Daylight
51 Amor
Notas iniciais
Você vai ter que encontrar
Aonde nasce a fonte do ser
E perceber meu coração
Bater mais forte só por você
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer
(Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor — Márcio Borges e Salomão Borges Filho)
Por Sakura
A gravidez por si só, já é um milagre da natureza. Como médica eu conheço as técnicas, estudo os casos, analiso pesquisas, colho dados, crio hipóteses e as testo. Mas apenas um pouco ou quase nada, me serve quando o trabalho de parto começa.
Dezesseis horas…
Eu estou em trabalho de parto há dezesseis horas de uma gravidez que eu e os gêmeos conseguimos levar até a 38ª semana. O que é raro em gravidez gemelar.
Eu fico me perguntando o que não é raro em relação aos meus filhos, no geral. Em nenhuma das gravidezes existiam condições favoráveis para a concepção. E, bom, cá estou eu, na banheira do hospital, outra vez, esperando que minhas novas crias venham para este mundo.
Já atingi os dez centímetros de dilatação e as contrações estão cada vez mais forte. A parte expulsiva do parto vai começar a qualquer momento, posso sentir o pulsar em meu ventre. Para a minha sorte e a das crianças, eles estão virados para baixo, até o momento do início do trabalho de parto. O que facilita, e muito, para nós três.
Olho ao redor do quarto e observo Tsunade e Mikoto numa conversa baixa. A face da mãe de Sasuke está preocupada, mas vejo minha madrinha tentando tranquilizá-la. Embora as duas tenham pedido que eu fizesse uma cesárea, eu decidi pelo parto natural e prometi que me cuidaria em dobro em relação a gravidez de Sarada. E foi o que fiz. Uma grávida exemplar.
Tsunade aceitou e respeitou a minha decisão, mas Mikoto foi dura na queda. Quando a bolsa estourou, as contrações ficaram ritmadas e estávamos a caminho do hospital, a cada segundo ela perguntava se eu não queria fazer uma cesariana. Eu a mandei à merda na sétima vez, sem nenhum remorso. Vendo-a preocupada desse jeito, agora, sinto uma pontinha de culpa e entendo o seu lado, embora isso não afete a minha decisão.
Sinto o dedilhar de Sasuke na base da minha coluna e respiro fundo porque sinto outra contração forte chegando. Depois da pontada solto o ar pela boca com a mandíbula travada. Aperto a perna esquerda de Sasuke para conter a dor. Não quero nem imaginar os hematomas que ficarão em sua pele branca. Dessa vez, ele está na banheira comigo e isso é muito reconfortante.
Ele tem sido tão companheiro e presente, que sinto meu peito encher de amor e vontade de chorar. Sempre atento e, às vezes, até um pouco chato. Não sei como ele conseguiu suportar alguns ataques de histeria que tive. Momentos em que nem eu me aguentava.
Vejo pequenos olhinhos negros já avermelhados pelo cansaço me fitarem. Sarada está deitada no granito em volta da banheira, usando um conjunto de moletom vermelho e agarrada ao seu boneco do Darth Vader que ela ganhou de Sasuke no seu aniversário de três anos.
— Filha… — falo baixinho e tentando aplacar a dor na voz. — Você não quer ir pra casa dormir? Não sei quanto tempo vai demorar aqui. Você está com os olhos vermelhos de sono.
— Não mama, eu quero ficar aqui. Você prometeu pra mim. — diz séria e bastante convicta.
Ter Sarada na sala de parto foi uma ideia que partiu dela. Ela queria, porque queria, saber por onde saem os bebês. Sobrou pra mim, explicar, já que Sasuke tremeu na base igual a vara verde. E eu não apenas expliquei por onde saem os bebês, como expliquei por onde eles entram e como funciona o sistema reprodutor masculino e feminino.
Claro que expliquei de uma forma que ela entendesse, mas sem essa história de sementinha e falsa cegonha. Sarada é muito inteligente e esperta pra sua idade e por isso não iria acreditar em qualquer história barata. Tanto que logo depois que eu expliquei, ela me questionou como foi que Sasori e Deidara tiveram um filho se os dois eram meninos. Tive que adentrar em novos assuntos, como o caso da adoção, abandono familiar, relação homoafetiva e transgeneridade. Fácil não foi. Todo questionamento inicial se transformavam em outros tantos. Fiquei orgulhosa da sua curiosidade e interesse sobre os assuntos, além da sua tamanha facilidade em compreender temas que são visto com tantas polêmicas.
Sasori e Deidara resolveram aumentar a família, logo, como não optaram pela gestação sub-rogada ou a popularmente conhecida barriga de aluguel ou solidária, eles partiram para a adoção. O que não é muito comum aqui no Japão. Um país que é tão desenvolvido tecnologicamente, mas pouco avançado em relações humanas. Eles adotaram o pequeno Hideo quando ele tinha um ano e dois meses. Um dos bebês mais fofos que eu já vi.
Depois disso, Sarada sempre vem com uma curiosidade nova. No auge dos seus três anos, ela já pensa fora da caixinha, na verdade, ela nunca esteve em uma. É muito mais mente aberta que muito adulto por aí. Neste ano, Sasuke, Sarada e eu, grávida de 5 meses, fomos à parada LGBTQIA+, em Tóquio, juntos com Sasori, Deidara e Hideo . Lembro como minha pequena ficou encantada, assim como lembro o quanto ela ficou irritada depois de contar o motivo do porquê esses eventos acontecem. Sarada não consegue admitir que pessoas sejam contras as outras por serem quem elas são.
— Mama, o coração da gente não é livre? O papa me disse que quando a gente ama, ama. Não tem explicação. O que tem de errado nisso? — lembro que fiquei chocada na época porque eu não tinha respostas para aquilo e nem Sasuke. Sarada simplificou e entendeu o que muita gente, sequer respeita. — Não consigo entender como tem gente que não gosta de um mundo colorido.
Sorri em direção a minha pequena. Sarada será uma grande mulher.
— Sim, a mama te prometeu, mas vejo que está cansada. Você pode ir dormir, se quiser. Peço para o vovô Kizashi te levar pra casa.
— Não! — sentou no granito e agarrou o Darth Vader com força. Ouvi Sasuke rir da sua reação. — Eu vou ficar aqui. Quero ver como os bebês nascem. Quero ver meus irmãos. — sorri mais uma vez.
— Tudo bem, mas preciso pedir que não se assuste. — tento ser rápida. Posso sentir mais uma contração chegando. — A mama vai gritar um pouco, a partir de agora, um pouco mais alto que antes. Não precisa ficar com medo, vai ficar tudo bem. — olho pra Sasuke que está me olhando de volta. — Vai nascer, querido! — vejo Sasuke assentir antes de uma dor avassaladora aplacar meu baixo ventre.
Quando olho em volta, mais uma vez, noto que Tsunade e Mebuki já estão ao meu lado. Me coloco de joelhos no chão da banheira e apoio uma das minhas mãos em uma das barras de ferro presa a parede e levo a outra para minha vagina, onde sinto o pequeno volume da cabeça de um dos meus filhos.
Os minutos seguintes parecem uma eternidade, até ouvir do choro do meu bebê, que emerge da água, agora vermelha, pelas mãos do pai. Olho emocionada para o amor da minha vida e, em seguida, vejo o novo amor da nossa vida. Sorrio como boba, anestesiada por essa felicidade sem tamanho. Pego o pequeno em meus braços e me aconchego em Sasuke. Olho pra Sarada e peço que ela se aproxime. Tsunade e Mikoto se afastam para que ela chegue mais perto. Vejo em seus olhos uma briga de timidez e curiosidade.
— Seu irmãozinho, filha. — digo baixinho olhando dela para ele. Os cabelos tão pretinhos como os de Sasuke e Sarada.
— Tão enrugado. — ela diz analítica. — Eu gostei dele. — Sasuke e eu rimos em meio às lágrimas. Ficamos assim até que outra contração me atingiu em cheio.
Eu tenho outro bebê para colocar no mundo, lembrei sentindo tudo outra vez.
Dei um beijo na testa do meu pequeno. — Seja bem-vindo, Satoru! — toquei na pontinha do seu nariz pequenino. — Seu irmão já está com saudades de você. — sorri e entreguei nosso filho ao Sasuke. Tsunade e Mikoto retornaram ao meu lado mais uma vez.
Depois de quase vinte minutos ou duas horas, eu não saberia dizer, Satoshi veio ao mundo pelas minhas mãos.
(...)
Na manhã seguinte, já estávamos na nossa casa. O quarto de hóspedes foi completamente reformado e passou a ser o quartos dos gêmeos, que, futuramente, será dividido em dois cômodos para que ambos tenham seu espaço individual, assim como Sarada.
Satoru e Satoshi fazem tudo ao mesmo tempo. Vai do mamar até o fazer coco e dormir. Diferentemente da irmã, eles são bem mais agitados e choram mais também.
Volto a reparar em meus bebês e sinto um misto de coisas em meu peito. Gêmeos univitelinos, branquelinhos, como o pai, assim como a cor de uma noite escura em seus cabelos. Fiquei tão curiosa para saber a cor dos seus olhinhos, mas eles demoraram para me mostrar. Ter filhos com Sasuke faz você acreditar que a sua única participação é na personalidade das crianças.
E, até aqueles serzinhos abrirem os olhos pra mim, eu achei que eles só teriam de mim o gênio. Mas, assim como a esperança é a última que morre e tem sua cor representada pelo verde, eu vi dois pares de olhos, tão verdes quantos os meus, me olharem com uma expressão curiosa. Acho que eles sentiam a minha expectativa e o frenesi que senti depois que vi aquelas orbes. É a garantia de que Sasuke não fez os filhos sozinho e que o gene Haruno é tão poderoso quanto o gene Uchiha. Resiste e persiste.
Encaro Sasuke e vejo que suas olheiras estão tão evidentes quanto as minhas. Sarada, que não desgrudou da gente e quis ajudar o tempo todo, está em seu colo, no décimo quinto sono. A roupa que ele está usando ainda é a mesma que ele colocou quando chegamos do hospital. A camisa branca, ou que um dia foi branca, está toda manchada de golfadas, xixi e cocô. Solto uma risada nasalada e volto meus olhos para os pequenos que estão em meu colo mamando como se não houvesse amanhã. Meus peitos estão enormes e estou me sentindo mais peituda que Hinata. Noto que minhas roupas não estão tão diferentes das dele.
— Sasuke? — ele me olha quase dormindo em pé. — Você vai fazer uma vasectomia! — ele solta uma risada, que mais parece um pedido de socorro, tomando cuidado para que Sarada não acorde.
— Vasectomia é minha nova meta de vida agora! — diz baixinho. — Até lá, eu só transo com você com camisinha ultra resistente. Tem um estoque delas no nosso closet. — o desespero faz morada em sua voz.
Eu rio e só peço à deusa misericórdia e forças para essa nova jornada que é ser mãe... de três!
15 anos depois...
Por Sarada
Hoje, foi o meu último dia de aula do ensino médio. Dali a duas semanas será a minha festa de formatura ou como alguns chamam, a festa da tão sonhada liberdade.
Não gosto de pensar deste jeito. Assim como a minha mãe, meu espírito já é livre por natureza. Não gosto de me apegar a mera convenções, para me dá uma liberdade que já é minha por direito.
Além disso, diferentemente de noventa por cento dos meus colegas, eu não estava pensando no curso que iria ingressar no próximo semestre. Não nego que pensei em entrar para uma universidade. Sou filha de Uchiha Sasuke, PhD em engenharia mecânica — com ênfase em nanotecnologia na indústria — e de Haruno Sakura, doutora em medicina — com especialização em cirurgia cardíaca pediátrica de alta complexidade e tratamentos não convencionais. Estudos e títulos acadêmicos, em minha casa, são como espécies de orações.
Meus pais abdicaram de muitas coisas para investirem em seus conhecimentos. Nossa casa, nossa cidade e nosso país foram deixados para trás. Para que meu pai fizesse o seu tão sonhado doutorado, tivemos que morar, por cinco anos, em Berlim, na Alemanha. Mamãe aproveitou e ingressou em seu mestrado, também na capital alemã. Além de toda essa mudança geográfica, ficamos afastados dos meus avós, tios, tias e amigos. Tendo a saudade sanada, apenas, quando eles iam nos visitar, já que nunca íamos para Konoha — nem nas festas de fim de ano e nem nas férias de verão. Sempre viajávamos e, por algum tempo, foi amargo admitir o quanto era legal conhecer novos lugares, culturas, sabores e o quanto isso ficou em mim e moldou o meu espírito livre. Eu e meus irmãos aproveitávamos o máximo dessas viagens, porque, quando voltávamos das férias, nossos pais dividam o tempo deles com a gente e com montanhas e mais montanhas de textos para ler, tese a desenvolver e cabelos à arrancar.
De início, não foi nada fácil para entendê-los, já que éramos muito grudados antes da mudança de país, mas, quando fui crescendo e amadurecendo, pude compreender o quanto aquilo era importante para eles e para nós. Graças a eles, eu e meus irmãos temos uma vasta cultura e conhecimento. Fomos a vários lugares, conhecemos muitas pessoas. Uma bolha nunca foi o nosso lar. Vimos o mundo em suas nuances felizes e tristes. Falamos alemão, inglês, espanhol e francês, fluentemente, além do japonês obviamente. Eu venho aprendendo o português há dois anos, mas eles não sabem ou eu acho que não, já que, por algum motivo, eu fiz questão de não contar.
Tenho o maior orgulho dos meus pais, por serem quem eles são e muito grata por tudo o que nos proporcionaram e, consequentemente, um terrível medo de decepcioná-los quando chegar a hora de contar a minha decisão.
— Um milhão por seus pensamentos… — ouço a voz de Boruto me chamar me fazendo emergir dos meus pensamentos. Sua mão direita, carinhosamente me afaga os cabelos num carinho gostoso. Estamos em seu quarto, nus, agarrados embaixo do seu edredom quentinho. Viemos da escola direto para cá.
Viro-me para Boruto e vejo sua orbes azuis claras me encararem com amor e carinho. Sinto que ele pode ver a minha alma e gosto disso. — Eu já te disse o quanto eu amo a cor dos seus olhos? E o quanto eu gosto de me enxergar neles? — pergunto boba e selo nossos lábios com carinho. As bochechas dele estão coradas.
— Meus olhos são o meu charme particular. — responde galanteador, mas eu sei o quanto está envergonhado. — O que eles mais gostam de fazer é admirá-la. — dessa vez a minha face esquenta, assim como todo meu corpo. Enterro meu rosto em seu pescoço e sinto ele beijar o topo da minha cabeça. — Você fica linda corada.
— Fico lisonjeada pelo elogio e com vergonha por cair em tamanho galanteio barato.
— Assim você me ofende. — diz fingido e suspira. — Você não vai mudar de assunto facilmente ou me fazer esquecer, amor. Me conta o que tanto te inquieta.
— Você sabe… — digo encarando seu nariz.
— Seus pais vão te entender Sarada, eles te amam. Você sabe disso, não há com o que se preocupar.
— Não é tão simples assim. — me acomodo em seu peito, mas logo ele levanta meu queixo carinhosamente. Fazendo-me encará-lo.
— Simples não é. O tio Sasuke e a tia Sakura são muito resolutos, quando o assunto é estudo, mas eles não podem te obrigar a algo que você não queira fazer.
— Você viu como eles ficaram, quando souberam que você não iria fazer faculdade, já que irá tomar à frente da cozinha de um dos restaurantes da família, mas se quer passará na porta do curso de gastronomia. Eles tentaram a todo custo te convencer do contrário, mesmo que sua comida seja uma das mais gostosas que eu já comi na vida. — ele sorriu bobo. — E digo isso não apenas como uma namorada apaixonada, mas como uma pessoa que já comeu muita comida por aí pelo mundo.
— Mesmo assim, eles respeitaram a minha decisão no fim das contas. Isso é o que importa, Sarada.
— Você não é filho deles. É muito mais fácil.
— Uma ova. — sua voz saiu um tanto irritadiça. — Eu não sosseguei até convencê-los. Eu precisei lembrá-los que meu avô — Hyuuga Hiashi — e seu irmão — Hizashi — começaram o Byakugan com uma barraquinha na praça de Konoha. Nenhum dos dois tinha curso de gastronomia, nunca pisaram numa escola de culinária sequer. Tudo que eles sabiam, tinham aprendido com a mãe, minha bisavó Harumi. Foi assim que o Byakugan nasceu e é isso que me move, Sarada. Numa cozinha, a técnica é importante, mas o sabor é o diferencial. Cozinhar pra mim é um ato sagrado, é um ato de amor.
— Eu sei, Bolt. Me desculpe, não quis ofendê-lo ou tirar sua razão. Eu sei o quanto foi difícil vencer meus pais no argumento. Mas eu sou filha deles, sabe? É como se eles tivessem falhado comigo.
— Sarada, para com essa bobagem. Eles podem ficar chateados, no primeiro momento, claro. Vai passar. E, quando passar, eles vão te apoiar. — sua voz é séria. Não vacila. — Seus avós te apoiam, seus irmãos, seu tio Itachi, a vovó Tsunade e, bom, você também tem a mim.
— Quando eles souberem que essa caralhada de gente sabe, eu tô bem mais fodida ainda.
— Quanto pessimismo, Sarada. Vamos pensar positivo!
— Vai lá, Namastê!
[...]
— Quer que eu te acompanhe? — indagou Boruto na soleira da porta de sua casa. — Eu posso ficar ao seu lado enquanto conversa com seus pais.
— Não. Eu preciso fazer isso sozinha. Já adiei por tempo demais.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Tudo bem. — beija minha testa. — Quando terminar por lá, me manda notícias, ok? E se o caldo entornar mais que o esperado, eu vou correndo te salvar, está bem?
— Eu nunca precisei de um príncipe encantado para me salvar. — dei um selinho em seus lábios e passei a me afastar. — Sou heroína da minha própria história.
— Eu nunca disse que seria um príncipe. — falou mais alto. — Sou apenas um aspirante a cozinheiro e que não vai para a universidade. Mas tenho muito amor por você, heroína da própria história e um conhecimento vasto de receitas. Alimento seu coração e seu estômago.
— EU TE AMO, SEU IDIOTA! — acenei e virei de costas.
— EU TE AMO, UCHIHA HARUNO SARADA! — sorri. Boruto é tão escandaloso quanto o tio Naruto!
O percurso da casa de Boruto até a minha dura menos de cinco minutos. Porém, de alguma forma parece que passou em segundos.
Coloco a chave no miolo da fechadura e prolongo por mais tempo possível. Quando abro a porta, tenho a visão dos meus irmãos deitados, no colo da minha mãe no sofá, enquanto ela lhe faz um cafuné. Logo mais atrás, eu vejo meu pai com seu óculos de leitura. Ele está sentado na mesa de jantar corrigindo algo. Ousaria dizer que são testes surpresas. Dificilmente, meu pai corrigi provas mais elaboradas ou trabalhos acadêmicos fora do escritório. Ele gosta de paz e sossego nestes momentos. Seus olhos estão pousados em mim e sinto um frio passar pela minha coluna.
— Finalmente, você chegou filha! — diz minha mãe animada. — Estávamos esperando você para pedirmos pizza! O que acha? — engulo em seco. Meus irmãos me encaram e com uma troca de olhares eles já sabem o que estão por vir.
— Mãe, Pai, será que a gente poderia conversar? — digo séria e com um medo do tamanho do mundo.
Minha mãe me encara, analítica, como meu pai está desde a hora que cheguei. Os gêmeos levantam do seu colo e se preparam para deixarem a sala, até serem interrompidos por ela. — Aonde vocês vão? Sarada quer conversar, vocês não ouviram?
— Ela precisa conversar a sós com vocês, mãe. — responde Satoru. Sua voz está naquela fase de transição da adolescência, afina, engrossa e vice-versa. Cada vez, fica mais parecida com a do papai.
— Nós estamos lá em cima. — Satoshi diz mais pra mim do que pra eles. Ambos se aproximam de mim e beijam cada lado da minha bochecha num sinal sincero de apoio. Posso ouvir o eu te amo de ambos.
Observo meus irmão subirem a escada. Gêmeos univitelinos, mas tão diferentes. Satoru é dado as conversas, um tanto bagunceiro, sua pele anda sempre bronzeada por conta das suas idas constantes até Suna, para surfar, junto com nosso primo e também seu namorado Ichiro, além disso, ele cria o cabelo, como tio Itachi, para desgosto de papai. Já Satoshi é mais reservado, organizado, mantém os cabelos mais curtos que o do vovô Fugaku, curte mais os jogos eletrônicos e tem uma queda pela minha cunhada, a Himawari, mas ela namora o Inojin. Tão novo e já sofre uma desilusão amorosa dessas. Eles são os amores da minha vida e, por muitas vezes, parecem que eles são os mais velhos.
— Estava na casa do Boruto? — pergunta meu pai. Meu olhar encontra o seu.
— Estava. — dou de ombros .
— Por que não avisou? Podíamos estar preocupados. — até parece, pai! Penso. — Você tem casa, mocinha!
— Vocês sabiam onde eu estava. — sinto um pouco de raiva presente na minha frase. Meu pai parece que nunca passa dessa fase de ciúme com relação ao Boruto. — E, de qualquer forma, se estavam tão preocupados, poderiam ter me ligado.
— Não é pra tanto, filha! — diz minha mãe antes de virar e encarar meu pai. Com certeza, ela fez uma careta pra ele, antes de pousar os olhos em mim novamente. — Seu pai é um pouco exagerado. Mas me diga, o que você gostaria tanto de falar conosco?
— Pai, será que você poderia sentar ao lado da mamãe para conversarmos? — tento manter a calma. O que é em vão. — Eu realmente prefiro conversar com você no modo pai e não no modo professor que adora ferrar os alunos com testes surpresas!
Minha mãe suspira, mas não diz nada. Ela já sabe que o negócio vai ser daí pra baixo. Meu pai arrasta a cadeira para trás sem modo algum, faz o barulho de propósito e se levanta. Os óculos, de lentes flutuantes, continuam em seu rosto e sei que não irá tirá-los. Mamãe diz que o papai fica ainda mais sexy com os óculos. Difícil é achar algo que ela não veja como sexy no papai. Afasto esses pensamentos da minha mente e aproveito para ajeitar os meus óculos, num tique nervoso, enquanto ele se senta ao lado da mamãe.
— E então? — ele indaga já sentado ao lado da minha mãe..
Falo de uma vez:
— Eu não vou para a universidade!
Um silêncio sepulcral toma conta da sala. Meus pais ficam pálidos numa espécie de sintonia perfeita e eu sinto meu coração apertar. Vou infartar meus pais ao mesmo tempo. Sou uma péssima filha.
— Mãe? Pai? — os chamo aos sussurros tomada pelo desespero. Vejo que a mamãe engole em seco, mas o papai está com um olhar distante, paralisado.
— Sarada, filha, como assim? — ouço a voz baixa da minha mãe.
Puxo o ar, com força, e solto de forma mais lenta. Eu tenho de mostrar aos meus pais o plano que eu já venho montando há alguns meses. Sei que ficarão desapontados comigo, uma vez que não dividi com eles. E, bom, terei que explicar isso pra eles também.
— Há algum tempo, eu venho pensando sobre meu futuro e não consigo me ver dentro de uma universidade. Na verdade, não existe nenhuma profissão que me atraia a tal ponto de passar um período considerável dentro de uma instituição.
— Como não, Sarada? — a voz de meu pai reverbera séria. — Você sempre frequentou universidades desde de pequena. Por acaso, você criou alguma espécie de alergia? — cinismo e acidez saem juntos com sua voz. Eu sinto meu estômago revirar e um bolo na garganta.
— Pai, não é isso.
— Então me diz o que é, Sarada. — sua voz sai mais grave. Pelos nós brancos em suas mãos, eu vejo o quanto ele tem tentado se controlar.
— Sasuke, querido, se acalme, por favor. — minha mãe pega a mão esquerda do meu pai e coloca entre as suas. Depois me encara. — Filha, fala pra gente, o que foi que aconteceu. Você sempre foi uma menina tão estudiosa, centrada, uma leitora voraz. Por que simplesmente não quer ir à universidade? Você sabe o quanto seu pai e eu investimos na sua educação e na dos seus irmãos.
— Eu sei, mãe. E sou muito grata por isso, mas eu sinto que, agora, a universidade não vai somar com o que quero fazer.
— E o que você quer fazer? — indaga mamãe.
— Eu tenho um projeto.
— Um projeto que não inclui a universidade. — meu pai cospe, mas eu ignoro.
— O trabalho que eu realizo no hospital me abriu muitas portas e também muitos questionamentos. — digo, me sentando na mesinha de centro em frente a eles. — Fotografar e filmar são umas das paixões da minha vida, mas fotografar e filmar partos é algo inexplicável. Partos são tão poderosos, amorosos e viscerais. — meu coração bate forte. — Não consigo mensurar o quanto amo fazê-los. E eu sinto, no canto mais recôndito do meu coração, que eu quero mostrá-los ao mundo.
— Me explica melhor, filha. — pediu minha mãe.
— A senhora, como médica, sabe o quão desinformadas as pessoas podem ser. Com relação aos partos, este número se intensifica. Há uma conspiração, que eu diria mundial, em demonizar o parto normal de tal forma que ele não é. E como a mulher vem perdendo o protagonismo neste momento único.
— Por que você não faz uma faculdade de medicina, então? — indagou meu pai, me cortando outra vez. — Já que isso te incomoda tanto. E aí você pode fazer o que achar melhor, na hora do parto.
— Porque eu não quero realizar partos. Eu quero mostrá-los, como de fato, eles são. Na sua mais pura essência. Só que quero fazer disso, um resgate ancestral.
— Ainda não entendo. — disse meu pai confuso. Minha mãe me olhava com certa expectativa.
— Meu objetivo é documentar as mais variadas culturas e costumes em relação aos partos, ligadas aos povos naturais e originários de determinado lugar. E como esses costumes e saberes antigos foram massacrados por essa cultura capitalista, que contabiliza número antes de pessoas.
— Sarada… — meu pai diz e posso sentir a frustração em sua voz. — Por que não cursa cinema, então?
— Pa.. — ele me interrompe.
— Por que diabos você quer pular as etapas? — sua cara decepcionada me machuca. — Será que todos esses anos, não serviram, para mostrar a você a importância de uma formação? De ter uma profissão? Eu estou me sentindo o pior dos professores, porque não consegui passar, pra minha filha, o valor de uma boa educação. Não pensei que você pudesse me decepcionar tanto.
— Sasuke! — mamãe o repreende. Mas já era tarde, as palavras não poderiam voltar da onde saíram. E, bom, meu pai não parece se abalar com a chamada da minha mãe, então ela apenas nega, com a cabeça, e volta seu olhar pra mim e sorri. — Me conte mais sobre seu projeto, filha. Estou muito curiosa.
Olho, mais uma vez, para meu pai, mas, a julgar pelo seu olhar perdido, desisto. Engulo o bolo na garganta e sorrio para minha mãe na intenção de evitar as lágrimas.
— Eu montei um roteiro… — suspiro. — A viagem durará em torno de um ano. Serão, cerca de dois meses a três, por continente, exceto a Antártica. Pretendo partir entre o fim de agosto e o início de setembro, e retorno ano que vem.
— Filha, mas um ano é muito tempo! — diz minha mãe. — E uma viagem dessa não será nada barata. Locomoção, alimentação, lugar para se hospedar, seus equipamentos, roupas… Seu pai e eu levamos uma vida confortável, mas não posso garantir que daremos conta.
— Não conte comigo. — diz meu pai. — Sarada não verá um iene do meu dinheiro, por conta dessa brincadeira. Fica ouvindo o filho da puta do filho do Naruto e dá nisso. Se ela quer acabar com vida dela, eu não irei apoiar.
Meu coração murcha e as lágrimas, que eu tanto segurei, desabam sem meu consentimento. Sinto uma raiva crescer em meu âmago junto com o trincar dos meus dentes.
Fecho os olhos e me concentro no meu coração acelerado, já que não quero ouvir a discussão dos meus pais. Odiava, quando eles brigavam, e odiava, ainda mais, quando o motivo era eu.
Meu cérebro vai até o passado e se passa um filme na minha cabeça para me lembrar de como cheguei até aqui e porque meu sonho tinha valor.
Antes de nos mudarmos para Berlim, tio Itachi me deu uma câmera fotográfica, para que eu pudesse registrar tudo que eu quisesse e gostasse, além de mostrar pra ele, depois, os lugares que eu visitava. Era uma promessa de nos mantermos unidos. Acabou, que tomei bastante gosto pela coisa e, aos dez anos, eu já sabia mexer numa câmera profissional melhor que muito adulto. Como nossa família viajava bastante, lugar para tirar foto não faltou.
À medida que eu crescia, fui me profissionalizando: fiz alguns cursos onlines e outros presenciais , aprendi a editar e tratar fotos, depois, aprendi a filmar, editar, montar… Faço um pouco de casa coisa dentro do audiovisual e amo.
Aos 15 anos, eu já era requisitada para fotografar e filmar partos, já que eu sempre gostava de assistir e, sempre que podia, Tsunade me levava para vê-los. Mas, antes disso, quando eu tinha 14 anos e ainda não estava namorando com Boruto, embora a gente desse uns pegas escondidos, ele me mostrou um site onde eu poderia vender minhas fotos e tirar uma graninha legal. Só precisava da autorização dos meus pais e eles me deram, desde que eu só mexesse no dinheiro após a formatura do ensino médio. E finalmente, este momento chegou.
— Eu não preciso de um iene do seu dinheiro, papai. — eu vou explodir. — Eu venho juntando dinheiro desde que comecei a trabalhar no hospital fotografando e filmando partos. Além das fotografias que eu vendo online, desde os meus 14 anos. Não é por falta do SEU dinheiro que deixarei de viajar. — Meu pai fica vermelho de raiva e minha mãe solta um “puta que pariu”. — E não se preocupe, pai. — deixo o cinismo vir à tona. — Meus avós também apoiam o meu sonho, inclusive, financeiramente. Embora eu tenha dito que não seria necessário.
— Sarada! — chama mamãe. Ela sabe que eu tava pegando pesado, mas no fim, era meu sonho em jogo. E ela, mais do que ninguém no mundo, entende o que é ir atrás do seu. Ela se vira pra meu pai. — Sasuke, querido. Você está vermelho… Sasuke, olha pra mim. — mas ele não olha e posso sentir seus olhos me perfurarem.
— Seus avós sabem? — ele pergunta baixo e ameaçador.
— Sim, os três. — deixo o cinismo vir a tona parte dois. — O tio Itachi também, Tsunade Baa-chan e Boruto. — resolvo excluir os gêmeos, porque não quero prejudicá-los, porém, papai me lê.
— Seus irmãos sabem, não sabem? — papai é assertivo e vacilo sob seu olhar. Os gêmeos estão ferrados. — Por isso, saíram da sala. Inferno! — ele grita, e fico, de verdade, com medo pelos meus irmãos.
— Meus irmãos não têm nada a ver com isso, pai. — tento não gritar. — É a minha vida em questão e eu farei dela o que bem entender.
— Aí que você se engana, mocinha. Você é menor de idade, Sarada. Pode não precisar do meu dinheiro, mas autorização minha você não tem para viajar. — diz triunfante e, pela primeira vez, eu me sinto muito pequena. — Você não vai a lugar nenhum, fora do Japão quiçá de Konoha, entendeu bem?
— Me obrigar a ficar não me fará ir a universidade, pai.
— Aí que você se engana, outra vez. De baixo do meu teto, as coisas são como eu quero. Você vai para universidade, sim senhora.
— VOCÊ NÃO PODE ME OBRIGAR.
— É O QUE VEREMOS, UCHIHA SARADA!
— EU ODEIO VOCÊ, SASUKE! — grito em plenos pulmões, e, apesar de ser libertador, me arrependo no segundo seguinte que olho nos olhos do meu pai. Eu nunca disse que odiava meu pai, eu sequer cogitei isso alguma vez na vida, nem nas piores tpms.
— Sarada, vai pro quarto. — mamãe diz baixinho sem olhar pra mim e nem para o meu pai. Eu tento retrucar, mas sua orbes verdes agora me encaram. — Filha, vai pro quarto, por favor! — abaixo a cabeça e algumas lágrimas caem dos meus olhos direto no meu tênis. Sem olhar pra ninguém, dou meia volta e sigo para o meu quarto num silêncio que me engole.
Depois de bater a porta do quarto com força, me jogo na cama e arranco os meus sapatos. As lágrimas caem copiosamente do meu rosto e eu me sinto a pior pessoa do mundo. Agarro um travesseiro e me encolho na cama.
Minha mente fica presa num looping que foi aquele momento terrível. Meu pai nunca iria me perdoar, mas, no fim, eu realmente não merecia.
(...)
Sinto um toque acolhedor, nos ombros, e, só agora, me dou conta de que peguei no sono. Abro meus olhos e a pouca claridade do abajur intensifica a minha dor de cabeça. Fecho os olhos por reflexo e sinto os dedos finos da mamãe acariciarem meus cabelos.
— Filha… — ela me chama baixinho. — Precisamos conversar…
Por Sakura
Vejo Sarada subir a escada pisando duro, até que não esteja sob meu campo de visão. Ouço a porta do seu quarto bater com força e, só agora, percebo que prendia a minha respiração. Puxo o ar com força demasiada. Meu coração ainda está acelerado.
Me viro para Sasuke e me permito olhá-lo. Estático. Olhando para o nada, como se o nada pudesse lhe responder algo. Lágrimas escapam dos seus olhos em um choro mudo. Consigo compreendê-lo e também a sua dor. Assim como compreendo Sarada. E ainda tento lidar com essa divisão e o que ela me causa.
Por muito tempo, eu não me sentia merecedora de receber suporte ou ajuda. Tinha que ser a mulher forte que aguenta tudo. Só permitia que Sasuke visse os meus momentos de fraqueza. Depois que nos separamos, apenas Ino e Sasori me viam dessa forma, sem nenhuma armadura ou máscara.
Mesmo depois da reconciliação com Sasuke e do nascimento de Sarada, eu ainda caia nessa armadilha de fortaleza inquebrável. Depois dos gêmeos, eu pensei que surtaria. Foi então, que eu decidi fazer terapia. Porque, ou eu olhava para aquilo ou seria engolida por aquele monstro.
No início, foi desafiador. Me sentia uma criança, que dava os primeiros passos, mas com a (im)paciência de um adulto. Fui colhendo os frutos pelo caminho e, aos poucos, fui me enxergando, como um ser humano vulnerável e corajosa, por entender que eu não preciso dar conta de tudo e carregar uma armadura só pesava e me afastava de mim e das pessoas que eu amo.
A partir disso, eu e Sasuke construímos uma família que dialoga, ouve, fala e acolhe. Conversamos sobre tudo. Somos uma base familiar fortalecida no amor. O colo que nossos filhos sabem que sempre podem ter.
Claro que já discutimos e discordamos. Nos exaltamos, afinal somos humanos, mas nunca chegamos ao ponto de dizer que odiamos uns aos outros. Por isso, entendo Sasuke. Contudo, ele não é o mocinho desta história e nem vilão. Ele ultrapassou limites e deu espaço para que Sarada fizesse o mesmo. Teria de lidar com as consequências.
Suspiro profundamente mais uma vez e me aproximo de Sasuke. Ele ainda está da mesma forma. Toco em seu ombro esquerdo com carinho, mas ele não se mexe.
— Querido?! — chamo baixinho e aguardo. Nada. — Sasuke?! — insisto e ele me olha. Os mesmos olhos de Sarada. Meu coração aperta.
— Você sabe que a culpa é sua, né? — ele diz baixo. Me corta a alma. — Sarada é igualzinha a você. Uma sonhadora sem limites, que esconde as coisas e faz o que der na telha dela. Teve bem a quem puxar, mesmo.
— É sério isso, Sasuke? — pergunto indignada, mas controlando a minha voz. — Me culpar vai te aliviar? Jogar as responsabilidades pelas escolhas da nossa filha, nas minhas costas, vai te deixar melhor? — o encaro, mas ele nada responde. Mordo as partes interna da bochecha de raiva. — Quer saber de uma? Eu não vou ficar aqui ouvindo você falar atrocidades, quando, claramente, você não sabe o que diz. Com licença.
Me retiro da sala e sigo pelas escadas, puta de raiva. Vou até o quarto de Sarada e vejo que minha filha pegou no sono depois de tanto chorar. Ligo a central de ar e pego um cobertor no seu armário para cobri-la. Afago seus cabelos negros, com leveza, e beijo sua testa antes de sair do seu quarto em direção ao meu.
Vou até o meu banheiro e resolvo encher a banheira. Eu também precisava relaxar, senão é surto na certa. Tranco a porta do banheiro, para que Sasuke não atrapalhe o meu momento, ou eu o mate afogado numa banheira de espuma.
Os acontecimentos passam na minha mente, como um filme, quando me entrego ao relaxado banho quente cheirando a jasmim. Sarada estava estranha há meses, mas nunca nos dizia nada. Tentei, por vezes, sondar e falhei. Me culpei e ainda me culpo. Se a minha filha não confiava em mim, para contar tal segredo, eu que sou a mãe dela, em quem mais ela confiaria?
Fecho os olhos e afundo com tudo na água. Prendo a respiração e deixo a mente vagar. Quando foi a primeira vez que eu vi Sarada ficar tão reticente em contar algo pra mim ou pra Sasuke e não percebemos?
Penso, penso e nada. Solto bolhas de ar junto com minha frustração e volto a superfície espumada. Limpo o rosto e decido encostar a cabeça na borda da banheira.
— Boruto, querido, você não acha isso muito arriscado? — digo um tanto abalada depois de ouvir meu afilhado e namorado de Sarada me contar que não vai à universidade. — Esse é um passo tão importante a ser dado na vida. Tem certeza que não quer vivê-lo?
— Tenho madrinha. — Boruto respondeu pacientemente.
— Mas é claro que ele não tem, Sakura. — Sasuke disse sério. Ele também estava presente neste dia. — Boruto é um cabeça oca como o pai. Naruto e Hinata concordaram com isso? — Sasuke indagou ao Boruto.
— Sim. Meus pais entenderam e apoiaram a minha decisão. — o mais novo disse convicto e sorriu ao final.
— É… uma fruta nunca cai longe do pé. Mas, ainda assim, não estou convencido. Você não quer pensar um pouco mais? — Sasuke disse e engatou num monólogo particular sobre o porquê todas as pessoas no mundo deveriam fazer universidade. Ainda assim, o mais novo não mudou de ideia. Sasuke emburrou a cara e emendou: — Eu jamais permitiria que Sarada fizesse isso. Deixar de ir à universidade é inegociável na nossa casa.
Desperto assustada e, só agora, me dou conta de que peguei o sono. A água da banheira já está fria. Agora, eu me lembro quando Sarada começou a ficar estranha com a gente. Ela também estava presente na conversa, mas nada dizia. Estava apenas dando apoio ao namorado. Ao menos, eu achei que fosse apenas por isso. Minha pequena estava nos estudando, lendo nossas reações para saber como seria quando fosse a sua vez.
Eu lembro do choque em seus olhos quando Sasuke disse que o quesito universidade é inegociável na nossa casa. É ir ou ir.
Naquele momento fiquei um pouco surpresa com sua reação, mas nunca imaginei que fosse por tal motivo. Sasuke e eu sempre conversamos sobre como seria quando nossos filhos fossem para a universidade, como seria a casa quando eles não estivesse aqui. Tínhamos uma mania idiota de sofrer por antecedência e nem perguntamos aos nossos filhos o que eles pensavam sobre isso. Até porque, estudo nesta casa é algo muito sério. Sasuke e eu mudamos completamente a nossa vida para que pudéssemos estudar fora, melhorar nosso currículo e crescer no âmbito da pesquisa científica. Até hoje, me pergunto como conseguimos tendo três filhos.
Levanto-me apressada e disposta a ter uma conversa com Sarada. Depois de me enxugar e me vestir, ainda no closet, dou de cara com Sasuke sentado na cama do nosso quarto. Sua expressão abatida fica ainda mais evidente sem a presença dos óculos em seu rosto.E por mais que isso me aperte o coração, eu não posso esquecer as coisas que ele me disse.
Decido ignorá-lo e tomo o rumo da porta. Eu não queria conversar com alguém que não parece estar pronto para conversar comigo.
— Eu sou um idiota. — Sasuske sussurra. Paraliso com a mão na maçaneta antes de virar para olhá-lo de novo. Dessa vez ele me encara. — Me desculpe. — posso sentir a vergonha e o esforço que ele faz pra dizer essas palavras.
— Você acha que se reconhecer um idiota e me pedir desculpas vai realmente apagar ou amenizar o que me disse horas atrás? — ele não responde e deixa de me olhar. — Sasuke, você jogou, na minha cara, a culpa pelas escolhas de Sarada. E não só isso, como usou uma das coisas que mais me prejudicou ao longo da vida contra mim. — apesar de tudo, minha voz saiu calma, mas não menos dura. — Você sabe como foi difícil olhar pra mim e admitir que eu não preciso ser forte o tempo inteiro, que eu posso pedir ajuda e que isso não me torna fraca. E, mesmo espectador de todas as etapas que eu passei, você simplesmente joga a bomba no meu colo.
— Eu sei. Eu sou um imbecil, um idiota. A porra de um companheiro e pai irresponsável. — sua voz está embargada e seus olhos marejados. — Eu fiquei com raiva, Sakura. — me encara e posso ver as lágrimas escorrer por suas bochechas. — Sarada disse que não vai pra faculdade e, de quebra, disse que me odeia. A minha menininha, minha pequena. Que eu prometi cuidar a vida inteira disse que me odeia, Sakura. Sabe quão fodido é isso?
— Querido… — ele me interrompe.
— Querido nada. Eu sou um bosta. Eu disse que a culpa é sua quando a merda da culpa é toda minha. Me desculpa, Sakura. Eu não te mereço, não mereço nossa família.
Pela deusa. Sasuke vai ficando mais velho e mais dramático. Que porra é essa?
— Sasuke?! — chamo mas ele me ignora.
— Ela disse que me odeia, Sakura. Ela me odeia de verdade?
— Sasuke, pare com isso. Já. — sento na cama e o encaro séria. — Sarada não te odeia. Mas não podemos negar o quanto você foi duro com ela. Precisava dizer aquelas coisas?
— Espera aí, você está apoiando essa ideia louca da nossa filha de não ir para a universidade?
— Eu apoio que nossa filha seja, feliz, querido. E, pra isso, eu preciso ouvi-la, descobrir seus anseios e sonhos. Se Sarada não quiser cursar uma universidade, nós vamos obrigá-la a fazer isso?
— Sakura?!
— Você vai obrigar a Sarada a fazer uma coisa que ela não quer, Sasuke?
— Não, claro que não. — ele diz baixinho. — Mas eu também não posso permitir uma loucura dessas. Ficar um ano fora, sabe-se lá onde, com quem e fazendo o que. Não quer fazer faculdade, tudo bem. Embora seja uma temeridade. Mas, sair assim, sem eira e nem beira, eu não vou permitir. Se quiser, ela vai continuar aqui, trabalhando em Konoha onde meus olhos podem alcançá-la.
— Meu amor, a Sarada não é mais um bebê. Ela não precisa da nossa preocupação e proteção integral há muito tempo.
— Eu sei. Mas ainda assim, ela é a minha menininha, Sakura. Pra mim é como se ela não tivesse crescido, continua a mesma menininha que anda pra cima e para baixo com o boneco do Darth Vader. É… talvez, ela seja uma pequena vilã no fim das contas.
— Sasuke para de ser dramático. Os gêmeos vão fazer intercâmbio por um ano e você não fez esse escarcéu todo. Até apoiou os meninos. Por um acaso, você ama mais sua filha que seus filhos? — digo séria atiçando a fera.
— Mas que absurdo é esse, Sakura? É claro que não.Você sabe, mais do que ninguém, que eu amo nossos filhos igualmente. — sim, eu sabia, embora ele sempre fosse mais protetor com Sarada, especialmente, depois que ela começou a namorar Boruto. O ciúme é uma merda — Mas, ao contrário de Sarada, eu sei pra onde o Satoshi e Satoru vão, onde irão ficar e morar, onde irão estudar. Nós já viajamos tanto para Brighton quanto para Lyon com as crianças. Estamos familiarizados. Sarada vai para lugares que nunca fomos, Sakura. Eu estou em pânico.
Satoru e Satoshi decidiram que queriam fazer intercâmbio e tiveram nosso apoio. Contudo, decidiram ir para lugares diferentes. A princípio fiquei receosa, claro. Eles sempre foram muito unidos, não à toa gestaram por quase nove meses juntos. E, mesmo com toda essa união, decidiram por lugares diferentes. Apesar da aparência física e conexão, meus meninos são bem diferentes um do outro e não hesitaram em também demonstrar isso quando decidiram ir para lugares diferentes.
— Querido, eu não sei, se você percebeu, mas Sarada meio que tem um plano. Nós saberemos onde ela estará e o que estará fazendo. Só que precisamos dar uma chance de ouvir a nossa filha. Entender seus desejos e suas escolhas. A criamos para seguir o próprio caminho.
— Como você pode estar tão tranquila? Você não se preocupa com nossa filha? Não tem medo por ela?
— Mas é óbvio que eu tenho. Você também acha que eu não estou em pânico com isso? Eu estou morrendo de medo.
— Você não preferia que ela fosse para a universidade?
— Com toda certeza. — digo sincera. — Mas a Sarada não sou eu e nem você. Ir para a universidade não a fará feliz. Mas entre Sarada fazer algo que quero a ela ser feliz, eu escolho mil vezes ela ser feliz. Por mais difícil e desafiador que seja pra mim. Eu odiei quando meu pai queria mandar na minha vida quando tinha a idade dela. Não faz o menor sentido eu me comportar da mesma maneira. Seria até hipocrisia da minha parte isso. Até você, Sasuke, não abaixou a cabeça pra seu pai, lembra? Ele queria, porque queria, que você fizesse engenharia civil, que tomasse a frente da Construtora Uchiha junto com seu irmão, mas você não desistiu do que queria. E ainda comprovou quão errado seu pai estava. Você acha justo ser um Fugaku 2.0 com sua filha?
— Porra, Sakura! — ele diz rendido. — Como eu vou contra-argumentar com isso? — ele me olha com cara de cachorro perdido na mudança. — Eu não sei se consigo lidar com isso. Com todo esse espírito livre de Sarada. Eu fico preocupado, prefiro que fique sob minha proteção.
— Eu também prefiro. Porém, com os filhos, nem tudo é como a gente gostaria. Nossa menina se tornou uma mulher, Sasuke. Inteligente, com opiniões fortes, criativa, cheia de ideias, linda, sonhadora e escritora da própria história. Ela é um falcão, como o pai, e de espírito livre, como a mãe, só que do jeito exclusivamente dela. E, se ela chegou aonde chegou, foi porque fizemos muitas coisas certas pelo caminho e, se erramos, foi tentando acertar. Nossos filhos são frutos daquilo que construímos juntos. Nossas melhores e mais valiosas obras de artes.
— Caralho, mulher!- Sasuke me encara com os olhos marejados e sorriso ladino nos lábios. — Você é a melhor mãe que meus filhos poderiam ter. — me puxa para seu colo — Você quer casar comigo?
— Não era você que dizia que não pediria mais e esperaria a minha vez de pedir?
— Você quebra o romance! — diz falsamente chateado. — Essa deve ser a quinquagésima vez que eu peço isso a você desde que voltamos a ficar juntos. E você me negou em todas. São quase vinte anos sendo rejeitado pela mulher da minha vida.
— Eu já sou a mulher da sua vida, querido. Você mesmo disse. Precisamos de um casamento pra quê?
— Eu ainda tenho fetiche na senhorita vestida de noiva! — disse enterrando seu nariz em meu pescoço. — Eu não resisto a você, Haruno Sakura.
— Toma vergonha nessa cara, Uchiha.
— Não tomo!
— Idiota!
— Linda! — sinto leve mordidas e cócegas em meu pescoço.
— Babacão!
— Maravilhosa! — pequenas mordidas no lóbulo da orelha.
— Para, Sasuke! — sorriu. — Para de tentar tirar minha atenção. Nós precisamos conversar com Sarada. Colocar o pontos nos i’s.
— Eu preciso colocar outra coisa em outro lugar agora. — diz malicioso.
— Sasuke!!!
— Ah, vai, Sakura só um pouquinho.
— Nem um pouquinho nem um poucão. — me levanto a contragosto. — Precisamos conversar com Sarada e eu ainda estou chateada com você. Esse é meu castigo.
— Abstinência sexual nesse auge da minha vida: Puta merda, viu?!
— Nem adianta ficar puto. Não vou mudar de ideia. — mesmo morrendo de vontade — pensei! — Precisamos mesmo conversar com nossa filha. Não quero que fique esse peso entre a gente e, principalmente, entre vocês.
— Tudo bem, tudo bem. — levantou da cama jogando as mãos pra cima em sinal de rendição. — Mas eu preciso ter uma conversa com meus pais antes.
— Sasuke…
— É sério, Sakura. Antes de conversar com minha filha, eu preciso conversar com meus pais. Eu estou me sentindo traído e não gosto desse sentimento. Eles ultrapassaram uma barreira que não competiam a eles. Sarada é nossa filha.
— E neta deles. — fiz questão de lembrar.
— Mas ainda assim, nossa filha. Nossa responsabilidade.
— Se for assim, eu também deveria conversar com meu pai.
— Mas você não está chateada com ele, não é? Acho que até gostou.
— Gostei mesmo. Prova que aquele velho Haruno não parou no tempo. Fico feliz que ele tenha respeitado e apoiado a escolha da nossa filha. Mesmo que não esteja tão próximo do hospital quanto antes, papai sabe bem como a Sarada é vista e reconhecida por lá. É um avô coruja mesmo. Não vou cortar a onda dele. — pisco um olho. — Mas entendo seu lado também e, se você sente que deve conversar com seus pais, eu te apoio.
— Obrigado.
— Vais conversar com Itachi também?
— Aquele idiota? — rio da sua careta. — Claro que não. Ele faria qualquer coisa que Sarada pedisse. Ficaria surpreso se sua posição fosse contrária.
— Você irá agora?
— Vou sim. Quando eu voltar conversamos: eu, você e Sarada. Tudo bem?
— Tudo bem. Enquanto isso eu vou fazer algo com os gêmeos. Assistir um filme ou jogar vídeo-game.
— Coitada das crianças. Vê se não faz a curva junto com o controle quando jogar Mario Kart.
— Vai se foder, Sasuke!
[...]
No fim das contas, Satoru, Satoshi e eu decidimos assistir Harry Potter e a Pedra Filosofal. Sim, Sasuke e eu inserimos as crianças nesse mundo -literalmente — mágico e maravilhoso. Todos nossos filhos amam os livros e filmes.
— Será que o papai está brigando muito com a vó Mikoto e o vô Fugaku? — indagou Satoshi assim que os créditos do filme começaram a subir. Nós três estávamos deitados numa cama improvisada no meio da sala e eu estava entre os dois.
— Seu pai não foi pra brigar, filho. Foi para conversar com seus avós.
— A gente ouviu a gritaria, mãe. — respondeu Satoru. — Ele parecia bem bravo. E a Sarada também.
— Os dois disseram coisas, um para o outro, que não queriam, mas, uma vez dita, ditas estão. Além do mais, o pai de vocês ficou chateado, entende? Ele sente que os pais dele passaram por cima da autoridade dele como pai de Sarada. Ele não está totalmente errado.
— Se fosse a gente, o papai não faria isso. — disse Satoshi. Como eu disse antes, ciúme é uma merda. E Satoshi é bem parecido com o pai neste quesito.
— Ele faria sim e você sabe disso. — digo séria afagando o cabelo de ambos. — Sempre que seus avós passaram dos limites, o pai de vocês sempre falava com eles.
— Mas vô e vó foram feitos para estragar, mãe. — Satoru falou baixinho quase dormindo diante das carícias.
— Eu sei, querido, mas ainda somos os pais, entende? É nosso dever legal ser responsáveis por vocês. Nós somos os pais. Nós geramos vocês. Quando vocês se veem perdidos, ou precisando de carinho e colo, orientação, conselhos, roupas, quando tem um passeio de escola ou quando têm pesadelos… quem vocês procuram primeiro?
— Você e o papai. — responderam uníssono.
— Seu pai e eu tínhamos que ser os primeiros ou um dos primeiros a saber do plano de sua irmã. Houve uma falha de comunicação por nossa parte, assim como sua irmã supôs a nossa reação.
— Errada ela não estava, né? — disse Satoru.
— Não totalmente. Eu sei. E, apesar de tudo, sempre prezamos por diálogo na nossa casa.
— Às vezes, o não dito também é dizer, mãe. — Satoshi, às vezes, me quebrava com suas argumentações poéticas.
— Eu sei, querido. Na dúvida é melhor dizer. Validar aquilo que está sentindo. Se tudo fosse conversado, antes, sem pressão, sem agonia o resultado poderia ter sido diferente. — suspiro. — Mas, agora, não dá para mudarmos. Vamos trabalhar com o que temos.
Encerramos aquele assunto e passamos a conversar trivialidades. Entre carícias e afagos os meninos pegaram no sono. Me permitir analisar aquelas duas lindezas e minha nossa. Como Sasuke e eu fizemos coisas tão bonitas quanto nossos filhos? Puta merda, viu?! Eu acertei na loteria dos filhos bonitos.
Fui pega no flagra por um Sasuke sorrateiro e silencioso que nos observava com um sorriso no rosto. Sorri de volta. Eu acertei na loteria em muitas coisas da vida.
— Demorei muito? — ele perguntou baixinho.
— Não muito. Como pode ver, pra mim, o tempo passou voando.
— Eu estou vendo.
— Como foi com seus pais? — vi seu semblante ficar sério e depois suavizar.
— Foi tranquilo, no fim. Como tinha que ser. — deu de ombros. — Vamos conversar com Sarada?
— Você quer fazer isso realmente agora? Não prefere esperar amanhã?
— Não. Quero resolver isso o quanto antes. Você sabe que eu não gosto de dormir brigado com você ou as crianças. Não quero dormir com esse sentimento de culpa dentro de mim nem quero que a minha filha pense que eu sou esse homem careta e neandertal que ela viu hoje.
— Tudo bem, querido. — digo enquanto tentava me desvencilhar dos meninos sem acordá-los. — Me dá uma mãozinha, por favor. — ele riu antes de me ajudar.
— Vem!
[...]
Em frente a porta do quarto de Sarada olho, mais uma vez, para as orbes escuras de Sasuke e, numa pergunta muda, indago se é isso mesmo que ele quer. Recebo um aceno positivo e, com isso, dou batidinhas suaves na porta, chamando por Sarada.
Por Sasuke
Ainda dentro carro, antes mesmo de sequer ligá-lo e tomar o caminho da casa dos meus pais, eu sinto meu peito apertar. A sensação é de que vou morrer afogado, mas em terra firme.
Os acontecimentos de poucas horas atrás me tiraram por completo o chão. Eu nunca esperei, sequer imaginei, que minha filha tomaria uma atitude como essa. Desde criancinha, ela sempre foi uma entusiasta quando o assunto era universidade. Sempre a levei comigo bem pequenininha e ela amava. Era uma espécie de segunda casa. É… talvez, ela tenha mesmo pegado uma alergia.
Mas, o pior de tudo é, a sensação de me sentir traído, a qual eu tenho comigo agora. Primeiro, pela minha filha, que não conversou comigo. O que é muito estranho, porque sempre conversamos sobre tudo. Até quando ela teve a péssima ideia de começar sua vida sexual com aquela peste do Boruto, ela veio conversar comigo e com Sakura, pedir conselhos. Quase morri? Quase morri, óbvio. Eu não queria que minha filha namorasse aquele cacho de banana podre. Contudo, o que posso fazer? Mandar nos sentimentos da menina? Não posso. O que me restava era confiar nela e estar sempre aqui por ela e pelos irmãos.
Sakura e eu sempre fomos muito tranquilos com as crianças. Isso não era visto com bons olhos, ouvimos muitas vezes dizerem que nossos filhos seriam mimados, grudados na gente o tempo inteiro e adultos frustrados. Tudo isso, porque validamos os sentimentos e ouvimos sempre o que nossos filhos tinham a dizer. O que demos a eles foi a chamada criação neurocompatível. Um movimento crescente dentro da psicologia, mas que, na nossa época, era ainda muito novo. E, claro, demos muito e damos, até hoje, muito amor aos nossos filhos.
E, mesmo depois de tudo isso, ainda não estava preparado para lidar com toda a independência da minha menina. Se eu pudesse, eu deixaria ela bem protegida para sempre no meu colo. Protegeria de todo mal, de toda a decepção, as tristezas da vida. Mas, no fundo, eu a impediria de viver.
Eu não esperava esse bater de asas tão cedo. Tão logo. E, ainda, na mesma época que o intercâmbio de Satoru e Satoshi. A casa ficará tão vazia sem risada das minhas crianças ecoando por todos os cantos. Ou sem as noites de pizza e filmes. Ou sem as disputas acirradas quando jogamos algum jogo de tabuleiro.
Será que eu estou pronto para essas ausências?
No fundo, eu sei que não. Mas é preciso estar.
Suspirei fundo, enxuguei algumas lágrimas que sequer eu sabia que haviam escapado e liguei o carro rumo à casa dos meus pais, onde não demorei para chegar. Fui recepcionado por minha mãe, que não parecia surpresa em me ver ali, a julgar por sua reação e pelo que leu da minha cara.
Estamos, agora: eu, minha mãe e meu pai sentados na sala num silêncio ensurdecedor. Eu estava sentado num sofá de frente para o deles.
— Desembucha de uma vez, Uchiha Sasuke. Eu não tenho dia todo aqui. — disse minha mãe impaciente. Quanta mais velha ela fica, menos paciência ela tem. É tão engraçado ver a quantidade de cabelos brancos adornando a cabeça dos meus pais e rugas que eles tem embaixo dos olhos. Acho que elas não estavam ali da última vez que os vi.
Soltei a respiração, que nem tinha percebido que prendi, e falei: — Posso saber porque vocês passaram por cima da autoridade como pai de Sarada e deram dinheiro pra essa loucura que ela quer fazer?
— Minha nossa, Sasuke. Todo esse drama por conta disso? — minha mãe disse revirando os olhos. — Minha neta me contou o que queria fazer e não vejo mal em apoiá-la nisso. Quanto a ajuda financeira, ela disse que não precisava, mas insistimos. Ficamos mais tranquilos assim, não é, Fugaku? — meu pai apenas assentiu sem tirar os olhos de mim.
— Posso saber por que apoiaram essa sandice? Sarada não quer ir para a universidade. Vocês têm noção do quanto isso é grave?
— É o sonho dela, Sasuke. O que queria que eu fizesse? — minha mãe disse como se fosse óbvio. — Eu tentei falar com ela, mas Sarada está muito certa do que quer para si. E, outra coisa, isso não quer dizer que ela não possa fazer faculdade no futuro. Eu também estou com o coração na mão e um comichão na barriga e, mesmo assim, confiante nela. É a vida dela, meu filho.
— Mesmo assim, vocês não deveriam ter passado por cima da minha autoridade de pai.
— Não passamos por cima da autoridade de ninguém. Só a apoiamos.
— E você, pai, não vai dizer nada? — digo emburrado na direção de meu pai. — Por que apoiou a Sarada?
— O porquê eu apoiei sua mãe já respondeu por mim. Sarada está muito convicta do que quer. E me lembrou muito de você 25 anos atrás. — disse saudosista. — Lembra quando você bateu de frente comigo e disse que faria engenharia mecânica eu gostasse ou não. Briguei contigo, não te apoiei e ainda fiquei chateado por muito tempo. Mesmo você tendo se formado. E, no fim das contas, o que eu ganhei com isso?
— Não sei. — respondo baixo.
— Eu não ganhei merda nenhuma e, ainda, perdi tempo com meu filho. — ouço um fungado, vejo minha mãe com lágrimas nos olhos. — Você escolheu o seu caminho, filho. É um profissional brilhante, realizado. Um pesquisador premiado. Você me mostrou o quanto eu estava errado, Sasuke. Eu não poderia cometer esse erro outra vez com Sarada. É como se eu tivesse negado e esquecido tudo que você me ensinou, filho.
E, de repente, me vi ali entre meus pais. Chorando, como uma criança pequena, velando uma dor que eu guardava e nem sabia que tinha.
E, como uma criança, meus pais me colocaram sobre seus colos. Meu pai acariciava os meus cabelos e pedia perdão por todos os erros que ele julgou cometer. Mamãe me acariciava as pernas e chorava junto comigo.
Nesse mar de perdões, lágrimas e muito amor, eu peguei no sono, como uma criança que procura os pais na cama depois de um pesadelo. Foi muito bom. Nem eu sabia o quanto precisava disso. Muitos anos fazendo o papel de pai e esquecendo o meu papel de filho.
Quando acordei, mamãe decidiu fazer uma sopa de tomate bem rápida e eu decidi contar pra eles o que tinha ocorrido lá em casa. Eles puxaram minha orelha, claro. Eles são loucos por Sarada e muito mais protetores do que eu se duvidar. Mas compreenderam bem o meu lado. Eles disseram que eu deveria ouvir a minha filha de uma vez e acabar logo com isso. Eu também penso desse jeito.
Depois da sopa e de mais um pouco de conversa com meus pais e uma ligação de vídeo com o folgado do meu irmão, eu voltei pra casa e encontrei Sakura com os gêmeos esparramados no chão da sala. Sorri com a cena. Nenhum título acadêmico, artigo científico e pesquisa chegaria aos pés da família que eu Sakura construímos juntos. Nem todos os pedidos de casamento declinados.
Ao chegar no quarto de Sarada, notamos que ela não respondia. Sakura decidiu entrar e percebeu que ela estava dormindo. Eu podia ver os resquícios de lágrimas no rosto da minha filha e, por isso, escolhi não esperar pelo dia seguinte. Essa conversa precisa ser agora.
— Filha… — Sakura chama baixinho afagando os cabelos da nossa menina. — Precisamos conversar… — Sarada coça os olhos por conta da iluminação do abajur. — Eu, você e seu pai. — só agora Sarada me nota. Seus olhos estão marejados.
— Vocês vieram brigar comigo de novo? — ela diz baixinho enquanto se senta na cama, sem nos encarar.
— Não. — responde Sakura. — Nós viemos conversar com você. — Sakura e eu sentamos na cama. Um em cada lado de Sarada.
— Pai… — minha filha chama baixinho mas não me olha. — Eu… — sua voz embarga. — Eu…
— Eu sei, filha. — digo e ela me encara. — Eu sei que não.
— Eu não te odeio, pai. — minha filha me abraça apertado e molha minha camisa com seu choro. — Eu não te odeio… mas… mas eu fiquei… fiquei triste e… com raiva… do que você disse. Me… me desculpa.
Deixo que ela chore tudo que tem pra chorar e afago-lhe os cabelos tão pretos quanto os meus. Percebo que Sakura olha pra nós dois em lágrimas também.
Espero que nossa filha se acalme e, quando noto isso, peço-lhe:
— Me desculpa também, filha. — digo sincero. — Não foram corretas, as coisas que lhe disse. Me perdoe por tê-la machucado. Fui pego de surpresa, confesso. Ainda assim, poderia ter agido de uma maneira melhor.
— Tá tudo bem, pai. Eu deveria ter conversado com vocês antes de qualquer forma.
— Bom… — Sakura pigarreou. — Todos erramos, não é mesmo? Como disse seu irmão, Satoshi, lá embaixo, não dizer também é dizer. Seu pai e eu percebemos como você estava receosa em contar seus planos e sonhos. Portanto, finalmente, estamos entendidos e perdoados, podemos ouvir tudo que você tem para nos contar. Como sua mãe, aposto que você já tem tudo anotado, nos mínimos detalhes.
— Vocês vão me deixar viajar? — sua voz sai surpresa, quase um grito. — Sério?
— Antes de qualquer coisa, queremos ouvir você primeiro. Quais os seus planos, onde irá ficar, com quem, o que irá levar, quanto tempo em cada lugar, quais lugares… quando começa e quando termina sua aventura. — digo de uma vez por mais apertado que meu coração esteja.
— É sério? — ah, finalmente. O sorriso da minha filha está ali outra vez, onde sempre deve estar e nunca sair. Eu queria que sempre fosse assim.
— É sério. — Sakura diz. — Querendo ou não, você é menor de idade, filha. Esse é um voto de confiança imenso que seu pai e eu estamos dispostos a dar para você. Só iremos permitir, se tivermos certeza que você estará segura nesse mundão da Deusa.
— Tudo bem, eu não irei decepcioná-los. — ela se levantou, pegou o notebook, na escrivaninha, e voltou para cama com objeto já aberto. — Bom, o primeiro lugar que eu irei será o Brasil.
— Mas você não fala português, Sarada. — digo.
— Eu tenho uma colega que é brasileira, pai. Sato Naomi. Ela já veio aqui em casa algumas vezes. A mãe dela é brasileira e o pai, japonês. Eles se conheceram e casaram lá no Brasil. Ela nasceu lá, mas veio pra cá com oito anos. A família dela se mudou de Tóquio para Konoha tem uns dois anos. Ela vem me ajudando com o português brasileiro e eu vou ajudando com o francês.
— E como você está com o português? — perguntei.
— Fácil não é, não vou mentir para vocês. Mas o fato de falar espanhol e francês ajuda. Os três derivaram do latim. Ainda assim, eles têm palavras para tudo e muitas variações sem fim. — sorri. — Eu sei que vou conseguir.
— Eu sei que sim. — diz Sakura. — Mas me conta o restante mocinha… sei que tem muita coisa pela frente.
Sarada passou madrugada a fora contando e mostrando todos os seus planos e roteiros. Ela realmente já tinha praticamente tudo pronto. Tsunade indicou boa parte dos lugares e ajudou a nossa filha a contactar as pessoas.
É um plano ambicioso e milimetricamente montado. Mesmo que ela tenha um ano para fazer tudo, parece pouco para o tanto de lugares que ela almeja ir e ficar. Ainda assim, eu tinha de confiar em Sarada no fim. Ela saberia dar um jeito caso as coisas não ocorressem da forma que ela previa.
Enfim, Sakura e eu decidimos dar esse voto de confiança a nossa filha e apoiá-la nessa empreitada além de dar autorização para tal. Faltava cerca de três meses para Sarada, Satoshi e Satoru viajarem. E eu já morro de saudades das minhas crianças.
1 mês e 3 semanas depois...
Acordo sentindo os cabelos de Sakura em meu rosto e seu cheiro característico de frutas vermelhas me apetece. Posso sentir meu coração vibrar com a intensidade e familiaridade que ela causa em mim. Mesmo depois de tantos anos, eu ainda me sinto aquele adolescente que se apaixonou pela melhor amiga. Seria até cômico se eu não completasse 47 anos amanhã. Rio e sinto Sakura se remexer.
— Sasuke… — resmungou com a voz rouca.. Rio outra vez.
— Já acordada? — indago baixinho.
— Não por minha vontade. Me deixa dormir, por favor.
— Eu não tinha intenção de te acordar, querida. Não tenho culpa se depois da crianças você desenvolveu um sono leve.
— Filhos, como não amá-los, não é mesmo?
— Queria ver a cara das crianças se você dissesse isso a eles. — afundo meus lábios em seu pescoço.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Essa é uma seara privativa dos pais, não quebre a corrente, Sasuke. Agora me deixa dormir.
— Poxa, pensei que ganharia uma rodada de sexo matinal.
— Você até ganharia um sexo matinal, se não tivesse acabado comigo no sexo da madrugada. Eu tô moída, querido. Meu clitóris está em estado de calamidade.
— Exagerada. — aperto mais ainda meus braço esquerdo em sua cintura. — Eu deveria levar isso como uma ofensa se eu não sentisse meu ego massageado agora.
— Eu massageei mais que seu ego na madrugada. — ela se vira pra mim com aqueles verdes que são a minha perdição.
— Oh, foi realmente bom. — encosto meus lábios nos seus e mordo seu queixo em seguida. — Tão bom que quero uma reprise.
— Dorme e sonha. — ela ri contra a minha boca.
— Mulher, você é diabólica.
— Eu estou realmente cansada, querido. E, mesmo amando trepar fodidamente com você, eu preciso descansar.
— Sakura! Você não pode dizer que está cansada e que ama fodidamente trepar comigo na mesma frase. Você ainda vai me matar qualquer dia desses.
— Eu posso sim e muito. Você é gostoso demais pra minha sanidade mental. — ela faz um desenho abstrato com dedo indicador direito no meu peito. Posso sentir minha pele esquentar por onde seu dedo passa. — Além disso, é um companheiro amoroso, dedicado, delicado, presente e um pai acima da média. As amigas de Sarada e suas alunas, com certeza, te querem como sugar daddy delas. — estalo a língua fingindo falsa modéstia.
— Eu já tenho a minha sugar mommy não preciso dessas meninas.
— Você tá me chamando de velha, Sasuke?
— Você é mais velha do que eu. Quase quatro meses, então posso considerá-la a minha sugar mommy. Gostosa pra caralho, por sinal.
— Você deveria ter 25 a menos, querido. Mesmo você fodendo bem, eu não te bancaria.
— Maldade. Ainda bem que eu não tenho 25 a menos, tenho emprego estável, fodo bem e sou o pai do ano. E como você mesmo disse: um companheiro amoroso, dedicado e delicado.
— Eu falei: um pai acima da média.
— Me deixa sonhar, Sakura. — ela ri e, como um idiota, eu me perco no seu sorriso. — Você é linda.
— Não me olha com essa cara, Sasuke.
— Com que cara?
— A cara de que vai me pedir em casamento pela milionésima vez.
— Você por acaso aceitaria?
— Não.
— Tão romântica.
— Faz parte do meu charme. — me encara. — Amo o que a gente construiu sem precisar formalizar ou provar nada pra ninguém. Eu te amo muito. E sou mais do que grata por ter você todo dia colorindo a minha vida de um jeito só seu.
— Pensei que eu fosse mais do tipo preto e branco e você a colorida.
— Ah, você é bem colorido, Uchiha. Tem um pau rosa lindo. — diz contra meu peito e rindo contra minha pele.
— Sakura… — antes que eu agarre e a entupa de cócegas o alarme do meu celular dispara. — Você é muito sortuda.
— Você e Sarada vão mesmo uma hora dessas fazer fotos? O sol ainda nem nasceu.
— Mas já vai nascer e eu prometi a ela. Ela escolheu o destino da viagem da gente e sabe-se lá quando voltaremos à Grécia. Sifnos é linda e você sabe como Sarada fica com paisagens bonitas. Quer registrar tudo e, de preferência, com luz natural.
— Sarada é uma verdadeira entusiasta e você um pai babão. Voltam até a hora do almoço?
— Pretendo voltar um pouco antes. A gente ainda não decidiu o local que almoçaremos hoje.
— É verdade. Me esqueci.
— Pois não esqueça e durma mais que o necessário. — beijo seu pescoço e sua boca. Ela ri dengosa. — Te amo! Volto daqui a pouco.
Muito a contragosto deixo a cama quente com a mulher da minha vida.
Preciso agilizar. Se conheço bem Sarada, ela já deve está indo para o restaurante do hotel tomar café da manhã.
[...]
Sarada e eu saímos do hotel um pouco antes das cinco da manhã. O dia nem tinha nascido ainda.
Nós assistimos ao nascer do sol juntos sentados em uma das muretas que cercam a ilha de Sifnos em pleno Mar Mediterrâneo.
Já estamos na Grécia há três semanas. Passamos pelas praias de Kamares — a mais visitada e um dos maiores pontos turísticos- Artemontas — mais tranquila, mas não menos bela. Hoje estamos em Kastro, que é a antiga capital de Sifnos. Hoje, a capital é a Apollonia.
Em Kastro, há duas igrejas as quais Sarada quer fotografar: Agios Nikolaos e Sete Mártires. O que mais há, em Sifnos, são monastérios e igrejas. Todas muitos belas e carregadas de histórias. Os olhinhos da minha filha, quando encontram os lugares e começa a fotógrafa-los, me dá um calor no coração. O brilho em seus olhos é mais bonito que qualquer monumento pego por suas lentes. Sejam eles feito pelos deuses ou não. Vale cada despertar na madrugada, café da manhã na correria ou as caminhadas intermináveis.
— Pronto, pai. — ela diz empolgada. — Falta apenas a igreja de Sete Mártires agora e depois voltamos ao hotel.
— Sua mãe e seus irmãos iam adorar esses lugares. Pena que não vieram.
— A gente ainda tem uma semana aqui na Grécia. Podemos voltar com eles. — ela sorri animada. — Sem precisar acordar tão cedo como fizemos. Prometo.
— Certo. Agora, vamos à última igreja ou chegaremos depois do almoço e sua mãe arranca meu couro.
— Você tem tanto medo assim da mamãe?
— Você não tem? — ela ri em resposta. — Conheço sua mãe há mais de 40 anos e não tem um dia que ela não tenha me botado medo.
— Ai, papa! Você é mesmo um bobo. No fundo, você não tem medo. Só a ama muito e faz todo o possível para vê-la feliz.
— É, isso também é verdade. Eu amo muito a sua mãe. Cada pedacinho e cada jeitinho dela, até mesmo o torto.
— Ela também ama você e muito. Principalmente quando você usa esses óculos de lentes flutuantes cafona.
— Você está chamando seu pai de cafona? — finjo irritação.
— Não. Eu disse que seus óculos são cafona.
— Eu deveria deixar a senhorita ir andando até a igreja.
— Ah, não, pai. Que maldade. Eu estou amando andar de moto. — como a parte de Kratos é cheio de ruelas e becos, eu decidi alugar uma moto pra Sarada e eu transitarmos pelos lugares. — Mamãe sabe que o senhor alugou uma moto?
— Não e nem precisa, Sarada. Depois eu conto a ela. Sua mãe morre de medo de moto, mas ama andar de bicicleta entre os carros. Vai entender!
— Então vamos!
Sarada arruma as câmeras dentro da mochila e monta na garupa da moto. O percurso é rápido mesmo que a velocidade seja baixa. O lugar é tão bonito que a vista compensa a velocidade.
Deixamos a moto na colina próxima a longa escadaria que dá na igreja de Sete Mártires. Sarada dá tantos cliques com a sua câmara que eu sou incapaz de contar. Olho no relógio e vejo que são pouco mais de 10h:30min da manhã. A promessa de encontrar Sakura e os gêmeos antes do almoço vai ficar apertada. Resolvo mandar uma mensagem pra ela avisando do possível atraso mesmo estando no último ponto turístico. Sua resposta vem logo em seguida.
Sakura diz:
Me conte uma novidade, Uchiha Sasuke. Você já foi muito pontual, mas, quando se trata das crianças, você não vê a hora passar.
Eu:
Ser o pai do ano não é tão fácil! Ônus e bônus.
Sakura diz:
Pai acima da média!
Deixe de conversa mole pelo celular e adiante o seu lado e de sua filha.
Eu estou morrendo de fome.
Eu:
Esfomeada.
Volto logo!
Te amo!
Sakura diz:
Amo você!
— Sarada, filha, vamos demorar muito? — indago e Sarada aponta sua câmera pra mim e tira uma foto. — Sua mãe está morrendo de fome e nem deu onze horas da manhã.
— Ela deve ter perdido o horário do café da manhã do hotel. — ri e confere a foto. — Nada novo sob o sol, papa! Não se preocupe. A igreja é pequena, não vamos demorar.
Minha filha e eu logo chegamos à igreja. Antes de adentrarmos, Sarada tira outras tantas fotos. O lugar é lindo. Vários tons de azul e branco que se misturam com rochas e um pouco de grama. Quem quer que tenha desenhado esse lugar, estava inspirado.
— Vem, papa! — Sarada me chama antes de passar pela porta azul da igreja. — Ela é tão bonita e pequena. Parece até de boneca.
O local é pequeno e muito aconchegante. Os bancos de madeira lustrosos, paredes de pedra. A cruz ortodoxa ao fundo, no altar, junto com algumas estátuas de anjos. Diferente da Igreja Católica Apostólica Romana, as Igrejas Católicas Ortodoxas não têm estátuas dos Santos apenas pinturas. O local está enfeitado com algumas flores brancas. Me aproximo e noto que são narcisos. Sakura adora narcisos.
Observo Sarada, mais uma vez, encantada com o local que, por um milagre, está vazio para um ponto turístico. O número de visitantes aumenta consideravelmente em agosto. Como sei que minha filha vai demorar, me sento no primeiro banco a direita e espero que Sarada termine o que tem que fazer.
Algum tempo absorto mexendo em meu celular, ouço uma música ao fundo. É Cello Suite n. 1 do alemão Johann Sebastian Bach. Procuro da onde sai o som e vejo que é de um celular no púlpito da igreja. Ele estava ali antes?
— Papa? — Sarada me chama e eu a encaro. — Olha… — ela diz e aponta para porta da igreja.
Levanto e sinto meu mundo girar, tal qual a minha surpresa em ver Sakura num vestido branco, um pequeno buquê de flores nas mãos e ladeada por Satoshi e Satoru.
— O quê? — digo espantando. Posso ouvir meu coração bombear em meus ouvidos. — Sarada… como assim? — percebo que Sarada acabou de tirar uma foto da minha cara de espanto.
Olho de volta pra Sakura e vejo seu sorriso travesso junto com o dos gêmeos. Eu não paro de tremer.
Mesmo que o caminho da porta até o altar seja pequeno, Sakura parecer demorar séculos até chegar perto de mim.
— Oi. — ela diz tímida com um sorriso ladino.
— O quê… o quê… — respiro fundo de olhos fechados. Mais uma vez. E outra vez. A encaro. — O que é isso? O que você tá fazendo aqui? Isso é algum tipo de brincadeira? — ouço o risinho dos nossos filhos atrás de nós.
Sakura toca o lado esquerdo da minha face num afago carinhoso. Meu corpo responde imediatamente. Paro de tremer.
— O que está acontecendo, querida? — sinto meu peito subir e descer.
— O que você acha que está acontecendo? — ela indaga baixinho.
— Não sei… — pondero incerto. — Você está de branco e com um buquê em mãos. Se não fosse você, eu diria que isso é um casamento. Mas você nunca…. se casaria -digo tão baixo que penso que ela não ouviu, mas ouviu.
— É. — sua língua estala. — Mas sabe, eu meio que veio mudando de ideia.
— Como assim, Sakura? — ela ri do meu desespero.
— Tem algum tempo que sinto essa vontade de casar contigo, sabe? — confidencia como se fosse um segredo super secreto. — Ainda não tinha resolvido minhas questões internas. Tinha algumas coisas confusas na minha cabeça e no meu coração. Mas…
— Mas?
— Eu simplesmente quero isso e quero com você. De verdade. Sem pressão e sem medo do que possa vir depois. — sorriu, e eu podia me sentir derreter naquele sorriso dela. — Então, eu conversei com as crianças e planejamos a viagem pra cá. Contei para nossos filhos a minha vontade e pedi que eles me ajudassem a montar essa pequena surpresa. — desvio o olhar de Sakura e passo a encarar meus três filhos.
— Vocês sabiam disso? — assentem segurando o riso. — E nem pensaram em contar ao pai de vocês? — negam. — Eu poderia infartar aqui, sabia? Sakura…
— Você aceita casar comigo, Uchiha Sasuke? Aqui e agora?
— Isso é sério?
— Seríssimo. Tão sério quanto realizar o seu fetiche com vestido de noiva.
— Sakura! — as crianças riem e eu sinto meu rosto ficar vermelho.
— Ai, querido! Não precisa ficar com vergonha. As crianças sabem como foram feitas, por favor, né?
— Mãe!!! — os três dizem em uníssono. — Que nojo!. — completa Satoshi.
— E, então, Uchiha Sasuke? Sim ou não?
— Sim. Claro que sim. — sinto meus olhos marejaram. — Mil vezes sim. — a abraço forte e beijo vários pontos do seu rosto.
— Papa, tem que casar primeiro pra depois beijar. — grita Sarada e eu paro me lembrando de algo.
— Como faremos isso? Aqui e Agora?
— Kakashi! — Satoshi responde mostrando o meu padrinho através da tela de um tablet.
— Até que enfim, hein Sasuke. Só estava esperando você e Sakura casarem para pode me aposentar. Já não era sem tempo.
— Kakashi, você está de pijama. — digo incrédulo.
— Ocasiões especiais, merecem roupas especiais. Não existe nada mais confortável que pijama, ora bolas. — boceja. — Vocês vão demorar muito? O fuso horário é complicado daqui.
— Não, não vamos. — Sakura diz firme e segura minha mão esquerda. — Vamos querido?
— Você está falando mesmo sério? — pergunto à Sakura como uma criança insegura. Foram tantas recusas ao longo desses 18 anos.
— Querido! — ela afaga meu rosto. — Eu estou de branco, como uma bela virgem que eu não sou, tenho um buquê em minhas e estou parada junto contigo no altar de uma igreja. Você acha mesmo que eu armaria tudo isso pra brincar com você?
— Não deveria ter um padre aqui? Vamos profanar a igreja desse jeito? — indago curioso.
— A única coisa que essa igreja profanou foi meu bolso. Não é barato casar aqui mesmo sem o padre. Foi uma surpresa, querido. Eles estão cientes. Por que você acha que a igreja está vazia?
— Você realmente pensou em tudo. — digo apaixonado. — Então, vamos logo casar de uma vez antes que você desista, né?
— Eu não vou desistir.
Satoshi se posiciona antes do púlpito junto com Satoru. Ambos seguram o tablet lado a lado, enquanto Sarada tira fotos de nós.
— Ai, ai… — começa Kakashi. — Sempre soube que esse momento aconteceria, sabe? Tanto sabia que prorroguei a aposentadoria por anos. Mais que um contrato, mais que um papel assinado, mais que a inserção de um sobrenome. O que celebramos aqui, hoje, é o amor. O amor entre dois teimosos e absurdamente apaixonados. Então, sem mais delongas: Haruno Sakura, você aceita Uchiha Sasuke como seu legitimo esposo?
— Sim, eu aceito! — ela responde junto com um sorriso enorme e eu sinto que meu coração vai explodir.
— Uchiha Sasuke, você aceita Haruno Sakura como sua legítima esposa?
Mergulho nos olhos verdes de Sakura e me perco em tantas memórias que construímos juntos. Em tudo que passamos pra chegar até aqui. Em quanto sou louco por essa mulher. E no quanto eu sou grato por tudo que ela me deu.
— Eu aceito! Eu aceitei muito antes de sequer saber que um dia aconteceria. Sempre seu, Sakura!
— E agora, pelo poder dado a mim, eu vos declaro esposa e esposo! Podem se beijar e façam mais filhos!
Sorrio com os lábios de Sakura junto ao meu. Ouço o grito de comemoração dos nossos filhos e sinto meu coração bater mais forte outra vez naquele dia. Não existe homem mais feliz do que eu hoje.
— Eu te amo, Uchiha-Haruno Sakura! — digo e selo nossos lábios mais uma vez.
— Como você sabe que eu não tirei o Haruno?
— Porque eu conheço muito bem a minha esposa... Esposa. — experimento a palavra e é a primeira vez que gosto do sabor de doces. — Gosto de como essa palavra soa.
— Você é muito esperto, Sr. Uchiha.
— Eu sei, Sra. Uchiha. — Sakura arregala os olhos e depois sorri.
— Gosto do sra. Uchiha.
— Não tanto quanto eu, pode apostar. — sorrio e beijo sua mão. — Vamos comemorar?
— Siiim!!!
[...]
Antes de irmos para uma taverna, na região, comemorarmos o acontecimento, assinamos as papeladas do contrato de casamento e é só validar quando chegarmos em Konoha. Sarada fez várias fotos da igreja até a taverna.
Dançamos, quebramos pratos, bebemos — menos o gêmeos- tiramos mais fotos, recebemos congratulações de todos no local. Eu não conseguia e nem queria tirar o sorriso do rosto.
Quase que no fim da tarde decidimos ir embora da taverna. Estávamos muito felizes, mas completamente exaustos. Por conta da bebida, decidimos voltar de barco, já que o hotel tinha um pequeno porto. Eu buscaria a moto no dia seguinte e passearia com a minha garota. Agora, minha esposa!
Deixamos as crianças em seus respectivos quartos e antes de entrar no nosso, peguei Sakura no meu colo. Ela deu um pequeno grito.
— Querido, sua coluna!
— Se eu malho, é pra essa coluna ser resistente. Além do mais, me sinto leve como uma pluma hoje. Estou em êxtase, Sra Uchiha. A culpa é sua.
— Que ótimo, Sr Uchiha. Vamos aproveitar que estais tão leve pra que eu possa sentar tanto em você e nem um guindaste me tira.
Sakura, habilidosamente, puxou o cartão do quarto do meu bolso e colocou na fechadura com urgência. Ri contra seu cabelo diante de tamanho entusiasmo.
Assim que fechamos a porta, minha esposa tomou meus lábios de forma afoita. Ela queria realmente sentar. Aprofundei nosso beijei e percorri todo seu corpo com as mãos. Afastei-me por um instante, eu precisava olhá-la melhor dentro daquele traje qual sempre tive fetiche.
— Eu sempre quis te ver num vestido de noiva. — a analiso e vejo Sakura corar. — E nada me preparou para esse momento. Nem em todas as vezes em que sonhei com isso. Você está linda. Você é linda, Sakura! E eu sou um sortudo do caralho.
Volto a beijar seus lábios, com pressa, e sinto minhas mãos se perderem no corpo da minha esposa. Sakura estremeceu aos toques e eu sinto meu pau latejar de prazer para entrar nessa mulher. Puxo o vestido de renda fina com cuidado e observo a minha esposa numa lingerie branca.
— Caralho, Sakura!
— Eu queria estar nua por baixo, mas sabe como é, o vestido já não cobre muita coisa! — ela responde sapeca, enquanto abre os botões da minha camisa.
— Meu Deus! O que eu faço com você, hã? — indago massageando seus seios ainda por cima dos sutiã.
— Me chupa bem fodidamente gostoso, ali! — ela apontou para a poltrona grande em um canto do quarto. — Agora!
Fui puxado com força e já estava na frente do móvel. Sakura me puxou para mais uma beijo lascivo e minhas mãos foram direto pra sua bunda a apertando com força. Ela tirou minha camisa me obrigando a largá-la e me surpreendendo com a mão por dentro da minha bermuda e cueca. Quando ela abriu o botão?
Foda-se!
— Sakura… — a chamo num aviso. — Puta que pariu!
— Ajoelha! — ela manda e eu faço meio atordoado.
Sakura ri e me olha como se pudesse me devorar. Bem, eu não duvido que faça. Ela tira as sandálias, e ainda me olhando, leva aos mãos ao fecho do sutiã à frente dos seios.
— Me deixa tirar. — peço num sussurro.
Puxo sua mão com cuidado para que se aproxime de mim. Minha mão esquerda vai até sua coxa e a direita espalmada em sua barriga. Barriga essa que abrigou e alimentou os melhores presentes que Sakura me deu.
Beijo um pouco abaixo dos seus seios e vou descendo passando pelo seu umbigo e chegando até o monte vênus por cima do fino tecido. A encaro e levo minhas mãos ao fecho do sutiã. Não tenho dificuldades em tirá-lo e logos seus seios estãos espalmados em minhas mãos. Ouço o arfar da minha esposa e o calor da sua pele. Massageio por ali e me delicio com suas reações.
Depois de um bom trabalho por ali. dou mais um beijo em sua barriga e levo minhas mãos ao elástico da sua calcinha. Lhe encaro e ganho um sorriso lascivo de volta como quem manda eu continuar. Desço o tecido demoradamente causando arrepios pela pele macia. Levo minha mão direita aos grandes lábios com delicadeza e sinto quão molhada ela está.
— Senta. — digo baixo e Sakura me ouve. Provo meus dedos. Agridoce. — Quanto você quer ser chupada, Sra. Uchiha?
Sakura me olha e senta na ponta da poltrona.
— Quanto você está disposto a me dar, Sr. Uchiha?
— O que você quiser.
— Oh… — Sakura abre suas pernas expondo toda a sua intimidade molhada. — Eu quero muito.
Não espero mais e me afogo em sua buceta. Ouço Sakura gemer e aprofundo ainda mais o contato. Sinto sua entrada e deixo que dois dedos entrem por lá quando dedico-me ao seu clitóris. Sakura grita em resposta e tenta fechar suas pernas em reflexo.
Dou pequenas lambidas com cuidado seguido de pequenas chupadas. Ela está bem perto e muito sensível, por isso vou com cuidado. Tiro meus dois dedos de lá de dentro e lambuzo por toda a região. Com o dedo indicador vou massageando seu ponto de prazer enquanto observo suas caras e bocas. Volto a estocá-la com uma mão e a outra brinca com seu clítoris. Quando vejo que ela está próxima de gozar, volto a beijá-la e logo depois ela se derrama em minha boca.
A observo totalmente relaxada e sorridente. Meu pau pulsa e eu poderia fazer um quadro desse momento.
— Você fica lindo com a cara lambuzada pelo meu gozo! — ela diz me puxando para um beijo onde lhe entrego seu sabor. — Agora levanta porque eu quero você nu e seu pau dentro de mim.
Me levanto e com uma delicadeza que ela não tinha, Sakura tira minha bermuda e cueca e sinto meu pau pular pra fora.
— Senta, querido! — sento e ela me olha enquanto acaricio meu pau a instigando. — Você é tão bonito que dói. — ela coloca um joelho de cada lado das minhas pernas e pega meu membro passando pela sua entrada molhada. — Seu pau também é! — senta de vez e eu acho que vou do inferno ao céu em dois segundos.
— Porra, Sakura! — minha mãos vão até sua cintura e eu ajudo a subir e descer de forma frenética.
Deixo apenas uma mão em sua cintura enquanto levo a outra para o seio direito e o aperto. Sakura estremece e quica mais rápido e forte. Chupo um dos seus seios e levo minha mão ao outro apertando seu mamilo sentindo ficar rijo de prazer. Dou uma atenção aquela parte tirando gemidos e gritos da minha esposa.
É tudo muito alucinante e gostoso pra cacete que eu sinto que vou me perder nela. O som da sua pelve chocando com a minha inunda o quarto e me deixa ainda mais excitado. Estou muito perto de gozar e quero que ela goze de novo.
Levo meus dedos aos seu clitóris e massageio com cuidado outra vez, enquanto tento manter a minha sanidade.
— Goza pra mim, querida!
— Isso, Sasuke… — ela morde os lábios e senta com força. — Puta que pariu…
Sakura goza e grita em prazer e com mais duas sentadas em meu pau eu me derramo todo nela!
Sinto seu corpo relaxar em meu colo ainda conectados. Afasto os cabelos suados de sua testa e deixo um beijo cálido ali e ela sorri pra mim.
Passamos um tempo juntos no silêncio. Absorvendo um ao outro no calor dos nossos corpos. Eu sinto como se ela pudesse ouvir meu coração, que, no fundo, nem parecia mais meu.
Sakura fez morada ali junto com nossos filhos e, ainda assim, eu me sinto o homem mais inteiro do mundo.
— Eu amo você, sra. Uchiha. — digo baixinho e sinto Sakura sorrir contra minha pele até me encarar.
— Eu também amo muito você, sr. Uchiha. — sela nossos lábios e me olha sapeca. — Será que você poderia esfregar as minhas costas no banho, sr meu esposo?
— Com todo prazer, sra. minha esposa. — mordo seu ombro e levanto com ela no meu colo sentindo nossos líquidos de prazer escorrendo pelo meu corpo.
[...]
Voltamos da Grécia tem pouco mais de três semanas. As férias já estavam chegando ao fim e, amanhã, já teríamos que levar nossos filhos ao aeroporto. Cada qual embarcaria para seu destino, mas iriam juntos no mesmo voo até Paris. Para o alívio do coração de Sakura e do meu.
Por conta disso, ficamos o máximo possível grudado com nossos filhos. Sakura os fez prometer chamada de vídeo todos os dias e, se não for possível, é pra mandar sinal de vida ou até de fumaça explicando motivo. Fiquei mais tranquilo quando eles concordaram. Seríamos só Sakura e eu por quase um ano. Fizemos até uma lista de prós e contras e só achamos três prós. O primeiro é que teríamos um tempo só nosso como há muitos anos não sabíamos o que é. Era uma nova oportunidade de nos reinventarmos como pessoas e como um casal. O segundo é andar pelados pela casa e o terceiro é poder transar em qualquer lugar sem se preocupar com que alguém nos pegue. Mas logo depois chegamos a conclusão que a saudade das nossas crianças é o maior contra de todos. Ainda assim, teríamos de lidar.
Estávamos preparando um jantar em família. Pizza! A cozinha estava um caos, farinha para tudo quanto é lado, poça de molho de tomate na bancada e recheio a perder de vista na mesa. Um caos feliz e saboroso.
— Vocês vão arrumar tudo isso, viu? — Sakura disse enquanto passava molho de tomate em uma das massas. Ela tinha farinha na pálpebra esquerda e no cabelo.
— Sim, sra. Uchiha! — respondemos: eu e a criança juntos.
— Pra vocês três… — apontou para os nossos filhos. — Eu sou mamãe! Ou mama! Nada de sra. Uchiha. — disse fingindo chateação e as crianças riram.
— E pra mim? — perguntei travesso.
— Para você eu sou Sakura, a mulher da sua vida e esposa!
— Para alguém que não queria, a senhora gosta muito de ser chamada de esposa. — digo e ouço o risinhos das crianças.
Sakura aponta a colher como molho de tomate pra mim e um pingo caiu no meu rosto.
— Não faça eu me arrepender de ter casado com você, Uchiha Sasuke.
— Papa, é melhor você ficar quietinho! — diz Sarada em tom de divertimento. — Senão o senhor vai ficar solteiro de novo.
— Uma vez casado nunca mais será solteiro outra vez. Depois disso só divorciado ou viúvo. — aponta Satoshi.
— É melhor você ficar mesmo calado, pai! — diz Satoru.
— Avisa isso para mãe de vocês!
— A mãe deles tem juízo! Quem não tem é seu pai! — disse Sakura voltando sua atenção para pizza. — Agora parem de moleza e me ajudem aqui!
Ao final, tínhamos seis pizzas deliciosamente montadas e ainda não sei se seria o suficiente. Além de nós cinco, Boruto — o namorado de Sarada — e Ichiro — o namorado de Satoru e meu sobrinho — viriam jantar conosco.
Assim que terminamos de montar as pizzas, as crianças despacharam a gente pra fora da cozinha e prometeram organizá-la, enquanto Sakura e eu tomávamos banho.
— Minha nossa, eu tenho farinha por todos os lugares do meu corpo! — diz Sakura se olhando no espelho do banheiro do nosso quarto.
— Nem está tão ruim assim. — passo meu braço direito por sua cintura e apoio meu queixo em seu ombro. — Só tem no cabelo, na bochecha, na pálpebra esquerda e nas mãos.
— Porra, imagina se estivesse ruim. — eu rio. — Para de rir, Sasuke. Não tem graça!
— Você sabe que dia é hoje? — mudando de assunto.
— Véspera da viagem das crianças?! — nego. — Não faço ide… ôh, meu Deus! Ai, Sasuke! É isso o que eu tô pensando?
— Se for o que eu estou pensando, é isso mesmo.
Sakura revira os olhos e depois me dá um sorriso amarelo.
— Hoje completamos um mês de casados, não é? — assinto sorrindo para ela que cobre o rosto em vergonha. — Eu esqueci completamente. Céus, como sou desatenta. Fiquei tão focada nas crianças e esqueci da gente. Não foi por mal, querido!
A viro pra mim, tirando as mãos do seu rosto, a fazendo me encarar. Seus verdes carregados de vergonha e tristeza. Não é uma imagem que eu gosto de ver.
— Eu não estou brigando com você e nem te cobrando nada. Não precisa ficar desse jeito.
— Mas é uma data importante pra nós dois. Eu deveria ter lembrado.
— Ainda faltam algumas horas pra terminar o dia, então, você poderia ter lembrado sem minha ajuda. Não se culpe tanto. Eu realmente não estou chateado.
— Mas eu me sinto uma idiota. Desculpe.
— Não se sinta assim, por favor! Não depois de me fazer uma surpresa incrível daquelas, hã? — ela sorri enquanto afago suas bochechas. — Além do mais, dessa vez, eu queria te surpreender.
— Sasuke… O que você fez?
— O que é que você acha de conferir seus perfumes? Quem sabe tem algo por lá…
Sakura se vira no mesmo instante e vai até o seu lado na pia, que sempre vive na maior bagunça. Por isso ela não viu antes.
— Ai minha nossa! Sasuke, o que é isso? — ela mostra pra mim duas caixinhas de veludo azul-marinho.
— Não sei! Se você abrir talvez descubra, não? — sinto-a retesar. — O que te impede?
— Talvez, o fato de que já me sinta bem bosta. E, agora, você me vem com esses presentes que eu tenho certeza que são lindos.
— Você pode não gostar, talvez.
— Me poupa, Sasuke. Você é um filho da puta que escolhe os melhores presentes. E você sabe que eu sempre gosto. Falsa modéstia comigo, não.
— Você tira toda a diversão.
— Abre pra mim, por favor.
— O que você me pede que eu não faço, hã? — pego as caixinhas da sua mão. — Eu queria mesmo fazer uma surpresa. Achei que você conseguiria achá-las logo, já que coloquei bem cedinho nas suas coisas hoje. — abro a primeira caixinha e o par de alianças em ouro branco com padrões gregos em ouro rosé em volta. Vejo os olhos da minha esposa marejarem. — Sei que deixamos em aberto a questão de usar alianças, mas, quando as vi a na joalheria, senti que iria gostar.
— São lindas, Sasuke! — sorrio diante de seu entusiasmo. — Vamos, trate de colocar no meu dedo!
Retiro a menor e coloco no anelar esquerdo de Sakura e, depois, ela coloca a minha em mim no mesmo dedo.
— Querido, você é tão sensível e lindo de morrer! Se não existisse, não sei como iria te inventar.
— Ainda não acabou. — abrir a outra caixinha e de Sakura saiu um gritinho assustado. O anel de ouro branco, com um diamante azul claro em formato de coração e brilhantes adornando a pedra principal se fez presente. — Esse é o verdadeiro presente de casamento. Feliz um mês de casados!
— Puta que pariu, Sasuke! Que coisa linda, que anel lindo… Você quer me matar?
— Longe de mim. Ocasiões especiais merecem presentes especiais. Posso colocar?
— Sim. — diz num sussurro e no segundo seguinte o anel já está no mesmo dedo da aliança. — Sasuke… um diamante azul, isso deve ter sido… — a interrompo.
— Isso é realmente pertinente, querida? — ela nega querendo não negar. — Além do mais, eu espero por esse momento há quase 20 anos. Economizei bastante.
— A escolha da pedra é por conta do azul do mar de Sifnos, sim? — anuo. — Você pensa realmente em tudo! — sinto seus braço rodearem meu pescoço. — Eu amo você. Amo por ser eu mesma com você. Amo o que construímos. Amo os filhos que fizemos. Eu nos amo! Vamos comemorar no chuveiro, hã?
[...]
A noite de ontem foi realmente divertida. Depois das pequenas peripécias adolescentes entre Sakura e eu, descemos para colocar as pizzas no fornos, enquanto nossos filhos tomavam banho depois de arrumar toda a cozinha.
Ichiro e Boruto logo chegaram e deram início ao barulhento jantar. Não sobrou nem uma borda de pizza pra contar história. Comemos, brincamos, jogamos e preenchemos a casa de risadas. Ichiro e Boruto dormiram aqui. As crianças dormiram comigo e com Sakura. Dormimos tão agarrados que parecíamos carrapatos.
Na manhã seguinte, Sakura acordou chorosa e ficou assim boa parte da manhã com as crianças grudadas a acalentando. Ela os fez prometer tudo que já tinham prometido outrora. Emendamos o café da manhã com o almoço e, por volta das 14:00h, tomamos rumo até o aeroporto.
No carro, um silêncio sepulcral da nossa casa até o aeroporto de Konoha. Naruto e a família, juntamente com Ichiro nos seguiam em outro carro. Quando chegamos ao destino, percebemos que o local estava cheio de pessoas que não iriam viajar. Estavam ali para prestigiar os nossos filhos. Fiquei bastante emocionado e agradecido pela presença dos meus pais, Kizashi e Mei, Tsunade e Jiraya, Ino, Sai e Inojin, Itachi, Izumi e Ichiro, Sasori, Deidara e Hideo, Naruto, Hinata, Boruto e Himawari.
Depois das felicitações e despedidas, apenas Sakura e eu levamos as crianças até antes do salão de embarque.
— Crianças, vocês pegaram seus casacos? — Sakura perguntou tentando disfarçar o choro. As crianças anuíram. — Quando chegarem em Tóquio, avisem a mamãe e o papai. Quando chegarem em Paris, também. Satoshi, quando chegar em Lyon, nos avise. Satoru, quando chegar em Londres e depois Brightin, nos avise e Sarada, cada conexão que você fizer, nos avisem, está bem?
— Sim, mamãe! — disseram em uníssono. — Nós vamos ficar bem, mamãe! Você e o papai fizeram um ótimo trabalho com a gente! — completou Satoru!
— Ai, Deusa! Minha crias estão crescidas. Vocês são meu tudo, meus filhos! Tudo! Qualquer coisa que precisarem, não hesitem em nos procurar, está bem?
— Pode deixar, mamãe! — respondeu Sarada!
Os três logo em seguida passaram a me encarar e, por Deus, que dor no peito filha da puta! Suspirei fundo e forcei o bolo da garganta a dentro.
— Eu estou muito orgulhoso de vocês e pelos caminhos que decidiram seguir! Eu confio em vocês. E, mesmo com toda independência e bagagem que vocês já têm e terão cada vez mais, o colo do pai de vocês e da mãe de vocês estarão sempre aqui. Eu amo vocês, meus filhos!
O abraço apertado de cinco pessoas logo se tornou de apenas duas. Minhas crianças mal atravessaram as portas e eu já estou louco de saudade!
Fomos amparados por nossos amigos e familiares e, mais calmos, retornamos pra casa. Sakura e eu decidimos passar o resto do dia no quarto nos recuperando e esperando por notícias das crias.
Depois que todos chegaram bem aos devidos destinos, Sakura se permitiu relaxar um pouco mais. Mas vira e mexe eu a flagrava nos quartos deles.. Decidi dar-lhe um tempo e tirei um para mim. Meu peito também doía de saudade e chorar com certeza aliviaria.
Ainda no banho, sinto o corpo nu de Sakura me abraçar por trás. Podia sentir seus soluços contra a minha pele.
— Nós vamos ficar bem, querida?
— Vamos, sim. Um dia de cada vez.
1 ano depois...
Não, não passou tão rápido como eu gostaria, mas foi o que tinha de ser. Não posso dizer que esse um ano que passou foi fácil. Longe disso. Nenhum desafio foi maior que esse na minha vida. Todavia, foi o mais importante.
Os dois primeiros meses foram os piores. Com Satoshi e Satoru, tínhamos uma comunicação estável. Com Sarada, nem sempre era assim. Alguns lugares eram realmente afastados dos grandes centros e internet era coisa rara mesmo no mundo de hoje. Só nos restava confiar e pedir para que tudo ficasse bem.
Comemorar os aniversários foi uma aventura e tanto. Bolo de um lado da tela e do outro. Foi difícil não poder abraçá-los. Ainda que, nos mantivéssemos presentes, como podemos, mesmo com um fuso horário em cada lugar.
O melhor de tudo foi Sakura e eu nos redescobrimos como um casal e inteiros de si. Andamos muito pelados pela casa, só não transamos em cima da lava-louça, fizemos pequenas viagens sozinhos e com amigos, fomos aos shows, ao cinema, ao teatro, andamos de bicicleta pelo parque de Konoha, passamos um mês só pedindo comida fora e quase adotamos um cachorro. Só não fizemos, porque queríamos esperar as crianças. Eles também deveriam opinar. Tínhamos tempo para muita coisa, inclusive para ficar de preguiça na cama. As crianças não nos impediam de fazer essas coisas antes, mas sempre gostamos de fazer tudo juntos. Tudo na vida é preciso equilíbrio, não?
Voltamos à Grécia para comemorar o nosso primeiro ano de casados e, por pouco, Sakura e eu não mudamos de destino para visitar os gêmeos.
E, por falar neles, Satoru e Satoshi chegaram há 10 dias. Foi uma alegria imensa. Comemoramos muito e passamos esse tempo todo mimando nossas crias e elas já devem estar enjoadas. Será que Sakura e eu já perdemos o equilíbrio ou estamos matando a saudade? Eu voto na segunda opção!
Estamos organizando a casa para a festa de boas-vindas de Sarada. Finalmente, a minha menina vai chegar. Mesmo não sendo o maior entusiasta dessa viagem no início, estou louco pra ouvir as histórias que Sarada tem pra contar e todo o material que ela recolheu ao longo desse tempo.
A mesma comitiva que levou as crianças até o aeroporto, agora, está apertada na sala de casa como fizeram há 10 dias para surpreender os gêmeos e agora com Sarada. Estamos no portão de desembarque internacional e nada ainda de Sarada aparecer.
— Querida, você vai ferir os dedos de roer tanto as unhas assim.
— Dez dias não foram o suficiente para a senhora repor as unhas que roeu, mamãe. — diz Satoru brincalhão.
— A irmã de vocês já era pra ter chegado! No painel tá mostrando que aeronave já posou. Que merda de demora é essa?
— Mamãe, uma médica renomada xingando em pleno aeroporto. A senhora deveria aprender um pouco com as francesas.
— Acontece, Satoshi, que eu não sou francesa. — ele ri em resposta. — E me respeita que eu sou sua mãe!
— Querida, as crianças só estão querendo descontrair. Sarada já vai chegar.
Quarenta e cinco — fodidamente — minutos depois Sarada aparece. Muito diferente da menina que foi, minha filha voltou com cabelos longos, pele bronzeada e grandes brincos na orelha. E não apenas visualmente falando, Sarada parecia ter um ar mais maduro. Seus olhos estão brilhantes. Olhos de quem vira o mundo e um pouco mais. Ela está leve e com um sorriso gigantesco no rosto. Todos nós estamos.
Nos abraçamos, todos juntos. Só que, diferente da outra vez, não é de uma despedida. Sinto que meu coração vai explodir e aposto que Sakura se sente da mesma maneira. Seus olhos estão chorosos como de uma criança.
— Família! — a voz de Sarada saiu abafada pelo abraço coletivo. — Vocês não têm noção da saudade que eu estava de vocês.
Nos soltamos e Sakura puxou a filha para mais um abraço esmagador.
— Não mais do que seu pai e eu, tenho certeza. — Sakura enchia o rosto de Sarada de beijos e depois a encarou. — Você está mais linda, ainda. Está com um porte diferente… mais madura, sabe? E eu amei esses seus brincos.
— São lindos, né? Trouxe alguns para a senhora. Foram feitos pelas mulheres indígenas Yawanawa, da aldeia Yawarani que eu fiquei lá no Acre. — os olhos de Sarada brilhavam. — Os povos guardiões das florestas, mãe, são tão sábios, intuitivos, alegres, acolhedores e têm tanto a nos ensinar. São sinônimos de resistência, luta, força, saber ancestral e amor pela natureza! Ai, não vejo a hora de dividir com vocês todos os lugares que eu passei! Mas, agora, eu quero muito ir pra casa. Vamos?
— Vamos, minha pequena. — digo por fim pegando a mochila pesada de Sarada e a pequena mala de rodinha.
No caminho pra casa, nossa filha foi contando suas aventuras de toda a viagem. A América do Sul, por onde ela começou a viagem, tinha seus países preferidos na lista Ela disse que quer voltar pra lá, só que, dessa vez, com mais tempo e não apenas focando sobre os trabalhos que fez. Ela disse que tem muito material e está louca pra mostrar a Tsunade. Depois do centésimo parto, ela parou de contar quantos partos ela acompanhou durante esse ano ou quantos depoimentos coletou, ou quantas histórias ouviu. Mas, como tem todos os dados anotados, fará as contas, quando organizar tudo, para montar seu documentário que se chama: Caminhos do Parto.
Quando chegamos em casa, foi uma verdadeira festa. Ela não esperava pela quantidades de pessoas abarrotadas na nossa sala e o tanto de suas comidas preferidas em cima da mesa. Boruto providenciou tudo que a namorada gosta e não poupou na quantidade. Posso até não gostar muito dessa peste que também é meu afilhado, mas não posso negar que ele ame Sarada e a mime de todos os jeitos. Ele é um bom garoto no fim.
Depois que todos foram embora da nossa casa, Sakura e eu arrumamos toda a bagunça e guardamos toda a comida que sobrou e ia durar por, pelo menos, uma semana. Enquanto isso, nossos filhos foram tomar seus banhos para dormir.
Após dar um fim em tudo aquilo, Sakura e eu fomos tomar banho para, enfim, descansarmos do dia tão movimentado e, agora, mais tranquilos porque nossas crias, finalmente, estavam embaixo do nosso teto.
Ao sair do banho, damos de cara com os nossos três filhos esparramados e entrelaçados na na nossa cama, já dormindo. Ri e senti o meu peito falhar uma batida. Enfim, minha família estava unida outra vez!
— Nós fizemos um bom trabalho, não é querido? — Sakura sussurrou olhando para nossas crianças com os olhos marejados, iguais aos meus.
— Sim, nós fizemos. — minha voz embarga e eu suspiro. — Sou grato todos dias por você e por eles!
— Ah, querido… — ela me encara. Sela nossos lábios e eu encosto minha testa na sua. — Nos amo!
— Nos amo!
— Vamos amassar nossas crias? — pergunta sapeca.
— É pra já!
Sakura se deitou ao lado de Satoru e eu de Satoshi, Sarada estava entre os irmãos. Nos entrelaçamos com as crianças e demos um jeito de grudar nossas mãos. Estamos guardando os nossos bens mais preciosos!
E, assim, contemplamos o mundo dos sonhos com os corações nas nuvens… na certeza, que a manhã seguinte será ainda mais feliz....
Que esse novo ciclo que começa seja, ainda mais, de amor!
♥
Fale com o autor