Daylight

23 Capítulo 22


Edward

Eu não sei exatamente em que momento o tempo começou a passar.

Fiquei ali tempo demais para alguém que passou anos fugindo de ficar. O quarto escureceu por completo, a luz da rua entrando pelas frestas da cortina em linhas tortas no chão. Em algum ponto, Jake se levantou, deu uma volta lenta pelo quarto e voltou a se deitar, sempre atento, sempre ali. Mais constante do que eu jamais fui.

Bella não soltou minha mão. Aquilo fez alguma coisa dentro de mim se mover outra vez.

Eu deveria estar exausto, mas estava desperto de um jeito incômodo, como se desligar fosse um risco. Como se, se eu soltasse aquela mão, tudo pudesse desaparecer.

Também não sei quanto tempo passou até eu ouvir passos suaves no corredor.

Alice.

— Você precisa comer alguma coisa — ela disse, em um tom baixo o suficiente para não acordar Bella.

Eu não olhei para ela imediatamente.

— Depois.

— Edward.

O jeito que ela falou meu nome não era impaciente. Era... firme. Como alguém que já tinha decidido não aceitar certas respostas. Respirei fundo, tentando não puxar o ar com força demais.

— Eu não vou sair daqui.

— Eu realmente preciso que você levante daí em algum momento e venha conversar comigo.

Levantei o olhar e ela soltou um suspiro curto, sem paciência para aquilo.

— Eu não pedi pra você sair. — uma pausa — Eu pedi para se levantar.

Olhei de volta para Bella, que ainda estava exatamente como antes.

— Eu não quero acordá-la.

— Você não vai.

O tom veio firme, sem espaço para negociação, parecido com o que eu usava quando minha filha fazia birra. Fiquei alguns segundos em silêncio.

Parte de mim queria insistir. Criar uma desculpa melhor. Ficar ali, imóvel, como se isso fosse suficiente para compensar qualquer coisa. Mas não era, e eu sabia disso.

Soltei o ar devagar e, com cuidado para não exagerar nos movimentos e perturbar o sono de Bella, me levantei da beira da cama.

Alice esperou eu sair primeiro antes de fechar a porta.

Nós paramos na cozinha, um de cada lado da bancada e, por um momento, nenhum dos dois falou.

— Eu vou ser bem direta com você — ela disse por fim. Assenti uma vez, não esperando nada de diferente vindo dela. — Bella não está bem. Ela tem passado as últimas semanas alternando entre fingir que está tudo bem e mal levantar da cama.

Desviei o olhar para a bancada, eu não precisava ver o rosto dela pra saber que aquilo era verdade

— Eu não estou aqui pra te culpar por tudo o que aconteceu antes — continuou, firme. — Eu sei todos os detalhes mas, sinceramente, isso nem importa agora. O que importa é o que você fará daqui pra frente.

Levantei o olhar, e ela seguiu falando.

— Você consegue imaginar como eu me sinto só de pensar em como ela esteve aqui, sozinha, no último mês? Consegue perceber o quão frágil ela está agora?

A palavra ficou no ar.

Frágil.

Eu odiei aquilo. Bella nunca tinha sido frágil antes.

Engoli seco.

— Eu sei que… — parei, ajustando as palavras. — Provavelmente estraguei as coisas de uma maneira que não sei se dá pra consertar.

Alice me observou por alguns segundos.

— O que você pode fazer é não piorar as coisas — ela inclinou levemente a cabeça. — Porque, se você vai ficar… É melhor fazer isso direito.

A frase não foi dita como ameaça, mas como um limite.

— Amanhã é a primeira consulta dela — ela disse, mudando levemente o tom.

— Eu vou.

A resposta saiu antes mesmo de eu pensar. Alice caminhou, abriu e fechou a porta da geladeira com um pouco mais de força do que o necessário.

O som seco dela colocando duas vasilhas de vidro na pia quebrou o silêncio.

— Edward, você esqueceu que isso não é só sobre vocês dois? Vocês não são duas pessoas comuns tentando resolver um problema comum. Vocês são Edward Cullen e Bella Swan. Se alguém vir vocês juntos agora, em uma clínica médica, qual será a manchete?

A realidade me atingiu como um soco.

— Vai ser um escândalo.

A palavra ficou no ar.

— E não é qualquer escândalo. Você ainda está com a Tanya… Oficialmente.

Me apressei em negar.

— Eu não estou mais com a Tanya.

— Você sabe disso, mas ninguém mais sabe.

Silêncio.

Era isso. Era exatamente isso.

— E, nesse mundo, Edward — ela continuou, com a voz mais baixa. — O que não é comunicado, não existe.

Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso daquilo se encaixar em cima de todo o resto.

— Então antes de pensar em “ficar”, em “estar presente”, em aparecer em consultas — ela fez aspas com os dedos. — Você precisa entender o que isso significa lá fora. Se Bella é vista saindo de uma clínica sozinha, não é notícia, é rotina. Se ela for vista saindo de uma clínica com você, a notícia será sobre como Bella Swan é sua amante e destruiu uma família.

— Eu não posso me esconder, Alice.

A resposta saiu automática, instintiva, mas ela não se impressionou.

— Quem falou sobre se esconder? Estou dizendo que você não pode ser irresponsável, especialmente com ela e neste momento — a voz dela ficou um pouco mais firme. — Ela é uma mulher grávida que acabou de sair de um relacionamento. Isso vai ser um escândalo de qualquer forma.

Finalmente, ela tinha atingido seu ponto. Senti o impacto direto no peito.

— Você acha que a imprensa vai ser gentil com isso? Vão respeitar o espaço dela? O corpo dela? A saúde dela? — ela continuou.

Balancei a cabeça, quase de forma imperceptível.

— Não.

Alice assentiu e ficou em silêncio por um momento, como se estivesse decidindo se avançava mais. Ela escolheu avançar.

— E tem a Tanya. O que você acha que ela vai fazer quando descobrir?

Engoli seco.

— Eu não sei.

Honesto, mas insuficiente.

— Então você precisa descobrir, porque dependendo da reação dela, essa situação pode sair completamente do controle.

Ela não levantou o tom, mas a frase veio como um comando, outra vez. E, pela primeira vez desde que aquela conversa começou, senti um tipo diferente de preocupação.

Não sobre mim, nem sobre Tanya. Mas sobre o efeito disso chegando até Bella.

— Você acha que ela exporia isso? — perguntei, finalmente.

— Você quem deveria saber. Eu acho que ela está ferida e pessoas feridas fazem coisas imprevisíveis.

Eu conhecia Tanya, sabia exatamente do que ela era capaz, mas me perguntava como chegar até ela com esse assunto. Nossa relação, depois de quase dois meses separados, era… razoável. Não éramos melhores amigos, mas estávamos bem, na medida do possível, para que Emerald não fosse afetada. Falar sobre Bella estar grávida de um filho meu e pedir sigilo, no entanto, era outra coisa.

Sob o olhar atento de Alice, me forcei a engolir um pouco de comida antes de retornar para o quarto e me acomodar no sofá outra vez. Passava das onze da noite quando Bella começou a se mover na cama, despertando.

— Ei — chamei.

Ela se virou na minha direção e bateu a mão no espaço vazio.

— Ei, você. Aja como o pai do meu filho e venha deitar aqui comigo.

A forma como ela disse meu filho amoleceu mais uma pequena porção do meu coração. E eu, como estava completamente à mercê dela, obedeci.

Com muito cuidado, mas obedeci.

— Eu não estou caminhando em uma corda bamba, Edward. Você pode se mover normalmente ao meu redor.

Quase ri mas percebi, no último segundo, que seria mais uma forma de irritá-la, e me acomodei ao seu lado debaixo da coberta.

— Como você está se sentindo? — perguntei.

— A dor ainda está aqui, mas agora consigo me concentrar em outras coisas. Como, por exemplo, o que vamos fazer daqui para frente.

Ela era impossível.

— Bella, você mal acordou. Podemos ir com calma aqui?

— Meu Deus, odeio que vocês fiquem me tratando como se eu fosse desmontar a qualquer momento — ela revirou os olhos para mim. — Tudo bem, então. Que horas são? O que você e Alice fizeram pelas minhas costas enquanto eu dormia?

Com a voz baixa e nossas cabeças próximas, como se estivéssemos contando segredos, repassei a conversa que eu e Alice havíamos tido mais cedo. Falei sobre privacidade, sobre como a evolução da gravidez significava que o mundo eventualmente saberia e que não haveria nada que pudéssemos fazer além de passar por aquele inferno juntos.

Não era o que eu queria para ela, nem de longe. Bella merecia paz, e a imprensa e a opinião pública sempre tinham sido cruéis.

Comigo, com ela, com qualquer pessoa que cometesse o erro de sangrar em público.

Enquanto eu falava, Bella permanecia deitada de lado, com os olhos abertos e fixos em mim. Não parecia surpresa e talvez essa fosse a pior parte. Ela já sabia. Já tinha entendido antes de mim que aquilo não seria só nosso, que alguma coisa tão íntima quanto um exame, uma consulta ou uma mão pousada distraidamente sobre a barriga poderia ser transformada em manchete a qualquer momento.

— Alice está certa — ela disse, depois de um silêncio longo. Assenti devagar. — Odeio quando isso acontece.

Dessa vez, eu não consegui evitar um quase sorriso. Ela percebeu, porque estreitou os olhos para mim.

— Não se acostume.

— Nunca.

O canto da boca dela se moveu, mas desapareceu rápido. A exaustão voltou ao rosto antes que qualquer leveza pudesse se estabelecer de verdade.

— Não tive a oportunidade de perguntar. Como você e a Tanya estão?

Eu já sabia que esse nome viria. Mesmo assim, ouvi-lo ali, naquele quarto, deitado ao lado dela, com o corpo dela quente a poucos centímetros do meu e a realidade frágil de uma criança entre nós, fez tudo parecer ainda mais delicado.

— Estamos bem. Falarei com ela amanhã.

Bella ficou imóvel.

— Sobre?

A cautela na voz dela me atingiu antes mesmo das palavras.

— Sobre oficializar o término publicamente. Precisamos parar de fingir que ainda existe alguma coisa que não existe mais.

Ela sustentou meu olhar por alguns segundos, como se procurasse a parte escondida da resposta.

— E sobre… Nós?

Eu respirei fundo. Não era sobre nós propriamente dito, mas sobre toda a situação.

— Ela tem sido bastante razoável no último mês. Desde aquele dia do aniversário da Maggie, seu nome não voltou à conversa, e eu gostaria de manter assim pelo tempo que fosse possível, mas sei que não será muito mais. Eventualmente ela precisará saber da sua gravidez, e eu não gostaria que fosse por um tablóide.

Bella desviou o olhar imediatamente.

— Não.

Não foi um grito, não foi agressivo. Foi uma decisão firme, absoluta.

— Bella…

— Não, Edward.

Ela se afastou meio centímetro de mim. Quase nada, mas suficiente para que eu sentisse a distância entre nós aumentar. Bella respirou, tentando recuperar o controle antes de continuar.

— Eu sei que você quer fazer as coisas direito. Sei que quer ser honesto, presente, responsável e todas essas coisas que parecem muito bonitas quando ditas na sua voz. Mas acabei de descobrir que estou grávida e nem sei se está tudo bem. Eu não sei nem como dizer isso em voz alta sem sentir que alguma coisa ruim vai acontecer.

O silêncio caiu entre nós.

— Eu não consigo lidar com Tanya sabendo disso — ela continuou, mais baixo. — Não consigo lidar com a reação dela, com o julgamento, com a possibilidade de isso escapar pela boca dela ou por qualquer pessoa perto dela. Eu não consigo, Edward.

Engoli em seco sabendo que, naquele momento, qualquer argumento que eu tivesse pareceria pequeno perto do medo dela.

— Eu não vou contar.

Bella piscou uma vez, como se precisasse conferir se tinha ouvido direito.

— Você não vai tentar me convencer?

— Não.

— Por quê?

A pergunta saiu quase irritada, e eu entendi que talvez ela estivesse tão acostumada a precisar defender cada limite que não sabia o que fazer quando alguém simplesmente parava diante dele.

— Porque não é minha decisão e porque você tem toda razão. Nós ainda estamos vivendo no campo das possibilidades e eu não posso passar por cima disso.

Ela ficou em silêncio e seu rosto mudou de um jeito mínimo. Não havia alívio, isso talvez estivesse longe demais, mas alguma tensão saiu dos ombros dela.

— Obrigada — murmurou.

— Eu vou falar com Tanya sobre tornar o término público — continuei, escolhendo as palavras com cuidado. — Só isso. E vou tentar entender se ela pode virar um problema.

Bella soltou um riso fraco, sem humor.

— Ela já é um problema.

Eu não respondi de imediato. Uma parte de mim queria defender Tanya por reflexo, como mãe da minha filha. Como alguém que também tinha sido machucada por mim, mesmo que as coisas entre nós fossem tortas, cansadas e cheias de rachaduras antigas. Mas outra parte sabia que Bella não estava falando de justiça.

Bella me observou.

— Eu não quero machucar a Emerald, Edward.

A frase veio tão baixa que, por um segundo, quase pareceu que ela estava falando mais consigo mesma do que comigo.

Não era o tipo de coisa que eu esperava ouvir naquele momento. Não quando Bella tinha motivos suficientes para se fechar em si mesma, para pensar apenas no próprio medo, no próprio corpo, na própria exaustão. Mesmo assim, ali estava ela, deitada na cama, frágil, assustada, mas pensando na minha filha.

— Você não vai.

— Não, eu estou falando sério — ela insistiu, e havia uma urgência diferente em sua voz agora. — Ela é uma criança doce que te olha como se você pendurasse o sol no céu todas as manhãs. Eu não posso acabar com isso.

A imagem me atingiu com uma força quase física: Emerald correndo na minha direção, os braços estendidos, o cabelo bagunçado pelo vento e a confiança absoluta de uma criança que ainda não tinha idade para entender que os adultos quebravam coisas o tempo todo.

— Se a gente… — Bella parou, desviando o olhar por um instante, como se a frase fosse grande demais. Quando voltou a falar, a voz saiu mais baixa. — Se nós realmente formos tentar alguma coisa, eu sei que ela vem junto. Não existe você sem ela.

Fiquei imóvel. Havia algo tão simples naquela constatação que eu não soube o que fazer com ela. Era o tipo de verdade que deveria ser óbvia, mas que raramente as pessoas aceitavam sem ressentimento.

— Bella…

— Não estou dizendo isso para parecer boa — ela me cortou, antes que eu encontrasse uma resposta inútil. — Não estou tentando ser nobre. Eu só preciso que você entenda que essa é uma das coisas que mais me assustam.

Franzi levemente a testa.

— Emerald te assusta?

— A possibilidade de feri-la.

O quarto pareceu ficar menor ao meu redor e Bella respirou fundo, como se só aquele pensamento já doesse.

— Ela não pediu por nada disso. Não pediu pelos erros de vocês, pelos meus, por esse… caos todo que criamos. Ela não tem culpa se o relacionamento de vocês acabou. Não tem culpa se você e eu… — outra pausa, mais difícil. — Se nós nunca conseguimos ficar completamente longe um do outro.

Eu fechei os olhos por um segundo.

— Eu não quero que ela me olhe um dia e me veja como alguém que tirou a família dela.

Quando abri os olhos, Bella ainda me encarava, e eu não tinha resposta pronta para isso. Não uma que fosse justa.

— Ela não vai perder nada — eu disse, mas minha voz saiu menos firme do que eu queria.

Bella percebeu, claro que percebeu.

— Ela vai. Mesmo que vocês façam tudo da melhor forma possível, com todo cuidado do mundo, a vida dela vai mudar. Esqueceu que eu sou filha de pais separados? Sei muito bem como funciona.

A lembrança de Charlie e Renée apareceu entre nós como mais uma coisa presente demais para ser ignorada. Bella não falava daquilo com frequência, ela tinha transformado a própria infância em pequenas histórias, quase engraçadas, sobre malas feitas às pressas, aeroportos, fins de semana alternados e telefonemas em horários inconvenientes. Mas eu sabia que havia mais por baixo.

— Eu não esqueci — respondi baixo.

— Então não me diga que ela não vai perder nada.

A resposta dela me deixou em silêncio, porque admitir aquilo era uma forma de aceitar que, por mais que eu amasse Emerald, por mais que a colocasse no centro de todas as minhas decisões a partir dali, eu ainda não conseguiria impedir que ela sentisse a mudança. Eu poderia protegê-la da crueldade do mundo, talvez. Da imprensa, das versões distorcidas, do ruído adulto em torno dela. Mas não da percepção infantil de que algo antes inteiro agora existia dividido.

— Ela gosta de você, sabe? Eu não sei se a sua presença será um problema. Ela já sabe que você é uma pessoa segura.

Bella respirou fundo, mas alguma coisa em seu rosto se contraiu no meio do movimento. Foi rápido, mas o suficiente para que eu percebesse.

— Bella?

Ela fechou os olhos e levou a mão à barriga, por baixo do pijama.

Todo o resto desapareceu. Tanya, Emerald, término, imprensa, tudo que tinha nome e consequência ficou suspenso enquanto o corpo dela se encolhia um pouco ao meu lado.

— É só… Aquela dor de novo — ela murmurou, mas a voz saiu baixa demais.

A mão dela apertou o tecido da própria blusa, e eu precisei usar toda a minha força para não levantar mesmo assim. Fiquei parado ao lado dela, inútil, atento a cada mudança no rosto, a cada respiração curta, a cada tentativa dela de fingir que estava no controle.

Depois de alguns segundos, a tensão começou a ceder, até que foi o suficiente para ela soltar o ar.

— Melhor? — perguntei, com medo da resposta.

— Acho que preciso levantar.

— Para?

— Preciso de um banho e talvez comer alguma coisa antes que Alice entre aqui e tente me alimentar à força com mais uma daquelas torradas tristes.

Eu não consegui rir, ela percebeu e levou a mão livre até meu braço.

— Edward, olhe para mim. — Olhei. — Se a dor piorar, se voltar mais forte, se qualquer coisa parecer errada, nós vamos procurar atendimento médico hoje mesmo. Eu prometo.

Saí da cama primeiro e estendi a mão para ela. Levantar levou mais tempo do que deveria e, depois, ela ficou parada ao lado da cama por alguns segundos, uma mão na minha e a outra na barriga, parecendo tentar controlar a respiração.

— Tontura?

— Um pouco.

— Isso não é uma boa resposta.

— É a que eu tenho.

Antes que eu pudesse responder, houve um ruído baixo do outro lado da porta. Dois toques leves, e Alice apareceu sem entrar completamente, segurando o batente como se já soubesse que alguma coisa tinha acontecido.

— O que foi?

Bella fechou os olhos com uma expressão cansada.

— Nada.

— Resposta errada — Alice disse, e olhou para mim.

— Ela está com dor — respondi, porque Bella provavelmente minimizaria.

Ela me lançou um olhar, que Alice ignorou.

— Forte?

— Já passou — Bella disse.

— Não foi o que eu perguntei.

Por algum motivo, mesmo naquela tensão, a familiaridade da resposta dela fez Bella suspirar.

— Foi mais forte do que antes, mas passou.

Alice ficou em silêncio por dois segundos, avaliando o rosto dela com uma atenção quase clínica, mesmo do outro lado do quarto.

— Banho?

— Banho — Bella confirmou.

Ajudei Bella a caminhar até o banheiro. Ela odiou cada segundo. Eu percebia pelo maxilar travado, pela forma como tentava soltar minha mão antes de cada passo, como se fosse possível provar independência no caminho entre a cama e o chuveiro.

Quando chegamos, ela se apoiou na pia e encarou o próprio reflexo. Bella parecia ainda mais pálida ali, os olhos fundos, o cabelo bagunçado, uma exaustão antiga demais para caber apenas naquela noite. Fiquei atrás dela, sem a tocar.

— Você quer que eu saia?

Ela demorou a responder.

— Não.

Assenti, mesmo que ela estivesse olhando para o espelho e não diretamente para mim.

— Eu posso ficar ao lado de fora.

— Eu disse que não, Edward.

Ajudei com o que ela deixou. Abri o chuveiro, misturei a água, testei a temperatura, liguei o toalheiro para que esquentasse enquanto ela tomava banho. Fiquei do lado de fora do box, perto o suficiente para ouvi-la respirar, observando enquanto ela lavava o cabelo.

Em outro tempo, em outra vida, talvez aquilo pudesse ter sido íntimo de um jeito simples. Agora era íntimo de um jeito difícil, adulto e cheio de consequências.

Quando ela terminou, estava menos tensa, mas claramente cansada. Vestiu um novo conjunto de pijama, deixou o cabelo molhado cair sobre os ombros e parecia pequena demais dentro da própria roupa.

— Não me olhe assim — disse, sem levantar muito a voz.

— Assim como?

— Como se eu estivesse morrendo.

Meu estômago revirou.

— Não diga isso nem de brincadeira.

Ela pareceu se arrepender na hora.

— Me desculpe.

O pedido saiu baixo. Aproximei-me um pouco, só o suficiente para entregar a toalha menor para ela secar o cabelo.

— Eu só estou com medo.

— Eu também.

A honestidade dela ficou entre nós por alguns segundos.

Na cozinha, Alice já tinha deixado um copo de água, uma tigela com um pouco de sopa e uma torrada que Bella encarou como se fosse uma ofensa pessoal. Ela estava no corredor quando chegamos, com a própria bolsa apoiada no ombro e o celular na mão.

— Estou me mudando para o quarto de hóspedes — avisou.

Bella levantou o olhar.

— Você não precisa.

— Eu sei, mas prefiro deixar vocês dois sozinhos com essa conversa estranhamente doméstica e cheia de drama.

Bella revirou os olhos e abriu a boca para protestar, mas foi interrompida por Alice.

— Você perdeu direitos de reclamar depois de dizer que estava “só cansada” por três semanas.

Bella fechou a boca como uma criança contrariada e eu teria achado graça se aquela constatação não doesse.

Alice se aproximou, beijou o topo da cabeça dela com uma naturalidade que fez Bella fechar os olhos por meio segundo, e depois saiu sem prolongar a cena. Jake hesitou entre segui-la e ficar conosco, decidiu por Bella e se deitou perto da mesa.

— Traidor — Alice murmurou do corredor.

Bella olhou para Jake.

— Ele é um bom menino.

Quando ficamos sozinhos, o silêncio voltou de forma diferente.

Bella empurrou a tigela alguns centímetros quando não conseguiu comer mais.

— Se Alice perguntar, eu comi tudo.

Olhei para metade da comida ainda ali.

— Ela não vai acreditar.

— Você precisa aprender a mentir por mim, Edward.

— Isso é uma péssima ideia, alguém tem que ser responsável aqui.

Ela soltou uma respiração curta, quase divertida, mas o cansaço venceu de novo. Levei a tigela para a pia e voltei para ajudá-la a levantar. Dessa vez, ela não reclamou quando segurei sua cintura para estabilizá-la.

O caminho de volta ao quarto foi lento.

Na cama, Bella se acomodou deitando de lado outra vez. Ajustei a coberta sobre ela sem pensar, e só percebi o gesto quando já tinha feito.

Ela também percebeu, mas não reclamou. Fiquei parado ao lado da cama, sem saber se voltava para o sofá ou se esperava permissão para permanecer onde tinha estado antes.

— Você vai ficar em pé até eu te mandar deitar de novo?

— Talvez.

— Edward…

— Sofá?

Ela demorou um segundo e moveu a mão sobre o espaço ao lado dela.

— Tire esse jeans e deite aqui, mas sem fazer disso uma grande coisa.

Deitei ao lado dela mantendo uma distância respeitosa, ainda que pequena. Bella virou o rosto na minha direção, os olhos pesados de sono e dor e tudo que ainda não tínhamos resolvido.

— Amanhã vai ser um grande dia — murmurou. — Você vai terminar a sexta-feira sendo pai de dois, já pensou nisso?

A frase acertou alguma coisa dentro de mim antes que eu conseguisse me preparar. Eu não sabia se era esperança ou medo o que veio primeiro. Talvez os dois tivessem chegado juntos, atravessando o mesmo espaço estreito no meu peito, um se confundindo com o outro até não haver diferença clara. Olhei para Bella, para os olhos cansados, para a forma como ela tentava dizer aquilo quase como uma provocação leve, como se pudesse diminuir o tamanho do que havia acabado de colocar no mundo.

— Não sei se estou preparado para pensar nisso.

O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Estava cansado demais para isso. Bella piscou devagar, lutando contra o sono, mas ainda havia uma tensão nos olhos dela, uma resistência em se entregar completamente, como se dormir fosse baixar a guarda. Eu conhecia a sensação.

— Eu estou com medo da consulta — ela disse depois de um tempo, tão baixo que quase se misturou ao som da respiração dela.

Meu corpo inteiro quis responder rápido demais, dizer que ia ficar tudo bem. Que amanhã ouviríamos alguma coisa boa e então respiraríamos melhor. Mas eu não sabia disso, e ela não precisava de outra mentira.

— Eu também tenho medo. Queria poder estar lá com você.

Bella fechou os olhos por um instante.

— E eu queria que você pudesse estar.

Ainda com os olhos fechados, a mão dela ficou entre nós, repousada sobre o colchão, perto o suficiente da minha para que eu sentisse o calor sem tocar. Esperei até que, alguns segundos depois, seus dedos se moveram em direção aos meus.

Olhei para nossas mãos, mas não fechei a minha sobre a dela. Apenas deixei que o toque existisse como ela tinha oferecido.

— Amanhã você precisa se resolver com a Tanya — ela murmurou, os olhos já fechando outra vez.

— Farei isso, Bella.

— Sem mencionar gravidez e sem me transformar na vilã da história.

— Jamais faria isso.

Ela ficou em silêncio por um instante, e achei que tivesse adormecido. Então a voz dela veio de novo, mais baixa.

— E sem transformá-la em vilã também.

A correção, mesmo sonolenta, me atingiu.

— Pode deixar, não farei.

Bella assentiu quase imperceptivelmente, satisfeita.

— Ela errou com você — Meu corpo todo ficou tenso antes que eu conseguisse impedir. Bella abriu os olhos o suficiente para perceber. — Naquele dia, ela perdeu o controle. Mas você também errou com ela.

A agressão de Tanya ainda era uma coisa difícil de se colocar em qualquer lugar. Não porque eu a justificasse, mas porque parte de mim continuava tentando organizá-la dentro de tudo que eu tinha provocado antes. Ela tinha me confrontado, eu tinha admitido, e então alguma coisa nela se rompeu de um jeito que não deveria.

Ter explicação não fazia aquilo ser aceitável.

— As duas coisas são verdade — consegui dizer, finalmente.

Olhei para Bella outra vez. Ela estava exausta, quase dormindo, e ainda assim encontrava força para não reduzir ninguém a um único papel. Como eu poderia amá-la mais?

— Lembre-se disso amanhã.

— Vou lembrar.

Fiquei olhando para ela, para a pequena curva de um sorriso que durou menos do que eu gostaria, para a sombra dos cílios sobre o rosto pálido, para o cabelo ainda úmido espalhado no travesseiro. Havia tanto ali que eu queria tocar e tanto que eu não tinha o direito de tocar que permaneci imóvel, respirando devagar, tentando não transformar o momento em nada além do que ele era.

Bella respirou fundo, mas o ar saiu trêmulo, e me olhou mais uma vez.

— Edward?

— Sim?

— Espero que você esteja aqui quando eu acordar.

Ela fechou os olhos de novo, e dessa vez o silêncio permaneceu. Jake se mexeu ao lado da cama, soltando um suspiro pesado antes de deitar a cabeça nas patas. Do corredor, veio um ruído baixo, provavelmente Alice se acomodando no quarto de hóspedes, e depois a casa pareceu finalmente repousar junto conosco.

Eu permaneci acordado por mais alguns minutos, atento ao ritmo da respiração de Bella. Quando ela ficou mais regular, os dedos dela escorregaram um pouco contra os meus, e por reflexo, sem apertar, apenas acompanhei o movimento. Ela não acordou, nem se afastou.

A distância entre nossos corpos continuava pequena, cuidadosa, cheia de tudo que ainda não tinha sido dito. Ainda assim, havia um calor tranquilo ali, uma espécie de trégua que não pedia explicação.

O sono veio devagar, contra a minha vontade.

Eu tentei resistir, tentei continuar atento, como se permanecer acordado fosse mais uma forma de provar alguma coisa. Mas meu corpo estava no limite, e a noite tinha sido longa demais para sustentar mais uma vigilância inútil.

Antes de apagar por completo, ouvi Bella murmurar alguma coisa. Inclinei o rosto um pouco na direção dela e pedi que repetisse, o que ela fez sem abrir os olhos.

— Não vá embora.

A frase saiu em meio ao sono, e o tom veio carregado de medo. Meu peito apertou tanto que por um instante ficou difícil respirar.

— Não vou a lugar algum — Dessa vez, meus dedos fecharam um pouco mais sobre os dela, só o suficiente para responder. — Eu estou aqui.

Bella soltou o ar devagar, como se alguma parte dela tivesse acreditado. Era o suficiente para mim naquele momento.

Pouco depois, o sono finalmente me alcançou também.

Adormecemos assim, sem encaixes perfeitos, sem promessas, sem apagar nada do que ainda nos esperava pela manhã. Apenas lado a lado, com as mãos quase entrelaçadas no espaço estreito entre nós, enquanto a casa silenciava ao redor e, por algumas horas, o mundo lá fora deixava de existir.

Notas finais
Ah, que fofos! Pena que as coisas não são tão simples assim... ;)