Darker Days

14 À beira do precipício


Notas iniciais
Eu não gosto do quão curto esse e o próximo capítulo estão, além de o passing estar HORRÍVEL, mas alguma coisa é melhor do que nada então toma aí

Damien estava estranho desde aquela noite. Ele já não falava mais tanto quanto antes e agia de forma mais distante com Pip do que de costume. O mais estranho é que, ao mesmo tempo que ele era distante, ele também era extremamente grudento com ele.

Na semana seguinte, Pip veio a descobrir que Damien havia trocado absolutamente todas as suas aulas para ter as mesmas que ele. Ele se recusava a sentar em qualquer lugar que não ao seu lado, e quem o tentava dizer “não” era facilmente removido do lugar com um estalar de dedos. Damien não dizia nada, no entanto. Apenas sentava e agia como se absolutamente nada estivesse acontecendo, sequer explicava ao britânico a razão de tudo isso.

Aquilo o incomodava profundamente, pois sentia que Damien não confiava nele, o que não podia estar mais longe da verdade. No entanto, eles tinham feito um acordo. Damien devia ser sincero com ele, e cortava seu coração que ele sentisse que havia coisas que ele não podia contar à ele.

Às vezes, Pip sentia como se soubesse a razão para ele estar assim, ou pior, que era sua culpa. Ele tinha suas suspeitas, é claro, mas, sendo o bom ator que era, conseguia fazê-las passar despercebido.

Ou ao menos ele achava que conseguia.

Ele descobriu não ser o caso numa manhã de sábado, quando ele, perdido em seus pensamentos, não percebeu que fazia caretas enquanto fazia a lição.

Damien, no entanto, reparou relativamente rápido, especialmente considerando que ele estava limpando a mesa de café da manhã na cozinha. Em um segundo, ele estava se concentrando nos pratos e, no outro, observava Pip pelo canto do olho e percebeu o desconforto em seus olhos. E não parecia ser por causa da lição.

O anticristo deixou os pratos de lado por um segundo e caminhou para a sala.

Suas suspeitas foram confirmadas definitivamente quando a careta desapareceu quando ele se sentou no sofá.

— Está tudo bem? — perguntou ao britânico, colocando uma mão em seu ombro.

— O que? — perguntou, como se não tivesse ouvido nada do que Damien disse, embora ele soubesse que era mentira.

— Perguntei se está tudo bem.

O desconforto foi imediato.

Ele tinha feito algo que não devia. Ele se entregou.

— Oh. Uh, sim, claro, por que não estaria?

Ele voltou a escrever em seu caderno, mas estava óbvio que tinha algo errado, visto que ele estava fazendo um monte de rabiscos na folha.

— Seus olhos. Parece que vai chorar.

Pip parou de escrever e encarou o papel, completamente travado.

Damien mordeu o lábio inferior e deslizou para mais perto, deslizando o braço de seu ombro para a cintura.

— O que aconteceu, Pip?

Ele não era um bom mentiroso, é óbvio que a verdade viria a tona e o próprio britânico se entregaria. Ele estava confortável demais para começar a esconder as coisas de seu melhor amigo.

Com um peso no coração, Pip soltou um suspiro.

— …Aconteceu alguma coisa, Damien? — perguntou, encarando o maior com a cabeça baixa.

O anticristo foi pego de surpresa e não soube o que responder de imediato. Imagens de seu encontro com a tia apareceram no fundo de sua mente, mas não tinha como Pip estar falando daquilo. Ele estava dormindo.

— Creio que não. — mentira. — Por que?

— Você está estranho. Meio distante... E, ao mesmo tempo, você me mantém perto, senta do meu lado. É quase como se você estivesse… Com medo. — Pip encolheu no sofá, instintivamente tentando acolher o máximo de calor possível para si. — Isso está bagunçando minha cabeça. Você disse que não faria mais isso. Você prometeu.

O coração de Damien doía com as palavras do britânico. Ele realmente não estava cumprindo com sua parte. O certo seria contar à Pip tudo que aconteceu.

Mas ele não podia fazer isso.

Ele abaixou a cabeça.

— Desculpa, Pip. Isso é… Privado. Coisa entre mim e o céu. Está me deixando meio nervoso.

Não era exatamente mentira, mas ele estava ocultando as coisas dele e isso o fazia se sentir culpado.

E Pip não estava aguentando mais.

— …Tem algo a ver comigo? — ele não resistiu em perguntar, encarando Damien com os olhos cheios de água.

Havia algo de diferente neles. Alguma coisa na forma que Pip o olhava que dizia que ele sabia de coisas que não deveria. Algo que o estava machucando.

Damien arregalou os olhos.

— ... Você sabe.

Doía em seu coração, tanto que ele mal conseguia respirar, e as lágrimas começaram a rolar de seus olhos sem que ele pudesse fazer nada.

Lentamente, ele assentiu.

— Eu ouvi você falando com a Morte outro dia. Eu sei que eu não tenho muito tempo.

A forma como ele falava aquilo, mantendo a cabeça baixa e a voz baixa, incomodava Damien de diversas formas. Ao mesmo tempo que ele parecia nervoso, também parecia desinteressado, como se o assunto de sua morte não o incomodasse de forma alguma.

Pensar naquilo fez um arrepio correr pela espinha de Damien.

Mesmo depois de tanto tempo, Pip continuava pensando tão pouco de si mesmo? Ele queria tanto que ele pudesse se ver da mesma forma que ele o via. O entristecia sem fim que ele pensasse assim de si mesmo, que sua morte não importava ou que não mudaria nada, pois com certeza teria um impacto nele.

Ao mesmo tempo, talvez não fosse nada disso. Ele podia estar se precipitando. Pip ficava muito misterioso quando se escondia daquela forma, de tal forma que tornava muito difícil para Damien conseguir ler suas expressões com precisão.

O anticristo soltou um suspiro pesado e abaixou a cabeça.

— Desculpe. Eu realmente queria, e devia, ter te contado no dia. Mas eu não… Não queria te assustar.

— Está tudo bem. — Pip respondeu. — Eu entendo. Você tem um trabalho a fazer e não pode ficar quebrando as regras desse jeito. Não se preocupe.

Ambos ficaram em silêncio depois disso, olhando para as próprias mãos e tudo ao redor como se fosse muito mais interessante do que aquele assunto.

Na verdade, nenhum deles sabia o que dizer. Era algo muito delicado para ser discutido com franqueza, ou assim era a opinião de Damien. Ele não queria acabar dizendo algo que pudesse fazer seu namorado desconfortável ou que o perturbasse de alguma forma.

Pip acabou por dar o gancho para continuar a conversa, deixando sua curiosidade tomar o melhor de si.

— Você sabe como eu vou morrer? — perguntou levemente arrependido. Não sabia se podia perguntar essas coisas.

Damien respondeu a pergunta de qualquer jeito, negando com a cabeça.

— Espero que seja sem dor. — ele acrescentou.

— E se for por alguma doença contagiosa? Não vai te afetar? — tudo que Pip menos queria era acabar prejudicando outras pessoas com seus dias contados, especialmente se era alguém por quem ele tinha uma grande consideração como Damien.

— Não posso morrer até causar o apocalipse, ou, pelo menos, terminar meu período de trabalho. — disse. — Eu escaparia como que por um milagre.

— Entendo. — assentiu com a cabeça e voltou a brincar com os dedos, seus olhos desviaram discretamente para o relógio na parede. — ...Temos cerca de uma semana, não?

Damien assentiu, arrependendo-se amargamente de não ter dito a verdade à Pip desde o começo. Teria poupado a ambos de muitos problemas.

— Talvez pudéssemos aproveitar de alguma forma. — o britânico sugeriu com um sorriso.

Pensando bem, não era uma má ideia. Se Pip partiria em breve, o mínimo que Damien podia fazer por ele era fazê-lo se sentir bem em seus últimos dias.

— É claro. Tem algo que você gostaria de fazer?

O britânico levou um dedo ao queixo e murmurou.

— Suponho que eu já não tenha mais que ir para a escola, certo, já que não vou viver até a formatura?

Ele esperou por aquele momento há muitos anos, o ano em que se formaria e iria embora de South Park. Era muito difícil pensar que ele não viveria até lá, para ver o momento em que finalmente seria livre.

A realidade doía, mas teriam que aceitar.

— Suponho que não. Mas a escolha é sua.

Pip assentiu mais uma vez.

— Entendo. Me deixe apenas entregar o trabalho de amanhã, não quero prejudicar meus colegas.

Lentamente, o anticristo subiu sua mão pela perna do britânico e entrelaçou seus dedos aos dele, que repousavam sobre seu joelho.

— O que você quiser. — ele respondeu, olhando fundo em seus belos olhos azuis. — Eu falo sério, Pip. Qualquer coisa que quiser, só diga e eu faço.

Damien se recusava a deixar que Pip partisse daquele mundo com assuntos pendentes, sem que ele tenha aproveitado um mínimo de felicidade. Ele faria o que pudesse para cumprir até o último de seus desejos.

Pip ficou quieto por um instante e, enchendo o pulmão de ar, disse:

— Eu quero ver a ficha da minha mãe. E do meu pai. Se eu realmente for pro céu como você diz que eu vou, não acho que vou chegar a vê-los.

Ele não gostava de pensar que não veria seus pais, pois viveu por anos sem isso ser algo importante. Ao invés disso, levaria consigo para seja lá qual plano a memória de todo o amor que eles sentiam por ele, para confortá-lo em todos os momentos em que se sentisse perdido ou sozinho.

— Se é o que você quer, eu o farei. — Damien respondeu e apertou sua mão para assegurá-lo de sua palavra.

Com um sorriso nos lábios, Pip deixou sua apostila de lado e debruçou-se sobre o namorado para dar-lhes um beijo nos lábios, o qual, apesar de rápido, foi o bastante para deixar o anticristo completamente entregue ao britânico.

— Eu te amo demais, amor. Mais do que qualquer outra coisa. — ele sussurrou, acariciando a bochecha de Pip com a palma de sua mão.

O britânico sorriu e pendeu a cabeça contra o calor de seu namorado.

— Eu também te amo. Tanto quanto. — ele respondeu, puxando o maior para mais um beijo. — Não se preocupe com nada, meu amor. Prometo que não vou me desgrudar de você. Nem que a morte nos separe.

Os olhos carmim de Damien se encheram de água e ele foi rápido em puxar Pip para si, envolvendo-o em um abraço apertado e caloroso, o qual foi recebido com felicidade.

Pip pretendia manter-se fiel à sua promessa. Mesmo que eles acabassem em lugares diferentes, ele faria tudo que estivesse em seu alcance para ver Damien o máximo que conseguisse. Nem que precisasse abrir os portões do céu ele mesmo.

Talvez o lugar tivesse alguma regra que ele pudesse burlar ou conseguir negociar com Deus. Talvez ele pudesse ser permitido a visitas ou uma estadia no inferno. Visitas diárias…

Pelo que as pessoas diziam, Deus era compreensivo. Com certeza poderiam chegar à um acordo que agradasse a ambos.

Quem sabe talvez, se os anjos não fossem com a cara dele, ele fosse jogado para o inferno. Seria algo fácil, na verdade. As pessoas pareciam se irritar com ele só de olhar para sua aparência, como se ele tivesse a praga e ninguém quisesse pegar.

Damien sempre se queixava muito dos trabalhos que os anjos e Deus o davam para fazer, dizendo como eles o usavam para se livrar das responsabilidades que o céu não era capaz de fazer sozinho. Se sentia injustiçado. Talvez Pip pudesse usar isso a seu favor na hora de seu julgamento, como Damien disse que todos passavam.

A situação em que o britânico estava chegava a ser cômica. Ele nunca imaginou que veria o dia em que desejaria ser odiado.

As coisas que fazia por Damien o surpreendiam mais e mais a cada dia.

Ainda com o anticristo chorando em seu colo, Pip o apertava mais e mais em seus braços, trazendo-o para tão perto quanto podia.

Em sua cabeça, seus neurônios fervilhavam com as mil e uma ideias de o que poderia fazer quando morresse para não poder subir. Contava seus pecados, as coisas das quais se arrependia, o que gostaria de mudar, até mesmo o que sabia sobre o pós-vida que aprendeu com as crenças de sua família para usar em seu favor.

Ele já havia sofrido demais naquela vida. Tantas coisas o machucavam e ele mal conseguia sair de casa sem o medo de ser machucado por alguém. Não sabia o que faria se seu sofrimento e solidão continuassem após a morte.

Se fosse para o céu, ele não poderia mais passar suas horas ao lado de Damien, não faria mais parte de seu mundo, tampouco teria a mínima chance de conhecer seus pais, já que sabia que eles estavam no inferno.

Ironicamente, para Pip, uma eternidade no céu seria um verdadeiro inferno.

(...)

As aulas tornaram-se mais interessantes com Damien ao seu lado o tempo todo. Às vezes, durante lições particularmente chatas, ele esticava a mão para sua mesa e entrelaçava seus dedos. Não dizia nada, mas aquela simples transmissão de calor já convergia mil e um sentimentos.

Infelizmente, nem tudo que ele sentia naqueles momentos era felicidade.

Cada minuto que passava parecia uma facada em seu peito, mas ele tentava não deixar transparecer. O fato de ele não saber o que aconteceria com ele após a morte, muito menos quando aconteceria, o deixava na ponta da cadeira, como quando alguém assiste a um filme de terror e espera o jumpscare que sabem que vai aparecer. Aquilo o estava matando.

Era por isso que Damien foi tão resistente em contar para ele sobre seu destino iminente.

Mas já tinha passado. Já estava feito. Ele já sabia. Agora teria que aprender a lidar com isso sozinho.

Quando o sinal do fim da aula tocou e todos saíram para o intervalo, Pip e Damien ficaram para trás por algum tempo para entregar os trabalhos que faltavam, mas então seguiram para a cafeteria.

O professor da vez tinha passado um livro para que a classe leia para a semana seguinte. Um livro chato cujo nome Pip sequer se lembrava, e tampouco se importava. Quando a semana acabasse, também iria ele, então fazer ou não o trabalho era irrelevante, tanto que ele pediu para fazê-lo sozinho.

Sua cabeça estava toda bagunçada enquanto caminhava, e isso refletiu em seus olhos encarando o chão. Ele não viu por onde estava indo e acabou batendo diretamente com Kevin, o qual acabou por derrubar seu macarrão em sua roupa.

— Sai da frente, Pip! — o moreno esbravejou e continuou a caminhar, resmungando sobre como não poderia mais comer o almoço de hoje.

Damien revirou os olhos.

— Eles deviam olhar mais por onde andam. — grunhiu. Como se aquilo não tivesse sido de propósito.— Você tá bem? — perguntou para o britânico.

— Está tudo bem. — ele respondeu, encarando a própria roupa em desgosto. — Eu só vou me limpar e já volto. Não vou demorar.

Damien assentiu e soltou sua mão, embora um tanto relutante. Ele não gostava de deixar Pip sozinho depois de tudo que aconteceu naquela semana. A qualquer momento, alguma coisa podia acontecer, e ele seria arrancado de suas mãos sem que ele pudesse fazer nada a respeito.

Damien odiava pensar que perderia Pip para aqueles malditos pecadores de South Park. Isso era algo que ele evitaria a todo custo.

No entanto, ele não podia deixar o britânico preso ao seu lado como um cachorro numa coleira. Não era saudável. Portanto, por hora, ele o daria cinco minutos para se limpar e depois iria atrás dele.

Mas Pip acabaria por demorar mais do que cinco minutos, especialmente considerando a companhia que encontrou dentro do banheiro.

Ele não os notou à primeira vista, de tão concentrado que estava em limpar sua roupa, mas, quando o terceiro deles se pronunciou, um arrepio subiu por sua espinha.

— Belo corte de cabelo, francesinha. — era a voz de Terrance. — Acho que vocês fizeram um bom trabalho de cabeleireiros.

Não está bom assim graças a vocês.— foi o primeiro pensamento de Pip, até ele se virar e dar de cara com o próprio Terrance, acompanhado de Bill e Fosse.

Ele pensava que só estavam zoando com ele, não que ele estava ali de verdade.

— Terrance, você está…

— Vivo? — o moreno o cortou. — É, eu estou. Bom, na verdade, não. Tecnicamente, eu sou um clone criado pelo meu pai, mas isso não quer dizer que eu não possa chutar sua bunda.

O britânico engoliu em seco, seus olhos ainda arregalados e o nervosismo batendo em seu peito.

Estranhamente, o que mais o perturbava naquilo tudo era eles segurarem em sua cicatrizes novamente.

— Tenho certeza de que não precisamos passar por isso de novo. — ele disse, tentando discretamente continuar a limpar a roupa.

— Por que? Só porque você ganhou da última vez, não quer dizer que pode ganhar de mim agora. — ele disse, confiante.

Tinha algo de estranho naquilo tudo, como se tivesse um pedaço faltando. Terrance não parecia se lembrar de ter tentado matá-lo, falava e agia como se ele fosse apenas o bully que atormentava o órfão francês da história.

Mas não quer dizer que Pip não se lembrava.

Ele instintivamente deu um passo para trás, o que colocou um sorriso predador nos lábios de Terrance.

— Sabe, já que você cortou o cabelo, podíamos aproveitar pra fazer uma limpeza de pele também, não?

O britânico não teve nem tempo de protestar. Já foi agarrado pelos três e arrastado até o vaso, onde o chutaram e começaram a forçar sua cabeça para dentro da água.

Suas mãos tremiam e seus braços e pernas davam de tudo para conseguirem se soltar, mas os rapazes que o seguravam estavam a dois malditos passos fora de onde conseguiria chutar seus sacos com o pé.

Ele, que já estava tão acostumado a encarar a água do vaso sanitário enquanto colocava tudo para fora em seus ataques de pânico, nunca quis tanto evitá-la em sua vida.

A pressão de uma mão foi seguida por uma segunda; agora eram duas que o forçavam para baixo. Pip não estava acostumado com lutar daquela forma, então não foi uma surpresa quando suas mãos escorregaram e sua visão foi nublada pela água afundando seu rosto.

Ele não podia abrir os pulmões, pois água entraria neles. Ele não podia não abrir os pulmões, pois se lembrava das aulas de biologia ensinando como gás carbônico e hemoglobina eram uma combinação ruim quando ficavam juntos por muito tempo. Suas pernas finas chutavam o chão e o ar, errando qualquer coisa que pudesse ser sinal de que estava a um passo mais perto de sua liberdade.

As mãos puxavam seu cabelo, arrancando alguns fios e danificando o couro cabeludo, mas nunca puxavam o suficiente para tirá-lo de lá, pois uma outra mão prendia seu pescoço.

Necessitando urgentemente de ar, arfou, mas não havia uma única gota de oxigênio, embora tivessem o suficiente de água. Os pulmões se contraíam, buscando com desespero aquilo de que tanto precisavam, mas sua garganta só se enchia com água.

Audição envolta por risadas, sua cabeça mal foi puxada para fora da água e já o empurraram para baixo novamente. Água saía e entrava de seu nariz e boca, queimando seus pulmões enquanto suas mãos lutavam desesperadamente para libertá-lo daquela situação. Mais uma vez arfou por ar quando puxaram sua cabeça para cima, lágrimas escapando do canto de seus olhos e a água sanitária de sua boca. Tinha um gosto horrível, como se sua garganta e nariz estivessem pegando fogo, mas sem os efeitos de queimação. O britânico tossiu suas entranhas pra fora, tentando soltar o máximo de água que conseguia de dentro de si quando, pela terceira vez, teve o rosto empurrado para dentro do vaso, com ainda menos tempo para guardar ar em seus pulmões ardentes.

As risadas de Fosse, Bill e Terrance ainda podiam ser ouvidas dentro da água, assim como algumas conversas paralelas, mas Pip não prestava atenção nisso. Seus instintos de sobrevivência chutavam-no cada vez mais forte, como se gritassem: “Levanta, idiota! Sai daqui!” Mas ele não conseguia se mexer, e não era por falta de esforço. As pernas tentavam desesperadamente acertar alguma coisa; outra perna, uma mão, o que fosse, mas ele sempre conseguia errar.

De tanto lutar, Pip começou a sentir uma sensação de cansaço invadindo seu corpo, entorpecendo seus músculos e sua mente. Seus pensamentos estavam nublados e incoerentes e já não conseguia escutar mais as vozes de seus bullies tirando sarro de sua cara. Não conseguia escutar mais nada.

Por um segundo, parecia não haver mais espaço para água em sua garganta, ele já havia desistido de encontrar ar há muito tempo. O canal de fechou e os músculos pararam de se contrair, as bolhas de ar que escapavam enquanto tentava gritar também diminuíram até desaparecerem completamente.

Do outro lado, o trio de garotos continuava a segurar Pip com força, os tufos de cabelo loiro presos entre as unhas e dedos sujos e os braços inutilmente presos ao lado do objeto de acrílico. Eles se entreolhavam com sorrisos no rosto e riam como se nada de ruim estivesse acontecendo. Sequer notaram quando Pip parou de lutar e o corpo afundou mais do que devia no vaso sanitário.

Foi só quando Terrance mexeu a mão que segurava seus cabelos e quase caiu junto que percebeu. Pip não estava mais respirando.

— Puta merda! Puta merda! — exclamou enquanto arrancava sua cabeça do vaso e jogava o corpo para o lado. Seus olhos se arregalaram em terror ao ver uma fina linha de sangue começando a escorrer por sua boca. Ele não estava se mexendo.

— Nós matamos ele! — exclamou Fosse, levando a mão aos cabelos em desespero.

— Fudeu, mano! Fudeu muito! — acompanhou Bill, compartilhando seus sentimentos.

As mãos de Terrance tremiam ao encarar o corpo inconsciente de Pip. Isso não era para acontecer. Isso não era para acontecer mesmo. Eles estavam apenas zoando o francês gay um pouco. Era pra ser uma brincadeira.

— Corram, seus idiotas! — gritou em pânico. — Se pegarem a gente aqui, aí que fudeu mesmo!

Os dois garotos se entreolharam, apavorados, e, sem questionar, fizeram o que lhes foi ordenado, deixando o britânico inconsciente para trás, sozinho no box do banheiro sujo.

Ele não conseguia ver nada. Não sentia nada. Era como se tudo aquilo que deveria estar dentro de si tivesse desaparecido completamente.

É assim que se sente estar morto?

Talvez fosse. Talvez não. O britânico não tinha como dizer, afinal, tinha água em seus pulmões.

Até que não tinha mais.

Seus olhos azuis se arregalaram e seu corpo saltou para a frente, regurgitando toda a água pelo nariz e pela boca enquanto mãos fortes batiam em suas costas numa tentativa de ajudá-lo.

Seu coração estava acelerado e a cabeça parecia girar. Ouvia vozes ao fundo, mas não conseguia dizer o que diziam enquanto ele vomitava suas entranhas pra fora.

— Ele tá vivo. — disse uma voz anasalada ao vê-lo arfando, desesperado.

— Ainda bem. — suspirou outra, esta mais agitada. — Jesus Cristo, cara, que susto do caralho!

Pip tossiu violentamente no chão sujo do banheiro e seus pulmões agradeceram à Deus por finalmente terem ar neles novamente. Ele não sabia quem o tinha ajudado, mas, seja lá qual fosse a razão para o terem feito, ele agradecia. Ao menos, alguma parte inconsciente de si agradecia, pois a parte consciente ainda se esforçava para tentar processar a situação em que estava.

Fosse, Bill e Terrance esqueceram que o estavam afogando no vaso. Pip desmaiou com a quantidade anormal de água em seus pulmões. Os bullies saíram correndo e o deixaram para trás.

O deixaram para morrer.

Ele podia ter morrido.

Passos se aproximaram de si e uma mão encostou em seu ombro. Era uma mão estranha, não a fria com a qual o britânico veio a se acostumar. Seus pelos ficaram em pé e o coração começou a acelerar.

— Você tá bem, cara?

Não. Não, ele não estava bem. Ele tinha quase morrido, como poderia estar bem?!

— Craig, é óbvio que ele não tá bem! — a segunda voz, que agora sabia que pertencia à Tweek, gritou com indignação. — Ele quase morreu! Ele não vai sair cantando de felicidade logo depois de quase morrer, né?

Ao menos alguém o entendia.

Ele estava enlouquecendo. Aquilo já estava passando dos limites.

Era pedir demais ir pra casa e tomar uma xícara de chá com seu namorado?

Deus, se ele pudesse apenas receber um abraço ele ficaria tão feliz. Talvez então finalmente parasse de chorar.

Abraçando aos próprios joelhos, Pip se permitiu desabar diante de Tweek e Craig, sem se importar com o que eles viam ou não.

Ele só queria que aquela dor fosse embora.

Tweek deu um passo para trás, começando a suar frio ao ver o britânico chorando, desesperado, no chão do banheiro. Ele resistiu à tentação de puxar seus cabelos, limitando-se a apenas desviar o olhar para o chão.

— Ah, cara, eu não sei lidar com gente chorando. É muita pressão!

— Tweek, querido, se acalma. — disse Craig, agarrando o loiro pelos ombros e o forçando a encará-lo nos olhos.

Engolindo em seco, Tweek respirou fundo e tentou acalmar seus batimentos, mesmo com Pip deitado no chão, chorando.

— Deveríamos chamar o Damien? — perguntou. — Eles sempre passam tempo juntos, não?

— Eu vou ligar pra ele. Só tenta fazer ele se acalmar enquanto isso. — o moreno gesticulou para o britânico e tirou o celular do bolso, vasculhando sua lista de contatos atrás do nome de Damien.

Tweek engoliu em seco e voltou a tremer.

— Cara, eu sou péssimo nisso!

— Só tenta, cara! Eu não vou demorar! — gritou Craig, batendo a porta do banheiro e deixando os dois loiros sozinhos.

Àquele ponto, Pip já tinha parado de chorar tão alto. Apenas tremia e choramingava, embora lágrimas continuassem a escorrer por seus olhos. Não era algo bom, mas, para alguém nervoso como Tweek era, aquele era um bom sinal. Não era?

Engolindo em seco, Tweek caminhou até o britânico e se ajoelhou ao seu lado com certo desgosto, colocando uma mão em seu ombro e o acariciando lentamente.

Ele escolheu ignorar a forma como Pip encolheu ao tocá-lo.

— Hum… Vai ficar tudo bem, cara. — ele disse, mordendo os lábios. — Eu sei que as coisas podem não parecer boas agora, talvez não pareçam por um bom tempo, mas acredite em mim quando eu digo que elas melhoram sim.

O britânico se virou para ele, seus olhos azuis cheios d’água o encarando por entre as pálpebras inchadas e os fios de cabelo desgrenhados.

— E-eu sei que dói e que você sofre e que às vezes parece que o mundo inteiro está contra você, mas, se você tiver qualquer coisa em que se segurar, algo que valha a pena, se agarra com unhas e dentes. — ele pausou um pouco para respirar. — E você tem algo assim, Pip. Você tem alguém. Nós não somos amigos, provavelmente nunca seremos, mas eu vejo o jeito como você olha pra ele. Como ele olha pra você. Você já sobreviveu muita coisa nos últimos anos, consegue se virar sozinho, então se permita fazer essa felicidade contar. Mesmo que as coisas estejam difíceis, você tem algo pelo que lutar. E vai dar tudo certo. Eu prometo.

Desviando o olhar para o chão, por um instante, Pip deixou um sorriso transparecer em seus lábios.

Ele tinha parado de tremer.

— Eles estão aqui. — a voz de Craig ecoou do outro lado da porta, pouco antes da mesma ser aberta com toda a força.

Os olhos carmim de Damien rapidamente deslizaram pelo banheiro, encontrando os dois loiros na segunda cabine.

— Pip! — exclamou e correu até os dois, quase se esbarrando em Tweek enquanto este se afastava. Ele rapidamente o envolveu em um abraço e o puxou para seu colo, correndo as mãos por seu cabelo em movimentos calmantes. — Seu cabelo está todo molhado…

E seu coração está acelerado.— pensou ele em retorno, imaginando como Damien devia estar desesperado com a notícia que Craig o deu.

Com o perigo de se ter a morte batendo à porta deles, qualquer mínima mudança em suas rotinas poderia significar o fim de Pip. E nenhum deles tinha como controlar aquilo. Poderia ser tanto doloroso quanto imperceptível, tudo valia de onde o britânico estava e o que estava acontecendo ao seu redor.

Damien devia ter ficado apavorado. Sem saber onde Pip estava, sozinho.

Ele não conseguia sequer imaginar como seria se ele simplesmente entrasse no banheiro e já o encontrasse morto. Sem poder fazer nada. Eles se separariam sem um último adeus, Damien sem o conhecimento da morte de Pip, sem uma última palavra, sem um abraço e sabendo que ele partiu de uma forma dolorosa. A última coisa que ele queria.

O britânico abriu um pequeno sorriso, relaxando nos braços quentes do namorado.

— Tá tudo bem.

Obviamente não estava, fato provado pela água que escorria de seus cabelos e o nariz vermelho. Entretanto, mesmo assim, Pip sorria. Ele estava vivo e de volta aos braços de Damien. Ainda não tinha chegado sua hora.

Damien engoliu em seco para tentar conter as lágrimas, concentrando-se nos dedos pálidos que acariciavam os cabelos do britânico.

— Você está bem mesmo?

Ele assentiu.

— Estou. — respondeu com um sorriso. — Ainda não estou morto.

Foi pura sorte que Craig e Tweek saíram do banheiro quando Damien entrou, assim ninguém esteve presente para ver o anticristo chorar.