Bella

O celular vibrou sobre o balcão, e eu sabia que não era trabalho antes mesmo de olhar.

E.

A última vez que vi esse nome aceso na tela foi ontem, e a mensagem ainda estava lá, não lida oficialmente, mas gravada na minha cabeça. Eu não respondi. Passei a noite tentando me convencer de que não havia nada para responder.

Puxei o celular como quem puxa uma corda prestes a arrebentar e li.

Não consigo parar de pensar no que aconteceu.

Você sente o mesmo que eu?

Uma mensagem simples, mas nada vindo dele era simples, e eu já sabia disso desde antes de saber o que fazer com a sensação de desejar alguém. Tentei deixar o café esquentar e me distrair. Não consegui.

A primeira vez que questionei quem eu era, o que eu queria, não foi com Edward. Foi muito antes, quando eu ainda não sabia traduzir os sinais. Eu tinha medo e curiosidade na mesma medida.

Com ele, foi diferente. Com ele, as coisas ganharam nome. O toque deixou de ser acidental. A sensação de ser olhada — realmente olhada e notada — acendeu em mim algo que eu não sabia que estava ali, mas que parecia estar esperando só por ele. Edward tinha essa maneira de me fazer sentir desejada como se fosse inevitável. E eu aprendi rápido a desejar de volta.

Apertei a tela para bloquear o celular e respirei fundo. Aquela sensação, tão familiar, tão antiga, estava de volta agora. Não era só sobre ele, era sobre quem eu me tornava perto dele. E isso era perigoso.

Irina não entenderia. Talvez ninguém entendesse. E, no fundo, eu também não sabia se queria entender.

Coloquei a caneca sobre a pia, mas não bebi. Apoiei as mãos na borda e fiquei olhando para minha própria sombra na janela, como se ela pudesse me responder.

Lembrei da primeira vez que Edward me beijou. Não foi cinematográfico. Não foi acompanhado por música nem por um cenário perfeito. Foi rápido, inesperado e, mesmo assim, foi o momento em que eu soube que nada mais seria igual.

Ele tinha essa forma de encurtar distâncias, de invadir meu espaço sem me deixar sentir invadida. Os dedos dele no meu rosto pareciam ter a medida exata do que eu aguentava e do que eu queria, e eu nunca tinha tido isso antes.

Meu estômago revirou. Não de nervoso, mas de um reconhecimento involuntário, quase físico. Um reflexo de algo que o meu corpo lembrava melhor do que minha cabeça.

Toquei a tela do celular outra vez, o nome dele ainda lá, esperando. Bastava uma frase. Bastava um “sim”. Mas qualquer resposta abriria uma porta que eu não tinha certeza de conseguir fechar.

O barulho da porta do quarto se abrindo me trouxe de volta. Irina apareceu no corredor, já maquiada, com os saltos ecoando no piso de madeira.

— Você não vai se arrumar? Temos reunião daqui a pouco.

Assenti, mas não me mexi. E percebi que, por mais que ela estivesse falando de trabalho, eu estava em outro lugar. Em outro tempo. E era esse o problema.

No carro, Irina falava sobre orçamentos, prazos e um patrocinador que ela estava tentando fechar há semanas. Eu assentia, olhava pela janela e soltava respostas automáticas.

— Você ao menos está me ouvindo, Isabella? — ela perguntou, com aquele tom de impaciência que se usa para falar com uma criança birrenta.

— Sim — menti — Só estou pensando na apresentação.

Na verdade, minha cabeça estava longe dali. Voltei a lembrar de um dia em que Edward apareceu no set, sem avisar, só para me ver. Ele ficou encostado na lateral de um trailer, com aquele sorriso torto, observando cada movimento meu. Na hora, eu fingi que não tinha notado. Mas por dentro… tudo vibrava.

— Certo — Irina suspirou. — Então espero que essa sua concentração renda algum resultado. Você não pode simplesmente desligar quando estamos falando da produtora, Bella.

— Eu sei — respondi, tentando ignorar a ironia implícita. — Ainda sou a dona.

Estacionamos, e quando olhei no retrovisor percebi que meu rosto ainda estava quente, como se o simples ato de pensar nele fosse suficiente para deixar marcas visíveis. Respirei fundo, tentei compor a expressão neutra que aprendi a usar como armadura. Entramos na sala de reunião e cumprimentei as pessoas conhecidas. Sentei ao lado de Irina, com o celular virado para baixo sobre a mesa.

Mas a presença dele estava ali. Não na sala, mas em mim. Nas lembranças que insistiam em atravessar qualquer tentativa de foco. Enquanto um dos produtores falava sobre as metas para o próximo trimestre, minhas mãos formavam palavras invisíveis na perna: "sim", "não", "não sei".

Porque a verdade era que eu já sabia o que queria responder. Só não sabia se estava pronta para lidar com o que viria depois.

A reunião terminou e todos começaram a se levantar, empilhando papéis e levando seus copos de café pela metade. Irina foi cercada por dois executivos para falar de um contrato, e eu aproveitei para me afastar.

Caminhei até o corredor mais silencioso, encostei as costas na parede e peguei o celular. Ele estava exatamente como eu tinha deixado: a tela escura, sem uma foto de bloqueio. Desbloqueei, abri a conversa. A mensagem dele continuava lá, simples, direta, impossível de ignorar.

"Você sente o mesmo que eu?"

Meu polegar começou a deslizar pelo teclado.

"Não é tão simples assim."

Apaguei.

"Sinto. Mas não deveria."

Apaguei.

"Você está me confundindo."

Apaguei de novo.

Respirei fundo e fechei os olhos. Eu sabia que, se enviasse qualquer coisa, mesmo a mais neutra das respostas, estaria abrindo uma porta que talvez não conseguisse fechar. E uma boa parte de mim queria escancarar essa porta.

A ponta do meu dedo estava sobre o botão de enviar quando ouvi passos se aproximando.

— Bella? — a voz de Irina cortou o silêncio como um aviso — Está tudo bem?

Olhei para ela e sorri rápido, de forma automática.

— Sim. Só estava respondendo um e-mail.

Ela me observou por um segundo a mais do que eu gostaria, depois assentiu e voltou pelo corredor.

Travei o celular e enfiei no bolso, sentindo o coração bater rápido demais. Eu não tinha enviado nada. Ainda.

Voltei para casa e o dia seguiu como tantos outros, pelo menos na superfície. Eu respondi e-mails, revisei a agenda, dei uma olhada rápida em um contrato que Irina deixou em cima da minha mesa como quem deixa um bilhete.

Na sala, Jake se deitou ao meu lado no sofá, a cabeça pesada no meu pé, e por um momento pensei que talvez eu pudesse me distrair com a calma dele. Não consegui.

A mensagem de Edward estava ali, no fundo da mente, como uma música tocando em volume baixo, impossível de ignorar. Eu lembrava das palavras, da pontuação, do jeito que ele dizia “você sente o mesmo que eu?”.

Mas o que exatamente Edward sentia? Não era só sobre ontem. Era sobre tudo o que veio antes e que eu jurava que tinha trancado numa gaveta cuja chave estava perdida há muito tempo.

O som de uma notificação me fez pegar o celular rápido demais, com o coração adiantando o passo. Não era ele. Apaguei sem ler.

Quando Irina chegou, a cozinha ficou cheia com o barulho da porta batendo, das sacolas na bancada. Ela falou sobre o dia depois que saí, sobre a reunião com um cliente difícil, sobre como achava que deveríamos reformar o pequeno estúdio. Eu assenti no momento certo, falei o mínimo necessário, e a cada pausa dela minha cabeça voltava para aquela tela de conversa.

Era ridículo. Eu não era mais aquela menina que esperava uma mensagem dele para decidir o humor do dia. E, ainda assim, ali estava eu, preparando um chá como se precisasse de algo quente nas mãos para não responder.

Irina estava no sofá, com o notebook apoiado nas pernas, quando saí da cozinha. Não levantou os olhos, mas sua voz veio cortante.

— Amanhã temos o brunch com seu novo patrocinador. Espero que não invente desculpas dessa vez, porque você é o rosto dessa campanha.

— Eu não inventei desculpas, Irina. Eu realmente não estava bem.

Ela fechou o notebook com um estalo seco.

— Você não estava bem ou não estava disposta a ir? Porque são coisas diferentes, Bella. E, sinceramente, eu já cansei de adivinhar.

— Talvez você se canse porque só me pergunta quando o resultado afeta você — soltei, antes que pudesse filtrar.

O silêncio que veio depois foi mais incômodo que qualquer grito. Ela me olhou de cima a baixo, como se medisse até onde valia a pena gastar energia.

— Você está estranha ultimamente.

— Distante é a palavra, Irina, você pode dizer.

— Ótimo que você decidiu nomear alguma coisa pela primeira vez. Me avise quando decidir qual será seu comportamento amanhã.

Ela levantou e foi para o quarto, deixando a luz da sala acesa e o ar carregado atrás dela. Fiquei ali, parada, sentindo a garganta arder, não pela discussão e sim pela clareza que veio junto.

Talvez tenha sido a primeira vez que entendi que não tinha mais nada ali para lutar. Nenhuma ponte para reconstruir. Meu casamento só existia pelo hábito de ficar.

Quando fui para o quarto, meu celular estava carregando ao lado da cama. Olhei para ele como quem olha para uma porta que sabe que não deveria abrir, apesar de querer. Jake deitou no tapete ao meu lado e me olhou como se nós dois tivéssemos uma comunicação por telepatia.

A pergunta dele, tão simples, ainda estava lá, pulsando. E o pior é que, mesmo sem querer, a resposta também estava. Eu seria uma pessoa tão ruim assim se respondesse? Se dissesse o que queria? Não sabia o quanto essas vontades eram sobre sentimentos verdadeiros.

Peguei o celular outra vez, o brilho da tela iluminando o quarto quase escuro. Não pensei em ensaiar. Não pesei prós e contras. Só escrevi, com os dedos firmes como se meu corpo tivesse decidido, ao invés da mente.

É óbvio que eu sinto.

Sempre senti.

Olhei para as palavras por alguns segundos, esperando que alguma parte minha gritasse para apagar. Não aconteceu. Enviei a mensagem. Não havia mais espaço para "e se". Eu tinha acabado de atravessar uma linha que vinha desenhando mentalmente pelos últimos anos.

O quarto estava silencioso, exceto pelo som da minha própria respiração acelerada, mas, por dentro, parecia que tudo tinha começado a se mover.

Sem espaço para arrependimentos, alcancei um comprimido na mesa de cabeceira e engoli, com um gole de água. Enquanto aguardava o efeito do calmante que me faria dormir, tentei afastar qualquer expectativa.

Amanhã seria um novo dia e eu precisaria vestir a máscara de esposa feliz, pelo menos por algumas horas.

x~x~x~x~x~x~x~x

Acordei antes do despertador. O quarto ainda estava silencioso, mas minha mente já era barulhenta demais para voltar a dormir.

A primeira coisa que fiz foi olhar o celular. A mensagem estava lá, enviada, mas sem nenhuma resposta. Olhei para ela como quem olha para uma tatuagem sabendo que é irreversível. E, por algum motivo, isso me acalmou. Estava feito.

Fui direto para o chuveiro. A água quente escorrendo pelo corpo não dissolveu a inquietação que eu sentia, mas me deu tempo para ensaiar o rosto neutro que precisaria usar nas próximas horas.

Quando saí, enrolada na toalha, percebi que Irina já não estava no quarto. Vesti um robe e atravessei o corredor até a sala. Ela estava sentada no sofá, perfeitamente pronta, com o cabelo preso em um rabo de cavalo sem um fio fora do lugar e o tablet apoiado no colo, como se estivesse prestes a apresentar um projeto para uma sala cheia de investidores.

Ela levantou os olhos quando me ouviu atravessar a sala, o olhar percorrendo meu rosto com atenção profissional antes de suavizar.

— Dormiu bem? — perguntou.

— O suficiente — respondi, apoiando o ombro na parede. — Você acordou cedo.

— Hábito — Um meio sorriso. — E hoje não é um dia para improvisos.

Caminhei até a cozinha e peguei um copo d’água, sentindo o silêncio se instalar entre nós. Não era o tipo de silêncio que constrangia. Era aquele que só existe quando duas pessoas sabem exatamente o que esperar uma da outra, pelo menos naquele contexto.

— Seu rosto está bem — Irina disse, quase como um comentário casual. — Não vai precisar de muita maquiagem.

Olhei para ela, surpresa pela atenção ao detalhe. Não era comum, mas também não era inédita. Havia dias em que ela lembrava de mim como alguém além de uma função.

— Obrigada — murmurei.

Ela se levantou e caminhou até mim, ajustando a manga do meu robe com um gesto automático, íntimo de quem já dividiu muitos bastidores.

Houve um instante de algo quase delicado ali. Não carinho, não amor. Mas respeito. Uma trégua silenciosa. Ela quebrou o momento antes que ele pudesse se alongar demais, voltando ao tom prático que dominava tão bem.

— A equipe chega em quinze minutos — avisou.

A campainha tocou pouco depois e a casa, até então silenciosa, começou a se encher de vozes. Cumprimentei cada um com beijos no ar e sorrisos, sentindo a engrenagem começar a girar.

— Bella, que bom te ver — disse a maquiadora, deixando a maleta aberta sobre a bancada como quem revela um arsenal. — Sua pele está ótima.

— Mérito de uma boa noite de sono — respondi, arrancando uma risada discreta. Ninguém precisava saber que eu tinha me dopado para dormir.

Irina observava tudo de perto.

— Queremos uma maquiagem natural hoje — comentou, apontando para a janela. — O evento é durante o dia. Nada muito pesado.

Sentei na cadeira e, enquanto o cabelo era preso provisoriamente, as mãos habilidosas trabalhavam com uma familiaridade reconfortante. O toque era profissional, mas havia algo quase terapêutico em simplesmente ficar parada enquanto outras pessoas decidiam por mim.

— Você está linda — Irina disse em algum momento, sem anunciar, como se fosse um pensamento escapando. — Já estava, mesmo antes de tudo isso.

Olhei para ela pelo reflexo do espelho. O elogio parecia honesto e isso me pegou desprevenida.

— Obrigada — respondi, mais baixo dessa vez.

Ela sustentou meu olhar por um segundo, depois virou-se para o stylist, retomando o controle da situação.

— O vestido azul vai funcionar bem hoje — disse. — Queremos algo forte, mas acessível. Nada distante da realidade demais.

Era curioso ouvir pessoas falando de mim como um projeto bem-sucedido enquanto eu tentava manter tudo em ordem por dentro. Ainda assim, ali, naquele espaço cheio de profissionais e funções claras, tudo fazia sentido.

Irina se aproximou outra vez, ajeitando um colar sobre a penteadeira.

— Vamos sair bem daqui — murmurou, só para mim. — Como sempre.

Assenti. Na frente deles, nós éramos impecáveis. Afinadas. Um time. E, por algumas horas, isso seria verdade o suficiente.

Senti saudades da minha melhor amiga, Alice. Ela me ajudaria a escolher a roupa nesse momento e também seguraria minha mão enquanto me ouviria falar sobre o encontro e as mensagens de Edward.

Mas Alice estava do outro lado do país agora, e eu tinha que encarar as consequências dos meus atos sozinha.

No caminho até o brunch, Irina falou sobre a importância de mostrarmos como funcionávamos juntas e como isso poderia abrir portas. Eu era Bella Swan, por Deus, e era a embaixadora da marca. Não era possível que meu nome não abrisse todos os caminhos que ela quisesse.

Eu ouvi o suficiente para saber quando responder com um “claro” ou um “faz sentido”, enquanto minha atenção verdadeira estava guardada na bolsa, junto com o celular.

O evento acontecia em um dos salões privativos de um hotel que todos ali já conheciam de cor. O espaço estava cheio, vozes se misturando ao som de taças batendo. Irina se afastou quase imediatamente para cumprimentar alguém, com um sorriso calculado já no rosto.

Fiquei perto da entrada, esperando a liberação das mesas e foi então que senti. Não vi nada, mas senti. Um arrepio que veio de dentro para fora, como se o ar tivesse mudado.

Levantei o rosto e, do outro lado do salão, Edward estava parado, segurando Emerald no colo, ouvindo alguém falar. O mundo inteiro, de repente, pareceu desacelerar.

Ele não me viu de imediato. Ou, se viu, fingiu que não.

Eu, por outro lado, não consegui disfarçar o mínimo. Meu corpo inteiro reconheceu antes da minha cabeça o peso do olhar dele, mesmo que ainda não tivesse me encarado diretamente.

Emerald mexeu os dedinhos no ombro do pai, distraída com o brilho de um lustre. Tanya estava ao lado, impecável como sempre, com o cabelo perfeitamente escovado e o rosto maquiado, o sorriso preciso, a mão no braço de Edward como se quisesse lembrar a todos (ou a mim) que ele era dela.

— Bella. — A voz de Irina soou mais firme dessa vez, profissional, inadiável. — É agora.

Não era um convite, mas sim uma ordem. Era minha vez de subir no palco.

Assenti antes mesmo de pensar, permitindo que ela tocasse de leve minhas costas e me guiasse alguns passos à frente. O burburinho começou a diminuir quase automaticamente, como se todos ali soubessem reconhecer o momento exato em que algo precisava ser observado.

Senti o olhar de Edward ainda em mim, pesado, presente demais para ser ignorado. Não virei o rosto. Se o fizesse, talvez não conseguisse continuar andando.

Nós paramos na lateral, esperando que o CEO fizesse as apresentações.

— Para o próximo ano, queríamos alguém que representasse mais do que imagem. Queríamos alguém que traduzisse consistência, alcance e, principalmente, credibilidade. Por isso, é com muito orgulho que anunciamos a nossa embaixadora para o próximo ano: Bella Swan.

Os aplausos vieram imediatamente, como era de se esperar. Dei um passo à frente, aceitei o microfone das mãos dele após um abraço, apenas para agradecer com um discurso curto, ensaiado, seguro.

— Obrigada, Aro. É um privilégio fazer parte disso — disse — Espero que possamos construir algo honesto e relevante juntos.

Mais aplausos. Mais sorrisos. Mais fotos posadas.

Quando desci, me forcei a buscar qualquer coisa para ocupar as mãos. Peguei uma taça de água, agradeci ao garçom, respirei fundo. Mas o ar parecia diferente, como se estivesse denso agora.

— Bella — a voz de Irina surgiu perto, junto com o toque leve na minha cintura — Vem, quero te apresentar uma pessoa.

Assenti e a segui, colocando o sorriso profissional no rosto. Eu podia fazer isso, já tinha feito inúmeras vezes.

Mas, no meio de um aperto de mãos, ele me viu. Levantei os olhos e encontrei os dele por cima do ombro de outra pessoa. Não houve sorriso, não houve cumprimento à distância. Só nos olhamos por um segundo a mais do que o aceitável.

Fui rápida em voltar à conversa que tinha à frente, mas não rápida o suficiente para impedir o eco daquilo dentro de mim.

Minutos depois, Irina foi puxada para outro grupo e eu me afastei alguns passos, aproveitando a brecha. Queria ar, mas, em vez disso, acabei indo na mesma direção que ele.

Quando percebi, estávamos a poucos metros, perto o suficiente para ouvir Emerald rindo de alguma coisa que Tanya dizia. O suficiente para sentir o perfume que eu conhecia de cor.

O que eu não esperava era a dor avassaladora que me atingiu quando vi, bem na minha frente, a imagem com a qual sonhei tantas vezes: Edward usava uma camisa branca, abotoada até o penúltimo botão, com calça e sapatos pretos, e segurava a filha. Emerald tinha duas mini-maria-chiquinhas no cabelo, o vestido claro rodando quando ela se mexia, e ria e acenava como se o mundo inteiro fosse uma festa só para ela. Tanya estava ao lado, sorrindo, absorta nos dois.

Por um segundo, uma fração de tempo, tive inveja dela. Mas tratei de lembrar que, se ela estava ali agora, era também culpa minha. Eu tinha mandado-o ir embora várias e várias vezes.

Meu coração falhou um compasso quando Emerald virou o rosto e me viu. Seus olhinhos verdes se iluminaram, e, antes que qualquer um pudesse evitar, ela apontou na minha direção.

— Au-au! — disse, empolgada, balançando as perninhas — Au-au, Jake!

O ar sumiu dos meus pulmões quando Tanya franziu as sobrancelhas, primeiro para a filha, depois para mim.

— Jake? — ela repetiu, devagar, como quem testa uma palavra estranha na boca.

Emerald bateu no ombro do pai, animada.

— Au-au, papai!

Edward pigarreou, tentando disfarçar.

— É… o cachorro que ela viu naquele dia — explicou rápido, mas a pressa só denunciava mais.

Tanya ergueu as sobrancelhas, e o sorriso que tinha nos lábios ficou rígido. Olhou para mim, como se estivesse montando um quebra-cabeça.

— Ah… entendi. — disse, mas o tom soava menos como compreensão e mais como alerta.

Eu forcei um sorriso, mesmo sentindo o chão ceder.

— Você gosta de cachorros, linda? — falei, mas me arrependi no instante seguinte, quando Emerald estendeu os bracinhos para mim, como se esperasse que eu me aproximasse. A espontaneidade dela me cortou em mil pedaços. Edward a ajeitou nos braços, desviando, e nossos olhos se prenderam no processo.

Ele baixou os olhos para mim e, por um instante, o mundo reduziu-se a isso: dois passos, uma barreira invisível e tudo o que não podíamos dizer ali. Meu coração batia tão alto que parecia impossível que ninguém notasse.

— Oi, Bella — ele disse, baixo, quase íntimo demais para o espaço em que estávamos. — Não sabia que você seria anunciada hoje, meus parabéns.

— Edward — respondi, tentando manter firmeza, ainda que por dentro tudo fosse caos. — Pois é, Aro quis que fosse uma surpresa.

O olhar dele desceu por um instante, como se quisesse registrar minha presença de perto. Tanya virou o rosto para mim e seu sorriso não vacilou nem por um segundo, pelo contrário. Ela sorriu como se soubesse que, ali, ela era quem tinha o controle.

Naquele momento, Irina apareceu logo atrás de mim, chamando meu nome. Tanya endireitou os ombros e passou o braço por baixo de Emerald, como quem marcava território, e eu soube que precisava ir embora antes que qualquer uma das duas enxergasse além do que já era evidente. Mas também sabia que já era tarde demais.

Irina segurou meu braço e me conduziu de volta, como se tivesse me resgatado de uma distração. Eu respirei fundo, tentando recobrar a neutralidade antes de me sentar à mesa. Mas não demorou muito para que o destino fizesse questão de me trair: ao lado, separada apenas por um arranjo de flores e uma toalha branca impecável, estava a mesa de Edward, Tanya e Emerald.

Claro que seria assim. Claro que o salão inteiro parecia grande o bastante, mas, ainda assim, nós cinco estávamos a poucos metros de distância, próximos demais para fingir que não.

Sentei ao lado de Irina, que já começava a trocar cumprimentos com um dos patrocinadores, enquanto eu fingia observar os talheres milimetricamente alinhados. O murmúrio de vozes ao redor era apenas um pano de fundo abafado pelo som insistente da risada de Emerald, que chegava até mim como se atravessasse qualquer barreira.

Arrisquei um olhar. Edward estava sentado de frente para mim, meio de lado por causa da filha no colo. Ele fingia estar atento a algo que Tanya dizia, mas seus olhos desviavam com frequência demais, encontrando os meus por segundos roubados. Eu desviava, mas era tarde: cada vez que isso acontecia, algo no meu peito se agitava como se estivesse preso há anos.

Enquanto eu falava sobre fotos, viagens programadas e participações em eventos com os convidados à mesa, minhas mãos se mantinham firmes, mas por dentro eu só sentia a presença dele. A forma como, mesmo em silêncio, Edward parecia ocupar todo o espaço, como se a distância de uma mesa fosse pouca demais para o que estávamos tentando esconder.

Do outro lado, Emerald bateu palminhas mais uma vez, chamando a atenção da mesa inteira. Tanya ajeitou um dos laços no cabelo dela, rindo, mas não perdeu a chance de deslizar o olhar na minha direção. Não havia nada explícito naquele olhar, só parecia que ela estava medindo o terreno.

E, no entanto, foi Edward quem entregou mais do que devia: quando Emerald apontou de novo para mim, balbuciando algo ininteligível, ele sorriu sem conseguir evitar. Não para a filha, mas para mim. Rápido, contido, mas suficiente para que eu percebesse.

Meu coração disparou, e eu abaixei os olhos para a taça à minha frente. Eu precisava de ar. Precisava sair dali antes que todo mundo percebesse o que já estava claro demais para nós dois.

Um garçom se aproximou para servir na mesa deles, tampando a visão de Tanya, e Emerald aproveitou o movimento para se inclinar em direção a mim.

— Au-au, Jake — repetiu, desta vez mais alto, atraindo os olhares da mesa inteira.

O silêncio que seguiu durou apenas alguns segundos, mas foi longo o suficiente para me incendiar por dentro.

— Jake? — um dos executivos riu, sem entender — Quem é Jake?

— Nosso cachorro — Edward respondeu rápido demais, o tom ligeiramente forçado — Ela fala dele sempre.

O riso do executivo preencheu o espaço, mas não diminuiu a tensão. Tanya inclinou-se para a filha, puxando-a para seu colo. Do meu lado, Irina endireitou a postura, como se instintivamente reconhecesse um campo de batalha.

— Nosso cachorro também se chama Jake — ela comentou, casual, mas havia um fio de desafio na voz. — Deve ser coincidência, não é, querida?

Meu coração parou por um instante. Edward tocou a cabeça da filha e desviou os olhos para a toalha, mas eu percebi a rigidez na linha do maxilar. Ele não ia sustentar aquele jogo, não na frente de tanta gente.

— Realmente, que coincidência! — Tanya completou, sorrindo, mas o sorriso era afiado demais para ser leve.

Eu não consegui responder. Apenas passei os dedos pelo copo de água, como se o vidro gelado pudesse me manter presa ao chão.

A conversa retomou o rumo dos negócios, mas o ar já estava marcado. Cada palavra parecia flutuar pesada demais, e eu mal conseguia distinguir o que Irina dizia ao meu lado. O riso de Emerald, a respiração de Edward, o olhar calculado de Tanya… tudo misturado ao meu próprio silêncio.

No fim, quando todos começaram a se levantar, eu respirei aliviada. Levantei, pronta para desaparecer dali antes que algo mais escapasse. Mas, ao virar para sair, encontrei os olhos dele de novo.

Dessa vez não havia dúvida. Ele já sabia. E eu também.

A resposta que eu enviei na noite anterior — curta, definitiva, sem chance de voltar atrás — estava pairando entre nós como uma corda esticada, invisível, mas impossível de ignorar.

As palavras que mudei mil vezes antes de enviar, as mesmas que agora queimavam na minha boca só de lembrar.

Edward me olhou como se cada gesto meu fosse confirmação do que já estava dito. Não havia sorriso, não havia disfarce. Só a certeza de que, dali em diante, nada seria igual.

E por mais que eu quisesse acreditar que ainda podia controlar o rumo das coisas… no fundo, eu já sabia que era tarde demais.