Daylight

26 Capítulo 25


Bella

Duas semanas depois, eu já sabia exatamente quantos tipos diferentes de medo cabiam dentro de uma gravidez. E o pior era que eles não se anulavam, mas se acumulavam.

A ameaça imediata da perda tinha diminuído, mas não desapareceu. O hematoma subcoriônico — duas palavras que eu agora odiava — continuava lá, teimoso, embora menor. Minha obstetra chamava aquilo de “evolução favorável”, uma expressão que aprendi a respeitar porque, no mundo da medicina, favorável era o mais próximo que alguém chegava de prometer alguma coisa.

Na nona semana, os batimentos cardíacos pareceram normais pela primeira vez. Não era mais só um borrão pulsando na tela, era um som rápido, descompassado, e absurdamente vivo.

Vivo. Meu filho estava vivo e, a cada dia, as chances aumentavam.

A médica sorriu daquele jeito moderado que médicos usam para não parecer otimistas em excesso, mas eu mal conseguia segurar as lágrimas. Alice, participando da consulta por chamada de vídeo, também chorou.

— Cento e setenta batimentos por minuto. Excelente para a idade gestacional.

Excelente. Mais uma palavra que meu cérebro agarrou como se fosse uma sentença.

Mais tarde, eu e Edward assistimos ao vídeo da consulta e o sorriso no rosto dele parecia capaz de iluminar o bairro inteiro.

A verdade era que alguma coisa tinha mudado depois daquele dia. Não de forma mágica, não o suficiente para apagar o estrago entre nós. Mas suficiente para alterar o eixo das coisas.

Ele estava por perto sempre que conseguia. Quando não conseguia, mandava mensagens irritantemente constantes perguntando se eu tinha comido, bebido água, tomado as vitaminas, descansado o suficiente ou parado de pesquisar estatísticas médicas às três da manhã.

Alice, do outro lado do país, fazia exatamente a mesma coisa. Eu recebia mensagens dela às sete da manhã: “Você está se hidratando?”. Às dez: “Coma proteínas para melhorar o enjoo!”. Às três da tarde: “Me diga se almoçou antes que eu ligue para o Edward!”. E à noite: “Se eu souber que você está lendo relatos negativos em fóruns online, pegarei um avião agora mesmo!”.

Era controlador e profundamente irritante, mas talvez fosse o que me impedia de enlouquecer totalmente.

Com dez semanas, eu já tinha aprendido que “enjoo matinal” era uma propaganda enganosa. Eu sentia náusea de manhã, à tarde, à noite e em alguns momentos da madrugada. Descobri também que gravidez parecia incluir uma coleção infinita de pequenas humilhações físicas.

Meus seios doíam, meu olfato tinha virado a mais poderosa das ferramentas e meu humor parecia uma montanha russa. Certa vez, chorei porque Jake apoiou as patas na bancada e roubou uma das bananas do meu café da manhã.

O pior foi que Edward presenciou isso e ainda teve a ousadia de rir de mim.

Ainda assim, duas semanas depois, existia entre nós uma intimidade nova e estranha. Não exatamente romântica, mas também muito distante do que pessoas que não estão juntas normalmente mantinham.

Ele estava na minha casa quase todos os dias. Às vezes só ficava sentado comigo enquanto eu fingia trabalhar no notebook e ele respondia e-mails ou decorava falas. Às vezes dormia no sofá. Mas nunca ultrapassava uma linha que eu ainda não tinha decidido se queria apagar ou reforçar. E esse era o problema.

Eu ainda o amava. Isso continuava sendo a verdade mais inconveniente da minha vida.

Amava quando ele ajeitava silenciosamente um travesseiro atrás das minhas costas antes que eu percebesse que estava desconfortável. Amava quando ele aprendia quais comidas meu estômago tolerava naquela semana específica. Amava quando ele colocava a mão no meu ventre de forma quase reverente.

Mas amar Edward e confiar em Edward continuavam sendo duas atividades completamente diferentes.

Às vezes eu o observava distraído no meu sofá, mexendo no celular enquanto Jake dormia aos pés dele, e sentia o peito apertar de um jeito perigoso. Porque parecia fácil demais imaginar aquilo voltando a ser uma vida.

Nós. Uma casa. Um bebê. A presença de Emerald conosco. Uma família.

E era justamente isso que me aterrorizava, porque da última vez que confiei em Edward daquela maneira, ele me manteve como uma segunda opção conveniente até que fosse tarde demais.

Então não, eu não estava pronta para pegar aquele amor de volta e colocá-lo novamente nas mãos dele como se meu histórico de decisões afetivas não fosse uma verdadeira coletânea de desastres.

O problema era que meu corpo claramente não tinha sido consultado sobre essa prudência, porque ele ainda reagia à presença de Edward com uma fidelidade ofensiva. Ao cheiro dele, à voz, à maneira como ele dizia meu nome. E a gravidez piorava tudo, cada emoção parecia vir sem filtro e sem dignidade, e eu me via frustrada porque não podia nem tocá-lo da forma como gostaria.

O que era uma ironia particularmente cruel, considerando que eu estava grávida dele.

Na décima semana, acordei irritada com tudo. Com o enjoo que não me fez vomitar, mas também não me deixava comer. Com o fato de ainda estar cansada o tempo inteiro. E, principalmente, porque Edward não podia ir comigo.

Minha obstetra atendia muitas pacientes conhecidas, então a clínica era discreta, mas discreta não significava invisível. Bastava uma foto dele entrando comigo para metade da internet começar a montar teorias cronológicas sobre traição, reconciliação e concepção.

— O sangramento praticamente cessou — ela explicou durante a consulta. — O hematoma reduziu bastante nas últimas imagens. Ainda quero cautela, mas estamos saindo da zona mais crítica. Estou bastante satisfeita com essa evolução.

Ela virou a tela para que eu pudesse ver. Meu filho parecia menos abstrato agora. Ainda minúsculo, claro, mas já havia uma forma reconhecível: cabeça, tronco e movimentos rápidos e desajeitados.

— Olha só isso — a médica comentou, sorrindo levemente. — Está se mexendo bastante hoje.

Parecia impossível, mas ali estava.

— O desenvolvimento está excelente para dez semanas — ela continuou. — Medidas compatíveis com a idade gestacional, batimentos ótimos…

E então o som preencheu a sala outra vez, me fazendo soluçar. A médica diminuiu um pouco o volume, provavelmente acostumada com grávidas instáveis.

— Cento e sessenta e oito batimentos por minuto. Perfeito.

Perfeito.

Mais uma palavra que meu cérebro imediatamente quis agarrar e esconder em algum lugar seguro, como se acumulá-las pudesse impedir o universo de mudar de ideia depois.

Saí da clínica com um par de fotos impressas e ainda emocionalmente instável, mas sentindo uma leveza que tinha sido levada há semanas.

Mais tarde, enquanto esperava meu jantar terminar de cozinhar, fiz uma chamada de vídeo com Edward, para mostrar as fotos e contar as novidades.

— Quando poderemos descobrir o sexo? — ele perguntou.

— Em teoria já podemos fazer uma sexagem, mas eu ainda prefiro esperar.

— Esperar o que, Bella?

Como explicar a ele que, mesmo depois das notícias positivas daquele dia, eu ainda não conseguia me sentir segura? Que parte daquele medo vinha da gravidez, dos riscos, das estatísticas que eu fingia não pesquisar mais… mas outra parte vinha dele. De todas as coisas que Edward tinha quebrado em mim.

E existia algo pior, mais feio, que eu nem conseguia admitir em voz alta. Uma parte egoísta e apavorada de mim pensava que, se alguma coisa acontecesse com esse bebê, a dor me atingiria de um jeito diferente do que atingiria Edward, porque ele já era pai. Ele já tinha uma filha que estava bem e saudável enquanto para mim tudo ainda parecia frágil demais, como se eu estivesse segurando o coração fora do corpo o tempo inteiro, esperando o universo decidir se iria deixá-lo comigo ou não.

— Meu bem, eu também estou com medo — não deixei de notar a escolha pelo apelido, mas não falei nada. — Estou com medo pra caralho, se quer saber.

Aquilo me fez erguer os olhos imediatamente. Edward raramente admitia medo. Normalmente ele tentava resolver tudo, controlar tudo, proteger tudo até ficar exausto. Ou destruir tudo no processo.

— Eu sei que não tenho direito de pedir que você confie em mim agora. — A voz dele saiu mais baixa. — Mas você não está sozinha, Bella. Em nada disso.

E a pior parte era que eu queria acreditar nele, queria tanto de um jeito que era perigoso porque esperança, eu estava descobrindo, também podia ser uma forma de risco.

Edward permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se estivesse pensando.

— Tem outra coisa que preciso te contar, Tanya viaja a trabalho na próxima semana, por doze dias. Emerald vai ficar comigo em tempo integral nesse período.

Aquilo não me incomodou nem por um segundo, então demorei a entender por que ele parecia tão tenso.

— Certo — respondi. — E por que você está falando disso como se estivesse prestes a me dar uma notícia devastadora?

Edward soltou uma respiração curta pelo nariz.

— Porque eu provavelmente vou precisar me afastar um pouco nesse período. Emerald demanda muita atenção, ainda mais sem a mãe por perto. E eu não quero que você ache que—

— Edward.

Ele parou imediatamente.

— Você sabe que eu não me importo com isso, não sabe? Sua filha vem antes de mim. Isso nem deveria precisar ser dito.

Os olhos verdes dele se prenderam nos meus de um jeito estranho. Intensos demais para uma frase tão simples. Então tive um pensamento quase óbvio.

— Além disso, ela pode ficar comigo também.

Edward franziu a testa, claramente pego de surpresa.

— Bella…

— Estou falando sério. Não vejo problema.

E era verdade.

Emerald nunca tinha sido o problema. Desde o início, era impossível olhar para aquela menina e enxergar qualquer coisa além de uma criança absurdamente doce e completamente apaixonada pelo pai.

— Você faria isso?

Dei de ombros.

— É claro que sim. Ela é a irmã mais velha do nosso filho.

A risada dele veio baixa, mas havia emoção demais nela para soar completamente leve, e eu notei seu queixo tremendo.

— Obrigado pela oferta, vou considerar. Só preciso falar com a Tanya antes — Assenti imediatamente. — Ela pediu para ser avisada… Caso Emerald interagisse com você em algum momento.

Aquilo não me ofendeu, de maneira alguma.

— Tudo bem, é direito dela — respondi, com a voz mais baixa. — E eu nunca quis que você sentisse que precisava escolher entre as partes da sua vida.

O queixo dele, que antes tremia segurando o choro, travou. Eu tinha dito alguma coisa errada sem perceber.

— E eu nunca deveria ter feito você sentir que era uma parte separada da minha vida.

A sinceridade na voz dele me pegou desprevenida, especialmente porque não havia defesa. Não havia justificativa. Era só arrependimento e aquilo era quase pior.

Desviei o olhar para a panela já esquecida no fogão, sentindo meu coração bater rápido demais.

— Bem — murmurei, tentando aliviar a pressão súbita no peito. — Tecnicamente, agora eu estou literalmente carregando uma parte da sua vida, então seria meio difícil separar as coisas.

Edward riu, mas quando voltei a olhar para a tela, ele ainda parecia abalado, como se aquela conversa simples tivesse significado muito mais para ele do que deveria. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, ainda me olhando daquela forma intensa e perigosamente vulnerável que eu reconhecia facilmente.

E era muito mais fácil manter distância quando ele agia como um idiota.

— Você faz isso sem perceber, sabia? — disse por fim.

Franzi a testa.

— O que?

— Me dá esperança.

Meu coração tropeçou contra as costelas de um jeito irritante.

Automaticamente desviei o olhar para qualquer coisa que não fosse ele. O fogão, a bancada, Jake atravessando a cozinha como um pequeno urso preguiçoso. Qualquer coisa menos Edward Cullen me olhando como se eu fosse capaz de consertar partes dele.

Ficamos em silêncio por tempo demais, até que decidi que precisava sair daquela cozinha, que tinha se tornado pequena de repente.

Despejei aquela mistura de macarrão, molho e vegetais — minha tentativa de pad thai — em um prato e saí, com o celular na mão livre. Quando fui sentar no sofá, ele me chamou outra vez.

— Espere — parei no meio do movimento. — Posso ver sua barriga?

Meu corpo inteiro ficou quente instantaneamente.

Era ridículo, de verdade. Eu estava grávida dele. Edward já tinha me visto nua inúmeras vezes. E ainda assim, aquele pedido simples conseguiu me deixar subitamente consciente de cada centímetro do meu corpo.

Fora que ainda não existia exatamente uma barriga. Dez semanas eram muito pouco para mostrar algo. O que havia era uma leve curva que talvez ninguém além de mim percebesse e o fato de que meu corpo tinha decidido declarar guerra contra todos os meus jeans.

Deixei o prato na mesa de centro e caminhei até o espelho do corredor, aquele de corpo inteiro. Segurando o celular em uma mão, puxei a camiseta alguns centímetros para cima com a outra.

Edward soltou a respiração devagar do outro lado da tela, como se tivesse esquecido de fazê-lo até aquele momento, e chamou minha atenção. E meu Deus, a expressão no rosto dele quase acabou comigo.

Não era surpresa, desejo ou felicidade exatamente.

Era algum tipo de reverência, como se estivesse olhando para alguma coisa preciosa demais.

— Oi, bebê — ele murmurou tão baixo que por um instante achei que não tivesse ouvido direito.

Foi a primeira vez que Edward falou com o nosso filho daquela forma e meu coração simplesmente derreteu.

A mudança na expressão dele foi tão imediata depois de perceber o que tinha dito em voz alta que quase me fez sorrir.

— Me desculpe — ele falou rapidamente, passando a mão pela nuca. — Eu só…

Mas eu mal conseguia respirar direito.

Aquela cena continha uma intimidade tão absurda que parecia quase intrusiva. Edward falando com o nosso filho, mesmo através de uma tela.

Algo quente e perigoso tinha se espalhado dentro do meu peito, algo muito pior que esperança.



Duas semanas depois, eu estava trabalhando no escritório quando a campainha de casa tocou.

Jake ergueu a cabeça do tapete imediatamente, com as orelhas alertas, enquanto eu fechava o notebook que estava ignorando havia quase vinte minutos. O enjoo tinha me dado uma trégua rara naquela manhã, então eu estava tentando aproveitar a sensação quase inédita de funcionalidade humana básica e trabalhar.

Quando abri a porta, Emerald estava no colo de Edward, usando um conjunto de moletom lilás que não escondia completamente os pezinhos balançando. O cabelo estava preso em dois coques tortos claramente feitos por um homem sem coordenação motora suficiente para penteados infantis.

Não tive tempo de pensar onde estava a babá, porque ela me viu e abriu um sorriso instantâneo.

Bewa!

Meu coração imediatamente virou alguma coisa inútil dentro do peito.

— Oi, Emmie.

Edward soltou uma respiração curta, quase imperceptível, ao ouvir o apelido e Emerald começou a se inclinar na minha direção no mesmo segundo.

— Espere, amor. Você não pode se jogar no colo da Bella assim.

Contive o impulso de não revirar os olhos para ele ali mesmo e, ao invés disso, estiquei os braços para pegá-la.

— Ah, sim, deu muito certo quando você disse que ela não podia vir no meu colo da última vez. Pelo menos agora tem menos testemunhas.

Ela se encaixou em mim como se os últimos meses não tivessem passado.

O peso dela era pequeno, quente e absurdamente real contra o meu corpo. Emerald passou os braços ao redor do meu pescoço com a confiança de quem ainda não entendia muito bem limites, saudade ou circunstâncias complicadas demais para uma criança.

Bewa — ela repetiu, mais baixo agora, como se estivesse testando se eu continuava sendo a mesma.

Engoli em seco.

— Eu também senti sua falta — disse, dando tocando meu nariz com o dela.

Não soube se deveria ter dito aquilo. Não com Edward parado à minha frente, olhando para nós duas como se alguém tivesse acabado de abrir algo dentro dele sem pedir permissão. Mas era verdade e eu estava cansada demais para fingir que aquela menina não tinha ocupado um espaço na minha vida desde o nosso primeiro encontro.

Jake, obviamente indignado por não ser o centro absoluto da recepção, veio correndo até nós e começou a farejar os tênis de Edward antes de voltar sua atenção para Emerald.

— Dê oi com calma — avisei, mais para o cachorro do que para o furacãozinho no meu colo.

Emerald se iluminou.

— Jake!

— Sim, ele também sentiu sua falta — falei, embora Jake estivesse mais interessado na possibilidade de ela ter migalhas escondidas em alguma parte do moletom.

Edward soltou uma risada baixa e fechou a porta atrás de si. Só então percebi a mochila pendurada no ombro dele e uma mancha laranja na manga da camisa. Seu cabelo também estava mais bagunçado do que o normal.

— Devo perguntar? — murmurei.

Ele olhou para a própria manga, depois para mim.

— Purê de cenoura — suspirou, derrotado, e largou a bolsa no chão. — Claire ficou doente, então seremos só nós hoje. Vamos, preciso colocar as refeições dela na geladeira.

Ajeitei Emerald no meu colo e fui até a cozinha com ela. Edward me seguiu de perto, mas não perto o suficiente para me tocar. Ele sempre calculava a distância entre nós como quem mede uma área de risco.

— Você comeu? — Edward perguntou.

— Bom dia para você também.

— Bom dia. Você comeu?

Revirei os olhos.

— Sim, Edward. Eu comi.

Coloquei Emerald sentada na bancada, pronta para observar enquanto Edward tomava conta da cozinha como se vivesse ali, quando ela se esticou para a fruteira. Com uma das minhas mãos firme em sua cintura, mantendo-a no lugar, tentei adivinhar o que ela queria. Não precisei pensar muito.

— Banana!

Edward fechou os olhos por um segundo.

— Bananas são a nova obsessão dela.

Olhei para Jake, que pareceu entender perfeitamente que seu histórico criminal estava sendo lembrado.

— Infelizmente, esse é um assunto delicado nessa casa.

Edward riu de verdade dessa vez, e o som ocupou a cozinha com uma facilidade perigosa. Fácil demais, familiar demais.

— Devagar, está bem? — falei, ao estender uma banana descascada para a criança obcecada.

Ela assentiu com uma seriedade que claramente não significava concordância alguma.

— Metade — Edward repetiu, apontando para ela. — Nós conversamos sobre isso.

Emerald pegou a banana da minha mão e imediatamente tentou enfiar o máximo possível na boca.

— Graças a Deus ela te respeita — sorri antes de conseguir impedir.

Emerald mastigava feliz, alheia ao fato de que estar ali deveria ser estranho. Talvez essa fosse a maior qualidade das crianças: elas aceitavam o afeto quando ele aparecia, sem exigir explicações longas sobre por que tinha desaparecido antes.

Ela terminou a banana — inteira — e estendeu os braços para Edward. Ele a pegou com facilidade, beijando sua têmpora antes de limpar seus dedos com um pano de prato que estava por ali. O gesto era automático, um pai cuidando da filha sem pensar.

E ali estava outra verdade inconveniente: eu amava ver Edward sendo pai.

Não porque isso apagava o que ele tinha feito comigo. Nada apagava. Mas porque havia algo nele com Emerald que era inteiro, generoso, paciente. Com ela, ele parecia saber exatamente quem precisava ser.

Terminamos de volta à sala, com Emerald sentada no tapete e determinada a esvaziar sua sacola de brinquedos. Jake deitou ao lado dela como se tivesse sido contratado como a babá substituta.

— Ele acha que os dois são amigos — Edward comentou.

— E não são? Ele tem personalidade e ela adora isso.

— Ele roubou uma banana de uma grávida! Ele não é uma boa influência.

— Todos cometemos erros.

Percebi tarde demais o peso que a frase podia ter. Edward também percebeu e algo nele ficou imóvel por meio segundo. Seus olhos vieram até os meus com uma cautela que me fez querer voltar no tempo e escolher qualquer outra resposta.

Qualquer uma.

Mas então Emerald ergueu um cubo de madeira acima da cabeça, soltou um gritinho triunfante e o derrubou no tapete como se tivesse acabado de inaugurar um prédio. Jake latiu uma vez, empolgado.

A tensão se quebrou, mas não desapareceu completamente. Ficou ali, acomodada entre nós, como tantas outras coisas que não dizíamos.

Edward respirou pelo nariz e voltou a tirar os brinquedos da sacola.

— Ela trouxe metade do apartamento — disse, a voz um pouco mais baixa.

Ele colocou no tapete dois livros de pano, uma girafa de pelúcia, blocos coloridos e alguma coisa musical que imediatamente me deixou apreensiva.

— Esse faz barulho?

Edward olhou para o brinquedo como se só agora percebesse o perigo.

— Infelizmente.

Peguei o brinquedo antes que Emerald visse e o empurrei para baixo da almofada ao meu lado.

— Confiscado.

Edward abriu um sorriso.

— Justo.

Emerald, feliz demais com os blocos para notar a perda, começou a empilhar duas peças com uma concentração absurda. Jake observava tudo de perto, com o focinho quase encostado no tapete, como se estivesse esperando a oportunidade perfeita para participar de um jeito que provavelmente terminaria mal.

Eu me recostei no sofá e tentei ignorar o modo como a presença deles preenchia a sala.

Não era só Edward. Isso eu já tinha aprendido a administrar nas últimas semanas desse nosso relacionamento de pais em modo espera. Era todo o contexto que parecia muito fácil, muito normal.

E nada entre nós deveria parecer fácil.

— Você está muito quieta — Edward comentou.

— Só observando.

Ele ergueu os olhos para mim, e por um instante o sorriso dele quase apareceu, mas havia cuidado demais ali para que ele se permitisse brincar completamente.

— Você quer que eu vá embora?

A pergunta veio tão baixa que Emerald não teria escutado mesmo se entendesse tudo.

— Por quê?

Edward passou a mão pela nuca, desviando os olhos para a filha.

— Porque essa é a sua casa e eu não quero transformá-la em um lugar onde você não está confortável.

Minha casa tinha sido meu refúgio durante meses. O lugar onde ninguém via o quanto eu chorava no banho ou quantas vezes eu abria conversas antigas no celular só para me odiar por ainda sentir falta dele.

E agora Edward estava ali de novo, não com a intimidade despreocupada de quem pertencia àquele espaço, como era antes, quando nos encontrávamos naquele apartamento. Ele estava ali quase pedindo desculpas por respirar o mesmo ar que eu. Movendo-se com cuidado, medindo o tom, esperando autorização até para sentar perto de mim.

Parte de mim achava justo. Outra parte odiava vê-lo assim.

— Eu convidei vocês para entrar — respondi, por fim.

A gratidão no rosto dele foi discreta, mas não passou despercebida. E talvez fosse isso que tornava tudo mais difícil. Edward nunca tinha sido um homem simples, mas com esse tom arrependido ele parecia ainda mais impossível de ignorar.

Emerald derrubou a torre e bateu palmas para si mesma.

— Muito bem! — elogiei, mais animada do que pretendia.

Ela olhou para mim com um sorriso enorme, como se minha aprovação tivesse algum valor especial, e começou a se mover na minha direção com um bloco amarelo na mão.

Bewa.

— Oi, meu amor.

Ela apoiou as mãozinhas no sofá para levantar e Edward se moveu imediatamente, mas eu já tinha inclinado o corpo para segurá-la.

— Cuidado — ele disse no mesmo instante.

— Eu sei segurar uma criança, Edward.

— Eu sei que sabe. É só… O peso.

A cautela dele tinha outra camada agora. Eu via nos olhos dele sempre que eu me levantava rápido demais, sempre que Jake pulava perto de mim, sempre que eu carregava qualquer coisa que ele considerasse pesada. E eu odiava ser tratada como se fosse frágil.

Também odiava o quanto uma parte de mim se sentia menos sozinha quando ele se preocupava.

— Eu estou bem — falei, mais suave dessa vez.

Edward assentiu, mas a tensão não saiu completamente dos ombros dele. Emerald estendeu o bloco para mim.

— Obrigada — murmurei, aceitando como se fosse um presente precioso.

Ela tentou subir no sofá logo em seguida, com a determinação de alguém que nunca tinha sido informada sobre limitações físicas. Eu a ajudei, trazendo-a para o meu lado, e ela imediatamente se acomodou contra mim, satisfeita demais consigo mesma.

Era impressionante como crianças não pediam permissão. Elas simplesmente chegavam, ocupavam espaço e, de repente, o mundo parecia mais cruel porque você entendia que qualquer perda envolvendo elas seria insuportável.

Emerald abriu o livro de pano no meu colo e apontou para uma figura.

— Au-au.

— Esse é um cachorro — confirmei. — Mas não é tão bonito quanto o Jake, você não acha?

Jake ergueu a cabeça ao ouvir o próprio nome.

— Ela sabe o nome de vários animais agora — Edward falou, e havia orgulho na voz dele. Um orgulho tão simples e bonito que eu precisei desviar o olhar por um segundo.

E, meu Deus, aquilo era tão Edward.

Não o Edward que me machucou. Não o Edward confuso, covarde ou incapaz de me escolher quando importava. Mas o Edward que amava com intensidade quase física e se orgulhava disso.

E enquanto eu estava presa naquele pensamento, Emerald fechou o livro de repente e colocou as mãos na minha camiseta.

No começo achei que ela estivesse tentando se equilibrar para mudar de posição, mas então seus dedinhos tocaram minha barriga, ainda plana sob o tecido, e ela franziu a testa com uma concentração que não combinava com sua idade.

Meu corpo inteiro ficou imóvel. Edward também ficou.

Emerald não disse nada, não teria por que dizer, ela não sabia e não entendia. Para ela, talvez fosse só mais uma parte de mim, um lugar onde apoiar a mão enquanto decidia se queria voltar para os brinquedos ou continuar no sofá. Mas para nós dois, aquele gesto simples atravessou a sala como uma coisa viva.

Edward estava com os olhos fixos na mão dela sobre mim. Havia espanto ali, mas também outra coisa. Uma emoção tão aberta que chegou a me dar vergonha de testemunhar. Cobri a mão de Emerald com a minha, mais por instinto do que por escolha.

Ela levantou o rosto para mim e sorriu, como se tivesse feito algo certo.

Emerald não sabia que tocava um lugar que eu ainda tinha medo de reconhecer como seguro. Não sabia que, sob sua mãozinha, existia uma vida que eu ainda tentava proteger até dos meus próprios pensamentos. Meu bebê, o irmão mais novo dela. Meu coração apertou com tanta força que precisei desviar o olhar.

— Você está bem? — Edward perguntou, quase sem voz.

Assenti rápido demais.

— Estou.

Alheia à emoção do momento, Emerald perdeu o interesse pela minha barriga no segundo seguinte e escorregou do sofá com a mesma naturalidade com que tinha chegado até mim. Edward se inclinou para ajudá-la a descer, mas manteve uma das mãos suspensa perto de mim por um instante, como se estivesse lutando contra o impulso de tocar o mesmo lugar que ela tinha tocado.

Ela voltou para o tapete, pegou a girafa de pelúcia e tentou colocá-la em cima das costas de Jake. Ele aceitou a humilhação com uma paciência que só podia significar amor.

Um amor parecido com o que ela, talvez, um dia sentisse pelo irmão. Um amor que, talvez, ela recebesse de volta. A ideia me atingiu com tanta força que meus olhos arderam.

Limpei a lágrima antes que ela caísse de verdade, irritada comigo mesma.

Ele se sentou no chão, perto de Emerald, e pegou um dos livros que ela empurrou em sua direção. Eu fiquei no sofá, assistindo, e percebendo que talvez fosse isso que acabasse comigo.

Não as grandes conversas. Não os pedidos de desculpas. Não o modo como ele dizia que ainda me amava sem dizer exatamente essas palavras.

Era vê-lo sentado no chão da minha sala lendo um livro infantil, enquanto a filha dele ria como se o mundo fosse simples. Coloquei a mão sobre a barriga quase sem perceber.

No meio da leitura, os olhos dele encontraram os meus por cima da cabeça de Emerald.

Ele não sorriu, mas a expressão mudou de novo, daquele jeito que fazia meu peito doer. Como se me ver tocar o bebê fosse ao mesmo tempo um presente e uma punição. Desviei o olhar primeiro, porque ainda era mais fácil fugir do que admitir que eu estava feliz por ele estar ali.

Mesmo que doesse. Mesmo que fosse confuso. Mesmo que eu ainda não soubesse o que fazer com todo aquele amor.

Notas finais
O que estão achando dos momentos domésticos do casal? Será que a tranquilidade vai durar muito mais? rs Até semana que vem!