Daylight
12 Capítulo 11
Notas iniciais
Bella
O apartamento estava silencioso quando cheguei. Abri as janelas para deixar o ar entrar, ouvi o som distante da cidade se aproximar. Acendi um cigarro na varanda, tentando me acalmar para o que viria na sequência.
Não demorou muito até ver o carro parar lá embaixo.
Quando a campainha tocou, voltei para dentro e encontrei Edward parado em frente à porta, com Emerald no colo, encolhida contra o peito dele. O cabelo claro estava preso por um elástico no topo da cabeça, e seu rostinho estava mais pálido que o normal, sem a usual cor nas bochechas.
— Oi — cumprimentei.
Edward respondeu com um aceno mínimo de cabeça, como se qualquer movimento maior pudesse acordá-la. Emerald dormia pesado, com o rosto enterrado na curva do pescoço dele, uma mãozinha fechada no tecido da jaqueta.
Abri caminho para os dois e deixei que ele a levasse até o sofá. A forma como os dois se agarravam um ao outro deixava claro que não estavam dispostos a se soltarem. Ela, dormindo, ele consciente.
— Quer colocá-la deitada no sofá? — sugeri.
Edward balançou a cabeça lentamente.
— Posso te oferecer algo? Eu pedi que o zelador colocasse algumas coisas na geladeira quando estava vindo para cá.
— Um copo de água seria ótimo — sussurrou.
Fui até a cozinha e me certifiquei de olhar o que estava na geladeira dessa vez: garrafas de água, um galão de suco de laranja, algumas frutas, itens que imaginei terem vindo da própria geladeira do Sr. Black. Eu o agradeceria mais tarde por isso.
Quando voltei, entreguei o copo e ele bebeu em goles pequenos, como se quisesse prolongar aquele momento, sem tirar Emerald do colo. Quando o copo estava vazio, Edward fechou os olhos, respirou fundo e encostou a cabeça no sofá.
— Obrigado — murmurou. — E me desculpe por aparecer assim.
— Você não apareceu do nada — respondi. — Eu ofereci.
Ele assentiu e o silêncio que se formou em seguida não era vazio, era cheio da memória daquela madrugada.
— Ontem à noite… — começou, e parou. — Minha cabeça estava um caos. Eu passei algumas horas lutando contra o que quer que fosse aquilo, sabe? Até que as coisas pararam de fazer muito sentido. É claro que ela escolheu exatamente esse momento para chorar e me trazer de volta — ele soltou uma risada curta, sem humor algum.
Não interrompi.
— Fiz o que tinha que fazer: dei um remédio, esperei a temperatura abaixar… — ele respirou fundo, olhando para o outro lado da sala. — Tanya estava no quarto, então eu chamei. Uma, duas, três vezes. Ela nunca vai dormir sem deixar a babá eletrônica ao lado da cama, então pensei que me ouviria. Mas ela estava dopada demais para me ajudar, mesmo quando fui até o quarto e a acordei.
Senti o estômago se contrair com a onda de ansiedade que me atravessou, mas mantive o rosto neutro. Não era surpresa, era só a confirmação de algo que eu já vinha evitando nomear.
— Depois, passei o resto da noite e da manhã sentado ao lado do berço. E sabe o que foi pior? — ele voltou a olhar para mim. — Não foi o susto com ela, mas a clareza. Uma clareza horrível de que, se algo realmente tivesse dado errado, eu estaria completamente sozinho.
Engoli em seco.
— E foi aí que você mandou aquela mensagem?
Ele assentiu.
— Não era um pedido de socorro, mas sim porque percebi que você tinha razão. Eu tinha cruzado um limite muito antes de ontem à noite e estava ocupado demais fingindo que não.
A frase ficou pairando entre nós. Eu apoiei o corpo no encosto da bancada, cruzando os braços, antes de responder.
— Reconhecer isso não te absolve — falei com cuidado. — Mas também não te condena automaticamente. Você precisa querer que as coisas mudem para que isso aconteça, e eu acho que quer.
Edward soltou o ar pelo nariz, como se estivesse tentando regular algo interno, antes de falar outra vez.
— Eu sei e eu quero mesmo — A voz saiu baixa. — Só… estou cansado de tentar sustentar coisas que não se sustentam sozinhas.
Emerald se mexeu levemente, e ele a apertou mais contra o peito.
— Eu fiquei horas olhando para ela e pensando em todas as vezes que disse para mim mesmo que estava tudo sob controle — continuou — E, sendo bem sincero, não consegui lembrar de uma vez que não tenha mentido.
Não havia acusação direta na frase, era só uma constatação. Ainda assim, senti o peso dela.
— Você percebeu antes que algo pior acontecesse e quer mudar, Edward.
As palavras saíram mais firmes do que eu esperava, como se eu estivesse tentando registrar aquela verdade no ar. Ele me olhou então, de verdade, e não havia defesa ali.
— Eu já devia ter feito isso antes — uma pausa curta. — Muito antes.
— Talvez — respondi. — Mas o “antes” não existe mais. Só o agora.
Edward assentiu, absorvendo aquilo.
— Eu não sei por onde começar — admitiu. — Qualquer decisão parece grande demais, confusa demais — seu olhar caiu outra vez sobre Emerald. — E ao mesmo tempo, eu sei exatamente por onde preciso começar.
A forma como ele disse aquilo não tinha heroísmo nenhum. Era uma decisão dolorosamente prática.
— Você não precisa resolver tudo hoje — falei. — Pode só começar, fazer o primeiro movimento.
Emerald respirava tranquila, o corpo pequeno relaxado contra o dele. Edward acompanhava o ritmo, como se sincronizasse o próprio fôlego ao dela, e passou a língua pelos lábios, pensativo.
— Eu passei a noite inteira com medo de tomar qualquer decisão errada — disse. — Mas não decidir também é uma escolha, não é?
Assenti.
— Normalmente é a mais confortável — respondi. — Até deixar de ser.
Ele soltou um suspiro longo, afundando o corpo um pouco mais no sofá.
— Eu sempre fui bom em adiar as coisas. Depois que passar essa fase, depois que as gravações desse filme terminarem, depois que ela melhorar… — balançou a cabeça. — Só que o depois nunca chega.
Me aproximei do sofá, apoiando a mão no encosto, mas ainda mantendo a distância. Emerald continuava adormecida, completamente alheia à conversa que, de algum modo, girava toda em torno dela.
— Você não está errado — continuei. — O “depois” é uma forma elegante de empurrar o problema para uma versão que fingimos que será melhor do que nós somos agora.
Ficamos alguns segundos em silêncio, só o som distante da rua entrando pelas janelas abertas. Então ele falou, quase num sussurro.
— Não posso voltar para casa hoje.
Não houve uma dramatização na frase. Era simples, objetiva, e exatamente por isso me atingiu em cheio.
— Por causa da Tanya? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
— Não só ela — respondeu. — Se eu voltar agora, vou fingir que nada aconteceu. Vou tomar um banho, dormir algumas horas e, quando acordar, essa urgência vai ter diminuído o suficiente para que eu continue adiando.
Ele apertou Emerald um pouco mais contra o peito, como se quisesse se certificar de que ela ainda estava ali.
Respirei fundo antes de responder. Aquilo não era um pedido romântico, nem um convite. Era alguém reconhecendo um limite, talvez pela primeira vez em muito tempo.
— Você pode ficar aqui — disse, finalmente. — Não é exatamente uma casa adaptada para crianças, mas deve servir para uma noite.
Edward levantou o olhar para mim, surpreso, e por um instante pareceu prestes a dizer algo que desistiu no meio do caminho.
— Obrigado. Eu prometo que não vou transformar isso em algo que não é.
— Eu sei que não — sorri. — E, se você quiser, amanhã posso te indicar um bom psiquiatra para te ajudar com suas questões.
Ele assentiu, mas o gesto foi atrasado, como se ainda estivesse tentando alcançar o que eu tinha acabado de dizer.
Fui eu quem se moveu primeiro. Caminhei até o quarto e abri a porta, deixando a luz acesa. O espaço era neutro, pouco usado, quase impessoal, como todo lugar que não foi pensado para acolher ninguém por muito tempo. Separei um lençol limpo, um cobertor e deixei tudo dobrado sobre a cama.
Voltei para a sala e Edward permanecia no mesmo lugar, o corpo curvado em torno de Emerald, como se soltá-la fosse um risco real. A luz da rua entrava pelas janelas abertas, recortando os dois em tons azulados. Era uma cena bonita, apesar de tudo.
— Quer colocá-la na cama?
Edward demorou alguns segundos para responder, como se a pergunta exigisse mais do que um simples sim ou não. Olhou para Emerald, depois para o corredor, e por fim assentiu. Caminhamos até o quarto quase em sincronia, atentos a cada pequeno som que pudesse perturbá-la.
Estiquei o lençol na cama, arrumei os travesseiros e esperei. Edward continuou mantendo Emerald junto ao peito por alguns minutos, como se estivesse se preparando para soltá-la. E quando finalmente a deitou, ela se mexeu, resmungou algo inaudível, mas não acordou.
— Ela costuma ter o sono pesado desse jeito? — perguntei, quebrando o silêncio.
— Só quando está exausta — respondeu.
Fechei a cortina o suficiente para filtrar a luz sem escurecer completamente o quarto, já que o fim de tarde ainda se anunciava do lado de fora. Saímos e deixamos a porta entreaberta.
Na sala, Edward passou a mão pelo rosto, como se só então sentisse o próprio corpo. Caminhou até a varanda, apoiou o peso no gradil e ficou ali alguns segundos, olhando para baixo sem realmente ver nada. Fiquei perto da porta por alguns segundos, observando-o à distância e concluindo que ele parecia menor ali fora.
— Tanya sabe que você está aqui? — perguntei, sem rodeios.
Ele fechou os olhos por um instante antes de responder.
— Sabe que eu saí com a Emerald — disse. — Não sabe para onde. Nem que não vou voltar hoje.
A resposta me deu um frio no estômago.
— Ela é a mãe, é justo que ela ao menos saiba onde a filha está.
Edward permaneceu em silêncio por alguns segundos depois da minha fala. Não houve resistência imediata, nem defensiva. Apenas o peso de alguém que sabia exatamente disso e, ainda assim, tinha adiado.
— Eu sei, você está certa. Tanya é uma boa mãe… Ela é presente, cuidadosa, ama a filha. O problema é que ontem ela não era nada disso e eu fiquei com medo de deixar a Emerald sozinha com alguém que não conseguia nem levantar da cama.
Me senti em uma situação estranha porque, nesse momento, quis me colocar no lugar dela. Como eu reagiria se estivesse naquela situação?
— Eu entendo, Edward, mas você não pode sumir e levar a filha de vocês junto, sem que ela saiba onde estão. Você consegue se imaginar nesse lugar? E se fosse contrário?
Não era exatamente uma acusação, mas eu sabia que estava tocando em um ponto sensível.
— Se fosse o contrário, eu sei que estaria fora de mim agora — ele passou a mão pelo rosto e notei que seus dedos tremiam. — Não posso tomar decisões sozinho, não é?
— Não quando se trata de outra pessoa, Edward.
Ele ficou em silêncio por um momento, antes de pegar o celular no bolso. Respirou fundo e levou o aparelho até a orelha. Quando a ligação finalmente começou, Edward endireitou o corpo como se estivesse se preparando para um impacto.
— Tanya.
A voz do outro lado veio abafada, mas dava para perceber a tensão mesmo sem ouvir as palavras exatas. Ele fechou os olhos por um instante, como se estivesse tentando manter a conversa ancorada no presente.
— Ela está bem. Está dormindo agora… sim, eu sei.
Parei a alguns passos de distância, respeitando seu espaço, mas inevitavelmente envolvida. Edward caminhava devagar pela sala enquanto ouvia, com a testa franzida, os ombros rígidos.
— Tanya, eu não sumi com ela — disse, com um cuidado quase excessivo. — Eu só saí.
Houve uma pausa longa. Ele parou de andar.
— Onde? — repetiu, baixando um pouco a voz.
Vi o momento exato em que ele chegou ao ponto delicado da conversa. A pergunta seguinte era inevitável. E com quem? Edward passou a mão pelos cabelos, respirando fundo.
— Estamos em um lugar seguro — respondeu primeiro, escolhendo o caminho mais estreito. — Com alguém em quem eu confio.
Seu olhar veio até mim rápido demais, refletindo a consciência de que dizer meu nome mudaria o eixo inteiro da conversa.
— Não — acrescentou, antes que a outra voz dissesse qualquer coisa. — Não é sobre isso agora. É sobre a Emerald.
Ele ouviu por mais alguns segundos, assentindo, mesmo quando a resposta do outro lado parecia dura. Quando voltou a falar, sua voz estava mais firme.
— Não estou tentando te afastar dela, você sabe disso. Eu só… precisei sair antes que algo pior acontecesse. Sim, eu vou te dizer onde estamos. E você pode vir buscá-la mais tarde, se quiser.
Mais uma pausa.
— Não, eu não bebi. Estou só cansado, Tanya.
Quando desligou, Edward ficou parado no meio da sala, com o celular ainda na mão, como se o corpo precisasse de alguns segundos para alcançar o fim da ligação.
— Ela quer saber onde eu estou — disse, sem me olhar. — E com quem.
— E você vai dizer? — perguntei.
Ele pensou antes de responder.
— Não com quem. Não porque eu queira mentir… mas porque isso abriria uma conversa que não cabe hoje. Não é justo com ela, nem com você.
Assenti. Aquela era, talvez, a decisão mais lúcida que ele tinha tomado desde que chegou.
— Ela vem buscar a Emerald daqui duas horas — continuou. — Quer conversar comigo depois.
— Isso é bom — falei. — Vai ser difícil, mas bom.
Edward deixou o celular sobre a mesa e se aproximou da janela outra vez. O fim de tarde já se dissolvia aos poucos e a luz ia mudando de tom.
— Eu não sei o que isso é entre nós — disse, finalmente, virando-se para mim. — Mas eu sei o que não pode ser.
— Um atalho — completei.
— Ou uma tábua de salvação — ele concordou. — Eu não posso trocar uma confusão por outra só porque ela é familiar.
As palavras doeram um pouco, mas não eram injustas.
— Eu também não quero isso — respondi. — Não quero ser o lugar onde você se esconde enquanto as coisas pegam fogo do lado de fora.
Ele se aproximou mais um passo, parando perto demais para ser casual, longe demais para ser seguro.
— Mas isso não significa que nada exista.
— Não — concordei. — Significa só que não é algo a ser resolvido agora.
Edward estendeu a mão, tocando a minha como se ainda estivesse testando limites.
— Eu preciso consertar as coisas — disse. — E sem usar você como muleta.
— E eu preciso parar de aceitar migalhas só porque elas vêm de alguém que conheço — respondi.
Ele sorriu de leve, triste e honesto ao mesmo tempo.
— Mesmo assim…
Não houve promessas ou avisos quando ele me puxou para perto.
O beijo foi lento, consciente, quase contido demais para tudo o que havia entre nós. Não apagava nada — nem Tanya, Emerald, Irina, nem os erros, nem o tempo. Mas também não fingia que o desejo tinha desaparecido.
— Isso não muda nada — falei, encostando a testa na dele, quando nos separamos.
Ele riu. O primeiro riso de verdade desde que entrara naquele apartamento.
— Eu sei, mas eu queria. E você também.
Não respondi de imediato. Em vez disso, ele voltou a me beijar, como se tivesse decidido que pensar demais não ajudaria ninguém naquele momento. O beijo deixou de ser contido, ainda que não tivesse pressa. Era mais firme agora, mais seguro, algo escolhido.
Minhas mãos subiram pelos ombros dele e Edward me puxou um pouco mais para perto. Nos afastávamos apenas para respirar, as testas ainda próximas, os olhares se encontrando por segundos longos demais para serem inocentes.
Até que, em uma das pausas, Edward hesitou. Foi sutil. Um atraso mínimo antes de voltar a me beijar. Eu percebi.
— Posso te perguntar uma coisa? — disse, a voz baixa, quase cuidadosa demais para o momento.
Mantive os olhos fechados, ainda com as mãos apoiadas nele, e assenti. Ele demorou mais do que o necessário para falar, como se estivesse avaliando se tinha esse direito.
— O que você vai fazer sobre Irina?
Abri os olhos. A pergunta não me pegou desprevenida, mas exigia mais do que uma resposta automática. Afastei o rosto o suficiente para encará-lo, ainda com as mãos nos ombros dele, como se aquele contato fosse o único ponto estável naquele instante.
— Eu não sei — respondi, com honestidade. — E isso é parte do problema.
Edward não disse nada. Não tentou preencher o espaço. Apenas esperou. Soltei o ar devagar antes de continuar.
— Nós brigamos hoje cedo. Por culpa sua, devo dizer — apontei seu peito. — Ela viu a mensagem e não acreditou que fosse do Emmett, então fez disso uma grande coisa e acabou indo embora.
— O que você quer dizer com foi embora?
— Exatamente isso. Ela saiu sem dizer se voltava ou para onde ia, depois de fazer um enorme drama sobre eu atuar e escolher no que ela devia acreditar.
Havia algo estranho em dizer aquilo em voz alta, como se desse mais realidade à situação do que eu gostaria. Afastei as mãos dele e caminhei alguns passos até a janela, precisando de ar.
— Eu não acho que ela tenha ido embora para sempre, não se parece com ela — continuei. — Mas também não acho que tenha sido só uma volta no quarteirão para esfriar a cabeça. Acredito que ela vá manter uma certa distância por algum tempo, na expectativa de que eu implore para voltar.
Ele assentiu, pensativo.
— E você vai?
— Não — respondi. — Eu já fiz isso antes. Agora… acho que estou cansada e considerando por um fim no meu casamento.
— Isso parece menos impulsivo do que você está fazendo soar — comentou.
— Talvez seja — dei de ombros. — Ou talvez eu só esteja cansada de negociar o tempo todo.
Ele ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo a informação.
— Eu sinto muito por ter sido o estopim — disse. — Não era minha intenção ao mandar aquela mensagem.
— Eu sei — respondi. — Se não fosse você, seria outra coisa. Isso já estava ali.
A conversa não pedia mais aprofundamento. Não naquele momento. Ficou suspensa, como tantas outras coisas naquele dia. Edward nos puxou para o sofá, parecendo relaxar pela primeira vez desde que chegara.
— A Tanya ainda vai demorar… — disse, e não deixei de notar a sugestão implícita ali.
— E ela vem buscar sua filha, que está dormindo no quarto ao lado — lembrei.
Ele virou o corpo na minha direção e encontrou minha mão no sofá, os dedos se entrelaçando com cuidado, como se ainda houvesse algo frágil ali. O beijo que se seguiu veio sem pressa, menos faminto do que antes, mais consciente.
Minha mão subiu pelo braço dele, sentindo a tensão que ainda não tinha ido embora completamente. Edward reagiu de imediato, me puxando mais para perto, o alinhando o corpo ao meu como se aquele encaixe fosse antigo demais para precisar ser explicado. O toque era firme, mas cuidadoso, como se ele estivesse o tempo todo recalculando limites, não para parar, mas para não atravessá-los sem querer.
Quando nos afastamos, ele apoiou a testa no meu ombro, respirando fundo.
— Estou com medo de estragar tudo — confessou. — Tudo o que ainda nem começou.
Ficamos assim por um tempo indefinido. O céu lá fora escurecia aos poucos, as luzes da cidade começando a se acender uma a uma. Em algum momento, Edward se afastou de mim com um cuidado quase excessivo, como se tivesse medo de quebrar o que ainda estava suspenso entre nós.
— Vou olhar a Emerald — disse. — Só checar se a febre não voltou ou se ela não está prestes a acordar.
Observei da porta do quarto enquanto ele se aproximava da cama. Emerald não dormia exatamente imóvel, então já estava em uma posição diferente da que havia sido deixada, com a testa levemente franzida, a boquinha entreaberta. Edward passou as costas da mão pela testa dela, depois tocou o pescoço, os braços, atento a qualquer sinal. Ficou ali alguns minutos, inclinado, murmurando algo baixo demais para que eu ouvisse.
Quando ela se mexeu outra vez, resmungando alguma coisa incompreensível, ele se antecipou, ajustando o cobertor, passando a mão pelas costas dela em um ritmo calmo e contínuo. Emerald não acordou, mas o corpo pareceu relaxar um pouco mais depois do toque do pai.
Mais uma vez, senti uma pontada de algo ruim. Não era exatamente inveja, mas uma sensação incômoda de querer fazer parte daquela cena e saber que não cabia ali.
— Acho que ela está quente ainda — disse, baixo. — Não com febre, mas não está normal. Acho que pode acordar a qualquer momento… com fome ou incomodada.
— Quer que eu prepare alguma coisa? Um banho, um lanche? — perguntei.
— Talvez mais tarde — respondeu. — Por enquanto, é esperar.
Voltamos para a sala, mas algo tinha mudado. Não entre nós, no ar. A consciência de que aquele intervalo tinha prazo. Foi o celular dele vibrando sobre a mesa que confirmou isso.
— Tanya — disse. — Ela está chegando.
Assenti sem discutir. Me levantei primeiro.
— Eu vou para o quarto — falei. — Consigo ouvir, mas ela não me vê.
Ele entendeu imediatamente. Aquele apartamento ajudava. Não havia fotos, não havia roupas espalhadas, não havia nada que denunciasse pertencimento. Era um espaço neutro, quase descartável.
Me afastei o suficiente para ficar fora do campo de visão dos dois, mas perto o bastante para ouvir. Sentei na beira da cama, o coração batendo mais rápido do que eu gostaria de admitir.
A campainha tocou. Ouvi a porta abrir, passos entrando.
— De quem é esse apartamento? — a voz de Tanya veio direta, sem rodeios.
— É de um amigo meu de produção — respondeu Edward.
— Você podia ter me avisado onde estava — ela rebateu. — Eu acordei e vocês não estavam lá.
— Eu sei, deveria mesmo — ele disse. — Mas ontem à noite você não estava em condições de ajudar e eu ainda não digeri isso.
Houve um silêncio curto, mas tenso.
— O que você quer dizer com isso? — ela perguntou.
— Quero dizer que você estava completamente apagada, Tanya. Eu te chamei várias vezes. Fui até o quarto, te sacudi e você não acordava. E eu não sei se foi um remédio, alguma droga, ou a mistura de tudo isso — a voz dele não subiu, mas ficou mais firme. — E eu não posso fingir que isso não aconteceu.
Meu estômago se revirou. Não pela acusação, mas pela precisão das palavras dele.
— Eu estava cansada — ela respondeu, defensiva. — Você sabe que eu não ando dormindo bem.
— Cansaço não te impede de acordar quando sua filha está com febre — Edward disse. — Isso me impediu de confiar que eu podia deixá-la ali com você.
Outra pausa.
— Eu vim buscar a Emerald e vou levá-la — Tanya disse, agora mais contida.
— Eu sei — respondeu. — Mas antes disso, eu preciso que me diga que hoje você vai ficar sóbria e que vai cuidar dela.
— Edward, isso é ridículo, ela é minha filha e… — ela começou.
— Não é — ele cortou. — É o mínimo. Se você não pode me garantir isso, ela fica comigo hoje.
O silêncio que se seguiu foi mais longo. Consegui imaginar o olhar dela, a indignação misturada com raiva.
— Você podia voltar pra casa comigo — ela tentou, mudando o tom. — A gente conversa lá. Você não precisa fazer isso desse jeito.
— Eu não vou voltar hoje — ele respondeu. — Preciso de um tempo, estou estabelecendo um limite.
— Está estabelecendo um limite ou fugindo?
— Mais como tentando ter responsabilidade — corrigiu.
Ouvi Tanya respirar fundo, como quem repensa a própria postura.
— Eu vou ficar bem hoje — disse, finalmente. — Eu prometo.
Edward não respondeu de imediato.
— Então você vai levá-la — disse, por fim. — Mas se eu souber que isso voltou a acontecer, a conversa vai ser outra. E não vai ser só entre nós dois.
O som de passos se afastando indicou que ele foi buscar a filha.
Fiquei sentada, imóvel, enquanto ouvia a porta do quarto abrir, o choro baixo de Emerald ao ser acordada, a voz de Edward falando com ela com uma calma que só existia naquele cenário.
Quando os passos se aproximaram da porta de novo, eu me levantei, pronta para voltar para a sala.
— Eu te ligo amanhã — Tanya disse, já do lado de fora.
— Eu sei — respondeu Edward.
A porta se fechou, ouvi o barulho da tranca e só então saí do quarto.
Edward estava parado no meio da sala, que agora parecia um espaço vazio demais sem a presença da filha. O silêncio agora era outro. Nos encaramos por alguns segundos. Não havia alívio. Havia uma clareza enorme de que aquele momento tinha sido exatamente o que precisava ser.
E justamente por isso, as coisas não podiam ficar do mesmo jeito.
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