Daylight
50 Vivendo em Família - Parte 2
Notas iniciais
O céu, espuma de maçã
Barriga, dois irmãos
O meu cabelo negra lã
Nariz, e rosto, e mãos
O mel, a prata, o ouro e a rã
Cabeça e coração
E o céu se abre de manhã
Me abrigo em colo, em chão
Todo homem precisa de uma mãe
(Todo Homem — Zeca Veloso)
Por Sasuke
Uma das coisas que eu mais odeio na vida, é brigar com Sakura. Mesmo que a razão fique ao meu lado. É angustiante, cansativo e insuportavelmente doloroso. Eu evito e faço de tudo pra que não briguemos. Ainda assim, hoje não deu pra não brigar.
Estou magoado, chateado… eu estou bem puto na verdade, com uma raiva sem tamanho depois da conversa que tivemos. Eu sabia que ela tinha algo para me dizer, vi sua angústia por semanas, ela nunca relaxava. Cheguei a pensar que fosse por conta do desmame, a ebulição de hormônios ainda. Acredito que isso seja um fator também, mas havia mais. Muito mais.
Nem depois de tudo que eu construí com Sakura, ela confia em mim completamente. Porra. Qual é? Se fosse eu que recebesse uma proposta dessas não pensaria nem duas vezes e contaria pra ela em primeiro lugar, caramba.
Como ela pode pensar que eu a impediria de fazer algo desse tipo, pelo amor de Deus?
Ou ela pensou que eu não daria conta de cuidar de Sarada nesses trinta dias que ela estará fora? Será que este é o real motivo?
Ah, caralho, qual é? Trinta dias cuidando de Sarada sem ela ao meu lado será difícil, mas não impossível. Quantas mulheres cuidam dos seus filhos sozinhas, porque os pais escrotos não estão nem aí. E, porra, eu não sou esse tipo de pai. E, tudo bem, nem mereço um prêmio por ser diferente de muitos destes, afinal é minha obrigação, até porque Sarada é minha filha. Mas porra, custa confiar em mim tanto assim?
Eu tô com raiva!
Eu tô com ódio!
Eu tô puto!
Soco o volante do meu carro acionando a buzina como consequência. Um barulho maior que o comum ecoa. Estou no rochedo próximo a Universidade Konoha e só o que nos cerca são montanhas. Eu gosto de vir aqui para pensar e me acalmar. Já trouxe Sakura uma vez.
A calmaria que esse lugar sempre me deu não está funcionando agora. Mesmo passando horas dirigindo antes de chegar até aqui.
Eu quero voltar pra casa, mas não quero encarar Sakura agora, não neste estado. E eu sei que ela está preocupada pela forma com saí de casa e odeio que ela sinta isso e eu odeio ela por me fazer sentir isso quando estou chateado com ela.
— Inferno!!! — grito e ouço o eco da minha voz. O eco parece um recado do Universo devolvendo aquilo que ele recebeu de você.
Apoio minha cabeça no volante numa clara e falha tentativa de desistência de me acalmar. Decido ligar o carro e tomar o rumo de casa. Não queria voltar desse jeito, é verdade. Contudo, talvez seja a melhor solução resolver isso de uma vez.
Coloco na cabeça que vou evitar ao máximo brigar com Sakura outra vez, para podermos conversar mais calmamente. Porém meu orgulho ferido, junto com o capeta no meu ombro direito gritam: briga! Briga! Briga!
Quando estou me aproximando da cidade ouço meu celular tocar. Meu peito alivia ao constatar que é meu irmão ligando.
— Fala, Itachi.
— Caralho, Sasuke, até que enfim. — ouço um suspiro de alívio. — Já te liguei uma seis vezes e te mandei uma caralhada de mensagens. Você me deixou preocupado, porra. Onde está?
— Acabei de entrar na cidade.
— Você saiu de Konoha? — Itachi se controla pra não gritar.
— Quase. Fui até aquele rochedo próximo a universidade. Precisava pensar. — já estou próximo ao portão do meu condomínio. — Tive uma briga feia com Sakura.
— Eu tô sabendo por alto. Ela falou comigo pra saber de você, se você estava comigo. Me contou que vocês brigaram.
— O que disse a ela? — paro uns 500 metros antes de entrar numa rua que vai em direção ao meu condomínio.
— A verdade. Que você não estava comigo e que nem sabia onde estava. Ela está preocupada, Sasuke.
— Por culpa dela. — digo mesmo. Itachi que não venha defender Sakura, senão sobra pra ele também. — Era só isso?
— Cruzes. Foi feio o negócio.
— Pavoroso.
— Onde está, Sasuke?
— Rodando pela cidade… sem destino.
— Quer conversar? Vem aqui pra casa, estou sozinho no conforto do meu lar. Izumi está em Suna e Ichiro na mamãe.
— Você vai defender Sakura? Porque se eu for praí e começar a defendê-la, eu te dou um soco bonito, no meio das fuças.
— Meu Deus, Sasuke. Sakura devorou sua alma ou comeu um pedaço do seu corpo a sangue frio?
— Pior, muito pior. Eu tô bem puto, Itachi.
— Ok. Eu prometo ouvir, bem atentamente, o seu lado.
— É bom, mesmo. Chego, no máximo, em 10 minutos. — nem espero Itachi falar nada e desligo o telefone. Faço o retorno e pego a pista rumo à casa do meu irmão.
[...]
Itachi ouviu tudo o que tinha pra dizer. Em nenhum momento ele me interrompeu, até porque se o fizesse eu faria ele engolir a garrafa de cerveja que ele está nas mãos. Assim que eu cheguei, meu irmão foi logo oferecendo a bebida, mas só tomei dois goles e não parei de falar.
Acho que nunca falei tanto! E só me dei conta disso depois que tomei um gole da cerveja, agora quente, para molhar a garganta.
Itachi me encarava, mas parecia pensar bastante no que falar. É bom que ele pense e não fale merda. Sem paciência pra isso.
— Bem, maninho, eu nem sei por onde começar. — isso é quase um milagre. Itachi sempre tem alguma coisa a dizer.
— É um emaranhado de merda, eu sei. — tomei outro gole daquela merda de cerveja quente.
— Também não é assim.
— Não começa Itachi, você prometeu que não defenderia Sakura, porra!
— Caralho Sasuke, eu hein, nem falei nada, ainda.
— Se for pra falar o que eu acho que você vai falar, é melhor ficar quieto.
— Nem pensar, eu sou seu irmão mais velho, a luz no fim do túnel para iluminar seus caminhos.
— Boa merda. — resmunguei.
— Insuportável, como que Sakura te aguenta?
— Muito simples. Não me contado que que vai passar trinta fodidos dias longe de casa, porque não confia em mim.
— Sendo bem sincero, Sasuke. — ele disse sério pela primeira vez hoje. — Eu entendo que esteja chateado e não tiro sua razão para tal. Mas…
— Sabia! Tava bom demais para ser verdade.
— Deixa eu terminar, porra!!!- bufou. — Mas acho que você está chateado pelos motivos errados. Não acho que Sakura não confie em você, ela confia e muito. Ela sabe o pai que você é pra Sarada.
— Acho que não!
— Porque você está chateado, oras. No meu ver, conhecendo Sakura como conheço, acredito que a questão em si seja ela mesma, tanto quanto mãe, quanto companheira.
— Não entendo.
— A raiva deixa a gente cego, mesmo. — ele sorriu. — Sakura tem medo de decepcionar você e a Sarada, ficando longe por tanto tempo. Como se ela falhasse com vocês. Sakura não é mais só mulher e médica. Agora ela é mulher, médica, mãe e companheira. E querendo ou não, ainda é um pouco recente. Há cinco anos vocês nem sonhavam com tudo o que tem hoje, sequer estavam juntos, Sarada desmamou ontem, praticamente.Tudo aconteceu muito rápido com vocês depois que se reencontraram. É muito para lidar, Sasuke!
— E o meu lado, cacete?! Eu não passei por isso, também não?
— Ah Sasuke, para. Não tem nem comparação, por favor! — levantou do sofá exaltado. — Cara, a gente não aguentaria metade do que Sakura e Izumi passaram. Gravidez, puerpério, filho pequeno, uma porrada de hormônio, volta ao trabalho ainda lidando com isso, educar criança, ter tempo pra criança, pra gente e pra elas mesmas. Meu irmão, eu fico imaginando que se a gente pudesse parir eu fico com vontade de desmaiar só de pensar em uma criança nascendo pelo meu pau e rasgando o pobrezinho ao meio.
— Idiota! — ralhei tentando não rir daquela merda.
— É sério, Sasuke. É muita coisa para processar e lidar. Você tem todo o direito de ficar chateado com ela, mas fica pelo menos pelo motivo certo. Ela tem medo, receio de decepcionar você e Sarada, escolhendo o trabalho por esses trinta dias.
— Mas ela não vai deixar de ser minha companheira e mãe de Sarada neste período.
— Claro que não, mas não é a mesma coisa. Não será físico durante este período, ela vai estar na Índia, cuidando de um monte de criança, que não tem acesso ao mínimo às vezes. Ela vai mergulhar profundamente nesses 30 dias, porque Sakura é assim. Você já parou pra pensar sobre isso? Pra lidar com isso?
— Não.
— Então, imagina pra ela como vai ser?
Eu não tinha muito o que dizer. Mas as palavras de Itachi chegaram como um soco de realidade. Eu estou chateado com Sakura? Sim, estou! Menos, mas ainda estou. E meu irmão, apesar de ser um idiota na maioria do tempo, me ajudou a enxergar as coisas sob outra ótica.
— Sabe, Sasuke… — disse Itachi me tirando do meus devaneios. — Eu acho lindo a família que você e Sakura construíram e como se empenham em fazer isso dia-a-dia. Vocês gostam disso, de estar sempre juntos. Vocês fazem todas as refeições juntos, cara! Quem hoje em dia, consegue fazer isso, além de vocês? E Sarada, meu Deus, é uma criança tão doce, inteligente, educada e ainda assim, serelepe! — não pude conter o riso bobo no rosto. Sarada é uma criança ímpar, luz dos meus olhos. — Se eu deixar Ichiro 2 minutos sozinho é o caos. Tudo revirado, uma bagunça sem fim.
— Uma fruta não cai longe de árvore, Itachi!
— Eu sei que não, eu vejo isso todo dia na prática! — ele riu. — Mamãe me disse que quando eu tivesse filhos eu iria entender muita coisa e estou aprendendo. Não é fácil, mas quem olha de fora pra sua família acha que é.
— E não é fácil, Itachi! Fizemos muitas mudanças em nossas vidas pra ficarmos como estamos hoje.
— Eu sei disso, irmão! A forma como vocês fazem acontecer mostra que é, mesmo que não seja. è uma espécie de dança perfeita e leve. Eu e Izumi conversamos sobre vocês, ela compartilha da mesma opinião que eu. A gente até tentou, sabe, ser mais parecido com vocês, mas não funciona pra mim e Izumi. Não é da nossa natureza e ainda assim, não deixamos de admirar vocês.
— Ainda assim, não sei. — é foda admitir quando você se acha cheio de razão e de quebra está muito chateado com a situação.
— Meu Deus do céu, entre você e Sakura, eu não sei quem é mais cabeça dura. — jogou as mãos pra cima e sentou no sofá. — De qualquer forma, é uma hipótese. Pode ser que não seja isso ou pode ser algo mais grave ou menos. Eu não sei.
— É uma questão a se pensar. — admiti a contragosto. — Mas, de alguma forma, ainda me sinto traído, sabe? Esquecido. Como se não fosse parte importante do processo. Queria ter tempo para me preparar, para nós dois conversamos e preparar Sarada. Ela é muito pequena ainda, não sei como ela vai lidar.
— Eu te entendo. Se Izumi fizesse a mesma coisa comigo, também ficaria chateado com ela, mas aí, você estaria no meu lugar mandando que eu pensasse melhor. — rimos. Com certeza seria desse jeito. — As coisas estão como estão e não há como mudar. Tem que saber lidar daqui pra frente . Vocês tem uma semana para se organizarem. No que eu puder ajudar, sabe que vocês podem contar comigo. Além disso, Sarada me adora. Sou o tio preferido dela.
— Você é o único, seu idiota, ao menos de sangue. — ralhei. — Sei que posso contar com você e Izumi, mas pelo amor de Deus, dá um jeito nessa casa Itachi. Não vou deixar a minha filha vim para um lugar desses.
Depois de desabafar muito puto, passei a observar o apartamento do meu irmão e da sua família. O lugar estava um caos, brinquedo, roupas, toalhas, prato sujo para tudo quanto era lado. Devia ter rato nesta casa, com certeza.
— Ai Sasuke, não amola, porra! Você vem para minha casa para me julgar, depois que te dei um ombro irmão, por favor, melhore!
— Eu agradeço a ajuda, mas não sou cego, cara. Querendo ou não é o tipo de exemplo que você está dando ao seu filho! Não dá pra conviver num lugar desses.
— Porra!!!! — bufou. — Você está parecendo a Izumi, Sasuke! Itachi, arruma isso… Itachi, arruma aquilo… Olha o exemplo que está dando ao seu filho… — alguma merda tinha aí. — Saco da porra! Sinto saudade de quando a gente namorava escondido, cada um na sua casa e a paz do meu quarto bagunçado. Minha bagunça, minhas regras, meu quarto, minhas coisas.
— Itachi, aconteceu alguma coisa? — ele não me disse nada. — Que você é chiliquento eu sempre soube…
— Não aconteceu nada. — me interrompeu colocando o bico gigante entre os lábios. Itachi é uma criança com mais de 30 anos.
— É justamente por te conhecer que sei que você tem alguma coisa, Itachi. — me segurei pra não rir daquela cara de criança birrenta. — Vai, desembucha logo. Eu não vou sair daqui até você me contar.
— Izumi está puta comigo. — sussurrou.
— Você traiu Izumi, Itachi? — brinquei.
— O que? Claro que não, idiota. Que tipo de pessoa você pensa que eu sou?
— Ei, Itachi, calma. Foi apenas uma brincadeira.
— Muito da sem graça, diga-se de passagem. — ele está realmente bravo. — Eu amo aquela doida e jamais faria uma coisa dessas.
— Então me fala porque ela está puta com você.
— Olha em volta… — ele abriu os braços. — Izumi odeia bagunça, disse que está impossível viver nesse lugar, desse jeito e se mandou pra Suna tem três dias. Está na casa do pai.
— Ela deixou Ichiro com você?
— Não. Ela levou meu filho junto, mas veio até Konoha ontem pra deixar ele na mamãe até amanhã. — disse colocando as mãos sobre o rosto. — Ela disse que só volta pra casa quando eu deixar tudo limpo e organizado. Estamos sem nos falar desde que ela foi pra lá.
— Eu não acredito.
— Pois é, acredite. Ela me avisou que faria isso, várias vezes, mas eu nunca acreditei, sabe? A gente demorou tanto tempo pra ficar juntos, que eu achei que uma baguncinha de nada ia atrapalhar.
— Baguncinha de nada? Itachi, olha pra sua casa! Isto aqui parece um apartamento de homem solteiro ou pior, um alojamento de faculdade.
— Valeu pela força, Sasuke. Valeu mesmo!
— Eu sei que você está triste por conta disso, mas não posso deixar de dar razão a minha prima. — suspirei. Itachi estava com aquele bico enorme de novo. — Você não precisa ser o mestre da organização, mas tem de ser o mínimo. Se você quer ser bagunçado com suas coisas, ok, isso é um problema seu, desde que não interfira no outro, no espaço do outro. Mas você também precisa aprender que mora com outras duas pessoas, Itachi. Sua esposa e seu filho de quase 3 anos. O modo como você se comporta dentro de casa afeta a eles também. Você não mora mais com nossos pais, a mamãe não vai mais pegar sua roupa suja no quarto e por pra lavar, e muito menos menos vai vim aqui pra arrumar seu quarto. Você precisa crescer nesse ponto, meu irmão.
— É foda. Eu fui assim a vida toda.
— Mas você aprende, Itachi. Se dedica. Pensa em como vai tornar melhor o seu convívio em casa e o seu relacionamento. — toquei em seu ombro. — Você falou tanto sobre o que Sakura e Izumi passaram e acaba deixando esse peso de arrumar a casa e cuidar para que não vire o caos todo em cima dela. Assim não dá. Suas palavras precisam ser condizentes com suas ações.
— Você tem razão, Sasuke. — claro que eu tenho, pensei comigo. — Obrigado… — coçou a nuca sem graça. — Será que você podia me ajudar, eu não sei por onde começar, eu nunca fui assim.
Itachi sempre foi um irmão protetor, forte, altruísta. Jamais pediria ajuda se não estivesse, de fato, na merda.
— Vou te ajudar. — ele sorriu. — Dessa vez. Vou te dar uns toques de como se comportar, a partir de agora, para deixar a casa mais arrumada. Preste bem atenção.
— Pode deixar, vou sim.
— Ótimo, agora levanta essa bunda daí e vamos arrumar esta casa.
(...)
Ajudar Itachi a arrumar a casa foi quase um suplício. Ele é muito teimoso e muito preguiçoso também. Fazia as coisas de mau jeito e queria deixar por aquilo mesmo. Não comigo, irmãozinho.
Tive de confiscar o celular pra ele focar no que era mais importante e foi aí que as coisas começaram a fluir. Eu fazia o mínimo, porque ele precisa ter noção de como as coisas são de fato. Acabamos a faxina, por volta das 7 da manhã, mas não fomos dormir depois de todo o esforço. Decidimos ir pra casa da nossa mãe para tomar café da manhã com nossos filhos. Lógico, depois de um banho decente, num banheiro limpo.
— Sarada já faz pequenas atividades domésticas. — eu digo enquanto dirijo até a casa dos nossos pais. — Ela arruma os brinquedos dela no baú, sabe onde colocar a roupa suja dela no banheiro, ajuda a mim ou a Sakura na organização do guarda-roupa e gavetas dela, e adora ajudar a lavar os pratos, mas só deixamos os objetos plásticos.
— Credo, Sasuke. Mas você explora a menina desse jeito. — ele riu.
— Deixa de ser idiota! Isso não é exploração, é senso de responsabilidade. — digo o óbvio. — Você pode fazer isso com Ichiro também. O temperamento do menino já é o seu, você quer ele bagunceiro também?
— Não, claro que não.
— Então já sabe por onde começar. Conversa com Izumi e organize, minimamente, uma rotina de limpeza onde vocês três possam participar. Querendo ou não, também é uma oportunidade de vocês estarem juntos. — Itachi me olhou de relance, porém não disse nada. — O que foi? — indaguei.
— Quando foi que os papeis se inverteram, irmãozinho tolo? — ele riu. — Uchiha Sasuke, pai de família responsável, adorador de rotinas.
— Eu sempre fui organizado com minhas coisas e ao contrário de você, eu morei por quase dois anos sozinho, em outro país. Tenho um pouco mais de experiência.
— Metido!
— Recalcado!
— Você está andando muito com Deidara. Tá falando igualzinho a ele.
— Idiota! — disse por fim revirando os olhos.
Chegamos na casa dos nossos pais e fomos recepcionado por ambos. Mamãe disse que as crianças custaram a dormir por se entupirem de doces. Meu pai disse que nunca as viram tão elétricas e que seu escritório não é mais mais dele, e sim dos pequenos. Ousadia é pouco pra essas crianças.
Com isso, tomamos café da manhã os quatro, foi divertido como há muito tempo não fazíamos e bastante familiar. Eu e Itachi estávamos morrendo de fome, a gente não tinha comido nada depois da faxina e sequer tinha dormido. Depois de comermos fomos dormir.
Sarada estava dormindo em meu antigo quarto — que agora é dela, assim como o de Ichiro que era de Itachi — toda esparramada na cama de casal, igualzinha a mãe. Não pude deixar de sorrir com a cena. Tirei os chinelos e o casaco de moletom, e me deitei na cama com o maior cuidado pra não acordar a pequena e fiquei com o pouco espaço que ela deixou.
[...]
Depois que a gente vira pai, o sono parece que fica leve. Mesmo que eu esteja cansado depois da noite anterior, foi só Sarada se mexer um pouco na cama que eu acordei. Ela ainda não me viu, mas pelo jeito que está se mexendo vai logo despertar.
Um bocejar cumprido saiu de seus lábios e ela está coçando os olhinhos de uma forma tão fofa, que eu devo está babando, como uma bebê. Não consigo deixar de admirar. Contudo, nada é mais bonito que seu sorriso quando ela me nota.
— PAPA! — ela grita animada e se joga em cima de mim. — Que saudade! — me enche de beijo e agarra meu pescoço. O cheiro do xampu infantil logo invade minhas narinas.
— Oi meu amendoinzinho fofo! — falo acariciando seus cabelos tão iguais aos meus. — O papa também estava com um monte de saudade.
— Papa, Sarada não é ‘mendoinzinho’ fofo! — ela me solta e já vejo o bico que se forma em seus lábios. Ela odeia esse apelido, mas eu não resisto a essa cara fofa.
— É sim, o amendoinzinho fofo do papa!
—Tão irritante!. — ela diz revirando os olhinhos igualzinho a mãe e eu me seguro para não rir.
— Que coisa mais feia, dona Sarada. Onde já se viu chamar o pai de irritante?
— Você chama a mama. Por que eu não pode? Só porque eu é pequininha? Não é justo!
Eu não aguento a carinha emburrada e pego minha filha no colo a abraçando apertado. Eu não aguento tanta fofura em um ser tão pequeno. Sou o homem mais babão da face da terra e eu tenho um orgulho imenso por isso. Sarada derruba qualquer defesa ou cara carrancuda que eu venha a carregar. Acho que na adolescência dela, isso vai ser um problema pra mim.
Eu tô bem fodido mesmo!
— Ai papa, você tá amassando eu! Socorro!
— Eu não resisto a essa carinha de emburrada sua. Ela é tão fofa! — digo a soltando. — Quem manda ser tão fofa?
— Eu não tem culpa, eu nasceu assim! — diz se colando em pé na cama com a mão na cintura e sorri. — Cadê a mama? Ela veio com você?
Eu sabia que uma hora ou outra ela iria falar da Sakura, e, bem, eu não quero que ela perceba que tem algo acontecendo entre a mãe dela e eu.
— Não. — respondendo tentando não transparecer toda merda do ocorrido de ontem. — Sua mama está em casa. Eu estava na casa de seu tio Itachi e depois viemos pra cá.
— Por que você estava na casa do titio Itachi?
— Porque seu tio é um bagunceiro de primeira linha. — digo e Sarada ri em resposta. — Ele estava precisando de ajuda para arrumar a casa então, eu fui até lá. Sua mãe ficou em casa estudando. — menti e espero que Sarada não perceba.
— A mama gosta muito de estudar. — ela não percebeu minha mentira. Mas ainda me sinto um péssimo pai. — Vamos descer? Eu tô com fome. Vovó Mikoto prometeu bolo de chocolate pra eu.
— Vamos, mas antes, a senhorita vai escovar os dentes e tomar um banho.
— Ah, não, papa!
— Ah, sim, senhorita! — cruzou os bracinhos em resposta e emburrou a cara. — Não adianta fazer bico, Sarada. — falei calmo. — Você sabe que depois que acorda tem que escovar os dentes e tomar banho.
— Mas é só em dia de escola, poxa!
— Nada disso. É em dia de escola e sem escola também. É o nosso combinado de todo dia, sabe disso. — continuou me encarando com a cara emburrada. — Quanto mais você fizer birra, mais vai demorar pra comer o bolo de chocolate da sua avó.
— Poxa, papa! — me olhou com os olhos do gato do Shrek. Eu me sinto um idiota, porque estou perto de ceder. — Eu amo o bolo da vovó… Por favorzinho. — cruzou as mãos como um anjinho. Eu não vou me foder quando ela for adolescente. Eu já estou me fodendo, agora mesmo…. Eu preciso ser forte. Sakura nessas horas consegue ser tão dura na queda.
— Sarada… — eu digo calmamente fechando os olhos… Itachi, definitivamente, não conhece a sobrinha. — Escovar os dentes e tomar banho. O bolo de sua avó não vai fugir.
— Ah, saco! — resmunga. Mantenho meu olhar impassível . — Já tô indo. — diz de cabeça baixa e começa a descer da cama.
Durante o banho, Sarada ficou em silêncio me ignorando de todas as formas. Como podem perceber, puxou a mãe!
Deixamos o quarto com ela ainda em silêncio e só não continuou assim porque encontramos Itachi e Ichiro no corredor. Por um milagre, Ichiro também estava tomando banho e arrumado. Acho que a conversa que tive com Itachi surtiu efeito.
— Titio Itachi! — gritou Sarada quando colocou os olho no tio e correu para abraçá-lo. Ichiro e eu olhamos a cena com cara de tédio.
— Minha pequena monstrinha! — meu irmão disse bagunçando os cabelos de Sarada, os que eu tinha acabado de pentear com muita luta e sofrimento. — Como você está grande! Por acaso anda comendo fermento?
Sarada gargalhou gostoso depois das cócegas do tio. — Não, titio. É o bolo de chocolate da vovó.
— Ah, então está explicado. O bolo da vovó Mikoto é mágico. — disse Itachi.
— É sim. Ela prometeu fazer pra eu. Você quer um pedaço? Eu deixo!
— A vovó fez pra eu também. Meu pai come do meu. — Ichiro abraçou as pernas de Itachi em claro sinal de ciúme . — Dá o seu, pra tio Sasuke.
— Ichiro-kun, meu papa não gosta de doces. — Sarada disse defendendo-se.
— Calma crianças, não precisam brigar. — disse Itachi como um adulto responsável que ele não é. — Tem bolo pra todo mundo que gosta e tomate para o bobão do meu irmão que não come doces.
— Idiota. — resmunguei baixo para as crianças não ouvirem. — Eu não gosto de doces, então sobra mais pra vocês. Agora vamos descer. — disse por fim e nós quatro tomamos o rumo da escada.
Perto do último degrau, paraliso, e sinto meu estômago embrulhar, olho pra Itachi e percebo que ele está do mesmo jeito que eu. As vozes de Sakura e Izumi ecoam pela sala juntas com a da nossa mãe.
A coisa fica fora de controle quando os pequenos também reconhecem as vozes e saem disparados pela escada até a sala, aos berros por suas respectivas mães. Olho para meu irmão outra vez e de alguma forma damos apoio um ao outro, ou pelo menos tentamos.
Quando chegamos a sala encarei Sakura, que agora está com Sarada agarrada em suas pernas. Em seus olhos eu vejo alívio e não surpresa. Ou Itachi ou mamãe devem ter contado a ela que estava aqui. Sarada corre até mim e me puxa para perto dela e de Sakura.
Encarar aqueles olhos verdes, neste momento, é tão torturante quanto gratificante. É muito difícil não lembrar de tudo o que aconteceu noite passada. Eu ainda estou magoado e sinto que Sakura percebe isso, porque não faço questão nenhuma de esconder. Mas me machuca também vê-la desse jeito.
— Papa, o beijo da mama, cadê beijo da mama? — Sarada indaga me tirando do topor que eu me encontrava. — O beijo, cadê?
Sinto meu estômago esfriar e pior, me sinto sem graça, como um adolescente que não sabe o que fazer quando encontra a namorada depois de uma briga séria.
Acontece, que eu não sou mais adolescente e muito menos, Sakura é minha namorada. Mesmo que o casamento de papel passado não tenha saído, e dificilmente irá sair, Sakura é minha esposa, de fato. E não preciso que nenhum documento ateste isso. Porque meu sentir vai muito além de um contrato.
E só agora, percebo o quanto isso pesa. E o quanto isso ainda me deixa mais magoado depois da conversa de ontem.
De forma involuntária eu sinto meus olhos marejarem e como subterfúgio, uso meu orgulho para impedir as lágrimas de caírem. Mesmo que por dentro o estrago esteja feito.
Ouço um pigarro e desperto outra vez. Olho em volta e as crianças não estão mais na sala, mas posso ouvi-las da cozinha. Observo minha mãe, com um olhar sério e numa postura firme. Ela olha para cada um de nós demoradamente.
— Eu conheço os meus filhos o suficiente para saber que tem algo errado. — sua voz é calma, porém firme. — E sei também que não esperavam por esse reencontro, mas as crianças e eu tínhamos bolado um almoço surpresa para vocês. Algo em família. — engulo em seco. Olho pra Itachi e ele está da mesma forma. — Promessa para meus netos é coisa séria, portanto, se comportem na frente deles. Eu não vou admitir, sob hipótese alguma, que Sarada ou Ichiro saiam magoados daqui. Qualquer fagulha de tristeza no olhar deles e vocês vão ver do que eu sou capaz. — ela sorri de forma diabólica. — O almoço de hoje será lasanha e para sobremesa bolo de chocolate com sorvete de creme. Esperamos vocês na mesa da sala de jantar. — por fim, se retirou.
— Sasuke? — ouço Sakura me chamar baixinho e puxar minha camisa.
— Agora não, Sakura. — seguro sua mão. — Em casa, nós conversamos. — digo baixo.
— Mas Sasuke…
— Por favor, Sakura. — sou incisivo. — Contrariar minha mãe não é uma opção e muito menos deixar Sarada perceber que tem algo errado entre nós.
— Tudo bem. — diz por fim e segue para a sala de jantar.
O almoço corre de forma estranha. As únicas vozes à mesa são das crianças e dos meus pais. Quase não mexo na comida e me pego distante daquele lugar, pensando em coisas totalmente distintas daquele almoço. Olho de esguelha para Sakura e vejo que ela também quase não toca na comida. Já Itachi e Izumi preferem manter suas bocas ocupadas com comida à falar alguma coisa.
Quando o almoço finalmente chega ao fim, tudo fica ainda mais estranho. Pelo menos, para os casais problemáticos da mesa. Sinto os olhares julgadores dos meus pais, juntamente com um silêncio mortal e não fico nada contente. As crianças também começam a perceber que algo estranho está acontecendo e antes que Sarada fale algo, pois seus olhinhos escuros jão estão dizendo muito neste momento, meu pai toma a fala:
— Crianças, o que vocês acham de ajudar o vovô a regar as flores lá do quintal?
— Ebaaaaa!! — gritam os pequenos em uníssono. — Vamos vovô, Sarada ama molhar florzinha. — minha filha complementa.
— Eu sabia que podia contar com meus netos preferidos. — meu pai sorri afetuoso. — Agora vão na frente, sem correr, e peguem seus regadores que o vovô já está indo. — meu pai espera, pacientemente, as crianças se afastarem e depois passa a nos encarar não tão afetuoso assim. Zero afetuoso na verdade. — Bom, deu pra notar que as coisas não estão indo tão bem entre vocês.
— Fugaku… — ouço mamãe tentando repreendê-lo.
— Eu sei muito bem, Mikoto, que você já chamou a atenção deles, mas não funcionou muito bem, pelo jeito. — ele é direto. — Por poucos as crianças não estranharam. — ele suspira. — Casamentos não possuem manual de instrução, eu sei, e por vezes não é tão fácil. Mas vocês não podem esquecer dos seus filhos e como todo mal estar, entre vocês, pode respingar neles.
— O que vocês acham de deixarem as crianças dormirem conosco essa noite? — indagou minha mãe. — Fugaku e eu as levamos para a escola amanhã e vocês as pegam no fim do dia ou na hora do almoço.
— Vocês poderão conversar com mais privacidade e mais tranquilidade. — diz meu pai.
— Não sei Fugaku-san, não quero abusar. Sarada é responsabilidade minha e de Sasuke.
— Assim como Ichiro é responsabilidade minha e de Izumi. Vocês já fizeram muito. Não podemos atrapalhar a vida e a rotina de vocês.
— Não repita tamanho disparate outra vez, Itachi. — minha mãe disse brava e se controlando para não gritar. — Meus netos nunca atrapalham.
— Sarada e Ichiro são muito tranquilos. Não dão a metade do trabalho que vocês dois deram. Será um prazer ficar com eles mais um dia e levá-los para a escola amanhã. — meu pai diz e se retira da mesa indo em direção ao quintal.
— Se não ficou claro, eu farei ficar. Fugaku e eu não aceitaremos
como resposta. — diz mamãe taxativa. — E me deixem mimar meus netos na santa paz de Amaterasu.
— Se Sarada quiser ficar não irei me opor. Coloquei roupas a mais na mochila dela. — diz Sakura e olha para mim. — O que você acha?
— Se ela escolher ficar, ela fica. — digo.
— E vocês, o que dizem? — indaga minha mãe para com Itachi e Izumi.
— Ichiro escolhe. — diz Izumi e Itachi concorda.
— Ótimo. — minha mãe diz contente. — Meus netos nunca irão me recusar. Venham comigo dar a notícia e se despeçam deles com carinho.
Sarada aceitou facilmente ficar na casa dos avós, comemorou tanto que fiquei até com um pouco de ciúmes. Mas Ichiro, por pouco, não vai com os pais para casa. Acredito, que a saída da casa dele com a mãe, após a última briga dos pais tenha o afetado tanto, que ele queira para casa com os pais para garantir que os mesmos ficariam juntos. Ele só decidiu ficar com meus pais quando Izumi e Itachi prometeram que iriam pra casa juntos e permaneceriam por lá.
A volta pra casa foi num silêncio ensurdecedor. Eu não tirava os olhos da estrada e nem de soslaio eu olhava pra Sakura, embora a curiosidade fosse gritante. Quando chegamos em casa, o silêncio se manteve. Tomei um banho e logo me tranquei no escritório para corrigir alguns artigos dos meus alunos. Eu estava atrasado nas correções, mas isso também caiu como uma luva para não conversar com Sakura, não naquele momento ao menos. Eu não queria que da nossa conversa saísse mais uma briga.
(...)
Mesmo a base de muito café eu consegui corrigir apenas dez artigos dos quarenta e três que eu tinha para corrigir. Por diversas vezes, me peguei disperso pensando na briga com Sakura, que eu sentia vontade de bater na minha cara para acordar de uma vez. Quando terminei o décimo trabalho eu dei um basta. Eu preciso conversar com ela.
Olhei no relógio e vi que passava das nove da noite. Decidi procurar por Sakura, mas só a encontrei deitada no sofá do deck no nosso quintal. Ela parecia um recheio de panqueca enrolada naquele edredom. Com o outono por aqui, o clima esfriou bastante.
Assim que ela colocou os olhos em mim não desviou por um segundo sequer. Não pude evitar o amargor na boca e o frio na barriga. Mesmo que eu soubesse, que a razão estava ao meu lado, dessa vez, não sei se estou preparado para ouvir as verdades que Sakura tem a dizer, as minhas verdades ou a que conclusão iremos chegar.
Me dirigi ao sofá tendo como companhia o ranger do piso de madeira e o frio. Me sentei ao lado de Sakura, que agora estava sentada e peguei a ponta do cobertor que ela me ofereceu. Mesmo que estivéssemos no mesmo sofá, dividindo o mesmo cobertor, ela ainda me parecia distante.
Eu sabia que tinha de partir de mim a primeira palavra, mas a voz não conseguia me escapar da boca, sempre ficava presa na ponta da língua.
— Sasuke… — Sakura diz baixinho me olhando nos olhos. — Me desculpe.
— Sakura, essa nossa conversa precisa ir além disso… além de um pedido de desculpas.
— O que você quer mais? Que eu me rasteje ou me ajoelhe aos seus pés pedindo desculpas a você? — sua voz soa incrédula e reativa. E é exatamente nesse ponto que eu sei que ela está na defensiva. — Porra, eu sei que eu errei, mas não é pra tanto.
Respiro fundo, mas sem deixar de encará-la. — Eu quero um diálogo, Sakura. Eu quero que você me conte o que está acontecendo com você.
— Não tem nada acontecendo comigo. Eu só… eu só fiquei com receio de te contar. Só isso. — não me convence.
— Se você esconder as coisas de mim isso não vai funcionar, essa conversa não vai pra frente. — digo sincero e bastante calmo. — Quando voltamos, decidimos ser honestos um com o outro, conversar, dizer algo quando alguma coisa nos incomoda ou não parecer certo. Você prometeu não se fechar como fazia antes. Depois que Sarada nasceu você passou por um turbilhão de sentimentos, hormônios, todas aquelas transformações pelas quais eu nunca vou passar, mas eu sei porque eu estava do seu lado, eu via, eu sentia… A medida que as coisas iam se acalmando você construiu essa merda de muro à sua volta, de novo. Sentindo tudo e sozinha. Quando eu tentava de alguma forma entender, ou conversar você se fechava ainda mais. — a medida que as palavras saíam da minha boca, eu percebia o quanto eu as guardava também, assim como meus sentimentos. — É frustrante não saber o que fazer, porque nem espaço pra isso eu tenho. Porque sou podado na maioria das vezes quando tento fazer alguma coisa… — afago sua bochecha direita e logo depois sua mão cobre a minha. — Você não precisa sentir tudo sozinha, você não está sozinha, Sakura! — digo baixinho bem próximo ao seu rosto. — E por mais que eu diga, não adianta, se você não acredita.
Surte efeito!
Tudo que eu digo surte efeito!
Sakura desaba em meu colo num choro agudo e violento…
Quantas coisas ela não guardou e vem guardando?
Acolho Sakura em meus braços e deixo que ela chore… não sei quanto tempo durou, mas foi o suficiente para o rosto dela ficar todo vermelho e seu nariz triplicar de tamanho. Decidimos entrar, porque o frio já estava congelante e fiz um chá de camomila pra ela. Estamos no sofá, embaixo das cobertas, enquanto ela bebericava o seu chá.
— Eu achei que se contasse em cima da hora, você me faria desistir. — ela diz baixinho. — E aí, seria mais fácil…
— Eu jamais a faria desistir, Sakura. E você sabe disso. — dou de ombros. — Independente de ter me contando com antecedência ou não. Eu não sou assim. Sabe o quanto respeito sua carreira e sei o quanto ela é importante pra você.
— Ainda assim, acho que eu tinha um pingo de esperança, lá no fundo.
— Por que você queria que eu fizesse isso? Isso me soa um comportamento machista e abusivo. — digo o óbvio. — Por que você iria querer estar com um cara assim?
— Não vou te dar um biscoito por isso. — ela riu sem humor. — Você não tá fazendo mais que sua obrigação em ser um homem sensato.
— Então me diz o que eu fiz de errado.
— Você não fez nada de errado. Eu que fiz. — ela sorri e põe a xícara de chá em cima da mesinha de centro. — Mas você não acha loucura eu passar trinta dias fora, Sasuke? Sarada não tem nem 3 anos de idade. Vai bagunçar toda a nossa rotina, que é tão organizada e deu tanto trabalho para arrumar… E meu Deus, trinta dias longe da Sarada? Que tipo de mãe eu sou? Não Sasuke, tá errado. Eu não posso.
Eu olho pra Sakura incrédulo, contudo impeço que ela volte a chorar por algo completamente sem fundamento. — Sakura, você vai passar trinta dias fora a trabalho. Não é como se fosse uma viagem de férias que você não quer a nossa presença. — ela me olha com os olhos marejados. — Nossa rotina é incrível e organizada, mas não deixa de ser uma rotina, que uma hora vai cansar e teremos de rearrumar. Já tivemos imprevistos, não lembra? Você com cirurgias e atendimentos de emergência e eu com aplicações de provas ou quando tive de cobrir algum turno de professor. Não é como se nunca tivesse acontecido. E bom, você vai, volta e Sarada não terá completado três anos ainda.Você não vai perder a comemoração.
— Mas mesmo assim, Sasuke. Eu chegarei bem perto do aniversário dela, ficará muito em cima pra organizar e… e….
— Sarada já escolheu o tema, ela já nos falou.
— A Pequena Sereia- ela diz baixinho.
— Exatamente. E ainda pediu para que a gente se fantasiasse. Você de Ariel, eu lá do príncipe e ela se fantasiaria da filha deles.
— O nome do príncipe é Eric, Sasuke e o da filha deles é Melody.
— Isso mesmo, são esses os nomes. Eu posso organizar a festa junto com Sarada, não tem problema.
— Você não tá sabendo os nomes dos personagens, que dirá organizar uma festa.
— Querida, não é com isso que você irá me convencer. Você vai ver como a festa da nossa filha será impecável. E de quebra, eu serei um príncipe Eric muito mais bonito que o original. — ela ri e eu me sinto um pouco mais aliviado. — É apenas isso que te incomoda?
— Não. — ela diz baixinho. — Sasuke, Sarada e eu somos muito grudadas, você sabe disso. E por mais excelente que você seja como um pai, é por mim que Sarada sempre chama quando está com fome, com dor, quando rala o joelho e quer um beijinho no machucado, quando conta uma novidade da escolinha. Eu dava de mamar até outro dia, amor.
Essa era verdade que eu não queria ouvir..
Por mais que seja a realidade do dia-a-dia. É por Sakura quem Sarada chama 99% das vezes em primeiro lugar. Até mesmo quando comprávamos carrinhos em miniatura. É a opinião de Sakura que é levada em conta em primeiro lugar.
É… eu estou me sentindo um verdadeiro merda.
— Querido?! — Sakura me chama me tirando da lama, a qual eu estava chafurdando. Eu a encaro e pelo seu olhar preocupado, eu devo estar com cara de merda também. — Você está bem? — não respondo. — Eu não falei aquilo pra te ofender, nem nada do tipo. Você é um pai incrível e sabe o quanto Sarada te ama.
— Mas eu não sou o preferido. — digo emburrado como um garotinho de cinco anos.
— Querido, isso não é uma competição. — ela ri. Como ri assim da minha desgraça?- Sarada chamar por mim, na maioria das vezes, não me faz a preferida dela. Mas isso só reforça o quanto minha ausência num período longo de tempo pode bagunçar tudo por aqui.
— É impressão minha ou você está me dando argumentos para fazê-la desistir de viajar? — digo sem entender. Mais perdido que nem pinto no lixo. — Eu estou tentando acompanhar, mas tá um pouco complicado, sabe? Me diz, sinceramente, você quer ou não fazer essa viagem?
— Quero. E é justamente por querer tanto que me sinto culpada. — confessa. — Eu amo nossa rotina, mas já estou cansada dela e ainda assim me sinto culpada por não segui-la. E porra, ser mãe cansa tanto às vezes. — ela diz e põe a mão na boca logo em seguida. Parece até que confessou um crime. — Meu Deus, é tão bom dizer isso em voz alta. — ela ri. — É tão libertador. Se você me julgar eu enfio a mão na sua cara. — ela diz sério, mas eu explodo em gargalhadas.
— Estou feliz que você tenha falado primeiro. — eu digo mais calmo. — Ser pai também cansa. Sarada é um pequeno furacão quando quer — dou de ombros. — . Realmente, é muito bom dizer isso em voz alta.
— Os pais não carregam a culpa social que as mães levam. Quando a gente vira mãe, parece que perdemos nossa autonomia como pessoa, sabe? Parece que deixamos de existir por nós e para nós mesmas. Perdemos nossa identidade. Todo o sacrifício da maternidade é romantizado. Isso pesa demais, cansa demais.
— Eu não posso dizer que sinto o mesmo que você. Nunca senti que perdi a identidade depois de Sarada. Nem a questão da romantização do sacrifício e sofrimento. Deve ser ruim demais carregar este tipo de sentimento e me dói que você esteja passando por isso. Contudo, quero te agradecer por me dizer todas essas coisas, que antes passavam despercebidas. E por favor, me fale sempre. Todo homem é um ser em desconstrução e eu não sou diferente. — a puxo para meu colo. — E te digo mais uma vez, você não está sozinha. E não precisa passar por isso sozinha. Pode contar comigo, sempre. — encosto meus lábios em sua bochecha direita. — Não constrói mais esse muro que só nos afasta e te deixa carregada de culpa. Isso mata a mim também. — digo sincero. — A sociedade que se exploda com seus preceitos e ideias ultrapassadas. A nossa realidade é a nossa casa. O que os outros vão dizer sobre nós é problema deles.
— Mas Sasuke… — eu a interrompo.
— Se você quiser viajar e passar trinta dias na Índia eu vou te apoiar. E caso você não queira, eu vou te apoiar também. Mas escolha por você, e não por Sarada e por mim. — digo sério. — É a sua vida e a sua carreira.
— São trinta dias… você apenas pra tomar conta de Sarada.
— Não vai ser fácil, mas não será impossível. — digo confiante. — Daremos um jeito. Temos uma rede de apoio imensa para nos ajudar. Sarada pode ir comigo uns dias para a Universidade, ela é uma excelente fiscal em dias de prova.
— Tem certeza?
— Absoluta. Será bom pra mim e pra ela. — não posso negar que estou um pouco ansioso. — Iremos morrer de saudade e contaremos o dia até seu retorno. Mas garanto que iremos nos divertir por aqui também.
— Nem me fala em saudade, porque que eu já estou surtando.
— Trinta dias passam rápidos. — digo mais pra mim do que pra ela. — Quanto menos você esperar já estará de volta no nossa casinha.
Ela sorri de forma doce. Seus olhos estão marejados outra vez. — Me desculpe, querido.
— Tudo bem, desde que não me esconda mais o que você sente, nem me deixa à deriva outra vez. Somos uma família e estamos juntos para o que der e vier.
— Você tem razão.
— Você me dando razão é um dia para comemorar. — provoco e ela ri. — Te amo, Haruno-teimosa. — ela riu e me beija.
— E eu te amo, Uchiha-insistente. — diz contra meus lábios e me beija outra vez com ardor e saudade.
A sala se torna pequena e o sofá indiscutivelmente quente, assim como o corpo de Sakura sobre o meu.
(...)
Vim para a Universidade sem um enorme peso nas costas. Resolver as coisas com Sakura me deixou com um sorriso bobo no rosto. Fiquei tão animado, mas tão animado que até apliquei um teste surpresa para os meus alunos. Veja bem, não quero parecer mau e não sou, tanto que o teste vale um ponto extra na média, eles só não sabem disso ainda.
Saí da Universidade por volta de 13:30h e vou direto pra casa. Sakura e Sarada estão me esperando para almoçarmos. Além disso, Sakura e eu daremos a notícia a nossa filha sobre a viagem. Não sei bem como nossa ela irá reagir e, bem, não posso dizer que não estou um pouco preocupado. Sarada nunca ficou tanto tempo longe da mãe e nem Sakura dela.
Da porta de casa já posso ouvir as duas conversando animadas. E pelo jeito, o assunto é a festa de aniversário da pequena, que acontecerá em um mês e meio.
— Você tem certeza de que querer a festa da Pequena Sereia, filha? — ouço Sakura perguntar. Elas ainda não notaram a minha presença.
— Eu quero. — Sarada responde. — Você vai de Ariel, eu de Melody e o papa de píncipe Eric.
— Eu sou muito mais bonito que o príncipe Eric. — digo me anunciando. — Mas farei sua vontade, dona Sarada.
— Papa!!! — minha filha grita e vem ao meu encontro se jogando em meu colo. — Você chegou!
— Oi pequena! — a abraço e seu cheiro infantil logo marca presença. — Eu estava com muitas saudades!
— Eu também, papa! — ela responde e vejo Sakura se aproximar de nós.
— Bem-vindo, querido. — Sakura diz e sela seus lábios no meu. Sarada bate palmas e um riso se forma em meus lábios ainda nos de Sakura. — Estávamos esperando você para almoçar. A comida chegou há pouco tempo, está quentinha.
— Estou sentindo daqui. Vou lavar as mãos e arrumamos a mesa juntos. — digo por fim, entregando Sarada a Sakura.
No fim das contas, quem acabou arrumando a mesa fui eu, já que Sakura e Sarada retomaram o assunto da festa de aniversário da pequena. Durante o almoço, este assunto também reinou e só quando estávamos na sobremesa que Sakura decidiu dar a notícia a nossa filha, a julgar por sua cara séria de agora.
— Sarada, filha, a mama precisa ter uma conversa séria com você.
Vi os olhos de Sarada esbugalhar e meu instinto de pai apitou. Sarada, com certeza, tinha aprontado alguma.
— Ah não, Sarada só se defendeu! — a pequena falou com a boca melada de sorvete de flocos. — Boruto é muito chato. Ele que começou.
— Você bateu no Boruto, Sarada? — Sakura indagou confusa. Como chegamos até ali?
— Eu bateu sim, mama. — o rostinho da minha pequena agora está vermelho. — Ele disse que menino é mais forte que menina… chato. Eu sou uma Uchiha mama, eu não sou fraca. — Sakura rapidamente olhou pra mim com olhos raivosos e inquisidores.
— Nem me olhe desse jeito. — me defendi. — Eu não ensinei essas coisas pra ela. — apesar de tudo, não podia negar que estava orgulhoso da minha pequena. O filho de Naruto puxou bem a ele mesmo. Insuportável.
— Sarada, quem foi que te ensinou isso? — Sakura indagou séria. Vi Sarada encolher os ombros e me olhar. — Não é porque você é uma Uchiha que tem que sair por aí batendo nas pessoas, filha.
— Mas o titio Itachi me disse que Uchihas não é fraco, mama. — Mas tinha que ser a mula do Itachi pra ensinar isso.
— Filha… — chamei sua atenção. — Uchihas não são fracos, mas isso não quer dizer que você tem que sair batendo nas pessoas por conta disso. — aproveito e passo o guardanapo por sua boca suja. — Você acredita que meninos são mais fortes que menina?
— Não, papa.
— Então, da próxima vez que o Boruto falar essas bobagens, você ignora. — digo.
— Ele é chato e a culpa é minha. Assim não dá. — Sarada joga as mãos pra cima e um riso nasalado me escapa. Sakura tenta reprimir, mas nem ela consegue deixar de sorrir. Sarada sabe como nos desarmar.
— Filha, você não precisa ser violenta, entende? — Sakura indaga. — Você não é criada dessa forma. Se o Boruto ou qualquer coleguinha te importunar, você pede para parar e caso isso não aconteça, pode falar com sua professora e conosco. Agredir não é uma coisa legal.
— Tudo bem, mama. Sarada não bate mais. — ela fala de uma forma fofa, mas Sakura e eu sabemos que é mentira. Afinal, Sarada é uma criança e coisas como essa podem muito bem acontecer.
— Além disso, Boruto está passando por uma nova fase agora, com a chegada da irmãzinha dele, a Himawari. — Hinata e Naruto resolveram ter mais um filho, ou melhor, filha. Himawari nasceu há cerca de seis meses. — Ele não tem tanta atenção dos pais, como tinha antes da irmãzinha dele nascer.
— A Hima é tão legal, mama. É uma boneca de verdade. — disse empolgada. Mal sabe ela, o quanto um bebê dá trabalho.
Sakura ri, mas suas feições ficam sérias logo em seguida. — Ela não é uma boneca filha, mas não é sobre isso que eu quero conversar com você.
— É sobe o que?
— Eu vou precisar fazer uma viagem a trabalho, e por isso, eu ficarei fora alguns dias. — Sakura diz calmamente, acompanhando a reação da pequena. — Enquanto a mama estiver fora, você ficará somente com o papa aqui em casa.
— Po que você vai viajar? — a voz de Sarada é um sussurro e eu sinto meu coração apertar. Acredito que Sakura esteja dessa forma.
— Você sabe que a mama é médica e cuida de crianças, não sabe? — Sarada assente a indagação da mãe. — Pois então, algumas crianças acabam tendo um dodói mais forte, e por isso, precisam de remédios e tratamentos mais fortes. — Sarada ouve tudo bem atenta. — Mas acontece que nem todo lugar tem um hospital como do vovô Kizashi e nem médicos como a mama. Eu estou indo para esse lugar porque precisam de mim lá, para cuidar dessas crianças e para ensinar outros médicos como fazê-lo, para que eu possa voltar pra você e seu papa.
— Vai demorar muito? — senti meu coração gelar com a pergunta da pequena e vi o olhar de Sakura em mim.
— Um pouquinho. — Sakura sussurrou. — Mas chegarei antes do seu aniversário.
— É muito impotante viajar pa você? — Mais uma vez, Sarada surpreendendo.
— Muito importante, filha. Tanto pra mim, quanto para as crianças que serão atendidas e cuidadas. — um lágrima solitária escorreu pelo rosto de Sakura. — Mesmo estando longe, vamos nos falar todos os dias, por videochamada, está bem? Eu ficarei morrendo de saudades de vocês.
— Tá bom, mama. Sarada também vai ficar com saudade. — saiu de sua cadeira e foi para o colo da mãe. — Vai tazer pesente pa eu?
— Claro!
— E po papa também?
— Sim, trarei muitos presentes para vocês.
— Então pode ir. — Sarada diz e com isso caímos na gargalhada.
O restante da semana foi bastante intenso. Sarada grudou mais em Sakura do que normalmente já é. E bom, não posso mentir, eu também fiz o mesmo. Tivemos nossos momentos de paixões e loucuras, e por quase duas vezes, fomos pegos pela nossa filha.
Eu me sentia culpado, não nego, mas também não consigo deixar de pensar que serão trinta dias sem seu corpo próximo ao meu, sem o seu calor diário.
Arrumamos a mala de Sakura juntos e Sarada estava empolgadíssima em ajudar na realização da tarefa. Além disso, Sakura e eu organizamos como faríamos com Sarada, quando eu não pudesse buscá-la na escola ou tivesse alguma atividade na Universidade. Minha mãe já estava ciente da viagem, assim como o pai de Sakura. Os dois se deixaram a disposição, caso eu precise de ajuda. Naruto, Hinata, Ino e Sai se prontificaram a nos ajudar também, assim como meu irmão e Izumi, só teríamos de avisar com um pouco de antecedência.
No dia da viagem, Sakura disse que preferia ir sozinha para o aeroporto. Fiquei chateado de início, mas entendi o motivo. Ela não iria segurar choro ao se despedir da nossa filha e Sarada iria começar a chorar também, e no fim das contas, ela não conseguiria viajar.
(...)
Os cincos primeiros dias foram tranquilos, contudo, a casa parecia mais silenciosa que o comum. Só parecia completa, quando estávamos em chamadas de vídeo com Sakura. Ontem Sarada acabou fazendo xixi na cama e com isso eu resolvi colocá-la para dormir comigo. Foi só cheirar o travesseiro da mãe que ela apagou. Desde então, ela só dorme comigo. Eu sabia que seria difícil cuidar de Sarada sozinho, mas não achei que seria tanto como está sendo.
— Como vocês estão aí? — Sakura pergunta do outro lado da tela.
— Estamos bem. — digo, embora não seja totalmente verdade. Sakura ri.
— Querido, Sarada já dormiu. Pode me falar a verdade agora. — Sarada pegou no sono no meio da videochamada com a mãe. — Eu estou vendo suas olheiras.
— Confesso que não está fácil. — desabafo. — Mas não é impossível. É questão de prática na verdade, estou menos cansado que ontem.
— Me engana que eu gosto, Sasuke. — Sakura debocha. — Eu estou morrendo de saudades de vocês e pela sua cara e da nossa filha, sei que tá difícil por aí também. O coração chega está apertado. Faltam só mais dezoito dias.
— Sarada não fala muito, mas sei que sente a sua falta. Só dorme agarrada com seu travesseiro, coloca uma roupa sua todo dia e fica desfilando pela casa, tá fazendo birra pra comer, brigou com Boruto de novo. — minha voz sai desesperada. — Nunca quis tanto que dezoito dias passem tão rápidos. Não vejo a hora de ter aqui de novo. — digo sentindo um pouco de culpa pela fisionomia de dor que desaponta no rosto de Sakura.
— Querido, me desculpe. — sua voz sai triste. — Foi loucura aceitar uma viagem dessas, tão longa.
— Não amor, não se sinta culpada, por favor. Seu trabalho também importa. — tento animá-la. — Vamos, me diga, como está por aí?
— Muito trabalho. Tenho feito até 4 procedimentos cirúrgicos por dia, é bem cansativo, mas muito recompensador. — ela sorri. Posso ver traços de olheiras em Sakura também. — Muitos voluntários têm chegado, e o melhor, com sede de aprender. Me sinto melhor em saber que essas crianças serão bem aparadas quando eu voltar pra casa.
— Você tem se alimentado direito? Estou te achando mais magra e com o rosto um pouco mais pálido.
— Tenho comido menos do que gostaria. — confessa. — As comidas aqui na Índia são bem apimentadas e eu não sou muito fã. Acabo me esbaldando em frutas e iogurte.
— Mas isso só não alimenta, amor.
— Eu sei. Aqui no hospital eles já fazem bem menos apimentada pra mim. Vou comer mais, pode ficar tranquilo.
— Espero mesmo. — olho para Sarada que ressona baixinho ao meu lado e me lembro que tenho de contar algo a Sakura. — A professora de Sarada veio falar comigo hoje. — vi a expressão de Sakura ficar preocupada. — Disse que Sarada está tendo dificuldade para enxergar algumas coisas no quadro. Há alguns dias ela têm reclamado de ver embaçado depois de coçar o olho. Vou levá-la até o hospital amanhã para ir numa consulta ao oftalmologista.
— Meu Deus, Sasuke. Será que Sarada está com alguma alergia nos olhos?
— Calma, Sakura. Mesmo não sendo médico, acredito que não seja nada grave. Assim que sairmos da consulta amanhã te darei notícias. Mas antes preciso do nome do médico ou médica.
— Pode ir ao hospital e procurar pela dra. Takimoto Hitomi. Ela é a melhor oftalmo de lá e tem muita paciência com crianças. Enviarei uma mensagem para minha secretária Fuu e peço para ela agendar uma consulta de urgência.
— Pode deixar que eu mesmo ligo. — a tranquilizo. — Se concentre no seu trabalho. Está tudo sob controle por aqui.
— Mas Sasuke, eu posso fazer isso.
— Eu sei que pode. — digo compreensivo. — Mas sei como anda atarefada esses dias aí. Minha mão não vai quebrar se eu ligar. Fique tranquila.
— Tem certeza?
— Absoluta.
(...)
Hoje é o vigésimo dia da viagem de Sakura. Não sei se aguento mais o restante. Na reta final dessa viagem dela parece que o tempo tarda a passar. E pra piorar Sarada não para de perguntar se já está perto da mãe chegar. A carinha de frustração dela acaba comigo.
Sarada ainda fez o favor de aprontar mais uma. Quando eu fui pegá-la na escola esta semana e fazer uma surpresa mostrando tudo que tinha comprado para o aniversário dela com o tema da Pequena Sereia, ela disse que não queria mais. Que a festa seria com o tema de Star Wars e ela irá vestida de Darth Vader. Minha filha é uma pequena vilã desde pequena. Na hora me fiz de forte e durão, mas quando cheguei em casa chorei como uma criança em posição fetal.
No dia seguinte, troquei tudo pelo tema de Star Wars e decidi passar um tempo na casa dos meus pais. Estamos aqui há três dias. Achei que isso fosse ajudar Sarada e no início até que ajudou, mas nem todas vontades dos avós tem contribuído para diminuir a tristeza e ansiedade da minha pequena. Não tinha muita coisa a fazer, senão esperar.
Para falar a verdade, não vim apenas para casa dos meus pais por conta de Sarada. Vim por mim também. É bem foda sentir o vazio da casa sem a presença de Sakura e além disso, eu tinha uma caralhada de provas para corrigir. Analisar cálculo por cálculo de cada questão. Minha cabeça está prestes a explodir.
— Muito cansado, filho? — ouço minha mãe perguntar. Se quer, notei a sua presença. Ela se senta na cadeira ao meu lado da mesa de jantar.
— Um pouco. — ela levanta as sobrancelhas de forma questionadora. — Ok. — me rendo. — Estou muito cansado. Eu sabia que seria difícil, mas não achei que fosse tanto.
— Tem mulheres que vivem isso uma vida inteira. — ela ri.
— Acho, que nós homens, somos uns merdas. — digo com toda certeza.
— Alguns sim, não você. — minha mãe nunca deixaria que eu me chamasse de merda. Só ela poderia fazê-lo. — Quer que eu prepare algo? Um chá, um café, um sanduíche?
— Não mãe, obrigado. Já estou terminando por aqui. A senhora viu se Sarada acordou?
— Ela está dormindo como um anjo.
— Ainda bem. Esses dias que estamos aqui, ela está muito melhor, pelo menos para dormir e comer.
— Ela é muito pequena ainda, normal que sinta falta da mãe. Mas logo Sakura chegará. Por que vocês não ficam até o fim da semana aqui?
— Não me farei de rogado, mãe. Podemos mesmo? Não vamos atrapalhar?
— Imagina, Sasuke. Você é meu filho, ela é minha neta. Se vocês me atrapalhassem que tipo mãe e avó eu seria?
— A mesma que não quer Itachi mais de dois dias na sua casa? — digo divertido e recebo um tapa no ombro.
— Seu irmão não é lá muito organizado como você, mas mudou bastante.
— Pode me agradecer, dona Mikoto. — digo convencido. — A senhora não viu da última vez o caos que estava aquele apartamento.
— Ainda bem. Eu não merecia passar por isso depois de mais de trinta anos de novo. Dê um desconto para sua pobre mãe. — ela diz se levantando.
— Já vai dormir?
— Vou sim. Só vim para saber se precisava de algo.
— Está tudo sob controle por aqui, pode ficar tranquila mãe.
— Ah, antes que eu me esqueça. Você pegou os óculos de Sarada na ótica? — a minha pequena estava com uma leve inflamação nos olhos e foi diagnosticada com astigmatismo. Meu bebê terá de usar óculos.
— Não. Liguei pra lá e eles estarão prontos amanhã. Quando pegá-los, vou direto ao hospital com Sarada pra saber se está tudo certo com eles.
— Ótimo. Vou preparar um bolo de chocolate pra Sarada amanhã. Não sei bem como ela vai reagir a esta novidade.
— Ela ficou animada. Disse que vai ficar parecida com a tia Karin. A senhora sabe o quanto a Sarada gosta dela.
— É verdade. De qualquer forma, farei o bolo que minha neta tanto adora. — ela diz orgulhosa. — Você quer alguma coisa em especial?
— Qualquer coisa com atum fresco.
— Farei um ceviche pra você, bem gostoso. — diz por fim e vai em direção as escadas. — Boa noite, filho.
— Boa noite, mãe.
(...)
Hoje já é o vigésimo nono dia da viagem de Sakura. E eu estou tão ansioso, porque faltam apenas dois para ela voltar pra casa. Ela sairá de Mumbai no sábado pela manhã, fará uma conexão em Deli, outra em Hong Kong, mais uma em Taipé, capital de Taiwan e ainda fará uma escala em Tóquio. Chegará aqui em Konoha por volta das 10:40h da manhã do domingo.
Sarada pediu pra dormir na casa de Naruto hoje, porque queria ficar brincando com Boruto. A priori, não quis aceitar, porque além de Boruto eles têm uma bebezinha, que requer cuidado e atenção. Mas Hinata insistiu, disse que ia ser bom pra Boruto ter alguém pra brincar com ele.
Bom, pelo menos, dessa vez eles não estão se matando. Amanhã a pego um pouco antes da hora almoço e aproveito pra passear com minha filhota e comemos pela rua mesmo. Aproveito e arrumo a casa para a chegada da mulher da minha vida. Ela merece que a casa esteja um verdadeiro brinco.
Coloco roupa pra lavar, varro a casa, passa aspirador, passo pano, lavo os pratos, boto a roupa pra secar, noto que os armários estão quase vazios e faço uma nota mental pra ir ao supermercado amanhã com a pequena, tiro as roupas da secadora, dobro as roupas e guardo-as em seus devidos lugares. Não são nem dez da noite e eu estou só o fim de feira.
Tomo um banho e sinto meus músculos relaxarem em contato com a água quente. Não sei bem quanto tempo estou ali, mas foi o suficiente pra quase pegar no sono. Saio do chuveiro me arrastando e tomando o maior cuidado para não molhar tudo. Seco meu corpo e meu cabelo, ponho uma cueca boxer e me jogo na cama como se não houvesse amanhã.
Acordo no dia seguinte leve como um bebê e me ponho para fora da cama. Vou até o banheiro onde lavo o rosto e escovo os dentes. Saio do quarto e pelo relógio de cabeceira constato que ainda são 09h:13min da manhã. Por voltas das das 11h eu buscaria Sarada e tenho bastante tempo até lá.
Desço as escadas de casa e sinto um cheiro familiar de café invadir-me as narinas. Apresso o passo e sinto que meu coração vai à boca quando noto o ser miúdo de cabelos rosas de costas pra mim, enquanto coa o café. Tento coçar o olhos pra saber se é real, mas suas malas próximas ao sofá compravam que eu não estou vendo uma miragem.
E tudo fica ainda mais real quando ela se vira pra mim e abre o sorriso mais lindo que eu já vi na vida. — Bom dia, amor. — diz com a voz tão suave. — Surpreeeesa!
— É mesmo você? — pergunto como um bobo apaixonado que sou. De alguma forma não consigo sair do lugar.
— Claro que sim, querido! — ela ri e se aproxima. — Quem mais seria?
— É você!!! — grito e a pego no colo num abraço apertado. — Meu Deus, é você! Que saudade, Sakura! — a coloco no chão e minhas mãos vão direto a sua face, que agora está embaçada por conta dos meus olhos marejados. — Como eu senti a sua falta, querida! — beijo cada pedacinho do seu rosto, pescoço. — Do seu cheiro, da sua pele. De você inteira. — digo com sua cabeça recostada em meu peito, agora. — Sarada vai ficar radiante. — lembro imediatamente da nossa pequena. — Ela está na casa…
— Do Naruto. — me interrompe. Arqueio a sobrancelha em resposta. — Ela fez uma videochamada comigo, quando eu estava no aeroporto de Hong Kong. Por um momento, achei que não conseguiria fazer surpresa. — ela riu. — Sarada me disse que pediu a você pra dormir na casa de Naruto e Hinata.
— Eu pensei em negar, mas Naruto e Hinata disseram que não tinha problemas, que Boruto estava precisando de uma companhia. — expliquei. — Mas no fundo, eu não resisti aquela carinha dela. Depois que Sarada passou a usar óculos ela ficou ainda mais fofa. Eu me sinto um idiota.
— E eu me sinto uma péssima mãe, por não ter estado aqui neste momento. — sua voz soa um pouco triste. — Mas devo concordar com você, ela ficou ainda mais fofa. Eu vou amassar tanto a nossa filha quando vê-la, mas tanto.
— Ela não vai desgrudar de você. — digo o óbvio.
— Eu nem quero. Mas antes que eu mate a saudade da pequena, eu preciso conversar com você e é melhor que Sarada não esteja por perto. — senti um frio subir na espinha.
— O que foi, aconteceu alguma coisa? Por isso voltou mais cedo? — indaguei preocupado. Sakura já me puxava para sentar no sofá.
— Querido, preciso que fique calmo. — eu fiquei mais nervoso. — Sim, aconteceu. — Sakura ficou muda de repente.
— Meu Deus Sakura, você quer me matar? Fala de uma vez, mulher
— Eu estou grávida, Sasuke.
— O.quê? — sinto um soco direto no estômago. — Como assim, grávida?
— Você quer que eu realmente te explique como são feitos os bebês? Sério? — indaga irônica. Ainda me sinto perdido. — Grávida, Sasuke!
— Mas como? Quando você descobriu? — vejo Sakura se levantar e andar de um lado para o outro, me deixando mais tonto do que eu já estou.
— Essa semana, na quinta. — ela se senta de novo e me encara. — Eu descobri por acaso. — suspirou. — Uma das médicas que eu estava ensinando tinha algumas dúvidas com a relação a ultrassonografia. Como não tinha nenhum paciente, resolvi ser a sua cobaia. Notei que tinha algo estranho, quando percebi que a médica estava mais pálida que o jaleco dela. Quando olhei pra tela tomei um dos maiores sustos da minha vida. — os olhos de Sakura começaram a transbordar . — Isso é muito raro, eu dava de mamar a Sarada até pouco tempo e meu ciclo nem tinha regulado ainda. Minha menstruação sequer tinha descido. É pouco comum as mulheres estarem férteis neste período.
— Eu vou ser pai? — disse a mim mesmo e senti os meus olhos marejarem. — De novo? — Sakura balançou a cabeça positivamente.
— Eu queria ter te contado logo quando descobri, mas precisava fazê-lo pessoalmente. Ainda mais que… — Sakura engoliu em seco e senti o chão sumir sob meus pés. — Eu estou com dez semanas e é bem raro notar isso neste período, mas… a gravidez é de gêmeos.
— O QUE?
Sakura riu em meio às lágrimas e minha nossa, ela está tão linda. — Isso quer dizer, Uchiha Sasuke, que existem dois seres miúdos dentro de mim. — ela pegou minhas mãos e pôs em sua barriga que ainda nem aparentava gestação, mas que guardava duas vidas preciosas.
Sorri como um bobo e senti outra vez, naquela manhã, meu coração quase ir até a boca. Eu comemoraria como um louco, se as vistas não tivessem escurecido e eu tivesse perdido o resto dos sentidos.
Fale com o autor