Notas iniciais
Olá meus moranguinhxs e tomatinhxs *-* Como vão vocês corações? Eu estava morrendo de saudades *-* O capítulo de hoje tá tão amor *-* Olha a glicemia meu povo ahahahhahahah Hoje, eu quero agradecer mais uma vez o carinho de vocês. Vocês são maraviilhosxs! Sério. Obrigada por lerem a minha história, comentar, favoritar, acompanhar, compartilhar, recomendar. Obrigada por tudo *-* Quero agradecer a minha Mrs_Takasu por betar o cap, obrigada sua linda *-* Quero agradecer a minha leitora Lily mais uma vez pelo carinho, pelas palavras de incentivo, por se importar e por não desistir de mim. Amigas de cano, afinal! Continue a nadar... pra achar a direção... nadar...nadar... Aproveitem o capítulo ;***

Chamego meu, olha pra cá
Esse sorriso de orelha a orelha
Tenta guardar, é pra você
Por bagunçar a minha paz
A armadura e minha calma

(Chamego Meu — Anavitória)

Por Sasuke

— Você gostaria de morar comigo, Haruno Sakura?

Fiz essa pergunta a Sakura depois de muito analisar o que já passamos e onde estamos. Pode parecer loucura, e de fato é, mas para mim faz o maior sentido. Não sei se para vocês faz sentido!

Eu já vinha pensando sobre isso há um tempo. Eu vou sair de casa, Sakura vai voltar pra Konoha, inicialmente ia morar com o pai, mas procuraria um apartamento só pra ela depois. Ela queria que o pai continuasse com a mesma liberdade de antes. E por que não podemos juntar as duas coisas? Eu não me importaria de dormir, acordar, dividir uma vida, uma casa com ela.

Sei que morar junto não é uma coisa fácil de se administrar e que se não der certo o relacionamento pode seguir a diante ou não, mas depois de tanto tempo não vejo porque não.

Eu estava deveras empolgado e ansioso pela resposta dela. Não desanimei por conta do silêncio dela, porque enquanto pensava ela fazia umas caras e bocas engraças. Abria a boca e fechava em seguida, no misto de confusão. Bufava, mexia as sobrancelhas e eu me segurava para não rir.

— Sakura? – chamei, mas ela não ouviu imersa em pensamentos. – Sakura? – chamei outra vez e vi seus olhos piscarem rápidos.

— O que foi? – sua voz não passava de um sussurro e agora eu fiquei preocupado.

— Será que você poderia dividir seus pensamentos comigo? – ela me olhava ansiosa. – É uma pergunta simples, você só tem que dizer sim ou não.

— Não é tão simples, Sasuke. É quase um pedido de casamento. – bufou.

— O que te aflige? – perguntei enquanto acariciava seus braços na intenção de fazê-la relaxar. – É tão ruim dividir um teto comigo?

Um riso anasalado escapou dela. – Não é isso, Sasuke... Só não é tão simples.

— Então me diga o que não é tão simples. Se você está analisando todos os pontos é porque você está cogitando aceitar. – pisquei pra ela que bufou pra mim.

— Tem horas que eu odeio que você me conheça tanto. – me deu língua. – Não é todo dia que seu namorado chama você pra morar com ele, idiota.

— Irritante.

Revirou os olhos e continuou. – Primeiro, eu fiquei surpresa e feliz pelo convite, mas logo depois eu fiquei assustada. É um passo muito grande e importante.

— Você não quer dormir e acordar grudadinha comigo? Dividir uma cama quente e gostosa? – tentei soar galante, mas ela riu.

— Acredite, isso foi a primeira coisa que pensei. Mas morar junto é mais que dividir uma cama, é dividir uma vida, escolhas, rotina. Seja sincero comigo, você acha que somos maduros o suficiente para fazer isso agora? Ainda mais com o nosso histórico?

— Depois de hoje? Eu vou no céu pegar uma estrela se você quiser, Sakura.

— Que piegas.

— Estou falando sério. Hoje eu tirei um peso enorme das costas, falei mais do que falei a vida inteira, me abri por completo pra você. Não tem nada de mim que você não saiba. Nosso histórico não é dos melhores, eu sei, mas isso não significa que não podemos tirar forças e pontos positivos dele. Estamos juntos outra vez depois de nove anos, sem culpa e ressentimento. Você tem noção do quanto a gente aprendeu, viveu e evoluiu? – os olhos grandes de Sakura me encaravam e eu só me sentia mais motivado. – Eu quero muito que possamos morar juntos, mas respeitarei sua decisão independente de qual for. Quero que você aceite porque realmente deseja o mesmo que eu, se não quiser continuaremos juntos do mesmo jeito com cada uma na sua casa.

— Você me dá um tempo pra pensar? Prometo não demorar.

— Claro, sua boba. O tempo que quiser, só não pense que isso é uma espécie de ultimato, quero que você decida sem pressão.

— Obrigada, por isso amor. – me deu um selinho demorado. – Prometo pensar com carinho.

— Obrigado. – dei um beijo em sua testa e nos aconchegamos pra dormir. – Amor, você vai trabalhar amanhã?

— Não. Meu chefe me expulsou do hospital e só quer ver a minha cara na segunda-feira. Por quê?

— Pensei da gente fazer um passeio por Tóquio antes que eu fosse para o hotel.

— Hotel? O que você vai fazer num hotel? – tirou a cabeça do meu peito e passou a me encarar com olhos pouco amistosos.

— Me hospedar, oras. Eu vim a trabalho, tinha que ter um lugar para ficar.

— Você vem na minha casa, me diz um monte de coisa, me dá uma surra de sexo, me faz uma proposta indecorosa e agora vira pra mim e diz que vai ficar num hotel? – a voz de Sakura carregava uma indignação sincera e ao mesmo tempo cômica. – Nem pensar, Uchiha Sasuke. Vista sua roupa de sapo e dê seus pulos para cancelar essa reserva aí. Você vai ficar aqui comigo. Que absurdo, trocar a minha companhia e a minha casa por um hotel.

— Amor, a gente estava brigado. É procedimento da empresa quando desloca o funcionário determinado por tempo.

— Eu sei, mas você não precisa. Pode ficar aqui, agora.

— Tudo bem, eu fico. Cancelo as reservas e ligo para empresa informando que a minha namorada mandona exigiu que eu ficasse na casa dela.

— Meu bem, você quer morar junto, eu só estou tentando fazer isso dar certo. Nada melhor que um treinamento, não acha?

— Muito perspicaz essa minha namorada, isso nem tinha passado pela minha cabeça.

— É... eu também precisava de alguém pra me ajudar com as caixas da mudança. – deu um sorriso amarelo e depois um selinho.

— Sua interesseira de uma figa. Que namorada horrível que eu tenho.

— Pensei que você queria que eu fosse logo pra Konoha. – disse como quem não quer nada. – Mas pode ir pro seu hotel se quiser, eu me viro aqui.

— Talvez, se alguém não deixasse tudo pra cima da hora, não é mesmo. Tudo já estivesse empacotado. – Sakura corou sem graça. – Mas como eu sou uma ótima pessoa, um ótimo namorado, um cara prestativo, eu farei esse enorme sacrifício. Desde que, eu durma e acorde com você nos meus braços. – trouxe ela ainda mais pro meu peito.

— Exceto em dias de plantão.

— Posso sobreviver esses dias!

— Obrigada, amor. Quando você acordar eu estarei aqui.

— Te amo, irritante! – selei nossos lábios.

— Te amo, Sasuke-kun!

(...)

Despertei sentindo um frio fora do comum, me remexi e percebi que eu estava sozinho na cama de Sakura e no seu quarto que mais parecia o polo norte.

Abri os olhos sem vontade alguma, afinal aquela irritante me prometeu que acordaria nos meus braços, mas como podemos notar isso não aconteceu. Bufei diante de tal frustação, até olhar para o lado e ver um papel dobrado embaixo de um fusca cor de rosa em cima do travesseiro que Sakura deveria ter dormido se não tivesse usado meu peito para tal.

Sorri meio bobo lembrando da história que ela me contara mais cedo e fiquei mais feliz do que já estava só de lembrar que agora estava tudo bem.

Abri o papel e lá estava a justificativa dela por não estar aqui comigo:

“Sasuke-kun,

Eu sei que prometi acordar ao seu lado, mas o hospital me ligou, uma criança chegou em estado grave, uma cirurgia cardíaca de emergência se fez necessária, mas a médica plantonista não poderia fazê-la por ser tia da criança. Fui chamada às pressas e vim correndo para o hospital. Temos que colocar cirurgias emergenciais de última hora aos motivos de não acordamos nos braços um do outro.

Tem toalha limpa no guarda-roupa, pode usar meu banheiro, lá tem tudo o que precisa. Tem comida na geladeira e nos armários. Fique à vontade.

Desculpa a letra de garrancho.

Volto logo,

Te amo

Ass.: Fusquinha cor-de-rosa.”

E mais uma vez o sorriso bobo estampou em meus lábios. Eu sei que namorar uma médica não é fácil, mas o orgulho e a admiração que tenho por ela quando o assunto é a medicina e seus pacientes, supera isso. Sei de quanta coisa ela abriu mão, tudo o que passou para ser a médica respeitada que é hoje.

Senti minha barriga roncar e só agora eu lembrei que comi a última vez ainda em casa, aquela torta de tomate divina feita por Dona Mikoto. O banho podia esperar, eu precisava comer.

Levantei e observei que na ponta da cama estavam minhas roupas devidamente dobradas e não pude deixar de me assustar. Organização nunca foi o forte de Sakura e isso se revelou segundos depois quando uma toalha molhada jazia ao lado das minhas roupas.

Tem coisas que nunca mudam mesmo.

Coloquei apenas minha cueca e observei pela fresta da cortina que o sol estava se pondo dando lugar a noite.

Ao sair do quarto rumo a cozinha parei e fiquei a observar a porta entreaberta que ficava em frente ao quarto de Sakura. A curiosidade me abateu, mas eu não queria desbravar pela casa sem ela, mesmo que Sakura tenha pedido que eu ficasse à vontade.

Ponderei e refleti por segundos se entrava ou não, e deixei a curiosidade falar mais alto que a minha fome.

Abri a porta e procurei pelo interruptor acendendo a luz daquele cômodo. Era maior que o quarto dela. O que Sakura não tinha gasto em decoração na sua casa, ela gastou naquele lugar.

Uma parede era tomada do chão ao teto por uma estante de madeira polida abarrotada de livros. Sua maioria, numa olhada bem rápida, eram de medicina. Livros enormes que pesariam alguns quilos certamente.

No canto oposto a estante havia uma mesa de aço e tampo de vidro, no formato em L, com um notebook, impressora, utensílios de escritório e muitos – muitos mesmo – papeis. Tudo impecavelmente organizado. Para finalizar, uma cadeira office preta extremamente confortável e convidativa. Algo me dizia que Sakura passara ali mais tempo do que deveria.

Mas nada naquela sala nada me chamou mais atenção que um mural de fotos. O quadro metálico na cor vermelha, que ficava na parede acima da mesa, estava abarrotado de fotos e recordações. Recordações estas, que não me pertenciam.

Me aproximei num ímpeto de curiosidade maior que a minha racionalidade e tentei, em vão, focar em uma foto de cada vez. Dizer tudo a Sakura, sobre esses nove anos, fez com que uma curiosidade sobre os nove anos dela me abraçasse, mesmo que eu saiba de alguns episódios.

Boa parte das fotos eram de lugares. Alguns eu reconheci, porque eram imagens de lugares específicos de Tóquio. Localizei pontos da Índia também.

Só tinha apenas uma foto exclusivamente sua. Ela usava aquela beca de formatura, que todos somos obrigados a usar quando nos formamos em Faculdades ou Universidades, em alguns lugares, até mesmo em escola. O sorriso de Sakura era enorme e seus olhos estavam vermelhos de um choro feliz. Ela exibia o diploma como quem exibe um troféu.

Algumas fotos com Sasori se faziam presentes no objeto. Caretas, sorrisos e uma foto do dia da formatura de ambos. Ino também estava presente em uma das imagens com os dois e essa foto acabou me assustando. Sakura estava muitíssimo magra, com olhos fundos e um sorriso fraco e forçado.

Me senti um inútil e fraco diante daquela foto. Ino tentara me alertar diversas vezes sobre como Sakura estava, mas nunca dei ouvidos. Na minha cabeça ela estaria se divertindo à beça, enquanto o idiota aqui estava sofrendo. Doce ilusão. A verdade veio como um soco na boca do estômago.

— Pelo amor da Deusa, que visão dos céus! – disse Sakura na soleira da porta com um sorriso sapeca nos lábios quase me matando de susto. – Coisa boa é chegar em casa e encontrar o namorado usando apenas uma cueca. Posso me acostumar com isso. – me lançou uma piscadela.

— Que susto, Sakura. – disse sentindo o coração palpitar. – Você quase me mata do coração.

— Você que quase me mata do coração com essa bundinha linda dentro dessa cueca. Isso é um pecado, Sasuke. Meu coração é fraco pra essas coisas, eu não resisto.

Ri do seu sorriso sapeca e me deixei ser abraçado pelo corpo pequeno e quente dela. Beijei sua testa e passei os braços por sua cintura. – Senti sua falta! – dei um selinho. Não me cansava dela nem se eu quisesse. – Ocorreu tudo bem com a cirurgia?

Sakura soltou um suspiro cansado e assentiu. – Foi um sucesso, mas cansativa e delicada. Cheguei ao hospital em tempo recorde e corri pro centro cirúrgico. Os pais estavam surtando e a médica plantonista, que é tia da criança, não conseguiu mais atender ninguém. Estava super nervosa e se sentindo culpada por nunca ter notado nada, nenhum sintoma. Ela é irmã do pai da criança e eles estavam a um tempo sem se falar. Tiveram que chamar outra médica além de mim.

— Hum... Mas a criança tinha algo crônico ou foi do nada? – eu não entedia muita coisa desse mundo, mas gostava de ouvir Sakura falar.

— O bebê tem sopro. Os primeiros exames apontavam algo leve, mas não era. Os pais ficaram assustados quando os lábios e as mãozinhas do bebê ficaram roxas e correram para o hospital.

— Ainda bem que está tudo certo agora.

— Pois é. Eu que estou um caco de cansada e com fome. – um biquinho fofo se formava em seus lábios.

— Tenho uma proposta pra te fazer. – sussurrei em seu ouvido.

— É indecente? – perguntou maliciosa. – Se for indecente eu estou topando tudo.

— Não era você que estava um caco e com fome?

— Mas propostas indecentes valem o esforço, meu bem. – disse e mordeu meu ombro em seguida.

— Então, eu proponho que tomemos banho juntos, te faço uma massagem relaxante e depois pedimos algo comer. O que você acha?

Me olhou travessa com os olhos brilhando num fogo verde. – Eu acho bom! Vamos, agora.

Sakura me puxou pelas mãos e me levou até o banheiro do seu quarto, que tinha uma banheira tão pequena que minhas pernas ficaram dobradas pra que eu coubesse ali. Colocou ali sais e um sabonete espuma com aroma de jasmim amarelo, que ela trouxera da Índia.

Depois de alguns apertos aqui e acolá, Sakura descansava com as costas em meu peito e ressonava baixinho, enquanto eu acariciava seus braços.

— Eu posso me acostumar com isso. – sussurrou com a voz preguiçosa. – Será que tudo isso não é uma forma de me persuadir?

— Eu acho que alguém vai aceitar a minha proposta. Só acho. – acusei brincalhão e um riso escapou dos lábios de Sakura.

— Você não acha muita loucura não?

— Uma loucura plenamente saudável. – disse sério. – Eu quero muito, desde que você queira também.

—Você já pensou o que sua mãe vai achar disso tudo? Eu não sou a preferida da senhora Uchiha.

— Acredito que ela surte no primeiro momento, mas independente disso, quem tem que achar alguma coisa sou eu Sakura. Eu sou bem crescidinho, quase 26 anos nas costas. Tenha um pouco de fé em mim também.

— Eu tenho meu amor, só não quero causar problemas. Além do mais, foram seus pais que te deram o apartamento, eu meio que sou intrusa.

— Primeiro, a ideia do apartamento foi do meu pai e segundo você é minha namorada, a mulher que eu amo, e não uma intrusa. Eu ia sair de casa de qualquer forma, meu pai só facilitou para mim e pra Itachi.

— Talvez, se o apartamento fosse comprado por você eu me sentiria melhor, sabe?! A gente poderia dividir a compra do apartamento, o aluguel ou algo do tipo.

— Nesse caso não há o que dividir, Sakura. Eu não gastei um iene com nada do apartamento.

Sakura se desencosta e passa a me encarar com olhos pensantes. – Mas o apartamento pode precisar de alguma reforma, ainda tem os móveis e eletrodomésticos. Caso eu aceitasse morar com você, eu gostaria de ficar responsável financeiramente por essa parte.

— Acho justo nós dividirmos isso!

— Mas o apartamento já é seu, Sasuke.

— Mas eu não gastei nada com ele, Sakura. Não é certo. – tentei manter a calma. 90% das vezes eu perdia uma discussão com ela. – Daqui pra frente dividimos tudo. Reforma, móveis, eletrodomésticos, água, luz, internet e outras coisas que surgirem. É o mais justo e você sabe disso.

— Tudo bem. – disse derrotada. Eu venci e isso é inédito.

— Então isso é sim? – indaguei eufórico. – A gente vai morar junto?!

— Não, isso quer dizer que eu vou pensar. Por favor, sem pressão Sasuke.

Como vocês podem ver, um banho de água gelada, mas um guerreiro jamais se rende.

— Sem pressão – levantei as mãos em sinal de rendição. – Agora vem aqui que quero te mimar um pouco mais.

— Você quer é me comprar isso sim. – acusou-me, desferindo um tapa no meu ombro esquerdo e se recostou de volta em meu peito. – Você joga sujo, Uchiha Sasuke!

— Eu nunca disse que jogaria limpo. – falei presunçoso. – Cada um usa as armas que tem, Haruno Sakura.

— Cretino!

— Linda!

— Escroto!

— Gostosa!

— Ah, vai se foder, Sasuke!

— Também, te amo, amor!

Gargalhei gostoso. Ganhar de Sakura na argumentação e ainda tirá-la do sério em seguida, hoje é o meu dia de sorte, com certeza.

(...)

Depois de um sexo gostoso e uma pizza enorme Sakura caiu no sono. Ela quase capotou na verdade de tão cansada que estava.

Mas eu não conseguia pregar os olhos.

Aquela foto de mais cedo não saía da minha cabeça.

Mesmo que eu soubesse que Sakura não se encontrava mais daquele jeito, aquela foto ainda me incomodava. Saber que não fiz nada para mudar aquilo me tirava do sério.

Me levantei cuidadosamente para não acordá-la e voltei ao seu escritório ou sala de estudo, como você preferir chamar.

Passei a encarar aquela foto outra vez, me sentindo um escroto que se autoflagelava em carregar uma culpa quando eu mesmo estava ferido e magoado.

De nós dois, Sakura sempre fora a mais forte, mas aquela foto me mostrava que ela também poderia ser frágil e não há nenhum mal em ser frágil, em deixar sua armadura de lado e ser cuidado por alguém. E ali estava ela sendo cuidada por Ino e Sasori. Aos poucos fui substituindo o sentimento de culpa pelo de gratidão. Assim como eu tive pessoas ao meu lado, Sakura também não estava sozinha.

Passei a analisar outras fotos e vi Sakura com várias crianças em algumas delas. Às vezes prestando atendimento, em outras fazendo pose. O local que Sakura ficara na Índia não era dos mais bonitos, pelas fotos dava para perceber a precariedade do lugar. O orgulho e a admiração que tinha por ela só fazia aumentar ainda mais.

Outra foto me chamou atenção. Sakura usava trajes indianos, uma maquiagem mais carregada que o comum. Ela estava ao lado de um menino, que diferente das outras crianças das outras fotos, possuía vestes caras e não estampava a fome em seus olhos. Ele sorria para ela, enquanto ela sorria na direção da câmera.

Tirei a tal foto do mural e passei a analisar ainda mais minha irritante. O peito aquecia, o estômago sentia um friozinho gostoso e eu me sentia ainda mais apaixonado por aquela mulher. Sakura me prende de um jeito inexplicável que faz com que eu não queira me libertar de modo algum.

— Acho que é meu dia de sorte. É a segunda vez, quase que no mesmo dia, que te pego de cuecas dentro do meu escritório. Uchiha Sasuke você quer que eu tenha pensamentos impróprios quando estou estudando? – Sakura aparecera de supetão trajando a minha blusa, que nas palavras delas “ era mais confortável que o pijama” e com os olhos vermelhos de sono.

— E mais uma vez você quase me mata de susto, Sakura. – disse aos sussurros.

— Posso saber o que o senhor está fazendo aqui? – perguntou tentando ver o que eu tinha em mãos.

— Digamos que esse mural de fotos me deixou um pouco curioso. – disse me sentando em sua cadeira. – Como eu estava sem sono vim matar minha curiosidade mais uma vez.

— Hum... – disse se aproximando e se sentou no meu colo como uma gata manhosa. – Você sabe que era só ter me perguntado não era? Eu posso sanar todas as dúvidas da sua cabecinha, Uchiha.

— Eu sei. – disse cheirando o seu pescoço. – Então que tal a senhorita me contar a história dessa foto? – mostrei a foto que eu tirara a pouco do mural.

— Ah sim, claro. – sorriu nostálgica. – Como Sasori boca grande disse, eu fiz uma viagem pra Índia. Participei de um programa social em Mumbai, mais precisamente em Dharavi, uma favela localizada no centro da cidade. A ideia era ficar apenas seis meses, mas eu consegui dar uma esticadinha e fiquei por oito. Essa foto foi na última semana lá. Esse rapazinho é Sajan Ompatti.

— Ele parece diferente das outras crianças das fotos. As vestes, as expressões, até mesmo o ambiente é diferente.

— Ele não fazia parte do grupo de crianças carentes que residam em Dharavi. Sajan é filho do empresário Talank Ompatti. Dono de uma rede de tecido e perfumarias em Mumbai, que possui filais por toda a Índia. Sajan sofria de pericardite.

— Amor, traduza por favor.

— Pericardite é o nome dado a inflamação do pericárdio. Pericárdio é a membrana que reveste a parte exterior do coração. Essa membrana impede que o coração se expanda demais quando realiza as suas funções, basicamente impede que ele exploda por assim dizer. Ele é formado por duas lâminas: a externa e a interna. Entre elas existe o líquido do pericárdio, quando há inflamação esse líquido se expande causando dor e insuficiência respiratória, por exemplo.

“Existem diversas causas e vários tipos de tratamento. As dores que a pericardite causa se tornam insuportáveis senão forem tratadas. Acontece que no caso de Sajan os corticoides já não estavam mais fazendo efeitos assim. Se para o adulto já é ruim, imagina para uma criança de oito anos? ”

— Nossa, não consigo nem imaginar. – e não conseguia mesmo. Aos oitos eu só queria correr, brincar de carrinhos e abusar Sakura. – Mas como Sajan chegou até você? Pensei que o programa atendia as pessoas que não possuíam condições de pagar por uma consulta médica ou qualquer tipo de tratamento.

— E de fato é, mas o pai de Sajan estava desesperado, nenhum médico conseguia achar um tratamento eficaz que surtisse efeito no filho dele. Fora que o excesso de corticoides só piorava o estado de saúde da criança. Um dos funcionários de Talank, que morava em Dharavi e trabalhava em uma das fábricas de tecido falou sobre mim. – Sakura deu um sorriso singelo com aquelas orbes verdes viajantes. – Talank disse que o rapaz falou que uma médica de cabelos rosa curou a filha dele e que o senhor Talank deveria buscar ajuda para o menino Sajan no mesmo lugar.

“Talank confessou que ficou meio cabreiro de início e desacreditado, mas ainda assim foi a minha procura. Nos encontramos no posto de atendimento em Dharavi e conversamos sobre o caso. Fiquei muito interessada e decidi conversar com a coordenação do programa, afinal eu estava lá para atender crianças carentes, mas doenças não escolhem cor, classe social ou gênero. Fui liberada para esse atendimento, desde que não recebesse nenhuma quantia em dinheiro ou qualquer presente como pagamento. ”

“Quando conheci Sajan ele estava irreconhecível de tão inchado, efeito dos medicamentos e parecia ter uma sobrevida. Fizemos todos os exames e eu decidi por um tratamento não tão convencional, mas que deu certo em muitas crianças no Japão. Optei pela quimioterapia. ”

— Mas quimioterapia não é tratamento pra câncer?

—Também, mas em casos como o de Sajan, a quimioterapia pode ser bastante eficaz e menos agressiva – apesar dos efeitos colaterais – que o tratamento convencional. Sajan respondeu muito bem ao tratamento e as dores foram diminuindo e sendo controladas de forma que Sajan tenha uma vida plenamente normal.

— Percebi. Sajan estava só sorrisos ao seu lado.

— Esse foi um dia de festa. Duas semanas após a sua última sessão de quimioterapia, uma nova coleção de roupas indianas foi lançada neste evento das empresas Ompatti. Eu fui convidada e fui a caráter. Nessa festa o empresário ainda anunciou que iria investir no programa e prestaria assistência para que outras crianças tivessem o mesmo acesso a saúde que seu filho. Foi incrível.

— Haruno Sakura e o seu incrível poder de mudar o mundo. – dei um beijo estalado em seu pescoço.

— Mas quando eu achei que a noite não podia ser mais surpreendente Sajan disse que eu estava tão linda e me pediu até em casamento.

— O que? – eu acho que não ouvi direito. – O que essas crianças têm, hein? Que são todas gamadas em você? Primeiro Yagura, agora esse tal de Sajan. Você disse a eles que tem alergia a casamento?

— Claro que não, Sasuke. Não podia destruir os sonhos de uma criança de oito anos e por favor pare com esse ciúme bobo. Se somar Yagura e Sajan não forma um homem completo pra você ter ciúme.

— São muitas crianças para dividir sua atenção. Meu Deus!

Enquanto eu tinha um pequeno surto, Sakura ria de forma gostosa – embora eu nunca fosse admitir – da minha cara emburrada.

— Eu sou apaixonada por você, meu bem. Nem criancinhas fofas conseguem mudar isso.

— Que bom, fico mais tranquilo. Agora você poderia me deixar mais feliz fazendo alguma performance de dança indiana pra mim não, é? Você ficou uma coisa naquela roupa.

— Querido, aquilo é um sári. São metros e metros de tecido, e a minha coordenação com bisturis é limitada demais para arrumá-lo no meu corpo. Moças indianas que me colocaram dentro dele. E quanto a performance, te ofereço uma dança desengonçada japonesa que é a única que sei fazer. E aí, topa?

Olhei para ela com olhos pidões. Minha camisa bastava pra que ela estivesse sexy... Na verdade Sakura se bastava e não precisava de qualquer tipo de adereço pra isso.

Tomei a foto de suas mãos e a depositei na mesa. Peguei Sakura no colo e um gritinho agudo se fez presente no cômodo. – Esquece a dancinha, eu quero outra coisa e você não precisa nem estar vestida.

— Nossa, Uchiha Sasuke você está muito danadinho. Me leva para aquele quarto já.

— Como quiser, madame!

(...)

A semana passou mais rápida que do que eu gostaria, mas não menos prazerosa. O trabalho na fábrica foi árduo e pesado, e mesmo que tivéssemos avançado bastante eu ainda teria de entregar um relatório completo na segunda e só voltaria pra Konoha na terça pela manhã, levando uma certa rosada comigo.

Rosada essa que não me deu resposta alguma sobre morarmos juntos ou não. Essa semana, eu a busquei e a levei ao hospital para trabalhar, mesmo que sob protesto algumas vezes por desviar ela da sua única atividade física que era ir de bicicleta ao hospital.

Mas eu não me importava, eu queria mais dela. Saber da forma que ela vive, sua rotina, como é Sakura dentro da sua casa, morando sozinha. Capitar cada gesto, que eu não pude nesses anos e também, passar pra ela como era a minha rotina, como é o Sasuke dentro de uma casa.

Com certeza, eu era o mais organizado, sem sombra de dúvida. Sakura amava uma toalha molha em cima da cama, cama essa que eu arrumava sempre e ela adorava que eu o fizesse.

Mesmo que o horário dela fosse bem doido, eu me acostumaria. Embora a frequência de seus plantões em Konoha serão bem menores, uma vez que ela prestaria atendimento em sua sala exclusiva e passaria a agendar suas cirurgias, mas estaria à postos sempre que fosse necessária uma cirurgia de emergência.

Eu até comentei com meu irmão que chamei Sakura pra morar comigo, e nas palavras dele “estou orgulhoso que meu irmãozinho tolo virou homenzinho”. Um idiota eu sei, mas o meu medo foi dele abrir aquela boca grande pra nossa mãe. Como ela falou comigo normalmente esses dias, acho que Itachi não deu com a língua nos dentes ou minha mãe é uma excelente atriz. Isso é algo pra me preocupar quando chegarmos lá.

Sakura e eu tiramos o final de semana para empacotar as coisas que ela levaria pra Konoha. Até o primeiro momento, ela não iria se desfazer do apartamento e por isso deixará os móveis – exceto os do escritório – e os eletrodomésticos por aqui mesmo. Está mais barato comprar novos em Konoha do que mandar levar os daqui pra lá.

Então, só teríamos de empacotar suas roupas, alguns objetos de decorações, sapatos e todos os seus livros. Em tese, pouca coisa, mas como deixamos tudo para o fim de semana, quanto mais a gente empacotava mais coisa tinha para empacotar.

E a última parte foi destinada aos livros, porque Sakura fará três cirurgias na segunda e uma é mais delicada que as outras. E como ela estudaria esse caso mais afundo, deixamos pra guardar os livros ao final do domingo.

Eram tantas caixas que eu já tinha perdido a conta. Vez ou outra eu folheava alguns livros e via anotações que ela fazia. Sakura era mais nerd do que eu pensava.

— Sasuke?! – Sakura me chamou enquanto passava o durex fechando uma caixa.

— Oi. – fechei um livro que folheava e coloquei na caixa olhando em sua direção.

— Eu estava aqui pensando... quantos quartos tem no apartamento que seu pai te deu?

Fiquei animado que ela tocasse no assunto, já que evitou o mesmo a semana toda. – Eu nunca fui lá, mas Itachi me mostrou a planta e me disse que são dois. Mas por que a curiosidade?

Sakura estava meio sem graça e vê-la desconcertada é algo raro, mas muito fofo. Ela não me encara, mas suas bochechas rosadas falam por si.

— Bom... é que eu estava pensando e....

— E? – encorajei-a

— E que, bem. – respirou fundo e me encarou com olhos pidões. – Tem espaço para meus livros em sua casa também? Eu não costumo me separar deles...

— Então quer dizer que você aceitar morar comigo? – levantei num pulo eufórico. – Vamos morar juntos, é isso?

— Sim, eu quero morar com você. – sua voz não passava de um sussurro e ela estava corada com seu sorriso doce.

Sentei ao seu lado e a trouxe para meu colo. A abracei apertado tomando o cheiro doce do seu pescoço para mim. Não existia homem mais feliz do que eu.

Coloquei uma mecha do seu cabelo atrás da orelha e foquei em seu olhar. – Na nossa casa, terá espaço para o que você quiser colocar lá. Faremos a estante mais bonita para seus livros e um escritório mais confortável possível pra que você possa estudar. A única coisa que eu peço é um espaço para os meus carrinhos. – dei uma piscadela marota.

— Não seria nosso lar, senão fosse uma soma de nós dois. – me deu um beijo cálido nos lábios, me focou, colou nossas testas e fez um afago na minha bochecha. – Eu te amo. Obrigada por não desistir de mim, Sasuke.

— Desistir de você seria a maior burrada que eu faria na vida. – ela riu e eu acompanhei. – Obrigado por ter voltado, obrigado por ter entrando em minha vida e obrigador por dividir um lar comigo. Eu amo você mais do que posso colocar em palavras, minha irritante.

E tendo livros como expectadores, nos amamos naquele chão, que um dia fora destinado apenas a comportar uma sala de estudo e livros técnicos. Nada que uma dose de amor pra dar outro significado.

(...)

Na sala de embarque do aeroporto de Tóquio, Sakura zanzava de um lado para o outro. Se continuasse dessa forma abriria um buraco no chão.

— Amor, o que você tem? – perguntei pela milésima vez, esperando não ser ignorado como das outras vezes.

— Meus livros, Sasuke. Estou preocupada com meus livros. – e andava de um lado para o outro.

— Sakura, eles vão chegar inteiro e no prazo. Agora, será que você poderia se sentar?

— E se eles amassarem, se uma caixa rasgar, ou se acontecer algum acidente no com o caminhão na estrada?

— Sakura, eles estão indo de trem.

— E se o trem descarrilhar? Meus livros, minhas anotações... Ai meu Deus!!!

Levantei e tomei suas mãos no afago tranquilizador, ou pelo menos tentei. – Eles vão chegar inteiros. Vai ficar tudo bem, eu prometo.

— Um papel rasgado e eu como seu fígado, Uchiha Sasuke.

— Tudo bem, meu fígado é todo seu. Dizem que com cebola fica ótimo.

— Baka!

Não respondi e a puxei para sentar ao meu lado, mas ela ficou balançando o pé. Sakura estava numa oscilação de humor terrível e não só meu fígado, como meu rim e estômago tinham rodado várias vezes.

Isso só pode ser obra da enviada do demônio, a TPM. Por isso que minha mochila está cheia de doce para momentos como esse de agora.

Ofereci um chocolate com recheio de coco que ela tomou da minha mão mais rápida que a queda de uma estrela cadente e comeu na mesma velocidade.

— Obrigada. – sussurrou de boca cheia. Apenas assenti. – Desculpa, acho que estou nervoso com a volta para Konoha e também preocupada.

— O que te preocupa?

— Meu pai... sua mãe... – quando falou em dona Mikoto a careta se fez presente.

— Vai ficar tudo bem. – falei cansado de repetir esse mantra. Ou era vai ficar tudo bem ou vai dar tudo certo.

— Você só diz isso, mas não sabe de porra nenhuma.

E do nada Sakura começou a chorar ao meu lado.

— Amor... não fica assim – tentei consertar a cagada, mas...

— Me deixa. Não fala comigo. Você calado ainda está errado. – a raiva nos olhos e na voz era evidente, melhor não contrarias. Sakura dava medo nas pessoas, e eu era uma delas.

O embarque do nosso voo foi anunciado e no mais perfeito silêncio entramos no avião. Ela não me dirigia nenhuma palavra, apenas falou com a aeromoça e pediu por mais doces a ela pra não falar comigo.

Quando souberem o meu crime, me avisem!

Chegamos em Konoha e Sakura continuou sem falar comigo. Tudo bem que eu gostava do silêncio, mas essa porra estava ficando chata já.

Pegamos nossas malas e fomos ao estacionamento. Itachi e Izumi nos esperavam.

Chegando lá meu irmão e futura cunhada nos esperava com sorrisos enormes. Itachi ia fazer alguma brincadeira, mas no gesto mudo eu pedi que ele se calasse. Sakura os cumprimentou normalmente, como podemos ver o problema sou.

Chegamos na casa do pai dela e a deixei na porta de casa. Quando me preparava pra sair, ela me puxou pela barra da camisa e me abraçou forte.

— Me desculpa, amor. Eu só não queria ser grossa com você de novo.

A abracei de voltei e aspirei o cheiro do seu cabelo agradecendo aos céus por ela ter falado comigo. – Tudo bem, mas pode me abraçar e me mandar a calar a boca que eu não ligo, certo? – ela assentiu rindo e se afastou com os olhos chorosos. – Tem certeza que não quer que entre e converse junto com você e seu pai?

Ela negou com a cabeça. – Acho melhor cada um conversar com sua família, eu com meu pai e você com os seus.

— Façamos assim então. Te mando notícias e espero suas, tudo bem?

— Sim. – me deu mais um abraço apertado e um beijo rápido. – Te amo.

— Te amo, irritante.

Voltei pro carro e meu irmão seguiu viagem pra nossa casa.

— O que a rosinha tinha, Sasuke? – indagou Itachi.

— Ela está um pouco nervosa pra conversar com o pai sobre sair da casa dele mal tendo retornando.

— Tem certeza que não é gravidez? Izumi surta algumas vezes e me ignora o dia todo, e não tem comida que faça efeito.

— Querido, eu estou aqui, ok? E não quiser dormir no chão não repita uma merda dessa. – disse Izumi.

— Ta vendo, aí? – e como resposta meu irmão tomou um belo de um tapa no braço. – Ai, Izumi!

— Bem feito, idiota. E não, não é gravidez. Sakura toma pílula. – suspirei. – Ela só está nervosa com as mudanças e isso coincidiu com a TPM, e eu me fodi. Apenas isso. Dá pra sobreviver.

— Você deveria ser como seu irmão, Itachi. Sasuke é muito mais sensato. Deveria se espelhar.

— Tá vendo, Itachi? Nem tudo está perdido. Izumi está com você, mas ainda tem lucidez. Obrigada pelo carinho, priminha.

— Ah merda, vão se foder todos vocês.

— Acho que mais alguém tá na TPM, Izumi. – falei e minha prima e eu gargalhamos do idiota do meu irmão que fingia que não era com ele.

(...)

Após o jantar, num acordo mudo, Itachi e Izumi se retiraram pra que eu pudesse conversar com meus pais sobre a minha decisão de morar com Sakura. A ideia é soar apenas como um comunicado e não pedido ou permissão. Mas o que me preocupação é a reação da minha mãe.

— Bom, pra Itachi ter se retirado sendo que mal beliscou a sobremesa, então a coisa é séria. Desembucha, Sasuke. – disse minha mãe me surpreendendo. Ela tem poderes?

— Como a senhora sabe que eu quero conversar?

— Você está mais calado que o normal, não falou nada sobre a sua estadia em Tóquio, ficou mexendo a cabeça de um lado para o outro na hora do jantar como quem pondera algo. Então, pode logo ir falando, mocinho.

Mocinho é foda. Péssimo.

Olhei para meu pai, que até o momento apenas nos observava. Algo me dizia que ela já sabia do que o assunto se tratava. Ele deu um manear de cabeça para que eu começasse a falar e assim o fiz.

— Essa semana em Tóquio me fez pensar sobre muita coisa. A verdade, é que eu já vinha pensando sobre isso. – suspirei e prossegui. – Apesar de alguns percalços, Sakura e eu estamos bem agora. Conversamos tudo o que tinha para ser conversado e nos acertamos definitivamente. Estamos bem, felizes e decidimos dar um próximo passo no nosso relacionamento. Eu já iria sair de casa de qualquer forma, como tínhamos conversado antes. Meu pai facilitou e me presenteou, assim como a Itachi, com um apartamento. E agora, eu venho informar a vocês que eu e Sakura tomamos a decisão de morar juntos. Bom, é isso!

Um silêncio se formou e eu me foquei em dividir a atenção para ver a reação de ambos. Meu pai deu um sorriso singelo e eu fiquei mais aliviado de ter mais uma pessoa ao meu lado, além de Itachi e Izumi.

Já minha mãe, bem, ela fazia tantas caras e bocas, e seu rosto que é sempre tão pálido está completamente vermelho, o que me parecesse ser de raiva.

Ok, vou me ferrar.

— Eu sabia Fugaku. Eu te avisei que ia dar nisso aí. – minha mãe direcionava sua indignação a meu pai. – Meus dois filhos indo embora de casa e com um histórico horroroso. Um engravida a prima e agora vai casar às pressas. O outro, volta com o amor da adolescência, depois de nove anos, mal se acertam e já vão dividir um teto. Meu Deus, aonde foi que eu errei com esses meninos? Aonde?

Olhei pra meu pai em desespero buscando ajuda e ele logo pegou as mãos da minha mãe. – Querida, antes de completarmos um mês de namoro nós já morávamos juntos. E você casou grávida de Itachi, acho que nossos filhos tiveram a quem puxar.

— O QUE? – bradei indignado. Eu não sabia de nenhuma dessas histórias. Fui enganado por 25 anos. – Por que nem meu irmão e eu sabemos disso?

— Porque não é da sua conta, Uchiha Sasuke. – minha mãe soou uma voz ferina me fazendo encolher na cadeira. – A questão aqui é você e não seu pai e eu. – direcionou seu olhar mortal pra meu pai que encolheu na cadeira assim como eu. – Se você abrir essa boca maldita mais uma vez Fugaku, você vai dormir no sofá por um mês, ouviu bem? UM MÊS. – voltou seu olhar pra mim e depois de um logo suspiro se pós a falar. – Você sabe muito bem o que eu acho disso tudo, Sasuke. Por mim, você nunca teria voltado com a Sakura por motivos óbvios, mas está na natureza dos filhos desobedecer aos pais, se bem que nesse caso aqui é só a mãe, porque seu pai é uma pamonha com manteiga derretida. Então não me resta muita opção. Você já é bem grandinho e sabe o que faz da vida, se acha que é o certo faça, confesso que não estou contente, mas respeito sua decisão.

— Obrigado, mãe. – disse internamente feliz, mas felicidade tá pequena.

Ganhei um revirar de olhos como resposta e um guardanapo jogado na mesa com toda fúria, não antes claro de receber uma olhada mortal junto com meu pai antes dela se retirar do cômodo.

— Sasuke, me ajuda a tirar a mesa e vamos lavar a louça. – a voz de meu pai ecoo grave assim que minha mãe sumiu das nossas vistas. – Eu lavo e você enxuga.

— Tá certo, pai.

Meu pai e eu nos levantamos e passamos a retirar os objetos da mesa. Nada era dito, conversamos por gestos mudos. Ele ainda não tinha me falado o que achou do meu comunicado de minutos atrás.

Por mais que eu soubesse que ele gostasse da Sakura, era importante pra mim ouvir sobre a minha decisão. Um apoio reconfortante que sempre esperamos dos nossos pais quando tomamos decisões importantes.

Um prato, dois pratos, três pratos lavados e um silêncio absoluto vindo de Uchiha Fugaku. Eu me ocupava com um pano felpudo e secava mais a louça que o necessário.

— Você vai quebrar o copo desse jeito, Sasuke. – a voz de meu pai surgiu outra vez e foquei meus olhos nele. Meu pai fechou a torneira e passou a me encarar. – Fiquei feliz com sua decisão de morar com a Sakura. – um sorriso de canto, assim como o meu, desapontou em seus lábios. – Na verdade, eu já sabia. Itachi acabou comentando, sem querer. Ele tinha bebido um pouco além da conta.

Bufei irritado. – Itachi não se emenda, não é?

— Não se esqueça que você fez o mesmo por ele, quando me contou que ele estava junto com Izumi de novo.

— Mas ali foi diferente, pai.

— Claro que foi, você estava sóbrio, Itachi não. – disse brincalhão.

— Nossa, temos um piadista na família Uchiha. – ironizei.

— O seu jeito é tão parecido com o meu, filho, que às vezes me assusta, sabia?

— Quem sai aos seus não degenera. Não é esse o ditado?

— É esse sim. – sorriu mais uma vez.

— Obrigado pai, pelo seu apoio com relação a minha decisão. É muito importante pra mim e pra Sakura também.

— E por falar nela... – abriu a torneira e pós a lavar a louça novamente. – Onde ela está?

— Ela precisava descansar, estava exausta e com uma TPM dos diabos. – tremi só de lembrar daquela merda. – Ela achou melhor cada um conversar com seus progenitores separados, embora eu ache que ela está com medo de dona Mikoto.

— É compreensível, Sasuke. Eu que estou com sua mãe a mais de trinta anos tenho medo, imagina a pobrezinha da Sakura?!

— Eu sei. Não pressionei por isso, minha mãe quando não quer facilitar é osso duro de roer, por Deus.

— Paciência, meu jovem. Uma hora ela cede e fica tudo bem.

— Paciência é só o que me resta agora. – foquei na colher que enxugava até que a curiosidade me abateu. – Mas me conta essa história da mamãe ter casado grávida. Quando Itachi fez essa pergunta pra vocês quando era mais novo vocês disseram que ele ficou mais tempo na barriga do que deveria.

— Nós já estávamos de casamento marcado, mas faltando uma semana para a cerimônia, Mikoto começou a sentir uns sintomas como enjoos e dores no estômago. No início achamos que poderia ser uma gastrite nervosa por conta do estresse que estava sendo organizar o casamento, mas era seu irmão mesmo. Mikoto tinha cerca de três a quatro semanas de gravidez. – deu de ombros. – Ficamos muito feliz com o nosso presente de casamento.

— Mas por que a neura da mamãe em esconder isso? Não faz muito sentido.

— Faz todo o sentido, Sasuke. Sua mãe e eu fomos educados diferentemente de você e seu irmão.

— Como assim, pai?

Meu pai desligou mais uma vez a torneira, enxugou as mãos num pano ao lado e ficou de costas para a pia. Soltou um suspiro prolongado e depois me focou. Pelo visto, a história seria longa.

— Ao contrário de mim, sua mãe nasceu na zona rural de Konoha. A família tinha um sítio e viviam do que a terra dava. O pai de Mikoto era ainda mais severo que o meu. Ele queria que a filha fosse uma perfeita dona de casa, mãe e nada mais, assim como foi a mãe de Mikoto, sua avó Sora, que faleceu quando sua mãe tinha pouco mais de dez anos. Como sua mãe era filha única ela seguia as riscas o que seu avô mandava.

“O tempo passou e surgiu a oportunidade de sua mãe estudar, sempre boa aluna, ela conseguiu uma vaga na Universidade Konoha e foi lá que eu a conheci. Me apaixonei assim que a vi. Ela estudava escondida do seu avô, o tempo que ele passava cuidando das plantações, ela estudava. Nos tornamos amigos, da amizade evoluímos para o namoro e ela me contou o que se passava na casa dela. No começo não fiquei chocado, na minha casa era da mesma forma, fomos educados da mesma maneira. Mas eu também entendia a vontade de sua mãe, de querer estudar e dar uma vida melhor ao seu avô, por isso eu a apoiava. Eu sentia um orgulho e uma admiração inexplicável por ela. ”

“Perto de completarmos um mês, Ryuu pai de Mikoto e seu avô, descobriu o que a filha fazia todas as manhãs e ainda descobriu que ela namorava comigo. Uma vizinha deu com a língua nos dentes quando viu eu deixar sua mãe perto do sítio onde eles moravam. Seu avô deu uma surra em sua mãe. Bateu tanto nela e não permitiu nem ao menos que ela explicasse coisa alguma ou se defendesse, e ainda expulsou de casa apenas com a roupa do corpo ou que sobrou dela. ”

— Meu Deus, pai! Só por que ela estudava e queria ter uma profissão que a fizesse feliz? Por que ela se recusou a viver nesse mundo machista? Por que ela recusou em apenas ser um troféu pra um marido? – bradei irritado. – Pai, quanta incoerência, isso é um absurdo. – eu estava extasiado diante de tal revelação, nunca imaginei que minha mãe tinha passado por tal coisa.

— Sim, filho, infelizmente. – era notável o amargor na voz do meu pai. – Eu lembro que Mikoto chegou aos frangalhos em meu apartamento, que na época eu dividia com Madara. As vestes rasgadas, a pele marcada, o lábio sangrando... Me dói só de lembrar, Sasuke.

“Na época, eu pensei que ela tinha sofrido algum tipo de violência sexual, mas quando ela disse o nome do seu avô tudo fez sentido pra mim. Desse dia em diante, Mikoto passou a morar comigo, não nas circunstâncias que queríamos, mas foi desse jeito. Logo depois ela começou a estagiar na construtora do meu pai e ao final dos nossos cursos, resolvemos nos casar. Ela não falava com o pai desde o acontecimento e ainda assim, resolveu levar o convite de casamento na época, mas chegando lá descobriu que o pai tinha falecido meses atrás de cirrose hepática. ”

“ Ninguém sabe dessa história, além de Madara, sua mãe e eu. Isso marcou e marcará sua mãe a vida inteira. Eu lembro o quão deprimida ela ficou, só foi melhorar depois que descobriu que estava grávida do seu irmão. ”

— Eu não sei nem o que dizer pai...

— É por isso que sua mãe vive assim. Ela se culpa pela morte do seu avô até hoje. Por isso ela escondeu durante todo esse tempo que ela trabalhava como arquiteta em casa, por isso que algumas vezes ela não consegue se desligar do conservadorismo que a cerca. Ela quer se libertar, mas não consegue. Apesar do que a Sakura te fez, sua mãe a admira muito porque Sakura teve uma coragem que ela não teve. Entende? É uma briga interna com ela mesma e ela acaba deixando transpassar pra outras pessoas.

— É difícil, pai.

— Pra ela é ainda mais, filho.

— Agora eu sei. – disse por fim.

Terminamos a louça em silêncio e voltei para o meu quarto bem a tempo de ouvir meu celular tocando. Era Sakura, pedindo que eu fosse até a casa dela. Coloquei um arsenal de chocolates numa sacolinha de papel e fui, mas antes passei no mercado e comprei um pote e sorve de flocos.

Um homem precavido vale por dois.

Ela estava sozinha e eu precisava desabafar. Acabei contando tudo que meu pai me contou a ela. Não deu outra, Sakura ficou tão mexida quanto e ainda chorou de soluçar, quase se engasgando com sorvete. Seria cômico senão fosse trágico.

— Sua mãe é muita corajosa, Sasuke-kun. – disse agora um pouco mais calma. – Assim como seu pai, você deve ter orgulho dela.

— Eu sei, mas me incomoda a forma como ela lida com nós dois.

— Uma coisa de cada vez, meu bem. Faça a sua parte e o destino se encarregará do resto.

— Como sempre, você tem razão. E não sei se gosto muito quando digo isso.

Ela riu pela primeira vez essa noite e aquilo me aqueceu por dentro. Sakura parece sempre saber o que dizer. E eu sou muito grato por isso.

— Alguém tem que ter razão, né? Prefiro que seja euzinha. – e tome mais uma colherada imensa de sorvete.

— Claro que prefere. – limpei o canto da sua boca. – E como foi com seu pai?

— Foi tranquilo, na verdade ela já imaginou que isso fosse acontecer. – deu de ombros. – De qualquer forma teremos um tempo para aproveitar esse período pai e filha até o apartamento ficar pronto.

— Por falar em apartamento, falei com Izumi e Itachi e eles me mostraram a planta outra vez. O cômodo para sua sala de estudo está garantido. – seus olhos brilharam com a notícia. – As reformas são poucas. Precisamos focar nos móveis, aparelhos de eletrodomésticos e objetos de decoração. Os imóveis serão entregues na semana do casamento de Itachi, ou seja, daqui a duas semanas.

— Ai meu Deus, Sasuke. Precisamos correr. – ela disse empolgada e ao mesmo tempo preocupada. Fiquei feliz. – Preciso das medidas para os móveis, podemos até comprar algumas coisas pela internet.

— Izumi me falou que tem um home center enorme em Suna. Ela vai com Itachi no sábado, nós podemos ir junto, se quiser.

— Mas é claro, que vamos. É o nosso lar, afinal de contas.

Um sorriso caloroso se formou nos lábios dela e eu não pude conter o sorriso nos meus. Encostei dois dedos em sua testa e disse:

— Sim, Sakura. É o nosso lar!

Notas finais
Música do cap: https://www.youtube.com/watch?v=aspXe_oF6Tk Terceira música das meninas (Anavitoria) que coloco seguida, mas é porque elas são demais gente. As músicas são tão lindas e de quebra ainda fui num show delas sábado passado e ainda estou anestesiada. Ouçam que é amor *-* ~~*~~*~~*~~*~~*~~ E aí, o que acharam do capítulo? Quero saber tudo de vocês ;) Próximo capítulo temos um casório de um certo moreno de cabelos longos =X Beijocas ;** Continuem a nadar~~