Darker Days

2 É tudo culpa sua.


Pip nunca teve amigos. O máximo que teve foi o rapaz que lhe ensinou a ser um cavalheiro para impressionar uma moça, na época em que ainda vivia na Inglaterra, mas nunca chegaram a ser realmente próximos.

De qualquer forma, não importava agora.

Após a morte de seus tios, teve de se mudar para a casa de um parente distante, sua prima Lorraine, que morava nos Estados Unidos. Boatos corriam na Inglaterra sobre o tipo de gente que vivia naquela terra e, até agora, pelo que o britânico pôde notar, estavam todos corretos. Seus colegas de classe eram mal-educados, rudes, não aceitavam estrangeiros e eram incrivelmente egoístas. Alguns podiam parecer legítimos, mas, na primeira oportunidade que tinham, abandonavam seus amigos em favor de ganhar popularidade, algo que se repetiu com o próprio Damien no passado.

Mesmo assim, Pip sempre tentou se manter positivo. Afinal, ninguém chega à nenhum lugar sendo negativo e medroso. Nenhuma guerra seria ganha se os soldados se acovardassem com o medo de derrota e corressem para o colo de suas mães.

Ah, como Pip gostaria de ter uma mãe.

A mulher, numa época quando era jovem demais para ter qualquer memória, faleceu junto ao marido, abandonando o loiro britânico para ser criado pelo mundo. Não se recordava de seus rostos, nem da mãe e nem do pai, mas tinha esperança, em seu coração, de que eles o amassem na época em que estavam vivos.

Então, sem seus pais, Pip não tinha mais nada além de seu sorriso e sua determinação. Estava certo de que eles não gostariam de vê-lo sofrer daquela forma. Por isso, a cada dia que passava, mesmo em meio aos insultos, golpes, machucados, dor e desprezo, Pip sorria. Ele tinha a determinação para levantar quando caía, pois estava certo que esse seria a vontade de sua mãe, que, com certeza, o amava muito quando ainda em vida.

Dia após dia, as coisas ficavam mais difíceis. A vida se provava estar disposta a transformar a vida do britânico em um verdadeiro inferno. Garotos mais velhos o atacavam em busca do dinheiro de seu almoço, seus colegas de classe o ridicularizavam pelas razões mais banais, o chamavam de francês e o esmurravam e humilhavam quando a brincadeira já não era mais suficiente, e os professores o detestavam sem nenhum motivo aparente, encontravam todas as razões para envergonhá-lo na frente de todos os seus colegas. Só não derrubavam suas notas pois ele ia muito bem nas provas, e ele estava certo que reprovar alguém apenas por não gostar dessa pessoa infringia alguma lei.

Ele não sabia o motivo de o desprezarem tanto, não se lembrava de ter feito nada contra qualquer pessoa daquela escola, mas, seja lá o que tivesse feito, precisava arcar com as consequências. Precisava continuar se levantando.

Havia dias que a vontade de desistir era grande. Dias tão difíceis que ele podia sentir sua determinação e vontade de viver escapando de seu alcance, como tudo que já amou. Dias que desejava pegar tudo que pudesse encontrar e fugir daquela cidade. Para longe da casa de sua prima. Para longe de South Park. Para longe daquele pesadelo.

Mas ele tinha esperança. Esperança de que, um dia, encontraria alguém que não o desprezasse por existir. Esperança de que, algum dia, poderia ter um amigo de verdade.

Então, por mais que soubesse o ódio que receberia por ser visto andando com alguém como ele, não podia evitar de se segurar no pescoço de Damien como se sua miserável vida dependesse disso.

Seu corpo todo doía. Aquela não era, nem de longe, a pior surra que tinha tomado, mas isso não tornava os machucados menos dolorosos. Até quando o moreno colocou-o sobre o sofá, não teve forças suficientes para conter o gemido de dor.

— Dói muito? — ouviu Damien perguntar enquanto se sentava ao seu lado.

— Para ser sincero, um pouco. Mas não se preocupe, eu vou ficar bem. — sorriu torto. — Pode ser um pouco difícil pra fazer as tarefas e o serviço de casa, mas eu dou um jeito. Já passei por isso antes, então não é como se…

Foi duramente interrompido por uma sensação estranha percorrendo seu corpo. Há um instante atrás, sentia os ferimentos latejando e o sangue escorrendo pelos cortes e, no outro, a sensação desconfortável desapareceu completamente, a única evidência de que algo havia mudado em si sendo a sensação de ter sido atravessado pelo vento.

Os braços envolveram-se de forma protetora e o súbito frio que correu em seus ossos o fez estremecer e soltar um gemido involuntário, tornando as bochechas claras, rubras de um segundo ao outro.

Damien o encarava com frieza, deixando a situação ainda mais incômoda. Pip sentia como se tivesse cometido um pecado aos olhos do anticristo, mas não pôde evitar, nunca tinha sentido como se tivesse sido atravessado por um fantasma antes. Tal mudança tão drástica em seu corpo em tão pouco tempo era algo completamente novo para ele.

— O-o que você fez? — perguntou, hesitante, ao perceber o olhar de Damien fixo em si.

— Consertei seus machucados. Eu tenho poderes, esqueceu? — perguntou e ergueu o dedo indicador como forma de exposição.

— Oh. Perdão, eu me esqueci por um momento. — encolheu no assento, abaixando a cabeça e evitando de trocar olhares com o anticristo. — Eu só fiquei surpreso por alguém querer me ajudar. Geralmente, se me veem machucado, apenas riem e continuam andando. — pausou por um instante e cerrou as mãos sobre as coxas, tomando seu tempo antes de encontrar as órbitas carmim por entre os fios dourados. — Damien, por que você me ajudou?

Damien sempre teve muito bom conhecimento sobre si mesmo e sobre suas atitudes. Através dos anos, por ter de assumir os deveres do inferno, tornou-se mais responsável e consciente das próprias atitudes, que, agora, impactavam todas as pessoas ao seu redor. Ele tinha perfeita consciência de como as coisas ao seu redor funcionavam e como agir em cada situação. Aquela situação não era nem um pouco diferente.

— Como atual governante do inferno e novo advogado de Deus, é meu trabalho garantir que todos sejam tratados de forma justa. Eu fiz o que fiz porque era o justo a se fazer. — se virou por um instante para pegar a xícara em repouso no criado-mudo, prestando pouca atenção à falta de resposta do garoto britânico. — Chá?

O loiro gentilmente negou com a cabeça. Alguns achariam estranho que alguém da Inglaterra estava negando uma xícara de chá, mas Pip não era tão estereotipado assim. Só de vez em quando.

— Eu agradeço, mas realmente deveria ir andando…

— Com certeza voando é que você não vai. — murmurou contra a porcelana ao bebericar o líquido.

Pip rapidamente levou a mão à boca para conter o riso, pois não queria acabar sendo indelicado perante àquela situação. Mas estava sendo um tanto complicado. Aquela foi a primeira piada dirigida à ele sem verdadeiro tom pejorativo em muito tempo.

— Deus, isso foi terrível! — acabou cuspindo entre dentes, logo percebendo seu erro e tampando a boca de vez. — Desculpa, isso foi indelicado da minha parte.

— Não tem problema. — dispensou o anticristo, escondendo o pequeno sorriso em seus lábios atrás da xícara e do líquido escaldante.

— Bom, de qualquer forma, eu realmente tenho que ir. — disse o loiro ao levantar do sofá. — Muito obrigado pela ajuda, Damien.

O moreno dispensou-o com um gesto de mão, prestando pouca atenção ao som de seus passos caminhando em direção à porta.

Sendo sincero, ele esperava que Pip lhe perguntasse se se viriam na escola, ou em qualquer lugar daquela cidade maldita. Mas, ao ouvir o som da porta se fechando, percebeu que seu desejo não seria realizado.

Não se pode ter tudo que se quer, não é mesmo?

Agora, o que importava, a razão de Damien estar em South Park pra começo de conversa, era voltar ao trabalho.

(...)

No dia seguinte, enquanto seguia o trajeto familiar para a escola, Damien se aproveitava da escolha de não usar o ônibus para verificar o livro que tinha em mãos. À primeira vista, não passava de um simples objeto, um livro comum de capa negra, sem título e de folhas ásperas e desbotadas. Entretanto, seu conteúdo era algo muito precioso para ele, pois continha todos os registros de seu trabalho. As fichas corrigidas, contatos importantes, ocorrências, o nome de seus protegidos, tudo estava contido entre as duras capas grossas. Não havia um minuto do dia em que Damien largasse aquele livro de lado, pois este era o fruto e a alma de todos os seus anos de estudo e trabalho duro.

A caneta deslizava com perfeição sobre as folhas, as palavras formadas de caligrafia perfeita de tal forma a assemelhar-se à algo partido de um livro sagrado. Com todos os anos que o anticristo teve para estudar na biblioteca de sua casa, também aprendeu a aperfeiçoar sua caligrafia e a forma de organização de seu trabalho. À medida que seus poderes cresciam, acompanhados de sua idade, foi podendo definir como gostaria de realizar o trabalho ao qual foi designado. Por mais que ele tivesse um histórico, Damien detestava ter suas coisas desorganizadas, e, como todo bom advogado, necessitava de acesso fácil aos documentos e saber onde estava cada minúsculo detalhe para otimizar seu tempo da melhor forma possível. Era essa a razão da existência do livro favorito do anticristo dentre todos em sua coleção.

Em menos tempo do que planejava, viu-se de pé em frente à South Park High School, o colegial com o nome mais criativo de todo o mundo. Depois do incidente com Pip no dia anterior, Damien não se surpreendeu ao notar que algumas pessoas o reconheceram, poucos até o cumprimentaram ao caminhar pelos corredores, aos quais ele não ofereceu nada além de um olhar de soslaio. Em cada um dos alunos que vinha o cumprimentar, fosse por reconhecê-lo da época do quarto ano ou por sua aura formal e intimidadora, ele podia sentir a podridão do pecado, próximo demais de si para seu gosto. Passaram determinados momentos, inclusive, em que o anticristo pôde sentir seu café da manhã subir por sua garganta, e não foi apenas uma vez.

Para evitar os olhares e os novos problemas que surgiram, o anticristo passou o horário antes do início das aulas sentado embaixo de seu armário, anotando em seu livro. Independentemente de sua situação estar se mostrando mais complicada do que planejava, Damien não se encontrava em um cenário anormal, passara por condições bem mais complicadas no inferno. A única razão de estar tão desacostumado estava no fato de aquelas pessoas estarem vivas. As almas residentes do inferno já não tinham mais salvação, entretanto, aqueles mortais, que tinham a dádiva da rendição e arrependimento, estavam desperdiçando suas vidas patéticas cometendo atos de forma alguma exaltados por Cristo. Eles estavam pegando algo tão precioso e jogando fora como se nada valesse, ao invés, fomentando seus próprios egos e espíritos podres e amaldiçoados.

E quanto mais Damien se remoia por isso, mais pensava em Pip. Lembrava-se da forma que o britânico era tratado durante a infância por aquela gente desprezível, e, mesmo assim, ele continuara levantando e seguindo o caminho ideal apontado pela divindade absoluta. Jamais caira na tentação da gula, tampouco fora agarrado pela preguiça. Apesar de imperfeito, como todas as criações de Deus, seu espírito mantinha a pureza e a doçura de um verdadeiro anjo.

E quanto mais pensava nisso, mais se sentia mal pela forma como o tratou na época em que estudou em South Park. Aquela não era a atitude exigida de alguém cujo trabalho era de calão tão alto quanto o de Damien. Havia de ter alguma forma de compensá-lo pelo que fez todos aqueles anos atrás.

Depois, ele pensou. Por hora, haviam temas de maior necessidade de atenção que outros.

E, como um doloroso e cruel carma, o sinal soou pelos corredores, indicando o início das aulas, e Damien, relutantemente, teve de se erguer do chão, afastando a poeira com as mãos, e seguir para a classe junto de seus colegas.

Imediatamente após cruzar a porta, foi cumprimentado pelo infame grupo de Stan, que insistiram que ele se sentasse próximo à eles durante a aula. Não querendo causar problemas no primeiro dia, muito menos perder tempo, puxou uma das cadeiras próximas e sentou-se ao lado de Kyle. O judeu, por encontrar-se em uma situação mais delicada que os demais, não era um incômodo tão grande para o anticristo. Poderia facilmente aguentar aquela situação até a hora do almoço.

Quando a mesma chegou, Damien propositalmente ficou para trás no fim da classe e demorou para entrar na fila, pois precisava rever alguns conceitos. Se fosse continuar mantendo aquela fachada na escola para poder trabalhar, precisava escolher a melhor rota para percorrer. Até agora, escolhera as matérias mais simples do ensino médio, aquelas que ele já sabia de cor e salteado: Educação religiosa, matemática, história, filosofia, sociologia e geografia. Agora, para o resto do dia, necessitava encontrar um lugar tranquilo e um grupo pacato para que pudesse focar no livro escondido debaixo da bandeja.

Os sapatos faziam barulho ao caminhar em direção às mesas e seus olhos carmim analisavam atentamente os grupinhos formados em cada mesa. Não era tão diferente de dez anos atrás; todos continuavam divididos nas mesmas mesas, entre as mesmas pessoas, com exceção de um garoto de cabelos escuros que andava de mãos dadas com um loirinho de cabelos bagunçados, um casal que Damien não havia visto da primeira vez que esteve em South Park.

Irrelevante! O anticristo não tinha tempo para pensar no que aqueles mortais nojentos faziam com suas vidas, tinha assuntos mais importantes a tratar, não importa a forma como o casal contrastava entre puro e pecador.

Correu rapidamente os olhos pelas mesas restantes, propositalmente ignorando todos os acenos disparados em sua direção. Com um suspiro cansado, desviou de todas as mesas já ocupadas e caminhou sem cerimônia para a única mesa com uma figura solitária.

Enquanto caminhava, não percebeu a luta que estava acontecendo entre seu espírito e o sorriso que ameaçava puxar seus lábios.

— Hey. — cumprimentou enquanto sentava ao seu lado.

— Damien? — exclamou o britânico com os olhos arregalados, surpresos. — O que você está fazendo aqui? Pensei que você fosse sentar com o Stan e os outros.

O anticristo simplesmente deu de ombros e, deixando o livro de lado, enfiou o garfo em sua salada. Não precisava, realmente, comer, mas era uma das poucas alegrias que lhe restavam naquele mundo.

— Eles são muito barulhentos. Não posso me concentrar no meu trabalho andando junto deles. — reclamou enquanto dava uma garfada no tomate.

— Oh.

Um breve silêncio pairou entre os dois enquanto comiam seus lanches. Não era uma situação desconfortável ou sem graça, como os olhares de seus colegas pareciam dizer, Damien gostava de coisas e situações casuais, já que não tinha isso no inferno, e a companhia de Pip, apenas por sua presença, já era bem mais confortável que todas as horas que passara na cidade até agora. Sua alma pura era como ar fresco depois de passar uma hora dentro de um quarto abafado, era refrescante.

De certa forma, Damien não podia evitar se sentir atraído por ele. Satanás sempre fora atraído por almas de grande pureza, buscando corrompê-las e arrastá-las à sua porta, traço este que o anticristo, embora o detestasse com todas as forças do universo, carregava consigo. A diferença estava apenas no fato de não ser o anticristo a pessoa a arrastar os demais ao inferno. Ele apenas julgava, não era seu trabalho tentar almas inocentes e trazê-las ao lado “do mal”.

Mas esse trabalho, infelizmente, Damien veio a descobrir, pertencia à alguém mais que seu pai: os filhos de Deus. E, sendo o rapaz observador que era, não tardou em notar a forma como as mãos de Pip tremiam ao segurar os talheres e os eventuais gemidos de dor que emitia enquanto mastigava.

— Pip. — o britânico estremeceu ao ouvir seu nome e, por entre os fios loiros, encontrou seu olhar com o carmim do anticristo. — Você treme enquanto come. Está tudo bem?

A julgar pelo olhar distraído e a falta de contato visual, tinha coisa escondida ali. Damien não era tolo, conseguia identificar um olhar de culpa e preocupação a quilômetros de distância. Mesmo que Pip tentasse disfarçar a situação colocando as mãos no colo e entrelaçando os próprios dedos, isso não mudava o olhar afiado do anticristo.

— Sim, eu estou bem, não se preocupe. — disse enquanto tentava sorrir. Damien já viu sorrisos mais verdadeiros no rosto de almas condenadas. — Eu só estou com um pouco de frio, não é nada demais…

Foi interrompido por uma terceira voz.

— Ei, Damien. — os dois sentados na mesa desviaram o olhar na direção da voz, a qual pertencia à Stan. Ele e seu grupo, como se fossem pais esperando respostas dos filhos, pararam em frente ao moreno com os braços cruzados. — Por que você não veio sentar com a gente?

O anticristo soltou um grunhido, tanto por estar, mais uma vez, sendo forçado a aturar a presença daqueles pecadores nojentos, quanto por terem interrompido sua conversa.

— Porque eu não quis.

Como se nunca tivesse tido sua presença tão maravilhosa rejeitada, Stan arregalou os olhos e franziu o cenho.

— Você realmente acha que esse francesinho é melhor que a gente? — questionou Kyle ao perceber o choque do super melhor amigo.

Inconscientemente, o britânico encolheu em seu lugar e virou a cabeça, como se evitar a conversa fosse salvá-lo do que estava por vir.

E, como o destino amava brincar com ele e suas emoções, ouviu os dolorosos passos do grupo caminhando em sua direção.

— Cara, você tem um gosto horrível se gosta de andar com ele. — constatou Cartman, dando a volta na mesa. — Ele se veste igual uma menininha!

O súbito puxão no cabelo de Pip fez o britânico soltar um grito de susto, atraindo mais olhares para a cena que se desenrolava.

Ninguém naquele refeitório gostava dele. Se ele morresse, pouco se importariam, talvez nem percebessem que ele sumiu — apenas os bullies, que não teriam mais seu alvo principal para atacar — e esse sentimento mútuo, compartilhado por toda a escola, livrava todos de justificativa para agredi-lo, seja de forma verbal ou física.

— Ei! Dá pra calar a boca? — gritou Bebe da mesa das meninas. — Estamos tentando lanchar aqui!

O gorducho franziu o cenho na direção do britânico, suas mãos apertando mais os fios loiros entre os dedos.

— Viu só o que você fez, Pip? Deixou todo mundo puto!

— Agora todo mundo vai achar que a culpa é nossa! — reclamou Kyle, também se aproximando do gorducho.

Essa era a maior mentira que Pip ouviu em toda sua vida. De forma alguma seus colegas culpariam Kyle e os outros. Afinal, tudo que acontecia naquela escola, de alguma forma, estava ligada à Pip. Sempre tinha alguma razão para a culpa ser sua.

E, provavelmente, era mesmo.

Quando percebeu os sorrisos maliciosos no rosto do grupinho, só teve tempo de soltar um gemido antes que uma mão pesada forçasse seu rosto contra a bandeja, não só o lambuzando de comida, mas, também, martelando sua pele contra a superfície dura.

Risadas ecoaram pelo refeitório. Por algum motivo, o sofrimento de Pip era como assistir um show de stand-up para os alunos de South Park High School, pois quanto mais machucados ele tinha em seu corpo, mais altas e provocantes eram as risadas.

— Viu, Damien? — ouviu Stan dizer com uma voz debochada. — Por que você quer andar com alguém como ele? Ele é fraco e só vai te atrasar.

O anticristo franziu o cenho na direção do jogador de cabelos escuros, suas orbes carmim alternando entre ele e Cartman e Kyle tirando sarro do britânico. Ele estava tentando se segurar, realmente estava, pois não tinha autoridade naquele reino para ditar o que deveria ou não acontecer. Entretanto, quando ouviu o estrondo barulho de Pip caindo no chão e o sutil som de um osso se partindo, explodiu.

— A única pessoa que está me atrasando aqui é você. Saia da minha frente. — ordenou sem tirar os olhos de Stan enquanto tomava o livro em seus braços.

Os olhos azuis desviaram-se de um lado para o outro, como se estivessem perdidos.

— Eu? Eu estou te atrasando? Cara, isso não faz o menor sentido…

— Eu disse: SAIA DA MINHA FRENTE!

Bateu o pé no chão, um súbito vento erguendo os cabelos de todos os presentes e atirando Stan e seu grupo contra a parede do outro lado do refeitório, um deles, em especial, tendo a nuca perfurada por um prego colocado de mal jeito.

— Ai… Meu deus… Ele matou o Kenny… — sussurrou Stan ao cair no chão, completamente sem fôlego.

— Filho da… Puta… — completou Kyle antes de desmaiar.

Ignorando completamente o comentário e a preocupação dos demais colegas com o quarteto, Damien voltou sua atenção para Pip, que tentava, a todo custo, tirar sua perna presa entre a mesa e o assento. Definitivamente estava quebrada.

— Aqui. Me deixe te ajudar.

Segurou o loiro por debaixo dos braços e, tomando todo o cuidado do mundo, girou sua perna para tirá-la de entre as madeiras que a prendia.

Pela segunda vez naquela semana, carregou Pip em seus braços, ambos seguindo em direção à enfermaria.

— Por que você fez isso? — ouviu o britânico perguntar em um sussurro. — Podia só ter me deixado lá. Agora todos vão te odiar também.

— Eu não me importo com o que os outros pensam de mim. Tudo que eu preciso é que esses vagabundos me deixem em paz para que eu possa trabalhar, sossegado.

Pip encolheu em seus braços, encostando, sem perceber, a cabeça em seu peito. Os batimentos cardíacos do anticristo eram calmos e rítmicos, muito embora ele estivesse irritado e sem paciência. Era paradoxal, irônico, e só deixava o loiro mais intrigado.

Ao perceber-se ficar confortável, o loiro se deu um tapa mental. Não podia ser mais tolo do que já era. Damien não estava o ajudando por se importar com ele, só estava com pena. Ele estava aqui a trabalho, não para fazer amigos ou pagar de herói. Mais uma vez, Pip estava tornando a vida de alguém mais difícil apenas por existir.

E, agora que Damien o havia ajudado, certamente se tornaria um alvo também.

— Não acho que vá conseguir paz depois disso. — sussurrou, sem saber se queria que o maior o escutasse ou não. — Eles não gostam de heróis. Certamente virão atrás de você também.

O anticristo estalou a língua no céu da boca.

— Quero ver eles tentarem alguma coisa contra mim. Hei de lançá-los contra a parede mais uma vez. — parou por um segundo para recuperar o ar. — E o que lhe faz pensar que virão atrás de mim por sua causa? Se me recordo bem, eles maltratam qualquer estudante novo nesta maldita escola.

Pip teve que engolir em seco para resistir à vontade de chorar.

— Todo mundo me odeia. Você sabe disso, Damien. O único jeito de você ser aceito aqui e deixado em paz é se você implicar comigo. — soltou o ar pela boca trêmula. — As coisas não mudaram tanto desde que você foi embora. Todos que aqui foram aceitos tiveram de implicar comigo uma hora ou outra. Se tornou um ritual de passagem a esse ponto. Se você quer ser respeitado e deixado em paz, tem que passar por ele também.

Em todos esses anos, nem mesmo Deus proferiu decretos tão estúpidos como este. Era repugnante pensar que, para um ser aceito, deveriam pecar com outro. Parecia que nunca tiveram nenhuma dignidade na vida.

Damien se recusava a participar de um ritual tão nojento e desprezível como aquele, e lhe enfurecia saber que seu antigo eu, o garotinho de oito anos, teria facilmente concordado com aquilo por apenas um pouco de atenção.

— Eu não sou mais a mesma pessoa de dez anos atrás. — murmurou. — Pouco me importa o que pensarão ou farão comigo. Não pretendo participar de quaisquer rituais estúpidos que vossa escola ofereça tão cedo.

O loirinho, inconscientemente, lutou contra um sorriso. Por mais que a culpa do destino que aguardava Damien consumisse seu espírito, não podia evitar de se sentir aliviado que, talvez, existisse alguém no meio daquela bagunça de escola que não compartilhasse da cultura de abuso.

— Ah, e você está errado. — Pip arqueou a sobrancelha, confuso com o argumento do anticristo que, sem nenhum dos dois perceber, apertou-o em seus braços. — Eu não te odeio.

(...)

Ele só queria um momento de paz. Era tão difícil pedir isso? A terra pertencia mais à seu pai do que à Deus, então não fazia sentido as coisas estarem dando tão errado assim.

Não que ajudar Pip tenha sido um estorvo, de forma alguma! Damien tinha uma tremenda repulsão por injustiça; justamente um dos fatores que traria sua ascensão ao poder dali alguns milênios. Contudo, por causa da confusão, não teve tempo de abrir seu livro e conseguir algo produtivo, com exceção do momento em que os professores começavam a dar aula.

Após o início da última aula, foi chamado pelo monitor do corredor para ir à sala do diretor.

Ele não tinha a menor dúvida de que alguém contou o incidente no refeitório para os superiores, pois, ao chegar lá, Pip aguardava, sentado numa das cadeiras de espera, brincando com os dedos em seu colo.

Ao ouvir passos se aproximando, ergueu os belos olhos claros na direção do mesmo, seu corpo relaxando consideravelmente ao perceber que se tratava de Damien.

— Hey. — cumprimentou o menor.

— Hey. — retribuiu ao sentar ao seu lado. — Como está a sua perna?

— Não muito bem. — disse com pesar. — A enfermeira disse que está quebrada, mas me tiraram de lá antes que ela pudesse fazer alguma coisa.

As pálpebras finas estreitaram-se sobre os olhos carmim, seu coração começando a apertar em seu peito.

— Há quanto tempo você está aqui? — perguntou, sem saber muito bem se queria saber a resposta. A julgar pelo olhar de Pip, coisa boa não era.

— Desde o segundo sinal após o lanche.

O anticristo arregalou os olhos. Pip estava esperando naquela cadeira desde a hora do lanche? Isso foi há quase quatro horas atrás!

— E deixaram você aqui fora todo esse tempo?

— Oh, não. Não, não, não, não, não foi isso que aconteceu. O diretor me chamou pra conversar sobre o que aconteceu.

Ah, como Pip queria que aquilo tivesse sido uma conversa.

Assim como todos os outros, o diretor também o odiava. Ouviu que o que veio antes dele abandonou o emprego para passar tempo com a namorada — agora, esposa — e colocaram o atual em seu lugar, e ele não gostava de desistentes. Era um homem revoltado com a vida e que usava de toda e qualquer oportunidade para punir os alunos, argumentando que isso melhoraria a disciplina e impediria-os de fazer bagunça e reprovar na vida.

E, de todos os seus alvos, Pip era o seu favorito.

Fraco demais pra lutar e educado demais para levantar a voz, aceitava todo e qualquer castigo do diretor de cabeça baixa, por mais injusto que fosse. Ele parecia se divertir ao ver a cara de decepção que o britânico fazia ao receber uma punição alta demais para algo que não fez. Nunca escolhia suspensão pois sabia que significaria ficar sem sua diversão por quase um mês — sim, ele era do tipo que poderia suspender os alunos por tempos demasiadamente longos.

Pip já perdera a conta de quantas horas ficou de castigo na detenção por algo que não fez. Ao menos não seria incomodado por ninguém lá dentro e poderia estudar.

Damien franziu o cenho. Não estava muito convencido da falação de Pip, mas, como não sabia como aquela escola estava agora, o daria o benefício da dúvida.

— E o que ele te disse?

— Ele me castigou a jogar no time de futebol americano.

Benefício da dúvida é o caralho.

— QUE PORRA DE CASTIGO É ESSE? — o anticristo urrou. — VOCÊ TÁ COM A PERNA QUEBRADA!

— Ele não acreditou em mim. Disse que se eu estava bom o suficiente pra andar, estava bom o suficiente pra correr.

Jesus Cristo — perdoe a palavra -, que raio de escola era essa?! Damien estava incrédulo. Era simplesmente inacreditável que as pessoas naquela escola eram tão estúpidas e escrotas a ponto de fazer uma coisa dessas.

Quando recordava das implicâncias consigo quando era pequeno, pensava que era coisa de criança — afinal, crianças eram conhecidas como mini-capetas -, não que era uma doença contaminada na escola inteira!

Não era à toa que todos ali fediam a pecado.

Conhecido por ser temperamental, as palmas do anticristo começaram a arder de ódio. Tamanha injustiça não podia ser deixada impune, não podia! Como advogado de Deus, ele tinha que tomar uma atitude. Não podia deixar as coisas continuarem assim!

No entanto, embora detestasse esse fato, havia de esperar o momento certo. Eles receberiam o tratamento adequado. Apenas precisava ser paciente e esperar o momento correto. Precisava manter sua postura.

Respirou fundo e concentrou sua atenção em Pip, cuja expressão mostrava preocupação pelo moreno. Seus olhos continham um brilho triste que, com um só golpe, poderiam tirar de Damien tudo que tinha em seus pulmões. Sentia-se sujo ao pensar que ele era o causador da tristeza no olhar da única alma pura em toda a escola — isso se não toda a cidade.

Se não podia se acalmar por si mesmo, faria isso por ele.

Soltou ar com força entre os dentes e, entrelaçando os próprios dedos e levando as mãos à frente do rosto, tentou desfazer a cara feia, concentrando-se no que poderia fazer agora.

— E quando você começa?

O loiro hesitou por um instante antes de responder, possivelmente por medo de deixar o anticristo ainda mais irritado.

— Amanhã à tarde. — disse com timidez. — Se eu puder ser franco, creio que querem me usar para melhorar as investidas do time.

Damien tinha até medo de perguntar sobre essas tais “investidas”, portanto, ficou calado.

Desviando o olhar por um instante, formulou uma ideia em sua mente. Ia contra as regras que foram, por ele mesmo, estipuladas antes de deixar o inferno, mas até o anticristo tinha escrúpulos.

— Eu não posso interferir tanto com esse mundo quanto eu gostaria. — admitiu tristemente. — Mas me deixe fazer algo pra te compensar pelo que aconteceu hoje no refeitório.

Antes de o britânico responder, sentiu aquele frio familiar mais uma vez percorrendo seu corpo, em especial, sua perna, forçando suas cordas vocais a soltarem um gemido involuntário pelo susto e sensação repentinos.

De repente, não sentia mais a dor em sua perna. Os músculos estavam fortes ao movimentá-la, como se fossem novos em folha. Estava como nova, como se a fratura nunca tivesse passado por seus ossos.

— Pronto. Concertei sua perna. Isso deve ajudar em alguma coisa durante o treino.

Em realidade, ele gostaria de poder fazer mais pelo britânico, mas seu poder ali era limitado — não por algo físico, mas pelas próprias regras impostas à ele pela diplomacia daquele mundo. Parte de seu trabalho era se aproveitar das brechas que lhe eram apresentadas, e, por hora, aquilo era tudo que podia fazer.

Pip sorriu enquanto movimentava a perna, alegre por não sentir mais a dor lhe atrasando.

Durante o tempo que ficou esperando na enfermaria, até a hora de entrar na sala do diretor, ficou remoendo o que Damien lhe disse enquanto o carregava para a enfermaria. O loiro teve de lutar contra as lágrimas todo o tempo que a enfermeira o examinou, tamanha era sua alegria.

Nunca havia conhecido uma única pessoa que não o odiasse de uma forma ou outra. Não sabia a exata razão de o desprezarem tanto, mas eles o odiavam e pareciam determinados a fazê-lo sofrer e se arrepender de ter nascido. Incluindo o próprio Damien há uma década atrás.

Mas agora não mais. Havia, finalmente, encontrado alguém naquele lugar que não o quisesse enterrado sete palmos debaixo da terra. E não conseguia ser grato o suficiente.

Sem conseguir se conter, envolveu Damien em um abraço, prestando nenhuma atenção nos machucados em seus braços e no resto do corpo. Estava feliz demais para conseguir pensar em qualquer outra coisa, por mais que doesse.

O anticristo, pego de surpresa, não retribuiu o contato de imediato, esperando que o britânico talvez desse uma explicação para o feito.

Podia sentir seu tronco sobre o dele, quase alinhado. A aura brilhante que emanava dele era quase como uma canção hipnótica, atraindo-o para sua melodia sem nenhuma esperança de escapar do transe.

Pip era realmente uma peça rara. Diferente de qualquer outra. Com uma alma inocente e sem pecados capitais, beirando a pureza absoluta. Era como uma luz no fim de um túnel trevoso, do qual Damien ansiava por escapar.

Lentamente, retribuiu o abraço, posicionando suas mãos entre os ossos de suas costas e o queixo sobre seu ombro, consequentemente, permitindo-o inalar o odor de seu perfume banhado à doçura de sua alma.

Não percebeu quando um sorriso surgiu em seus lábios, imitando o mesmo presente nos de Pip.

Lhe doía pensar que aquele nível de felicidade, provavelmente, não era sentido pelo britânico há muito tempo, visto que o estava abraçando demasiadamente forte.

Ao ouvir o sutil som da porta da direção se abrindo, ergueu os olhos carmim na direção da mesma, seu olhar se encontrando com o do novo diretor.

Propositalmente, apertou o corpo esbelto em seus braços de forma protetora e franziu o cenho para o homem de idade, os olhos carmim atravessando a janela de sua alma ferozmente para deixar clara a mensagem:

Se tu encostares nele nem que seja um dedo, te arrependerás amargamente.