Daylight
31 Capítulo 30
Bella
Rosalie não era uma pessoa que ficava chocada com facilidade. Ela geralmente era quem promovia o choque. Mas, naquele momento… Ela estava totalmente sem palavras.
A expressão dela mudou de novo, mas dessa vez foi mais difícil acompanhar. Depois do choque, nítido e imediato, veio a compreensão. Depois algo mais afiado, mais protetor, quase perigoso, uma habilidade assustadora de transformar preocupação em ameaça em menos de três segundos.
— Rose…
— Não. Me dê um segundo.
Ela ergueu uma das mãos, respirando fundo como se estivesse tentando impedir dez reações diferentes de escaparem ao mesmo tempo, e fechou os olhos. Quando os abriu novamente, havia lágrimas ali. Isso me afetou mais do que um grito teria feito.
— Por que você não me contou que estavam juntos?
Eu desviei o olhar, porque a verdade era que eu não tinha uma resposta simples e Rosalie me conhecia há tempo demais para aceitar qualquer resposta.
— Nós não estávamos exatamente juntos — Ela soltou uma risada sem humor. — Estou falando sério.
Como explicar aquilo? Como resumir meses de recaídas, conversas interrompidas, mágoas, reencontros furtivos e sentimentos que nunca tinham ido embora?
— Quando descobri a gravidez, nós nem estávamos nos falando.
Rosalie permaneceu em silêncio, então eu contei.
Contei sobre os meses anteriores, todas as conversas, nossos encontros no apartamento, os problemas, as situações com Tanya, como depois da minha separação eu achei que finalmente as coisas iam mudar e depositei todas as minhas esperanças em Edward, apenas para me frustrar quando ele continuou agindo como se eu fosse só uma válvula de escape. Contei sobre o dia em que ele apareceu na minha porta com a filha febril, e a próxima vez, quando chegou com a testa aberta por um copo atirado pela ex. Contei sobre como o mandei embora, como passei vários dias esperando que ele voltasse mas que, no final das contas, aquela foi a primeira vez que ele me ouviu e não voltou.
Um novo soluço escapou do meu peito quando cheguei à parte em que eu e Alice descobrimos a gravidez e, no mesmo dia, já tive que lidar com a possibilidade de não evoluir. Contei sobre o hematoma, o medo, as consultas e o pânico que me acompanhou nas últimas semanas. Rosalie ouviu tudo sem interromper e aquilo, mais do que qualquer reação, me mostrou o quanto ela estava abalada.
— Então você estava passando por tudo isso — disse ela, depois de algum tempo. — E eu não fazia ideia.
Engoli em seco quando meu peito apertou.
— Rose...
— Eu estava te mandando fotos da minha filha, te chamando para cafés, fazendo planos para os próximos meses.
— Eu sinto muito por não ter te contado antes.
— Eu também.
A resposta dela saiu tão baixa que quase pareceu um sussurro. Rosalie estava olhando para algum ponto atrás de mim, os olhos brilhando de um jeito que eu conhecia bem. Era o mesmo olhar que ela tinha quando estava magoada demais para ficar com raiva.
O que, de alguma forma, era pior agora.
— Você achou que eu ia te julgar?
A pergunta me pegou desprevenida.
— Não.
— Então o que foi?
Eu abri a boca, mas não encontrei uma resposta imediata. Não tinha sido uma única coisa. Era um acúmulo de vergonha, medo, confusão, a necessidade constante de proteger algo que parecia frágil demais para sobreviver.
— Eu não sei — admiti. — Acho que cada semana parecia uma crise diferente. Primeiro era o Edward. Depois era a gravidez. Depois a possibilidade de perder o bebê. Depois a consulta seguinte. Eu ficava pensando que ia contar quando as coisas se acalmassem.
Rosalie soltou uma risada triste.
— E as coisas nunca se acalmaram.
Assenti.
— Eu teria entendido a confusão com Edward. Teria entendido você não saber o que fazer, a gravidez, o medo, até o fato de você não querer contar para todo mundo imediatamente — A voz dela vacilou. — Eu só queria ter estado aqui.
Meu peito apertou tanto que doeu.
— Eu sei. Se algo puder ser feito agora, eu gostaria que você estivesse comigo daqui para frente.
Ficamos em silêncio por alguns segundos até que ela se aproximou e pegou minha mão.
— Estou chateada, e provavelmente ficarei assim por mais alguns dias. Mas isso não muda o fato de eu te amo e estou feliz por você, especialmente porque te conheço há muito tempo para saber que esse bebê era o seu sonho, independentemente de como ele viesse — ela bateu as mãos. — E você vai ser uma mãe incrível! Nós temos tanto a fazer!
E pronto, na mente dela tudo estava resolvido. Simples assim.
Foi a vez de Alice intervir.
— Bem, na verdade… — ela começou. — Nós te chamamos aqui para mais que contar que a Maggie vai ter que dividir a atenção.
Rosalie arqueou uma sobrancelha.
— Isso geralmente significa que existe uma segunda bomba — Ela pegou a água da mesa. — Certo, continuem.
Alice olhou para mim. Suspirei.
— Tanya sofreu um acidente.
O copo parou no meio do caminho e a expressão divertida desapareceu instantaneamente do rosto dela.
— Que tipo de acidente?
À medida que eu falava, Rosalie foi ficando cada vez mais imóvel. Quando terminei, ela parecia ter esquecido completamente a água que ainda segurava.
— E quem está acompanhando tudo isso?
— A agente dela organizou tudo no Marrocos e Edward está recebendo as atualizações daqui.
— Sozinho?
Balancei a cabeça.
— Esme e Carlisle chegaram hoje.
A reação dela foi imediata.
— Claro que chegaram. Nenhum dos dois conseguiria ficar em Londres.
Ela conhecia Esme e Carlisle tão bem quanto nós. Carlisle provavelmente já tinha falado com metade dos médicos envolvidos no caso e Esme provavelmente já tinha assumido a cozinha, a rotina de Emerald e o bem-estar emocional do filho.
— E qual é o plano?
Eu ri, porque aquela era exatamente a pergunta.
— Não existe um plano.
— Então vamos precisar de um.
— Rose...
— Não estou falando de vocês dois. Estou falando da realidade — Ela apontou para mim e começou a contar nos dedos. — Tanya vai chegar. Teremos hospital, imprensa, Edward, Emerald e agora, existe também o seu filho. Bella, eu sei que você o ama e sei que vocês vão precisar descobrir o que fazer com isso, mas neste exato momento, você também vai precisar de proteção.
Eu assenti. Pela primeira vez naquela noite, alguém estava organizando o caos em categorias compreensíveis.
— Então nós vamos pensar uma coisa de cada vez.
Alice apontou para ela.
— Isso foi exatamente o que Edward escreveu para Bella mais cedo.
Rosalie suspirou.
— Ótimo. Então pelo menos uma pessoa nessa história está tendo pensamentos racionais.
— Você acabou de elogiar Edward?
— Não, eu não faço isso.
Eu ri e dessa vez o som saiu mais leve. Rosalie me observou por um instante, depois estendeu a mão e apertou a minha.
— Nós vamos dar um jeito nisso.
— Nós?
— Sim, nós.
Ela falou como se fosse óbvio. Como se não existisse cenário possível em que ela não estivesse envolvida.
— Você está presa conosco agora.
Alice assentiu solenemente e, olhando para as duas, percebi que talvez aquele fosse o primeiro momento desde o acidente em que eu não estava apenas reagindo aos acontecimentos.
Pela primeira vez, eu tinha ajuda. Não para decidir por mim, mas para atravessar o que viesse a seguir.
E, considerando o tamanho do desastre que nos aguardava, talvez aquilo fosse exatamente o que eu precisava.
Os dias seguintes passaram de uma forma estranha.
Lentos demais quando eu estava esperando notícias. Rápidos demais quando eu olhava para trás.
Tanya chegou a Los Angeles durante a madrugada daquela mesma noite. A transferência ocorreu sem intercorrências, mas ela continuava sedada e em estado grave. Continuava sendo impossível prever qualquer coisa.
Então passamos a viver em blocos de vinte e quatro horas.
Mais um dia. Mais uma atualização. Mais uma tomografia. Mais um boletim médico. Mais uma noite.
Era assim que a vida parecia funcionar agora.
Alice ficou comigo. Rosalie voltou para casa porque, com Emmett dedicado a ajudar Edward, Maggie precisava da mãe, mas continuou presente de outras formas. Mensagens. Áudios. Chamadas de vídeo.
Edward aparecia entre tudo isso. Uma mensagem pela manhã, outra no final do dia. Às vezes uma foto de Emerald dormindo abraçada a um dos bichos de pelúcia, ou no colo da avó. E era só isso.
Nenhum dos dois mencionou a conversa que ainda precisávamos ter, talvez porque ambos soubéssemos que havia coisas mais urgentes acontecendo ou talvez porque estivéssemos com medo. Eu não sabia.
Só sabia que, no quinto dia, acordei pensando em Emerald. E fui dormir pensando nela também. Na verdade, vinha pensando nela desde que saíra da minha casa.
Naquela tarde, eu estava sentada na bancada da cozinha mexendo distraidamente em uma xícara de chá quando Alice me observou por cima do celular.
— Vai logo.
Levantei os olhos.
— Não quero atrapalhar, eles estão passando por muita coisa.
— Você também, e mesmo assim…
Fiquei em silêncio. Eu queria, mas não para conversar sobre nós. Só queria ver se estavam bem, ver com meus próprios olhos que todos continuavam de pé.
Era uma necessidade estranha, irracional talvez. Mas era real.
— Vou pegar minha bolsa.
Pisquei.
— O quê?
— Nós vamos fazer uma visitinha aos Cullen.
Vinte minutos depois estávamos no carro, porque seria muito suspeito entrar a pé e eu tinha autorização para acessar a garagem desde que Edward me convenceu a passar um final de semana lá.
Los Angeles deslizava do outro lado da janela em uma mistura de trânsito, sol de fim de tarde e normalidade irritante. Era estranho como o mundo continuava funcionando. A vida tinha um talento cruel para continuar, apesar dos nossos problemas.
— Você está nervosa.
A voz de Alice interrompeu meus pensamentos. Olhei pela janela quando o prédio onde Edward morava apareceu algumas quadras à frente e, de repente, aquilo parecia uma ideia muito pior do que quarenta minutos antes.
— Podemos voltar?
Alice soltou uma gargalhada.
— Não.
Respirei fundo.
Minutos depois, eu e Alice estávamos dentro do elevador e meu coração acelerava a cada andar.
O silêncio do corredor pareceu durar uma eternidade quando paramos em frente a porta da cobertura. Então apertei a campainha e fiquei imóvel até ouvir passos do outro lado.
— Ah, Bella!
Foi Esme quem abriu, antes que eu tivesse tempo de me arrepender e virar as costas.
Apesar do sorriso imediato, o cansaço era visível. Havia olheiras sob seus olhos e seu cabelo, que costumava ser impecável o tempo todo, estava preso em um rabo alto. Ainda sim, quando me viu, sua primeira reação foi abrir os braços e me puxar para si, e foi ridículo o quanto uma ação tão simples me afetou.
— Como você está, querida?
— Eu sei que não é o melhor momento, mas…
— Pare com isso! Você sempre é bem-vinda aqui.
Esme sorriu quando não a contrariei e nos conduziu para dentro. A primeira coisa que notei foram os brinquedos espalhados pela sala. Depois, um cobertor emaranhado no sofá. Sinais claros de que Emerald estava ocupando aquele espaço.
— Ela está dormindo? — perguntei.
Esme balançou a cabeça.
— Não, está com o avô e Claire na varanda. Ele cansou de tentar convencê-la que as paredes não são telas de pintura e comprou um tapete que só fica colorido com as próprias canetas. Vamos torcer para que não seja propaganda enganosa e eu não tenha que limpar tinta do piso.
Apesar de tudo, ri e, naquele momento, ouvi uma risada vindo lá de fora. Uma risada aguda, alta e inconfundível. E, meu Deus, como eu senti falta daquilo. Antes mesmo que eu pudesse me mover, uma vozinha atravessou a sala.
— Vovó!
E então Emerald apareceu pelo corredor, com o cabelo preso em dois coques tortos e uma caneta na mão. Ela parou abruptamente quando me viu e assim permaneceu por dois segundos.
— Bewa!
Meu coração poderia ter derretido ali mesmo.
— Oi, meu bem.
Foi tudo o que consegui dizer, porque, aparentemente, bastava aquela criança me chamar pelo apelido para desmontar todas as minhas defesas. O rosto dela se iluminou e, no segundo seguinte, ela estava correndo na minha direção. Me abaixei no momento exato em que ela se jogou.
A força do impacto me fez rir.
— Nossa, alguém está rápida hoje.
Emerald envolveu meu pescoço com os braços e se acomodou contra mim como se eu tivesse saído da sala por dez minutos, não desaparecido por vários dias.
— Bewa foi embora.
Meu coração simplesmente desistiu de funcionar.
— Eu sei, me desculpe.
A resposta pareceu satisfazê-la, pelo menos por enquanto.
— Oi! — anunciou logo em seguida, finalmente percebendo que minha amiga existia. — Meu nome é Emmie.
Só então percebi outras figuras surgindo pelo corredor da varanda. O sorriso de Carlisle foi imediato ao me ver e, por um instante, fui atingida pela lembrança de que eu já conhecia aquelas pessoas, há muito tempo.
Muito antes de Emerald, Tanya, Irina, ou toda aquela bagunça, eu tinha sido a primeira namorada que Edward levou para casa.
Ele me abraçou com um braço só, tomando cuidado por causa da criança ainda agarrada a mim.
— É bom ver você, Bella.
Havia algo profundamente reconfortante na presença dos dois ali. Eles ainda eram Esme e Carlisle, ainda eram as pessoas que faziam qualquer lugar parecer um pouco mais seguro.
— Ela nos contou sobre a sua casa e seu cachorro ontem, não foi, Emmie? — Carlisle disse, tentando pegar a neta do meu colo.
— Eu falei da Bewa — ela respondeu, apertando meu pescoço tão forte que me deixou sem ar por um momento. — E do Jake.
Carlisle balançou a cabeça e desistiu de pegá-la de mim.
— Emmie, conte para a Bella o que vai acontecer amanhã.
Emerald imediatamente se animou outra vez.
— Bewa, eu vou fazer dois anos! — ela esticou a mãozinha na minha direção, mostrando cinco dedos.
— Dois anos? Isso é muita coisa! — segurei seus dedinhos até que só dois ficassem em pé. — Você já é uma menina grande!
— E eu vou ter uma festa com a mamãe!
Foi como se o ar tivesse sido sugado da sala. Todos ficaram paralisados, exceto por Emerald, que continuava sorrindo e tagarelando sobre como seria sua festa com a presença da mãe. Meu coração se partiu um pouco, mas mesmo assim, sorri. Ela merecia que eu sorrisse.
— Tenho certeza de que a sua mamãe vai ficar muito feliz em saber que você está planejando tudo.
Carlisle soltou uma risada baixa, mas havia tristeza por trás dela. Todos nós ouvimos e sentimos, porque todos sabíamos que Tanya não estaria acordada no aniversário da filha.
Era cruel demais pensar nisso, então ninguém falou em voz alta. Esme foi quem quebrou o silêncio.
— Sabe de uma coisa? O papai está chegando daqui a pouco, porque você não vai com a Claire trocar de roupa para esperá-lo?
A mudança de assunto foi tão óbvia, mas funcionou porque Emerald imediatamente esqueceu qualquer menção à festa, à mãe e ao aniversário e escorregou do meu colo tão rápido que quase me levou com ela.
E, então, eu estava sozinha com Esme, Carlisle e Alice outra vez. A oportunidade perfeita para que Esme falasse.
— É realmente uma pena que tenha sido nessas circunstâncias, mas eu gostaria de dizer que fiquei feliz em te rever, Bella.
Meu estômago apertou imediatamente, porque aquela familiaridade, a gentileza dela, fazia tudo parecer tão fácil.
— Eu também fiquei feliz em ver vocês.
Ela sorriu.
— Edward nos contou que você o ajudou com a Emerald nos últimos dias.
Olhei para minhas mãos, como uma criança que foi pega fazendo algo errado. Claro que ele tinha contado.
— Não foi nada demais.
— Você continua fazendo isso.
Levantei os olhos.
— Fazendo o quê?
— Diminuir tudo o que faz pelos outros.
Por um segundo, me senti novamente com vinte anos. Sentada na cozinha da casa deles, sendo observada por Esme Cullen como se ela enxergasse coisas que eu mesma não conseguia ver.
— Você cuidou da minha neta quando ela mais precisou — continuou. — Isso não é pouco.
Não soube o que responder, parte de mim ainda achava que qualquer pessoa teria feito o mesmo. Mas talvez não fosse verdade.
— Eu gosto dela — admiti, olhando para o corredor por onde Emerald tinha desaparecido.
O sorriso de Esme se suavizou imediatamente.
— Ela é uma criança muito fácil de amar, não é?
Antes que eu pudesse responder, ouvimos o som da porta principal e Esme ergueu os olhos.
— Deve ser ele.
Meu coração reagiu antes que eu pudesse impedir.
A porta se abriu alguns segundos depois e Edward entrou carregando uma mochila em um dos ombros e o celular na mão. Parecia exatamente como alguém que estava vivendo entre hospitais, ligações e noites mal dormidas havia dias: a barba estava evidente, a camisa amassada e o cabelo ainda mais bagunçado que o normal. Havia uma exaustão tão profunda em seus movimentos que, por um instante, senti vontade de atravessar a sala apenas para consolá-lo.
Ele fechou a porta atrás de si sem perceber que não estava sozinho.
— Mãe, você pode me lembrar de ligar para o…
Foi então que levantou os olhos e me viu. O restante da frase morreu no meio do caminho, como se ele precisasse de um instante para entender por que eu estava ali.
— Bella.
Simples, mas alguma coisa dentro de mim apertou mesmo assim.
— Oi.
Alice apareceu imediatamente ao meu lado.
— Que recepção calorosa.
Edward piscou, finalmente percebendo que ela também estava ali.
— Oi, Alice.
— Muito melhor.
Esme levantou da poltrona e foi na direção do filho.
— Como foi?
A mudança na expressão dele foi imediata e o peso voltou.
— Sem grandes mudanças.
— O que significa? — Carlisle perguntou.
Edward passou a mão pelo rosto.
— Os médicos mantiveram a redução da sedação, na expectativa de que ela reaja em breve e comece a demonstrar sinais de que vai acordar.
Todos sabíamos o que aquilo significava.
Claire apareceu no corredor naquele momento, carregando uma criança de vestido amarelo e meias que não combinavam entre si. Foi Emerald quem salvou a sala da espiral inevitável.
— Papai!
Edward nem teve tempo de reagir, ela praticamente se lançou dos braços de Claire para os dele. E, pela primeira vez desde que tinha entrado, o rosto dele mudou completamente.
Ele a segurou contra o peito e fechou os olhos por um instante, como alguém que finalmente podia respirar.
— Ei, monstrinho.
— Eu sou uma princesa.
— Claro que é, meu amor, o papai só está brincando.
Emerald segurou o rosto dele com as duas mãos.
— Você demorou e eu esperei.
— Eu sei, me desculpe.
Meu peito apertou.
Edward sorriu para a filha, mas os olhos dele encontraram os meus por cima da cabeça dela. E alguma coisa passou entre nós naquele momento. Algo familiar, como se ambos estivéssemos pensando exatamente a mesma coisa.
— A Bewa veio me ver — anunciou Emerald de repente, como se estivesse apresentando uma descoberta importante. — E o Jake ficou na casa dela.
Edward riu e foi estranho perceber o quanto eu tinha sentido falta daquele som. Esme observou a cena por alguns segundos antes de se levantar.
— Vou terminar o jantar.
— Posso ajudar — ofereci automaticamente.
— Não pode, você é visita.
Carlisle sorriu.
— Eu vou ajudar. Você fica aqui, Bella.
Aos poucos, a sala começou a se mover novamente.
Claire voltou para o quarto, alegando que ia guardar as coisas de Emerald. Alice desapareceu logo depois, alegando que precisava verificar alguma coisa no telefone, embora estivesse bastante óbvio que estava apenas tentando nos dar espaço.
E, de repente, restaram apenas eu, Edward e Emerald, que continuava no colo do pai, mas estava distraída mostrando seu último desenho colorido.
Eu ri daquela cena e Edward olhou para mim. E, por um segundo, apenas por um segundo, a tensão dos últimos dias desapareceu do rosto dele.
— Obrigado por ter vindo.
A frase foi simples, mas havia sinceridade demais na voz dele para ser ignorada, e aquilo era o mais próximo de uma conversa sobre nós que qualquer um dos dois estava preparado para ter naquele momento.
O jantar terminou mais tarde do que eu esperava. Emerald tinha decidido contar a mesma história três vezes e, pela primeira vez em muitos dias, ninguém estava esperando uma ligação que poderia mudar tudo.
Não que a preocupação tivesse desaparecido. Mas, por algumas horas, conseguimos existir ao redor dela.
Quando Emerald começou a esfregar os olhos e apoiar a cabeça no ombro do pai entre uma frase e outra, Edward decretou que era hora do banho e desapareceu corredor adentro com uma criança sonolenta agarrada ao pescoço e a babá.
Alice recebeu uma ligação de Jasper pouco depois. Ou fingiu receber, era difícil dizer. De qualquer forma, ela desapareceu para a varanda com o celular na mão e, de repente, restaram apenas eu e Esme na cozinha. Ela terminava de guardar alguns pratos enquanto eu organizava os copos sobre a bancada. Por alguns minutos, trabalhamos em um silêncio confortável, quase familiar.
— Emerald ficou feliz que você veio.
Meu coração apertou.
— Eu também fiquei feliz em vê-la.
Esme fechou a porta da geladeira e então virou para mim. Não havia urgência em seu rosto, nem aquela expressão típica de quem estava prestes a fazer uma pergunta difícil. Havia apenas gentileza, que eu nem sabia se merecia.
— Posso te perguntar uma coisa? — Meu coração tropeçou, mas assenti. — Existe alguma coisa que eu deveria saber?
O silêncio que se seguiu pareceu se expandir pela cozinha inteira. Eu poderia ter perguntado o que ela queria dizer, poderia ter desviado, ter fingido não entender.
Mas eu estava cansada. Cansada de esconder, de medir cada palavra. Cansada de carregar aquilo sozinha. Então respirei fundo e me preparei para o impacto.
— Sim, existe. Esme eu… — respirei uma, duas vezes. — Estou grávida.
Por um instante, o mundo inteiro pareceu parar. Esme ficou imóvel, completamente imóvel.
Eu vi todas as emoções que atravessaram seu rosto. Vi a surpresa, o choque. Vi as peças se encaixando como no quebra-cabeças que tínhamos montado com Emerald mais cedo.
Mas o que veio depois não foi o que eu esperava. Ela não fez perguntas, não me julgou, mas sua expressão… Foi de tristeza. Uma tristeza profunda, como se ela tivesse acabado de compreender o tamanho da situação toda.
— Oh, querida…
Minha garganta fechou imediatamente. Ninguém me chamava daquele jeito, usando aquele tom. Esme atravessou a cozinha e me abraçou, simplesmente me abraçou. Eu não percebi que estava chorando até sentir sua mão limpar meu rosto.
— Quanto tempo?
— Doze semanas amanhã.
Ela se afastou apenas o suficiente para que eu conseguisse ver seu rosto também, e seus próprios olhos brilhavam com lágrimas.
— E você está bem?
A pergunta me atingiu com força. Não foi "o bebê está bem?" Não foi "o que vocês vão fazer?" Foi você está bem? Como se eu importasse também.
— Estou.
E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não foi uma mentira completa. Esme sorriu através das lágrimas.
— Que bom.
Uma risada trêmula escapou de mim. E ela riu também. Por alguns segundos, ficamos ali, até que ela segurou minhas mãos nas suas.
— Edward sabe?
Assenti.
— Desde quando descobri. Ele tem sido… Participativo, dentro do possível. Nós estávamos juntos quando ele recebeu a notícia sobre o acidente.
Esme fechou os olhos por um instante e tive a sensação de que ela estava reorganizando mentalmente os últimos meses.
Tudo o que o filho tinha contado. Tudo o que não tinha contado. Tudo o que agora finalmente fazia sentido. Quando abriu os olhos novamente, havia emoção demais neles. Nós permanecemos em silêncio, mas agora era diferente. Como se alguma coisa finalmente tivesse saído do escuro.
Quando ouvimos passos familiares vindos pelo corredor e a aproximação inevitável de uma realidade que ainda não fazia ideia de que tinha acabado de mudar, Esme apertou minhas mãos mais uma vez.
E, quando falou, sua voz saiu firme.
— Seja o que for que aconteça daqui para frente, você não vai passar por isso sozinha.
Meu peito apertou de um jeito quase doloroso.
Por algum motivo, eu acreditava nela. Eu sabia que, enquanto tivesse Esme ao meu lado, eu teria tudo que passei tanto tempo desejando: alguém que cuidasse de mim, alguém que se importasse, alguém que me visse como parte de uma família.
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