Daylight
8 Capítulo 7
Notas iniciais
Bella
Meu celular repousava sobre o travesseiro como se fosse apenas mais um objeto. Mas eu sabia que não era. Cada vez que virava para o outro lado na cama, cada vez que puxava o lençol até o queixo, meu corpo me lembrava de que não havia nada comum naquela espera.
Naquela noite, Irina não dormiu comigo. Disse que precisava revisar um roteiro, que o quarto de hóspedes era mais silencioso, mas eu sabia que era só a forma dela marcar território sem precisar de discussão: se afastar, me punir com a ausência. Já tinha feito isso antes.
Eu fiquei sozinha na cama grande demais, ouvindo os passos dela pelo corredor até a porta se fechar. Jake subiu comigo, enroscou-se aos meus pés, e só então o silêncio se instalou de verdade. Um silêncio que não era paz, mas castigo.
“Preciso te ver.”
As palavras dele estavam lá, sozinhas, ardendo como um fósforo aceso.
Minhas mãos tremeram. Poderia simplesmente apagar, fechar os olhos e acordar amanhã como se nada tivesse acontecido. Mas a verdade é que eu já tinha passado do ponto de retorno desde o momento em que respondi a primeira mensagem.
Escrevi uma, duas, três respostas diferentes. Apaguei todas. No fim, digitei apenas uma palavra.
De: Bella Swan
Onde?
Demorou segundos para que chegasse a confirmação de leitura. Meu coração disparou tanto que precisei me sentar na beira da cama, tentando não fazer barulho. A resposta veio logo depois, curta, objetiva.
De: E.
Me diga um lugar.
A frase piscava na tela como um desafio.
Mordi o lábio, tentando ignorar a sensação de que estava prestes a atravessar uma linha que não teria volta. Eu poderia ter dito qualquer coisa, inventado uma desculpa, mandado um endereço qualquer só para ganhar tempo. Mas meus dedos se moveram sozinhos, como se soubessem o que eu queria antes mesmo que minha cabeça aceitasse.
De: Bella Swan
Tenho um apartamento em Silver Lake. Ninguém sabe dele.
Anexei o endereço e a resposta dele veio rápido demais, como se já estivesse pronto para se mover a qualquer hora.
De: E.
Quando?
Olhei para o relógio na cabeceira. Passava das duas. O silêncio da casa só fazia a ansiedade latejar ainda mais e, se fosse esperar até amanhã, eu desistiria.
De: Bella Swan
Agora.
Por um instante, temi ter ido longe demais. Mas a confirmação apareceu segundos depois, tornando aquela decisão definitiva.
De: E.
Estou indo.
O impacto dessas duas palavras me fez levantar da cama como se o colchão queimasse. Entrei no closet e acendi apenas a luz mais fraca, quase como se tivesse medo de ser pega em flagrante, embora não houvesse ninguém ali para me flagrar.
Passei os dedos pelos cabides sem realmente enxergar as roupas, o coração martelando como se quisesse denunciar a decisão que eu tinha acabado de tomar. Escolhi um jeans escuro, um casaco leve, algo simples. Não queria parecer que estava me arrumando para ele, embora cada gesto denunciasse exatamente isso.
O espelho refletia uma versão de mim que eu quase não reconhecia: nervosa, viva, com o rosto corado em expectativa. Minhas mãos tremiam enquanto puxava o zíper da bolsa. Coloquei o celular dentro, a chave do carro, e fiquei parada por alguns segundos, encarando o próprio reflexo.
Jake ergueu a cabeça no exato momento em que abri a porta do quarto, como se soubesse que estava acontecendo algo fora do normal. Me abaixei, beijei o topo da sua cabeça e sussurrei.
— Você vem comigo, garoto.
O corredor estava mergulhado em silêncio. Irina continuava no quarto de hóspedes, e a ideia de que ela poderia abrir a porta a qualquer instante só tornava meus passos mais rápidos. Peguei as chaves, respirei fundo e atravessei a sala como se fosse território inimigo.
Quando a porta do carro se fechou atrás de mim, percebi que já não havia retorno.
x~x~x~x~x~x~x~x
Edward
“Agora”
Senti o estômago despencar. Olhei para a porta do quarto. Tanya dormia pesado, aquele sono que a madrugada fabrica quando você está cansado demais (ou chapado demais) para sonhar. A babá eletrônica de Emerald estava no canto, a respiração dela em um ritmo calmo que me partia e me mantinha inteiro ao mesmo tempo.
Passei a mão no rosto. Que tipo de homem faz o que fiz e depois sai no meio da noite? Que tipo de pai vai encontrar outra mulher enquanto a filha dorme?
Fui até o quarto, aproximei-me do berço, encostei os lábios na testa quente da minha filha e sussurrei.
— Eu volto antes de você acordar, tá? Prometo.
Peguei a jaqueta no encosto da poltrona, as chaves, o celular. Calcei os tênis no corredor, em silêncio. A luz azul do elevador me deixou ainda mais pálido e eu mal me reconheci no espelho: olhos fundos, coração no pescoço e, por dentro, vinte e dois anos de novo.
No estacionamento, o ar frio agiu como se segurasse meu rosto com as duas mãos. Entrei no carro e fiquei um segundo a mais com as mãos no volante antes de ligar.
Los Angeles parecia menor na madrugada, com as ruas vazias, sem testemunhas. No primeiro semáforo, pensei no que dizer quando a visse. “Desculpa.” “Senti sua falta.” “Não consegui te esquecer.” Tudo soava pobre perto do que eu carregava no peito.
Estacionei a uma quadra do endereço que ela mandou. Não por medo, mas por discrição. Coloquei o capuz e subi a rua com as mãos nos bolsos, sentindo a pele das costas formigar. O prédio era simples, discreto. Perfeito para não existir para ninguém.
No hall, apertei o número do apartamento. Nenhum som. Tirei o celular do bolso.
“Estou aqui.”
Três segundos depois, a porta no final do corredor abriu não mais que um palmo. Uma linha fina de luz cortou a penumbra e, por trás dela, reconheci a silhueta que eu teria encontrado no escuro em qualquer lugar do mundo.
Respirei. Dei dois passos. E o resto da cidade sumiu.
Ela abriu só o suficiente para me deixar passar, e quando entrei, a porta se fechou rápido atrás de mim, abafando o mundo lá fora. O apartamento era silencioso, um espaço pequeno, impessoal, mas seguro. O tipo de lugar feito para guardar segredos.
Por alguns segundos, nenhum de nós se moveu. O som mais alto era o da minha respiração, que não conseguia controlar. Ela segurava o celular na mão ainda, como se não tivesse decidido soltá-lo.
— Você veio mesmo… — a voz dela soou baixa, quase surpresa.
— Você me chamou — respondi, sem pensar.
O ar ficou denso entre nós. Ela estava de meias, cabelo solto caindo pelos ombros, e eu precisei fechar os punhos dentro do bolso para não atravessar o espaço de uma vez.
— Bella… — comecei, mas as palavras fugiram. Tudo o que eu tinha ensaiado no carro — desculpas, justificativas, perguntas — se desfez assim que a vi de perto.
Ela desviou o olhar, passou a mão pelo cabelo, e riu nervosa.
— Isso é uma loucura.
— Eu sei — dei um passo à frente, lentamente.
Ela ergueu os olhos e me prendeu ali. O mesmo olhar que me desmontava quando tínhamos vinte anos, o mesmo olhar que eu carreguei comigo em cada quarto de hotel, cada madrugada em que prometi que já tinha superado.
— Não é tão simples — disse, mas a voz dela quebrou na última palavra.
— Nunca foi — aproximei mais um passo, até que eu pudesse sentir o cheiro do shampoo no cabelo dela, familiar demais para ser esquecido.
Ela fechou os olhos por um instante, como se lutasse contra o óbvio.
— Edward…
O nome nos lábios dela foi mais do que eu podia aguentar. Estendi a mão, hesitante, e toquei de leve seus dedos, que ainda seguravam o celular. Ela não se afastou. Pelo contrário, deixou escapar um suspiro curto, como se tivesse esperado por aquele contato.
O celular escorregou da mão dela para o sofá. E, no silêncio que se seguiu, eu soube que não havia mais volta. Ela puxou o ar com força, como se o gesto fosse capaz de criar uma barreira entre nós.
— Você não deveria estar aqui — disse, mas não havia firmeza suficiente para que soasse como ordem.
— Eu sei — respondi, e minha voz saiu mais grave do que eu pretendia — Mas você também não deveria ter me chamado.
O olhar dela desviou de mim, e eu aproveitei para avançar meio passo. Não precisava tocar mais, não ainda, a distância curta já era uma tortura.
— Eu… não pensei — Bella admitiu, baixando os olhos — Quer dizer, eu pensei o tempo inteiro, e foi justamente isso que me fez escrever. Mas agora… agora parece errado.
Mordi o lábio, sentindo a boca seca.
— Errado foi te deixar ir todas as vezes que você pediu.
Ela ergueu o rosto de novo, e havia lágrimas presas na linha dos cílios, mas ela não piscou.
— Você não pode falar assim. Eu tenho uma vida, Edward. Um casamento, uma… — a voz falhou antes que terminasse.
Um silêncio cheio de verdades não ditas caiu entre nós. Jake rosnou baixinho de algum canto do apartamento, como se sentisse o peso da tensão. Claro que ele estava aqui, parecia até roteirizado.
— Você não faz ideia do risco que eu corro só de ter aberto essa porta — ela sussurrou, e o tom era mais confissão do que reprovação.
— Eu não vim aqui pra destruir nada, Bella. Eu vim porque desde aquele dia no café não consigo fingir que nada existiu entre nós — soltei em seguida, a urgência escapando de mim.
Ela fechou os olhos, balançou a cabeça devagar, mas não recuou.
— Você fala como se fosse fácil, como se não houvesse ninguém mais envolvido, como se você não estivesse aqui escondido da sua mulher e da sua filha!
— Nunca vai ser fácil — minha voz quebrou no meio, mas eu não desisti. — Mas você ainda sente alguma coisa por mim. Eu sei que sinto.
Os olhos dela me encontraram outra vez, e por um segundo a expressão oscilou entre medo e rendição.
— E se eu disser que sim? — a pergunta veio tão baixa que quase se perdeu no ar. — O que você faz, Edward?
Meu peito se expandiu, como se cada batida fosse me arrebentar por dentro.
— Eu faço o que deveria ter feito há anos e luto por você — respondi.
Ela riu, mas não havia humor, apenas incredulidade.
— Como se fosse simples… largar tudo, virar as costas, começar de novo.
Balancei a cabeça devagar.
— Não é simples, não estou dizendo isso. Mas o que nós vivemos também nunca foi comum, Bella. Você sabe disso.
Ela cruzou os braços, como se quisesse criar uma armadura, mas os dedos dela tremiam.
— E a Tanya? E Emerald? Você não pode falar como se elas não existissem.
Engoli seco ao ouvir o nome da minha filha.
— Eu nunca vou deixar de ser pai da Emerald. Mas ser pai dela não me obriga a viver uma mentira — pausei, tentando encontrar os olhos dela outra vez. — Você realmente acredita que ela vai crescer melhor vendo dois adultos que não se suportam dentro de casa?
A respiração dela acelerou.
— E a Irina? — a voz dela falhou. — Você acha que eu posso simplesmente ignorar o casamento que nós construímos, o que ela me deu, a estabilidade…
— Estabilidade não é amor, acredite — cortei, firme, mas sem levantar a voz. — Eu vi seu rosto naquele evento. Vi como você me olhou, mesmo tentando esconder. Você acha que isso acontece todo dia? Acha que alguém pode apagar o que tivemos?
Ela balançou a cabeça, quase em desespero.
— Você não pode falar assim…
Dei mais um passo, diminuindo ainda mais a distância, mas ainda sem tocá-la.
— Então olhe nos meus olhos e me diga que não sente nada. Que eu estou errado.
O silêncio se alongou, pesado. Ela abriu a boca, fechou, mordeu o lábio inferior até ficar vermelho, mas as palavras não vieram.
— Bella — chamei de novo, quase num sussurro. — Diga. Você precisa dizer.
Ela inspirou fundo, mas o que saiu foi apenas uma confissão.
— Eu tenho medo.
Meu coração disparou.
— Do que você tem medo? De mim ou de você mesma?
Ela fechou os olhos, e uma lágrima escapou antes que conseguisse impedir. Ela ergueu a mão apressada, como se quisesse esconder o rosto, mas não teve tempo de enxugar.
— Eu tenho medo de me perder de novo — a voz dela saiu baixa, frágil. — De jogar tudo pro alto e depois descobrir que nada mudou, que nós continuamos ferindo um ao outro do mesmo jeito.
Senti o impacto das palavras como um soco, mas não recuei.
— Bella, eu vivi todos esses anos cercado de roteiros, de câmeras, de pessoas que juram saber quem eu sou. Mas nada disso apagou você. Nem os personagens, nem as viagens, nem a rotina de fingir em público. Se eu ainda estou aqui, se nós ainda estamos aqui, é porque alguma coisa permaneceu.
Ela riu, nervosa, passando as mãos pelo cabelo.
— Você não entende… Eu não posso me afundar de novo, não depois de tudo. Eu não posso…
— Mas você já está se afundando — interrompi, firme. — Só que de outra forma. Está se afundando numa vida que te sufoca. Você não vive, Bella. Você se mantém de pé.
Ela abriu os olhos, e o olhar dela me atravessou como uma lâmina.
— E você vive, Edward? — sussurrou. — Você vive mesmo? Ou só acha que me ter de volta vai curar o resto?
A pergunta me deixou sem fala por um instante. Respirei fundo, sentindo o peso daquilo.
— Eu não sei o que vai acontecer se você me deixar voltar pra sua vida — admiti, honestamente. — Mas sei o que acontece se você não deixar: vai continuar fingindo que não sente, e isso vai nos destruir mais do que qualquer queda.
Ela ficou imóvel. Só o peito subia e descia em ritmo descompassado, como se cada palavra fosse um golpe. Dei outro passo. Agora, havia menos de um palmo de distância entre nós.
— Se for medo, deixa que eu carregue isso com você — murmurei. — Mas não diz que não sente, porque eu sei que sente.
Bella tremeu, como se cada fibra do corpo dela estivesse em guerra entre fugir ou se entregar. Ela respirou fundo, abriu os olhos ainda marejados, e balançou a cabeça devagar.
— Então me explique, Edward — a voz dela saiu embargada, mas firme. — Por que você ainda está com ela? Por que… — hesitou, como se as palavras doessem até para serem ditas — Por que a Tanya?
Engoli em seco outra vez. A pergunta que eu mesmo já me fiz tantas vezes.
— Porque era o caminho fácil — admiti — Porque depois de você, eu não conseguia mais… — soltei o ar, pressionando a testa com os dedos — Bella, quando nos encontramos de novo, cinco anos atrás… quando a gente… — minha voz falhou, mas continuei — Mesmo que tenha sido só uma noite, eu percebi que nada tinha mudado. Que eu ainda te amava da mesma forma.
Ela fechou os olhos, o impacto da lembrança claro no rosto. Eu podia ver nos dedos dela, trêmulos, que ainda sentia cada detalhe.
— Mas você me mandou embora — continuei, a voz mais baixa. — E eu… eu aceitei. Eu fui embora porque era o que você queria. Ou pelo menos o que dizia querer. E depois daquilo, eu não tinha mais forças pra insistir.
Bella me olhou, a respiração acelerada, como se cada palavra fosse um golpe.
— Então por que ela? — insistiu. — Por que a Tanya?
Suspirei.
— Porque ela estava lá. Porque ela não exigia nada. Porque era mais fácil viver dentro de um papel do que encarar o vazio que você deixou — soltei uma risada curta, sem humor. — Eu me escondi atrás dela, Bella, mas não a amo. Acho que nunca amei.
x~x~x~x~x~x~x~x
Bella
As palavras dele me atravessaram como um soco, e antes que eu pudesse responder, a lembrança veio inteira, sem pedir licença. Cinco anos atrás. Uma noite que eu achei que poderia enterrar no fundo da memória, mas que nunca deixou de doer.
Lembro da festa, do quarto de hotel, da luz baixa e dos copos esquecidos pela metade na mesa. Eu tinha acabado de sair de mais uma briga com Irina, e ele… ele tinha me procurado, como tantas outras vezes, só que daquela vez eu deixei. Deixei porque estava cansada, porque estava quebrada, porque era ele.
Quando ele encostou os lábios nos meus, eu me odiei por não resistir. Mas ao mesmo tempo, foi como respirar depois de anos presa embaixo d’água. A urgência, a raiva, o desespero, tudo explodiu. E, por algumas horas, eu acreditei que talvez ainda houvesse salvação.
Depois, fiquei olhando o teto, fingindo dormir para não ter que encarar o que significava. Ele passou os dedos pelo meu cabelo como se quisesse segurar aquilo, como se tivesse esperança. E eu, covarde, esperei até o amanhecer para dizer o que sabia que o machucaria mais do que qualquer outra coisa.
Você precisa ir embora, Edward.
Ele tinha os olhos vermelhos, como se não acreditasse que eu estava fazendo aquilo de novo. Mas não discutiu. Só levantou, vestiu a roupa e saiu. O som da porta fechando ainda ecoa quando lembro dessa noite.
De volta ao presente, percebi que estava tremendo.
— Eu mandei você embora — minha voz saiu baixa. — Eu disse aquelas palavras porque estava apavorada. Eu não sabia como lidar com o que eu ainda sentia, então escolhi o que parecia mais seguro.
As lágrimas escorreram antes que eu pudesse impedir, mas continuei falando.
— E me odeio todos os dias por ter feito isso.
Ele me olhava como se cada sílaba fosse a prova que sempre quis ouvir. E o pior é que eu sabia: eu nunca tinha deixado de amá-lo. Limpei as lágrimas com as costas da mão, mas era inútil quando elas continuavam caindo. Ele não desviava os olhos de mim, como se esperasse cada palavra.
— Então me responda, Edward — minha voz saiu trêmula, mas firme o bastante para não ser engolida pelo silêncio. — Se aquela noite significou alguma coisa pra você, por que está com a Tanya? Por que voltou para Los Angeles com ela como se nada tivesse acontecido entre nós?
Ele respirou fundo, passou a mão pelo cabelo e fechou os olhos por um instante.
— Porque você me mandou embora, Bella — disse, baixo, mas sem hesitar. — Eu estava machucado, e quando ela apareceu, me oferecendo algo que parecia bom, parecia mais fácil do que continuar tentando correr atrás de alguém que não queria ser encontrado.
A voz dele falhou, e meu peito apertou.
— Eu achei que se eu fingisse tempo suficiente, aquilo ia se tornar real — ele continuou. — Mas nunca foi. Não quando eu voltava para casa, não quando fingimos ser uma família perfeita. Nunca foi real porque você ainda estava aqui — ele tocou o peito com a mão fechada, o olhar queimando o meu.
Eu engoli em seco, tentando ignorar a onda que me arrastava.
— E por que aqui? — perguntei, quase num sussurro. — Por que voltar pra cá, pro lugar que mais dói?
Ele respirou fundo, desviando o olhar por um instante antes de voltar para mim.
— Porque foi escolha dela. Ela queria estar aqui, onde acreditava que poderia ser vista. Eu não lutei contra. Não tinha mais forças — fez uma pausa, e sua voz suavizou. — Mas a verdade é que, no fundo, eu sempre soube que estar aqui significava você.
Meu corpo inteiro se arrepiou, e por um momento não consegui responder. Era como se cada sílaba encontrasse um lugar onde ainda havia ferida aberta.
— Não fala assim… — consegui murmurar, mas soou frágil, quase uma súplica. — Você não pode colocar essa responsabilidade em mim.
— Não estou — ele respondeu de imediato, se inclinando um pouco mais. — Eu só estou dizendo o que é verdade. Você sabe que sempre foi você, Bella.
O ar parecia mais pesado a cada segundo. Eu cruzei os braços, tentando me proteger, mas era inútil, minhas mãos tremiam.
— Eu não posso simplesmente… jogar fora a vida que eu tenho — a frase saiu em um fio, como se tentasse me convencer também. — Eu não posso…
Ele deu um passo, e meu coração saltou.
— Então olhe para mim agora e diga que não quer e que não sente nada, eu viro as costas e saio por aquela porta.
Fechei os olhos, mas as lágrimas escaparam, quentes, denunciando o contrário. Quando abri de novo, ele estava a menos de um passo, os olhos fixos nos meus como se o mundo dependesse disso.
— Edward… — minha voz falhou, mas o nome dele nos meus lábios foi tudo o que ele precisava.
A mão dele subiu até meu rosto, hesitante no primeiro segundo, depois firme. O calor do toque incendiou cada parte de mim que eu tinha tentado manter dormente por anos.
— Você ainda é minha, Bella — ele sussurrou, e antes que eu pudesse responder, o espaço entre nós desapareceu.
A boca dele encontrou a minha com urgência, não com a pressa de quem quer tomar, mas a de quem não aguenta mais segurar. O beijo foi um choque, um reencontro, uma confissão que nenhuma palavra teria traduzido. Meus dedos agarraram a camisa dele, puxando-o mais perto, como se meu corpo tivesse guardado de memória como se encaixar no dele.
Quando o ar nos faltou, encostei a testa na dele, ofegante.
— Isso é errado… — murmurei, mas já sem acreditar.
Ele sorriu de leve, com os olhos ainda fechados.
— Então por que parece a coisa mais certa que eu já fiz?
Eu fechei os olhos, sem resposta. Porque no fundo, eu já sabia que não havia como lutar contra o que explodia ali.
E foi assim que percebi que não existia mais linha de retorno.
Beijar Edward Cullen depois de tanto tempo só podia ser descrito como catártico. Nada se comparava ao toque dos lábios dele nos meus, nossas línguas juntas, suas mãos no meu cabelo, a minha puxando seu rosto para mais e mais perto como se pudéssemos nos fundir em um só.
Em algum momento, registrei que uma de suas mãos desceu pelo meu pescoço, colo e encontrou a linha da borda do meu sutiã, ainda por cima da camiseta. Seus dedos fizeram um carinho gentil, contornando meus seios como se pedissem permissão. Em resposta, arqueei meu corpo para ficar ainda mais perto.
Meus dedos agarraram a camisa dele, e eu puxei seu rosto para o meu, faminta por aquele toque que eu passei anos tentando esquecer. O beijo foi urgente, a boca dele encontrando a minha em um desespero que espelhava o meu. Nossas línguas se encontraram, uma dança de reencontro que tinha a urgência de quem está perdido e a saudade de quem acabou de ser encontrado.
Suas mãos subiram para o meu cabelo, os dedos enfiados em meus cachos, puxando-me para mais perto, como se ele quisesse nos fundir em um só. Eu me agarrei a ele, as unhas arranhando as costas dele, e senti o meu corpo inteiro acender em chamas. Minhas mãos, que antes tremiam de medo, agora se moviam sozinhas, uma descendo pela sua nuca e a outra encontrando o cinto, puxando-o para mim com força.
Minhas pernas envolveram sua cintura por instinto, e o que eu sentia não era paixão, mas uma sede antiga. A de ser vista, de ser desejada. A de ser a única pessoa que parecia atravessar Edward Cullen. Ele me segurou contra a parede, e eu pude sentir o ritmo acelerado de seu coração contra o meu peito, um eco do meu próprio.
— Aqui? — ele perguntou, e eu entendi imediatamente a que ele se referia.
— Segunda porta à direita — indiquei com a cabeça.
Sem quebrar o beijo, ele me carregou para o quarto, e me deitou gentilmente na cama. A luz fraca do abajur do corredor era a única testemunha de nossa rendição. Ele desceu, beijando meu pescoço, meu ombro, o espaço acima dos meus seios. Cada toque era uma lembrança de algo que eu tentei enterrar, mas que nunca, em momento algum, havia morrido.
As mãos dele subiram por minha camiseta, e eu o ajudei a tirá-la. A minha respiração era ofegante. Deitei na cama, o corpo exposto à luz fraca, sentindo o ar frio em minha pele. Ele me olhou, e eu soube que não era um olhar de luxúria, mas de pura adoração.
E foi aí que eu parei.
Fale com o autor