoli em seco.

— Que vida é essa? — perguntei, mais baixo. — O que você quer viver, Bella?

Ela me olhou como se eu tivesse aberto uma porta que estava trancada há anos e, por um segundo, achei que ela fosse responder de forma firme, controlada, como vinha fazendo a noite toda.

Mas algo nela cedeu e ela desviou o olhar primeiro.

— Eu queria… — a voz falhou, e ela precisou respirar de novo. — Eu queria uma família. Eu queria estabilidade. Uma casa que não parecesse provisória. Um lugar que fosse meu de verdade. Eu sempre fui boa em parecer independente, mas eu queria… raízes. Tudo que nunca tive.

Eu senti um aperto lento se formar no meu peito. Ela continuou, como se tivesse medo de parar e não conseguir retomar.

— Eu sempre quis ser mãe, Edward. Você sabe disso.

Eu sabia. Lembrei dela antes, falando sobre nomes de crianças como se fosse algo distante, mas inevitável. Lembrei da convicção tranquila que ela tinha quando falava sobre isso.

— Eu vejo você com a Emerald e dói — ela disse, e agora havia algo ainda mais dolorido em sua voz. — Não porque eu ache que você não mereça, mas porque você tem a família que sempre sonhei em ter enquanto eu não tenho nada.

Eu não sabia o que fazer com minhas mãos.

— Eu tentei falar sobre isso com a Irina. Várias vezes. Sempre era “não agora”. “Não é o momento”. “Minha carreira está num ponto crítico”. E eu fui adiando, sendo compreensiva.

Ela riu de novo, mas dessa vez foi quase um soluço.

— Eu fiz um congelamento de óvulos totalmente escondida.

O mundo pareceu inclinar levemente.

— O quê?

Ela assentiu, os olhos brilhando agora de verdade.

— Porque eu sabia que meu tempo estava passando e eu não podia continuar esperando que outra pessoa decidisse quando minha vida podia começar. Então fui à clínica sozinha, fiz o que precisava fazer, voltei para casa e jantei como se nada tivesse acontecido.

As lágrimas finalmente escaparam, mas ela não tentou escondê-las.

— Eu estou cansada de fingir que está tudo bem, Edward.

O quarto parecia menor agora.

— Eu tenho trinta e dois anos — ela continuou. — E eu não sei quanto tempo ainda tenho pra decidir certas coisas. Não quero acordar daqui dez anos e perceber que deixei passar a única coisa que eu sempre soube que queria.

Eu me aproximei, mas com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrá-la de vez.

— Não estou dizendo que quero engravidar amanhã — ela acrescentou rapidamente. — Nem que estou esperando que você me dê isso. Eu só… eu preciso saber se o homem que está na minha frente tem coragem de construir algo real. Com todas as partes.

Eu fiquei olhando para ela — para a mulher que amei aos vinte, perdi aos vinte e dois, reencontrei aos trinta e dois — e percebi que o que estava diante de mim não era uma sentença.

— Eu não tenho todas as respostas — comecei. — Não sei como vai ser a logística. Não sei como vai ser a reação da Tanya. Não sei como vai ser com a imprensa, com a guarda, com nada disso, mas sei que eu não quero continuar vivendo pela metade.

As palavras saíram firmes, decididas.

— Eu sei que não quero acordar daqui dez anos me perguntando por que escolhi o caminho mais confortável em vez do mais verdadeiro. E eu sei que, se continuar fugindo agora, vou continuar fugindo pra sempre.

Eu me aproximei mais, segurando o rosto dela com as duas mãos.

— Vai ser um caos. Vai ter dor, vai ter confusão, talvez coisas se percam no processo. Talvez eu te decepcione em algum momento e, talvez, a gente descubra que construir é muito mais difícil do que desejar. Mas eu estou disposto.

Eu engoli em seco e ela piscou devagar, como se estivesse esperando que eu completasse.

— Eu estou disposto a enfrentar conversas difíceis. A reorganizar minha vida. A proteger a minha filha no meio disso tudo sem usá-la como desculpa para não agir. Estou disposto a procurar ajuda de verdade, a ficar limpo, a parar de me anestesiar quando as coisas ficarem pesadas.

Minha voz não tremeu.

— E estou disposto a construir com você. A escolher você.

Os olhos dela encheram de novo, mas dessa vez havia algo diferente ali. Não era só dor, era esperança.

— Você sabe que isso não vai ser rápido — ela disse, quase como se estivesse me dando uma última chance de recuar.

— Eu sei.

— E que pode piorar antes de melhorar.

— Se for o preço pra fazer o certo, eu pago.

Ela soltou um ar que parecia ter ficado preso há anos.

— Eu não posso prometer que será perfeito — murmurei. — Mas posso prometer esforço real, não esse entusiasmo impulsivo que morre quando a pressão aumenta. Eu vou fazer o que for possível para que as sombras fiquem para trás.

Sombra. A palavra pairou entre nós.

— Eu preciso ver isso acontecendo — ela disse. — Eu preciso saber que não são só palavras bonitas.

Eu quase sorri.

— Então é isso que você vai ter.

Ficamos ali, testas encostadas, respirando o mesmo ar. Não havia mais urgência. Não havia mais aquela eletricidade desesperada que tinha nos trazido até ali. Eu puxei o lençol sobre nós dois, não como esconderijo, mas como uma forma de acabar com a distância.

— Vou começar limpando o que precisa ser limpo — eu disse. — Um passo de cada vez. Sem promessas públicas antes da hora. Mas com uma direção definida.

Ela assentiu.

O quarto ainda estava o mesmo. A cidade ainda dormia lá fora. Nada tinha mudado externamente. E, ainda assim, tudo tinha mudado.

Eu sabia que, quando aquela noite terminasse, começaria o trabalho de verdade. As conversas difíceis, as decisões impopulares, os dias de dúvida. Talvez recaídas. Talvez a distância.

Eu estava escolhendo o meu futuro. E, mesmo sabendo que levaria tempo, caos, dor e confusão, senti algo raro e sólido se instalar no meu peito.

No dia seguinte, nada estaria resolvido. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha decidido em que direção caminhar.