Daylight

37 Capitulo 36


Edward

Quando me tornei pai de Emerald, quase três anos atrás, as coisas eram muito diferentes. Eu e Tanya estávamos em um relacionamento que era público e estável, ela teve uma gravidez que foi saudável do início ao fim, e o anúncio foi celebrado como uma evolução natural de tudo que já vínhamos mostrando daquela união.

Agora, eu estava prestes a enfrentar uma resposta pública que poderia ser completamente diferente. Claro, ao longo dos anos que eu e Bella passamos separados, haviam os fãs que torciam por esse retorno, mesmo que ele se mostrasse improvável. Mas quanto eles representavam do público total?

O ponto crucial era que eu sabia que os comentários não seriam dedicados apenas a mim. Se fossem, eu conseguiria lidar. Eu tinha uma equipe muito bem preparada para lidar com aquilo. O problema era o que seria falado de Bella, especialmente naquele contexto.

Eu nunca tive uma tolerância muito alta para quando as críticas eram destinadas a quem eu amava, desde muito jovem, e agora seriam para duas das pessoas que eu mais amava. De um lado, Bella. Do outro, nosso filho que ainda era pequeno demais para sequer ser reconhecido como um ser humano.

Agora, me olhando no espelho de corpo todo em busca de qualquer marca no smoking, eu sentia a ansiedade crescer a cada segundo. A qualquer momento, Bella estaria pronta e nós faríamos a foto que anunciaria não só nosso relacionamento para o mundo, como também o fato de que estávamos esperando mais um membro na família.

Ainda havia algo quase irreal em pensar nessas palavras enquanto eu ajustava o punho da camisa diante do espelho, como se a minha maior preocupação devesse ser a altura da abotoadura ou a marca inexistente na lapela do smoking. Do outro lado da porta, havia gente circulando. O mundo estava se movendo ao redor de mim com a precisão de uma operação militar.

Eu, por outro lado, sentia como se tivesse esquecido como respirar.

O evento daquela noite já seria grande o suficiente sem nada disso. Era o anúncio oficial do meu próximo filme, o tipo de projeto que os estúdios tratavam como se pudesse salvar ou destruir uma temporada inteira, com potencial de ser o maior destaque das premiações do ano. Haveria elenco, direção, produtores, imprensa, fotógrafos, fãs atrás das grades de proteção e microfones tentando transformar qualquer resposta em manchete.

Eu já tinha feito aquilo centenas de vezes: sair de um carro, sorrir, posar. Fingir naturalidade sob flashes que pareciam pequenos ataques, responder perguntas repetidas com frases diferentes o suficiente para parecer engajado. Elogiar o diretor, o roteiro, meus colegas de elenco, a experiência de filmagem, os desafios físicos. Dar ao público a versão acessível de um trabalho que, na maior parte do tempo, era exaustivo, solitário e muito menos glamouroso do que parecia.

Eu sabia fazer aquilo.

Mas nunca tinha feito aquilo com Bella grávida ao meu lado.

Meu celular vibrou sobre a mesa, e eu não precisei olhar para saber que provavelmente era mais uma mensagem perguntando se ainda estávamos certos. A equipe inteira funcionava em camadas de controle. Todos queriam alinhar respostas, rotas, ângulos, quem falaria primeiro, quem não falaria de jeito nenhum.

Como se alguma daquelas coisas pudesse realmente ser controlada depois que a foto fosse publicada. O que podia ser controlado, já estava sob controle.

Tanya, por exemplo, tinha sido avisada naquela manhã. Eu mesmo fui ao hospital, levei Emerald comigo, e contei. Ela só assentiu e agradeceu por não tê-la feito descobrir por uma foto no Instagram.

Depois, quando eu estava me preparando para ir embora, ela perguntou se Emerald já sabia e o que eu pretendia fazer com isso.

— Ela só terá acesso a comentários negativos se alguém mostrar, Tanya, o que eu não pretendo fazer. Posso contar que você não fará?

Por mais que eu quisesse, ainda não conseguia proteger todos dentro de uma bolha. Ainda. O que eu podia fazer era não me esconder atrás dessa impotência. Podia ficar ao lado de Bella quando os flashes viessem. Podia segurar a mão dela no tapete, não tratá-la como um acessório, mas como a verdade mais simples que eu tinha para oferecer.

Meu celular vibrou de novo e, dessa vez, olhei.

De: Esme Cullen

Emerald acabou de perguntar porque o papai e a Bella não a levaram para passear hoje.

Espere até ela saber que vocês estão tirando fotos sem ela!

Tenho certeza que você está esquecendo de respirar, então, este é um lembrete: respire, meu filho.

Antes que eu pudesse responder, ouvi a porta do quarto se abrir atrás de mim. Quando virei, esqueci completamente o que pretendia dizer.

Por um segundo, não houve evento. Não havia foto, internet, imprensa ou qualquer pessoa esperando do lado de fora. Havia apenas Bella, parada sob a luz quente do corredor, usando um vestido azul que parecia ter sido criado para tornar impossível qualquer tentativa de olhar para outro lugar.

Eu tinha pedido por aquele vestido. Eu me lembrava exatamente da forma como tinha dito. Agora, diante de mim, percebi que havia sido uma péssima ideia.

O vestido não tinha recortes óbvios ou qualquer artifício que pedisse atenção. Justamente por isso, era devastador. O tecido cobria os ombros, marcava a cintura e acompanhava a curva da barriga com uma honestidade que me atingiu no peito. Não escondia ou sugeria alguma coisa, mas deixava bem claro.

Seu cabelo caía em ondas suaves, os olhos estavam um pouco mais escuros por causa da maquiagem, e havia algo na postura dela que eu reconheci antes de conseguir nomear.

— Diga alguma coisa — ela pediu.

A voz dela não tremeu. A minha provavelmente tremeria.

— Você está tão linda que eu estou considerando cancelar o evento.

Ela soltou uma risada pequena, aliviada e nervosa.

— Frase aceitável.

— Só aceitável?

— Estou grávida e prestes a incendiar a internet. Meus padrões estão confusos.

Parei diante dela. De perto, a barriga parecia ainda mais real. Talvez porque eu pudesse tocá-la. Talvez porque, em pouco tempo, milhões de pessoas também a veriam, mas ninguém jamais entenderia o que aquela imagem significava para mim naquele quarto.

Minha mão tocou a barriga dela com cuidado, por cima do tecido azul. Eu a senti respirar sob a minha palma, um movimento pequeno e trêmulo, e precisei fechar os olhos por um segundo.

Nosso filho estava ali, logo abaixo da minha mão.

— Você está tremendo — ela disse.

Abri os olhos.

— Você também.

— Eu tenho desculpa.

— Qual?

— Estou carregando uma pessoa e usando um vestido apertado o suficiente para tornar essa pessoa uma notícia que vai correr o mundo em minutos.

Uma risada escapou de mim.

— Ótima desculpa.

Eu a beijei porque não encontrei resposta melhor. Foi um beijo breve, cuidadoso, com mais promessas do que desejo, embora o desejo estivesse ali, óbvio e vivo, lembrando-me do vestido, da cor, do tecido sob a minha mão e de todas as coisas que eu tinha dito que faria quando voltássemos para casa.

Mas aquela noite exigia que eu fosse mais do que um homem apaixonado.

Alguém bateu na porta.

— Cinco minutos — minha assessora, Siobhan, anunciou do outro lado.

Bella soltou o ar.

— Tempo suficiente para fugir para o México.

— Seu passaporte ficou em casa.

— Droga.

Ela riu, e o som me ajudou mais do que qualquer discurso.

A porta abriu antes que eu respondesse, e minha assessora colocou a cabeça para dentro com a expressão de quem já tinha vivido muitas crises, mas ainda não aquela. Seus olhos foram para Bella, para a barriga, depois para mim. Por mérito profissional ou instinto de sobrevivência, não demonstrou nada além de concentração.

— O fotógrafo está pronto.

Bella olhou para mim.

— Pronto?

— Não.

Ela sorriu de leve.

— Vamos mesmo assim?

Meu coração quase falhou ao ouvi-la usar a frase que seria minha.

A foto seria feita ali mesmo, naquela suíte, sem um cenário produzido. Apenas nós dois, o vestido azul, o smoking preto, a equipe reduzida ao mínimo e um silêncio que parecia respeitoso demais para um quarto cheio de pessoas trabalhando.

O fotógrafo, que já tinha feito capas, campanhas e sessões de fotos de gente infinitamente mais calma do que nós, falou pouco.

Depois de alguns cliques sozinha, Bella olhou para mim e eu entendi minha deixa. Aproximei-me por trás dela e, sem pensar muito, coloquei uma mão em sua cintura. A outra cobriu a mão dela sobre a barriga, como tinha feito tantas vezes em casa, na cozinha, no sofá, na cama, nos momentos em que a realidade parecia grande demais e eu precisava lembrar que também era simples.

A primeira foto saiu. Depois outra, e outra.

Em algum momento, Bella virou o rosto para mim, e eu abaixei a cabeça até minha testa quase tocar a dela. O fotógrafo continuou trabalhando em silêncio.

— Estamos juntos nessa — murmurei, baixo demais para qualquer outra pessoa ouvir.

O canto da boca dela tremeu.

— Sem esconder nenhum de nós.

O clique veio exatamente nesse instante. Eu não precisava ver as outras, soube que era aquela.

A escolhida apareceu no monitor alguns minutos depois. A imagem não parecia perfeita no sentido literal da palavra, eu conseguia perceber toda a tensão que rondava aquele momento. Mas ali, também havia sinais bons, bonitos. Havia a mão dela sobre o filho, a minha sobre a dela, o vestido azul desenhando a verdade com uma clareza quase desafiadora.

— Essa — Bella disse.

A equipe se moveu com uma velocidade quase assustadora. A foto foi enviada para nossos celulares, para as assessoras, para quem precisava ter acesso antes da publicação. A legenda estava pronta, mas ainda não publicada.

Nós três.

Só essas duas palavras.

Bella tocou meu braço.

— Você está bem?

Pensei em dizer que sim. Pensei em dizer que estava nervoso. Pensei em todas as respostas aceitáveis que um homem de smoking poderia dar antes de entrar em um tapete vermelho para anunciar ao mundo que amava uma mulher e esperava um filho com ela em uma cronologia que as pessoas certamente tentariam transformar em crime. Então respondi a verdade.

— Estou com medo do que vão fazer com vocês.

O rosto de Bella suavizou.

— Edward, foque aqui — ela pegou minha mão e levou, mais uma vez, ao topo da barriga. — A única coisa que importa neste momento está aqui.

A palma da minha mão se abriu sobre o tecido azul e, por um segundo, obedeci. Não pensei nos comentários, nos tabloides, nos jornalistas esperando do lado de fora, nas perguntas, nas teorias sobre datas, nas pessoas que certamente transformariam nosso filho em uma acusação antes mesmo de vê-lo como uma vida.

Pensei apenas no calor do corpo de Bella sob a minha mão e na existência silenciosa de alguém que, apesar de todo o barulho prestes a começar, ainda estaria seguro.

— Ele está seguro aqui — Bella disse, como se lesse minha mente.

— E você?

A expressão dela suavizou um pouco mais.

— Eu estou com você.

Não era a mesma coisa que estar segura, nós dois sabíamos. Mas talvez fosse a única promessa possível naquela noite.

Antes que eu pudesse responder, Siobhan se aproximou com o celular na mão, como quem estava carregando uma granada com sinal de internet.

— Preciso de uma confirmação final.

Olhei para a tela. A foto estava ali, da mesma forma que estava há alguns minutos, e a legenda continuava simples demais para ser contestada.

Nós três.

Tive a sensação de que aquelas duas palavras tinham mais peso do que qualquer discurso que eu já havia feito em público. Dois termos prestes a atravessar milhões de telas e dividir nossa vida em antes e depois.

— Pode publicar e colocar minha conta marcada no post, quero que apareça no meu perfil também — Bella disse.

A voz dela não tremeu, enquanto a minha com certeza tremeria se tivesse que responder.

Siobhan publicou e o momento foi meio… ridículo. Quase decepcionante.

O mundo não mudou imediatamente. Não houve som dramático, nenhuma rachadura no chão, nenhum sinal visível de que tínhamos acabado de entregar algo tão íntimo para o lugar mais barulhento possível. O post apenas apareceu, a foto deixou de ser nossa e se tornou pública em um movimento pequeno do polegar de outra pessoa. Por três segundos, nada aconteceu.

No quarto segundo, o primeiro celular começou a vibrar. Depois todos os aparelhos no cômodo pareceram ganhar vida ao mesmo tempo, uma pequena sinfonia histérica de notificações que nenhuma música jamais deveria tentar imitar.

Bella não olhou, eu também não. Minha assessora, porém, olhou por obrigação profissional e perdeu um pouco da cor, que já não era muita.

— Está… rápido.

— Isso é bom ou ruim? — Bella perguntou.

— É inevitável — ela respondeu, o que talvez fosse a definição mais honesta de toda aquela noite. — Vou pedir que alguém do meu time monitore os comentários enquanto estivermos no evento.

Alguém bateu à porta, avisando que o carro estava pronto. Outra pessoa avisou que o estúdio já sabia da publicação e que a equipe no tapete havia sido orientada. Um terceiro perguntou se responderíamos perguntas pessoais ou se entraríamos direto para as fotos oficiais do filme.

Eu estava ali por causa de um filme. Meses de trabalho, um diretor exigente, entrevistas planejadas, uma campanha inteira construída ao redor de um protagonista, um gênero, uma expectativa comercial. E, ainda assim, naquele instante, tudo aquilo parecia só… Um cenário. Bella apertou minha mão.

— Não leia.

Eu sequer tinha percebido que meu olhar havia descido para a tela iluminada do meu celular.

— Não ia ler.

Ela ergueu uma sobrancelha e eu bloqueei a tela.

Quando a equipe abriu a porta da suíte, o corredor pareceu longo demais. Havia movimento em todos os lados, saltos contra o piso, rádios de segurança, o cheiro de perfume caro misturado às flores do hotel. Bella caminhava ao meu lado, com a mão entrelaçada à minha, e eu precisei conter o impulso de colocá-la atrás de mim como se fosse possível blindá-la com o próprio corpo.

Não era e eu sabia que ela não queria isso. No elevador, ficamos de frente para as portas espelhadas. Olhei para o nosso reflexo e, por um segundo, vi o que o mundo veria dali a pouco: o contraste entre o glamour absoluto da imagem e o medo silencioso por trás dela era quase obsceno.

— Parecemos calmos — ela disse.

— Somos ótimos atores.

A equipe ao nosso redor fingiu não ouvir, o que eu agradeci. Aqueles segundos eram tudo o que me restava antes do barulho.

Siobhan se aproximou antes que entrássemos no carro, para soltar sua cartada final.

— A foto já está em todos os lugares.

A porta se fechou, e por alguns segundos o mundo ficou abafado.

Bella sentou ao meu lado, segurando minha mão. As luzes da garagem passavam pelo vidro conforme o carro se movia em direção à saída. Eu podia sentir a tensão nos dedos dela, embora seu rosto permanecesse firme.

— Última chance de fugir — murmurei.

— Não dá, a foto já foi para o ar.

— Estou ficando sem ideias.

Ela virou o rosto para mim.

— Você não precisa de ideias, estamos juntos.

Aquilo me calou. Inclinei-me e beijei a mão dela.

— Sempre.

Em pouco tempo, o carro parou e, do lado de fora, o som explodiu antes mesmo que a porta abrisse. Gritos, flashes, vozes sobrepostas, pessoas chamando meu nome. Depois o nome de Bella começou a aparecer e notei que o tom era diferente, como se estivessem esperando para enterrá-la viva em críticas.

A foto já tinha chegado antes de nós.

Quando saí, o impacto dos flashes foi imediato e agressivo. Sorri por reflexo para as câmeras mas, quando me virei para dentro do carro, o sorriso mudou. Não sei se os fotógrafos perceberam. Provavelmente sim, eles percebiam tudo que pudesse ser vendido depois.

Estendi a mão e Bella apareceu pela porta. Por um segundo, o tapete pareceu prender a respiração.

O vestido azul surgiu primeiro, depois a barriga e, por fim, o rosto dela. Linda de um jeito que não tinha nada a ver com maquiagem, cabelo ou tecidos caros. Então ela endireitou os ombros, levou uma mão à barriga e olhou para as câmeras.

Foi como acender um fósforo em um quarto cheio de palha seca.

Os flashes vieram tão rápidos que, por um instante, perdi a noção da direção. Eu já tinha passado por chegadas tumultuadas, mas nada se comparava ao som de uma verdade íntima sendo consumida ao vivo. Inclinei-me até o ouvido dela.

— Estou aqui.

— Eu sei — ela respondeu, sem desviar o olhar das câmeras.

Caminhamos até o primeiro ponto marcado no tapete. O painel do filme atrás de nós, meu nome em letras enormes, o título da produção ocupando a parede, todo o universo profissional que deveria definir aquela noite sendo reduzido a cenário para algo infinitamente mais pessoal.

Bella posicionou-se de leve para mostrar a barriga, uma escolha consciente que eu senti no modo como ela respirou antes de fazê-lo. Minha mão encontrou a cintura dela e os gritos aumentaram.

— Bella, aqui! Bella, uma foto da barriga! Vocês podem confirmar quando nasce?

— Estamos muito felizes — falei, quando um repórter conseguiu lançar a pergunta alto o suficiente para atravessar o ruído. — E vamos proteger nossa família. Hoje também é uma noite importante para o filme, então agradecemos o carinho e o respeito.

Seguimos em frente.

A cada poucos metros, outra pausa. Outra parede de flashes. Outra tentativa de arrancar uma resposta que virasse uma manchete cruel. Em determinado momento, alguém gritou o nome de Emerald.

Meu corpo inteiro endureceu, mas antes que eu pudesse responder com raiva (e havia uma versão de mim, nada distante, que teria feito exatamente isso) minha assessora se moveu ao lado da barreira e sinalizou para avançarmos. Segui. Bella só respirou de novo quando já estávamos alguns passos adiante.

— Você conseguiu — ela murmurou.

— Não diga isso com esse tom orgulhoso ou vou achar que mereço recompensa.

Ela olhou para mim, quase sorrindo.

— Sobreviva ao tapete primeiro e eu pensarei em uma recompensa mais tarde.

A entrevista oficial do estúdio veio depois. Uma jornalista credenciada, câmeras posicionadas, perguntas sobre o filme, o personagem, a preparação física, o diretor. Eu respondi como precisava responder e falei do trabalho, do roteiro, da equipe, de como era estranho e bom finalmente dividir o projeto com o público.

No fim da entrevista, a repórter sorriu daquele jeito específico de quem ia cruzar uma linha.

— Edward, antes de encerrarmos, quero dar os parabéns pela notícia. Querem dizer algo sobre esse momento?

Olhei para Bella antes de responder.

— Obrigado — falei. — Estamos felizes, é um momento muito importante para nós

Quando enfim entramos no prédio, o som do tapete ficou para trás de forma abrupta, interrompido por uma porta grossa. O saguão estava cheio de convidados, sorrindo, cumprimentando, olhando para nós e depois tentando fingir que não olhava para a barriga de Bella.

Por alguns segundos, ficamos parados perto de uma parede, afastados da circulação principal. Não o suficiente para realmente termos privacidade, mas o bastante para fingir.

— Você está bem? — perguntei.

Ela soltou uma risada curta.

— Não sei. E você?

Olhei para as portas de vidro pelas quais ainda víamos flashes do lado de fora.

— Também não sei.

Bella assentiu, como se aquilo fosse perfeitamente aceitável e colocou a mão sobre a barriga.

— Mas ele está. Então, por enquanto…

— Foco aqui — completei.

Ela sorriu. E, por um instante, no meio de toda aquela noite impossível, eu consegui prestar atenção em uma coisa só.



A festa terminou como todas as festas daquele tipo terminavam: tarde demais, com gente demais ainda tentando dizer coisas importantes demais em conversas curtas demais.

Quando finalmente entramos na suíte do hotel, Bella soltou a minha mão apenas para tirar os sapatos. Ela se apoiou no sofá, ergueu um dos pés e puxou a sandália até que caísse no chão com um som seco, depois, repetiu com o outro pé.

— Cada dia mais difícil usar essas armas mortais.

Eu comecei a rir, mas o olhar que ela me lançou matou a risada.

Mesmo depois de horas sob flashes, perguntas, cumprimentos e olhares que tentavam fingir discrição, eu ainda tinha a mesma reação irracional ao vê-la assim. Um impulso quase primitivo de colocar as mãos nela e, ao mesmo tempo, escondê-la do resto do mundo.

— O plano é o seguinte — ela começou. — Eu e você, debaixo daquele chuveiro quente, agora. Depois, se eu estiver plenamente satisfeita, nós vamos para debaixo daquele edredom fofinho e vamos ler todos os comentários do post.

Balancei a cabeça em negação.

— Jesus, Bella, você é masoquista.

Mas, Bella sendo Bella, ignorou completamente o que eu disse. Ela se aproximou de mim como uma cobra sorrateira e começou a desfazer os botões da minha camisa.

— Não sei se masoquista é a palavra… — comentou, passando as unhas pelo meu peito. — Eu diria que tem algo muito sexy em não precisar mais me esconder.

Eu não tinha certeza se foi pela frase, pelo toque ou pelo fato de que, depois de tantas semanas, ouvi-la dizer aquilo com a boca tão perto da minha pele me tornou consciente de cada terminação nervosa do meu corpo.

— Você está brincando com fogo — avisei.

Ela ergueu os olhos para mim, ainda trabalhando nos botões da minha camisa.

— Achei que essa fosse a ideia.

— A ideia era você tomar banho, comer alguma coisa e dormir.

— Que ideia chata… Gosto mais da minha.

Concluindo os botões da camisa, ela desceu a mão para abrir meu cinto. Meu corpo inteiro respondeu àquilo de um jeito pouco digno.

Segurei a cintura dela, meus dedos encontrando exatamente a curva que o vestido azul tinha exibido para o mundo horas antes. Só que ali, dentro da suíte, sem flashes e sem vozes chamando nossos nomes, aquela curva voltava a ser minha. Minha para tocar, minha para reverenciar.

Bella percebeu a mudança no meu rosto.

— O que foi?

— Estou tentando decidir se te levo para o chuveiro ou se te lembro que você acabou de dizer que quer ler comentários.

Ela inclinou a cabeça.

— As duas coisas podem acontecer.

— Não se eu fizer meu trabalho direito no chuveiro.

O sorriso dela poderia iluminar o quarto todo. Que mulher perigosa.

Eu a beijei antes que a risada terminasse e não foi um beijo delicado ou controlado. Foi um beijo de porta fechada, de corpos cansados demais para fingir calma e vivos demais para dormir. Bella se agarrou à minha camisa aberta, me puxando para mais perto, e eu senti o ventre dela encostar no meu corpo com a evidência doce e devastadora de tudo que tinha mudado.

— Chuveiro — ela murmurou contra minha boca.

Levei-a até o banheiro com uma mão na cintura dela e outra procurando o zíper do vestido. Paramos em frente ao espelho enquanto o tecido se acumulava aos pés dela.

— Linda.

— Você não pode dizer coisas assim quando estou hormonal e seminua aqui.

Eu sorri contra a testa dela antes de ligar o chuveiro e a água quente encheu o banheiro de vapor em poucos segundos. Bella entrou primeiro, soltando um gemido de alívio quando a água caiu sobre seus ombros, e eu quase ri da expressão de pura gratidão no rosto dela.

— Isso é melhor do que sexo — ela disse.

— Estou ofendido.

— Então entre logo e defenda sua honra, Cullen.

Bella riu baixinho, o som ecoando no banheiro úmido enquanto me puxava pela mão. A água quente batia em nós dois, escorrendo pelo meu peito e descendo pela barriga dela. Eu a encostei na parede fria do box, uma mão firme na curva do quadril, a outra subindo para segurar seu queixo.

— Desafio aceito — murmurei, antes de descer a boca até seu pescoço.

Ela inclinou a cabeça para o lado, expondo mais pele. Minha língua traçou uma linha molhada até o ombro, enquanto meus dedos apertavam a carne macia da bunda dela, puxando-a contra mim.

Ela estendeu a mão entre nós, fechando os dedos ao meu redor. Eu soltei um grunhido rouco contra a pele dela.

— Bella… — avisei, mas ela só apertou mais forte, subindo e descendo o punho molhado.

Respondi deslizando uma mão entre as coxas dela. Bella soltou um suspiro trêmulo e nos puxou contra o azulejo frio, criando um contraste gritante com o calor que emanava de nossos corpos. Eu não tinha pressa; queria sentir cada reação, cada pequeno espasmo de prazer que ela tentava, sem sucesso, conter.

— Você não tem ideia do quanto esperei por isso — ela sussurrou, enquanto seus dedos continuavam a me provocar com uma precisão torturante. — Passei a noite inteira querendo te encostar em uma parede e te dar a recompensa que prometi.

Eu me afastei apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. Bella estava com as pupilas dilatadas e a pele rosada, uma imagem tão fascinante que quase me levou ao ápice ali mesmo. Com um movimento lento e deliberado, nos movi até encostarmos na parede e ela instintivamente envolveu minha coxa com uma das pernas, usando a mão que ainda me segurava para me posicionar mais perto dela.

O contato foi imediato e elétrico. Senti a pressão do seu corpo contra o meu, a fricção das peles molhadas tornando tudo mais intenso. Eu a beijei novamente, mas agora era um beijo faminto, onde nossas línguas se buscavam com uma urgência que já não admitia mais esperas.

— Agora, Edward... por favor — ela implorou entre os beijos, arqueando o corpo para frente.

Quando finalmente me uni a ela, um gemido longo e profundo escapou dos lábios de Bella, ecoando pelo banheiro. Ela apertou meus ombros com força, enterrando as unhas na minha pele, enquanto eu fechava os olhos, absorvendo a sensação de estar, enfim, completo dentro dela.

Comecei a me mover lentamente, querendo prolongar aquele momento ao máximo. O som do chuveiro abafava nossos sussurros, mas não a intensidade dos nossos corpos colidindo. Bella movia o quadril em sintonia com o meu, buscando mais.

— Você é perfeita — murmurei contra o ouvido dela. — Tão, tão perfeita.

Ela respondeu com um beijo úmido no meu pescoço, soltando pequenos sons de satisfação que me incentivaram a acelerar. O prazer começou a subir como uma maré, densa e inevitável. Eu podia sentir as paredes dela me apertarem, o ritmo tornando-se mais frenético enquanto nossas respirações se fundiam em um único fôlego ofegante.

— Edward… — ela choramingou no meu ouvido.

— O que, meu amor? — diminui o ritmo, apenas balançando o quadril agora. — Me diga o que você quer e é seu.

Bella soltou um suspiro quebrado, derrubando a cabeça para trás enquanto lutava para recuperar o fôlego. O vapor do chuveiro envolvia nossos corpos como um casulo e a água quente escorria, misturando-se ao suor e à luxúria que preenchia cada centímetro daquele espaço. Ela apertou a perna ao redor da minha cintura, puxando-me para ainda mais perto, se é que isso era possível.

— Mais... — ela sussurrou, a voz rouca, quase um lamento. — Não pare, eu quero sentir tudo…

Aquelas palavras foram o gatilho. Recuperei o ritmo, que agora era algo deliberado, profundo e possessivo. Cada estocada era um lembrete de que ela era minha e eu era dela. Eu a sentia pulsar ao meu redor, a pressão aumentando a cada movimento, transformando o prazer em algo quase insuportável.

Uma das minhas mãos subiu do seu quadril para a nuca, segurando-a enquanto eu a beijava com uma intensidade que beirava a fome. Bella respondia com a mesma urgência, suas mãos explorando minhas costas, me empurrando ainda mais contra ela. O contraste do azulejo frio em suas costas e o calor abrasador do nosso encontro criava uma tensão que parecia fazer o próprio ar vibrar.

— Vem, Bella, comigo — incentivei, minha voz saindo como um rosnado baixo contra a pele do seu pescoço.

Eu acelerei, sentindo a iminência do ápice. O mundo se reduziu ao som da água batendo no chão e ao ritmo frenético de nossos corpos batendo em uníssono. Quando o orgasmo a atingiu, Bella soltou um grito abafado contra o meu ombro, tremendo em espasmos violentos e deliciosos que me envolveram completamente.

O mundo exterior — os flashes, a fama, os comentários que ela tanto queria ler — deixou de existir. Só existia o calor da água, o cheiro da pele dela e a sensação avassaladora de estarmos fundidos em uma coisa só.

Eu me entreguei logo em seguida, sentindo cada músculo do meu corpo relaxar em uma onda de êxtase avassalador. Ficamos imóveis por alguns instantes, apenas acalmando nossas respirações.

Eu apoiei a testa na dela, sentindo a respiração de Bella voltar ao normal lentamente, enquanto ela ainda tremia levemente nos meus braços.

— Você... — ela começou, com um sorriso preguiçoso e os olhos semicerrados de satisfação. — Defendeu sua honra de um jeito bem convincente.

Eu ri baixo, beijando a ponta do seu nariz.

— Eu avisei que não queria que você se distraísse com comentários — murmurei, apertando-a mais uma vez contra mim. — Agora, acho que podemos pensar naquele edredom fofinho.

Foi preciso mais algum tempo até que conseguíssemos sair do chuveiro, porque nenhum dos dois parecia disposto a romper primeiro aquela bolha úmida e quente onde o mundo ainda não tinha permissão para entrar.

Quando finalmente desliguei a água, Bella permaneceu encostada em mim por alguns segundos, mole, satisfeita e perigosamente sonolenta, enquanto eu passava a toalha por seus ombros.

Voltando ao quarto, vesti apenas uma calça de moletom, já que ela roubou minha camiseta antes que eu pudesse oferecer. O edredom era tão ridiculamente macio quanto Bella prometera, e ela se enfiou debaixo dele com um suspiro quase dramático, a cabeça encontrando meu peito como se aquele fosse seu lugar oficial.

Por alguns minutos, fiquei apenas com a mão espalhada sobre sua barriga, sentindo a respiração dela desacelerar contra mim, tentando acreditar que, em algum lugar fora daquele quarto, nossos nomes estavam em todos os lugares e, ainda assim, ali dentro, tudo continuava pequeno o bastante para caber entre nossas mãos.

Então nossos celulares vibraram uma vez, depois outra, e Bella abriu os olhos com um brilho preguiçoso e teimoso que eu conhecia bem demais.

— Não faça essa cara — ela murmurou, antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. — Eu prometi ler comentários debaixo do edredom.

Ela era muito mais corajosa que eu, isso era um fato. Enquanto eu ainda tinha medo do que aquela leitura pudesse significar, ela estava determinada a saber o que estava acontecendo no mundo lá fora e o tamanho do impacto que a foto tinha causado.

— Bem, vamos lá. Começamos com um comentário da Alice, que diz “minha amiga é a grávida mais linda do mundo todo".

Interrompi sua leitura com um beijo em sua bochecha.

— É estranho dizer isso mas concordo com ela.

Bella revirou os olhos e continuou lendo.

— Depois, temos o comentário do Emmett dizendo “sempre acreditei, nunca duvidei! É o maior casal do século". Esse tem trinta e cinco mil curtidas, ele deve estar se achando — eu tinha certeza que sim. — Olha só, um comentário da Tanya.

Um o que?

— Relaxe, Edward. Ela só deixou um coração.

Ela continuou rolando a página e, surpreendentemente, a maioria dos comentários era positiva. Claro, havia um ou outro perfil sem foto que destilava seu veneno, mas Bella não se abalava mais com isso.

— Como o diabo sempre está à espreita, veja essa mensagem — ela estendeu o celular para mim e comecei a ler a mensagem privada que veio da ex dela.

De: Irina

Você é mais baixa do que eu imaginava.

Todo o papo de “ir com calma” e “pensar antes de qualquer decisão” só se aplicava a mim, então? Foi só eu virar as costas que você encontrou um pau para sentar e ter seu tão sonhado bebezinho. Que conveniente, não é? Essa gravidez é o acessório perfeito para fingir que agora é uma mulher de família.

Espero que essa criança tenha mais caráter que os pais, ou então você terá muitos problemas. Afinal, quem conseguirá olhar para esse bebê e não ver o reflexo de todas as mentiras que você contou?

E não pense que esse "momento maternal" vai te proteger. Você pode estar carregando um filho, mas continua sendo a mesma amadora medíocre de sempre. Não se esqueça de que eu sou a única razão pela qual aquela empresa ainda existe.

Aproveite seus enjoos e suas cólicas, Bella, porque enquanto você brinca de casinha, eu continuo dando as cartas. Fui muito paciente com você.

E, por fim, tente não abortar a sua ambição junto com a sua dignidade. Nos vemos na segunda-feira, se você conseguir levantar da cama com esse peso extra na barriga.

Levei alguns segundos para entender que tinha terminado de ler. Não porque a mensagem fosse difícil de compreender, pelo contrário. Era clara demais. Tinha sido escrita para atingir pontos específicos, escolhidos por alguém que conhecia Bella bem o suficiente para saber onde costumava doer.

Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. Senti o maxilar travar, os dedos se fecharem ao redor do celular e uma raiva tão limpa subir pelo meu peito que, por um segundo, tudo o que eu queria era levantar da cama, ligar para um advogado, para qualquer pessoa capaz de transformar aquela mensagem em um problema real para Irina antes do amanhecer.

Bella tirou o celular da minha mão, calma demais.

— Não quebre meu telefone — disse.

Ela bloqueou a tela e colocou o aparelho de lado, virado para baixo, como se aquilo fosse apenas mais uma notificação inconveniente no fim de uma longa noite.

— Ela não pode falar assim com você.

— Ela pode falar o que quiser — Bella respondeu, ajeitando-se contra os travesseiros. — Eu é que não preciso mais permitir que isso tenha acesso a mim.

Eu continuei olhando para o celular como se a tela pudesse acender de novo a qualquer momento com novas ameaças.

— Isso é abuso, Bella. Ela acha que ainda tem algum poder sobre você.

Ela deu de ombros.

— Ela pode tentar.

— Bella, não. Ela não pode.

Ela puxou o edredom um pouco mais para cima antes de responder.

— Pessoas como Irina precisam acreditar que ainda exercem algum controle. Quando percebem que perderam esse controle, fazem barulho. Quanto maior o desespero, mais alto o barulho.

Olhei outra vez para o celular.

— Essa mensagem parece bem desesperada.

— Exatamente.

Bella entrelaçou os dedos aos meus e nos aproximou.

— Eu entendo, você quer me proteger. Mas nem todas as batalhas precisam ser lutadas, sabe? Nós podemos escolher.

— Ela falou do nosso filho — tentei argumentar.

— Sim, falou, mas o bebê nunca vai ler essa mensagem. Nunca vai saber que ela existiu. As únicas pessoas que podem carregar essas palavras para dentro da nossa casa somos nós — ela apertou minha mão. — E eu estou escolhendo não carregar.

A resposta dela me deixou sem nenhuma para rebater. Enquanto eu ainda estava pensando em como responder à Irina, Bella já estava pensando em como proteger a paz da nossa família. Aproximei meu rosto do dela e beijei sua testa.

— Você me impressiona.

Ela riu baixinho.

— Só estou cansada de gente amarga decidir como eu vou viver os dias felizes da minha vida. Na segunda, aí sim, pensarei em como afastá-la de vez.

— Então ela não leva mais nenhum minuto da nossa noite.

Bella sorriu.

— Essa foi, de longe, a decisão mais inteligente que você tomou desde que entramos aqui.

— Achei que a decisão mais inteligente tivesse sido tomar banho com você.

Ela fingiu pensar por alguns segundos.

— Está no top três, então.

Ri, puxando-a ainda mais para perto. Ela encaixou a cabeça sob o meu queixo, soltando um suspiro satisfeito, enquanto minha mão voltava automaticamente para sua barriga.

Ainda parecia surreal.

Horas antes, tínhamos contado ao mundo que estávamos juntos de novo, que teríamos um filho e que, depois de tantos desencontros, finalmente estávamos de volta à vida que um dia parecia impossível. E, pela primeira vez desde que tudo veio a público, o silêncio parecia mais alto do que o barulho lá fora.

As manchetes podiam mudar pela manhã. Os comentários continuariam chegando. Na segunda-feira, muito provavelmente, haveria reuniões e mais problemas do que eu gostaria de enfrentar.

Mas nada disso estava naquele quarto. Ali havia apenas Bella, nosso bebê e a estranha paz de quem finalmente tinha parado de correr. Fechei os olhos e beijei seus cabelos.

— Boa noite, Bella.

Ela entrelaçou os dedos aos meus sobre a barriga e sorriu antes mesmo de responder.

— Boa noite, papai.

Não havia palavra no mundo capaz de competir com aquela.

Dormi sorrindo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.