Daylight
36 Capítulo 35
Bella
De: Alice Brandon
POR QUE estou vendo uma foto sua abraçada com o Edward na capa do TMZ?
De: Alice Brandon
Espero que essa falta de resposta signifique que a inútil da sua assessora está trabalhando muito para resolver isso
De: Alice Brandon
Se você não me responder em cinco minutos vou entrar em um avião e aparecer na sua porta
De: Alice Brandon
ISABELLA SWANNNNNNNNN
Acordei com o celular vibrando contra o travesseiro.
Não foi um despertar suave. Abri os olhos já com o coração acelerado, a mão procurando o aparelho antes mesmo que a mente alcançasse a ideia de que tantas notificações seguidas raramente significavam algo bom.
Na tela, havia mensagens de Alice, Rosalie, duas ligações perdidas da minha assessora, uma de Edward e uma quantidade obscena de alertas que eu não tive coragem de abrir imediatamente.
O quarto ainda estava escuro, Jake dormia no tapete ao lado, completamente indiferente ao colapso iminente da minha vida pública. A camiseta que eu usava tinha subido durante a noite, deixando parte da minha barriga descoberta sob o lençol. A primeira coisa que fiz foi puxar o tecido para baixo, como se alguém pudesse me ver ali.
Abri a conversa com Alice de novo. Li a primeira mensagem, a segunda, na terceira, minha garganta começou a fechar. Na quarta, cliquei no link que ela havia enviado antes de todas as ameaças.
A página demorou menos de dois segundos para carregar. Ainda assim, pareceu muito tempo.
A manchete ocupava a parte superior da tela em letras grandes demais.
Bella Swan e Edward Cullen aparecem abraçados em Los Angeles semanas após acidente de Tanya Denali
Abaixo, a foto que, por um instante, meu cérebro se recusou a interpretar. Não porque fosse difícil entender. Pelo contrário, era clara demais.
Edward e eu estávamos saindo de uma consulta na tarde anterior. Eu estava de perfil, usando uma roupa que ainda escondia minha barriga e óculos escuros. Edward estava de frente para mim, com o corpo levemente inclinado, uma das mãos na minha cintura e a outra tocando meu rosto.
Não estávamos nos beijando e talvez isso fosse pior porque, um beijo poderia ser tratado como um momento impulsivo. Aquela foto, não. Edward me olhava com tanta ternura, como se tudo tivesse desaparecido ao nosso redor. Era exatamente a confirmação que precisavam para criar todas as teorias do mundo.
Fechei a página antes de chegar aos comentários, mas já era tarde demais. Meu corpo já tinha entendido aquilo como uma ameaça.
A náusea veio rápida, violenta, pior que qualquer enjoo das últimas semanas. Levantei da cama e fui para o banheiro com uma mão sobre a boca, tentando evitar tropeçar no lençol. Vomitei pouco, porque não havia quase nada em mim, mas meu corpo pareceu determinado a expulsar o medo de alguma forma física.
Quando voltei para o quarto, o celular continuava vibrando. Atendi sentada na beirada da cama, ainda com a boca amarga e os olhos ardendo. Houve um segundo de silêncio que me alertou porque Alice em silêncio era sempre um motivo de preocupação.
— Onde você está?
— Em casa.
— Sozinha? — perguntou, mas não me deu tempo de responder. — Esquece, vou ignorar isso porque estou tentando não gritar. Você falou com sua assessora?
— Ainda não.
— Ótimo, porque eu falei.
Fechei os olhos.
— O que ela disse?
Alice respirou fundo do outro lado da linha.
— Que estão preparando opções. Opção um: não responder imediatamente e deixar a matéria perder força.
Soltei uma risada sem humor.
— Isso é ridículo.
— Concordo. Opção dois: uma nota curta dizendo que você não comenta vida pessoal e pedindo privacidade.
— Um pouco pior, tendo em vista o que a imagem representa.
— Também concordo. Opção três: antecipar o anúncio da gravidez.
Meu corpo ficou imóvel.
Havia um arquivo no meu celular, feito há três dias, com a foto que eu pretendia postar no fim daquela semana. Edward aparecia de costas, com os braços ao meu redor. Eu estava de lado, com a barriga finalmente assumida, segurando uma imagem do ultrassom. O rosto dele não aparecia, mas a imagem deixava bem claro quem era.
— Eu não queria que fosse assim — murmurei.
A voz de Alice suavizou.
— Eu sei, querida.
Aquilo quase me quebrou em duas, porque Alice sabia mesmo. Ela tinha acompanhado cada parte daquele plano, cada conversa sobre o que apareceria ou não, cada noite que tive medo de parecer irresponsável ou afundar minha imagem na lama ao fazer aquele anúncio. Ela sabia também que eu queria ter controle sobre a primeira vez que o mundo veria meu filho.
Agora, tudo isso estava arruinado.
— Estou ouvindo você chorar do outro lado. Me escute. Não deixe ninguém te convencer a transformar o anúncio do seu filho em uma resposta ao TMZ.
Não percebi que estava chorando até que ela mencionasse isso.
— Pode ser hoje — ela continuou. — Pode ser em uma hora, se vocês decidirem. Pode ser completamente diferente do plano original. Mas não pode ser só controle de danos porque seu bebê não é um dano.
Estiquei a mão sobre a barriga.
— Eu sei.
— Ótimo. Então fale com Edward, fale com sua assessora incompetente, ou deixa que eu fale, o que me parece mais eficiente. Mas lembre que você queria fazer o anúncio porque esse é um momento feliz.
As lágrimas caíram sem que eu percebesse.
— Eu queria que fosse bonito.
— Continuará sendo.
— Como?
— Não sei, sou ótima sob pressão, mas ainda não tomei café. Nós vamos dar um jeito.
Uma risada pequena escapou de mim e Alice suspirou do outro lado, aliviada por ter arrancado qualquer som que não fosse choro.
— Me ligue depois de falar com Edward.
Desliguei sentindo o celular quente contra a mão, mas não tinha tempo a perder. Liguei para Edward, que atendeu no primeiro toque.
— Você pode vir para cá? — perguntei.
Ele não hesitou.
—Estou indo.
A resposta imediata me atingiu de um jeito que eu não esperava.
Talvez porque uma parte de mim ainda estivesse preparada para o “mas”. Para o hospital, para Tanya, para alguma nova crise que exigisse que eu fosse razoável, compreensiva e silenciosa enquanto ele tentava cuidar de todos antes de chegar até mim. Mas o “mas” não veio.
— E Tanya? — perguntei, antes que conseguisse impedir.
Edward respirou fundo do outro lado da linha.
— Consciente, bem, se recuperando. Ela não é minha prioridade agora, Bella, você é.
Era uma frase simples, que talvez devesse ter sido óbvia.
Ainda assim, depois de tanto tempo sendo a pessoa que entendia, esperava e encaixava sua dor no intervalo possível da vida de todos, ouvi-lo escolher vir sem transformar aquilo em uma culpa me surpreendeu completamente.
— Você tem certeza? — perguntei.
— Claro que tenho.
— Edward…
— Bella, eu já disse que estou com você nessa. Não vou te deixar sozinha, não vou repetir os mesmos erros.
Fechei os olhos.
— Eu queria que você estivesse aqui — admiti.
— Eu sei, é o lugar onde eu devo estar e exatamente por isso, estou a caminho.
As lágrimas vieram de novo, mas dessa vez não tinham apenas gosto de medo.
— Tudo bem.
— Beba água, ligue para Alice se precisar e não leia os comentários.
— Você está me dando ordens?
— Estou tentando melhorar as coisas enquanto não estou aí.
— Então dirija com cuidado.
— Estou indo para você — ele disse, mais baixo. — Com cuidado.
Depois que desligamos, fiquei sentada na cama com o celular no colo, tentando entender por que aquela escolha parecia tão… grande.
Eu merecia isso. Eu merecia ser a prioridade de alguém, e não era isso que um relacionamento significava?
As palavras de Edward não eram em vão, ele realmente estava se esforçando para provar que as coisas seriam diferentes agora. Então, onde estava a armadilha?
Uma parte de mim ainda esperava o custo, a explicação. Uma mensagem dizendo que alguma coisa tinha acontecido e que os planos tinham mudado. Não por crueldade, não necessariamente por falta de amor, mas porque durante tempo demais a vida de todos ao meu redor parecia feita de urgências às quais eu precisava me adaptar, e não o contrário. Ninguém se adaptava a mim.
Fiquei sentada na cama por mais alguns segundos, segurando o celular como se ele pudesse tocar de novo e corrigir a frase. Jake tocou o focinho na beirada do colchão, olhando para mim com a expressão grave de um animal que não compreendia as complexidades de uma pessoa em crise, mas compreendia choro.
— Está tudo bem — murmurei.
Ele não pareceu convencido, mas eu também não estava.
A camiseta de Edward continuava no meu corpo. Era antiga, com o tecido amaciado por tantas lavagens, e agora esticava sobre a minha barriga. Pensei em trocá-la por algo mais apresentável antes que ele chegasse, pensei em colocar uma camiseta minha, um sutiã decente, talvez passar corretivo o suficiente para não parecer que eu tinha sido atropelada.
Não fiz nada disso porque, se Edward estava vindo, ele veria a versão cem por cento real.
Meu celular vibrou de novo. Dessa vez, Alice. Atendi no viva-voz enquanto enchia um copo de água.
— Antes que diga qualquer coisa, eu estou bebendo água.
— Excelente evolução, Bella. E Edward?
— Vindo para cá.
Houve um silêncio breve do outro lado.
— Estou tentando não dizer “finalmente” porque isso seria rude.
— Você sendo rude? Impossível.
— Exato, seria fora do meu personagem — segurei uma risada. — Então, ele está levando a sério toda aquela coisa de te fazer prioridade?
— Creio que sim, Ali.
— Você acredita?
Olhei para meu reflexo no armário da cozinha.
— Estou tentando.
— Tente menos. Só deixe ele fazer.
— E a foto? — perguntei, porque era mais fácil voltar para o problema prático do que encarar a parte em que meu namorado estava dirigindo até mim para ser meu namorado.
— Já falei com sua assessora.
— Você não é minha empresária.
— Ainda.
— Alice…
— Está bem, está bem. Oficialmente, eu não sou nada. Extraoficialmente, impedi que ela mandasse uma nota com a palavra “privacidade” três vezes na mesma frase, então você deveria me agradecer.
— Obrigada por impedir um crime.
— Sempre às ordens, meu bem.
Sentei-me no sofá, levando a água comigo. Jake se acomodou ao meu lado, como um cobertor pesado e quente.
— Alice, eu não quero que pareça que estou anunciando porque fui pega.
— Então não anuncie como quem foi pega.
— Isso não é uma estratégia.
— É, sim.
— O que você sugere?
— Que você pare de tentar responder a uma foto roubada com outra foto.
Franzi a testa.
— Você odeia minha foto?
— Eu não a odeio, ela era bonita para o plano antigo.
— E o plano novo?
— Ainda estou pensando. O plano novo precisa parecer menos elaborado. Nada de esconder Edward de costas.
— Eu não estava escondendo.
— Ah, você meio que estava sim.
Odiava quando Alice tinha razão. Passei a mão pela barriga, como se isso fosse capaz de consertar tudo.
— Acha que vai ficar tudo horrível?
— Sim.
Meu estômago apertou e eu resmunguei o suficiente para que ela ouvisse do outro lado.
— Vai ficar horrível por umas horas. As pessoas vão falar, teorizar, fazer contas, isso até o próximo assunto aparecer. A diferença é que, se vocês falarem antes, pelo menos a primeira verdade dita por vocês vai estar no mundo também.
A primeira verdade dita por nós. Aquilo fez sentido, deixar que a notícia saísse por nós não eliminava todo o resto, mas criava um ponto fixo no meio da distorção.
— Ele chegou? — Alice perguntou.
Antes que eu respondesse, ouvi o barulho da senha na porta. Meu coração deu um salto tão forte que precisei apoiar o copo na mesa para não soltá-lo no chão.
— Chegou.
— Vou desligar. Você vai olhar para ele, ele vai olhar para você, provavelmente vocês vão ter uma conversa emocionalmente importante que eu não quero testemunhar por áudio. Depois me ligue.
Ela desligou e a porta abriu alguns segundos depois.
Eu estava de pé no meio da sala, descalça, usando a camiseta dele, com os olhos provavelmente vermelhos e as duas mãos apoiadas na barriga como se pudesse proteger aquele pequeno serzinho em formação de todo o barulho de fora. Então Edward fechou a porta, veio até mim e me abraçou.
Não foi um abraço dramático. Edward apenas me envolveu com os braços e me puxou para perto com cuidado, uma mão nas minhas costas, a outra atrás da minha cabeça, como se finalmente pudesse colocar o próprio corpo entre mim e o mundo.
Encostei o rosto no peito dele. O cheiro da camisa, da pele, do carro, do café que ele provavelmente tinha tomado cedo demais. Tudo me pareceu absurdamente familiar. E, por isso, chorei.
Edward não disse nada, só ficou comigo. Foi o que fez uma peça se encaixar na minha cabeça. Não a promessa, embora tudo aquilo importasse. Foi o silêncio dele ali, sustentando meu peso sem tentar resolver a dor antes que ela tivesse espaço para existir.
— Eu odiei isso — falei contra a camiseta dele. — Eles estragaram tudo.
— Eu também.
Aquela imagem tinha sido nossa antes de ser deles. Um segundo em que eu me distraí e Edward tinha tocado meu rosto para me fazer olhar para ele. Eu lembrava do que ele disse.
Você está bem. Ele está bem. Eu estou aqui.
Não era uma imagem sobre escândalo. Devia ser uma imagem sobre cuidado. E agora o mundo a tinha arrancado do contexto, colocado uma manchete por cima e transformado em prova.
— Eles nos tiraram uma coisa boa — murmurei.
Edward encostou o queixo no topo da minha cabeça.
— Então a gente vai fazer outra coisa boa.
Levantei o rosto e soltei uma respiração trêmula.
— Você veio.
A frase saiu antes que eu pudesse refiná-la. Edward ficou sério.
— Claro que vim.
— Não é claro para mim ainda.
A honestidade deixou o ar mais denso. Ele ergueu a mão até meu rosto, os dedos tocando minha bochecha com uma delicadeza que doeu.
— Então eu vou continuar vindo até ser.
As lágrimas voltaram.
— Isso foi uma frase muito boa.
— Eu sei. Pensei nela no caminho.
Uma risada pequena escapou de mim.
— Idiota.
Mas ele não sorriu.
— Bella, eu sei que não apago o que fiz antes só porque acertei hoje e sei que você ainda espera o “mas” porque eu te dei muitos motivos para esperar.
Meu peito apertou.
— Edward…
— Eu estou com você — ele repetiu. — Com você e com nosso filho. E eu sei que dizer isso é fácil, então eu vou provar.
Apertei os olhos.
— Você está me fazendo chorar de novo.
— Desculpe.
— Não peça desculpa.
Ele quase sorriu.
— Não sei mais quais frases são permitidas.
— Nenhuma. Continue tentando.
Edward beijou minha testa.
— Você comeu?
— Alice já me fiscalizou.
— Isso não responde.
— Vomitei o jantar, bebi água e ainda não comi.
Edward foi até a cozinha sem soltar completamente minha mão, como se temesse que eu desaparecesse se ficasse sozinha por mais de cinco segundos. Jake o seguiu com interesse repentino, provavelmente motivado pela possibilidade de ganhar alguma comida proibida. Enquanto ele colocava pão na torradeira, meu celular vibrou outra vez sobre a mesa.
Deixamos tocar até que o silêncio reinasse na casa.
Não duraria muito tempo, claro, mas por alguns minutos, ficamos na cozinha enquanto o pão esquentava e Jake tentava convencer Edward de que cães grandes eram apoios emocionais e, portanto, mereciam carboidratos. Edward passou manteiga em uma torrada, depois lembrou que a manteiga ainda me deixava enjoada e preparou outra sem nada, com uma concentração desproporcional.
— Isso é muito triste — disse, olhando para o prato.
— É só uma torrada. Inclua geléia e ela ficará menos triste.
— Sim, senhora.
— Não me chame de senhora.
— Sim, grávida linda e assustadora.
— Melhor.
Comi em silêncio. Meu estômago, aquele traidor, aprovou e manteve o conteúdo.
Edward se apoiou na bancada diante de mim e esperou. Não me apressou para decidir o que faríamos, apenas ficou ali enquanto eu mastigava devagar, como se aquele momento também fosse parte da crise. Talvez fosse.
Ser cuidada nas coisas pequenas sempre me pareceu mais perigoso do que grandes declarações. Grandes declarações eram bonitas, mas podiam evaporar. Uma pessoa podia prometer o mundo e, ainda assim, desaparecer quando as coisas ficavam difíceis. Edward estava ali e isso me pareceu mais estável do que qualquer promessa.
— Eu acredito em você — falei.
Ele levantou os olhos.
— Não completamente — corrigi, porque ainda era eu. — Não sem uma parte de mim esperando você tropeçar.
Edward assentiu, sem parecer ofendido.
— Mas?
Respirei fundo.
— Mas acredito que você está tentando de verdade. E acredito que você quer estar aqui — dizer aquilo em voz alta pareceu abrir uma janela dentro de mim.
A expressão dele mudou, quase como se aquela confiança parcial valesse mais do que uma absolvição inteira.
— Eu quero — Edward contornou a bancada e se aproximou. Parou diante de mim e pousou as mãos na beirada do balcão, uma de cada lado do meu corpo, sem me prender. — Posso beijar você?
A pergunta aqueceu meu rosto de uma forma ridícula, considerando tudo que já havia acontecido entre nós, e uma risada alta escapou de mim.
— Claro que pode.
O beijo foi suave, sem tentar provar nada para ninguém. Tinha gosto de café, geleia de morango e cuidado. Uma coisa simples, quase doméstica, e talvez por isso tenha me atingido mais profundamente do que qualquer paixão urgente teria conseguido naquele momento. Quando ele se afastou, encostou a testa na minha.
— Estamos juntos nessa.
Assenti e ele segurou meu olhar.
— Sem esconder nenhum de nós.
A frase pareceu pousar no lugar certo. Peguei o celular e abri a galeria, mostrando a ele a foto antiga. A planejada. Eu de lado, ele de costas.
— Era bonita — disse.
— Ainda é.
— Mas não é mais a certa.
Ele devolveu o celular.
— Talvez seja a certa para eu colocar em um porta-retrato na minha sala.
Sorri. Eu, definitivamente, faria isso.
— E então, alguma ideia? — pedi, silenciosamente esperando que ele tivesse.
Edward ficou olhando para mim por alguns segundos, não como se procurasse uma resposta. Era mais como se tentasse decidir se a resposta que já tinha era justa comigo.
— Tenho uma — disse por fim.
Meu estômago se contraiu.
— Pela sua cara, não é uma ideia pequena.
— Não, pequeno definitivamente não é a palavra.
Ele sorriu, mas a expressão durou pouco. Edward se afastou o suficiente para encostar no balcão, ainda de frente para mim.
— Tenho um evento amanhã.
Estava no calendário dele havia meses, cercada de e-mails de confirmação, entrevistas agendadas, provas de smoking e aquela irritação específica que Edward desenvolvia sempre que precisava vender a própria imagem.
Era o anúncio do novo filme dele, aquele que ele estava gravando há alguns meses. Um terror enorme, caro e cheio de expectativa. Edward era o protagonista, o nome no pôster, o rosto nos outdoors espalhados pela cidade. Haveria tapete vermelho, elenco, imprensa internacional, transmissão ao vivo, críticos, patrocinadores, fotógrafos e todos os tipos de pessoas.
— Muitos olhares, né?
— Todos os possíveis.
A resposta fez meu coração bater mais rápido e Edward percebeu.
— Não estou dizendo que precisamos fazer isso — acrescentou. — Não é uma decisão tomada.
— E qual é o plano?
— Você iria comigo.
— Como sua acompanhante?
Edward sustentou meu olhar.
— Como minha namorada.
Namorada.
Era simples. Quase adolescente, talvez, para tudo o que existia entre nós. Mas também era uma palavra de fácil compreensão, impossível de ser distorcida.
— Edward, esse evento é seu.
Que escolha de palavras errada. Ele abriu um sorriso que eu conhecia muito bem.
— Você também é…
A frase ficou suspensa no ar, e eu senti o peso dela me atingir em algum lugar fundo. O significado dela ficou estampado no sorriso que ele me deu, na forma como os olhos dele desceram pelo meu corpo e voltaram.
De repente, a cozinha parecia pequena demais. O balcão entre nós era um abismo ridículo. Eu queria atravessá-lo. Queria sentir a mão dele na minha nuca, puxando meu cabelo, forçando meu rosto para cima enquanto ele me beijava até me fazer esquecer o próprio nome.
— Se vamos fazer isso, quero usar o vestido mais justo que eu encontrar.
Ele me encarou como se tentasse decidir se eu estava brincando. Eu não estava.
Seu sorriso perdeu o tom provocativo enquanto eu quase conseguia visualizar a imagem se formando em nossas mentes ao mesmo tempo: eu ao lado dele, no tapete de um evento que era dele, usando um vestido que não deixasse espaço para dúvidas, com nossas mãos juntas antes que qualquer pessoa pudesse transformar aquilo em flagra.
Edward passou a língua pelo lábio inferior, um gesto meio distraído, mas que me fez esquecer por um instante toda a estratégia.
— O mais justo que você encontrar? — repetiu, a voz mais baixa.
Assenti, sustentando o olhar dele, embora meu corpo inteiro parecesse ter decidido que atravessar aquele balcão ainda era a única resposta razoável. Aparentemente, Edward teve a mesma ideia que eu porque, no segundo seguinte, se aproximou de mim e me segurou pela cintura. E eu senti, na pressão suave que sua mão fez, que ele sabia exatamente o que eu estava propondo.
— Você quer aparecer no tapete vermelho com o nosso filho aparente sob um vestido colado — ele disse, não como pergunta, mas como confirmação, os olhos percorrendo meu rosto em busca de qualquer hesitação.
— Quero que todo mundo veja — respondi, com a voz firme, mas meu corpo tremia sob as mãos dele. — Quero que parem de especular.
Edward inclinou a cabeça, o polegar traçando um arco distraído sobre o tecido da minha blusa, bem onde a barriga começava a se curvar.
— Você tem noção do que a ideia de te ver exibindo nosso filho por aí está fazendo comigo? — para provar seu ponto, ele me puxou contra si, colando nossos corpos.
— Esse é o plano — provoquei.
Fazia um tempo…
— Azul — ele disse, roçando os lábios na minha testa.
— Azul? — repeti, confusa.
— O vestido mais justo que você encontrar, em azul.
Minha respiração falhou quando a mão dele subiu por dentro da minha blusa, os dedos traçando o caminho das minhas costelas.
— Amanhã — ele continuou, a voz agora mais rouca, espelhando o que eu também estava sentindo. — Nós vamos publicar uma foto juntos segundos antes de descermos do carro. As luzes vão explodir, os fotógrafos vão gritar seu nome.
A mão dele apertou a curva do meu seio, e eu fechei os olhos.
— Então, quando eles entenderem o que está acontecendo, você estará olhando para mim.
Voltei a abrir os olhos e ele estava tão perto que eu conseguia distinguir os tons de verde em seus olhos.
— E depois? — perguntei, a voz quase um sopro.
— Depois vamos entrar, fingir que nada aconteceu, responder as perguntas que vierem, posar para as fotos que pedirem. E no fim da noite, quando todas aquelas pessoas estiverem falando de nós, quando seu nome estiver em todos os lugares… nós voltamos para casa, tiramos aquele vestido e vou passar a noite inteira te lembrando do quanto eu te amo.
O silêncio que veio depois não era vazio. Estava cheio de tudo o que não precisávamos dizer.
Minha mão encontrou o peito dele, os dedos se enroscando no tecido da camisa, e o puxei para mim num beijo que começou suave e rapidamente se transformou em outra coisa. A língua dele encontrou a minha, e eu saboreei o gosto dele como se fosse a primeira vez, como se amanhã não existisse, como se o mundo não estivesse prestes a mudar para sempre.
Quando nos separamos, os lábios dele estavam úmidos e os olhos escuros.
— Você está me destruindo — sussurrei, a voz trêmula.
— Bom — respondeu, e o sorriso dele era como fogo e eu era a palha seca. — Porque amanhã você vai me destruir também. Quando descer daquele carro, grávida do meu filho, usando um vestido azul que destaca cada centímetro do seu corpo… Vai ser a minha vez de não conseguir respirar.
A mão dele que estava dentro da minha blusa desceu, os dedos traçando a curva da barriga até encontrar o elástico da minha calcinha. Ele parou ali e eu prendi o ar.
— Quer que eu pare? — perguntou.
Neguei com a cabeça, incapaz de formar palavras.
A mão dele deslizou para baixo do elástico, como se tivesse todo o tempo do mundo, e eu me inclinei contra ele, com o corpo já respondendo antes mesmo do toque. Os dedos dele encontraram o caminho com uma precisão que tirou meu fôlego, e eu mordi o lábio.
— Edward… — sussurrei, o nome dele escapando como um pedido.
— Estou aqui — ele respondeu, a testa encostada na minha, os olhos fechados. — Estou aqui, Bella. E não vou a lugar nenhum.
Minha mão encontrou o cabelo dele, os dedos se enroscando nos fios macios, e eu puxei sua cabeça para mais perto. O beijo foi diferente dos outros; não era a fome desesperada de antes, mas algo mais profundo, mais cuidadoso. Como se cada toque dos lábios fosse uma promessa, cada deslizar das línguas, uma confirmação do que ele havia dito.
Edward sorriu contra meus lábios, aquele sorriso que eu já conhecia tão bem, e acelerou o ritmo só o suficiente para me deixar sem fôlego.
— Você está tão sensível — ele observou, com a voz carregada de admiração. — A gravidez está fazendo coisas com você.
— Coisas boas? — consegui perguntar, em meio a respirações curtas.
— Coisas maravilhosas — corrigiu, e o polegar dele encontrou um ponto exato que fez minha visão embaçar. — E eu pretendo aproveitar cada uma delas.
Eu não consegui responder. As palavras tinham sumido, substituídas por ondas de prazer que subiam e desciam pela minha espinha. Eu me agarrei a ele, com os dedos cravados em seus ombros, o rosto enterrado em seu pescoço enquanto ele me levava até a borda.
— Deixe ir — sussurrou, os lábios roçando minha orelha. — Estou aqui. Estarei sempre aqui.
E eu deixei.
O mundo se desfez em pedaços por um momento, e eu me senti flutuando, segura nos braços dele, enquanto minha respiração se acalmava aos poucos. Ele me manteve de pé, a mão livre fazendo carinho nas minhas costas, me esperando voltar.
Quando finalmente consegui abrir os olhos, Edward me olhava com uma expressão que eu nunca tinha visto antes.
— O que foi? — perguntei, a voz ainda trêmula.
Ele balançou a cabeça, um sorriso suave nos lábios.
— Nada. Só estou pensando que amanhã, quando todo mundo estiver olhando para você, eles vão ver o que eu vejo agora. E vão entender por que eu não consigo ficar um minuto longe de você.
Minha mão encontrou o rosto dele, os dedos traçando a linha do maxilar, e eu o puxei para um beijo mais calmo, mais doce. Quando nos separamos, o silêncio que ficou entre nós era macio, como um cobertor que nos aquecia.
Ele me puxou para mais perto, as mãos encontrando a curva da minha barriga, e ficamos ali, abraçados, enquanto o relógio na parede marcava os segundos. Lá fora, a manhã continuava. Em pouco mais de trinta horas, o mundo mudaria.
Mas naquele momento, tudo que existia era nós dois.
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