Darker Days

4 Número Desconhecido.


Ele sorria como um tolo. Seu coração batia rápido e seu corpo cambaleava enquanto caminhava em direção à sua casa. Os pensamentos se misturavam na sopa que era seu cérebro derretido, aquecido pela doce sensação do contato de seus lábios com os de Damien. Sendo odiado pela escola inteira, naturalmente nunca foi o alvo de afeição de ninguém, apenas ódio e desprezo; todo tipo de emoções negativas e diversão sadista, ele não tinha nenhum tipo de experiência no assunto. Mas, no momento em que seus lábios tocaram, em um movimento tão suave que o loiro sequer percebeu que estavam caminhando em direção um ao outro, foi como se tivesse feito isso a vida inteira. Os lábios de Damien eram tão suaves, tão atenciosos tocando os seus, ele simplesmente não pôde ficar parado. Foi como se sua boca tivesse vida própria. Ele apenas esperava que o beijo tivesse sido bom tanto para o moreno quanto foi para ele. Nunca em sua vida Pip pensou que estava perdendo tanto ao manter o BV.

Parte de si repetia em sua mente como aquilo foi por acaso, um acidente, o anticristo não quis realmente beijá-lo, foi algo apenas no calor do momento. Contudo, outra parte de si remoía beijo e a despedida após o mesmo. Foi algo tão natural, como se aquilo fosse rotina. Despediram-se da mesma forma como sempre o fizeram — até onde uma semana significava -, e, ao menos pelo que Pip pôde perceber, ele não se mostrou arrependido do beijo. Talvez isso fosse parte de um plano maior, ou talvez ele estivesse apenas interessado em adicionar um número à seus registros, mas também havia a possibilidade de significar algo mais. Ele queria que significasse algo mais. Ele não queria que aquela sensação tão boa que sentia fosse derivado de algo superficial e falso. Queria que aquilo fosse verdadeiro, algo que pudesse ter em sua vida do qual não se arrependesse. Queria que tais gestos tão doces e gentis fossem derivados de algo que ele nunca experienciou, algo que não fosse ódio.

Céus, ele realmente estava se apaixonando depois de um beijo? Ou era apenas carência? Pip não conseguia dizer, e nem conseguiria no momento, pois, ao se aproximar da casa de sua prima, precisaria enfrentar um monstro diferente de seu status amoroso atual.

Pegando a chave de debaixo do tapete, gentilmente colocou-a na fechadura e destrancou a porta, adentrando a casa após sua abertura na ponta dos pés.

De repente, uma voz feminina chamou da sala. Parecia cansada e irritada, não que não estivesse assim sempre que ecoasse pelas paredes daquela casa cinzenta.

— Pip? É você?

O britânico, percebendo ter sido pego, soltou um suspiro trêmulo e fechou a porta com cuidado. Caminhou a passos lentos em direção à sala, fazendo sua presença oficialmente presente para a dona da casa.

Lorraine tinha cabelos loiros oxigenados e levemente encaracolados que caíam bem com a forma de seu rosto. A maquiagem carregava o destaque dos olhos, lábios e bochechas nas costas, todos finos e pequenos demais para chamar a atenção por si só. Estando sempre com o cenho e a boca franzidos, o rosto era carregado de rugas de expressão, cuidadosamente escondidos atrás da base e do blush. A pose que assumia na poltrona, imitando Rose na cena do Titanic em que Jack pintava um quadro de sua formosura, permitia que o vestido branco simples marcasse suas coxas grossas e as pernas recém depiladas como em um retrato de uma monarca francesa. Mas não deixe-se enganar pela aparente formosura, pois o verdadeiro valor de uma pessoa está em suas atitudes.

— Sim, sou eu. — respondeu ao chamado com a voz tímida, entrando na sala com a cabeça baixa.

A mulher mais velha o analisou de cima a baixo, os olhos verdes descascando cada centímetro de sua pele como um escâner.

— Você está pálido. — apontou ela. — Está passando bem?

Involuntariamente, Pip levou as mãos às maçãs do rosto, como se tentasse escondê-lo.

— Oh, não se preocupe, eu estou bem. — respondeu simplesmente, tentando ao máximo não quebrar o contato visual.

— Então por que está aqui? — por quê está aqui me obrigando a te olhar?

O loiro quase se pegou brincando com os próprios dedos em frente ao corpo, mas logo voltou os braços ao lado do corpo, suas unhas quase penetrando o tecido da calça em nervosismo.

— Tive um ataque de pânico no refeitório e um amigo me acompanhou até aqui.

Ah, como era boa a sensação de chamar alguém de amigo. Apesar de que, considerando a situação recente, não tinha plena certeza se poderiam ser mais assim considerados. Pois veja, Pip não entendia absolutamente nada de relacionamentos, fossem amorosos ou apenas platônicos, e, embora estivesse certo que amigos não se beijavam daquela forma, não era tão atualizado como seus colegas. As coisas podiam ter mudado de alguns anos para cá, independentemente do tamanho, ele sempre seria o último a saber.

— Oh, um amigo? Que curioso. Achei que você não tivesse um desses.

— Ele é meu primeiro. — respondeu, quase não conseguindo controlar a língua.

Combinado com a felicidade de finalmente ter um amigo, Pip tinha certas dificuldades em controlar a língua de vez em quando, fato que não passou despercebido pela dona da casa. Essas situações geralmente aconteciam quando seus colegas o chamavam de francês durante um dia ruim; ficava mais difícil para o britânico conseguir se conter e não rebater. Sabia que não era a atitude adequada, mas, às vezes, o peso em suas costas se tornava simplesmente insuportável. Foi questão de pura sorte ele ter conseguido se conter no presente momento.

Lorraine murmurou e piscou devagar.

— Isso é muito bom, meu bem. Agora vá pegar chá pra mim, sim? Estou incrivelmente exausta e não posso mover nenhum músculo.

Pip conteve-se para não suspirar, estreitou as mãos ao lado do corpo e manteve contato visual. Já era hora de começar.

— Sim, madame.

Retirou-se da sala em silêncio, tomando as diversas bandejas com migalhas de biscoito que haviam espalhadas pelos móveis. Seus olhos percorriam cada centímetro do corredor que percorria com precisão, procurando por qualquer coisa que pudesse estar fora do lugar. Se deixasse escapar uma poeira que seja até o final do dia, seus ouvidos ficariam doloridos com os gritos de sua prima.

Ele não se importava de fazer tarefas domésticas, pois eram uma boa forma de distraí-lo de sua solidão. Entretanto, as circunstâncias que giravam em torno desse requerimento eram o que o deixavam desconfortável, por isso, evitava de pensar nelas. Apenas enchia sua mente com trabalho, trabalho, trabalho, sem dar chance aos pensamentos e medos de invadirem-na e o atrapalharem de seus deveres.

Chegando na cozinha, colocou toda a louça na pia e preparou as coisas para fazer o chá. Separou o bule, a caixinha com os saquinhos, as xícaras e a bandeja e colocou tudo no canto vazio da pia. Tendo feito chá tantas vezes, seu corpo se movia praticamente em modo automático, apenas correndo algum risco se ele estivesse sendo muito descuidado naquele dia, o que, no dia de hoje, estava. O britânico quase se queimou ao ligar o fogão, sem prestar atenção em onde colocava o fósforo. A maioria das casas tinha fogão à gás, mas sua prima acreditava que acender tudo com fósforo era mais barato e funcionava melhor para eles, o que resultava em Pip tendo que aprender, muitas vezes na marra, a não brincar com fogo.

Enquanto a água esquentava, foi até a geladeira para procurar algo o que comer. Não podia dizer que iria almoçar, pois o que tinha não podia ser considerado como uma refeição completa. Tudo que ele comia era o que restava do prato de Lorraine e do fundo das panelas. Pip não era bom com facas, ou com o fogão em geral, e, como ninguém estava disposto a ensiná-lo a cozinhar, dependia daquilo que sua prima fazia. Ela cozinhava muito bem, uma refeição mais gostosa que a outra, e até mesmo as sobras eram deliciosas, apesar de insuficientes para encher por completo o estômago do menor em comparação ao dela. Se não comer o bastante era o preço para provar de algo tão bom, Pip não se importava de pagá-lo. Era um dos únicos pontos altos de seu dia: poder provar de algo que não era a gororoba da cantina. De forma alguma estava desprezando as habilidades do cozinheiro, mas havia de ser sincero e dizer que preferia mil vezes a comida de Lorraine, sobras ou não.

Pegou um prato com resto de carne com batata e ervilhas e acomodou-o temporariamente na mesa da cozinha, tomando cuidado para deixar o prato longe da vista de Lorraine. Sua prima estava em uma onda de dietas e parte dela incluía aprender a cozinhar demais e comer de menos. Dizia que era uma forma de treinar o estômago a resistir à comida. Se ela descobrisse que ele estava pegando de suas sobras, havia grandes chances de o reprimir por estar “tornando seu trabalho mais difícil”, como se o britânico estivesse esfregando a comida em sua cara, gozando da situação em que se encontrava. Embora ele insistisse que jamais faria algo do tipo com ela, algo dizia-a que não deveria confia em uma palavra sequer que Pip pudesse dizer. Naquela casa, ele nunca tinha a palavra. Por isso, precisava comer escondido, como um rato. Ele, no entanto, preferia pensar que estava poupando sua prima de problemas, pois sabia como ela levava sua dieta a sério e realmente ficava incomodada com essas coisas, então, aceitava sua situação de bom grado.

Em silêncio, lavou as mãos e sentou-se no chão, no canto da cozinha, com o prato no colo. Não podia usar talheres pelo risco de Lorraine escutar o som do metal batendo no prato de cerâmica, então teria de ser com a mão mesmo. Uma a uma, foi colocando as ervilhas na boca, saboreando cada uma como se fosse a última. Seus olhos fecharam em êxtase ao provar da carne que, mesmo fria, era a coisa mais gostosa que experimentou naquele dia. Pip não era alguém para julgar a comida dos outros. Uma vez, tentou cozinhar uma sopa e quase acabou colocando fogo no pano por esquecê-lo ao lado do fogão enquanto tirava a panela. O resultado não fora muito satisfatório, mas ele se divertiu muito experimentando com os temperos e os legumes, mesmo que tenha tomado um esporro de Lorraine quando a mesma voltou para casa.

Finalizou o prato bem a tempo da água do chá ficar pronta. Levantou-se com pressa, quase deixando o prato cair ao fazê-lo, e correu até o fogão, colocando o saquinho apressadamente no bule e voltando sua atenção ao prato sujo. Precisava limpá-lo antes que a prima resolvesse aparecer na cozinha e descobrisse que ele a desobedeceu e comeu aquilo que não era seu.

Enquanto esfregava a bucha desgastada com sabão sobre a porcelana, seus pensamentos voltaram a divagar para o momento em que os lábios de Damien tocaram os seus. Ainda não conseguia acreditar que aquilo havia acontecido, e de uma forma tão natural! Ninguém o havia forçado àquilo ou o dado dinheiro para fazê-lo, como Pip já vira acontecer com outros colegas de sua turma. Ao menos, ele não viu alguém pagar Damien para beijá-lo. Contudo, de qualquer forma, ele não acreditava que o anticristo ainda fosse tão antiquado a ponto de voltar à suas raízes; ao Damien de oito anos de idade. Não depois da semana que passaram juntos.

Foi como se o incidente no aniversário de Cartman há dez anos atrás nunca tivesse acontecido. Como se Damien tivesse escolhido sentar ao lado de Pip e ser seu amigo ao invés de tentar impressionar os grupos mais populares da escola. E, de fato, foi exatamente isso que ele fez, e o pensamento não deixava de colocar cor nas bochechas do britânico.

Embora o momento inoportuno, sua autoestima estava no teto com a ideia de que poderia haver alguém que, não só o considerava um amigo, como talvez um potencial parceiro. Pip nunca se apaixonou antes, não sabia como era, mas sempre teve a curiosidade de descobrir. O único verdadeiro obstáculo em seu caminho foi encontrar o tão dito “alguém especial”. Chamem-no de tolo, mas ele adorava a ideia de um romance estilo conto de fadas. Sabia que nunca aconteciam na vida real, mas imaginar não custa nada, não é?

Agora que ele parava para pensar, era um tanto estranho e até engraçado que seu primeiro beijo tenha sido logo depois de um ataque de pânico. Nunca ouviu falar de nada parecido acontecendo com qualquer um. Talvez o mais próximo tenha sido quando Stan e Wendy namoravam, em que a garota beijava o moreno apesar do gosto de vômito em sua boca.

Oh, ele esperava que o beijo não tenha sido estranho ou nojento para o anticristo. Ele odiaria que seu primeiro beijo tenha sido ruim para seu parceiro.

Céus, só Pip mesmo para se meter nessas situações. Seu primeiro beijo foi depois de um ataque de pânico. O quão idiota era isso? E, ao mesmo tempo, o britânico não conseguia evitar de rir enquanto pensava na estupidez da situação. Seu primeiro beijo ocorreu no pior timing possível, como se fosse algo retirado de um daqueles vídeos de pessoas passando mico na frente das pessoas que gostavam. Ele sentia-se dentro de uma história!

E Damien o correspondeu.

— Pip, espero que não tenha esquecido do chá novamente! Não vou apagar mais um incêndio seu! — gritou sua prima desde a sala.

Pip gelou, percebendo que esquecera completamente do chá e estava perdendo tempo ensaboando um prato já limpo e pensando em um simples contato de lábios. Rapidamente jogou o prato na pia, desligou a torneira e correu para organizar o resto da bandeja com duas xícaras e os pires para cada uma. Sua prima não era de ter paciência, então até se surpreendeu por ter demorado tanto para que ela reclamasse. Ou seriam apenas seus pensamentos que estavam muito rápidos? Ele não sabia e não tinha tempo para descobrir. Se não levasse logo o que lhe foi pedido à Lorraine, ela certamente ficaria irritada. E ele não queria deixar sua prima irritada.

Calmamente colocou a bandeja na mesa de centro ao chegar na sala, aguardando que a mais velha provasse do chá. Entretanto, os olhos verdes deslizaram pela porcelana como quem encara um inseto, e ele soube instantaneamente que havia feito algo errado.

— Phillip. — ele engoliu em seco. Não gostava da forma como seu nome saía de seus lábios. Preferia muito mais que o chamassem por aquele apelido bobo do que cuspir seu nome com escárnio daquela forma.

— Sim? — respondeu, de qualquer forma.

— Por que há duas xícaras aqui? — ergueu o olhar para o loiro, não ousando dar-lhe o luxo de uma expressão diferente de indiferença. — Você sabe quais são as regras da casa, não sabe? Ou terei de lembrá-lo mais uma vez?

Pip queria poder se defender, já sabia do que ela estava falando, pois ouviu o discurso muitas e muitas vezes. Mas não o fez.

— … Nada de chá até todo o trabalho estar feito.

Ela acenou com a cabeça.

— Isso mesmo. Portanto, guarde essa xícara e vá trabalhar. Coloque suas lições em dia. Eu não pago aquela escola para você ficar vagabundeando igual à seus colegas imundos.

O loiro abaixou a cabeça, quebrando contato visual e, ao invés disso, dirigindo o olhar à segunda xícara de chá sobre a bandeja. De repente, sentiu uma imensa vontade de chorar.

— Sim, madame.

Lorraine odiava que a chamassem de senhora. Dizia que a fazia parecer velha. E, embora tivesse apenas trinta anos, por baixo da maquiagem, de fato, parecia uma. Uma bruxa, vinda direto dos pesadelos de criancinhas assustadas. Talvez fosse esse o motivo, Pip às vezes pensava, de ela não sair de casa sem aproveitar todos os cosméticos com o qual seu dinheiro era gasto.

Sem dizer mais nada, removeu a xícara e o pires extra e voltou para a cozinha para colocá-los de volta onde pertenciam: na prateleira. Inúteis para qualquer um naquela casa que desejasse usá-los.

(...)

A caminhada por aquelas escadas não ficava mais fácil conforme o tempo. Na verdade, parecia até que haviam construído mais degraus do que havia anteriormente. O fato de Damien estar vindo da terra também não fazia muito sentido. Supõe-se que os mortais apenas viam uma luz e já apareciam no céu, não é? Amaldiçoado seja aquele que teve a ideia de ligar o céu, a terra e o inferno através de escadas ao invés de um elevador. Por questões de respeito, o anticristo se recusava a usar seus poderes para chegar lá. Podia não concordar com os métodos de Deus, mas não significava que não deveria tratá-lo com respeito, como o próprio fazia — ou, pelo menos, tentava — com ele.

Ao chegar ao fim da escada, soltou um suspiro, sentindo seu peito encher com as emoções nostálgicas da visão diante de si. Muitos anos se passaram desde que ele apareceu diante daqueles portões dourados pela última vez. Seu pai certamente lhe daria uma bronca quando o visse.

Se aproximou dos dois anjos que guardavam o portão com uma postura ereta. Ele não vinha àquele local com tanta frequência, mas, quando vinha, os guardiões já sabiam exatamente para quê. Encarou o anjo da direita com os olhos carmim escondendo-se entre as pálpebras entreabertas e o mesmo acenou com a cabeça. O anjo da esquerda o acompanhou portão adentro, sem dirigir uma única palavra ao anticristo e, em pouco tempo, voltaram acompanhando uma figura mais alta, cuja forma era diferente de todos os outros que entravam no céu.

Damien manteve o mesmo olhar que dirigiu aos anjos ao seu pai. Ele não o via há muito tempo, tendo estado ocupado demais com o trabalho que ele deixou para trás e as tarefas como advogado de Deus. Embora não admitisse, uma parte de si o culpava por estar tão ocupado. O culpava por ter morrido. Ou era apenas amargura por estar solitário? Ele não sabia e tinha coisas melhores para fazer do que descobrir.

Passado do portão, o qual foi fechado atrás de si para a segurança dos demais habitantes do céu, Satã sorriu na direção de Damien, feliz por poder ver seu filho novamente.

— Damien, é muito bom vê-lo novamente. — cumprimentou o pai. — A que devo o prazer de te ver?

Hesitante pela primeira vez em que visitava o maior, o anticristo desviou levemente o olhar para o chão, inconscientemente aumentando a curiosidade de seu pai sobre o assunto.

— … Eu conheci alguém. — disse quietamente.

Os olhos de satanás se arregalaram em surpresa, aquilo sim era algo que ele não estava esperando.

— Oh! Que incrível, Damien! — parabenizou o pai, sua curiosidade borbulhando ainda mais dentro de si. — E como é essa pessoa?

Damien abaixou a cabeça levemente, quebrando o contato visual com seu pai e, ao invés disso, fitando os próprios sapatos.

— Ele é… — sua voz desapareceu, morrendo em sua garganta enquanto se distraía com a imagem do britânico surgindo em sua mente, um belo sorriso estampado em seu rosto e seus olhos azuis profundos brilhando por entre os fios dourados que caíam sobre a face. Seu coração começou a bater mais forte contra seu peito ao passo que palavras formavam em sua língua. — Puro. A única pessoa legal que eu conheci naquela escola. Ele é fofo, doce, e tem o sorriso mais lindo que eu já vi em todos os três planos.

O sorriso bobo em seus lábios não escapou dos olhos de Satã, que sentiu o orgulho e amor por seu filho crescer em seu peito.

— Parece que você caiu mesmo por esse garoto. — corando, Damien manteve o olhar abaixado e desmanchou o sorriso, este que passou para os lábios do pai. — Qual o nome dele?

Damien abriu a boca para responder, mas a fechou rapidamente ao perceber que estava prestes a anunciar o britânico pelo apelido, não pelo nome de batismo. Se deu um tapa mental pela confusão.

— Phillip. Phillip Pirrup. Mas todos o chamam de Pip.

O rosto de satanás se contorceu em uma expressão de adoração, como alguém que encara um filhote de cachorro.

— Que apelido adorável. Passa a impressão de que é uma pessoa fofa. Ao menos, é o que eu acho.

E não estava errado. Pip era um doce de pessoa. Nunca tratou qualquer um que seja de forma grosseira e permanecia em pé até nas situações mais difíceis. Tinha mais determinação em seu dedo mindinho do que muitas pessoas tinham no corpo todo, e Damien não podia deixar de admirá-lo por isso. E é aí que estava o problema.

— Pai, o que eu faço? Eu acho que realmente gosto dele. E eu quero que ele também goste de mim.

Satã nunca tinha visto seu filho assim antes, com desespero e temor tão enlaçados em sua voz. Aquele garoto realmente deveria estar afetando seu emocional se era tão importante assim. Ao melhor de suas habilidades, limpou a garganta e puxou as melhores dicas que poderia dar para a ponta da língua.

— Vocês já tiveram alguma experiência juntos? — perguntou, amolecendo a voz.

Damien pareceu relutante em responder, suas bochechas tornando de branco à carmim, mas logo retribuiu a conversa.

— Nós nos beijamos uma vez. — disse timidamente, recebendo um murmúrio de aprovação do pai.

— É um progresso. Quando foi isso?

— … Hoje.

Damien queria esconder a cara no chão ao ouvir o pai rir. O fato de que ele achava graça de seus problemas com relações humanas só o deixava ainda mais constrangido.

— Um tanto apressados, mas não vejo nenhum mal. — disse o rei do inferno. — Se esse garoto for como você diz, não acho que isso fará com que vocês deixem de ser amigos.

E Damien perdeu o controle.

— Essa é a questão! Eu não quero ser amigo dele! Digo, eu quero, mas amigo qualquer um pode ser. Eu quero ser algo mais do que um amigo. — envolveu os braços ao redor de si mesmo, engolindo em seco. — Eu não sei o que eu devo fazer sobre isso. Eu nunca… Senti isso por alguém antes.

Vendo o desespero de sua cria, Satanás ajoelhou ao seu lado e colocou uma mão reconfortante em seu ombro.

— Não precisa se afobar tanto, filho. — disse, doçura enlaçada em sua voz. — Comece pequeno. Chame-o para um encontro. Não é assim que a maioria dos mortais começam seus romances?

Damien ainda parecia um tanto inseguro, de uma forma que ele revelava apenas para seu pai — e nos momentos mais raros -, mas logo suspirou e, ao aliviar o estresse, respondeu:

— Acho que posso tentar.

Encarando seu pai pelo canto do olho, viu-o sorrir.

— Eu fico muito feliz que você tenha resolvido ter essa conversa comigo, meu filho. — disse ele, seus olhos brilhando com carinho. Ele abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas o som dos guardas pigarreando indicava que já era hora do anticristo voltar ao trabalho. Satanás afagou os cabelos negros de Damien e ergueu-se do chão. — Boa sorte com seu “crush”, filho. Me conte tudo depois. — o anticristo assentiu com a cabeça, observando seu pai ser guiado de volta aos portões do céu até que ele virou uma última vez em sua direção. — Ah, e, quando seu amigo morrer, traga-o durante uma de suas visitas. Estou ansioso para conhecer o rapaz que conquistou o coração do meu filho.

Damien resistiu à vergonha e assentiu com a cabeça, acenando um último adeus para seu pai enquanto os anjos se asseguravam de que ele estava seguro dentro daquele lugar sagrado.

O anticristo não estava preocupado em apresentar o britânico para seu pai. Ele não ia precisar, pois Pip jamais veria o inferno.

Quietamente, voltou-se em direção às escadas enquanto os portões dourados se fechavam atrás de si.

(...)

Pip estava tremendo quando chegou a hora de participar do treino de futebol. Fora abordado mais cedo por três repetentes no corredor quando estava a caminho do vestiário e acabou com hematomas nos braços pela força que usaram para segurá-lo contra os armários e pelos socos que tomou que, somados com a dor dos chutes nas pernas, formava uma péssima combinação para se jogar um jogo tão violento quanto aquele.

Que ótima forma de tentar cuidar mais de si mesmo.

Em sua defesa, ele estava um tanto cabisbaixo naquele dia, o que estava tornando toda a situação algo difícil de lidar. Não pelas agressões ou por algo referente ao beijo do dia anterior. Na verdade, Damien o tratou como sempre o fez durante aquela última semana. Cumprimentou-o, almoçou ao seu lado e conversaram normalmente, como se nada tivesse acontecido. Mas esse era justamente o problema. Pip, de forma alguma, gostaria que Damien parasse de falar com ele devido ao beijo, mas ele esperava algum tipo de reação, qualquer reação, do anticristo quanto à tudo aquilo, mas ele seguiu em frente como se fingisse que o problema não existisse e isso incomodou o britânico de uma forma indescritível. Se ele não fosse correspondido naquele sentimento — o qual ele sequer podia confirmar se existia ou não -, ao menos gostaria de ter uma resposta para começar a seguir em frente com sua vida. Ou, se fosse correspondido, não poderia fazer nada se Damien não lhe desse um sinal. Qualquer coisa estaria bom! Pip sabia se contentar com pouco! Mas não recebeu nada, e agora estava indo para o campo com uma enorme pulga atrás da orelha e um saco de 20 quilos de preocupação e nervosismo em suas costas.

Seguiu para o meio da quadra junto aos outros jogadores e se posicionou no canto da quadra, onde era sua marcação no time. Todos os seus colegas usavam capacete e um equipamento adequado. Ele era o único com a cabeça exposta e de aparelhos enferrujados. O técnico vivia dizendo que não havia mais quaisquer capacetes disponíveis e que aquele era o último uniforme, mas Pip não era burro de cair nesse papo furado, não mais. Ele sabia que aquilo tudo era de propósito, mas estava tudo bem. Em uma semana sua punição estaria completa e ele poderia sair do time. Ou, pelo menos, era o que ele gostava de acreditar.

Não conseguiu sequer ouvir o apito soar antes que um dos jogadores avançasse contra si e acertasse com o capacete no canto de sua cabeça, fazendo um pequeno corte. O contrário pareceu não se importar, no entanto, optando por simplesmente empurrar o britânico no chão e correr em direção à bola, fazendo questão de pisar em seu ombro com toda a força que podia antes de usar seu corpo para tomar impulso. Por estar com capacete, Pip não pôde ver quem fora seu agressor, mas de que lhe importava, se todos naquele lugar sequer faziam esforço para esconder o desprezo por ele.

Ele sentiu mais vontade de continuar deitado no gramado do que de costume, o que não era bom sinal, mas, sem muita escolha, levantou do chão com certa dificuldade e correu para onde os outros jogadores estavam. Se ficasse muito para trás, certamente dariam um jeito de trazê-lo de volta ao jogo — e não seria bonito.

Ao passarem por ele para correr em direção ao seu objetivo, todos fizeram questão de tentar desequilibra-lo com batidas em seus ombros e chutes por todas suas pernas, ainda doloridas. Ele quase caiu umas cinco vezes, mas, por algum motivo, continuava seguindo em frente, apenas para encarar mais e mais repressão dos outros jogadores.

Foi quando ouviu algo estalar em seu ombro que seus sentidos foram à flor da pele. A adrenalina começou a correr em suas veias e um senso muito forte de perigo soou em seu cérebro, gritando para que corresse para o mais longe possível, para um lugar seguro, mas Pip não teve chance de dar ouvidos àquela voz. Foi recebido com uma cotovelada e um soco no rosto por Stan enquanto o mesmo passava segurando a bola de futebol em mãos, impedindo-o de ver o restante do time correndo atrás dele a tempo. Em uma fração de segundo, estava no chão, com vários pares de pés correndo por cima de seu corpo como se ele não fosse nada além de um inseto, um estorvo, um obstáculo entre eles e seu objetivo. Mãos, braço, pernas, costas, cabeça, nada saiu intacto, e ele tinha quase certeza de que um dos ferros que deveria proteger seus ombros tinha arrebentado. Ou era isso ou era um de seus ossos se partindo.

Não conseguia ouvir o que estava acontecendo fora de sua cabeça. Alguém tinha pisado em seu ouvido e sua cabeça inteira estava latejando. Algo escorria pelo canto de sua testa, descendo por seu rosto, percorrendo sua bochecha, até o canto de sua boca. A julgar pelo gosto, só podia ser sangue, mas ele não tinha como colocar a mão e checar. Não conseguia se mexer. Estava tudo doendo. Mas, mesmo assim, nenhuma lágrima escorria de seus olhos. Ele não conseguia sentir nada além da dor que percorria cada centímetro de seu corpo. Apenas conseguia mexer os olhos, mas o ângulo em que estava não ajudava muito. Podia ver o treinador gritando algo que não podia escutar e todo o time caminhando para onde ele acreditava serem os vestiários. Já haviam cumprido sua meta do dia, ele supôs.

Com muito cuidado para não quebrar nada — se é que já não havia nada quebrado -, tentou movimentar as mãos e sentar no gramado. Após muito tempo tentando e sendo forçado com a cara de volta à grama pela gravidade, conseguiu reunir força suficiente para realizar seu objetivo. Ele estava um caco, não precisava de um espelho para saber disso. Seu olho esquerdo estava começando a inchar e o sangue não parou de escorrer por seu rosto, embora o fluxo tenha diminuído consideravelmente. Estava pior do que nos dias anteriores, mas, mesmo assim, ele teve a paciência de levantar e cambalear até a arquibancada, onde havia deixado sua mochila. Já cometera muitos erros assim no passado como para perceber que não podia deixar suas coisas muito longe de si, não nessas situações. Retirou de lá, soltando gemidos e ganidos de dor, um pequeno kit de primeiros socorros e uma garrafa térmica, onde estava guardado seu chá.

Após terminar de enfaixar a cabeça e colocar band-aids nos locais cortados em suas pernas e braços, abriu o frasco e tomou um gole da bebida ali guardada, milagrosamente quente. Por mais que tudo doesse, tomar chá sempre o acalmava, independente das situações. Era tudo que ele precisava para clarear a mente e poder se concentrar em sua situação. Com a mão trêmula, pegou seu celular, percebendo uma série de mensagens de um número não registrado.

Hey, Pip

É o Damien

Huh, que estranho. O britânico não sabia que Damien tinha um celular.

Peguei esse celular e o número há uns dias atrás

Ah, isso fazia mais sentido. Voltou a levar a xícara aos lábios e ler as mensagens restantes do anticristo.

De qualquer forma, eu estava pensando sobre a última semana e como as coisas estão na escola e eu tomei uma decisão

Você gostaria de sair comigo?

Por muito pouco, Pip não cuspiu seu chá sobre a própria roupa, se conteve no último segundo, sucedendo em engolir o líquido escaldante. Tossiu um pouco numa tentativa de limpar a garganta e dar ao cérebro mais tempo para processar a pergunta.

Damien o chamou para um encontro.

Damien o chamou para um encontro. Um encontro. Com ele. Não com Stan, que era um atleta respeitado por todos os seus colegas de classe. Não com Kyle, que era o aluno nota dez, queridinho dos professores e estudante mais aplicado de todo o colégio. Mas com Pip, que nada mais era que uma pedra no sapato de todo mundo.

Seus olhos passaram pela última mensagem de novo e de novo e de novo, como se tentassem encontrar algum significado mais profundo para aquilo tudo. A situação parecia algo saído de um conto de fadas, ou de algum sonho profundo dos confins da mente do britânico.

Isso era real? Será que ele não havia desmaiado com o ataque de pânico de ontem e tudo isso não passava de uma alucinação? Parecia bom demais para ser verdade, e em um tempo tão conveniente! Bom, mais ou menos, considerando que ele deveria estar um caco, mas isso poderia ser resolvido com um pouco de gelo e maquiagem. Seu coração batia forte em seu peito, como se fosse pular pra fora da forma mais clichê possível, mas o britânico fez o possível para acalmar sua respiração e dar um último gole de seu chá antes de responder, confirmando o encontro da forma mais calma que conseguiu com seus dedos tremendo e sua mente a mil por hora.

Parecia uma ideia estúpida, ir em um encontro naquele estado, mas Pip bateu com a cabeça no chão e várias pessoas pisaram nele, não estava pensando direito; ao menos era o que o próprio deduzia.

Após guardar todo o material e objetos restantes na mochila, o loiro deu seu melhor para levantar da arquibancada e ir ao banheiro para esconder os machucados com maquiagem. Por sorte, havia trazido um pouco de base na mochila justamente para o caso de isso acontecer — não o encontro, mas os machucados cobrindo-lhe toda a cara.

Ele agradecia muito por Estella ter lhe dado aulas de maquiagem quando estavam juntos. Podia ter sido numa tentativa de fazer seu rosto parecer menos morto, como a própria disse, mas pelo menos agora ele sabia como usar uma base e esconder olhos roxos.

O real problema que enfrentou no caminho para o parque — onde Damien o informou pouco depois de mandar sua mensagem de resposta que era o lugar onde ele deveria encontrá-lo -, foi a incrível dor que sentia em seu corpo. Não era a primeira vez que tinha que fingir estar bem, é claro, mas hoje em específico parecia estar pior do que o normal. Entretanto, ele se recusava a cancelar um compromisso ao qual se comprometeu a ir por um problema com o qual já estava acostumado a lidar. Sendo Damien ou não, isso seria apenas rude.

Demorou mais do que gostaria para chegar ao local combinado, mas, quando sentou no banco, foi como se uma onda de alívio varresse para longe todas as suas dores, embora elas continuassem muito presentes. Felizmente, ele não estava atrasado, pois não havia sinal do anticristo em lugar nenhum. Então ele esperou.

E esperou.

E esperou.

E esperou.

Mas nenhum sinal de Damien.

O britânico era uma pessoa bem paciente; tinha que ser, pois não sobreviveria de outra forma, mas ele também tinha suas inseguranças e ansiedades, que se mostravam presentes com o bater de sua perna. Seus dedos apertavam o celular em suas mãos, ansiando por notícias do anticristo, mas nada. Talvez algo tivesse acontecido e ele tenha ficado sem poder mandar mensagem, mas Pip nunca teria como saber se não perguntasse.

Desbloqueou a tela do celular e entrou no contato de Damien, um sentimento de inquietude imediatamente se instalando em seu peito ao ver “online” bem debaixo de seu nome. Ignorando aquela sensação ruim, apenas escreveu o que queria dizer.

Oi, Damien! De forma alguma quero apressá-lo, mas já estou te esperando há bastante tempo. Você ainda vai demorar muito?

Após esperar, pacientemente, alguns minutos pela resposta, seus olhos brilharam quando a tela se acendeu e o número, agora registrado, apareceu na tela. Entretanto, a série de mensagens que se seguiu foi rápida em estourar sua bolha.

Do que você está falando?

Oh

Espera

Você realmente acreditou nisso? Kkkkkkk meu satanás como você é idiota!

De onde você tirou a ideia de que eu iria querer um encontro com alguém como você?

E eu que achava que você não podia se mostrar mais idiota do que foi essa semana toda!

Os olhos azuis de Pip se arregalaram e, por um segundo, seu coração parou de bater, o mundo parou de rodar. A tremedeira que sentira na quadra voltou e o celular começou a escorregar de suas mãos, o que o forçou a ter que segurá-lo mais forte, seus olhos grudados naquelas últimas mensagens.

Depois de tudo que aconteceu durante aquela semana, tudo indicava que ele não devia acreditar naquela situação. Talvez fosse apenas uma brincadeira de mal gosto que ele estava levando a sério demais. Contudo, Damien era de South Park agora, e nunca nenhuma alma entrou naquela cidade e saiu intacta. Todas eram corrompidas, distorcidas além do formato que tinham antes, nunca mais seriam reconhecidas como aquilo que eram. Ou era isso, ou eram quebradas, açoitadas de uma forma que não restava nada além da carcaça daquilo que um dia foram. Ele supunha que simplesmente tinha chegado sua vez.

Como ele pôde ter sido tão estúpido? Como ele pôde pensar que as coisas em South Park haviam mudado? Pip ser solitário fazia parte do status quo de South Park. E o status quo de South Park nunca mudava.

Tentando manter o que restava de sua dignidade, o loiro voltou a segurar seu celular e deslizou o dedo pelas teclas, digitando sua resposta. Afinal, mesmo com a cara no chão, seria rude deixar alguém sem resposta.

Oh.

Entendo.

Nesse caso, perdão por incomodar.

A tela escureceu com o pressionar do dedo de Pip sobre o botão, e sua visão não seguiu muito atrás. Pequenas lágrimas caíram sobre o preto da tela, mas o britânico não estava com cabeça para se preocupar com o estado de vida do aparelho eletrônico.

Ele se deixou ser feito de idiota, usado e abusado como bem entendessem. De novo. Só que, dessa vez, doía. Doía de um jeito que ele nunca sentiu antes. Como se ele tivesse sido quebrado, ou talvez levado um chute no saco. Mas a dor não era física, não era algo que poderia simplesmente desaparecer após alguns minutos. Ele se sentia traído. Não só perdeu a única chance de romance que teria na vida, como, mais uma vez, se deixou enganar por aquele lado seu que dizia que as coisas iriam melhorar, que tudo poderia se resolver e ele voltaria a ter alguma companhia ao seu lado. Que tolo ele era.

Levou a mão aos olhos, escondendo-os atrás da palma e sentindo a base que aplicara escorrer junto das lágrimas. Ele não queria chorar, não ali onde todos podiam vê-lo e tirar sarro de sua cara, mas, a esse ponto, ele já não estava ligando. Sua cabeça pensava apenas em Damien e a forma como aquela cidade deveria tê-lo corrompido também. Ou ele simplesmente tivesse essa intenção o tempo todo. As pessoas pareciam levar o seu tormento como um passatempo, algo para fazer quando estavam entediadas, e isso variava desde as mais velhas até as mais novas, que seguiam justamente os exemplos das mais velhas, por que com Damien seria diferente?

Mas ele estava diferente, Pip percebeu isso. Ele parecia tão maduro e responsável, tão diferente de como era na última vez que o viu. Realmente parecia que ele havia mudado, que os últimos anos no inferno, ironicamente, tinham o feito bem. Contudo, também achavam que Eric Cartman tinha mudado no período em que namorou com Heidi Turner, mas ele não tardou em voltar à seus antigos métodos. De verdade, ninguém estava imune ao tornado de negatividade que sugava o espírito das pessoas daquela cidade. Mais cedo ou mais tarde, elas cederiam, se dobrariam à seu favor. Ou fariam como Pip e quebrariam.

Mas por que ele se importava tanto? Passou-se apenas uma semana — e dois dias — desde que Damien retornou e eles voltaram a ter contato. Não é possível que, com apenas um beijo, ele já tenha se apaixonado pelo amigo. Quer dizer, se é que poderia chamá-lo assim. De qualquer forma, não é como se importasse. Paixonite, amizade, seja lá o que fosse, foi por água abaixo. Ele estava sozinho, de novo.

Estava a ponto de levantar e voltar para casa quando ouviu uma voz infiltrar seus ouvidos. Naquele momento, era a última coisa que queria ouvir, mas, as palavras que proferiu deixaram-no curioso da mesma forma.

— Você não deveria dar ouvidos à tudo que dizem no WhatsApp. A maioria das notícias aí é mentira.

O loiro ergueu o olhar, um tanto desacreditado. Toda a dor que martelava em seu peito foi subitamente substituída por confusão. Ele não estava entendendo mais nada. Entretanto, Damien estava, e seus olhos não o deixavam mentir. Quem o encarasse naquele momento, se perguntaria por que um cara aleatório estava encarando uma moita como se ela tivesse matado sua mãe.

Atrás do dito arbusto, Trent Boyett, junto de dois outros garotos, espiava pelo pequeno espaço entre as folhas que os cobriam, podendo ver pouco além da silhueta dos dois garotos próximos ao banco e o olhar perfurante do anticristo.

O líder do pequeno grupo apertou o celular com força em suas mãos, imaginando se o anticristo conseguia sentir a força do ódio em seu olhar enquanto o encarava.

— Acha que ele nos viu? — perguntou um de seus comparsas em um sussurro.

É claro que eu te vi.— respondeu Damien, sem se importar se eles conseguiam ouvi-lo ou não. Com um movimento de mão, as folhas do arbusto se contorceram de uma forma sobrenatural para, em seguida, desintegrarem por completo, deixando os três rapazes expostos e com olhos espantados. O celular foi o próximo, estourando bem na mão de Trent e assustando o adolescente. Pegou-se erguendo o olhar do chão para a frente, assustando-se ao dar de cara com o anticristo, seu corpo suspenso no ar, a centímetros do chão. Ele o encarava de forma superior e uma expressão neutra, porém não significava que sua raiva não se revelava por trás dos olhos carmim. — Vocês têm cinco segundos pra sair daqui antes que acabem igual àquele celular.

Mais um estouro escapou do aparelho, este jogado no chão e pegando fogo logo em seguida.

Apavorados, os garotos saíram correndo sem olhar para trás, o olhar do anticristo os acompanhando até sumirem de vista.

Pip, que também observou a cena se desenrolar diante de si, se apressou em enxugar as lágrimas ao sentir os olhos carmim do anticristo pousarem em si e sua magia o trazendo para perto dele.

— Você está bem? — perguntou parar ao seu lado, encarando-o de cima. O britânico assentiu, recusando-se a retribuir o olhar do moreno. — Eu não tenho telefone celular, muito menos te mandei mensagem.

— Oh… Ok. — respondeu simplesmente, mantendo a cabeça baixa.

Damien se sentia culpado por aquela besteira, devia tê-lo avisado antes, mas não pensou ser necessário. Vendo a forma como os olhos de Pip permaneciam foscos, chateados, percebeu como estava errado. Contudo, mesmo depois de esclarecer o mal entendido, as coisas não ficaram melhores.

— Você parece desapontado. — apontou. — O que foi?

O britânico hesitou por um instante, mas, após um suspiro pesado, respondeu:

— Eu me sinto um idiota. Eu realmente pensei que você… — mordeu o lábio inferior. — Que você queria sair comigo. — percebendo a culpa no olhar do anticristo, rapidamente colocou um sorriso nos lábios, embora pequeno, e o encarou pelo canto do olho. — Não se preocupe, eu vou ficar bem. A culpa foi minha; não devia ter sido tão idiota.

Sua tentativa de desviar a preocupação e culpa de Damien foi completamente furada, visto que ele agora se sentia ainda pior, mesmo não tendo feito nada. Talvez fosse a simpatia que sentia pelo loirinho, mas o anticristo pegou-se propondo algo que não sabia exatamente se era uma boa ideia, mas o fez de qualquer forma.

— Você gostaria de sair em um encontro? Um de verdade, dessa vez. Podemos ir aonde você quiser.

Pip entrelaçou os próprios dedos e ponderou a ideia em sua mente. Depois de tudo isso, ainda gostaria de ir à um encontro com Damien? Ele já havia aceitado aquele, mesmo que fosse uma brincadeira de mal gosto dos garotos da outra turma do terceiro ano, então talvez um “segundo encontro” não fosse uma má ideia. Contudo, mesmo assim, ele ainda estava confuso quanto a como se sentia sobre o anticristo. O beijo do dia anterior foi o seu primeiro e foi maravilhoso, mas ele não estaria sendo prepotente em se deixar levar por sua falta de experiência e conhecimento no âmbito de relacionamentos amorosos? Isso tudo era tão confuso…

Respirou fundo, evitando de encarar Damien nos olhos enquanto erguia a cabeça e, ao invés disso, olhava o céu. Deixando esses pensamentos e preocupações de lado, o que ele queria? Independentemente de ser certo ou errado, o que ele sentia que era o certo? O que seu coração gostaria de ganhar? As pessoas insistiam tanto em colocar suas próprias necessidades acima das dele… Não poderia, uma única vez, pensar em si mesmo ao invés do que outras pessoas e a sociedade em geral exigiam de si?

Tomou coragem em seus pulmões e sorriu para Damien, seus olhos finalmente voltando a se encontrar e um pequeno sorriso puxando o canto de seus lábios.

— Eu gostaria muito.

Uma sensação de alívio percorreu as veias de Damien, fazendo com que um arrepio percorresse sua espinha.

— Então está decidido. — disse, contendo um sorriso que ameaçava crescer em seus lábios. — Para que você tenha um tempo para se recuperar do… Incidente, iremos amanhã à tarde. Gostaria que eu passasse para te buscar em sua casa ou prefere que nos encontremos em algum local específico?

Pip, contendo-se para não rir das maneiras tão formais do anticristo, além da forma como suas mãos tremiam em ansiedade, deixou o impulso de alegria tomar conta de sua boca.

— Talvez pudéssemos apenas ir direto depois da escola. Acredito que facilitaria a viagem.

Damien deu de ombros.

— Da forma que ficar melhor pra você.

Quebrando o contato entre seus olhos, Pip encarou as próprias mãos, brincava com seus polegares de forma tímida, envergonhada. Nunca esteve numa situação dessa antes e ter a atenção em si não estava ajudando seu nervosismo e insegurança.

— Será que poderia te dar uma resposta melhor amanhã? — perguntou o loiro.

Mais uma vez, o anticristo deu de ombros.

— É claro. Até amanhã, então. — sem aguardar resposta alguma do britânico, Damien virou de costas para ele e começou a caminhar para longe do parque, hesitando pouco antes de poder usar seus poderes para se transportar de volta para casa. — Ah, e, Pip? — olhou para o menor por cima do ombro, encontrando seu olhar fixo em suas costas. Ignorando o rubor em suas bochechas da vergonha de ser pego encarando, ele murmurou, um pedido para que Damien seguisse em frente com o que quisesse falar. O anticristo não pôde esconder o sorriso crescente em seus lábios ao formar as palavras na ponta de sua língua. — Eu não te disse quando tive a oportunidade hoje, mas você beija muito bem.

Notas finais
Eu não gostei muito de como saiu esse final, mas quem se importa? NOSSOS BOYOS VÃO SAIR NUM ENCONTRO uwu Lembrem-se que favoritos e comentários ajudam bastante nos incentivos a continuar a história ♥