Daylight
16 Capítulo 15
Edward
Quando entrei em casa, a rotina noturna já tinha começado sem mim.
A luz do corredor estava acesa, a porta do quarto de Emerald entreaberta, e a voz baixa de Claire vinha lá de dentro, usando aquele tom calmo de quando ela estava tentando convencer uma criança de que dormir era uma boa ideia.
Tirei os sapatos e segui pelo corredor em silêncio.
— …e depois a gente fecha os olhinhos — dizia Claire.
Empurrei a porta, encontrando Emerald sentada no meio da sua caminha. Tínhamos substituído recentemente o berço por uma daquelas camas que ficavam na altura do chão, para que ela pudesse subir e descer sozinha e também para abrir espaço para quando um de nós quisesse (ou precisasse) passar um tempo com ela.
Ela estava usando um pijama amarelo com pequenas estrelas, seu cabelo ainda estava um pouco úmido do banho e ela segurava um de seus livros com as duas mãos, balançando-o no ar.
Ela me viu imediatamente.
— Papai!
A palavra veio alta e animada demais para alguém que deveria estar prestes a dormir. Claire olhou para mim por cima do ombro, enquanto Emerald já estava tentando se levantar.
— Calma, calma — disse Claire, segurando-a gentilmente pela cintura. — Seu pai vem até você.
Eu tirei o casaco e o joguei sobre a poltrona do canto antes de me aproximar da cama. Emerald estendeu os braços na minha direção.
— Colo, papai!
Eu a peguei no colo e ela imediatamente enterrou o rosto no meu pescoço, os braços curtos apertando minha camisa com força.
— Ela estava contando os segundos de arraso do papai — disse Claire, mas havia um leve sorriso no tom.
— Me desculpe pelo atraso, meu amor.
Emerald se afastou um pouco só para tocar meu rosto com as duas mãos, como se estivesse confirmando que eu era real.
— Papai veio.
— Eu sempre venho.
Claire fechou o livro e o colocou na estante baixa ao lado do berço.
— Eu ia começar a colocá-la para dormir.
— Eu faço isso.
Ela assentiu, já apagando a luz principal do quarto e deixando apenas o abajur aceso.
— Vou deixar vocês à sós e volto quando ela dormir. Boa noite, Emmie.
— Boa noite, Laile!
Claire saiu do quarto em silêncio, fechando a porta atrás de si.
Era óbvio que Emerald já estava lutando contra o sono, mas ela insistia em conversar comigo. Eu sentei no sofá ao lado da cama e balancei devagar nos braços, tentando fazê-la dormir. Ela brincou distraidamente com o botão da minha camisa por alguns segundos.
— Papai veio — ela repetiu.
A repetição da frase me deixou com uma pulga atrás da orelha. Crianças daquela idade repetiam coisas o tempo todo, mas geralmente havia um motivo. Alguém tinha dito aquilo antes. Ou alguém tinha dito o contrário, que eu não viria.
Nos últimos meses eu tinha passado a prestar mais atenção nesses pequenos ecos. Emerald ainda não conseguia organizar frases complexas, mas às vezes repetia pedaços soltos de conversas adultas que claramente não eram destinadas a ela.
— Sim, amor, o papai sempre vem. Você teve um bom dia? — perguntei, beijando o topo da cabeça dela.
Ela pensou um pouco antes de responder.
— Parque.
— Você foi ao parque?
— Com a Laile.
Nunca com a mãe. Sempre comigo ou com a babá.
— E brincou bastante?
— No balanço. Alto.
— Deve ter sido muito divertido.
Alguns minutos depois, a cabeça dela caiu contra meu ombro e sua respiração ficou lenta e regular. Levantei e coloquei seu corpo na cama, cobrindo-a em seguida. Ela se mexeu um pouco, mas não acordou.
Fiquei ali por alguns segundos, refletindo como aquela era a única parte da casa onde ainda existia silêncio.
A luz da sala ainda estava acesa, o que significava que Tanya estava acordada. Eu parei no meio do corredor por um instante, organizando as ideias. Já tinha ensaiado aquela conversa três vezes na minha cabeça e nenhuma versão terminou bem.
Passei a mão pelo rosto antes de seguir. Ela estava sentada no sofá usando uma camiseta minha, o laptop estava aberto à frente dela, mas a tela escura indicava que ela não estava realmente trabalhando. Um cinzeiro meio cheio descansava ao lado de uma xícara cujo conteúdo não consegui adivinhar. Novamente, fumando dentro de casa.
Ela levantou os olhos quando percebeu minha presença.
— Ela dormiu?
— Dormiu, a Claire está jantando e vai voltar para o quarto daqui a pouco.
Tanya assentiu e puxou um cigarro do maço, acendendo em seguida.
— Eu já te pedi para não fumar dentro de casa, Tanya. Quando você vai aprender que isso faz mal para a nossa filha?
Ela revirou os olhos e apagou no cinzeiro.
— Você chegou tarde hoje. O que houve?
— Eu tinha consulta. Terapia, lembra?
Ela se recostou no sofá.
— E aí? Ele ainda está com aquele plano de te deixar completamente sóbrio?
— É um tratamento, Tanya.
Ela deu um pequeno sorriso de canto, pegou a xícara na mesa e tomou um gole antes de continuar.
— Olha, eu acho ótimo você ir. De verdade — fez um pequeno gesto com a mão, como se estivesse afastando qualquer interpretação defensiva. — Você anda dormindo melhor, está menos tenso.
— Esse é o objetivo.
— Eu só acho que ele exagera um pouco nessa parte de abstinência total — Ela deu de ombros. — Você sempre funcionou bem assim.
"Assim" significava noites viradas, comprimidos demais e a sensação constante de estar correndo atrás de alguma coisa que nunca chegava. Tanya me observou por alguns segundos quando não respondi.
— Mas se está te ajudando, ótimo — disse ela.
Eu puxei a cadeira da mesa de jantar e me sentei. Tanya percebeu imediatamente que algo estava diferente. Eu vi a mudança na postura dela antes mesmo que ela falasse.
— O que foi? Você chegou com cara de quem vai me dar uma notícia ruim.
Eu fiquei alguns segundos em silêncio.
— Precisamos conversar.
Tanya soltou uma pequena risada.
— Nossa. Isso nunca é um bom começo de frase.
— Eu sei, mas é necessário.
— Sobre o quê você quer conversar? — perguntou ela.
Eu respirei fundo antes de responder.
— Sobre nós.
Tanya não respondeu imediatamente. Por um segundo, ela apenas me observou, como se estivesse esperando que eu continuasse ou talvez esperando que eu desistisse do assunto.
O silêncio se estendeu um pouco mais do que deveria.
— Sobre nós… O quê?
A pergunta saiu leve demais, quase casual. Era o tipo de tom que Tanya usava quando ainda estava tentando decidir se aquilo era realmente um problema ou apenas mais uma conversa inútil. Eu entrelacei as mãos sobre a mesa.
— As coisas não estão funcionando.
Ela piscou uma vez, devagar.
— Isso é sobre o quê exatamente? — perguntou. — Trabalho? Você acha que precisamos mudar de rota?
Eu senti o peso das palavras antes mesmo de dizê-las.
— Eu acho que nós precisamos parar de fingir que isso ainda é um relacionamento.
Tanya ficou completamente imóvel. Por um instante, achei que ela fosse rir, ou levantar e atirar algo na minha direção, ou simplesmente dizer que eu estava exagerando.
Mas ela não fez nada disso. Ela apenas ficou me olhando.
— Fingir? — repetiu, finalmente. — É isso que você acha que a gente está fazendo?
— Acho que paramos de tentar há muito tempo.
Tanya não perguntou mais nada por alguns segundos. Apenas me observou, estreitando os olhos como se estivesse tentando decidir qual era exatamente o tamanho do problema que tinha aparecido na frente dela. Ela voltou para o sofá, pegou a xícara e tomou outro gole do que eu realmente esperava que fosse um chá.
— Você foi para a terapia e decidiu que nosso relacionamento não funciona mais.
— Não foi tão simples assim.
— Claro que não — respondeu ela, com um pequeno sorriso irônico. — Nunca é.
Ela apoiou o cotovelo no braço do sofá.
— E qual exatamente é seu plano?
— Não tenho nenhum plano, Tanya.
— Edward, tem muita coisa em jogo aqui. Nossas carreiras, uma vida pública, nossa filha. Você entende que essa conversa não pode ser apenas “isso não funciona mais”?
Eu fiquei em silêncio por alguns segundos. Ela não estava errada. Esse sempre foi o problema. Nada na nossa vida era apenas pessoal. Sempre existia uma segunda camada: contratos, imprensa, agentes, gente interessada em transformar qualquer detalhe em narrativa.
— Eu entendo — respondi por fim.
— Então me explique o que mudou — Ela largou a xícara na mesa de centro e se inclinou para frente. — Porque até cinco minutos atrás nós éramos duas pessoas que vivem na mesma casa, têm uma filha e uma rotina que funciona e agora você está me dizendo que tudo isso é… o quê? Uma mentira?
— Eu não disse isso.
— Você disse que estamos fingindo.
A palavra saiu mais dura dessa vez.
— Eu disse que não estamos mais em um relacionamento.
Ela passou a mão pelo cabelo, já começando a perder a paciência.
— Nós nunca fomos exatamente um casal convencional, Edward. Nós dois trabalhamos demais, vivemos viajando, metade do tempo estamos em lugares diferentes. Isso nunca foi um problema, mas podemos ajustar essa logística.
— Não é sobre logística.
— Então é sobre o quê?
O silêncio entre nós se estendeu mais uma vez. Tanya percebeu algo e eu vi o momento exato em que algo mudou em sua expressão. Ela levantou da poltrona de repente, a energia mudando completamente no corpo dela.
— Da forma como eu estou vendo, você acabou de entrar na sala e dizer que quer sair da relação que sustenta literalmente metade da nossa narrativa pública.
Ela começou a andar pela sala.
— Você tem noção de quantas campanhas usam a imagem da nossa família?
— Isso não pode ser o motivo para continuarmos juntos.
— Claro que pode! Esse é literalmente o motivo pelo qual metade dos casamentos nesse meio continuam existindo.
Tanya parou no meio da sala e me encarou, esperando minha resposta.
— Eu não quero mais viver assim.
Tanya me observou por alguns segundos, depois inclinou a cabeça.
— Você realmente acha que sair daqui vai tornar sua vida mais simples? Porque se você acha que vai sair daqui e continuar vivendo normalmente, está delirando.
— Eu não acho que vai ser simples.
— Não? — ela perguntou. — Porque está com muita cara de que você acha, sim.
Ela largou a xícara na mesa de centro e se levantou. A energia dela mudou inteira de novo, como se até então estivesse testando a água e agora finalmente tivesse decidido entrar.
— Você fala disso como se estivesse resolvendo uma questão distante de nós. Como se fosse separar agenda, assessoria, apartamento, rotina e pronto. Problema encerrado.
Ela começou a andar pela sala, sem tirar os olhos de mim.
— Você tomou essa decisão quando? Não foi hoje, ou essa semana. Você já está meio fora daqui há meses.
Eu passei a mão pelo rosto.
— Eu estou tentando fazer isso da forma menos destrutiva possível.
Tanya riu.
— Menos destrutiva para quem?
— Para todo mundo — respondi por fim.
— Que resposta bonita — ela parou no meio da sala. — Então me esclareça uma coisa: como exatamente você pretende explicar isso para a Emerald?
Eu não respondi imediatamente. A pergunta ficou no ar entre nós, pesada da forma que as coisas sempre ficavam quando o assunto era Emerald. Tudo acabava voltando para ela mais cedo ou mais tarde. Como centro, como escudo, como justificativa.
— Nós vamos explicar — eu disse. — Ela ainda é muito pequena. Vai se adaptar.
Tanya soltou uma risada curta, sem humor nenhum.
— Se adaptar — Ela balançou a cabeça, como se a frase tivesse ofendido alguma coisa mais funda do que a própria conversa. — É muito conveniente ela ser pequena o suficiente para não entender, não é?
— Eu não disse isso.
— Não, você disse algo pior. Disse que vai ser fácil.
— Eu disse que ela é pequena e vai se adaptar.
— Eu ouvi.
A voz dela subiu um pouco.
— E talvez seja exatamente por isso que seja pior, Edward. Porque ela não vai entender, ela só vai sentir.
Fiquei em silêncio. Tanya deu mais um passo na minha direção.
— Ela não vai sentar na cama e perguntar por que o pai não a ama mais. Ela mal junta meia dúzia de palavras. Mas sabe o que ela faz? Ela procura, ela espera, ela percebe quando a rotina muda. Ela percebe quando quem costuma colocá-la para dormir não vem.
A fala dela me lembrou de algo que tinha acontecido mais cedo.
— É bom você ter tocado nesse assunto, Tanya, porque ela tem repetido várias e várias vezes sobre o papai não vir para casa. Não imagino que a babá esteja falando coisas assim, então só sobra você.
Ela ficou mais branca ainda, como se fosse possível.
— Não tente virar isso contra mim!
— Não estou virando nada contra ninguém— respondi, tentando manter a voz estável. — Só estou dizendo que ela não tem nem dois anos e não tira esse tipo de conclusão sozinha.
Ela soltou outra risada curta, amarga, e voltou a pegar o maço de cigarros. Eu a observei acender outro, mesmo tendo apagado o anterior quando pedi, e tragar fundo, como se precisasse de alguns segundos para organizar o próprio raciocínio.
— Deixa eu ver se entendi — continuou ela. — Você decide que quer terminar. Chega em casa, me avisa como quem cancela uma reunião… e ainda quer discutir como eu estou afetando emocionalmente a nossa filha.
— Em que momento eu disse isso, Tanya?
Ela apontou o cigarro na minha direção, mas ignorou completamente a minha pergunta.
— E quer saber o que é mais interessante? Você fala como se essa decisão fosse inevitável. Como se fosse algum tipo de iluminação que você teve na terapia. Sua moral decidiu agir? Primeiro, todo aquele papinho de ficar limpo, agora isso.
— Não é sobre moral.
— Então é sobre o quê?
Eu não respondi.
Tanya estreitou os olhos e, então, muito devagar, algo mudou na expressão dela. Foi como assistir uma peça encaixando na outra.
— Espere um segundo — disse ela, dando dois passos na minha direção, me estudando como se estivesse olhando algo pela primeira vez. — Tem outra pessoa?
O silêncio respondeu antes de mim. Tanya soltou uma pequena respiração pelo nariz, quase uma risada.
— Claro que tem. Você vai me contar quem é ou eu preciso adivinhar?
E como o grande covarde que eu era, menti de novo.
— Não existe ninguém.
— Edward — A forma como ela disse meu nome foi quase paciente, como se estivesse falando com uma criança. — Eu te conheço há muito tempo.
— Tanya — devolvi no mesmo tom. — Eu estou fazendo isso por mim.
Achei que fosse receber mais uma ironia ou mais um comentário sobre meu egoísmo, mas ela ficou em silêncio por um momento. Então, de repente:
— Em algum momento você pensou no que aconteceria comigo? — Eu franzi a testa. Ela se levantou e começou a andar pela sala de novo. — Você é um homem sensível que decidiu reorganizar a vida, as pessoas adoram essa narrativa. Eu viro a mulher descartável.
— Ninguém vai te ver assim.
Ela me lançou um olhar incrédulo.
— E sabe qual é a melhor parte? Eu ainda nem sei quem é ela.
Na minha falta de resposta, ela continuou.
— Então vamos falar da única coisa que realmente importa. — Meu estômago apertou antes mesmo de ela dizer. — O que vai acontecer com a Emerald.
— Nós vamos dividir.
— Dividir? Como se ela fosse uma agenda de trabalho onde você escolhe o melhor horário? — Ela cruzou os braços, com os olhos completamente duros agora. — Porque, veja bem, Edward, você pode decidir que quer uma vida nova, eu já esperava por isso. Mas você não vai levar minha filha junto.
Eu vi exatamente o momento em que ela desistiu de manter a calma.
— “Nós vamos dividir”, ele diz — repetiu, imitando meu tom com uma precisão irritante. — Como se estivesse escolhendo datas de campanha. Como se uma criança de quase dois anos fosse entender por que em algumas noites o pai está ali e em outras não. Como se isso fosse só uma questão de adaptação de agenda.
— Não é isso que eu estou dizendo.
— Não? Então o que você está dizendo? Que ela vai ficar bem porque é pequena demais para perceber? Porque ainda não tem vocabulário para chamar isso do que é?
— Eu estou apenas dizendo que ela é pequena o suficiente para se adaptar melhor do que uma criança mais velha.
A frase saiu antes que eu pudesse reformulá-la e Tanya abriu um sorriso lento, venenoso.
— Você acabou de confirmar o que eu disse. Você está contando com a idade dela, Edward. Está contando com o fato de que ela é pequena demais para lembrar direito, pequena demais para te cobrar. Mas já passou pela sua cabeça que talvez não seja tão simples assim?
E aí estava. Naquela frase, Tanya confirmou o que eu temia: ela estava, sim, disposta a usar nossa filha para me manipular. Talvez já estivesse fazendo isso, inclusive, sem nem perceber.
— Eu não estou contando com nada — respondi, tentando manter a voz neutra. — Estou sendo realista.
Ela riu, mas não havia humor nenhum no som, e deu mais um passo na minha direção, o cigarro queimando entre os dedos, a fumaça subindo entre nós dois.
— Você quer saber o que eu acho realista? Eu acho realista que uma criança pequena se acostume à ausência do pai mais rápido do que deveria. Acho realista que ela aprenda cedo demais que as pessoas entram e saem, e que isso é normal, e que um dia ela nem faça mais questão de você. Talvez ela se adapte mesmo. Crianças se adaptam a tudo. Aos gritos, ao silêncio, à babá fazendo mais do que deveria, ao pai chegando tarde, à mãe dormindo até tarde demais, a uma casa onde ninguém nunca está inteiro. É isso que você quer ouvir?
A última frase veio tão rápida que eu senti o impacto antes de conseguir reagir.
— Tanya—
— Já falei para não me interromper!
Ela apagou o cigarro no cinzeiro com força, esmagando a ponta várias vezes, mesmo depois de já ter apagado.
— Você entra aqui, me diz que quer acabar com tudo e ainda espera que eu participe de uma conversa equilibrada? Sério?
— Eu nunca espero equilíbrio de você.
No instante em que falei, soube que tinha sido um erro. Os olhos dela endureceram.
— Ah — Foi só isso que ela disse. Um “ah” quase calmo, mas muito pior do que um grito. — Você faz esse tipo de coisa o tempo todo. Você insinua, recua meio passo e depois fica com essa cara de quem está sendo mal interpretado. É tão automático que você nem percebe.
Ela voltou a andar pela sala, agora rápido demais, o corpo inquieto, elétrico, perigoso.
— Você esqueceu quem nós somos? Esqueceu que metade do seu valor de mercado depende de você parecer exatamente o que está tentando parecer agora? Essa postura, esse silêncio. Isso é parte do personagem.
Ela pegou a xícara de novo, olhou para o líquido lá dentro como se tivesse esquecido o que era, e largou de volta sem beber.
— Você está totalmente fora de controle, Tanya. Que inocência a minha, achar que poderia ter uma conversa razoável com você.
Foi a pior coisa que eu poderia ter dito. Tanya ficou me olhando por um instante e então começou a rir. Rir de verdade dessa vez, alto demais, com os olhos brilhando de um jeito que me fez desejar ter ficado calado.
— Fora de controle? — Ela repetiu, ainda rindo. — Você quer mesmo usar essa expressão comigo?
Ela pegou a xícara da mesa e, antes que eu pudesse reagir, lançou contra a parede atrás de mim. A porcelana explodiu, espalhando cacos e um rastro pelo caminho que passou. Fiquei de pé no mesmo instante.
— Tanya, pare.
— O quê? — gritou ela, virando-se para mim. — Está preocupado com o barulho agora?
Ela pegou o cinzeiro da mesa de centro e por um segundo eu achei que fosse atirar também. Em vez disso, apertou-o na mão com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Você quer saber o que eu acho? Eu acho que você estava só esperando um motivo que te deixasse dormir melhor. E eu, burra, te dei isso. E, mesmo que não tenha outra pessoa, tanto faz, porque o ponto é que você tomou uma decisão e quer levar minha filha junto com você!
— Eu não estou levando a nossa filha a lugar nenhum — enfatizei a palavra nossa, irritado demais com o uso que ela fazia do minha o tempo todo. — Você precisa parar com esse discurso, porque não é real.
— Não vou parar! Você ainda não entendeu uma coisa muito simples: eu posso ser tudo o que você quiser pensar de mim, Edward. Instável, difícil, cansativa, egoísta, o que for. Mas eu sou a mãe dela. Eu estava aqui antes de qualquer plano seu e vou continuar aqui depois. E eu vou morrer antes de te deixar levá-la de mim.
— E eu sou o que?
— Só um covarde.
A palavra caiu entre nós como uma faca. Dessa vez eu não desviei.
— Você quer mesmo falar de covardia?
— Quero! Quero que você admita todas as vezes que se escondeu atrás disso.
— Foi covardia sua me deixar sozinho com a nossa filha doente enquanto estava apagada demais para perceber o que estava acontecendo.
O rosto dela mudou muito pouco. Mas o suficiente.
— Edward…
— Não. Agora você é quem vai me escutar.
A sala inteira parecia ter ficado imóvel.
— Foi covardia fingir no dia seguinte que bastava pedir desculpas e seguir em frente. Foi covardia agir como se eu devesse engolir aquilo porque você teve uma noite ruim. Foi covardia me olhar por semanas como se eu não tivesse o direito de estar furioso.
— Você não sabe de nada!
Ela gritou a frase com tanta força que a voz quase falhou no fim.
— Você sabe o pedaço que te convém. O pedaço em que eu sou o desastre e você é a parte limpa.
— Eu nunca me achei limpo.
— Não? Então pare de falar comigo como se estivesse acima de mim.
A mão dela voou até o meu peito e me empurrou. Não foi forte o bastante para me mover mais do que alguns centímetros e o gesto pareceu assustá-la mais do que a mim. Mas ela não recuou.
— Você quer ir embora? Vai.
Empurrou de novo, dessa vez mais fraco, mais simbólico do que qualquer coisa.
— Vai logo.
Mais um empurrão.
— Sai daqui.
— Tanya…
— Sai da minha frente!
O grito reverberou pela sala.
Ela se virou bruscamente, pegou o maço de cigarros e atirou na minha direção. Bateu no meu ombro e caiu no chão. Depois foi a vez do isqueiro, que passou perto demais do meu rosto antes de bater na parede.
Esperei para ver qual seria o próximo objeto vítima dela e, quando um vaso — ainda com as flores — foi o escolhido, me aproximei para segurar suas mãos.
— Chega! Você não vai quebrar mais nada aqui, muito menos em cima de mim.
Ela tentou puxar os pulsos de volta, primeiro com força, depois com uma violência quase cega. Quando percebeu que eu não soltaria imediatamente, o rosto dela mudou de novo, não para a raiva explosiva, mas para alguma coisa mais parecida com humilhação.
— Me solta.
— Pare de jogar coisas.
— Me solta, Edward!
Soltei. Tanya deu um passo para trás no mesmo instante, como se o contato com a minha mão tivesse queimado. O vaso escorregou dos dedos dela e caiu no sofá, sem quebrar. Ela olhou para mim por um longo segundo, respirando pela boca, e eu ainda conseguia ver o tremor nas mãos dela.
— Olha só para você — disse, quase num sussurro. — Agora até me segurar você acha que pode. Qual vai ser a próxima? Vai me bater?
— Não.
A resposta saiu seca demais e Tanya soltou uma risada curta, sem humor nenhum, e baixou os olhos para os próprios pulsos como se eu tivesse deixado marcas visíveis ali.
— Claro. Porque você é muito melhor do que isso, não é?
Ela se abaixou, pegou o que podia do chão e colocou em cima da mesa com um cuidado absurdo diante do resto da cena. Depois endireitou a camiseta no corpo, empurrou o cabelo para trás e respirou fundo uma vez. Depois outra.
Eu conhecia aquele movimento. Era o ponto em que ela parava de explodir e começava a se reorganizar. E, quase sempre, a versão recomposta dela era a mais perigosa, porque era uma versão racional.
— Sabe qual é a diferença entre nós dois? — perguntou. — Você vai lembrar dessa cena depois e usar isso a seu favor.
— Eu não precisava de nada disso para saber que acabou, Tanya.
Por um segundo, achei que ela fosse agir de outro jeito. Cair, gritar, me bater de novo, implorar, qualquer coisa. Mas Tanya só ficou me olhando.
— Não, Edward, acabar seria fácil. Eu acho que você ainda não entendeu o tamanho do erro que acabou de cometer. — Ela apontou para a porta. — Vá embora se quiser. Durma em um hotel, na casa daquele seu amigo do outro dia, no seu carro, tanto faz. Mas não confunda esta noite com fim.
Aquilo ficou suspenso entre nós. Quando voltei a encará-la, Tanya ainda estava de pé no meio da sala, pequena demais para tanta fúria e, ainda assim, completamente capaz de sustentá-la.
— Isso não vai virar uma guerra — eu disse.
Ela sorriu. Dessa vez, sem humor, histeria ou descontrole. Só certeza.
— A guerra só está começando.
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