Darker Days

3 Mais do que aparenta ser.


E, assim, se passou a primeira semana de aulas. A primeira semana de Damien de volta à South Park.

As coisas não estavam, no geral, muito diferentes para o britânico. Ele ainda apanhava na entrada, na saída e no retorno pra casa, levava bronca dos professores por coisas que não havia feito, tinha seu dinheiro roubado quando passava pelo corredor e sofria com os gritos da prima quando voltava para casa.

Uma coisa, no entanto, havia mudado. Embora ele soubesse as tormentas que o aguardavam ao chegar na escola, se pegou, mais de uma vez, caminhando a passos rápidos na direção da mesma, ansioso por chegar.

Talvez fosse a companhia mais do que a rotina o que o atraía tanto na escola. Por mais que apanhasse e se machucasse, valia a pena só para poder sentar ao lado de Damien.

Provavelmente a coisa mais irônica daquele mundo, o anticristo era a melhor companhia que já teve durante todo seu tempo de escola. Não que ele tenha tido oportunidade de fazer parte de um grupo. Eles sentavam juntos no corredor antes da aula começar, durante o lanche — quando Damien fazia sempre questão de escolher a mesa mais afastada do refeitório para que ficassem sozinhos — e nas aulas que, por acidente, descobriram que compartilhavam durante a semana.

Por esses pequenos momentos que podia passar com Damien, valia a pena as surras e as dores. O moreno, em momento algum, o tratou de maneira grosseira ou rude, até quando ele acabava tagarelando e esquecia que tinha outras pessoas ao seu redor, ele era gentil consigo. Sua presença fazia com que os dias de Pip fossem mais felizes e esperançosos. Ele finalmente tinha uma razão para sair da cama ao clarear do dia.

É assim que era ter um amigo? Pip gostaria de pensar que sim, não que poderia ser alguma pegadinha.

Em tão poucos dias, Damien fez tanto por ele. Ele não sabia o que faria se tudo acabasse se revelando nada mais do que uma piada.

Mas, enquanto caminhava em direção à escola, o britânico manteve a cabeça erguida e a determinação em seu coração. O anticristo era sempre bem direto nas coisas que ele queria, recordava-se, portanto, faria nenhum sentido que aquilo fosse o que ele achava que era quando ele poderia conseguir o mesmo efeito só abusando dele, igual a todos os outros.

South Park se tornou bem mais violenta com o passar dos anos. Ninguém mais parecia precisar de uma desculpa para machucar alguém dentro da escola e os adultos já haviam desistido de lidar com o problema, dizendo que suas crianças já eram grandinhas o suficiente para cuidar dos próprios problemas sozinhas, sem precisar deles. Tudo era uma bagunça. E Pip sofria mais do que nunca. Não havia um único dia que voltasse para casa sem algum machucado em sua pele ou humilhado por uma brincadeira de mal gosto.

Uma pequena poça de água se formou em seus olhos, rapidamente expulsa pelo polegar do loiro. Não há nenhum sentido em chorar pelo leite derramado. O melhor que se há de fazer é encontrar um pano para enxugá-lo. Talvez Damien fosse o pano de sua metáfora...? Ele gostava de pensar que sim.

Quem diria que seu primeiro amigo seria a pessoa que o usou como fogo de artifício para entrar numa festa de aniversário? O britânico riu com a ironia, seu sorriso se alargando ao perceber-se próximo ao colégio. Tinha um bom pressentimento sobre o dia de hoje.

Passou pelo estreito espaço entre as portas, a última pessoa a passar quase batendo-as em seu rosto, e caminhou o mais discretamente que pôde pelo corredor, evitando de chamar a atenção. Alguns alunos sussurravam xingamentos e gozações em seu ouvido conforme passavam ao seu lado, mas Pip não deu bola. Tudo que queria era chegar logo ao armário de Damien e poder sentar ao seu lado enquanto ele escrevia em seu livro.

Infelizmente, tardou mais do que deveria, pois um trio de garotos achou que seria divertido esticar a perna para que tropeçasse e caísse de cara no chão, o que conseguiram com muito sucesso. Ele estava tão empolgado por encontrar seu amigo que nem percebeu a brincadeira sem graça até sentir o ar soprando seus cabelos.

No entanto, o que percebeu foi que seu corpo nunca atingira o chão. Abriu os olhos com cuidado, temendo pelo que poderia estar havendo, e ficou surpreso ao ver que seu rosto estava a centímetros do chão, gravitando entre o teto e o solo.

— Vocês realmente não têm mais o que fazer? — Damien insultou, sem tirar os olhos de seu livro. — Implicar com os outros não vai fazer sua mãe te amar, ou trazer seu pai de volta.

Pip pôde ouvir a voz de seu atormentador falhar enquanto rebatia o comentário do anticristo, como se o mesmo tivesse pegado num nervo.

— Psh, então pode pegar seu namoradinho de volta. Ele não vale nada mesmo. Viado! — disse e se afastou junto da gangue.

O anticristo bufou, não estava tendo um bom dia até agora, pois os eventos da semana passada atormentavam seus pensamentos sempre que desejava trabalhar.

Como lhe foi instituído, Pip começara a praticar esportes, sua punição pelo caos causado na cafeteria, e a cada dia voltava com um machucado diferente do outro. Aparentemente, não lhe deixavam usar o equipamento apropriado na hora de treinar, portanto sempre era ele quem mais sofria as descargas de raiva dos outros jogadores. E eles tinham muita raiva.

Obviamente, o anticristo não gostou nada disso, tanto que ficou remoendo o fato por uma semana inteira. Para ele, não fazia sentido a necessidade de aqueles mortais estúpidos fazerem mal uns aos outros, principalmente com aqueles que não haviam feito nada de errado. E, acredite, se o britânico tivesse feito algo de errado, ele saberia.

Usou seus poderes para colocar Pip com calma no chão e estendeu-lhe a mão para ajudá-lo a levantar.

Não trocaram palavras enquanto seguiam, mão em mão, pelo corredor em direção à suas salas, atraindo alguns olhares estreitos em sua direção. Damien seguia na frente como um guia, prestando pouquíssima atenção nos comentários de seus colegas, com exceção de alguns poucos que adentraram seus ouvidos.

“Aqueles dois estão namorando?”

“Não achei que tinha outro casal gay fora o Tweek e o Craig.”

“Sempre achei que o Pip tinha cara de boiolinha mesmo.”

“Aquele novato paga pau pra ele desde o primeiro dia. Já tava óbvio a esse ponto.”

Damien sempre foi ensinado a não julgar as pessoas quando fora de seu trabalho. Ele não era ninguém com o direito de indicar como cada um deveria viver sua vida e seu jeito de ser, e isso se estendia para todos os âmbitos. O melhor a fazer era ignorar. Se seus colegas iam acabar tirando sarro dele de qualquer forma, estava satisfeito por ser com alguém de seu agrado, alguém com quem, pelo menos, tivesse algum apego emocional.

As mãos permaneceram uma na outra até o momento de chegar à classe do britânico. Enquanto ele estava tendo biologia, Damien teria aulas de geografia. Ficariam sem se ver até a hora do lanche.

— Te vejo mais tarde. — anunciou o moreno, como uma nota fiscal de que não ficariam sozinhos, e Pip assentiu com um sorriso pequeno nos lábios.

Na hora de finalmente partirem para caminhos diferentes, o loiro notou como a mão de Damien hesitou em soltar-se da sua, fazendo seu coração bater forte contra sua caixa torácica.

Pip entrou na sala e arrumou o material sobre a mesa para começar a estudar, tudo enquanto sentia seus batimentos correndo até a orelha, os quais não pararam durante todo o tempo que esteve naquela sala. Quando ficava entediado com os ensinamentos, seus olhos azuis desviavam para a mão direita repousando sobre a carteira e pensava em como, embora gelada, a mão de Damien segurava a sua com delicadeza, como se fosse feita de vidro.

Desde que se encontraram, ele não foi nada além de gentil consigo. Pip tinha até suas suspeitas de que fora ele quem espantou os valentões que o estavam espancando no dia que ele chegou à cidade. Afinal, um deles acabou sofrendo de combustão espontânea, e não tinha nada que combinasse mais com Damien do que fogo. O fato de ele ter se aproximado dele logo depois de os garotos saírem correndo também era conveniente demais para ser coincidência.

O pensamento trouxe um sorriso bobo aos lábios do britânico. Era bom pensar que havia alguém que se importava consigo. Passara tantos anos isolado naquela escola, sem ninguém que conversasse com ele sem ser em tom de ameaça que, a esse ponto, ter um amigo parecia nada mais que um sonho de criança. Ele já havia praticamente aceitado que, até a hora de se formar, ele seria sempre cumprimentado por olhares de desprezo e gozação sempre que passasse pelas portas de entrada da escola, sua única esperança de escapar sendo ele se formar o mais rápido possível e se mudar para outro estado.

Mas, agora, apenas talvez, isso tudo não fosse mais um sonho tão besta assim.

Embora seus colegas o achassem tolo por sonhar com tão pouco, para ele significava tudo no mundo. Quando não se tem nada, qualquer coisa, por menor que seja, já faz toda a diferença. E ele tinha Damien a agradecer por isso.

Os lábios rosados estreitaram-se em uma linha fina, as pontas ainda curvadas no característico sorriso otimista. Com todo esse trabalho que o moreno estava tendo, saindo de seu caminho e deixando de prestar atenção nos estudos, só para cuidar dele, Pip sentia que tinha de haver algo que ele pudesse fazer para compensar o amigo — poder chamar alguém assim ainda parecia algo saído de um sonho -, alguma forma de mostrar sua gratidão por todas as vezes que ele lhe ajudou até agora, e não foram poucas.

Tendo retornado há uma semana e rejeitando a companhia dos demais colegas, o anticristo acabou diretamente inserido nas encrencas em que o britânico se metia, não só tomando mais tempo de seus estudos como o tornando uma espécie de “babá involuntária” de Pip. Um após o outro, o moreno insistia em mandar seus atormentadores para bem longe, assim como fizera no primeiro dia que se encontraram, sempre com um resmungo sobre aqueles que iniciaram o conflito, mas nenhuma reclamação ou xingamento disparado na direção de Pip. Ele já disse diversas vezes durante aquela semana que não se importava de mantê-los longe de si, contanto que Pip não concordasse em ceder à eles.

De certa forma, ele também devia isso à Damien.

— Pip, poderia fazer o favor de contar pra classe o que é tão divertido que você está sorrindo pro caderno há meia hora? — perguntou a professora, em um tom mais alto que o necessário, e cruzou os braços.

O britânico, pego no pulo em sua distração, ajeitou-se desconfortavelmente em seu assento, tentando formar palavras para explicar o ocorrido. Contudo, antes que tivesse a chance de responder, o sinal soou alto em seus ouvidos, indicando a hora do intervalo. Pip aproveitou a oportunidade, com tantos alunos saindo ao mesmo tempo, para escapulir por entre a multidão, escapando ileso da punição de um professor pela primeira vez na vida. Se o dia seguisse normalmente, seria um novo recorde. O seu último recorde de “finalizar a escola com menos professores lhe dando bronca” foi dois.

Os dias em que ele conseguia passar despercebido por seus professores e colegas eram seus favoritos. Ele voltava para casa intacto, e ainda podia concentrar-se todo o dia na lição de casa e pensar no futuro brilhante que teria a frente. Logo, todo esse sofrimento valeria a pena, e ele ficaria livre para sempre daquelas torturas que tanto o afligiam e estragavam sua autoestima.

“Boiolinha.”, quase travou na metade do caminho ao ouvir o adjetivo pejorativo, mas conseguiu continuar andando depois de um suspiro. Já estava acostumado com esses “xingamentos”, de tanto que já os havia escutado. Não é como se fosse alguma informação incorreta, eles sabiam, mas isso não permitia-os de usar a sexualidade de Pip como algo ruim contra o próprio. Mas ele já desistira de tentar contra-atacar, não valia a pena, além de que só aumentava as chances de seus colegas ficarem irritados com seu comportamento.

Se ele algum dia quisesse sair de South Park e se livrar de todo o tormento e barulho com o qual vinha sofrendo por mais de dez anos, precisava manter-se firme e determinado. De nada adiantaria sucumbir ao ódio e se tornar mais um pilar para a atmosfera de morte que aquelas pessoas carregavam nas costas.

Durante tempos de integridade e estado de espírito instáveis, em que todos a sua volta não querem nada além de fazê-lo sofrer e sucumbir ao seu nível, sua palavra e honra eram tudo que ele tinha. Se ele se desapegasse disso, o que restaria de si? Seria exatamente igual aos outros e isso não o levaria à lugar algum. A paz seria temporária. Em breve, todos iriam embora e seguiriam com suas vidas, e, durante a jornada, atrairiam o mesmo tipo de gente que são hoje: lixo.

Isso não era o que Pip desejava para si. Pode ser visto como um tolo sonhador por todos dentro do colégio, mas ele pretendia continuar seguindo suas crenças até o final, mesmo que lhe custasse a vida um dia. A aceitação de seus colegas não valia a pena se para isso tivesse que desapegar da pessoa que Damien tanto elogiava entre os desejos maldosos disparados em direção aos demais. Ele não queria desapontá-lo tanto quanto desejava permanecer fiel à si mesmo. Não se deixaria corromper pela negatividade e a cultura individualista cultivada por aquela cidade estranha. Mesmo que fosse apenas em seu coração, sabia que seu jeito bom e educado de ser era o correto. Se os outros não conseguiam ver isso, então não eram dignos de sua amizade.

Ao menos fora o que Damien lhe disse na quarta-feira.

De qualquer forma, sendo tolo ou não, estava certo de que essa também seria a vontade de seus pais, e era isso que importava. Não seria ele a quebrar as expectativas e esperanças que estariam cultivando para si no além-vida. Não sabia quem eram ou quem foram, sequer se lembrava de seus rostos, mas lhe deixava muito feliz pensar que eles o amavam e gostariam de vê-lo feliz, o que não seria possível se ele sucumbisse à negatividade e desgosto de seus colegas.

Chegando ao refeitório, a fila estava mais curta que o normal, visto que Pip deixou a sala mais rapidamente e com mais pressa, e Damien já o estava a aguardar, sentado em sua mesa de sempre e anotando algo no livro que sempre carregava consigo. Um sorriso espreitou os lábios de Pip ao caminhar em sua direção, mas, por sorte, conseguiu conter sua excitação e deslizar pelo refeitório sem ser notado pelos outros alunos. Apesar de que, após o incidente da semana passada, duvidava que Stan e seu grupo resolveriam predá-lo tão cedo.

— Oi. — cumprimentou o amigo com um sorriso no rosto, deslizando a bandeja pela mesa e sentando ao seu lado.

— Oi. — respondeu Damien sem tirar os olhos do livro em que escrevia. — Como foi a aula? — estreitou os olhos e encarou Pip pelo canto do olho. — Mais alguma detenção ou castigo?

O britânico riu e negou com a cabeça, feliz com a verdade da situação.

— Quase tomei bronca agora há pouco, mas o sinal tocou antes que a professora pudesse me punir. — sentiu os olhos carmim do moreno queimando-lhe a pele, desconfiado de suas palavras e da seriedade que carregavam. — Eu estou bem, não se preocupe. Juro que não aconteceu nada.

O anticristo continuou desconfiado, seus olhos perfurando o corpo de Pip à procura de algum roxo ou corte na pele branca. Depois da experiência que teve na última semana, aprendeu rapidamente que não podia confiar nas vestimentas fofas e olhar inocente que o britânico carregava, pois muitas vezes escondiam muitas feridas por trás. No primeiro dia em que Pip teve que participar do time de futebol americano, se não fosse pelo sangue que escorria de sua testa, provavelmente teria mentido sobre levar uma surra dos demais jogadores, e Damien não podia estar mais nervoso com isso. Se aquele garoto não queria cuidar de si mesmo, ele o obrigaria a isso, nem que fosse a última coisa que fizesse em sua vida. Embora ele não devesse interferir com a vida dos mortais daquela forma, ele tinha princípios, e desperdiçar uma alma tão boa como aquela seria estupidez, até para os parâmetros de Deus.

Percebendo a ausência de qualquer comportamento suspeito, o anticristo retornou a atenção ao seu almoço e o livro que requisitava mais tinta em suas páginas amareladas. Ele e Pip caíram em um silêncio confortável, ambos focando em seus lanches e trocando alguns olhares de vez em quando, mas raramente palavras. Não era estranho, pois faziam isso quase todos os dias, e era melhor do que acabar arrumando confusão por alguma besteira que seus colegas de classe poderiam inventar.

Devido ao silêncio, era mais fácil de escutar os murmúrios de seus colegas nas mesas próximas e até em algumas mais distantes, visto que nenhum deles parecia conhecer o significado de “falar baixo”. Nada mais eram do que fofocas e boatos sendo espalhados, típico desses mortais de vidas vazias. Quando não têm mais o que fazer, param de cuidar dos próprios narizes e resolvem procurar besteira nos dos outros, e, infelizmente, Damien e Pip não estavam imunes à este tratamento, não que o primeiro se importasse. Apenas mais do mesmo é do que se tratava: pessoas falando que eles pareciam um casal apenas por sentarem um do lado do outro. Patético.

Enquanto anotava as informações que precisava em seu livro, o anticristo fitou o britânico de soslaio. Ele não se importava com os comentários; na verdade, achava ridículo e uma perda de tempo dar atenção à esse tipo de comportamento. Mas, e quanto a Pip? Provavelmente estava acostumado ao tratamento e aos comentários, mas será que eles lhe incomodavam? Encarando-o de canto, não parecia que dava muita importância, contudo, o subir e descer da perna direita, típico sinal de ansiedade, dizia outra coisa.

— Você se incomoda? — as palavras fluíram dos lábios de Damien antes que o mesmo tivesse a chance de revisá-las. O loiro virou a cabeça em sua direção e soltou um murmúrio. — Os comentários. Eles te incomodam?

Pip colocou a mão sobre a boca para engolir a comida e, depois, limpou a garganta.

— Na verdade, não. Eles fazem isso com todo mundo. — seu peito se contraiu ao ver Damien estreitar os olhos. Resposta errada. — Mas não tem problema, eu já estou acostumado. Além do mais, não é como se eles estivessem passando totais mentiras sobre mim.

Os olhos carmim do anticristo se arregalaram, em choque pelo que o último comentário acrescentado deixava implícito. Então Pip era gay. Huh.

— Guerra de comida! — alguém de repente gritou, tirando a atenção da conversa deles.

Pedaços do lanche de todo mundo voaram para todos os lados, acertando muitos na cabeça ou no tórax e fazendo-os cair. Até para algo tão simples como uma brincadeira aqueles malditos eram violentos. Mas Damien não estava impressionado, todos já haviam sido criados com o espírito pecaminoso dentro deles, estavam seguindo os instintos dados por Deus. Era hipócrita que a mesma pessoa que os fez assim espere que eles retornem de onde vieram totalmente puros.

O coração de Damien parou por um instante ao quase acertarem uma caixa de leite em seu livro, ameaçando destruir todo o trabalho que ele fez ao longo de dez anos. Por sorte, conseguiu coletar o objeto e escondê-lo com seus poderes antes que algo de mal pudesse acontecer, o que foi um alívio, mas isso só serviu para que ele ficasse ainda mais próximo do abismo que era sua falta de paciência naquele dia. E coitada da pessoa que o fizesse cair.

Tardou menos do que o anticristo esperava para que alguns idiotas começassem a mirar no britânico, a maioria dos tiros errando o alvo e acertando na mesa, mas Pip não parecia se importar, pois continuava focando em seu lanche ao invés de erguer o olhar para ver os pães e caixas de suco jogadas em sua direção.

Damien ainda não conseguia digerir a falta de cuidado que Pip tinha consigo mesmo. Na última semana, descobriu que a situação com a qual teria que lidar era pior do que ele pensava, pois o britânico sabia das coisas que aconteceriam consigo caso tomasse certas atitudes, e as tomava mesmo assim. Ele sabia dos valentões que o aguardavam todos os dias no caminho para sua casa para tomar o dinheiro restante do almoço, sabia das tentativas do time de futebol americano de nocauteá-lo e fazê-lo deixar o campo com o máximo de cicatrizes possível, sabia das pessoas que deixavam a classe ao mesmo tempo que ele durante as aulas para bordá-lo no corredor, sabia dos professores que esperavam apenas uma pequena brecha para poderem tirá-lo da sala e humilhá-lo em frente à todos os outros alunos. Ele sabia de tudo isso, mas insistia em continuar sempre com a mesma rotina, o mesmo caminho, quase como se quisesse apanhar.

— Você realmente não se importa? — perguntou o moreno quanto à tudo que estava acontecendo, criando com seus poderes um vento fraco para prevenir que alguém o acertasse com comida. — Com tudo isso, você realmente não se importa?

Além daquilo tudo, Pip também sabia que Damien desaprovava da forma como ele reagia, ou melhor, como não reagia à esse tipo de situação. Ele não defendia que ele deveria se rebaixar ao nível dos demais, é claro, mas insistia que seus problemas não passariam se ele continuasse sendo tão passivo. E, embora entendesse seu ponto de vista, o britânico não estava disposto a mudar seus métodos e seus costumes por aqueles que não valiam a pena. Permaneceria fiel à si e o desejo de seus pais até o fim.

— Está tudo bem, Damien, eu estou acostu…

Antes que pudesse terminar de responder, foi puxado pelo anticristo contra seu peito, ao mesmo tempo que ele movia sua mão e desviava os ventos criados por ele para impedir que Pip fosse acertado na cabeça por uma cadeira.

— Uma cadeira? É sério, cara? — ouviu alguém gritar, mas não prestou atenção em quem foi, pois estava ocupado demais apertando o corpo do menor em seus braços de forma protetora.

— QUAL É O PROBLEMA DE VOCÊS? — bradou o anticristo, completamente chocado. Nem sequer tinha qualquer cadeira na cantina, de onde eles tinham tirado isso? Seus dentes rangiam de raiva, com as emoções à flor da pele e a paciência se esvaindo rapidamente. — O QUANTO DE MINHOCA VOCÊS TÊM NA CABEÇA PRA FAZER ESSA MERDA?!

— Ui, ele tá defendendo o namoradinho dele. — caçoou Cartman, dando ainda mais nos nervos do anticristo.

— VAI PRO INFERNO!

Usando seus poderes e jogando todos da cantina contra a parede, presos contra a mesma pelas mesas com as quais os prensou, sentia-se com oito anos novamente; o garoto facilmente revoltado que queria colocar fogo no mundo e vê-lo arder. Eles eram tão parecidos agora. A única diferença é que Damien não estava seguindo ordens de alguém dessa vez, estava protegendo alguém com quem se importava, por vontade própria.

Durante a bronca e revolta do anticristo, Pip não conseguia ouvir nada além de um contínuo som agudo, quase como estática. Seus olhos azuis, arregalados de medo, estavam presos à visão da blusa na qual estava encostado. Não conseguia se mexer, a gravidade parecia mais forte, puxando-o para baixo e o impedindo de respirar. O ar não passava pela garganta, esta contraída de tal forma que, além de não deixá-lo respirar, também mantinha o ar já dentro dos pulmões de refém.

Com o pouco de força que restava em seus dedos trêmulos, agarrou-se à roupa de Damien e chacoalhou-o numa tentativa de chamar sua atenção.

— … Eu acho que vou vomitar. — murmurou em voz baixíssima, quase invisível no ar.

Por sorte, o anticristo tinha bons ouvidos e conseguiu captar seu pedido de ajuda. Soltou um xingamento breve e, sem perder tempo, tomou a mão do loiro na sua e saíram correndo da cantina, direto para o banheiro. Guiou-o até uma das cabines e puxou os fios loiros, junto com a boina de jornaleiro, para trás enquanto Pip se debruçava sobre a privada e deixava o estômago expulsar tudo que havia consumido naquela manhã.

Ele tossia e engasgava com a própria saliva, as mãos perdendo força sobre a beira do vaso e à beira do desmaio. Só não tinha caído ainda pois o maior mantinha uma mão em seu ombro, permitindo que tivesse algum tipo de sustentação.

Ao colocar tudo para fora, tomou um minuto para respirar, o anticristo mais uma vez o confortando naquele momento difícil, movendo a mão em círculos em suas costas, como uma mãe deveria aconchegar seu filho. Lhe passava uma certa sensação de segurança, pois sabia que havia alguém que estava lá e se preocupava com ele.

— Pronto? — ouviu ele perguntar e fez que sim com a cabeça. Damien o ajudou a se levantar e o acompanhou até a pia, onde ele reuniu água entre os dedos e a palma de sua mão para fazer bochecho e lavar seu rosto pálido. — Está melhor?

Pip cuspiu a água na pia e assentiu com a cabeça, dessa vez mais devagar. Ainda estava tentando se recuperar do choque e ver através da tontura.

— Sim, eu estou bem. Foi só um gatilho, acontece de vez em quando.

Damien arqueou a sobrancelha e arregalou os olhos. Então Pip tinha gatilhos também, isso explica o porquê do vômito e falta de ar: ataque de pânico. Ele estava aprendendo muito sobre ele hoje. Precisaria ficar de olho naquela figura de boina e roupas cafonas, mais do que já estava.

— Talvez seja melhor você ser dispensado pelo resto do dia. — aconselhou o anticristo. — Você não está em condição nenhuma de estudar assim.

Pip gostaria muito de discordar, dizer que estava bem e que poderia voltar à aula e seguir o dia normalmente. Mas não podia. Ele não estava bem. Nem um pouco. Ele nunca estava depois de situações assim.

— Você está certo. — admitiu com a mão sobre a testa. — Deixe-me só pegar minhas coisas e vou embora.

— Está tudo bem. Eu pego sua mochila e suas coisas. Você precisa descansar. — estalou os dedos e o material de Pip apareceu em suas mãos, completamente organizado, além de uma garrafa d’água, mentos, para que ele pudesse fazer bochechos e tirar o gosto de bile da boca, e algumas bolachas para não desmaiar de pressão baixa. Enquanto o britânico tomava ar em seus pulmões e usava dos objetos que o anticristo invocara, Damien soltou um suspiro entre dentes, pensando no próximo passo a tomar naquela situação. — Me deixe te acompanhar até sua casa. Não quero que você acabe tendo outro ataque e morra no meio da rua.

Ou em qualquer lugar.

O britânico não estava em condições de negar ou ser humilde, então apenas aceitou a ajuda e deixou o anticristo o acompanhar durante o trajeto para fora da escola. Tudo parecia cinzento enquanto caminhavam, um borrão, invisível aos olhos azuis de Pip enquanto o maior o guiava pela mão. Tontura sempre o atingia quando ele acabava vomitando, isso se não desmaiasse antes. Ele detestava, mas não havia nada a se fazer.

— Você está bem? Consegue andar normalmente? — perguntou o anticristo ao passarem pela porta da frente.

— Só estou um pouco tonto, mas vou sobreviver.

Doía olhar para o britânico daquela forma, tão pálido e fraco, como se fosse quebrar a qualquer instante. Sua aparência por si só já passava uma ideia de algo frágil, como uma boneca de porcelana, e, depois do ataque que sofreu no refeitório, o efeito era ainda pior, parecia um doente prestes a desmaiar.

Ele não resistiria nada se caminhasse nessas condições, sua pressão cairia e ele desmaiaria sem que Damien pudesse fazer nada. Seria obra de Deus, um destino marcado à sua vontade. E ele não suportava a ideia de não ter as coisas sob seu controle.

— Onde fica sua casa? — perguntou.

O loiro ergueu o olhar, seu brilho fraco entre os fios lisos.

— Não é muito longe da sua casa. Duas ruas para baixo.

Damien assentiu e, sem aviso prévio, tomou o menor em seus braços pela terceira vez desde seu retorno. Invocando seus poderes apenas com o olhar, criou uma cortina de fogo ao seu redor, tomando todo o cuidado extra de certificar-se que Pip não sofreria quaisquer queimaduras.

O britânico deveria estar em choque com a atitude repentina do anticristo, mas não. Passada essa semana, ele já detinha conhecimento de como havia mudado, e essa atitude era mais do que esperada. De tantas vezes que o moreno tomou-o em seus braços, já estava se acostumando com o colo do anticristo, que era bem aconchegante, por sinal.

Por força do hábito, rodeou-lhe o pescoço com os braços e encostou a cabeça em seu peito, permitindo-se se aconchegar e a pressão voltar a subir com a posição mais adequada.

Damien era a primeira pessoa que se importava tanto com a saúde e o bem-estar de Pip em toda sua vida, ele não podia evitar de agarrar-se à ele como se o mundo dependesse disso.

Sua personalidade também era demasiado atraente. Um certo ar de mistério intoxicava o ar sempre que ele entrava no recinto, sempre atraindo o olhar azul do britânico em sua direção. Ele era um livro fechado, esperando ser aberto e lido por alguém, e Pip gostaria de ser o primeiro a poder folhear suas páginas.

A cortina de fogo, logo que dissipada, tão rápido como quando veio, revelou a rua da casa do britânico de olhos azuis, para espanto do mesmo. Embora já acostumado com o jeitinho do anticristo, ainda tardava em se acostumar com a forma que usava seus poderes, sempre tão voláteis. Gentilmente, colocou os pés de Pip no chão, as mãos pálidas segurando-o na frente e atrás para evitá-lo de cair.

— Qual dessas casas é a sua?

Sugeriria guiá-lo para casa, Pip deduziu, ao que o britânico negou com a cabeça, formando um sorriso gentil em seus lábios.

— Está tudo bem, Damien, posso chegar lá sozinho. E será melhor que eu explique à minha prima a razão de não estar no colégio.

O moreno assentiu, vendo que a cor já havia voltado ao seu rosto e o próprio britânico podia sustentar-se confiantemente nos dois pés.

— Colocarei uma dispensa na mesa do diretor, assim não lhe darão falta por ter de deixar a classe de forma tão apressada. — Pip sorriu, tanto pela dedicação de Damien consigo, quanto com a maneira formal que as palavras deixavam sua boca. Era intoxicante e soava como uma música em seus ouvidos. Entretanto, seu sorriso se esvaiu ao ver as feições do anticristo mudarem de sérias para preocupadas. Ele preferia muito mais vê-lo com um ar misterioso que com qualquer coisa que remetesse à dor, principalmente quando era por causa dele. A palma da mão, quente pela invocação das chamas, tocou-lhe a bochecha, os olhos carmim se aproximando de seus azuis, como se falassem diretamente com sua alma. — Mas, Pip, você precisa urgentemente parar de se diminuir tanto. O que aconteceu no refeitório não é algo normal, não deve ser algo normal, e um gatilho não é algo de que se tire sarro ou que se dispense como apenas uma mosca irritante. — acariciou a pele sob os dígitos da mão com ternura, suas órbitas carmim brilhando com tamanho sentimento que fez o coração do loiro palpitar, preso naquele olhar hipnótico e sincero. — Por favor, tome mais conta de si mesmo. Eu não vou sempre estar aqui para lhe ajudar da maneira que fiz hoje. Se não pode se cuidar por si mesmo, então o faça por mim. Me preocupo demasiadamente com você e não quero te ver machucado.

Pip não fazia promessas que não podia cumprir, não importa o quanto desejasse poder ver o sorriso no rosto daquele que mais lhe importava. As condições em que vivia sua vida impediam-no de cumprir tal tarefa por inteiro, entretanto, olhando tão fundo nos olhos de Damien, não podia negá-lo algo tão importante.

— Eu vou tentar. — respondeu.

O alívio nas feições do anticristo resultou em outra palpitação. O que estava acontecendo com ele hoje? Estava bem mais avoado que o normal, seus pensamentos sempre voltando para aquela figura bíblica que, apesar de ter seu destino selado, não parava de atrair-lhe o olhar. E o sentimento era recíproco.

Hipnotizados por azul e carmim, nenhum dos dois percebeu quando começaram a se aproximar, muito menos quando os lábios se encontraram, a sensação e o toque tão natural que quase passou despercebido. A mão de Damien deslizava pela bochecha do britânico com um apreço e um acariciar que ele nunca sentira antes. Era reconfortante, como um abraço quente.

Foi algo breve, efêmero, o contato entre seus lábios, mas foi o bastante para atiçar o anticristo de uma forma que ele nunca havia sentido antes, ao menos, nunca sentiu nada tão forte como agora. Seu lado demoníaco estava a todo vapor, à beira do descontrole. Queria devorá-lo, atacar sua boca e tomá-lo todo para si, ceder às tentações de seu lado paterno e deixar que o destino escolhesse o que ele devia fazer.

Mas ele não podia. Havia algo na forma como os olhos do britânico brilhavam, na forma como ele olhava para si, que o deixava entorpecido, imune aos avanços e insistência de seu lado mais forte.

Os lábios apartaram-se em silêncio, como se nunca tivessem se tocado em primeiro lugar, mas o brilho nos olhos de ambos o anticristo e o britânico era prova mais que o suficiente de que havia algo mais.

— Obrigado. — disse Damien, sem saber se estava referindo-se ao beijo ou à promessa.