Daylight
30 Capítulo 29
Bella
Meu banho foi mais longo que o normal. Eu não tinha percebido o quanto estava cansada até que a água quente tocou meus ombros mas, meu Deus, como eu estava.
Entre cuidar de Emerald, segurar as pontas com Edward, pensar em todos os cenários que poderiam se desenrolar a partir daquele dia, imaginar um futuro e ainda me manter hidratada e alimentada, meu corpo e cabeça só não tiveram tempo de desligar.
Lavei o cabelo e dediquei um tempo a esfregar cada pedaço de pele que conseguia alcançar, quase como se aquele banho pudesse me trazer de volta à mim mesma. Era uma ilusão, mas o que mais eu poderia fazer naquele momento?
Esperar pelas seis horas que Alice ainda demoraria seriam uma tortura para minha saúde mental. Chamar Rosalie agora faria com que ela perguntasse, e eu não tinha energia o suficiente para isso agora.
Um pensamento irritante me ocorreu… Eu poderia ligar para meus pais e apenas ter companhia no telefone por algumas horas. Mas era o que eu queria? Minha mãe, com sua personalidade instável, provavelmente só me deixaria mais nervosa ao tentar obter detalhes que eu não estava disposta a fornecer. Meu pai, por sua vez, era tão desligado que não perceberia nada de errado.
Quem eu queria enganar? A última vez que falei com meus pais ao telefone foi logo depois do meu divórcio, e nem naquela ocasião eles se importaram o suficiente para trocar mais que algumas palavras. Ser adulto também era entender que nossos pais, apesar de tudo, poderiam não ser os melhores do mundo.
Mas os de Edward eram. Carlisle era paciente, atento e um ótimo ouvinte. Já Esme, era a personificação do cuidado. Ela era tudo que eu gostaria de ter agora.
E lá estava eu, chorando outra vez. Quando isso ia parar? Talvez quando eu parasse de achar que sentir era uma espécie de fraqueza. Talvez quando eu parasse de tratar cada lágrima como prova de que eu estava perdendo o controle, em vez de aceitar que meu corpo estava tentando sobreviver a semanas de medo, culpa, esperança e exaustão acumulados em lugares que eu nem sabia nomear.
Apoiei as duas mãos na bancada da pia e encarei meu reflexo no espelho embaçado.
Meu rosto estava vermelho do banho quente e das lágrimas, meu cabelo molhado grudado nos ombros, meus olhos inchados de uma forma que nenhuma quantidade de água fria resolveria completamente.
Eu parecia vulnerável. Como se os últimos dias tivessem sido empilhados sobre mim e, agora que a casa estava silenciosa, tudo finalmente tivesse encontrado espaço para desabar.
Era a primeira vez em dias que minha casa parecia realmente vazia.
Não havia Emerald rindo na sala, nem Bluey tocando na televisão, nem Jake fingindo ser babá no tapete. Não havia Edward abrindo a geladeira com familiaridade perigosa, perguntando se eu tinha comido, separando minhas vitaminas ao lado de um copo d’água, mexendo na minha cafeteira como se soubesse exatamente onde cada coisa ficava.
Em algum momento, sem que eu percebesse completamente, Edward tinha voltado a saber coisas sobre a minha casa. Onde eu guardava as canecas. Qual almofada eu preferia no sofá. Que comida meu estômago tolerava naquela semana. Onde Jake escondia os brinquedos.
Pequenas intimidades, coisas que pareciam inofensivas enquanto ele estava ali, mas que agora pareciam barulhentas demais quando a porta se fechava atrás dele.
Enxuguei o rosto com a toalha e respirei fundo, tentando me recompor minimamente. Não adiantou muito. Meu peito continuava apertado, cheio de coisas que eu não sabia como organizar.
Depois de tudo que aconteceu no último mês, eu estava ali, chorando no banheiro porque queria uma mãe. Não necessariamente a minha, e talvez essa fosse a parte mais triste.
Minha mãe provavelmente transformaria minha fragilidade em uma inconveniência. Meu pai, se atendesse, talvez me contasse sobre pesca, clima ou qualquer outro assunto distante o suficiente para que eu não precisasse dizer que estava desmoronando.
Mas eu não queria distração. Eu queria cuidado.
E, irritantemente, pensei em Esme outra vez.
Esme, com aquela voz macia e firme ao mesmo tempo. Esme, que provavelmente colocaria uma chaleira no fogo sem pedir licença e me obrigaria a comer alguma coisa antes de perguntar se eu queria falar. Esme, que conseguiria ocupar o espaço sem invadi-lo.
Era isso que me faltava. Não um plano. Não uma resposta. Não uma solução para a bagunça impossível que minha vida tinha se tornado.
Alguém que ficasse. Alguém que percebesse. Alguém que me olhasse antes que eu precisasse pedir ajuda em voz alta.
O pensamento me atingiu com uma clareza tão dolorosa que precisei apoiar a mão contra o peito.
Eu não queria Edward de volta apenas porque o amava.
Embora amasse. Meu Deus, eu amava. Amava de um jeito inconveniente, insistente, absurdo. Amava mesmo quando estava com raiva. Mesmo quando queria distância. Mesmo quando repetia para mim mesma todas as razões pelas quais confiar nele de novo seria perigoso.
Mas não era só isso.
Eu queria Edward porque havia algo ali que eu também merecia.
Merecia alguém que perguntasse se eu tinha bebido água não para me controlar, mas porque se importava. Merecia alguém que colocasse a mão na minha barriga com reverência, que falasse com o nosso bebê como se aquela vida fosse um milagre e não uma complicação. Merecia uma casa cheia. Merecia ser escolhida em voz alta. Merecia não precisar ser forte o tempo inteiro. Merecia uma família que não parecesse sempre algo que eu observava do lado de fora da janela.
E talvez essa fosse a diferença.
Antes, amar Edward tinha me feito aceitar migalhas como se fossem banquetes. Tinha me feito esperar, entender, me diminuir demais, aceitar lugares estreitos dentro da vida dele.
Mas agora não. Se eu desse outra chance a Edward, não seria para voltar a caber onde ele me colocasse.
Seria porque eu queria aquela vida. Queria o cuidado, a presença, o riso de Emerald na sala, Jake sendo inconveniente no tapete, Edward reclamando que eu não tinha comido o suficiente, nosso bebê crescendo em um mundo onde talvez houvesse mais amor do que medo.
Eu queria e, pela primeira vez, admitir isso não pareceu apenas uma fraqueza. Pareceu uma escolha.
Assustadora. Imprudente talvez. Cheia de riscos, com milhares de formas possíveis de dar errado.
Mas ainda a minha escolha.
Fui para o quarto enrolada no roupão e parei na porta.
A cama estava desarrumada.
Por algumas horas, naquela manhã absurda, minha cama tinha sido ocupada por uma versão de família que não existia em lugar nenhum. E agora tudo que restava era uma marca no travesseiro, um cobertor dobrado de qualquer jeito e o cheiro de Emerald.
Antes, aquela imagem teria me feito recuar.
Teria me lembrado de tudo que eu não podia ter, de tudo que era complicado demais, errado demais, perigoso demais.
Mas naquele momento, olhando para os lençóis amassados, senti outra coisa.
Possibilidade.
E eu estava tão cansada de fingir que não queria possibilidades só porque elas podiam me machucar.
Meu celular vibrou sobre a mesa. Por um segundo, meu coração reagiu como se tivesse sido chamado pelo nome.
Era ridículo. Patético. Profundamente previsível.
Peguei o aparelho rápido demais.
De: Alice Brandon
Ainda viva?
Não faça nada estúpido até eu chegar.
Tarde demais, pensei.
Mas não digitei isso porque qual era exatamente a coisa estúpida? Beijar Edward? Deixá-lo dormir na minha cama? Sentir falta de Emerald cinco minutos depois que ela foi embora? Querer que Esme Cullen entrasse pela minha porta e dissesse que eu não precisava saber o que fazer agora?
Ou a coisa estúpida seria continuar fingindo que eu não queria tentar?
De: Bella Swan
Fisicamente, sim. Em termos emocionais, discutível.
Defina estúpido.
De: Alice Brandon
Qualquer coisa que envolva seu ex, choro no banho, ou fingir que você comeu quando não comeu.
Olhei para a porta do quarto como se Alice pudesse aparecer ali só pela força da ameaça.
De: Bella Swan
Você é assustadora.
De: Alice Brandon
E eficiente. Coma alguma coisa. Estou falando sério.
Larguei o celular ao lado do corpo e encarei o teto por alguns segundos.
As necessidades básicas do corpo continuavam existindo mesmo quando a vida parecia impraticável. Era ofensivo, de certa forma. Eu estava no meio de uma possível catástrofe familiar que nem era minha, grávida de um homem que ainda não era meu outra vez, e meu corpo continuava exigindo torradas.
Levantei com má vontade e Jake apareceu na porta do quarto como se tivesse sido convocado. Ele me olhou com aquela expressão séria demais para um cachorro.
— Traidor.
Na cozinha, preparei uma torrada com chá porque parecia simples o suficiente para não exigir muito. Enquanto esperava o pão esquentar, bebi água direto do copo que Edward tinha deixado separado mais cedo ao lado das minhas vitaminas. Claro que tinha.
Peguei o frasco, tomei o comprimido e odiei, por reflexo, o calor que aquilo espalhou dentro do meu peito. Mas dessa vez não tentei me livrar da sensação imediatamente.
Ele pensava nessas coisas. E eu gostava disso.
Eu queria isso.
Não como uma recompensa por ter sofrido ou uma compensação pelo que ele tinha quebrado, mas porque eu merecia ser cuidada daquele jeito. Merecia que alguém me visse nos detalhes. Merecia que amor não fosse apenas uma palavra enorme e dolorosa, mas também um copo d’água deixado ao lado das vitaminas.
Quando a torrada ficou pronta, sentei à bancada e comi, mais por obediência a Alice do que por vontade real. O enjoo estava presente, mas tolerável. Uma ameaça ao fundo, como quase tudo naquela fase da minha vida.
Meu celular vibrou outra vez. Dessa vez, era Edward e meu estômago se contraiu antes que eu lesse.
De: E.
Tanya deve viajar nas próximas horas. Continua grave e sedada, mas estável o suficiente para o transporte.
Li a mensagem duas vezes. Depois uma terceira. Havia algo aterrorizante em imaginar Tanya atravessando um oceano em uma aeronave médica, presa a aparelhos, cercada por pessoas tentando impedir seu corpo de desistir no meio do caminho.
De: Bella Swan
Isso é bom, certo?
De: E.
Meu pai disse que é positivo, apesar do risco.
Tudo tinha risco.
Gravidez tinha risco. Amor tinha risco. Confiança tinha risco. Dar outra chance a Edward Cullen definitivamente tinha risco. A diferença era que, pela primeira vez, eu não queria que o medo decidisse tudo por mim.
De: Bella Swan
Entendi. Como a Emerald está?
Dessa vez, ele respondeu quase de imediato.
De: E.
Dormindo agora.
Ela quis que eu prometesse que daria um abraço em Tanya e contaria sobre nossos últimos dias.
Meu peito apertou com tanta força que precisei parar de mastigar.
— Pelo amor de Deus, Isabella — murmurei para mim mesma. — Chega.
De: Bella Swan
Ela é muito pequena para isso tudo.
De: E.
Eu sei.
Só que não sei o que estou fazendo aqui, Bella. Como posso explicar a ela que beijos e abraços não curam tudo?
Fiquei olhando para a tela por tempo demais.
A vulnerabilidade dele chegou sem aviso, sem defesa, sem aquela camada de controle que Edward normalmente colocava entre si mesmo e qualquer coisa que pudesse machucá-lo.
Talvez ninguém soubesse, mas, pela primeira vez, ele não estava fingindo o contrário. Apoiei uma das mãos na barriga, ainda discreta, sob o roupão.
Nosso bebê era pequeno demais para qualquer uma daquelas coisas também. Pequeno demais para a minha ansiedade, para o medo de Edward, para a bagunça que já existia antes mesmo que ele ou ela tivesse um nome. Respirei fundo e digitei a resposta.
De: Bella Swan
Ninguém saberia. Você só precisa continuar sendo o lugar seguro dela. Uma coisa por vez.
Era íntimo demais? Provavelmente sim.
Era verdade? Também.
Enviei e deixei o celular virado para baixo, como se isso pudesse impedir meu coração de ficar esperando a resposta dele. Não impediu.
Jake encostou o focinho no meu joelho.
— Eu sei — falei baixo. — Estou sendo ridícula.
Ele suspirou como se concordasse.
Comi o resto da torrada sem sentir o gosto. Depois lavei o prato, sequei as mãos e permaneci parada no meio da cozinha, sem saber o que fazer comigo mesma.
Eu estava sozinha. Sem Edward, sem Emerald, sem Alice por mais algumas horas. Sem uma ligação para fazer que não me drenasse completamente. Sem trabalho que importasse o suficiente. Sem barulho.
Caminhei até a sala e recolhi distraidamente um bloquinho de vinil que Emerald tinha esquecido debaixo da mesa de centro.
Pequeno, leve, insignificante. Ainda assim, fiquei com ele na mão como se fosse alguma coisa frágil.
Emerald tinha estado ali. Tinha rido ali. Tinha apoiado a cabeça no meu colo, pedido Bluey, encostado a mão na minha barriga sem saber que estava tocando no irmão ou na irmã.
A irmã mais velha do meu filho.
A frase ainda parecia impossível.
Não porque eu não gostasse dela. Eu amava, esse era justamente o problema.
Eu amava Emerald de uma forma que não era prudente, que não tinha sido combinada com ninguém e de uma forma que fazia o futuro parecer ainda mais perigoso.
Mas talvez eu estivesse cansada de chamar todo sentimento de imprudência.
Talvez eu a amasse porque ela era fácil de amar. Porque era uma criança doce. Porque confiava em mim. Porque fazia parte de Edward, sim, mas também era uma pessoa pequena e inteira, que merecia amor sem ter culpa nenhuma das confusões dos adultos ao redor.
E se eu fosse honesta, havia uma parte de mim que queria estar ali para ela também. Nunca no lugar da mãe, mas em algum lugar que ainda não tinha nome e talvez não precisasse ter agora.
Eu não sabia o que Edward faria com aquela crise. Não sabia como e nem se Tanya voltaria. Não sabia como Emerald lidaria com os próximos dias. Não sabia o que aconteceria quando a imprensa começasse a juntar peças, quando minha barriga deixasse de ser algo que roupas largas conseguiam esconder, quando todos percebessem que eu não tinha me afastado do mundo porque estava trabalhando em algum projeto novo. Eu não sabia sequer o que aconteceria quando Alice chegasse e me obrigasse a dizer em voz alta que eu tinha beijado Edward.
Mas, naquele momento, sozinha pela primeira vez em dias, percebi uma coisa com clareza dolorosa: eu não queria que Edward desaparecesse. E mais do que isso: eu não queria mais fingir que desejar a presença dele era uma falha minha.
Eu queria ser cuidada. Queria que ele entendesse que confiança não voltava com uma mensagem bonita, um beijo desesperado ou algumas semanas de atenção. Queria que ele continuasse ali quando as coisas ficassem difíceis, quando a imprensa viesse, quando meus medos ficassem feios e eu não conseguisse ser generosa.
Eu também queria tentar. Queria dar a ele uma chance real. Não uma absolvição, não uma porta aberta sem condições. Uma chance.
Porque eu o amava.
Porque ele era o pai do meu filho.
Porque eu via, mesmo com medo, que ele estava tentando ser diferente.
Mas, principalmente, porque eu merecia viver alguma coisa inteira.
Merecia não me contentar com sobreviver às próprias escolhas. Merecia desejar uma família sem imediatamente me punir por isso. Merecia amor sem me diminuir para caber nele. Merecia olhar para uma possibilidade bonita e não recuar só porque ela podia quebrar.
Eu tinha passado tempo demais achando que prudência significava negar tudo que eu queria. Talvez, às vezes, coragem fosse admitir.
Olhei para o bloco amarelo na minha mão.
— Eu vou tentar ser feliz também — sussurrei.
As palavras pareceram enormes no silêncio da sala.
Eu não estava dizendo-as para Edward ou qualquer outra pessoa. Elas eram para mim. Eu ia tentar.
Com medo, com cautela, com todas as cicatrizes expostas e nenhuma intenção de fingir que estava tudo resolvido. Mas ia tentar. Não porque Edward merecia outra chance, mas porque eu merecia a chance de ser feliz.
Levantei, levando o bloco amarelo comigo. No corredor, parei diante do quarto de hóspedes. Havia uma meia no chão, minúscula e lilás, esquecida perto da porta.
Foi uma coisa tão pequena, tão ridiculamente pequena, mas meus olhos arderam mesmo assim.
Não chorei dessa vez. Apenas fiquei ali, sentindo o peso estranho daquela casa vazia, das coisas deixadas para trás, das possibilidades que eu finalmente parava de expulsar da cabeça.
Eu queria ser cuidada. Queria cuidar também.
Queria ser mãe de um jeito melhor do que tinham sido para mim. Queria que meu filho crescesse sabendo que amor podia ser simples e abundante, não escasso e com os dias contados. Queria que ele tivesse pessoas ao seu redor. Queria que ele conhecesse Emerald não como uma presença usual em uma história confusa, mas como parte da vida dele.
Apoiei a mão livre na barriga, dessa vez rindo sozinha.
— Nós seremos felizes — sussurrei.
Promessas não tornavam as coisas mais fáceis, eu sabia disso, mas naquele momento, prometer algo para o meu filho significava que eu, de fato, tentaria. Não era mais sobre mim.
Deitei de lado na cama, ainda segurando a meia contra o peito. Jake apareceu alguns minutos depois e pulou ao meu lado sem pedir permissão, pesado e quente, encostando o corpo nas minhas pernas.
— Você sabe que não é sua cama, certo? — murmurei.
Ele apenas suspirou e se acomodou melhor ao meu lado. Eu nem sabia como tinha vivido tanto tempo sem ele.
Fechei os olhos e percebi que, pela primeira vez desde que Edward saiu, o silêncio não pareceu tão agressivo.
Dentro de mim, uma vida pequena, silenciosa e muito insistente já tinha começado a mudar tudo. Por enquanto, isso teria que bastar.
Adormeci sem perceber, com as mãos sobre a barriga, uma meia lilás presa entre os dedos e uma decisão ainda frágil, mas real, se acomodando dentro de mim.
Acordei horas mais tarde, com o celular tocando ao meu lado e a percepção de que o quarto já estava ficando mais escuro.
O quarto de hóspedes estava mergulhado naquela luz azulada de fim de tarde,com as sombras alongadas nas paredes, Jake contra minhas pernas, e a meia lilás presa no meu roupão. Meu corpo parecia afundado no colchão, como se tivesse dormido demais e, ao mesmo tempo, não o suficiente.
O celular continuava vibrando.
Estiquei a mão meio às cegas, ainda grogue, e atendi sem olhar a tela.
— Alô?
— Você está viva? — Alice perguntou, sem nenhum cumprimento.
Fechei os olhos de novo.
— É uma boa pergunta.
— Você demorou a atender.
— Eu estava dormindo.
Houve um silêncio curtíssimo do outro lado. Alice sabia o quão raro era eu conseguir dormir quando estava ansiosa.
— Ah, bom — ela disse, a voz ficando um pouco mais suave. — Estou chegando.
Meu cérebro levou alguns segundos para processar.
— Chegando onde?
— Na sua casa, obviamente.
Levantei a cabeça rápido demais e imediatamente me arrependi quando uma tontura pequena atravessou minha visão.
— Você já pousou?
— Há uma hora.
Quanto tempo eu tinha dormido?
— Por mais que eu admire sua eficiência, não consigo não ficar ansiosa ao saber que você estará aqui antes que eu consiga arrumar o quarto.
— Sim, claro. Nós duas sabemos que esse é o motivo da sua ansiedade e não qualquer outra coisa.
Não pude evitar uma risada.
— Você é perturbadora às vezes.
— E eficiente. Agora abra a porta, por favor.
— Você acabou de dizer que está chegando, daqui a pouco eu abro.
— Eu menti. Estou na frente da sua casa, venha abrir antes que eu use a chave reserva que finjo não saber onde está.
Antes que eu pudesse responder, a campainha tocou e Jake ergueu a cabeça com um sobressalto ofendido, como se isso fosse uma afronta pessoal ao cochilo dele.
Fiquei sentada por alguns segundos, segurando o celular contra o colo. A solidão que tinha ocupado a casa inteira desde que Edward foi embora pareceu mudar de forma, prestes a ser atropelada por uma força da natureza com um metro e cinquenta e oito, barulhenta e provavelmente vestida bem demais para ter atravessado o país em um avião.
Quando levantei, passei pelo espelho no corredor e parei. Eu estava um desastre: meu roupão estava torto no corpo, meu cabelo tinha secado em ondas confusas, meus olhos estavam inchados e havia uma marca de travesseiro na minha bochecha. Sem mencionar a pequena meia lilás que estava pendurada no bolso agora.
A campainha tocou de novo, dessa vez com insistência.
— Estou grávida, não surda! — gritei.
— Não são coisas excludentes! — Alice gritou de volta, do outro lado da porta.
Abri antes que ela conseguisse tocar uma terceira vez e a encontrei exatamente como imaginei: vestida em roupas caras, usando óculos de sol mesmo que o céu já tivesse escurecido e com o cabelo impecavelmente preso em um rabo de cavalo alto. Acompanhada, é claro, de uma mala de bordo, uma bolsa pendurada no ombro e duas sacolas.
Ela entrou sem pedir licença, soltou a mala e as sacolas e me abraçou com força. Eu quase chorei outra vez, quase, mas ela se afastou abruptamente e se abaixou para falar com a minha barriga.
— Oi, minha mini pessoa favorita — disse, completamente séria. — Sua tia Alice chegou para colocar ordem nessa confusão que seus pais criaram.
A imagem era tão absurdamente Alice que eu nem tive forças para revirar os olhos.
— Você não pode conversar com alguém que tem o tamanho de uma ameixa.
— Posso sim, ela me entende melhor do que você.
— Você nem sabe se é uma menina.
Alice se levantou, tirando os óculos de sol.
— Isso é um mero detalhe, você vai ver.
Ela me analisou da cabeça aos pés e seu sorriso desapareceu. Alice sempre percebia, sempre.
— Você está cansada e seus olhos estão inchados.
— Alice, por favor.
Ela cruzou os braços.
— Você esteve chorando.
Suspirei, mas não neguei.
— Um pouco.
Ela assentiu devagar, absorvendo a resposta sem me pressionar. Era uma das coisas que as pessoas raramente entendiam sobre Alice. Ela era invasiva, dramática e muitas vezes incapaz de respeitar limites básicos, mas quando realmente se importava, sabia exatamente quando parar.
— Certo, então tenho algum trabalho a fazer aqui. Primeiro: você vai me contar tudo. Segundo: eu parei no Whole Foods e vim te alimentar— Meu estômago reagiu imediatamente à palavra. Alice sorriu. — Eu sabia! Você não comeu.
Ela já tinha começado a se mover em direção à cozinha antes mesmo de terminar a frase e, quando a alcancei, já estava tirando potes e embalagens das sacolas antes mesmo de terminar a frase. Alguns itens que eu reconheci vagamente, como tomates e queijo, outros que pareciam ter sido escolhidos por alguém que acreditava que vitaminas podiam resolver qualquer problema. Ela começou a organizar os ingredientes sobre a bancada como se estivesse montando uma operação militar.
— O que estamos fazendo?
— Macarrão. Receita da minha mãe.
— Comida de conforto, exatamente o que preciso.
— Ótimo, então estou me comunicando no meu idioma nativo.
Acabei rindo e Alice apontou uma faca para mim.
— Você vai cortar os tomates, é o máximo que fará hoje.
Ficamos trabalhando lado a lado por alguns minutos. O som da água correndo, dos armários abrindo e fechando e das panelas ocupou os espaços vazios da casa.
Pela primeira vez desde que Edward tinha partido, o silêncio não parecia algo que precisava ser combatido. Alice falava enquanto cozinhava, sobre o voo, sobre uma mulher que levou três gatos na cabine, sobre um estilista que ela tinha conhecido na semana anterior e talvez fosse o escolhido para desenhar seu vestido de noiva.
Era confortável, familiar. Era Alice fazendo exatamente o que sempre fazia quando eu estava à beira de desmoronar: permanecendo ali até que respirar parecesse uma tarefa menos difícil.
Quando finalmente nos sentamos para comer, conversamos sobre nomes de bebê, sobre o quarto que ainda não existia e sobre como Alice já tinha começado uma lista mental de coisas que pretendia comprar.
O celular vibrou sobre a mesa e algo nela se iluminou.
— O quê? — perguntei.
Ela levantou os olhos.
— Rosalie — Meu coração aqueceu instantaneamente. — Preocupada com você, porque eu disse que estava vindo e não contei o motivo.
Alice digitou alguma coisa, depois outra, e então ergueu uma sobrancelha para mim.
— Ela quer saber se pode vir.
A simples ideia fez algo dentro de mim relaxar. As duas juntas eram praticamente uma sessão de relaxamento particular.
— Ela não precisa sair de casa a essa hora por minha causa.
Alice soltou uma risada.
— Eu vou fingir que você não disse isso.
— Alice.
— Ela já está vindo.
Fechei os olhos e, quando a campainha tocou cerca de vinte minutos depois, eu já sabia quem era. Alice sorriu antes mesmo de se mover.
— Pronta?
Olhei para a porta, depois para minha melhor amiga, e pela primeira vez percebi que talvez estivesse pronta, sim. Alice abriu a porta antes que eu me levantasse.
— Você demorou — ouvi Rosalie dizer.
— Eu estava ocupada salvando vidas.
Rosalie era diferente de Alice. Onde Alice ocupava todos os espaços ao mesmo tempo, Rosalie fazia o oposto. Ela chegava e, de alguma forma, as coisas pareciam menos caóticas. Quando seus olhos encontraram os meus, sua expressão suavizou imediatamente.
— Ei.
Nem percebi que estava me levantando até já estar de pé.
Ela me abraçou antes que eu dissesse qualquer coisa. Fechei os olhos por um segundo e me permiti simplesmente ficar ali.
— Você está me assustando — ela murmurou perto do meu ouvido.
— Ótimo jeito de cumprimentar alguém.
Quando nos afastamos, Rosalie segurou meus braços por um instante. Seu olhar percorreu meu rosto, meus ombros e depois voltou para meu rosto. Ela franziu levemente a testa.
Alice, que observava tudo da cozinha, soltou uma risada.
— Ah, ela percebeu.
— Percebeu o quê? — perguntei.
— Eu não sei o que percebi — respondeu Rosalie lentamente. — Só sei que alguma coisa está diferente.
Meu coração tropeçou.
Rosalie ignorou Alice completamente e continuou olhando para mim, analisando, como sempre fazia quando tentava separar as coisas que eu dizia das coisas que eu sentia.
Aquela sensação de estar sendo lida começou a ficar desconfortavelmente familiar.
— O quê? — perguntei outra vez.
— Não sei.
Rosalie inclinou a cabeça.
— Você está preocupada — piscou. — Cansada e… assustada?
— Sim.
Ela estreitou os olhos.
— Mas não é só isso.
Alice praticamente vibrou de satisfação e Rosalie continuou me encarando por mais alguns segundos. Então, para meu completo horror, seus olhos desceram até meu abdômen por um instante.
E pela forma como sua expressão mudou, ela também tinha visto alguma coisa. Seus olhos voltaram para os meus, atentos, esperando. Alice ficou completamente imóvel e, pela primeira vez desde que ela tinha chegado, o silêncio se instalou entre nós. Cheio de alguma coisa prestes a acontecer. E então Rosalie perguntou, muito suavemente:
— Bella... O que você não me contou?
Sem ideia de como contar aquilo, eu simplesmente desamarrei a faixa do roupão e coloquei as duas mãos na barriga. E ali estava.
Vi o exato momento em que ela entendeu o que significava.
— Não — ela sussurrou e deu um passo na minha direção. — Você está…
Rosalie não conseguiu terminar e eu só assenti.
Eu nunca tinha visto a realização chegar tão rápido ao rosto de alguém. Choque. Alegria. Incredulidade. Tudo ao mesmo tempo que ela soltou uma risada completamente desacreditada.
— Você está grávida!
Dizer aquilo em voz alta ainda parecia estranho, mesmo depois de quase dois meses. Como se a frase pertencesse a outra pessoa e eu ainda estivesse tentando alcançá-la. Rosalie ficou me encarando por um segundo inteiro antes de atravessar a distância entre nós e me puxar para um abraço tão apertado que eu ri contra o ombro dela. Quando ela se afastou, seus olhos estavam brilhando.
— Há quanto tempo?
— Completo doze semanas daqui alguns dias.
A reação dela foi imediata.
— Você está grávida há quase três meses e eu estou descobrindo agora?
— Eu descobri há bem menos que isso.
Mas a indignação não durou muito. Ela voltou a me observar e alguma coisa em sua expressão suavizou. Rosalie sempre foi assim: sentia primeiro, analisava depois. Os olhos dela desceram para minha barriga por um instante, como se estivesse tentando conciliar a imagem que tinha de mim com aquela nova realidade.
— Você está feliz?
A pergunta me pegou desprevenida. Não "você está bem?", não "foi planejado?", não "o que vai fazer?". Apenas você está feliz?
— Estou.
O sorriso dela surgiu devagar e, por alguns segundos, ninguém falou nada. Até que Rosalie começou a juntar as peças e eu quase pude ouvir as engrenagens girando na cabeça dela.
— Espera aí. Se você está com doze semanas, quer dizer que já estava grávida na festa da Maggie! E eu te obriguei a se embebedar de champanhe, meu Deus! — esperei enquanto ela continuava com as conclusões. — Isabella! Esse filho é do Edward?
Meu silêncio foi a resposta que ela precisava.
E agora começava a parte difícil.
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