Daylight
18 Contornando as intempéries
Notas iniciais
Só por hoje não quero mais te ver
Só por hoje não vou tomar minha dose de você
Cansei de chorar feridas que não se fecham, não se curam
E essa abstinência uma hora vai passar
(Na sua estante — Pitty)
Por Sasuke
Tentei a noite toda pregar o olho, mas tudo foi em vão. Virei de um lado pro o outro da cama e esse mínimo esforço só funcionou pra me deixar mais acordado. Eu tava cansado, esgotado, mas sono que é bom, nada.
Fiquei repassando todo o dia anterior mais uma vez... eu precisava conversar com minha mãe e acertar as coisas com ela e eu tinha que conversar com meu pai sobre a questão do apartamento. Eu odiava postergar as coisas, então eu precisava fazer isso hoje.
Pequenos raios solares invadiram meu quarto, através da janela o que me despertou ainda mais. Peguei meu celular e verifiquei que tinham várias ligações e mensagens, mas aquilo não me interessava, meu objetivo era ver o horário e constatei que eram 06:32 da manhã... meu pai sempre tomava café as 7 da manhã, oportunidade excelente pra conversar com ele.
Me levantei e fui tomar um banho gelado que me despertou ainda mais, ao saí coloquei uma cueca boxer branca, calça preta de moletom, uma camiseta e meu tênis de corrida, após o café eu precisava fazer algo que me impedisse de pensar e me deixasse cansado para poder dormir em algum momento. Minha preocupação maior era enfrentar Dona Mikoto logo cedo, depois daquela péssima discussão na madrugada.
Arrumei meu iPod e meu fone no bolso direito da calça, as chaves no esquerdo e arrumei do meu jeito os meus cabelos... não faltava mais nada, mas eu me sentia inseguro de como encararia as coisas nessa manhã. Segurei a maçaneta da porta pensando em diversas formas de como agir ou o que falar, mas foi tudo em vão.
— Coragem, Sasuke. Coragem – sussurrei de encontro a porta e saí do quarto.
Desci as escadas e a casa estava um tanto silenciosa, não havia ninguém na sala o que só aumentava a minha tensão. Com a cara e a coragem resolvi ir até a cozinha e para minha surpresa só estavam meu irmão e meu pai.
— Bom dia — disse assim que entrei no cômodo;
— Bom dia, mano – Itachi estava com uma cara de sono péssima, bem-vindo ao clube;
— Bom dia filho – disse meu pai do seu jeito reservado;
— Cadê a mamãe? — a parte mais difícil do dia;
— Ela disse que está com enxaqueca – meu pai dizia me encarando – mas sabemos muito bem que não é isso, ela está chateada com você;
— Eu sei – disse derrotado;
— Então, trate de dar um jeito – meu pai disse sério, mas não parecia chateado;
— Farei isso – disse por fim.
E o mesmo silêncio que estava antes d'eu chegar se instaurou mais uma vez. Peguei uma xícara no armário e me sentei a mesa e logo enchi minha xícara com café não coloquei nem leite e nem açúcar, café pra mim só presta se for assim. Peguei umas torradas passei um pouco de requeijão cremoso e comecei a comer.
O silêncio não me incomodava, mas estava estranho, uma vez que Itachi nunca foi de ficar muito quieto. Observei os dois e notei que eles estavam arrumados e achei esquisito uma roupa daquela aos sábados pela manhã... será que eles irão trabalhar? Papai eu até entendo, mas Itachi?
— Por que estão arrumados tão cedo? — indaguei;
— Porque vamos trabalhar – respondeu meu pai;
— Nós iremos visitar o condomínio residencial Vila da Folha – aquele nome me fez lembrar de que eu preciso conversar com meu pai – e depois passaremos o dia na construtora;
— Num sábado? — indaguei;
— Nem sempre é necessário, mas precisamos organizar umas coisas e revisar uns contratos com Sai – Itachi respondeu;
— Ah sim – dei de ombros.
Eu tinha que tocar no assunto do apartamento com meu pai, mas eu não sabia como... Uchiha Fugaku nunca foi um homem muito fácil de lidar, só existiam duas pessoas que conseguiam dobrá-lo: minha mãe e Sakura. Lembrar dela fez o meu peito aquecer e sem querer acabei sorrindo, Itachi percebeu, então tratei logo de afastar aquele pensamento.
— Então, o que vai fazer hoje, Sasuke? — Itachi indagou e não entendi o motivo da pergunta;
— Não sei, mas agora pela manhã eu vou correr – dei de ombros – por que?
— Tava pensando da gente sair mais tarde, o que você acha? — ele olhou pra mim e depois olhou pra meu pai como se estivesse insinuandi algo, mas eu não entendi;
— Pode ser – dei de ombros e ele fez uma careta;
— Pai, vamos sair nós três hoje? Jantar lá no Bykugan ? — perguntou Itachi, Byakugan é restaurante da família Hyuuga – Tem tanto tempo que não saímos juntos — eu queria entender o que Itachi pretendia;
— Não sei, seu pai anda cansado, filho – resmungou meu pai;
— Ah vamos pai – eu disse tentando parecer animado – sinto falta das nossas saídas;
— Tudo bem, mas tem uma condição pra você Sasuke? — ótimo, eu já imaginava do que se tratava;
— Qual? — mesmo assim perguntei
— Você tem que se entender com sua mãe até a hora da gente sair – sabia que era isso;
— Tudo bem, eu já iria fazer isso mesmo — meu pai deu leve sorriso, isso era raro – Que horas nos encontramos lá?
— Às 19:00 horas – disse meu pai – acho que até esse horário já resolveremos tudo;
— Tudo bem – eu disse por fim;
— Uhuuuu – gritou meu irmão – a noite será dos garotos Uchihas;
— Filho, já não somos mais garotos – disse meu pai cortando a empolgação de Itachi e eu ri;
— Porra pai, qual é? — Itachi estava realmente indignado;
— Xingando na mesa, Uchiha Itachi?! — meu pai indagou sério e eu me segurei pra não gargalhar;
— Desculpe, pai – meu irmão baixou os olhos em vergonha, era estranho ver um cara de 30 anos fazer isso, mas as coisas aqui em casa nunca foram muito comum;
— Muito bem, assim está muito melhor.
Depois desse momento constrangedor não conversamos mais, mas todos esperamos uns aos outros para sairmos da mesa. Levantamos juntos e colocamos a louça suja na pia.
— Itachi, você vai comigo ou vai no seu carro? — indagou meu pai, ele não parecia mais chateado;
— Vou com o meu – respondeu meu irmão;
— Certo, estou te esperando – pegou as chaves no aparador – não se atrase. Tchau Sasuke;
— Tchau pai – respondi e ele saiu por à fora;
— Sasuke? — Itachi me chamou;
— Oi;
— Esse jantar é sua deixa pra conversar com papai sobre o apartamento – realmente seria uma excelente oportunidade;
— Será, irmão?!- eu estava realmente inseguro;
— Sasuke, você é um homem ou um saco de batatas? — é sério isso? Ninguém mais pergunta isso;
— Um homem, Itachi – cerrei os olhos pra ele;
— Então se comporte como tal, agora preciso trabalhar;
— Tudo bem, bom trabalho – disse por fim;
— Obrigada e boa corrida;
— Valeu – eu disse e Itachi saiu logo em seguida.
Fiquei sentando no sofá esperando minha mãe aparecer para que eu pudesse conversar com ela, mas ela não apareceu, deve estar muito chateada, mesmo que tenha motivos ela foi longe demais e eu tinha meu direito de também estar chateado com ela.
Depois de tanta reflexão, eu precisava correr para distrair minha mente. Peguei meu iPod selecionei a pasta de rock e Welcome To The Jungle do Guns n' Roses começou a ecoar nos meus ouvidos através dos fones. A intro despertou meus sentidos, a adrenalina passou por todo meu corpo e eu não pude deixar de rir com a ironia, Konoha estava parecendo mesmo uma selva que eu esperava sobreviver e queria saber até quanto tempo a leoa de pelagem rosa iria aguentar.
Welcome to the jungle Bem-vinda à selva
We take it day by day Nós a enfrentamos dia por dia
If you want it you're gonna bleed Se você a quer, você vai sangrar
But it's the price you pay Mas este é o preço que você paga
And you a very sexy girl E você é uma garota muito sexy
That's very hard to please Que é muito difícil agradar
You can taste the bright lights Você pode provar as luzes brilhantes
But you won't get them for free Mas você não vai tê-las de graça
In the jungle Na selva
Welcome to the jungle Bem-vinda à selva
Feel my, my, my, my serpentine Sinta meu, meu, meu chicote
I, I wanna hear you scream Eu quero ouvir você gritar
(Welcome To The Jungle – Guns n' Roses)
Perdi a hora de quanto eu tempo eu corri, deixei a música me levar pra onde ela quisesse e acabei parando no Centro Comunitário de Konoha. Eu senti uma vontade incrível de me bater... por que diabos eu fui parar naquele lugar?
Antes que eu me respondesse já estava a caminho das cerejeiras, me senti o homem mais burro da face da terra, mas eu não consegui impedir meus passos e eu já estava do lado daquela maldita árvore.
Me sentei junto a sua grande raiz e me lembrei que foi aqui que tudo começou. Foi aqui que eu conheci de fato Sakura, foi aqui que eu a pedi em namoro, foi aqui que comemoramos um ano de relacionamento e foi aqui que ela voltou aos meus braços na noite de ontem.
Em meio a tantas lembranças, a do dia que eu a conheci foi a que me abraçou mais força. Eu sempre observei Sakura na escola, mas nunca tive coragem de falar com ela... era até engaçado, minhas mãos suavam, eu parecia perdido e ainda tinha Naruto que não saía da cola dela. Mas o destino tratou de nos colocar frente a frente nesse mesmo lugar onde eu estou.
Eu estava morrendo de vergonha e não queria largar o vestido da minha mãe, mas Dona Mikoto nunca suportou filho mal educado e me obrigou a cumprimentar mãe e filha. A rosada estava com tia Mebuki no dia. Ela parecia uma boneca naquele vestido branco com aquele laço vermelho na cabeça... eu ainda não sabia, mas já era refém do sorriso dela e com o passar dos anos isso só foi se confirmando.
Naquele mesmo dia nem me conhecendo direito ela me chamou pra brincar, eu queria pular de felicidade, mas eu me contive... sempre fui uma criança muito séria. Mas com cinco minutos de conversa com a mini-Sakura e eu já corria de mãos dadas com ela. Daquele dia em diante eu assinei meu destino.
Me lembrei ainda da nossa conversa sobre merthiolate e saudade... na época a gente não entendia muito bem do que se tratava, mas hoje merthiolate não arde e saudade é algo constante. Quando eu vi Sakura depois de tantos anos eu não sabia o que fazer, um misto de sentimentos se passavam no meu peito, mas de alguma forma nós nos controlamos e seguimos por conta da celebração.
Mas depois tudo aquilo aconteceu... eu gostei de ter entrado com ela no altar, de dançar a valsa, de observá-la sorrir e ainda mais, tê-la nos meus braços de novo. No dia seguinte a culpa me assolou, meu orgulho foi ferido e a raiva voltou a morar no meu coração quando eu a vi sobre mim.
Eu estou confuso de novo, quando Sakura resolveu ir embora eu sofri, sofri pra caralho e me fechei pra o mundo. Não namorei com mais ninguém e não consegui confiar em mais ninguém dali pra frente. Tive alguns casos durante a faculdade, mas a maioria era mulher de uma noite e só depois de muita bebida.
Eu resolvi tirá-la da minha vida e dos meus pensamentos... cada vez que ela resolvia visitar meus pensamentos eu me lembrava de tudo de ruim que ela tinha me feito, era como se eu acionasse o botão da raiva, no início deu certo. Depois eu passei a me concentrar na faculdade, no estágio, comecei a correr e a praticar muay thai. Tudo isso foi maravilhoso pra mim, mas eu nunca abandonei a raiva.
A Yamanaka insistiu durando muito tempo em me falar como ela estava em Tóquio, até insinuou pra que eu fosse atrás dela, não vou mentir que fiquei tentado, mas meu orgulho falou mais alto e eu nunca fui. Naruto e Itachi também tentaram, mas foram menos insistentes, o que eles mais faziam era lembrar dos nossos momentos da infância... aquilo me fodia por dentro, mas eu não demonstrava.
A única pessoa que eu nunca consegui esconder nada foi minha mãe e talvez seja por isso que ela esteja tão chateada em saber que eu passei a noite fora com Sakura. Eu chorei algumas vezes no colo de Dona Mikoto e ela nunca me dizia nada, só afagava meus cabelos e me dava colo. Queria entender o que se passava na cabeça dela.
Não consegui impedir e lágrimas brotaram em meus olhos, mesmo que eu tivesse prometido a mim mesmo que não choraria mais por ela, estou mais uma vez aqui diante da maior testemunha da nossa história sentindo o gosto salgado e amargo daquelas lágrimas.
Não sei quanto tempo fiquei ali, mas foi o suficiente pra esgotarem minhas lágrimas. Eu tinha que voltar pra casa, conversar com minha mãe, tentar descansar um pouco pra mais tarde sair e conversar com meu pai sobre o apartamento. Me levantei e passei a mão naquela velha e conhecida marca como sempre fazia toda vez que vinha aqui. Coloquei meus fones de ouvido mais uma vez e corri em direção a minha casa.
(...)
Agora eu já me encontra em frente a minha casa, respirei fundo e abri a porta dando de cara com a sala vazia. Fui até a cozinha, nada da minha mãe e notei que os pratos do café ainda estavam na pia. Resolvi lavá-los, o que não demorou muito e fui pra meu quarto tomar um banho, já que minha mãe me evitava.
Chegando no quarto tirei meu iPod e as chaves do bolso colocando sobre a escrivaninha e fui em direção ao banheiro. Tomei um banho morno e me permitir ficar embaixo do chuveiro sem pensar em nada, ou pelo menos tentando.
Me arrumei e saí do quarto em busca de dona Mikoto, que não estava nem na sala e nem na cozinha. O jeito era bater na porta do seu quarto, já sabia que vinha chumbo grosso pro meu lado, mas é minha mãe, então vale a pena.
Cheguei a porta do seu quarto e hesitei, será que eu devia? Tentei voltar pro meu quarto, mas lembrei que eu tinha prometido a meu pai e era o certo a se fazer. Voltei a porta do quarto dos meus pais e bati três vezes, não ouvi nada, então resolvi chamar por ela.
— Mãe, está acordada? — hesitei – preciso conversar com a senhora;
O silêncio se instalou e quando eu estava desistindo ela abriu a porta do seu quarto. Ela estava com o semblante choroso, odiava ver minha mãe daquele jeito e me amaldiçoei por ser o responsável por aquilo.
— Pode entrar, Sasuke – nem parecia minha mãe, parecia uma versão feminina do meu pai.
Nada disse e entrei no quarto que parecia ter passado por uma reforma, já que estava bem diferente do quarto de dois anos atrás. Os móveis que antigamente eram em preto e branco foram substituídos pela cor marfim, tinham novos quadros espalhados pelo cômodo, as únicas que ainda restavam do antigo quarto era a antiga penteadeira da minha mãe, que foi da minha vó e a poltrona de leitura do papai que estava forrada na cor azul, antigamente ela era branca.
— Vejo que mudaram algumas coisas por aqui – falei afim de quebrar aquele silêncio;
— Fiz umas reformas – disse seca – o que você queria falar comigo? — essa é dona Mikoto em ação;
— Queria falar sobre a nossa conversa de ontem – suspirei – queria te pedir desculpa por ter gritado com a senhora;
— Era só isso? — ela disse séria, o que é que ela queria mais?
— O que mais a senhora quer, mãe? — não estava afim de brincar de adivinhação com ela;
— Essa história de que você vai sair de casa, é verdade? — puts, eu queria que ela me desculpasse primeiro;
— Sim mãe, é verdade – disse por fim.
O silêncio dominou mais uma vez o ambiente, eu preferia conversar mil vezes com meu pai sobre o apartamento a conversar com minha mãe uma vez sobre sair de casa.
— Você vai morar com ela? — não acredito, minha mãe tá com ciúme?
— Não mãe, eu vou morar sozinho – disse de forma calma;
— Por que? Você não gosta daqui de casa? Você tem outra pessoa? — sim, minha mãe tá com ciúme;
— Primeiro eu adoro morar aqui, mas eu sinto que preciso do meu canto, meu espaço. Eu já tenho 25 anos, prestes a fazer 26, me sustento com o dinheiro do meu trabalho e no próximo semestre estarei lecionando na Universidade Konoha. — suspirei – segundo eu não tenho ninguém, vou morar sozinho mesmo;
— Mas por que meu filho? Morar sozinho quando você pode morar com seu pai e sua mãe? — a voz dela estava meio embargada, espero que ela não chore;
— Porque eu preciso e quero um lugar só pra mim – segurei suas a mãos e a puxei pra sentar na cama junto comigo – Você e papai merecem um lugar só pra vocês agora – sorri pra ela;
— Ótimo, usando os mesmos argumentos que seu irmão – não pude deixar de rir — não tem nada que eu faça pra você mudar de ideia?
— Não tem mãe – disse e ela fez uma carinha triste, mas não chorou;
— Tudo bem – suspirou – Não posso fazer muita coisa, vou ter que lidar com esse abandono duplo – eu sabia que ela ia fazer esse drama, mas não pude conter o riso;
— Então, a senhora me desculpa? — perguntei;
— Claro que eu te desculpo – me abraçou – eu te amo meu menino;
— Um menino de 1,82 m – brinquei;
— Pouco me importa seu tamanho, você sempre será aquele menininho que tinha medo de falar com as pessoas – soluçou, agora ela estava chorando – eu te amo;
— Eu te amo, mãe – disse ainda eu seu abraço.
Ficamos abraçados por um tempo, eu sentia falta da minha mãe, do seu cheiro e do seu colo protetor. Eu poderia morar ali, mas nem tudo é como a gente quer. Minutos se passaram e nos desvencilhamos, enxuguei suas lágrimas e ela passou a e encarar um pouco séria.
— Preciso que me prometa duas coisas... — disse séria
— Se for possível, assim farei – ela fez uma careta quando eu disse isso, mas não podia mentir pra ela;
— Primeiro eu quero você me prometa que irá me visitar uma vez por semana, pelo menos – falou de forma bem exigente;
— Prometo, dona Mikoto – sorri pra ela, isso eu poderia fazer;
— A segunda – ela suspirou e eu não gostei disso, parecia uma mau sinal – eu quero que você fique longe de Sakura – senti uma dor no peito – Não quero que você fique daquele jeito de novo.
Eu sabia exatamente do que ela falava, mas ainda assim eu não sei se poderia prometer uma coisa dessas. Sakura estava de volta, e Konoha é uma cidade pequena, a gente podia acabar se esbarrando e sei lá mais o que pode acontecer.
— Mãe, eu não posso te prometer isso – disse cabisbaixo;
— Eu imaginei – ela puxou meu queixo pra encará-la – mas promete que vai tomar cuidado pra não se machucar;
— Eu não quero mais nada com ela – pelo menos eu acredito nisso mesmo que ainda esteja confuso – então não tem porque se preocupar – forcei um sorriso;
— Promete que vai tomar cuidado – ela insistiu;
— Tudo bem, eu prometo – e a abracei mais uma vez.
Depois de toda aquela tensão eu e minha já estávamos bem e ela aceitou sem muito problema que eu fosse sair de casa. Conversamos durante mais um tempo... ela me perguntou sobre a viagem, o curso, como era o Cambridge (Massachusetts) a cidade que eu morava e estudava. Fazer meu mestrado em Harvard foi a realização de um sonho que eu galguei ainda na faculdade. A cidade não tinha lá muita coisa, mas era na área metropolitana de Boston, uma cidade definitivamente melhor.
Falei ainda das outras cidade que eu tive tempo de conhecer, porque eu não tinha muito tempo pra viajar pelo país e quando adiantei o curso pra vim ao casamento de Naruto fiquei mais ainda sem ter condições de viajar pelo país.
Conversa vai e conversa vem senti meu estômago protestar... só agora me dei conta que depois de correr tanto eu não tinha comido nada e agora estava faminto.
— Mãe, tô morrendo de fome – disse sorrindo amarelo;
— Ah, meu filho... sua mãe perdeu a hora e não tem nada pronto pra comer – ela disse na defensiva;
— Não tem problema, a gente pode comer fora – sugeri;
— Você se incomoda de ir sozinho? Eu não estou me sentindo muito bem, tô com um pouco de dor de cabeça;
— Pensei que sua dor de cabeça fosse por estarmos brigados – disse em tom brincalhão,
— Também foi por isso – ela sorriu – mas eu gostaria de dormir um pouco;
— Tudo bem, então – segurei em seus ombros – a senhora não se importa mesmo em ficar sozinha?
— Não meu amor, eu já estou acostumada. Pode ir tranquilo;
— Certo, até daqui a pouco – dei um beijo em sua testa;
— Até meu filho – disse sorrindo pra mim.
Eu realmente estava morrendo de fome, mas estava com uma preguiça enorme de sair. Pensei nos meus dotes culinários e criei coragem pra ir atrás de comida. Resolvi ir no Icharaku tinha muito tempo que eu não comia um rámen de verdade e eu sentia muita falta. Queria poder esperar Naruto, mas devido as circunstâncias... sem chance.
Troquei de roupa, coloquei uma bermuda preta, uma camisa branca e meu bom e velho all star preto. Da minha casa ao Icharaku dava uns vinte minutos a pé, mas eu já andei demais por hoje, então vou de carro mesmo. Pegarei o de Dona Mikoto emprestado, ela nunca usa mesmo não vai brigar por isso. Eu vendi o meu antes de viajar pros EUA, ajudou no custeio do curso.
Peguei minha carteira e celular colocando-os no bolso da bermuda e saí do meu quarto. Encontrei as chaves do carro na gavetinha do aparador da sala e fui em direção a garagem. Entrei no carro e segui em direção ao centro de Konoha, que estava bastante movimentado num dia de sábado. Guardei o carro no estacionamento local e segui a pé em direção ao Ichiraku.
O estabelecimento estava relativamente cheio, mas eu achei uma pequena mesa no canto e me sentei lá. Não demorou muito e Ayame, filha de Teuchi o dono do lugar, veio me atender.
— Sasuke-san, quanto tempo – me cumprimentou Ayame;
— Olá Ayame – sorri – pois é, agora estou de volta;
— Fico feliz, parece que todo mundo resolveu voltar – ela dizia sorrindo;
— Como assim todo mundo? — indaguei curioso;
— Sakura-san também voltou – quando ela disse o nome de Sakura eu senti um desespero tomar conta de mim, passei a observar todo o local à procura dela, será que ela estaria aqui? Ayame pareceu notar minha cara de espanto – Aconteceu alguma coisa Sasuke-san?
— Não – menti – pensei que tinha visto alguém conhecido;
— Se você tivesse chegado dez minutos antes teria encontrado Sakura-san e Ino-san – ela disse sorrindo.
— Um alívio e também uma frustração me abateu... o que teria acontecido se a gente se encontrasse mais uma vez? De novo eu estava mergulhando em pensamentos e incertezas.
— Sasuke-san?! — me chamou Ayame me tirando dos meus devaneios;
— Oi...
— Perguntei se o senhor vai querer o de sempre – ela me olhava um tanto confusa;
— Ah sim, o de sempre – forcei um sorriso;
— Ok – tirou um bloco de notas de um papel do bolso do avental – um Yasai-Ramén saindo no capricho, mais alguma coisa?
— Uma dose de sakê – não devia beber e dirigir, mas uma dose não faria mal – por favor;
— Anotado;
— Obrigada, Ayame;
— Por nada, Sasuke-san.
De forma curiosa percorri todo o local mais uma vez, mas não tinha nem sinal de Sakura. Meu coração batia acelerado, há anos eu não sabia o que era aquilo, mas bastou a rosada voltar a aparecer na minha vida que eu sinto peito descompensar. Definitivamente eu parecia o Sasuke de anos atrás que não sabia dizer pra sua melhor amiga que estava apaixonado por ela.
Meu rámen chegou e eu comi sem vontade alguma, nem fome eu sentia mais. Minha dose de saquê acabou rápido demais, mas eu não tomei outra preferi voltar logo pra casa, não queria me bater com Sakura no centro de Konoha.
(...)
Mais uma vez eu estava fitando o teto do meu quarto como se ele pudesse me dar soluções para os problemas que eu estava enfrentando. O banho gelado que eu tomei de nada adiantou, a única coisa boa do dia foi ter me entendido com minha mãe porque de resto não tinha mais nada.
De repente eu me vi sentando no banco do jardim da escola, fazia tanto tempo que eu não vinha a esse lugar... eu me lembro perfeitamente desse dia eu tinha acabado de completar 15 anos e enfrentava um grande dilema na minha vida: eu estava apaixonado por minha melhor amiga.
Eu já tinha conversado com Itachi e Naruto e os dois tinham dito que eu deveria conversar com ela, mas eu morria de medo que ela não sentisse o mesmo... Absorto em pensamentos não notei que Sakura vinha em minha direção.
— Sasuke-kun, o que é que você tem? — Sakura me perguntava com olhos curiosos, mas como eu diria a ela que gostava dela? E se ela não me quisesse?
Era agora ou nunca, eu tinha que falar ou isso iria acabar comigo e estregar a amizade que temos.
— Sakura, eugostodevocê – falei rápido;
— O que?
— Eugostodevocê – dessa vez eu sussurrei;
— Sasuke, se você falar pra dentro vai ficar um pouco complicado de entender – ela sorria pra mim;
— EU GOSTO DE VOCÊ – gritei, não aguentava mais guardar aquilo pra mim;
— Eu também gosto de você – ela disse como se fosse óbvio, mas ela não tinha entendido o meu gostar;
— Não Sakura – suspirei – eu gosto de você mais do que amigo, entende? — ela arregalou os olhos em surpresa.
Senti meu estômago revirar, meu coração bater mais forte... repassei mil vezes esse momento na minha cabeça e esse silêncio mortal nunca tinha passado por meus pensamentos. Até tapa na cara eu achei que iria levar, já que Sakura nem sempre é tão doce quanto os dangos que come.
Ela me olhava ainda surpresa e eu ansiava logo por uma resposta, mas ela não se mexia e o silêncio se tornava mais insuportável a cada segundo que passava.
— Você não sente o mesmo, não é? — doeu dizer aquilo, mas eu precisava saber da verdade;
— Sinto;
— Sente?! — senti uma pequena luz de esperança crescer outra vez;
— Sinto – hesitou – de uns tempos pra cá eu tenho te visto com... hum... outros olhos – ela corou, ficou tão linda, seus olhos brilhavam – mas eu nunca achei que você me veria dessa forma, somos amigos desde a infância, achei que fosse coisa da minha cabeça;
— Eu também pensava assim — sorri – mas eu não podia mais guardar isso pra mim;
— Fico feliz que tenha me dito – agora meu coração parou de vez – e então?
— Então, o que? — não entendi;
— O que faremos agora? — Puta merda e agora? Eu não sabia o que fazer;
— Eu não sei – fitei a grama do jardim;
— Mas eu sei – ela puxou meu queixo pra cima, sorriu pra mim e foi chegando cada vez mais perto.
Quando eu vi Sakura se aproximar automaticamente fechei os olhos e logo nossos lábios tocavam um no outro. Eu não tinha muita experiência e ela também não, mas eu ansiava tanto por aquele momento e eu deixei o que eu sentia por ela falar mais alto.
Estávamos tímidos, mas Sakura sempre foi mais ousada que eu e logo sua língua pediu passagem na minha boca e não pensei em hesitar momento algum. Nos entregamos até sentir o oxigênio gritar em nossos pulmões e separamos nossos lábios, mas ainda continuávamos próximos sentindo a respiração um do outro.
— Foi bom ? — ela me perguntou com um sorriso sapeca;
— Foi maravilhoso — respondi ainda de olhos fechados;
— A gente pode fazer mais daqui pra frente – sorri, Sakura sempre me surpreendia, era seu dom particular depois de ser irritante, claro;
— Eu vou adorar, mas – hesitei, tinha que ter cuidado pra não estragar o momento – como ficaremos?
— Amigos – senti uma onda de frustração – mas amigos que se beijam e se gostam a mais;
— Por que a gente não namora? — ela arregalou os olhos em surpresa, mas depois sorriu;
— Fazemos assim – se afastou um pouco e me olhou profundamente – vamos ficando e vemos no que dá – suspirou – acho muito cedo a gente pular de amigos para namorados;
— Entendo – por mais que eu ficasse triste, Sakura tinha razão – mas você não vai fica com ninguém além de mim, né?
— Pra que eu ficaria com mais alguém se meu ficante além de meu melhor amigo é o menino mais bonito da cidade?
— Está comigo apenas pela beleza, Haruno? — brinquei;
— Mas é claro que não, você beija muito bem – sorriu sapeca e me deu uma piscadela. Se eu morresse agora, eu morreria feliz.
— Interesseira – brinquei;
— Você poderia trocar uma falsa ofensa por um beijo verdadeiro – ela não esperou por respostas e selou nossos lábios mais uma vez.
De repente o cenário mudou, agora estávamos no meu quarto, naquele dia horrível que eu não queria lembrar, o dia que ela me disse adeus e acabou com tudo que havia entre nós.
— Sakura, você não pode fazer isso! As pessoas que te amam estão aqui – eu gritava em desespero;
— Quem diz o que eu posso fazer ou não, sou eu. Já basta meu pai, você também não — ela gritava de volta e chorava
— Mas Sakura... e a gente? — eu não conseguia encará-la doía demais
— Eu estou pedindo pra você ir comigo, por isso estou aqui – ela disse enquanto tocava meu rosto
— Eu não posso Sakura, minha vida está aqui – disse e senti as lágrimas brotarem
— Quem não pode mais sou eu. Esses olhares de pena, as pessoas perguntando o tempo todo como eu estou, a situação com meu pai... eu não suporto mais. — ela não gritava, mas falava com raiva e fúria
— Esse seu orgulho ainda vai acabar com você, Sakura. Você simplesmente afasta todos a sua volta e não sabemos como te ajudar. — eu tentei controlar meu tom de voz, mas eu tava cheio de tudo aquilo e acabou saindo frio demais;
Sakura arregalou os olhos diante daquela afirmação, eu senti que a feri e ao mesmo tempo que eu fiz isso eu queria retirar todas a palavras que eu disse e abraçá-la, mas ela foi mais rápida que eu.
— Eu não quero que ninguém me ajude, quero que me deixem em paz. Quero que vá comigo porque eu te amo, mas isso não é o suficiente, acabamos por aqui – disse seca e com a voz embargada de raiva;
— Mas Sakura, como você pode falar isso assim? E tudo que a gente viveu e... — eu estava completamente perdido e sem argumentos;
— Relacionamentos começam e terminam, chegou a vez do nosso. Não quero ser um peso pra ninguém. Obrigada por tudo, mas eu vou embora – disse enquanto enxugava as lágrimas e saiu porta a fora.
Eu fiquei completamente atônito a vi saindo do meu quarto e não sabia o que fazer... me perguntava como foi que tínhamos chegado naquele ponto. Num ato desesperado fui atrás dela, eu não podia perder o amor da minha vida aquele jeito.
Quando eu cheguei a sala, Sakura já estava abrindo a porta, segurei seu braço e nos encaramos pela última vez.
— Minha decisão está tomada – hesitou – Adeus Sasuke, seja feliz – falou de forma seca e saiu porta afora.
“Adeus Sasuke... Adeus Sasuke... Adeus Sasuke... Adeus Sasuke” — a voz de Sakura ecoava cada vez mais alto em minha cabeça, eu gritava, mas ninguém ouvia...
Acordei num pulo, suava como se tivesse corrido uma maratona e minha respiração estava entrecortada. Me senti sufocar... eu queria gritar, mas eu não conseguia. Senti todo o meu corpo tremer...
Tentei respirar fundo da forma mais calma possível e fui estabilizando a cada lufada de ar. Há anos que eu não sonhava desse jeito e foi só ela aparecer na minha vida de novo que eu fiquei desse jeito. Parece até castigo.
— Eu nunca mais vou deixar você entrar na minha vida de novo, Sakura – falei pra mim mesmo.
Me levantei e percebi que já escurecia, de repente me deu um estalo e eu lembrei do jantar que tinha marcado com meu irmão e meu pai. Chequei o horário no celular e percebi que faltava um pouco mais que 36 minutos pra sete da noite. Notei duas ligações perdidas de Itachi e uma mensagem dele.
Itachi: Sasuke, vamos nos atrasar um pouco, mas a saída está de pé ;)
Agradeci mentalmente por esse atraso e respondi a meu irmão.
Eu: Tudo bem, estou me arrumando e indo pra lá.
Não esperei que ele respondesse e fui tomar um banho gelado, ultimamente banho gelado tem sido meu melhor amigo, mas não tem ajudado muito também. Saí do banho e me sequei rapidamente, coloquei uma calça jeans escura, uma camisa branca de botão e meu velho all star preto. Arrumei o cabelo do meu jeito e fui dar um beijo na minha antes de sair.
Ela ainda estava no quarto e dormia, dei um beijo na sua testa e segui em direção a sala. No meio do caminho verifiquei se estava tudo no meus bolsos e fui pro carro partindo ao encontro no Byakugan. Em 15 minutos eu estava na zona sul e chique de Konoha, dei a chave ao manobrista e entrei no restaurante sendo abordada por recepcionista de cabelos vermelhos e olhos castanhos.
— Boa noite, Senhor — ela falou de forma cordial;
— Boa noite... Mesa pra três por favor – pedi;
— Ok, me acompanha por favor?!
— Claro.
Acompanhei a ruiva até uma mesa um pouco mais afastada no canto, só que no meio do caminho notei a presença dos meus amigos Sai e Ino Yamanka. Informei a recepcionista que logo sentaria a mesa, mas falaria com meus amigos primeiro, ela pareceu não se importar e voltou a porta do restaurante.
— Ino e Sai, boa noite – disse assim que cheguei na mesa dos dois – que surpresa encontrá-los aqui;
— Boa noite, Sasuke – respondeu Sai;
— Oi – hesitou Ino – Sasuke – estranhei seu jeito, ela nunca foi assim e parecia não está muito confortável;
— Estava com seu pai e seu irmão agora há pouco – me disse Sai;
— Ah sim, eles me disseram que precisavam revisar uns contratos — falei o que Itachi tinha me dito – Estou esperando eles dois pra jantar;
— Passamos a tarde revisando contratos, que coincidência não sabia que eles também viriam pra cá;
— Pois é, como diz Itachi hoje é a noite dos garotos Uchiha – brinquei, apenas Sai riu... Ino estava de fato estranha;
— Sasuke?! — Ouvi uma voz chamar meu nome por trás de mim.
E Sakura se materializou na minha frente, senti meu coração bater mais rápido. Ela estava linda os cabelos estavam curtos e tinha aquele maldito batom vermelho em seus lábios de novo. Eu lembrei da noite que tivemos, do meu sonho agora pela tarde e a raiva foi tomando conta do meu corpo de novo. Ela esperava que eu a cumprimentasse, mas eu não fiz isso, decidi simplesmente ignorá-la.
— Então Sai, conseguiram resolver tudo? — tirei meus olhos de Sakura e retomei a conversa com Sai;
— Conseguimos sim – Sai respondeu sem graça;
— Sasuke, você tá cego ou surdo? — Ino interrompeu a conversa chamando a atenção de todos na mesa – Sakura falou com você;
— Eu só vejo e escuto aquilo que me interessa, Yamanaka – disse sentindo uma raiva tomar conta do meu corpo;
— Quanta maturidade hein, Sasuke? — a loira disse indignada;
— Ino, não se mete nisso – Sai se meteu;
— Deixa Sai – dei um sorriso irônico e provocativo – Você deveria falar sobre maturidade com sua amiga, foi ela quem fugiu daqui por medo de enfrentar seus problemas – fale,i mas em nenhum momento eu encarei a rosada de novo, queria deixar claro que eu não ligava pra sua presença;
— VOCÊ É UM IMBECIL – Ino gritou chamando a atenção de todo o restaurante e partiu pra cima de mim, mas Sai foi mais rápida que ela e a segurou;
— Sai, você deveria controlar melhor sua mulher – disse de forma calma e cínica – Tenham uma boa noite, Ino e Sai – disse e me retirei da mesa sem olhar pra trás.
Fui em direção a minha mesa e logo fui pedindo uma bebida ao garçom. Sakê não ajudaria nesse caso e mais uma vez eu estava tomando aquela porcaria de uísque, é o que tem pra hoje.
Eu consegui observar a mesa em que Sakura estava, ela parecia está abalada... confesso que peguei pesado, mas ela mereceu cada coisa que eu falei. Me deliciei com o amargo do uísque e notei um par de olhos verdes em mim. Ela estava com olhos chorosos e eu vi dor ali, senti uma ponta de arrependimento nessa hora. Ela ficou cabisbaixa deu meia volta e foi embora.
Será que eu fiz a coisa certa? Depois de tudo que ela me fez e eu ainda tenho dúvida? Melhor eu me concentrar na bebida que eu ganho mais.
(...)
— Filho? — meu pai interrompeu meus pensamentos – já chegou tem muito tempo?
— Oi pai – disse enquanto ele se sentava – Não, cheguei tem pouco tempo;
— Que bom – hesitou – encontrei Sakura lá fora, ela disse que se esbarrou com você;
— Ah sim – tomei um gole de uísque enquanto lembrava da cena – verdade;
— Ela estava com uma carinha estranha, aconteceu alguma coisa? — Fugaku preocupado é algo estranho de se ver;
— Não que eu saiba, ela te disse algo? — indaguei curioso;
— Não me disse nada, apenas estava com o semblante triste – fiquei fodido de verdade agora, mas eu não conversaria sobre isso com meu pai;
— Hn;
— Já entendi, você não quer conversar sobre isso – eu apenas assenti – Você se resolveu com sua mãe?
— Sim, está tudo bem entre nós;
— Fico feliz, filho;
— Eu também, pai
Conversamos sobre minha viagem enquanto esperávamos Itachi chegar, o que demorou um pouco porque meu pai disse que ele tinha saído logo depois, porém o jeito era esperar e assim continuamos a conversar.
— Desculpe a demora rapazes – disse Itachi se intrometendo na conversa – Boa noite;
— Até que enfim, pensei que tinha se esquecido como dirigia – falei brincando, mas ele me olhava com cara de poucos amigos;
— Não, apenas estava ocupado conversando com uma amiga – disse seco;
— Namorada nova, filho? — perguntou meu pai;
— Não pai, ela é uma amiga, como se fosse minha irmã na verdade – ele me deu uma olhada mortal e eu engoli em seco. Ele falava de Sakura;
— Foi algo grave? — indagou meu pai preocupado... desde de quanto ele liga pra isso?!
— Ela disse que não, mas eu tenho certeza que sim – sorriu sem humor – vou descobrir mais cedo ou mais tarde – ele não tirava os olhos de mim, mas eu não aceitaria a sua provocação;
— Você deveria confiar na sua amiga, Itachi – falei de forma irônica;
— Você sabe quem é Sasuke? — perguntou meu pai, qual foi a do velho todo preocupado?! Uchiha Fugaku nunca foi assim, apenas com minhas mãe e claro Sakura... parece até que advinha;
— Não pai, é amiga do Itachi não minha – tomei mais um gole do uísque – então o que vamos pedir? — indaguei pra mudarmos o rumo da conversa;
— Que tal wakame de entrada e um combinado de nigiri com salmão, peixe branco e atum? — indagou meu pai;
— Ótima ideia, pai – falei empolgado;
— Por mim, tudo bem – disse Itachi.
Meu pai fez o pedido e conversamos sobre o curso de mestrado. Itachi estava bem calado e isso estava me incomodando, mas eu tava cheio de suas indiretas.
(...)
— Pai, Itachi me falou que o senhor ganhou um apartamento por conta de uma obra que ficou responsável – comecei;
— Sim, o residencial Vila da Folha... Eu, seu irmão e Deidara ganhamos um apartamento cada um por participar do projeto;
— Então, eu tô querendo um lugar pra morar – hesitei – senti que chegou a hora de sair de casa e ter o meu canto, queria saber se o senhor não quer me vender o imóvel?! — perguntei nervoso, meu pai é uma incógnita;
— Você já conversou com sua mãe obre isso ? — ele indagou com uma sobrancelha arqueada, definitivamente meu pai tem medo da minha mãe;
— Já sim, ela relutou no início, mas eu prometi que iria vê-la uma vez por semana e ela entendeu;
— Queria ter visto a cena – meu pai disse rindo, isso mesmo rindo;
— Eu também – Itachi resolveu se manifestar mais alegrinho dessa vez;
— Obrigado, pelo apoio de vocês – fingi indignação – e então pai, me vende o apartamento?
— Não – disse seco;
— Por que não? — eu e Itachi perguntamos juntos;
— Porque ele já é seu – fiquei surpreso e Itachi também;
— Como assim? — perguntei;
— Eu já mandei Sai passar para seu nome – tomou um gole do seu sakê – é seu presente de aniversário;
— Qual foi pai? Eu também quero um presente desse – resmungou Itachi;
— E você acha que a ideia de dar um apartamento por engenheiro foi de quem?! — claro que tinha dedo de Uchiha Fugaku por trás disso;
— Sério pai? — perguntou meu irmão e meu pai assentiu – caraca;
— Pois então, esse é um presente de aniversário — Itachi fazia aniversário em junho e eu em julho — e agradecimento pelos filhos maravilhosos que vocês são – fiquei chocado com que meu pai disse, ele nunca foi muito sentimental com a gente. Sempre nos amou, mas sempre a sua maneira reservada.
— Pai, você tá falando sério? — eu não pude deixar de perguntar, eu estava um tanto muito surpreso;
— Estou sim, Sasuke – suspirou – vocês estão crescidos, são independentes... precisam do seu espaço e sua mãe e eu também;
— Ah garanhão, quer ficar sozinho com a coroa – falou Itachi e eu caí na gargalhada com ele e até o papai riu;
— Mereço, né? — indagou meu pai – e quem sabe tirando vocês de casa eu ganhe netos – eu e Itachi caímos da gargalha;
— Já pensou em ser comediante Uchiha Fugaku?! — brincou meu irmão e gargalhamos outra vez.
Qual a chance de eu e Itachi sermos pais? Quase nula, Itachi ainda tinha mais chance que eu se as coisas entre ele e Izumi se resolvessem. Engraçado que quem sempre tocava nesse assunto era minha mãe. Não sei porque, mas eu fiquei contente com essa revelação do super sério Uchiha Fugaku.
Depois daquela conversa Itachi pareceu relaxar e passamos a noite relembrando de quando éramos pequenos e do trabalho que a gente deu. Foi realmente divertido, deveríamos fazer isso mais vezes.
Comemos, rimos e um pouco antes da meia noite decidimos voltar pra casa. Chegamos juntos e esperamos uns aos outros estacionarem os carros. Entramos em casa juntos, mas todo o clima harmônico se dissipou quando vimos minha mãe desmaiada do chão da cozinha.
— MIKOTO – gritou meu pai, eu e Itachi corremos atrás dele – Mikoto, acorda – meu pai tentava, mas ela não acordava;
— MÃE — gritamos eu e Itachi ao mesmo tempo;
— Precisamos levá-la ao hospital – falei.
Itachi colocou a cabeça sobre o peito da nossa mãe e verificou os batimentos... quando ele suspirou aliviado a tensão diminuiu um pouco.
— Ela tá respirando – disse meu irmão soltando uma lufada de ar;
— Ainda assim, precisamos levá-la ao hospital – falei mais uma vez
— Não – falou minha mãe num sussurro chamando nossa atenção, ela tinha acabado de despertar – eu estou bem;
— Não senhora – bradei – vai pro hospital sim;
— Você sabe – tentou se levantar, mas ela estava fraca – que eu odeio hospital;
— Mas você te que ir Mikoto – meu pai disse sério;
— Eu já disse que não, eu estou bem — disse minha mãe de forma teimosa;
— Tudo bem – se meteu Itachi – se ela não vai ao hospital o médico vem até ela.
Ninguém entendeu nada, Itachi levantou e saiu pra fazer uma ligação. Nos entreolhamos e papai e eu decidimos ajudar mamãe e colocá-la deitada no sofá. Depois do pequeno esforço Itachi apareceu na sala e eu senti que tinha algo estranho.
— Resolvido o problema – Itachi disse sério;
— Como assim? — perguntou meu pai, mas todo mundo queria saber;
— Chamei um médico, ou melhor uma médica – ele só pode tá de brincadeira com minha cara;
— Quem? — agora foi a vez de minha mãe perguntar
— Sakura – disse Itachi de forma seca – ela chega em 10 minutos;
— Não acredito que você chamou aquela menina – disse minha mãe nervosa – preferia ter ido pro hospital;
— Que comportamento é esse Mikoto? — repreendeu meu pai – Sakura está sendo altamente prestativa, ela poderia ter recusado, mas aceitou vir uma hora dessa;
— Antes recusasse – disse minha mãe de mau humor;
— Mikoto – repreendeu meu pai mais uma vez;
— Melhore esse mau humor dona Mikoto, Sakura daqui a pouco está chegando – disse Itachi.
Eu não consegui dizer nada, mas eu estava morrendo de vontade de matar meu irmão. Como ele podia chamar Sakura aqui em casa?! Parece até brincadeira uma porra dessa.
— Itachi?! — chamei sério – Você pode me acompanhar até a cozinha?
— Claro.
Logo estávamos na cozinha e eu me controlei pra não gritar ou assassinar meu irmão mais velho outras vez. Dos três dias que eu estou aqui, em três eu quero matá-lo.
— Que ideia sem pé e nem cabeça foi essa sua? — eu disse sibiliando cada palavra num tom calmo, porém com um toque de raiva;
— Que ideia Sasuke? Eu chamei uma médica pra vê nossa mãe, apenas isso – falou como se não fosse nada;
— Não tinha outro médico não?
— Não, eu só conheço ela;
— Você planejou isso, não foi?
— Claro Sasuke, combinei com a mamãe pra ela desmaiar – bufou – você tá ficando paranoico já... Eu tô realmente preocupado com a mamãe e eu sei o quanto ela odeia e evita hospitais, por isso chamei Sakura;
— Depois de tudo o que você fez, eu não consigo acreditar – eu falei com raiva;
— Ótimo, Sasuke... acredite no que quiser – ele disse e quando deu a entender que sairia da cozinha segurei seu braço – o que mais você quer?
— Ela te contou, não foi? — claro que ela faria isso, nunca soube enfrentar seus medos sozinhas – o que aconteceu entre eu e ela no restaurante?;
— Você é mesmo um imbecil, por isso ela estava em prantos daquele jeito – bufou – ela não me contou os detalhes, mas pediu pra eu não me meter porque não queria que a gente brigasse mais;
— Duvido – falei presunçoso;
— Como eu disse, acredite do que quiser – disse por fim e saiu da cozinha.
Eu tava muito, mas muito puto da vida com Itachi... de novo ele colocando aquela mulher em meu caminho. Por mais raiva que eu sentisse não poderia fazer nada, meu pai e Itachi aprovaram a ideia de Sakura aqui, minha mãe nada pode dizer e eu sou apenas voto vencido.
Saí da cozinha em direção a sala, minha mãe estava deitada no sofá com cara de poucos amigos, meu pai estava em pé atrás do sofá e Itachi saía pela porta de casa em direção ao portão pra buscar a ilustre convidada, pelo barulho do carro eu pude notar que ela chegou.
Demorou alguns minutos e Sakura estava em nossa sala... suas feições não estavam das melhores e eu não pude deixar de sentir um pouco de culpa por conta daquilo, mas eu sentia raiva de vê-la aqui. Lembrei exatamente quando ela me disse adeus e saiu por aquela mesma porta afora.
— Boa noite – ela sussurrou de forma cordial, mas ouvir sua voz desencadeou um misto de dança em meu peito agoniado.
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