Daylight
24 Capítulo 23
Bella
Em algum lugar entre o sono e a consciência, meu cérebro começou a trabalhar muito mais cedo do que deveria. Dividido entre o fervor de proteger a vida que ainda lutava para se estabelecer dentro de nós — ótimo, agora eu me referia à mim mesma na terceira pessoa — e a confusão dos meus sentimentos por Edward, ele começou a organizar o dia em torno daquelas duas situações.
Primeiro: em algumas horas, eu esperava ter alguma certeza sobre como seriam os próximos meses. Todo o resto, viria em segundo lugar. Com essa constatação, abri os olhos para me desvencilhar de Alice, que tinha me abraçado em algum momento durante a noite.
Só que não era Alice.
Eu estava abraçada a Edward. Na minha cama. Como isso tinha acontecido mesmo?
Fragmentos da noite passada passaram pela minha mente, como se eu tivesse dado play em um vídeo gravado em timelapse, fazendo as coisas se encaixarem. O banho, o (mais próximo possível de um) jantar, a conversa com Edward, meu pedido para que ele não contasse nada a Tanya nem a transformasse na vilã da história, o medo dele em relação à essa gravidez e, por fim, meu pedido sonolento para que ele ficasse.
Dediquei um momento para observá-lo antes que meus movimentos o acordassem: a cicatriz acima da sobrancelha estava quase imperceptível agora, apenas uma linha branca muito fina que mal se destacava. Seus cílios longos cobriam a parte de baixo dos seus olhos, tampando o que eu sabia serem sombras de olheiras. Suas sobrancelhas estavam relaxadas, como sempre ficavam quando ele dormia profundamente. Seu queixo estava liso, sem barba, e eu sabia que era porque ele estava gravando agora e… Merda. Que horas ele deveria estar no set?
— Edward — chamei, mas ele não se moveu nem um centímetro. — Edward! — mais alto.
Ele se mexeu com um sobressalto tão brusco que, por um segundo, me arrependi de ter lhe chamado daquele jeito. Os olhos dele abriram rápido demais, ainda confusos, o corpo inteiro tenso antes da mente acompanhar. A mão que estava em volta de mim se afastou imediatamente, como se ele tivesse tocado em algo sem permissão.
— O quê? — perguntou, a voz rouca, baixa, ainda tomada pelo sono. — Você está com dor?
Claro, a primeira coisa que ele pensou foi isso. Senti alguma coisa estranha se mover dentro de mim, mas empurrei para longe antes que virasse ternura.
— Não — respondi, tentando me sentar devagar. — Quer dizer, não agora. Eu só… Que horas são?
Edward piscou algumas vezes, como se a pergunta fosse absurda demais para o estado em que ele ainda estava. Depois virou o corpo em busca do celular, apalpou o espaço ao lado do travesseiro, não encontrou, franziu a testa, olhou para o chão e finalmente o pegou. A expressão dele mudou quando a tela acendeu.
— Merda, esqueci do despertador.
Ele se sentou de uma vez, passando a mão pelo rosto, e o cobertor caiu até a cintura. Havia uma marca do travesseiro em sua bochecha, seu cabelo estava completamente desorganizado e seu rosto tinha uma expressão de culpa tão imediata que quase me irritou.
— Eu tenho que estar no set às oito.
— E são?
Ele olhou outra vez.
— Seis e quarenta e dois.
— O que significa que você ainda tem uma hora e vinte antes de se atrasar.
A boca dele abriu um pouco, talvez para responder, mas nenhuma frase saiu. Em vez disso, ele passou a mão pelo cabelo, o que só piorou a situação geral na cabeça dele, e desbloqueou o celular.
— Você está muito calma para quem trabalha com produção. Preciso ligar para o meu assistente.
O desespero dele me deu vontade de rir, e eu não pude perder a oportunidade.
— Não esqueça de avisar seu empresário e também o chefe do set, é importante que o maior número de pessoas possível saiba que você vai se atrasar porque passou a noite na casa de uma mulher que por acaso está grávida de você.
Ele parou de digitar para me olhar e eu não consegui evitar. Sorri porque a imagem de Edward sentado na minha cama, com o cabelo de quem tinha sido atropelado por um travesseiro e a seriedade de alguém prestes a acionar uma equipe inteira porque dormiu mais quarenta minutos do que deveria era, de um jeito quase absurdo, engraçado.
— Isabella, você está rindo de mim?
— Não nego nem confirmo.
— Estou tentando ser responsável aqui!
— Essa seria uma novidade, para nós dois — rebati. Eu simplesmente não conseguia ficar séria. Era um bom sentimento, depois de tanto tempo.
Ele balançou a cabeça e voltou a digitar, ainda sentado ao meu lado, e eu aproveitei o silêncio para me espreguiçar. Meu corpo reclamou antes que eu terminasse, uma pressão baixa e incômoda que me fez parar no meio do movimento. Não era nada que me fizesse entrar em pânico, mas estava ali, lembrando que aquela manhã não era exatamente comum.
— Com dor de novo? — ele perguntou, sem qualquer resquício de humor.
— Nada de novo. É só… Persistente.
— Isso é uma resposta vaga.
— Essa gravidez inteira, neste momento, é vaga.
As palavras saíram antes que eu as filtrasse. Edward ficou imóvel, mas percebi tarde demais.
— Me desculpe — murmurei.
Virei o rosto para encará-lo melhor. Ele tinha o celular ainda na mão, uma mensagem inacabada na tela, mas a atenção já não estava ali. Estava em algum ponto entre nós e a possibilidade que ainda não sabíamos se seria concreta.
— Eu só quis dizer que ainda não temos nada… certo — continuei, tentando deixar a frase menos dura. — Daqui algumas horas, talvez. Até lá, eu não quero viver como se tudo já estivesse definido só para me frustrar depois.
Edward assentiu, mas não respondeu. O silêncio dele não era concordância. Eu sabia reconhecer. Era aquele tipo de silêncio em que ele tentava organizar a própria reação antes que ela caísse sobre mim de um jeito injusto. Em outro momento, talvez eu tivesse preenchido aquele espaço por nervosismo. Talvez tivesse pedido desculpas de novo, explicado melhor, suavizado o que eu tinha dito até não restar quase nada da ideia original.
Mas agora eu estava cansada demais para editar meu medo.
Ele olhou para mim com uma mistura de exaustão e algo mais suave, algo que eu não queria examinar muito cedo, porque a manhã já tinha coisas demais.
— Eu quero levar isso a sério, Bella.
— Eu sei que sim. Só não quero que você entre em pânico, e me coloque em pânico por consequência, sem motivo.
— Tudo bem, vou tentar não entrar em pânico. Devemos nos mover daqui? Pegar algo para fingir que estamos tomando um café da manhã decente?
Não tinha percebido que estava com fome até ele dizer aquelas palavras. E, de repente, eu queria um balde de café.
— Acho que preciso de um café. Talvez meu comportamento mude depois da primeira xícara — alertei.
A palavra café pareceu ativar alguma coisa nele. Os olhos de Edward caíram para minha barriga antes de voltarem ao meu rosto, e ele tentou disfarçar, mas eu vi.
— Você acha que deveria tomar café?
Fiquei olhando para ele.
— Você está me perguntando isso por…?
Ele fechou os olhos por um segundo, e quando abriu, parecia genuinamente preso entre rir e continuar se sentindo culpado.
— Quando Tanya estava grávida, o médico pediu para ela reduzir a cafeína. Não cortar totalmente, acho, não lembro exatamente.
O nome dela não me atingiu como uma faca daquela vez. Talvez porque ele não tenha usado como comparação, não era nenhuma tentativa de parecer experiente, nenhum tom de quem sabia mais sobre o meu corpo do que eu. Só uma memória, atravessando a preocupação dele de um jeito desajeitado. Ainda assim, fiz uma careta.
— Você percebe como é estranho para mim receber orientações baseadas no histórico da Tanya?
O início de sorriso sumiu do rosto dele.
— Droga, Bella, me desculpe. Eu não queria dizer…
— Edward, pare. Eu sei que você não fez por mal — interrompi. — Nós não podemos passar nove meses nos desculpando, toda vez que você mencionar a gravidez dela. Somos adultos o suficiente para diferenciar as coisas.
Se ele estivesse apenas sendo controlador, eu poderia brigar sem culpa. Se tivesse me dado uma bronca, eu poderia expulsá-lo da cama e mandá-lo pesquisar cafeína no corredor. Mas ele só estava tentando cuidar de alguma coisa que eu também queria cuidar. De um jeito um pouco inconveniente, certamente, mas era o jeito que ele sabia fazer.
— Vamos fazer o seguinte: não vou desconsiderar o conselho totalmente, mas posso tomar uma versão reduzida. Uma xícara pequena, com leite. Te deixa mais calmo?
— É razoável, mas ainda quero que você pergunte a sua médica sobre isso.
A tensão no rosto dele cedeu um pouco, e eu me permiti respirar melhor. Meu corpo ainda estava pesado, mas a dor da noite anterior não tinha voltado. Havia um desconforto presente, uma sensação de alerta que eu não conseguia ignorar, mas não era suficiente para me jogar de novo naquele lugar de medo absoluto.
— Razoável — repeti, estreitando os olhos. — Que palavra sexy para se usar antes das sete da manhã.
Edward soltou um ar pelo nariz, quase uma risada, e se levantou primeiro. Por um instante, pareceu que ia me oferecer a mão e depois desistiu no meio do gesto. Aquilo me deu vontade de implicar com ele.
— Pode me ajudar a levantar, Edward. Eu não vou registrar uma queixa contra você.
Ele estendeu a mão, e eu aceitei. O corpo reclamou quando fiquei de pé, mas menos do que na noite anterior, e isso foi suficiente para que eu me agarrasse a algum tipo de otimismo.
Caminhamos até a cozinha com Jake nos seguindo como se não pudesse se afastar mais que alguns centímetros de mim. A luz da manhã começava a entrar pelas janelas, fraca e azulada, dando à sala uma aparência quase irreal. Como tudo aquilo que estava acontecendo nas últimas quarenta e oito horas.
Enquanto ele preparava o café, desbloqueou o celular mais uma vez e terminou a mensagem que havia começado. Vi a concentração retornar ao rosto dele.
— Está avisando o set?
— Meu assistente primeiro. Vou dizer que tive um imprevisto pessoal e que chegarei um pouco mais tarde.
— Você não precisa chegar mais tarde.
Ele respirou fundo, como se estivesse tentando não discutir.
— Eu queria ir com você à consulta.
Baixei os olhos para minhas mãos sobre a bancada, os dedos ainda frios.
— Eu sei. Queria que tudo fosse mais fácil, mas essa é a nossa vida.
A cafeteira terminou com um ruído baixo, salvando nós dois por alguns segundos. Edward preparou minha xícara com uma concentração quase ridícula. Quando finalmente a colocou diante de mim, a bebida estava clara e triste.
— Isso é uma amostra grátis de café — falei. — Talvez fosse melhor eu beber um chocolate quente.
Ele baixou o olhar, e por um instante achei que eu tinha ido longe demais. Mas quando voltou a me olhar, havia um traço de humor ali.
— Vou anotar para amanhã.
Peguei a xícara e dei um gole. Estava morno demais, fraco demais e, infelizmente, parecia um desperdício.
Edward pegou uma xícara para si, dessa vez com café de verdade, e ficou do outro lado da ilha. Havia algo quase doméstico naquela distância. Por alguns minutos, conseguimos conversar sobre coisas pequenas.
E, ali naquela pequena bolha, me senti um pouco culpada por estar tranquila. Como se uma mulher que talvez estivesse prestes a confirmar uma gravidez incerta não devesse achar graça do cabelo desgrenhado do homem que ainda amava e talvez não soubesse perdoar.
Mas eu estava viva.
E com medo.
E apaixonada.
E irritada.
E, aparentemente, faminta porque, quando Edward empurrou um prato com torradas na minha direção, eu resmunguei, mas peguei um pedaço mesmo assim.
Então o celular dele começou a tocar. O som cortou a cozinha de um jeito abrupto demais, e Edward ficou imóvel por um segundo antes de olhar para a tela. A mudança no rosto dele foi imediata. Alerta.
— Tanya — disse, mais para si mesmo do que para mim. Meu estômago se fechou, mas não tive tempo de transformar aquilo em nada, porque ele já estava de pé, os olhos presos no aparelho. — Está muito cedo.
A frase saiu baixa, e eu entendi o que aquilo significava antes que ele dissesse.
— Atenda — falei.
Edward olhou para mim, como se precisasse ter certeza.
— Bella…
— Edward, atenda!
Ele deslizou o dedo pela tela quase no mesmo instante, levando o celular ao ouvido.
— Tanya? O que aconteceu?
A voz dele mudou. Não para a voz que usava comigo. Era outra coisa, mais baixa, mais imediata, com uma camada de medo que não passava por filtro nenhum.
Fiquei quieta, tentei olhar para a minha xícara. Falhei.
— Ela está bem? — ele perguntou, e meu peito apertou antes que qualquer resposta pudesse chegar até mim.
Houve uma pausa e o corpo dele relaxou um pouco, mas não completamente.
Outra pausa, e então alguma coisa em seu rosto mudou de novo. O som da voz de Tanya saiu abafado pelo telefone, distante demais para eu entender as palavras. Edward passou a mão pelo cabelo, olhou rapidamente para mim e depois afastou o aparelho do ouvido.
— É a Emerald — disse baixo. — Ela quer me ver.
Ele hesitou, talvez por estar na minha cozinha, talvez por eu estar ali, talvez porque aquela fosse uma intimidade da vida dele que não me pertencia completamente. E, ainda assim, pertencia ao pacote. O que eu mesma tinha dito na noite anterior: não existia Edward sem ela.
— Faça uma chamada de vídeo com ela — eu disse, porque parecia a resposta mais simples naquele momento.
Ele me olhou por um segundo, como se ainda esperasse encontrar em mim algum sinal de desconforto que o autorizasse a recusar.
— Tem certeza?
— Edward, ela quer ver o pai. Faça a chamada.
Edward assentiu e tocou na tela. O celular vibrou uma vez enquanto a chamada mudava para vídeo. Ele ainda ficou de pé por um instante, sem saber exatamente onde se posicionar, como se a minha cozinha tivesse se transformado em um cenário perigoso. Eu fiquei fora da tela, imóvel, embora não houvesse nada em mim que parecesse natural naquele momento.
O rosto de Emerald apareceu alguns segundos depois e meu peito apertou com a cena: ela estava com o cabelo ainda amassado do sono, as bochechas coradas e um pijama com muitos animais estampados. Ela não era mais o bebê que eu tinha conhecido há quase um ano, mas ainda tinha o rosto redondo, os olhos grandes demais para a quantidade de mundo que já tentavam entender.
— Oi, amor. Como foi sua noite? — Edward disse, e a voz dele mudou completamente, ficando mais baixa, mais quente, como se alguma coisa dentro dele se curvasse naturalmente para alcançá-la.
Emerald franziu a testa para a tela.
— Eu procurei o papai.
Ele sorriu, mas eu vi quando a culpa passou por seus olhos.
— Nós nos vimos ontem pela manhã, lembra? O papai está trabalhando, por isso não fui te ver hoje.
— A mamãe falou.
— E a mamãe estava certa. Você dormiu bem?
— Eu dormi com a Laile.
— Não está muito cedo para você acordar a Claire e a mamãe?
Emerald fez uma careta.
— É muito cedo?
— Muito cedo mesmo, são sete horas agora.
Ela pareceu satisfeita por ele concordar com aquilo, mas não o suficiente para abandonar a reclamação.
— E você vem, papai?
— Não posso prometer, amor. Vou conversar com a mamãe sobre isso.
Emerald não gostou da resposta e seu rosto mostrou isso.
— Mamãe disse que você trabalha muito.
— É verdade, quando estou gravando eu trabalho muito mesmo. Mas a mamãe também terá dias em que vai trabalhar bastante, é o que os adultos fazem.
— A mamãe trabalha no celular, né, mamãe?
Ela olhou para algum ponto fora da tela, provavelmente para a mãe.
— Sim, Emmie, eu uso bastante o celular no trabalho.
Emerald pareceu satisfeita por ter confirmado sua teoria e voltou a olhar para Edward com a expressão séria de quem ainda não tinha acabado o raciocínio.
— Eu não gosto quando você trabalha muito, papai.
O rosto dele suavizou e ele apoiou o cotovelo na bancada e inclinou um pouco para a tela, como se quisesse diminuir a distância até ela.
— Eu sei. Também não gosto quando trabalho tanto que não consigo te ver. Mas eu vou tentar organizar melhor, está bem?
Emerald ouviu tudo com uma atenção surpreendente para alguém que ainda nem tinha dois anos. Talvez não entendesse cada parte, mas entendia o suficiente. O pai ia trabalhar. O pai falaria com a mãe. Talvez ele aparecesse depois.
Eu me obriguei a olhar para a xícara, porque não queria que Edward me pegasse observando demais. Não era uma conversa minha, mas eu estava ali, e a delicadeza daquilo, justamente por ser tão comum, parecia mais íntima do que qualquer declaração.
Ela olhou para fora da tela de novo, e ouvi a voz de Tanya dizer algo sobre terminar o café da manhã. Emerald não pareceu satisfeita, mas também não protestou muito.
— Emmie — Tanya chamou, mais perto agora. — Diga tchau para o papai.
— Tchau, papai. Eu te amo!
— Eu também te amo muito, mais que tudo.
A câmera se mexeu, e por um segundo ouvi Emerald falar alguma coisa com Tanya sobre a Claire. Depois a imagem mudou e ela apareceu rapidamente.
— Vou desligar — ela disse.
Edward endireitou a postura. Não foi brusco, mas a diferença foi clara. O pai que falava com Emerald cedeu espaço ao homem que precisava pisar com cuidado em uma conversa antiga.
— Obrigado por ligar.
Tanya desviou o olhar por um instante, provavelmente acompanhando Emerald fora do quadro.
— Ela pediu. Eu posso ser muitas coisas, mas não vou fazer minha filha sofrer à toa, Edward.
— Eu sei, por isso quero conversar com você hoje. Precisamos comunicar a separação publicamente e definir a rotina da Emerald. Deixamos isso nesse meio termo por tempo demais.
Tanya ficou quieta.
Eu mexi na xícara só para ter alguma coisa nas mãos. Havia um desconforto em ouvi-los falar com tanta civilidade, talvez porque a civilidade revelasse melhor o estrago do que uma briga faria. Eles sabiam falar um com o outro, sabiam os pontos de tensão, os limites, Havia intimidade ali. Uma intimidade gasta, mas que era real.
— Tudo bem. Você consegue vir depois das quatro? A Emerald estará dormindo e nós podemos conversar sem interrupções.
— Consigo confirmar quando chegar ao set, mas acho que sim. Se eu tiver alguma cena atrasada, te aviso.
— Não me avise em cima da hora.
— Não vou — ele fez uma pausa rápida antes de voltar a falar, como se ponderasse se devia continuar. — Se preferir, peça para a sua assessora montar um esboço da nota. Vamos fechar isso hoje, juntos, sem que pareça algo unilateral.
— Agora você quer me incluir — provocou. — Enfim, Edward, espero que você não venha com pressa se realmente quer resolver hoje. Preciso ir, tenho uma criança para manter viva.
A ligação terminou e Edward permaneceu olhando para a tela apagada por um instante. Depois bloqueou o celular e o colocou sobre a bancada, ao lado da xícara. O café dele também devia estar frio. Mesmo assim, ele tomou um gole, fez uma careta pequena e pousou a xícara de volta.
Eu apoiei o cotovelo na bancada e segurei a xícara com as duas mãos, mais pelo calor que ainda sobrava do que pela vontade de beber. Não queria entrar no território de Tanya mais do que o necessário. Não naquela manhã. A ligação tinha sido suficiente. Civilizada, prática, útil. Isso bastava.
— Você tem quanto tempo? — perguntei.
Ele olhou para o relógio.
— Se eu sair em cinco minutos, consigo passar em casa, trocar de roupa e chegar ao set antes das oito e meia.
— Então você sairá em cinco minutos.
O assunto nós ainda parecia pairar no ar, mas eu tentava ignorá-lo porque tinha outras prioridades naquele momento.
Quando os cinco minutos se esgotaram, Edward caminhou comigo até a sala, pegou suas coisas que estavam ali desde a noite anterior e se despediu. Ficamos perto o suficiente para que eu pudesse ver melhor os detalhes que tinha observado mais cedo: a linha fina da cicatriz, as olheiras, o cansaço que ele tentava esconder melhor quando estava acordado. Havia também outra coisa ali, mas eu não sabia dizer se era medo ou cuidado.
— Se você sentir qualquer coisa…
— Eu aviso.
Por um segundo, achei que ele fosse me abraçar. O movimento quase aconteceu, mas ele parou. Dessa vez, fui eu que encurtei a distância.
Não foi exatamente um abraço. Minha mão encontrou a dele primeiro, e depois encostei a testa no ombro dele por um breve instante, fechando os olhos. Edward ficou completamente imóvel por meio segundo antes de relaxar e fechar a mão na minha, firme, como se precisasse confirmar que eu estava ali.
— Vai dar certo — disse, baixo, antes de me soltar.
Edward caminhou até a porta e parou mais uma vez e olhou para trás antes de sair.
Levei a mão ao abdômen sem pensar muito, pressionando levemente, como se pudesse encontrar alguma resposta ali, e Jake voltou para perto, encostando o focinho na minha perna como se estivesse conferindo se eu ainda estava inteira. Passei a mão livre distraidamente pela cabeça dele, sentindo o peso daquele momento finalmente se acomodar.
— Acho que precisamos de um chocolate quente para sobreviver a esse dia, Jake.
Fale com o autor