Daylight
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Bella
Eu me sentia como se fosse feita de uma colcha de retalhos. Cheia de cortes e remendos que ninguém via, mas que doíam todos os dias.
Aos olhos do mundo, eu sou bem-sucedida. Uma atriz premiada, dona de uma produtora com bons contratos e financiadores, red carpets, entrevistas, aplausos. Mas, no fim do dia, quando a maquiagem sai e o silêncio entra, tudo o que sobra é uma mulher tentando se reconhecer no próprio reflexo.
A verdade é que eu nunca soube exatamente quem eu era, apenas quem esperavam que eu fosse.
Minha mãe sempre disse que eu precisava me controlar, porque o mundo não era gentil com mulheres intensas demais. Então, aprendi a me calar, a sorrir na hora certa, a engolir o que doía. A imprensa fez o resto do trabalho: moldou minha imagem, destruiu outras partes, deixou cicatrizes nas entrelinhas.
Foi nesse cenário que conheci Irina. Forte, elegante, afiada. Ela entrou na minha vida como uma tempestade e, no começo, parecia ser tudo o que eu precisava. Alguém que me entendia. Alguém que me fazia sentir segura. Ela entendia, em partes, o que eu passava, porque tinha crescido à sombra do pai, que também era da indústria.
Trabalhar juntas parecia natural. A produtora cresceu, os projetos vinham um atrás do outro, e ela sabia como se movimentar em um mundo de gente poderosa e vaidosa. Mas, aos poucos, eu fui me apagando dentro dessa parceria. E dentro de mim.
Ela tem essa habilidade de elogiar com uma mão e cortar com a outra. Diz que me ama, mas depois diz que sou instável. Que me admira, mas que sou difícil de conviver. Que me escolheu, mas que talvez eu não mereça tudo isso. E eu acredito.
Talvez porque já acreditei em todas as partes boas antes. Talvez porque, um dia, Edward disse que me amava e mesmo assim me traiu.
Nós éramos jovens. Intensos, apaixonados, iludidos por uma ideia de que poderíamos ser invencíveis. Eu achei que ele era o amor da minha vida, que seria o pai dos meus filhos e viveríamos juntos contra o mundo. Até que não foi mais. Ele errou, e eu errei de volta. Só uma vez. Só para doer igual. Como se duas dores iguais pudessem se anular.
Mas nunca se anulam.
Desde então, carrego esse peso: de não me achar boa o bastante para ninguém, nem para mim mesma.
Hoje foi um desses dias.
Devia estar numa reunião sobre um novo projeto. Um filme com orçamento decente, que talvez me colocasse de volta no radar como atriz, não só como produtora. Mas eu acordei com a cabeça nublada, a garganta fechada. Disse que precisava remarcar.
Irina surtou. Disse que eu estava sabotando tudo, que fazia isso sempre, que ela se cansava de tentar me manter de pé.
E talvez ela tenha razão.
Fui até o armário, vesti qualquer roupa, coloquei os tênis de corrida, chamei o Jake e saí. Precisava andar, precisava sentir que existia longe dela, longe de tudo.
No início, só andei. O passo acelerado, o peito ainda apertado. Jake me acompanhava como sempre, atento, mas silencioso. Depois de duas quadras, comecei a correr. Sem música e sem destino. Só o som dos meus passos no asfalto e da minha respiração curta tentando encontrar ritmo.
Correr sempre foi minha forma de fugir sem parecer que estou fugindo. Dói, cansa, mas ao mesmo tempo me distrai. Dá a ilusão de que estou indo a algum lugar, mesmo que eu só esteja rodando em círculos ou andando sem fim em cima de uma esteira.
Enquanto os prédios passavam borrados ao meu redor, minha cabeça insistia em repetir cenas como um filme: A briga de hoje. A de ontem. A de anteontem. Irina dizendo que eu não a ajudo, que sempre me encolho quando as coisas exigem um pouco mais. Ela está errada, eu sei que está, mas ela também não sabe como é viver com um coração que sempre se sente em dívida e em dúvida.
Eu lembro de quando as coisas eram mais leves. Quando eu ainda me permitia sonhar com uma vida onde amor não vinha com cobrança, onde trabalho era paixão e onde eu ainda acreditava que podia ser mãe um dia, mesmo que não soubesse como encaixar isso no meio do caos da minha vida.
Esse era um assunto sensível. Eu ainda queria isso. Mais do que prêmios, mais do que papéis relevantes, mais que financiamentos milionários para produções que levavam meu nome. Eu queria alguém que olhasse pra mim e me visse como um amor limpo, inteiro, sem filtros. Queria amar alguém sem medo de estragar tudo como sempre acho que faço.
Uma lembrança me atingiu. Anos atrás, deitados e dividindo um cigarro na beira da piscina da minha casa, Edward me disse que queria ser pai em breve. Antes dos trinta, era o plano dele. Ele tentou me convencer de que era uma boa ideia termos um filho no próximo ano.
— Você me imagina como pai? — ele perguntou, com aquele sorriso meio torto, meio provocador.
— Você mal lembra onde deixou suas chaves, Edward.
— Mas nunca esqueceria onde deixei o nosso filho, Bella — ele riu, e então ficou sério — Eu estou falando sério.
Eu lembro de ter sentido o coração apertar. Não porque eu não queria aquilo, mas porque eu não sabia como seria ter alguém que me amasse o suficiente para construir uma vida comigo. Uma de verdade, com crianças chorando de madrugada, noites sem dormir e café frio pela manhã.
No fundo, eu sempre tive medo de destruir o que parecia bom demais. E talvez tenha sido por isso que fiz o que fiz. Talvez por isso eu tenha o traído.
Foi só uma vez. Só o suficiente para me odiar, para tentar fazer com que ele sentisse o mesmo que eu senti quando ele me contou que tinha feito isso. Mas o que é que se espera de alguém que nunca aprendeu a se sentir merecedora de coisas boas?
Nós dois nos machucamos. E quando terminou... foi difícil. Eu, que nunca me deixava ser fotografada, fui vista chorando copiosamente dentro do meu carro, parada perto da casa dele. A imprensa fez questão de transformar tudo num espetáculo. Nomes foram jogados, suposições viraram manchetes. Ele seguiu em frente, chegou a ficar noivo duas vezes. E eu... Bem, eu me escondi atrás de relacionamentos que não exigiam tanto.
Irina não quer filhos. Ela nunca quis. Diz que o mundo já é difícil demais, que não precisa colocar mais ninguém nele. E eu entendo, porque vivo no mesmo mundo, mas isso não impede a dor de crescer toda vez que vejo alguém empurrando um carrinho de bebê ou um grupo de crianças brincando no parque onde levo o Jake para passear.
Ela sabe o quanto eu quero, e talvez por isso, sempre termine as conversas com um “depois vemos isso”. Só que não existe depois quando se trata de corpos femininos. Meu tempo estava correndo e, por isso, alguns meses atrás, eu tinha iniciado um processo de congelamento de óvulos. Se ela não mudasse de ideia, eu resolveria isso sozinha.
A ideia de fazer isso sozinha me assustava menos do que deveria. Mas o que mais me assusta é olhar para o lado e perceber que estou presa num casamento que não lembro bem como aceitei entrar.
Eu não era a pessoa que sonhava com um grande casamento, mas acreditava que, pelo menos, passaria a vida com alguém que eu amasse. E eu amava Irina, mas não foi por isso que nos casamos. Foi naquele momento em que você acha que talvez não vá encontrar mais ninguém que te enxergue.
Na época, eu tinha acabado de me envolver com um colega de trabalho. Nada sério, muito menos físico. Foi só uma conexão rápida, emocional, dessas que acontecem entre duas pessoas que compartilham rotinas. Nós abríamos garrafas de vinho na produtora, falávamos sobre cinema europeu e sobre como todo mundo em Los Angeles parecia estar fingindo alguma coisa. Eu gostava de como ele me olhava, como se me visse de verdade. Mas eu nunca levei aquilo adiante. Não porque não quis, mas porque Irina descobriu antes que eu entendesse o que estava sentindo.
Ela me confrontou, jogou todas as minhas inseguranças na minha cara como se fossem provas irrefutáveis de que eu era incapaz de manter qualquer coisa. Depois veio o ultimato: ou eu provava que a queria, ou terminaríamos ali mesmo.
Na hora, eu congelei. E disse sim.
Disse sim ao casamento. Disse sim à ideia de estabilidade. Disse sim ao papel que ela queria que eu desempenhasse. Era mais fácil dizer sim do que encarar o que seria recomeçar sozinha. E talvez, naquele momento, eu só quisesse me sentir segura por um tempo.
A imprensa achou romântico. "Dois nomes fortes do cinema se casam em segredo em um domingo ensolarado", disseram. Uma imagem bonita, editada, publicada e compartilhada. Eu sorri, aceitei as felicitações, aproveitei a viagem de lua de mel, deixei que alguém tirasse uma foto nossa caminhando pela praia.
Mas a verdade é que, desde aquele sim, eu me sinto cada vez mais em silêncio dentro de mim.
Eu não sou feita para isso. Não do jeito que está agora.
Mas eu fico, porque tenho medo do que acontece depois.
Suspirei fundo e enxuguei discretamente as lágrimas que nem percebi que estavam escorrendo. Jake se aproximou e apoiou o focinho na minha coxa. Ele sempre sabe, sempre reconhece quando estou nesses momentos.
Acariciei atrás das orelhas dele, respirando fundo, tentando puxar de volta aquela versão minha que sabe sobreviver.
Jake se sentou ao meu lado, com a língua de fora, me olhando daquele jeito que só ele sabe olhar, como se eu fosse suficiente. Fechei os olhos por alguns segundos, apoiando a testa na mão para me recompor.
E então lembrei que estou perto do café. O meu café. O de sempre. O lugar onde ninguém exige nada, onde os garçons me conhecem o suficiente pra não puxar assunto. Onde eu posso sentar com meu cachorro e tomar um café sem precisar fingir que estou bem. Discreto, tranquilo, com uma área externa onde ninguém me enxerga como “Bella Swan, atriz”. Lá, eu sou só mais uma mulher com um óculos de sol disfarçando olheiras e um cachorro que late para os pássaros que tentam se aproximar.
Talvez eu só precise disso agora: me esconder por uma hora do mundo.
Me esconder de mim mesma, se possível. Começo a andar na direção de lá, Jake me acompanha, tranquilo. E me pergunto, pela milésima vez: como foi que vim parar aqui?
Sentei, pedi um café, uma pilha de panquecas e deixei Jake se esticar no chão ao meu lado.
E então, algo mudou no ar. Aquela sensação esquisita, como se meu nome tivesse sido sussurrado por alguém que eu não ouvia há anos.
Levantei os olhos.
E o mundo parou.
Edward Cullen.
Carregando uma criança no colo, como se fosse a representação de tudo que nós poderíamos ter sido.
Fale com o autor