Notas iniciais
Este capítulo contém descrições gráficas de uso de substâncias ilícitas e cenas de sexo. Não continue caso seja um tópico sensível, essa história é listada como M/+18 por um motivo.


Edward

O carro estava em silêncio, exceto pelo barulho intermitente da seta e pelo zumbido abafado do ar-condicionado. Emerald tinha adormecido na cadeirinha, com a cabeça tombada para o lado, e eu agradecia em silêncio pelo ritmo da respiração dela, porque era o único som que me mantinha ancorado na terra.

Tanya não falou nada nos primeiros minutos, mas eu conhecia aquele silêncio. Ela não estava calma, estava calculando o que ia dizer.

— Então — ela começou, ajustando se olhando no espelho do quebra-sol como se fosse só mais um gesto automático — Jake…

Meu estômago revirou. Eu sabia que aquilo viria.

— O cachorro — completei, tentando manter a voz neutra, quase distraída.

Ela riu baixo, um som curto, sem humor.

— Ela viu esse cachorro com você, não viu?

Mantive os olhos na estrada.

— Viu, sim. Aquele dia no café.

— Sim, foi o que imaginei — ela fez uma pausa e eu me preparei para a bomba que viria na sequência. — E quem era a dona do cachorro?

O ar pareceu mais pesado dentro do carro. A lembrança do nome dela na tela do meu celular, da mensagem que eu li e reli durante a madrugada, queimou por trás das pálpebras.

— Alguém que conhecemos naquele dia — respondi, tarde demais para soar convincente.

Tanya me olhou de lado, demoradamente, e depois sorriu de um jeito que me deu vontade de acelerar só para encurtar a conversa.

— Você ou a Emerald conheceu naquele dia?

Minhas mãos no volante ficaram tensas, até deixar os nós dos dedos brancos. Eu poderia mentir, como tantas outras vezes. Poderia rir, jogar para longe, dizer que não era nada. Mas o problema é que ela tinha visto. Ela tinha visto a forma como Emerald estendeu os braços para Bella, como eu fiquei paralisado no meio de um salão lotado só porque ouvi meu nome na voz dela.

E, pela primeira vez em muito tempo, percebi que talvez eu nem quisesse mentir. Segurei o volante com mais força do que deveria, tentando não entregar na cara o que já transbordava por dentro.

— Conhecemos naquele dia — repeti, como se as palavras soassem mais verdadeiras se reforçadas.

Tanya ergueu uma sobrancelha, e o sorriso curto não se moveu.

— Engraçado ela lembrar tanto de alguém que vocês só viram uma vez, né?

O silêncio que seguiu foi pior que qualquer acusação. Ela não estava gritando, não estava me bombardeando de perguntas, estava me dando corda.

— Tanya, nós realmente… — comecei, mas ela ergueu a mão, cortando.

— Relaxa. Eu não vou fazer um escândalo dentro do carro, não com ela dormindo ali — Seus olhos voltaram para a estrada, mas o tom era tão afiado que quase cortava. — Só achei curioso como, de todas as pessoas que a Emerald poderia ter associado a um “au-au”, foi justamente aquela mulher.

Meu peito apertou. Aquela mulher. Ela não precisava dizer o nome.

— Não é nada — arrisquei, mas a frase caiu morta entre nós. — Elas devem ser parecidas, eu não lembro realmente.

Ela riu de novo, mas agora havia um gosto de veneno no som.

— Você está se saindo um péssimo mentiroso, Edward.

O resto do trajeto seguiu mudo, exceto pelo ronco baixo do motor e a respiração tranquila da nossa filha. Mas dentro de mim não havia tranquilidade alguma.

Quando estacionamos, Tanya saiu primeiro, sozinha e ajeitando a bolsa no ombro como quem já tinha decidido não tocar mais no assunto, pelo menos por enquanto. Só que eu conhecia bem o jeito dela: o silêncio era uma estratégia.

Fiquei alguns segundos no carro, observando Emerald dormir, sem coragem de tirá-la da cadeirinha ainda. Peguei o celular no bolso e abri a conversa de novo, como se precisasse confirmar que aquelas palavras estavam mesmo ali e não eram fruto da minha imaginação.

É óbvio que eu sinto.

Sempre senti.

Li uma, duas, dez vezes. Cada repetição me incendiava e, ao mesmo tempo, me deixava mais à beira do abismo. Meus dedos pairaram sobre o teclado. A resposta parecia urgente, inevitável e o ponteiro piscando me encarava como um desafio.

"Não consigo pensar em outra coisa."

Apaguei.

"Precisamos conversar."

Deixei essa última ali, olhando para as três palavras como se fossem dinamite prestes a explodir. Bastava encostar o dedo e tudo mudaria, mas o som da porta de Tanya batendo me arrancou de volta. Ela já tinha saído do carro, e eu estava sozinho com o dilema me corroendo por dentro.

Bloqueei a tela, respirei fundo e soltei o ar devagar, como quem tenta se convencer de que ainda tinha controle sobre alguma coisa. Inclinei o corpo para trás, encostando a cabeça no banco, e só então girei para soltar a fivela de Emerald. Peguei-a no colo com cuidado, ajeitando a cabeça sonolenta contra o meu ombro.

Atravessei a garagem até o elevador. Tanya entrou primeiro, segurando a bolsa com força demais para parecer natural. O espelho dentro da cabine refletia nós três: ela de lado, rígida; eu com nossa filha no colo; e um espaço invisível, mas gritante, entre nós dois.

Quando a porta do apartamento se abriu, o cheiro familiar do ambiente pareceu mais sufocante que acolhedor. Ela foi direto para a sala, já sem os sapatos, olhando o celular. Levantou os olhos por um instante, como quem checa se eu ainda estava ali, mas não disse nada. Apenas observou a filha nos meus braços e voltou à tela, o que soou mais como aviso do que desinteresse.

Subi até o quarto, deitei Emerald outra vez no berço portátil (com uma pontada de culpa por ela ainda não ter o próprio quarto pronto) e fiquei olhando até a respiração dela se estabilizar de novo. Seu peito subia e descia com a inocência que eu não tinha mais. Passei a mão pelo cabelo fino, tão macio, e me peguei pensando que talvez fosse isso o que me mantinha preso: a sensação de que eu só podia ser inteiro quando a segurava.

Meu celular vibrou no bolso e não precisei olhar para saber de quem era a notificação que me queimava a pele. Mas não peguei o aparelho. Não ainda. Porque eu sabia: se lesse de novo, eu não conseguiria segurar meus dedos dessa vez.

Fechei a porta do quarto, deixando só um feixe de luz escapar para dentro. Encostei a testa no batente por alguns segundos, tentando respirar fundo, como se a madeira pudesse me dar estabilidade. Não adiantou.

Quando voltei para a sala, Tanya ainda estava no sofá. Tinha uma taça de vinho nas mãos e o olhar fixo na tela do celular, mas dava para ver que não estava lendo nada.

— Ela continua dormindo? — perguntou, sem me olhar.

— Sim, só se agitou quando saiu do carro mas não acordou — me joguei no sofá, cansado de fingir leveza. — A festa mexeu com ela.

Ela soltou o celular, apoiou a taça na mesa de centro e finalmente ergueu os olhos para mim. O silêncio dela pesava mais que qualquer acusação.

— Vai me dizer quem é a dona do cachorro? — perguntou, direto, sem rodeios.

Me recostei, apertando os dedos contra o braço da poltrona.

— Já disse que não é ninguém, só uma pessoa que estava no café.

— Edward, não me faça de idiota — a voz dela soou baixa, firme, como se tivesse guardado aquilo desde o brunch. — Eu vi seu rosto. Vi o jeito que olhou para ela. E, principalmente, vi tudo que você não conseguiu disfarçar.

Engoli em seco.

— Já disse que não era ninguém — repeti, mas até eu já estava cansado daquela frase. — Você queria que eu pegasse o telefone de uma estranha no café só porque a Emerald brincou com o cachorro dela?

Tanya inclinou o corpo para frente, os cotovelos nos joelhos, os olhos cravados nos meus.

— Você não é tão bom em mentir quanto pensa. Mas quer saber a verdade? — ela riu sem humor. — Eu já nem espero que esconda nada, é um milagre que ninguém nunca tenha te fotografado me traindo. Só quero saber o quanto você pretende arrastar a gente nesse teatro antes de assumir o que quer de verdade.

Fiquei em silêncio. Meu coração batia alto demais, e minha garganta estava seca.

— Você acha que eu não sei que isso, a gente, está acabado? — ela continuou, sem pausa. — Que só funcionamos na frente de câmeras, quando tem gente olhando, quando queremos provar alguma coisa pro mundo? Nós dois sabemos. Só que, ao contrário de você, eu não posso me dar ao luxo de sair quebrando tudo.

Reprimi uma risada. Não tinha sido eu a quebrar um quarto inteiro em um acesso de raiva. Ela pegou a taça outra vez e bebeu tudo em um gole, com os olhos ainda em mim.

— Então decida, Edward. Porque eu não vou ser a última a saber dessa vez.

O ar parecia ainda mais denso do que no carro. Não respondi, porque não tinha resposta que coubesse. Peguei o celular de novo, como se fosse um reflexo automático, e lá estava:

É óbvio que eu sinto. Sempre senti.

A frase dela queimava na tela, e pela primeira vez eu me dei conta de que estava diante de duas mulheres completamente diferentes: uma que ainda me fazia sentir vivo, e outra que me cobrava estar vivo quando eu já não sabia como.

— Você não vai dizer nada? — Tanya quebrou o silêncio, batendo a taça vazia na mesa com mais força do que precisava. — Vai continuar fingindo que não entendi direito?

Soltei o ar devagar, mas a calma não veio.

— O que você quer que eu diga?

— A verdade, Edward. Só isso — Ela se recostou no sofá, os olhos brilhando mais de raiva do que de lágrimas. — Se tem outra pessoa, se ainda pensa em alguém, se esse “não é ninguém” que você repete feito idiota é só medo de admitir.

— Não tem outra pessoa — falei rápido demais.

Tanya sorriu de lado, meio amarga.

— Claro que tem. Talvez não oficialmente, talvez não do jeito que eu gostaria de ouvir. Mas eu não sou cega, Edward — Ela balançou a cabeça, como quem monta um quebra-cabeça que não queria terminar. — Você acha que eu não reconheço esse olhar? Você nunca olhou assim pra mim. Nem no começo, nem quando eu estava grávida da sua filha.

Meu estômago se revirou. O silêncio que seguiu foi um peso impossível de carregar.

— Tanya…

— Não — ela levantou a mão, me cortando. — Sem desculpas. Eu já aceitei muita coisa. Já aceitei os sumiços, os excessos, as nossas brigas seguidas de fotos perfeitas no Instagram. Aceitei porque era conveniente pra mim também. Mas agora… — ela riu de novo, sem humor — Agora você não consegue nem fingir.

— Você também não finge! — devolvi, mais ríspido do que planejava — Faz tempo que não tenta.

Os olhos dela faiscaram, e por um segundo parecia que ia arremessar a taça contra a parede. Ou na minha cabeça.

— Pelo menos eu não fico correndo atrás de fantasmas.

Fechei os punhos, sentindo a respiração acelerada, as palavras na ponta da língua, todas elas perigosas.

— Talvez porque você não teve nem capacidade de ter algo que valesse a pena virar um fantasma!

O silêncio que veio depois foi pior do que qualquer grito. Tanya me encarou como se tivesse levado um tapa, mas não recuou.

— É isso, então — disse, enfim. — Estamos de acordo que isso só continua porque é conveniente. Para você, porque é um covarde que não tem coragem de bancar nada sozinho. Pra mim, porque… — ela gesticulou em direção ao quarto, onde Emerald dormia. — Eu não vou abrir mão de tudo o que já conquistei.

Levantei da poltrona de uma vez, sentindo a adrenalina tomando conta do meu corpo.

— Não a coloque no meio disso.

— Mas ela está no meio disso! — Tanya retrucou, a voz finalmente subindo um tom. — Você acha que pode brincar de reviver um passado sem que nada respingue nela? Você não vive mais só para si, Edward!

Fechei os olhos por um segundo, o celular ainda queimando na minha mão. A mensagem de Bella era um grito preso na garganta, e talvez Tanya soubesse disso melhor do que eu.

— Se você não tem coragem de dizer o nome, eu digo por você — ela cuspiu. — Isabella Swan.

Abri os olhos de volta. O chão parecia ter sumido, e ainda assim eu não consegui negar. Não consegui dizer nada. Tanya cruzou os braços, satisfeita e furiosa ao mesmo tempo.

— Pois bem, agora eu sei.

— Você não sabe nada — rebati, a voz mais baixa do que queria, mas firme. — Você vê pedaços, interpreta do seu jeito e chama de verdade.

Ela riu, debochada.

— Ah, claro. Então me ilumine, Edward! Me diga que aquela mulher não é quem eu estou pensando. Me diga que não tem nada guardado, que não sonha com ela, que não pensa nela enquanto está comigo. Vamos lá, me prove que eu sou só paranoica.

Meu silêncio foi a resposta que ela queria. Ou talvez, a única que ela precisava.

— Eu sabia — murmurou, quase em triunfo. — A diferença é que agora você não tem mais onde se esconder.

— E você tem? — avancei um passo, sem perceber — Porque se quer falar de fingimento, vamos falar. Você acha que eu não sei o que significa quando você some em reuniões que nunca terminam? Você acha que eu não vejo a forma como você olha pros outros quando acha que não estou prestando atenção? Você acha que não percebo como usa a minha imagem para favorecer a sua?

Tanya não piscou. Não recuou.

— A diferença, Edward, é que eu nunca deixei nada sair do controle. Nunca coloquei nossa filha nessa posição. Você está disposto a destruir tudo por uma lembrança maldita de dez anos atrás.

— Não é uma lembrança! — As palavras saíram antes que eu pudesse segurá-las. — Nunca foi.

O olhar dela ficou frio de repente, sem o fogo da raiva, só um gelo paralisante.

— Você acabou de admitir.

Parei, sentindo o peso da minha própria voz ecoando. Não havia como voltar atrás.

— Eu não devia ter dito isso — tentei, mas soou vazio, covarde.

— Devia, sim — ela levantou, ficando de frente pra mim, quase na mesma altura. — Porque agora não tem mais volta.

Meu coração batia como se fosse explodir. O apartamento, a sala, até o silêncio entre nós parecia pequeno demais pra tudo o que estava prestes a se quebrar.

— Você não entende… — comecei, mas ela ergueu a mão outra vez.

— Eu entendi muito bem — cortou — É ela quem você quer. Não eu.

O mundo girou por um segundo. Tanya me encarava com uma mistura de ódio e clareza, e pela primeira vez percebi que talvez ela quisesse essa confirmação. Que estava esperando por isso.

— A gente não tem mais nada, Edward — ela disse, firme. — A única coisa que nos prende é uma criança entre nós.

Meu corpo inteiro gelou.

— Não fale assim da Emerald.

— Não estou falando dela — Tanya estreitou os olhos, com um sorriso que não alcançava os lábios. — Estou falando de você.

O silêncio se arrastou por segundos que pareceram horas. Eu sabia que tinha passado do ponto, mas não havia como recuar. As palavras estavam ditas, expostas, respirando no espaço entre nós.

Então, de repente, ela levantou do sofá, encheu a taça de vinho e girou o líquido com calma, como se tivesse retomado o controle do jogo.

— Escuta, Edward — a voz dela saiu firme, quase ensaiada. — Eu não vou abrir mão do que tenho, não tão facilmente e não pelo menos do que aparece para os outros. Você pode se perder nas suas fantasias, nas suas lembranças… mas, para o mundo, nós ainda somos perfeitos. A família perfeita. E é assim que vamos continuar.

Engoli em seco.

— Você está me dizendo que prefere viver uma mentira?

— Não é o que já estamos fazendo? — ela riu baixo, com amargura — Mas respondendo sua pergunta, prefiro viver com estabilidade. Com contratos assinados, com portas abertas, com gente me aplaudindo. Você acha mesmo que alguém quer ver Edward Cullen separado, brigando na justiça e visitando a filha de quinze em quinze dias? Eu não vou ser a mulher que deixou o pai da própria filha se perder no passado.

Senti a garganta fechar.

— Você… você pretende me afastar dela? — a pergunta saiu antes que eu pudesse segurar, carregada de medo e raiva.

Tanya arqueou uma sobrancelha, e por um segundo houve um brilho de satisfação em seus olhos. Ela sabia que tinha atingido um ponto sensível.

— Eu não preciso afastar você da Emerald, Edward — disse, firme. — Você mesmo já faz isso cada vez que escolhe estar com a cabeça em outro lugar.

As palavras dela entraram como facas. Eu não sabia o que doía mais: a manipulação ou o fato de que ela estava certa em mais pontos do que eu queria admitir.

— Então chegamos a isso? — perguntei, sentindo o gosto amargo na boca. — Você não se importa se eu estou aqui de verdade, só se parece que estou?

Ela bebeu o resto do vinho num gole e pousou a taça de volta na mesa, sem desviar os olhos de mim.

— Exatamente.

Não havia raiva no tom, não mais. Havia convicção. E isso foi muito pior.

Fiquei ali, sem saber se o silêncio que se instalou era trégua ou uma sentença. Tanya se levantou, pegou a garrafa de vinho quase vazia e foi para a cozinha. O som da rolha batendo contra o balcão ecoou mais alto do que deveria.

Peguei o celular de novo. A mensagem dela ainda estava lá.

É óbvio que eu sinto. Sempre senti.

Respirei fundo, mas o ar parecia não chegar. Apertei o botão lateral até a tela apagar e deixei o aparelho na mesa, como se a distância física pudesse me dar alguma chance de equilíbrio.

Mas era mentira. O peso da mensagem continuava no meu peito.

Horas depois, quando o apartamento estava mergulhado em penumbra e Emerald dormia sem saber de nada daquilo, Tanya entrou no quarto e moveu o berço para fora. Arqueei uma sobrancelha para ela, sem querer falar alto.

— O que você está fazendo?

— Abrindo espaço.

Ela voltou alguns minutos depois, com a babá eletrônica na mão, onde pude ver que nossa filha continuava dormindo tranquilamente, agora no quarto inacabado ao lado. Tanya não disse uma palavra, apenas se aproximou da cama, deslizando os dedos pela minha nuca como quem não pede, mas toma algo para si, e sentou no meu colo. O beijo veio antes que eu pudesse recusar e eu nem tentei.

Era sempre assim. O corpo dela colava no meu como um lembrete de que, apesar do rancor, havia uma química que não se dissolvia. Talvez por vício, talvez por hábito, talvez porque nós dois precisássemos desesperadamente de qualquer coisa que nos anestesiasse.

E havia também outros vícios. Ela se separou de mim apenas para se esticar para a gaveta da mesa de cabeceira e eu não precisei perguntar. Ela nunca precisou insistir muito. No fim, era esse o ponto de ligação que ainda tínhamos: sexo e substâncias que nos faziam esquecer por algumas horas que não nos suportávamos sóbrios.

Tanya tirou o pacote da gaveta, abrindo-o com dedos ágeis e impacientes. Ela preparou duas linhas finas sobre a superfície da mesa de cabeceira, usando um cartão de crédito que eu nem sabia de onde viera. Sem cerimônia, ela se inclinou e aspirou a primeira linha pelo nariz. Seus olhos se arregalaram por um segundo, as pupilas dilatando enquanto o pó fazia efeito, acelerando tudo.

Ela indicou com a mão que eu me abaixasse também e hesitei só por um instante antes de ceder. Aspirei a minha linha, sentindo o ardor subir pelas narinas, o gás imediato que apagava o peso da discussão da tarde.

O nome de Bella ainda pairava no ar como um fantasma, mas a droga o empurrava para o fundo da mente, substituindo por uma euforia vazia e urgente.

Com o corpo já formigando de energia artificial, o auge do efeito da cocaína pulsando nas veias como um fogo falso que acelerava o coração e afiava os sentidos sem nenhum calor genuíno, Tanya voltou para mim. Não havia tempo para preliminares, nunca havia nessa rotina degradante que pulava direto para o ato, ignorando qualquer ritual de intimidade que pudesse fingir conexão.

Ela abriu os botões e empurrou minha camisa de pijama pelos ombros com urgência impessoal, cravando as unhas no meu peito, deixando riscos vermelhos que ardiam sob o efeito estimulante da droga. Eu odiava aquelas unhas falsas. Seus lábios colidiram nos meus em um beijo que era mais mordida do que carícia, puxando o lábio inferior com força suficiente para doer, mas sem nenhum afeto por trás, só o instinto animal ativado pela adrenalina sintética que nos transformava em máquinas de prazer vazio.

Suas mãos desceram para o meu cinto, abrindo-o com pressa, enquanto eu a ajudava a tirar a camisola, expondo o corpo dela, moldado por cirurgias que a deixavam com curvas perfeitas e seios cheios e firmes que balançavam livres, uma beleza plástica e impecável que era bonita à primeira vista, mas que eu sabia ser só uma casca vazia, como o resto de nós. Não havia admiração no meu olhar, só o instinto de prosseguir, de preencher o vazio com movimento impulsionado pela euforia química que fazia o sangue correr mais rápido, endurecendo músculos e nervos sem despertar desejo real.

Ela se ergueu no meu colo, abrindo as pernas para se posicionar sobre mim, e eu puxei sua calcinha para baixo, sentindo o calor úmido dela roçando na minha mão, sem saber se era excitação ou só um reflexo corporal ativado pela cocaína. Tanya não esperou, ela desabotoou minha calça e libertou meu pau, que tinha a mesma motivação que ela, não desejo real. Ela me segurou com firmeza, masturbando por alguns segundos com movimentos secos e rápidos, e então, sem aviso, ela se abaixou sobre mim, gemendo baixo no que eu não sabia se era prazer, alívio ou dor, sob o efeito acelerado que nos fazia foder como se o mundo acabasse ali.

Eu a segurei pela cintura, as mãos apertando seu quadril com força bruta, guiando para cima e para baixo em um ritmo constante e impiedoso. Não havia pausas para olhares ou sussurros, só o som de pele batendo em pele, o tapa úmido dela subindo e descendo no meu pau. Tanya cavalgava com olhos semicerrados, o suor escorrendo pelo pescoço dela, pingando no meu peito. Ela cravava as unhas nas minhas costas, arranhando sem cuidado, deixando marcas vermelhas que eu sentiria amanhã como lembrete de mais uma noite desperdiçada.

Dividindo mais uma linha entre os dois, ela aspirando diretamente da minha mão enquanto eu continuava investindo por baixo, o quarto girava em uma névoa de aceleração. Meu pau latejava, estocando para cima com impulsos duros e mecânicos, atingindo o fundo dela a cada vez. Tanya gemia entre dentes, os sons roucos e entrecortados, mas não parava de se mover. Ela se inclinou para frente, forçando meus lábios nos seios dela, e eu chupei o mamilo com sucção bruta, mordendo o suficiente para ela arquear as costas, mas sem nenhum carinho. Era só fricção, só o atrito que nos levava ao limite artificial.

Eu a virei de costas na cama, sem palavras, só ação. Ela esticou a mão entre nós, masturbando-se com dedos frenéticos enquanto eu a penetrava, o cheiro de sexo suado e drogas preenchendo o ar. Não havia conexão, éramos dois corpos se usando mutuamente, degradando-se em uma dança suja e vazia.

A euforia nos impulsionava, tornando cada estocada mais urgente, mais desesperada para apagar o eco da briga que ainda pairava no ar. Tanya, ofegante, virou o rosto para o lado, os olhos vidrados pela névoa química, e murmurou entre gemidos:

— Vem, Edward... Eu sei que você quer, eu sempre dou o que você precisa pra esquecer aquela… Oh.

Eu sabia o que ela estava fazendo. Seus próximos movimentos não deixaram dúvida: Tanya queria que eu a pegasse por trás. Era o padrão dela — brigar, jogar na cara as minhas falhas, ameaçar acabar com tudo, e depois compensar se oferecendo como se sexo resolvesse o veneno que nos corroía.

Nos separamos e ela se virou, erguendo o corpo em quatro apoios, com as costas e quadril marcados pelas minhas mãos que apertavam com força, deixando impressões vermelhas na pele perfeita graças aos inúmeros procedimentos estéticos. Ela rebolou devagar, empinando a bunda, e olhou por cima do ombro com um sorriso torto, a voz baixa e suja.

— Olhe para mim, Edward. Eu sou toda sua agora e você vai me fazer gritar e provar que me quer mais que qualquer outra coisa.

Eu hesitei por um segundo, mas o que deve ter sido meu instinto masculino — misturado ao zumbido acelerado na mente — me fez aceitar. Porque eu era homem, e porque a cocaína apagava qualquer dúvida, transformando relutância em necessidade crua.

Posicionei-me atrás dela e empurrei com força, afundando até o fundo em uma estocada que a fez gemer alto. Ela se jogou para trás, encontrando meu ritmo, os quadris batendo contra os meus em um vai-vem mecânico, enquanto continuava a tagarelar obscenidades entre arquejos.

— Eu sou tão melhor que ela, não sou? Eu te dou tudo que você quiser… —

O orgasmo veio rápido, não uma explosão de prazer, mas uma liberação fria e necessária. Puxei para fora no último segundo, gozando nas costas dela, jatos quentes escorrendo pela pele suada, marcando-a como mais uma camada de sujeira entre nós.

Quando o corpo dela relaxou ao meu lado, ainda ofegante, eu senti apenas mais um peso, não conforto. A droga ainda corria nas veias, mas o vazio voltava devagar, misturado ao cheiro de sexo e suor no quarto.

— Viu? Agora tá tudo bem — ela sussurrou depois que voltou do banheiro, mas eu sabia que era mentira.

A briga voltaria, mais amarga, e nós nos afundaríamos de novo nessa espiral sem saída. Mas por agora, no silêncio, éramos só dois estranhos dividindo a mesma cama, anestesiados e degradados.

Rolei para a beira da cama, encostei os pés no chão frio e fiquei ali, tentando puxar um ar que não viesse contaminado. Olhei para Tanya, já quase entregue ao sono pesado, e percebi que não havia nada ali que me prendesse além do que me destruía.

As horas seguintes passaram sem que eu conseguisse dormir, mesmo que o efeito da cocaína já tivesse passado. O quarto escuro parecia mais um cativeiro do que um lugar de descanso. Tanya respirava fundo ao meu lado, entregue a um sono pesado, e eu me perguntava como era possível que estivéssemos tão perto fisicamente e, ao mesmo tempo, em universos diferentes.

Peguei o celular de novo. A tela acendeu, revelando a notificação que eu já tinha lido tantas vezes que parecia tatuada na minha pele.

Meus dedos pairaram sobre o teclado. Digitar qualquer coisa significava atravessar uma fronteira sem volta, mas eu já estava do outro lado desde o momento em que a vi no brunch. Talvez até antes, desde o momento em que a vi no café com aquele cachorro e percebi que nada tinha morrido de verdade.

Escrevi.

"Eu também. Nunca deixou de ser você."

Apaguei.

"Não consigo parar de pensar em você."

Apaguei.

Deixei o celular cair sobre a cama e passei as mãos no rosto, pressionando os olhos até ver pontos de luz na escuridão. Eu não podia ser covarde, não dessa vez.

Peguei o celular de novo e, antes que a hesitação me engolisse outra vez, digitei devagar, cada palavra como uma confissão.

"Preciso te ver."

Olhei por alguns segundos, sentindo o coração martelar como se fosse pular do peito. Então apertei “enviar”. A mensagem partiu, e, junto com ela, a certeza de que tudo tinha mudado.

Já passava das duas da manhã e cada segundo sem resposta era um golpe. A escuridão do quarto parecia se comprimir contra o meu peito, e a respiração regular da Tanya ao meu lado soava como um lembrete cruel do teatro em que eu ainda estava preso.

Quis levantar, abrir a janela, deixar o ar frio atravessar meus ossos. Não consegui. Só consegui esperar.

A tela do celular apagou e, mesmo assim, meus olhos permaneceram fixos nela. Reacendi, bloqueei, reacendi de novo, em um ciclo doentio de expectativa. Até que, no meio do silêncio absoluto, a notificação surgiu. Uma única linha que iluminou tudo:

"Onde?"

Meu coração deu um salto, tão forte que doeu. E eu soube, sem sombra de dúvida, que não havia mais volta.


Notas finais
Eu nunca disse que meus personagens eram perfeitos, e espero que quem está lendo tenha ciência disso. Essa é, provavelmente, a história mais difícil que já me meti a escrever, então, torço para que vocês confiem nesse processo comigo. Por favor, comentem o que acharam e quais são as expectativas de vocês a partir daqui. Nos vemos semana que vem.