Daylight

27 Capítulo 26


Edward

Após dez dias de visitas seguidas, eu já conseguia identificar qual era o humor de Bella só pela maneira como ela abria a porta.

Naquela manhã, ela abriu só o suficiente para encaixar o rosto entre a madeira e o batente.

— Se você trouxe um descafeinado outra vez, pode ir embora.

Sorri antes mesmo de entrar.

— Bom dia! Nesse caso, vou ter que tomar dois cafés.

Ela estreitou os olhos, desconfiada, mas abriu espaço para mim e Emerald. Jake apareceu primeiro, obviamente traidor, abanando o rabo para minha filha como se nós dois fôssemos as pessoas mais importantes do mundo.

Bewaaaa! — Emerald anunciou com entusiasmo.

Bella imediatamente amoleceu.

Era impressionante, ela podia estar irritada comigo, nauseada, cansada ou emocionalmente instável, mas Emerald conseguia arrancar dela uma expressão completamente diferente em menos de cinco segundos.

Algo quente apertou meu peito enquanto eu observava Bella pegar minha filha no colo sem hesitar.

Tudo entre elas estava se tornando perigosamente natural.

E esse era o problema, porque nada entre nós estava definido. Não éramos um casal, também não éramos ex-namorados.

Eu estava praticamente morando metade da semana na casa dela sem realmente morar ali. Dormia no sofá às vezes. Fazia compras para a cozinha dela. Sabia quais alimentos ela conseguia tolerar naquela semana específica. Levava Emerald para passar tardes inteiras ali porque minha filha agora perguntava pela Bella quando passava mais de dois dias sem vê-la.

Mas, ainda assim, eu não podia tocá-la da maneira que queria.

Não podia beijá-la.

Não podia acordar ao lado dela.

E pior: eu não sabia se algum dia poderia fazer todas essas coisas outra vez.

Bella atravessou a sala segurando Emerald enquanto minha filha explicava alguma coisa incompreensível sobre girafas, cachorros e um desenho animado que eu já tinha assistido tantas vezes que provavelmente poderia reproduzir quadro por quadro.

Então ela parou abruptamente no meio do caminho. Meu corpo inteiro ficou em alerta imediatamente.

— O quê? O que foi?

Ela me encarou por dois segundos antes de revirar os olhos.

— Achei que já tinha passado por isso hoje, mas a sua… prole decidiu que odeia o cheiro da sua comida.

Ignorando o fato de que ela ainda não falava bebê perto da minha filha, olhei para a sacola na minha mão.

— São só muffins.

— Muffins agressivos.

Bella colocou Emerald no chão e pressionou a mão contra a boca enquanto caminhava rapidamente. Eu a observei desaparecer corredor adentro e senti a ansiedade familiar apertar meu estômago outra vez.

Toda vez.

Mesmo depois das consultas mostrarem que tudo estava bem. Mesmo depois de ouvir os batimentos fortes. Mesmo depois da médica dizer palavras como excelente e perfeito e dizer que ela poderia ter uma vida normal.

Parte de mim continuava esperando alguma tragédia, porque perder Bella uma vez já tinha quase me destruído. Perder os dois ao mesmo tempo provavelmente terminaria o trabalho.

Emerald caminhou atrás de Bella imediatamente, preocupada com a velocidade da fuga.

Bewa?

— Ela está bem, amor — falei, abaixando para tirar os tênis da minha filha. — Só precisou de um minutinho.

Bella reapareceu menos de cinco minutos depois, segurando um copo de água e parecendo irritada com a própria existência.

— Você nunca mais vai me tocar, Edward Cullen.

— Bom dia novamente — murmurei.

Ela me mostrou o dedo do meio pelas costas de Emerald, antes de sentar no sofá, e meu peito apertou de um jeito ridículo. Era isso que vinha me destruindo lentamente nas últimas semanas: os pequenos momentos. Não as conversas difíceis, não os olhares carregados e, definitivamente, não o fato de que eu a amava com uma intensidade quase doentia.

Era isso. Bella no sofá, usando uma camiseta enorme, reclamando da gravidez enquanto minha filha caminhava até ela com a absoluta certeza de que aquele era exatamente o lugar onde pertencia.

Emerald escalou o sofá sem ajuda dessa vez e imediatamente se acomodou encostada em Bella, segurando uma girafa de pelúcia pela perna.

— O que você quer fazer hoje, Emmie? — ela perguntou.

— Bluey! — saiu mais como um grito e menos como uma resposta.

Bella fez uma expressão de profunda resignação.

— Certo, então precisamos pedir para o seu pai colocar na televisão.

Fragmentos de normalidade tão absurdamente perfeitos que às vezes eu sentia vontade de interromper tudo antes que o universo percebesse que estávamos felizes demais.

Bella colocou Bluey na televisão e Emerald imediatamente relaxou contra ela, hipnotizada pela abertura do desenho.

— Au-au!

— Sim, amor. Cachorros — Bella respondeu distraidamente, ainda olhando para mim.

Eu me sentei na ponta oposta do sofá, tentando ignorar o fato de que minha primeira reação instintiva tinha sido tocar nela. Mas eu já tinha ultrapassado limites demais nos últimos meses, e a pior parte era que Bella deixava.

Às vezes eu achava que nós dois estávamos tão desesperados para fingir normalidade que evitávamos encarar a pergunta óbvia. O que exatamente éramos agora? Porque aquilo não era amizade, definitivamente não era coparentalidade e também não era reconciliação.

Ainda não.

Bella puxou um cobertor sobre as pernas e Emerald imediatamente se enfiou embaixo dele também, satisfeita consigo mesma.

As duas juntas já pareciam certas demais. Perigosamente certas.

Minha filha começou a cantarolar junto com a música da abertura enquanto mexia distraidamente nas franjas do cobertor. Bella observou a cena por um instante antes de falar, aparentemente tentando ser casual.

— Claire me contou que você quase teve um colapso porque Emerald tropeçou no tapete.

Traidora.

— Não foi um colapso.

— Você ligou para o pediatra.

— Ela bateu a cabeça!

— Ela apoiou a cabeça no tapete, Edward.

— Com força!

Bella começou a rir e eu percebi que aquele som ainda fazia alguma coisa violentamente física dentro do meu peito. Ela percebeu tarde demais que estava rindo de verdade, porque a expressão mudou logo depois, como se tivesse se permitido relaxar além do planejado.

O sorriso diminuiu, mas não desapareceu completamente.

Emerald escolheu aquele momento para escorregar ainda mais no sofá, completamente sem noção de espaço, levando junto a girafa de pelúcia e um dos pés direto contra o abdômen de Bella, que soltou um “ai” automático.

— O quê? O que aconteceu?

— Calma, ela só está com o pé gelado.

Emerald me encarou, assustada pela mudança no meu tom.

— Papai?

Bella soltou uma respiração cansada antes de se recostar no sofá outra vez.

— Foi só o pé dela, Edward. Eu estou viva.

Mas minha pulsação continuava rápida demais.

Bella percebeu exatamente o que estava acontecendo na minha cabeça e a expressão dela mudou outra vez.

— Ei — falou mais baixo. — Eu estou bem.

Assenti uma vez, mas não consegui responder imediatamente. Ela sustentou meu olhar por um instante longo demais e então desviou primeiro, acariciando distraidamente os cabelos de Emerald enquanto minha filha voltava a assistir ao desenho como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse acabado de reduzir minha expectativa de vida em uns quinze anos.

Bella soltou uma risada curta pelo nariz.

— Você realmente precisa parar de agir como se eu fosse feita de vidro.

— Você sangrou por semanas.

As palavras escaparam antes que eu conseguisse impedir. Porque aquela era a parte que evitávamos: a realidade.

Todo o resto — os cafés da manhã, os desenhos infantis, as tardes no sofá — criava a ilusão de que estávamos vivendo alguma versão torta de normalidade. Mas nada naquilo tinha sido normal.

Bella observou minha filha por alguns segundos antes de falar sem olhar para mim:

— Precisamos conversar logo.

Meu peito apertou imediatamente. Ali estava.

— Eu sei — respondi.

Ela puxou o cobertor distraidamente sobre as pernas.

— Sabe, daqui a pouco isso tudo vai deixar de ser segredo.

Meu olhar caiu involuntariamente para a barriga dela, ainda discreta, mas não por muito tempo.

E nós dois sabíamos disso.

Emerald escolheu aquele momento para escalar minhas pernas e praticamente se jogar no meu colo com a falta de delicadeza típica de crianças pequenas.

— Papai, olha!

Ela apontou para a televisão como se estivesse revelando algo revolucionário.

— Uau — murmurei automaticamente, ainda distraído. — Cachorros azuis iguais aos que você tem em casa.

Os fotógrafos já estavam começando a rondar outra vez. Nada agressivo ainda, mas eu reconhecia os sinais. Bella passou algum tempo sem ser vista em público, então agora, toda vez que ela saía de casa, era um evento.

Nós morávamos no mesmo bairro, então ninguém tinha juntado 1+1 ainda, mas eu duvidava que demoraria muito para alguém fazer a conexão. Quando a gravidez aparecesse de verdade, aquilo explodiria.

E, honestamente, eu merecia boa parte do escrutínio público que viria.

— Eu estou tentando descobrir a maneira certa de fazer isso — falei por fim.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Existe uma maneira certa?

Não. Provavelmente não.

Mas existiam milhares de maneiras erradas. E eu já tinha experiência demais nelas. Passei a mão distraidamente pelas costas de Emerald enquanto organizava os pensamentos.

— Eu só não quero te colocar numa situação ruim.

— Edward, acho que não tem como as coisas ficarem piores aqui — Ela soltou o ar devagar e apoiou a cabeça no sofá. — Às vezes eu sinto que estamos brincando de casinha sem admitir.

Sim, nós já estávamos vivendo alguma versão confusa de intimidade enquanto fingíamos que aquilo não significava nada definitivo.

— E isso te incomoda? — perguntei antes de conseguir evitar.

Ela demorou alguns segundos para responder.

— O problema é justamente o fato de não incomodar.

Emerald começou a cantarolar junto com a televisão outra vez, completamente alheia ao fato de que dois adultos emocionalmente incompetentes estavam tendo uma crise bem acima da cabeça dela.

Bella puxou as pernas para mais perto do corpo.

— Então talvez a gente precise parar de agir como se tivesse tempo infinito para decidir.

Meu coração bateu mais forte imediatamente, porque aquela frase parecia perigosamente próxima de um ultimato. Ou de um pedido.

E eu não sabia qual dos dois me assustava mais.

Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou no bolso. Emerald imediatamente tentou pegar o aparelho.

— Mamãe?

— Não, amor. Provavelmente é trabalho.

Peguei o celular distraidamente, ainda olhando para Bella, mas o nome na tela fez meu estômago afundar: Tanya. Ela nunca ligava naquele horário e, se estava ligando, significava que alguma coisa estava errada.

Atendi, mas a voz que respondeu do outro lado não era a da mãe da minha filha.

— Edward?

Levantei do sofá tão rápido que Emerald soltou um protesto confuso ao escorregar do meu colo.

Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Kate, a agente de Tanya há anos e que estava com ela na viagem.

— Kate? O que aconteceu?

Do outro lado da linha houve um ruído abafado. Vozes. Movimento.

— Houve um acidente.

A frase atingiu meu peito como um impacto físico.

— Onde ela está? — perguntei, já andando sem direção pela sala. — Ela está bem?

Kate hesitou por tempo demais.

— Nosso carro saiu da estrada perto de Rabat. Estava acontecendo uma tempestade de areia e o motorista perdeu visibilidade.

Senti o sangue sumir do meu rosto. Emerald me observava agora, percebendo que alguma coisa estava errada mesmo sem entender o quê.

— Como ela está?

Ouvi ela engolir em seco do outro lado da linha.

— Ela bateu a cabeça com força e teve múltiplas fraturas. Os médicos acharam melhor sedá-la por enquanto.

Passei a mão pelo rosto, tentando respirar direito.

— Você está com ela?

— Sim, estou no hospital agora.

A voz dela estava estranhamente controlada.

— Você está bem, Kate?

— Estou, só tive alguns arranhões — ela fez uma pausa que durou mais que o necessário. — Os médicos acreditam que ela vai sobreviver, Edward, mas ainda estão avaliando a extensão do trauma. Eles querem estabilizá-la antes de transferi-la.

— Vão trazê-la de volta para casa?

— Sim, é a ideia. Ela será melhor cuidada aí, mas precisa atingir uma estabilidade primeiro.

Meu olhar caiu automaticamente para minha filha, que estava apertando a girafa de pelúcia contra o peito agora, olhando entre mim e Bella em silêncio absoluto.

Meu estômago afundou.

— Quanto tempo? — perguntei.

— Talvez vinte e quatro horas. Talvez mais. Nossa equipe já está organizando transporte para Los Angeles assim que ela puder voar.

Fechei os olhos por um segundo, só um segundo. Aquilo tudo estava acontecendo rápido demais. Há menos de cinco minutos, Emerald estava me mostrando o cachorro azul na tela.

Kate respirou fundo outra vez antes de continuar.

— Edward… Eu preciso que você esteja preparado caso precisem de autorização para alguns procedimentos. Mesmo com a separação, Tanya manteve você como contato de emergência.

Fazia sentido. Mesmo separados, eu ainda era a pessoa mais próxima dela nos Estados Unidos.

— Os pais dela sabem?

— Estamos tentando falar com eles agora.

Minha cabeça estava correndo rápido demais agora. Voos. Médicos. Internação. Talvez cirurgias. Imprensa.

E Emerald.

Porque, apesar de tudo, Tanya era a mãe dela. Imperfeita, talvez, mas completamente devotada à filha.

— Edward? — Kate chamou mais baixo. — Você ainda está aí?

Forcei o ar para dentro dos pulmões.

— Estou. Me mantenha atualizado sobre qualquer mudança.

— Vou ligar assim que os médicos tiverem notícias.

Quando a ligação terminou, permaneci parado no meio da sala sem conseguir me mover direito.

O silêncio parecia pesado o suficiente para me sufocar.

Então senti a mão de Bella tocar meu braço. Quente, firme, real.

— Ela sofreu um acidente de carro — consegui dizer. Minha voz mal parecia minha.

Os olhos de Bella se arregalaram imediatamente.

Emerald apontou para o celular na minha mão, ficando impaciente.

— Mamãe?

A palavra atravessou meu peito como uma lâmina. Ela não entendia e eu não fazia ideia de como explicar aquilo para uma criança tão pequena sem assustá-la.

Bella percebeu meu pânico imediatamente e se abaixou na frente de Emerald antes que eu precisasse responder.

— A mamãe não pode falar agora, Emmie — falou suavemente. — Ela fez um dodói no trabalho e os médicos estão cuidando dela.

Emerald franziu a testa.

— Dodói?

Bella assentiu.

— É, mas ela está recebendo ajuda.

Minha filha olhou imediatamente para mim e aquilo quase acabou comigo. Eu vi o instante exato em que ela percebeu que eu estava assustado enquanto os olhos começavam a ficar brilhantes.

— Papai…

Meu corpo simplesmente cedeu. Abaixei imediatamente para pegá-la no colo e Emerald se agarrou em mim com força, confiando em mim completamente enquanto eu sentia o chão desaparecer sob meus pés.

Fechei os olhos por um segundo, pressionando o rosto contra os cabelos dela, e senti Bella tocar minhas costas outra vez, sem hesitar, como se já tivesse decidido que enfrentaria aquilo comigo antes mesmo que eu precisasse pedir.

Eu não merecia aquele comportamento dela. Não depois de tudo. Não depois de ter colocado-a tantas vezes em posições onde ela precisou ser forte quando o mínimo que eu deveria ter feito era protegê-la. E ainda assim, ali estava ela.

Emerald continuava agarrada ao meu pescoço, pequena e quente, respirando rápido demais contra minha pele.

— Papai triste? — ela perguntou baixinho.

Meu peito apertou com tanta força que chegou a doer fisicamente. Antes que eu conseguisse responder, Bella se aproximou mais um pouco.

— O papai está preocupado com a sua mamãe — explicou suavemente. — Mas nós vamos cuidar dele, certo?

Nós.

Emerald assentiu imediatamente, muito séria.

— Que tal assistirmos mais um episódio enquanto o papai resolve algumas coisas?

Emerald hesitou, ainda segurando minha camiseta com força e então assentiu. Ela me soltou, relutante, e Bella a pegou pela mão antes que eu precisasse lidar sozinho com a expressão confusa no rosto da minha filha.

Eu fiquei parado no meio da sala tentando respirar direito enquanto as duas se sentaram novamente no sofá.

O contraste era quase violento: minha filha abraçada à mulher que eu amava, em segurança, enquanto, do outro lado do mundo, a mãe dela lutava pela vida em uma UTI.

Eu precisava agir, precisava voltar a ser um ser humano funcional, mas minha mente parecia presa a uma espécie de névoa.

— Você vai precisar ir ao hospital quando ela chegar — Bella falou baixinho, para não chamar atenção de Emerald.

Assenti imediatamente, aquilo não era nem uma questão. Ela era mãe da minha filha, e estava sozinha em um país que não era o dela.

— Você sabe quando vão transferi-la?

— Ainda não. Talvez amanhã. Talvez demore mais, se ela não estabilizar.

Meu estômago virou ao ouvir as próprias palavras em voz alta.

Se ela não estabilizar.

Eu não podia pensar daquele jeito.

Bella percebeu imediatamente a direção dos meus pensamentos e se levantou do sofá, tomando cuidado para não acordar o instinto de abandono de Emerald, e caminhou até mim outra vez.

— Ei — falou baixo. — Não pense nisso agora.

Fechei os olhos no segundo em que senti as mãos dela na minha pele.

Se ela tivesse gritado comigo, me mandado embora ou dito que aquilo não era problema dela, talvez eu conseguisse funcionar melhor. Mas Bella me confortando daquele jeito, partia alguma coisa dentro de mim.

— Eu não sei como fazer isso — admiti antes de conseguir me impedir.

Os dedos dela se moveram devagar contra minha mandíbula.

— Você não precisa fazer nada sozinho.

Meu coração bateu forte demais, provavelmente eu deveria procurar um cardiologista quando tudo aquilo passasse. Aquela frase significava muito mais do que ela provavelmente pretendia admitir. Ou talvez exatamente o quanto pretendia.

Abri os olhos lentamente e encontrei Bella me observando com uma expressão que se tornou bastante familiar nos últimos dias: cansada, assustada, mas firme. Escolhendo ficar.

E foi naquele momento, olhando para ela ali na minha frente enquanto minha filha assistia a um desenho no sofá da casa dela como se pertencesse àquele espaço, que alguma coisa finalmente ficou clara dentro de mim: eu não podia mais perder tempo fingindo que ainda não sabia o que queria.

Porque, na verdade, eu sabia. Sempre soube.

Olhando para Bella ali, grávida do nosso filho e ainda segurando meu rosto enquanto eu tentava processar a possibilidade de Tanya estar do outro lado do mundo lutando para sobreviver, percebi que continuar naquele limbo também era uma forma de covardia.

— Você precisa ligar para alguém? — ela perguntou, recuando meio passo. — Seus pais? Advogado? Assessoria?

Demorei um segundo para voltar completamente para a realidade.

— Meus pais, provavelmente. Antes que descubram pela internet.

Ela fez uma careta. Nós dois sabíamos que aquilo iria vazar rápido.

— Vamos fazer uma coisa de cada vez, ok?

Assenti. Primeiro, precisávamos sobreviver às próximas horas. Depois, esperar o tempo de voo. Depois, a todo o resto.

Bella tocou meu braço outra vez antes de se afastar.

— Peça que a Claire traga as coisas da Emerald. Vocês vão ficar aqui.

Franzi a testa imediatamente.

— Bella, você não precisa—

— Edward.

O jeito como ela disse meu nome me fez calar na hora.

— Você não vai conseguir dividir sua atenção entre hospitais, médicos, imprensa e uma criança pequena sozinho nas próximas horas. Então pare de agir como se eu estivesse oferecendo um favor absurdo e chame a babá.

Havia alguma coisa perigosamente íntima na naturalidade com que Bella já estava reorganizando a própria vida para abrir espaço.

Consegui falar com Claire no segundo toque. Expliquei o que precisava e, quando desliguei, fiquei parado alguns segundos encarando a bancada sem realmente enxergá-la. A cozinha ainda cheirava aos malditos muffins.

A babá chegou quase uma hora depois.

A essa altura, Emerald já tinha almoçado metade de um macarrão em formato de dinossauro, assistido uma quantidade enorme de episódios de desenhos e decidido que Jake era incapaz de funcionar sem supervisão constante dela. A normalidade daquela cena continuava me atingindo de maneiras perigosas.

Claire trouxe duas malas cheias de brinquedos extras, roupas e praticamente metade do quarto da Emerald. Minha filha ficou animada demais ao ver a babá e imediatamente começou a mostrar a ela todos os cômodos da casa de Bella como se fosse dona do lugar.

As próximas horas passaram estranhamente rápidas e lentas ao mesmo tempo.

Kate mandava atualizações esparsas: Tanya ainda estava sedada e a transferência para Los Angeles provavelmente aconteceria na manhã seguinte, se ela permanecesse estável.

No começo da noite, Emerald finalmente desacelerou.

Enquanto Claire a levou para um banho, Bella e eu nos vimos parados, distantes, no meio do quarto de hóspedes dela, que seria o quarto da minha filha pelas próximas horas.

— Claire provavelmente deveria ir embora — comentou baixo enquanto fechava a porta atrás de nós. — Ela já viu muito hoje.

Assenti. Claire trabalhava para nós havia tempo suficiente para Emerald correr para ela quando se machucava ou queria colo. Havia profissionalismo ali, claro, mas também afeto real. E ela definitivamente já tinha percebido que Bella e eu existíamos numa zona completamente inadequada. Só não sabia o tamanho real do desastre e eu queria manter assim por enquanto.

Ainda não conseguia imaginar lidar com aquilo junto da avalanche inevitável envolvendo Tanya.

— Você precisa decidir o que vai fazer quando ela chegar.

Eu sabia que ela não estava falando apenas do hospital. Passei as mãos pelo rosto.

— A imprensa vai transformar isso num inferno.

Bella encostou na parede, cruzando os braços.

— A imprensa transforma absolutamente tudo num inferno.

Meu olhar caiu involuntariamente para ela e para a pequena mudança no corpo dela que quase ninguém ainda perceberia e, de repente, outra onda de ansiedade me atingiu. Meu peito apertou quando percebi que eu não queria mais separar essas coisas completamente. Não queria continuar tratando Bella como algo secundário na minha vida enquanto ela carregava meu filho e segurava minha família unida no meio do caos.

— Nós dois também precisamos decidir o que vamos fazer.

Bella ficou completamente imóvel. Por um segundo, tive a impressão de que ela até parou de respirar.

O corredor estava silencioso agora, exceto pelo som distante da água correndo no banheiro e a voz animada da Emerald dizendo alguma coisa incompreensível para Claire.

Uma vida inteira parecia existir do outro lado daquela porta e, de repente, eu estava cansado demais de fingir que aquilo não significava nada.

Bella sustentou meu olhar por alguns segundos longos antes de falar:

— Esse é um timing realmente horrível.

Apesar de tudo, quase sorri.

— Eu sei.

Ela soltou o ar devagar e desviou os olhos por um instante, como se estivesse tentando reorganizar os próprios pensamentos antes de continuar.

— A mãe da sua filha está num hospital em outro continente.

Cada palavra acertou exatamente onde devia.

— Bella, eu não estou tentando transformar isso em—

— Eu sei que não. Esse é justamente o problema.

Meu coração bateu forte outra vez porque eu entendia perfeitamente o que ela queria dizer. Nada entre nós parecia planejado ultimamente. As coisas simplesmente… aconteciam.

E agora aquilo. Uma tragédia entrando no meio daquela espécie de quase-família que estávamos construindo sem admitir em voz alta. Bella apoiou a cabeça na parede por um instante antes de olhar para mim outra vez.

— Você ainda ama a Tanya?

A pergunta atravessou o ar entre nós de forma brutal e, pela primeira vez, entre muitas perguntas dela, eu soube exatamente como responder.

— Não.

Bella permaneceu em silêncio, esperando. Então continuei:

— Eu me importo com ela. Ela é mãe da Emerald, foi minha família por anos. Se acontecer alguma coisa… — minha voz falhou por um segundo. — Isso vai destruir a vida da minha filha. Mas não, não a amo dessa maneira.

O silêncio depois daquilo pareceu enorme.

Eu observei cada pequena mudança na expressão dela: a tensão nos ombros diminuindo minimamente, a respiração alterando. Era como se alguma parte dela estivesse esperando ouvir aquilo há muito mais tempo do que gostaria de admitir.

— Edward… Eu não consigo passar por tudo isso para depois descobrir que você só está aqui porque estamos tendo um bebê.

A frase acertou meu peito com violência. Talvez essa fosse exatamente a ferida que eu tinha aberto nela: a ideia de ser escolhida apenas pelas circunstâncias, tarde demais, por obrigação.

O que eu tinha feito?

— Eu estou aqui porque te amo.

As palavras saíram simples, sem espaço para interpretação.

Bella fechou os olhos imediatamente, como se ouvir aquilo ainda doesse.

— Você também amava antes — falou baixo.

Ali estava. O verdadeiro problema nunca foi o amor, foi o que eu coloquei junto dele. Senti o peso da culpa atravessar meu corpo inteiro outra vez.

— Eu sei.

Bella riu sem humor nenhum.

— Parte de mim quer acreditar em você de novo tão desesperadamente que chega a me irritar.

Meu coração quase parou. Aquilo era a coisa mais próxima de esperança que ela tinha me dado desde que tudo explodiu entre nós.

O som da risada da Emerald atravessou o corredor naquele instante e a simplicidade brutal daquilo…

Minha filha rindo na casa da mulher que carregava meu bebê enquanto nós tentávamos descobrir se ainda éramos capazes de reconstruir alguma coisa no meio do caos.

Bella soltou o ar lentamente.

— Talvez não precisemos decidir tudo hoje.

Assenti devagar.

— Tudo, não — Bella sustentou meu olhar em silêncio. Respirei fundo antes de continuar. — Mas precisamos decidir alguma coisa. Porque os próximos dias vão ser um caos, Bella.

Caos era uma palavra pequena para o que viria.

Tanya chegaria inconsciente a Los Angeles, a imprensa começaria uma caçada no segundo em que o hospital fosse confirmado, Emerald perceberia tensão em todo lugar e, no meio disso tudo, existia nós dois fingindo que ainda não precisávamos definir nada.

— Claire já percebeu que alguma coisa está acontecendo entre nós.

Bella soltou uma respiração curta pelo nariz.

— Claro que sim, ela provavelmente percebeu meses atrás.

Quase sorri.

— Meus pais sabem que eu praticamente estou morando aqui metade da semana.

— E sua mãe provavelmente deu uma festa quando soube.

— Exatamente.

Ela desviou o olhar por um instante, claramente pensando. Aquilo era complicado em níveis absurdos.

— Eu não quero passar os próximos dias fingindo que você é só uma amiga ajudando com a Emerald, porque você não é.

Bella engoliu em seco.

— E o que exatamente eu sou?

— A mulher que eu amo.

Os olhos dela fecharam imediatamente, como se aquelas palavras ainda fossem perigosas demais para ouvir de frente. Quando Bella tornou a me encarar, havia medo ali.

— Isso não resolve as coisas automaticamente.

— Eu sei.

— Amor não impediu você de me machucar antes.

A culpa veio tão forte que precisei respirar fundo antes de responder.

— Eu sei disso também.

Bella fechou os olhos por um segundo ao ouvir aquilo e, quando voltou a me olhar, parecia exausta.

— Então o que você está propondo exatamente?

Olhei para ela por alguns segundos antes de responder.

— Que nós paremos de agir como se isso fosse temporário. Não estou dizendo que precisamos anunciar nada amanhã, nem tomar decisões gigantescas no meio de uma crise. Mas… — passei a mão pela nuca outra vez. — Eu não quero continuar fingindo distância quando claramente não existe nenhuma.

Ela desviou os olhos rapidamente.

— E quando perguntarem? — ela perguntou mais baixo. — Seus pais. A Claire. A família da Tanya. A imprensa.

Respirei fundo.

— Então talvez a gente pare de inventar respostas diferentes para cada pessoa.

Bella ficou em silêncio.

Meu peito apertava mais a cada segundo que ela não respondia, até que finalmente ela perguntou:

— Você acha mesmo que consegue fazer isso agora?

Não precisei perguntar o que “isso” significava.

Escolher, publicamente. Sem espaço para recuar depois.

— Acho que passei tempo demais tentando não bagunçar minha vida… E acabei bagunçando tudo mesmo assim. É hora de encarar as consequências.

A vulnerabilidade da frase ficou suspensa entre nós.

Bella me encarou por um longo momento.

— Você tem uma capacidade impressionante de escolher os piores momentos possíveis para ser honesto.

Apesar de tudo, uma risada escapou de mim.

— Isso foi um sim?

— Ainda estou decidindo.

Mas ela não se afastou.

E, naquele momento, isso pareceu suficiente.

Notas finais
Eu avisei que era a calma antes da tempestade... rs Me contem o que acham que vem por aí. Até semana que vem!