Darker Days

15 Até que a morte nos separe


Pip estava doente.

Não necessariamente com algum vírus ou doença em si, mas havia algo em si que estava tirando sua vida. Era um parasita que todos tinham. A reta final. Seja por alguma doença ou condição externa, todas as coisas vivas encontrariam seu fim, algumas mais cedo que outras. Era até mesmo possível ter seus planos originais de destino interrompidos por outras pessoas.

Cada um tinha o próprio destino marcado, uma linha do tempo original que poderiam seguir até o fim de seus dias. Mas esta linha podia ser facilmente distorcida. Um passo em falso, uma pessoa diferente, um olhar atravessado, qualquer coisa poderia tirar o indivíduo daquela linha traçada para ele, levando-o a um caminho completamente diferente do planejado. Sendo essa a condição, o indivíduo poderia tanto voltar para a linha original ou acabar com um destino completamente diferente.

E Damien não estava disposto a arriscar que Pip encontrasse um destino trágico nas mãos de um estranho.

Ele tinha uma semana. Se não fosse morto por algum fator externo, seria alguma doença, e, se fosse a segunda opção, Damien poderia ao menos manipular as condições para que seu amado morresse sem qualquer dor. Poderia fazê-lo morrer durante o sono ou com uma parada cardíaca caso fosse esse o caso. Não importa as circunstâncias, se Pip seria arrancado de seus braços de qualquer forma, seria seguindo suas próprias regras. Ele não sofreria, não veria nada e não sentiria nada. Seria algo rápido e direto, assim a papelada poderia ser feita rapidamente e eles se encontrariam mais uma vez.

Damien se recusava a deixar que qualquer um naquela maldita cidade fosse responsável por roubar a vida de Pip. Eles já tinham roubado o suficiente dele, não deixaria que levassem seu sangue e sua alma também.

Tirando a opção de morte externa, só restava uma última opção: ele morreria por alguma doença.

Eles não sabiam o que ele tinha, ou teria, mas Pip não queria correr o risco de infectar outras pessoas no caso de ser contagioso. Até o momento de sua morte, ele não sairia daquela casa, e esperava passar o máximo de tempo que pudesse junto à Damien para compensar o tempo que ficariam separados até se reencontrarem mais uma vez no pós-vida.

Céu ou inferno, não importava. Eles se encontrariam novamente.

Nem que Damien tivesse que invadir o céu e arrancar Pip de lá com suas próprias mãos.

Quando o anticristo o perguntou, Pip o disse ter pouquíssimos pedidos do que fazer antes de morrer. Tudo que ele queria era poder passar o máximo de tempo com as pessoas que amava.

Ao alcance de seus dedos, tinha apenas Damien. Porém, até que a decisão no pós-vida fosse feita, ainda restava uma última forma de Pip descobrir mais sobre seus pais.

Temendo ir para o céu, o britânico insistiu em ver os documentos de seus pais, especialmente de sua mãe, já que não teria nenhuma forma de se comunicar com eles.

Damien tinha acesso ao céu por seu status como anticristo, mas o trânsito de almas era estritamente proibido, sob o risco de sobrecarga nos pedidos para fazer o mesmo. Seria ainda mais burocracia para o céu resolver e mais papelada na mesa de Damien, e nenhum dos lados queria isso. Então, no fim, o anticristo cedeu e entregou ao namorado as duas pastas contendo tudo sobre seus pais quando em vida. Era o máximo que podia revelar à ele.

Pip passou a noite toda em claro, devorando cada mínimo detalhe dos papéis à sua frente. Ele queria saber tudo sobre quem foram Phillip e Georgina Pirrup. Significava muito para ele, não os tendo conhecido quando já era capaz de formar lembranças e suas memórias com eles se perdendo pelo tempo.

Apesar de alguns detalhes, seus pais eram quase tudo que ele imaginava serem.

Seu pai foi um caçador quando em vida e acabou conhecendo sua mãe em um bosque, quando ela ainda tinha o primeiro anel em seu dedo. O primeiro casamento dela não estava indo bem, e os dois se encontravam escondidos, apesar de não haver absolutamente nenhuma troca de afetos ou beijos até depois da separação de sua mãe.

Quanto mais ele lia, mais Pip se admirava com os valores de sua mãe, que certamente não devem ter sido bem recebidos na época em que ela era jovem. Sua mãe gostava de pensar por si mesma, sair sem precisar dar justificativas e até ficou com várias pessoas antes de seu primeiro casamento. Do jeito que ela se portava, Pip ficou muito feliz em saber que ela não era conhecida como nenhuma prostituta ou qualquer adjetivo pejorativo. As coisas já deviam ser difíceis o suficiente para ela da forma que já eram.

Ele podia passar o dia todo lendo sobre seus pais. Por nunca os ter conhecido, qualquer coisa que pudesse saber sobre eles já significava muito para ele.

Uma vez que ele virou a página do livro, um pedaço de papel caiu do meio das folhas, deslizando no chão. Era grande demais para ser uma Polaroid e tinha um aspecto antigo demais para ser uma simples foto revelada. As pontas estavam levemente rasgadas e o branco, manchado pelas marcas do tempo.

Cuidadosamente, Pip se levantou da cama e tomou o papel em suas mãos, virando-o para poder vê-lo melhor.

Era definitivamente uma foto, mas não uma foto qualquer. Era uma foto sua, junto a seus pais e sua irmã. Georgina sentava em uma cadeira, no centro da imagem, com Mrs. Joe logo ao lado, mantendo as mãos atrás do corpo; atrás de todos, um pouco atrás da irmã, estava seu pai, parecendo sério diante da foto, o único sinal de emoção em seu rosto era a forma como seus lábios puxavam para cima, uma tentativa falha de conter um sorriso. Por fim, no colo de Georgina, tinha um garoto. Seu cabelo loiro era curtinho, nem chegando perto do ombro, mas suas roupas e a boina que usava na cabeça era inconfundível.

Aquele era ele, Pip, com seu pai, sua mãe e sua irmã.

Preso entre os braços de Georgina e pressionado contra ela, seu pequeno eu sorria. Ele era o único elemento da foto que fazia o gesto, todos os restantes parecendo sérios.

Na época, fotos de família eram levadas a sério. Ninguém devia sorrir. Aquilo nada mais era que um registro, uma lembrança física de quem compunha os detentores daquele determinado sobrenome.

Pirrup.

E, ainda assim, ele estava sorrindo, como se não se importasse com a câmera o encarando, apenas com aqueles que estavam ao seu redor.

Vocês eram tão felizes naquela época— uma voz sussurrou em seu ouvido. — O que aconteceu?

Ao observar bem a foto, era fácil perceber que, fora sua irmã, ninguém estava realmente sério. Era forçado. Assim como os lábios de seu pai se forçavam a ficar parados, o desejo de expressar suas emoções claramente visível, sua mãe também tinha sinais que mostravam que ela não estava inteiramente séria; Pip podia ver pela forma que suas roupas estavam ligeiramente mais amassadas do que deveriam entre as mãos da mãe, o jeito que seus olhos desviavam delicadamente da câmera, evitando a atenção da lente, a forma como ele próprio parecia muito mais feliz apenas de estar perto de alguém que amava.

Um sorriso rastejou por seus lábios e seus olhos encheram de água. Ele teve uma família. Ele foi feliz com ela.

O que aconteceu?

Limpando o rosto com o polegar, Pip virou a foto e observou a parte de trás, vendo o deslizar familiar de tinta preta penetrado no branco desbotado do papel.

Foto tirada um mês antes do assassinato de Phillip e Georgina Pirrup; vide capítulo 786, página 1.784.

Era a letra de Damien. Se ele tinha escrito alguma coisa naquela foto, que era um pertence de família, quer dizer que aquilo continha algo importante.

Pip cuidadosamente deixou a foto de lado e fechou o livro, assim como seus próprios olhos, e concentrou a respiração.

Capítulo 786, página 1.784.

Ele abriu lentamente os olhos e depois o livro, o qual, sem qualquer esforço de seus dedos para folhear as páginas, virou-as até o centro, à uma página coberta com marca-texto, post-its e mais papéis soltos, além de algumas pequenas anotações nos cantos das páginas amareladas.

Ainda um tanto relutante, Pip engoliu em seco e começou a ler.

“Entretanto, assim como é da natureza humana, o roteiro planejado por Deus não há de ser seguido por todas as criaturas que, de tua mão, surgiram. Georgina e Phillip Pirrup, durante uma noite que saíam para a realização de compras domésticas, tiveram ambas as suas vidas ceifadas por um assassino enquanto tentavam buscar um atalho para retornar à casa mais cedo.

O homem, ao qual o advogado de Deus ainda não são permitidos os registros desde a presente data, os ameaçou e matou, imaginando invasão do território conquistado durante uma suposta briga entre traficantes.

O procedimento padrão implica que os documentos de ambos Phillip e Georgina sejam enviados às mãos competentes do advogado de Deus para análise de perícia e revisão.

O destino das almas há de ser decidido durante assembleia, ainda não marcada a partir da presente data, 24/08/20XX.

A morte predestinada de Phillip Pirrup; vide capítulo 740, página 1.089.

A morte de Georgina Pirrup; vide capítulo 697, página 860.”

Pip não conseguia parar de encarar aquelas páginas, relendo toda aquela informação de novo e de novo. Seus pais não tiveram a morte que foi feita para eles. Eles foram tirados dele por outra pessoa.

— Voltei. — Damien anunciou enquanto fechava a porta com o pé, suas mãos ocupadas com algumas sacolas.

Pip pulou no sofá e fechou os arquivos, incapaz de continuar lendo ou sentir raiva agora que Damien retornara.

— Bem-vindo de volta! — ele disse com um sorriso no rosto. — O que você trouxe?

— Só o básico de comida e alguns doces. — Damien respondeu. — Peguei aqueles biscoitos que você gosta.

O britânico abriu um largo sorriso e tomou as sacolas de suas mãos.

— Obrigado, Damien. — Pip se colocou na ponta dos pés e beijou a bochecha do anticristo. — É muito gentil da sua parte.

— Não foi nada. É o mínimo que eu podia fazer.

O casal seguiu para a cozinha, onde Pip começou a organizar todo o conteúdo da sacola e Damien o observava encostado na porta.

Logo a última semana terminaria. Ele receberia um pedido de audiência e teria que usar de seus argumentos para conseguir livrar Pip dos tormentos do inferno.

Damien soltou um suspiro trêmulo, nervoso. Aquilo era difícil, mas ele tinha que aprender a lidar com a ideia. Não tinha o que fazer.

— Você acha que vai ser do que? — Pip de repente perguntou, terminando de guardar a última caixa de biscoitos na despensa. — Acha que alguém vai me matar ou vai ser natural?

Damien cruzou os braços e rangeu os dentes.

— Eu não sei e eu não ligo.

Se fosse por ele, Pip não teria que se preocupar com isso, porque ele não morreria.

— … Minha irmã morreu de AVC.

Com um suspiro, Damien resolveu dar trela para a conversa, pois conseguiu sentir como o britânico estava desconfortável.

— A sua mãe também estava para morrer disso, mas acabou saindo tarde demais na noite errada.

Não é só porque Deus escreveu o destino de alguém que este destino realmente se cumprirá. Isso na verdade raramente acontecia. Era um do motivo de Damien odiar tanto a maioria dos humanos. Muitas das vezes em que alguém estava para morrer nas mãos de Deus, essa pessoa acaba tendo um destino muito pior quando enfrentado por humanos.

Assassinato, violência, estupro. Há coisas muito piores naquele mundo do que morrer, e Damien, por ser o rei do inferno, sabia muito bem disso.

Ao mesmo tempo, até mesmo os planos do próprio Deus podiam mudar. Às vezes o acaso que leva à morte de uma pessoa não é algo tão improvável assim. O próprio Deus sabia como colocar humanos na frente de outros humanos. Ninguém sabia fazê-los sofrer tão bem quanto ele.

Afinal, todos os escritores podem embarcar de última hora no trem do improviso.

— Não sou muito bom em medicina, mas acho que o mais provável é que seja isso, não? — perguntou Pip.

— Talvez.

O britânico riu baixinho e acompanhou Damien de volta para a sala.

— É engraçado pensar que eu me sinto muito melhor estando aqui em casa com você do que lá fora, especialmente considerando que eu sou uma pessoa que gosta bastante de sair de casa.

— Poderíamos sair uma última vez, se você quiser. — Damien sugeriu sem pensar, tomando a mão do menor na sua.

Pip ficou encantado com a oferta, mas negou com a cabeça.

— Eu não quero correr o risco de machucar ninguém. Se vou partir, então vou sozinho. — ele se calou por um instante para se sentarem no sofá e então continuou: — Para onde você acha que eu vou?

O anticristo deu de ombros.

— Para onde você acha que você vai?

— Bom, eu não me considero exatamente um santo. Fiz muitas coisas ruins na minha vida que acho que não valeriam meu bilhete de entrada no céu. Além do mais, eu não me surpreenderia se os anjos me odiassem também.

— Eles não te odeiam. — Damien respondeu de imediato. — E, mesmo se odiassem, Deus não pode fazer uma seleção assim para aqueles que leva ao céu. Mesmo que aqueles caras insuportáveis não gostem muito de você, eles seriam obrigados a te deixar entrar se não encontrassem nenhuma justificativa para você descer.

O silêncio de Pip começou a deixar Damien um tanto nervoso.

— Se eu for pro céu, isso quer dizer que eu não te verei de novo?

Ele tinha dor em seus olhos, uma preocupação que Damien não gostava de ver no rosto de seu amado.

Isso seria pior que o inferno.

— Não, não ficaremos sem nos ver. Se eu cumprir meu papel e resolver todos os problemas que tenho pra resolver, eles abrem os portões por um tempo e me permitem de visitar algumas pessoas. É sempre assim quando vou visitar meu pai.

— Satanás está no céu? Isso parece uma bela ironia. — Pip riu baixinho.

— Eu sei. Vai entender como a cabeça de Deus funciona. Acho que ele considerou uma redenção o fato de ele ter morrido tentando derrotar o Manbearpig.

Pip arregalou os olhos. O pai de Damien tinha lutado contra o Manbearpig?! Ele tinha só escutado histórias sobre aquela criatura; não tinha a menor ideia de que ele tinha algo que ver com a família de Damien.

De qualquer forma, Pip sorriu e apertou a mão de Damien na sua.

— Eu espero que possamos nos encontrar novamente. Uma eternidade sem você seria um pesadelo.

No mesmo segundo, sem pensar duas vezes, Damien apertou sua mão de volta.

— É claro que vamos. Eu não abriria mão de te encontrar nem que tivesse que causar o apocalipse.

As bochechas do britânico se tingiram de um leve vermelho. Ao mesmo tempo que ele não desejava machucar ninguém, muito menos começar uma guerra, ele havia de admitir que seu ego era um tanto amaciado quando Damien dizia até onde ele iria apenas para fazer algo por ele. Ele nunca teve alguém que faria isso por ele antes. Alguém que desistiria de tudo para fazê-lo feliz. Até algum tempo atrás, uma realidade assim parecia apenas um sonho bobo de criança.

Uma risada escapou de sua boca.

— Ao menos se eu for pro céu, vou poder conhecer seu pai. Imagino que, tendo criado alguém tão bom quanto você, ele deve ser um cara incrível.

Damien sorriu.

— Bom, ele tenta. Sempre admirei isso nele.

O britânico murmurou e apoiou a cabeça no ombro de Damien, soltando um suspiro.

— Vai passar minhas mensagens para os meus pais, não vai?

— É claro que sim. Qualquer coisa que você quiser, eu falo pra eles.

Pip mordiscou os próprios lábios por um segundo, desviando o olhar para o chão.

— …E se eu for pro inferno?

— Você não vai pro inferno.

— Você não sabe disso.

Damien o encarou de cima e franziu levemente o cenho.

— Posso não saber tudo de sua história ainda, mas tenho certeza que, com a alma que você tem, você não vai pro inferno. Você nunca cometeu nenhuma infração digna de um pecado.

— Mas e se eu fosse mesmo assim? — Pip rebateu mais uma vez, sua voz parecendo mais impositiva do que antes. Ele estava estressado. — O que você faria?

O anticristo suspirou e, envolvendo a cintura de Pip com o braço, respondeu em um tom calmo:

— Se você realmente fosse para o inferno, eu o receberia de braços abertos, é claro. Eu jamais te desprezaria, mesmo que meu desejo, assim como o de sua mãe, seja para que você vá para o céu.

— O que quer dizer que meu pai quer que eu vá para o inferno. — rebateu mais uma vez.

Pip mal dava tempo para Damien finalizar as próprias frases. Aquilo era muito estranho e, francamente, chegava a irritá-lo um pouco.

— Ele não acha que você poderia ser feliz no céu. É claro que ele quer o que é melhor pra você, mas não acha que seja em um lugar como aquele. Ele diz que, se você estiver com sua família, estará mais feliz do que se estiver em um lugar de bom status.

O britânico riu.

— Ele não está errado. Eu adoraria conhecê-los, mais do que qualquer coisa, e certamente mais do que ir para o céu.

Oh. Então era disso que se tratava. Pip via mais vantagens em ir ao inferno do que ao céu.

Bom, Damien podia trabalhar com isso.

— Eu entendo. Mas você vai adorar o lugar mesmo assim. Sei que vai. Ele não é tão ruim quanto você faz soar. As pessoas lá são educadas, acolhedoras e sempre zelam pela sua segurança e felicidade. O céu está cheio de mórmons.

Pip riu e afundou no sofá.

— Eu lembro de quando você me falou sobre isso… — divagou, seus olhos desviando para cima.

Aquela conversa claramente não levaria a lugar nenhum. Por mais que Damien insistisse em suas respostas, a situação era mais delicada do que ele imaginava. Ele não entenderia.

Nesse caso, não restava à Pip escolha se não mudar de assunto.

— Sabia que eu devia ter quatro irmãos ou irmãs? — disse ele. — Minha mãe ficou grávida do meu pai quatro vezes, mas sofreu aborto espontâneo.

Damien ergueu as sobrancelhas, intrigado. Tendo conhecido Georgina já há algum tempo, ele rapidamente percebeu como ela tinha muito mais apego a Pip do que à primeira filha, e agora, colocando nesses termos, as coisas faziam muito mais sentido. A primeira filha foi fruto de um casamento infeliz, do qual ela não queria fazer parte, enquanto Pip foi fruto de um casamento voluntário e ainda foi o quinto de muitas tentativas frustradas de Georgina engravidar. Ela tinha toda a razão de querer mimá-lo e colocá-lo em um pedestal, afinal, ele era, sim, seu filho preferido.

— Você foi a tentativa que deu certo. — Damien disse em voz alta.

Com um sorriso no rosto, Pip se aconchegou no colo de Damien, remoendo suas palavras e se deixando levar pelo peso que elas tinham.

— Espero não ter sido em vão.

(...)

Naquela manhã, logo quando o sol tinha acabado de nascer, Pip parou de respirar. Seus músculos perderam a força e ele teria caído igual a uma boneca não fosse por Damien estar o segurando em seus braços.

Foi algo muito repentino, que muitas pessoas poderiam não notar se estivessem na posição do anticristo. Porém, ele sentiu perfeitamente o momento em que aconteceu, quando um calafrio o atravessou e levou consigo o calor da alma de Pip.

Damien não chorou, embora tenha chegado perto diversas vezes. Ele fez uma promessa à Pip, disse que não iria chorar com sua morte, pois se veriam de novo, e ele não quebrava suas promessas.

Mas Damien definitivamente entendia um pouco mais os mortais.

Mesmo que ele pudesse ver Pip de novo no futuro, quando subisse aos céus para visitá-lo, ainda doía saber que ele foi arrancado daquele mundo contra sua própria vontade. Tantas coisas que ele não poderia mais fazer, pessoas que ele não poderia mais ver, e embora ainda tivessem seus pontos positivos, Pip não poderia mais ter a mesma vida de antes.

Com dor em seu coração, Damien lentamente se levantou da cama e ajeitou o corpo de Pip em seus braços, da mesma forma que quando ele estava em vida.

Ele era bem mais pesado agora, além de mais difícil de carregar, mas o anticristo conseguiu dar um jeito com um pouco de seus poderes.

A parte mais difícil de todo o processo foi enterrar o corpo, não por questões físicas, mas pela dor que assolava o peito de Damien, consumindo seu fogo e deixando seus movimentos desajustados.

Ele não tinha comentado com Pip enquanto em vida, pois imaginou que seria algo que talvez tivesse mais significado assim. Uma decisão um tanto boba, mas não havia mais como se arrepender agora. Damien decidiu enterrar seu corpo em um cemitério abandonado, a milhares e milhares de quilômetros de South Park, onde um dia viveu uma vila; onde um dia viveu uma família.

Pip estava logo ao lado de sua mãe, em um buraco que Damien teve certeza de ter as medidas perfeitas para que nada saísse errado. O anticristo teve certeza de pegar todo o necessário; uma lápide, um caixão e até mesmo flores. Como ninguém mais vinha para aquela região, seria o lugar perfeito para o britânico descansar ao lado das pessoas que amava. Depois de tantos anos de sofrimento, era justamente do que ele precisava.

Tampouco chegou Damien a comentar sobre o assunto com Georgina e Phillip, não queria deixá-los para baixo antes da hora. Ele ainda se preocupava em como eles reagiriam quando ele fosse forçado a dar a notícia, pois de forma alguma ele guardaria aquilo apenas para si mesmo. Por mais que doesse, a família de Pip precisava saber da verdade, e Damien não estava nos direitos de privá-los disso.

Ele passou cerca de meia-hora cuidando de todos os cuidados para que Pip tivesse um enterro digno, mesmo que ele fosse o único presente. Acomodou o corpo de forma confortável no caixão e usou de seus poderes para enterrá-lo. Entretanto, mesmo depois de acabar e colocar as flores em cima do túmulo, Damien não saiu de seu lado.

Quando tudo estava feito, ele finalmente se permitiu chorar. Seu peito ardia como fogo e suas lágrimas pareciam ácido em suas bochechas.

Fazer aquilo tinha sido a coisa mais difícil que ele já fez. Ter que encarar o rosto sem expressões de Pip, como se ele estivesse dormindo, mas sabendo que não era nada daquilo que estava acontecendo. Doía. Doía como nada que Damien já experienciou em sua vida.

— Seu filho era uma pessoa maravilhosa. — ele murmurou para as lápides de Georgina e Phillip. — … Eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo. Eu queria ter feito algo, mas eu não posso… Me desculpa.

Ele continuou a afogar suas mágoas naquela terra fofa e úmida por pouco mais de uma hora. Ele conhecia Pip verdadeiramente há tão pouco tempo, mas ele já tinha conseguido tomar conta de seu coração de tal forma que, agora que ele se foi, era como se uma parte de si tivesse partido com ele.

Sua mente estava completamente nublada, ele não conseguia pensar, ele só queria poder se encolher e desaparecer naquela terra junto ao namorado. Poder sentir seus braços ao redor de si mais uma vez e gozar do calor e carinho com que Pip o banhava sempre que estava por perto.

Mas agora ele se foi.

E Damien não tinha a menor ideia do quanto teria que esperar para tê-lo em seus braços de novo.

Ele não tinha nada em particular contra sua tia, mas, naquele momento, ele não podia evitar de amaldiçoá-la até o último círculo do inferno.

(...)

Cada degrau que subia parecia que aumentavam vinte. Damien odiava aquela maldita subida com todas as suas forças.

Deus, por que não instala um elevador de uma vez? Facilitaria muito o trabalho daqueles que não têm asas!

Quando Damien finalmente chegou à entrada do céu, endireitou a postura e se pôs a caminhar para os portões dourados, seu coração martelando com força em seu peito.

— Eu vim visitar Phillip Pirrup. — ele disse com firmeza aos guardas. — Ele é um garoto de dezenove anos, cabelo loiro, britânico e com roupas cafonas do século passado.

Os anjos se entreolharam com estranheza, confusos, e depois voltaram a encarar o anticristo.

— Sinto muito, mas ele não está aqui. — disse o primeiro deles.

Damien franziu o cenho e piscou duas vezes. Agora quem estava confuso era ele.

— Como não?

O seguro anjo deu de ombros.

— Mil perdões, Damien, mas registros dizem que sua alma está no limbo.

O limbo era quase como um espaço vazio, onde as almas perturbadas ou cansadas paravam para sossegar antes de ascenderem aos céus ou caírem no inferno. Não se tratava apenas de almas com assuntos mal-resolvidos, as quais tinham acesso ao mundo dos vivos, mas também para aquelas atormentadas em vida que foram quebradas de tal forma que classificá-las as deixaria corrompidas. E depois de tudo que Pip passou, sua alma precisava de tempo para descansar e se recuperar de toda a dor e sofrimento que passou em vida. Todos os momentos em que se machucou, que foi humilhado, desprezado e chutado pelos demais seria lavado como se nada nunca tivesse acontecido.

Em poucas palavras, era como um banho. Às vezes rápido, às vezes longo, mas o objetivo é sair de lá limpo. Neste caso, limpo de todo o tormento. Era uma forma de as almas se recuperarem de seus traumas e passarem para o próximo passo com sua saúde mental mais estável do que quando chegaram.

Mas aquele tratamento geralmente era destinado à almas puras atormentadas; uma atitude de Deus para evitar de colocar em perigo as almas que entravam em seu domínio.

A princípio, Damien presumiu que Pip estaria indo para o céu, contudo, o que o primeiro anjo o disse em seguida o deixou muito confuso:

— E, perdão a intromissão, Damien, mas, mesmo se ele não estivesse no limbo, você não o encontraria aqui.

O anticristo pendeu a cabeça para o lado, sem entender nada, mas não teve tempo de perguntar coisa alguma antes que um terceiro anjo chegasse aos portões, carregando algo em suas mãos.

— ACHEI! Tinham colocado a pasta em Q ao invés de P, mas está tudo aqui. — ele disse ao aterrissar, e atirou a pasta para Damien.

Ele reconhecia aquela pasta cinzenta. Era exatamente igual às que lhe enviavam com almas paradas, as poucas que eram barradas para análise.

— O que é isso? — ele perguntou, balançando a pasta.

— Não sei. O próprio Deus me pediu para entregar. Parece importante.

Damien murmurou e tornou a olhar ao objeto. A falta de selos indicava uma pasta comum, não parecia ser prioritária ou urgente, e Damien não entendia a razão de Deus mandar entregar diretamente à ele se este era o caso.

Em um estalar de dedos, Damien estava de volta à sua casa no inferno, os gritos de agonia enchendo seus ouvidos por poucos minutos até que ele subisse a seu quarto.

Quando abriu a pasta, arregalou os olhos ao encontrar a ficha de Pip em suas mãos.

Era esse o documento. Eles o deram o perfil de Pip para que ele pudesse arquivá-lo em seu livro.

Damien imediatamente começou a folhear a página, até a última parte, onde lia-se com letras grandes e vermelhas:

“Condenado por: sexo antes do casamento.”

Pip não iria para o céu. Iria para o inferno.

Pip estava sendo condenado ao inferno por culpa sua. E não era uma questão de discussão. Eles já haviam consentido. Toda a reunião foi feita e analisada no tempo em que Damien tirava suas coisas de casa e abandonava South Park mais uma vez. E como Damien havia participado ativamente da vida de Pip e influenciado em muitos aspectos dela, sua posição como advogado de Deus era completamente irrelevante e tendenciosa. Não ajudaria em nada no caso que estavam querendo pegar.

Damien apenas precisava assinar para mostrar que leu e compreendeu as ordens dadas.

Sem debate, sem deliberação, sem julgamento. Aquela era uma ordem direta de Deus, imposta à ele.

Damien mordeu o lábio inferior com força. Pip estar indo ao inferno não era de todo ruim, mas que eles tinham feito tudo aquilo por suas costas o irritava mais do que tudo.

Eles sabiam da reputação de Damien como bom advogado; se ele queria alguma coisa, ele conseguia. Sua argumentação era impecável, simplesmente conseguia convencer todos com sua lábia até nas situações mais impossíveis. O fato de ele não participar daquela audiência e influenciar no destino de Pip só queria dizer que eles não o queriam lá.

Se Damien não estava na audiência, Pip não poderia ter sua defesa para ir para o céu.

Eles não o queriam lá.

Para parar a raiva que crescia em seus pulmões, Damien pegou uma caneta de cima da mesa, assinou seu nome embaixo dos documentos e dissipou-o com um simples gesticular da mão.

Ele estava tomando para si a responsabilidade de cuidar de Pip quando ele caísse no inferno. Se aqueles imbecis não o queriam em seu domínio perfeito, Damien teria certeza de que faria tudo ao seu alcance para que ele fosse feliz no céu. Nem que tivesse que congelar o inferno.

Verificado e aprovado, apenas precisava esperar um retorno.

Essa era a parte mais difícil. Quando almas se encontram no limbo, nem o céu e nem o inferno podem apressá-las. Elas tomam o próprio tempo se recuperando e finalizando seus assuntos até que, quando estiverem prontas, possam subir ou descer. Havia até caso de almas que não retornavam, mas Damien não gostava de pensar nessa possibilidade. Pip o prometeu que eles se veriam novamente.

Nesse meio tempo, ele só tinha uma última coisa a fazer.

A casa dos Pirrup sempre parecia ameaçadora quando ele tinha notícias a dar. E ser recebido com um sorriso por Georgina cortava seu coração de formas indescritíveis.

Uma vez que eles estavam sentados no sofá, Damien tomou ar em seus pulmões, suas mãos tremendo, e se preparou para dar a fatídica notícia.

— Eu preciso falar com vocês. — ele disse, já de pé e com as mãos na frente do corpo. — Eu sei que essas coisas são complicadas de falar sobre…

— Não precisa ficar nervoso conosco, Damien. — Georgina o interrompeu com a mão. — Seja lá o que tiver que nos dizer, pode falar no seu tempo.

O anticristo mordeu mais uma vez os lábios e, incapaz de dizer olhando naqueles olhos tão gentis e adoráveis, que o lembrava tanto dele, abaixou a cabeça.

— O Pip morreu na noite passada. — ele disse com a voz trêmula.

O silêncio mudou da água para o vinho de um segundo ao outro. O que era confortável e acolhedor se tornou gelado e pesado, quase repulsivo. Damien quis se dar um tiro ao ver as lágrimas silenciosamente escorrendo pelos olhos de Georgina e Phillip.

— Eu estava com ele na hora. — ele seguiu. — Ele estava dormindo. Foi uma morte indolor que eu tenho certeza que ele não sentiu de forma alguma. — e então o próprio Damien começou a chorar. — Eu queria ter feito mais por ele, queria mesmo, mas eu não pude.

Georgina negou com a cabeça e secou suas lágrimas. Ela estava de pé antes que Damien pudesse ver, e ela logo se agachou a sua frente, com uma mão em seu ombro.

— Está tudo bem, Damien. Nós entendemos.

Phillip logo se juntou a ela, tirando seu chapéu e colocando uma mão em seu outro ombro.

— Está tudo bem. Você fez o melhor que pôde. Foi além de todas as suas obrigações para fazê-lo feliz e ajudá-lo quando precisou. Você sacrificou muito, fez muito mais do que precisava, para dar à ele ao menos um pouco de felicidade antes do fim. E nós seremos eternamente gratos à você por isso.

Damien fungou e secou as próprias lágrimas, seus lábios se curvando em um sorriso tristonho.

— Eu estou com a ficha completa dele aqui comigo. Eu trouxe para caso vocês quisessem dar uma olhada. — ele tirou a pasta do bolso e a estendeu à Phillip, que a tomou com prazer em suas mãos.

— Muito obrigado, meu rapaz. — ele agradeceu e se levantou, caminhando de volta para o sofá.

Georgina permaneceu ao seu lado o tempo todo, e o puxou para um abraço apertado, compartilhando com ele sua dor e suas lágrimas.

— Você é uma ótima pessoa, Damien. — ela murmurou. — Nosso filho teve muita sorte de ter encontrado você no caminho dele.

Damien deu uma risada seca e retribuiu o gesto, apoiando a bochecha no ombro dela.

— Acredito que eu tenha que negar, senhorita Pirrup. Quem teve sorte fui eu.