Darker Days
17 Sua mão na minha
Aquele filho da puta.
Damien rangeu os dentes e amassou o pedaço de papel em suas mãos. Em menos de um segundo, o envelope, junto com a mensagem, entraram em combustão e desapareceram em pleno ar.
Como aquele filho da puta ousa simplesmente condenar uma alma pura ao inferno e tentar passar como desculpa de que estava “dando algo ao anticristo”?! Damien estava feliz que Pip estava junto dele agora, sim, mas isso não justificava a injustiça cometida pelas mãos do tão aclamado “salvador”.
— Tem algo errado? — Pip perguntou do sofá ao sentir o cheiro de queimado subindo no ar.
Damien balançou a cabeça e limpou as mãos na roupa.
— Não, nada. É só uns problemas do trabalho pra resolver depois. — ele disse por cima do ombro ao caminhar de volta para o sofá.
Damien deu alguns passos na direção de Pip e, sem perder tempo, puxou seus lábios suavemente para os dele, logo retribuído pelo britânico. Sua mão acariciava o ombro de Pip enquanto as dele subiam para seu pescoço e se fixaram em sua nuca, acariciando com ternura os fios negros curtos.
Pip não sabia o quanto aqueles beijos, aqueles toques, verdadeiramente significavam. Ele esteve dormindo por todo o tempo que Damien gritava e chorava em vão, esperando seu retorno. Mas ele podia sentir, através daqueles beijos, o quanto Damien tinha sentido sua falta. Desde a forma como ele segurava seu ombro com apenas um pouco mais de força que o normal, ou resistia ao máximo a apartarem os lábios apenas para voltar a beijá-lo logo em seguida. Ele conseguia sentir em cada pequeno gesto a forma como Damien ansiava por ele, o quanto ele esperou para tê-lo novamente.
Pip não sabia exatamente como se sentir quanto a isso. Embora parte de si insistisse que aquilo era culpa dele, que ele era um estorvo e ele só pensava no quanto deve ter atrapalhado Damien sem sequer precisar estar por perto; ele atrapalhava apenas por existir. Ao mesmo tempo, outra parte de si queria agarrar-se àquele sentimento com todas as suas forças. Ele queria sentir aqueles beijos em sua pele, ouvir os murmúrios de Damien em seu ouvido…
— Eu te amo, Pip.
Ele queria ser amado, sentir os toques daquele ser sobre sua pele, ser a razão pela qual ele sorria, para quem ele sorria. Ele queria ser a pessoa por quem ele esperava quando chegava em casa, antes de dormir e depois de acordar. Ele queria construir o seu pós-vida com alguém que sentia algo tão forte quanto ele, que pudesse dar à ele aquilo com que Pip sempre sonhou, que até algum tempo atrás só era possível em seus sonhos mais profundos.
Ele manteve os olhos fechados brevemente após o beijo, como se temesse acordar de um sonho ao abri-los. Mas, se fosse este o caso, ele não teria podido sentir a mão de Damien acariciando sua bochecha.
Aquilo era bem real.
Pip sorriu uma vez que abriu os olhos, sendo retribuído pelo anticristo, o qual o puxou para um último rápido beijo.
— Quer comer alguma coisa? — Damien ofereceu, puxando Pip pela cintura.
— Quero. Eu não como há anos.
Damien riu e o tomou em seus braços em um movimento rápido.
Os dois se mandaram para a cozinha e passaram quase duas horas apenas conversando e comendo, sem nenhuma preocupação no mundo. Damien sentia falta disso. De não se preocupar. E agora que Pip finalmente saiu do limbo, ele podia relaxar.
— Já que essa é a minha alma, eu envelheço? — perguntou Pip após morder o pão.
— A partir dos vinte e um anos, eu não cresço mais. E você também não, se não quiser.
Pip olhou para cima por um segundo e murmurou.
— Acho que estou bem do jeito que sou.
Damien sorriu e pegou os lábios de Pip em um rápido beijo, estando de pé para levar seu prato, a vazio, para a pia.
— É bom ver você bem. — o anticristo sussurrou com a boca no topo da cabeça do britânico.
— É bom ver você bem também. Espero realmente não ter te deixado preocupado.
Damien rapidamente negou com a cabeça.
— Preocupado, não. O limbo é um lugar seguro. Eu só estava ansioso esperando você voltar.
— Dois anos, Damien…
— Eu esperaria um milhão se fosse o necessário pra ver você bem.
O anticristo encaixou as mãos nas bochechas de Pip e as apertou delicadamente entre o polegar e o indicador.
Enquanto distraía sua atenção do assunto, Damien fez uma nota para si de tomar muito cuidado e atenção com a saúde mental de Pip e os resquícios que aquela cidade maldita possa ter deixado impregnados em sua alma, pois nem sempre o limbo consegue encaixar todas as peças de uma alma no lugar.
Ele puxou a cabeça de Pip para encostar em seu peito enquanto o abraçava e olhou para a janela, para o lado de fora. Uma ideia passou pela cabeça de Damien, algo que visivelmente chamou a atenção de Pip, o qual percebeu a mudança de postura no anticristo com relativa facilidade.
— No que está pensando? — o britânico perguntou.
— Nós vamos sair amanhã.
Pip piscou.
— Nós vamos?
— Vamos.
— Vai me mostrar o inferno? — chutou.
— Mais ou menos. Uma parte dele, sim, mas não é esse o foco de amanhã.
O britânico ergueu o olhar e franziu o cenho na direção do anticristo.
— Oh, Damien, você sabe que eu não aguento esperar!
— Eu sei, amor, mas seja paciente. Poderíamos ir hoje, mas já está tarde. É melhor deixar pra amanhã.
Como já era de se esperar, Pip mal conseguiu dormir naquela noite, ansiando por saber qual era a tal surpresa que Damien havia planejado para ele, que lugar era aquele que tanto que visse.
Estando no inferno, sua mente não se abriu com muitas possibilidades. E embora isso fosse um tanto deprimente, só adicionava ainda mais combustível ao fogo de curiosidade que queimava ardente no peito de Pip.
Ele sempre foi um poço de curiosidade e perguntas, o que geralmente o levava a enfiar o nariz onde não era chamado e se meter em uma porrada de confusão. E mesmo assim ele continuava curioso, independente de com quantas cicatrizes e machucados ele acabasse em seu corpo.
Se isso era algo bom ou ruim nesse caso… Pip estava pendendo mais para o ruim. Ele não gostava de esperar, não gostava nadinha. Mas, quem sabe, ele estava com uma sensação boa sobre essa ideia.
No fim, Pip acabou dormindo ao que seria o equivalente às três da manhã no mundo humano, mas pelo menos conseguiu algumas poucas horas de sono.
Ter Damien ao seu lado deixou tudo muito mais fácil. Ele o fazia sentir que ele estava no controle do próprio corpo ao invés de ser forçado a dormir contra a própria vontade.
De alguma forma, ele acordou apenas às três da tarde, doze horas depois, em uma cama vazia e com um bilhete sobre o criado-mudo.
“Troque de roupa e me encontre na frente de casa. Não esqueça sua boina (já vi você perder ela vezes demais na escola, e o inferno é grande demais para se dar ao luxo de perder coisas)
Amor,
Damien.”
Pip abriu um pequeno sorriso e, dobrando delicadamente o bilhete, pôs-se a fazer o que lhe instruiu o mesmo, terminando de se arrumar vinte minutos depois. Ele só esperava não deixar Damien esperando por tempo demais, se é que já não havia deixado.
Ao acabar, o britânico desceu as escadas correndo para a frente do castelo, quase se perdendo algumas vezes. Lá, encontrou Damien o esperando sentado nas escadas do portão principal.
— Estou aqui! — cantarolou Pip com um sorriso no rosto, sendo logo retribuído por Damien ao erguer-se. — E então, pra onde vamos?
Damien estendeu a mão, a qual Pip tomou com entusiasmo e curiosidade.
— Venha comigo. Tem um lugar que quero que veja.
Os dois seguiram caminhando lado a lado em silêncio, o único som presente, em situações ocasionais, sendo as perguntas de Pip sobre o inferno. É claro que ele não podia ser julgado, afinal aquele lugar mais parecia uma cópia de seu mundo do que o inferno que a igreja tanto descrevia.
Damien o explicou mais uma vez que estavam na parte residencial do inferno e por isso as coisas eram um pouco diferentes do que os andares mais baixos daquele círculo. As pessoas precisavam se alimentar assim como faziam em vida, a única diferença sendo que retornariam ao mesmo lugar de antes caso morram de fome ou por qualquer outro motivo, então precisavam de lugares para comer, o que incentivou Damien a seguir algumas ideias deixadas por seu pai e colocar lugares específicos para que os mortos pudessem encher os “estômagos espirituais”, como alguns de seus demônios gostavam de se referir.
Eles passaram por lojas de roupa, lanchonetes, parques e tudo quanto é tipo de coisa, realmente tornando o lugar semelhante a uma cidade, e mais ainda quando entraram em uma pequena e pacata rua, repleta de casinhas coloridas, todas praticamente iguais.
Pip não estava entendendo para onde exatamente Damien o estava levando, apenas seguia seus passos e o deixava puxar pela mão. Considerando que estavam em alguma parte residencial, provavelmente visitariam alguém, não?
Os dois pararam em frente à uma casinha de um branco fosco, exatamente igual à do lado, com uma caixinha de correio na entrada e cercada por uma cerca branca mais vívida que a cor da casa. O nome na caixa de correio estava levemente apagado, o que indicava que as pessoas que moravam ali provavelmente já estavam há anos.
O britânico franziu o cenho, tentando ler o que estava escrito na caixa, mas sem muito sucesso. Entretanto, o fato de estar apagado não o impediu de identificar os resquícios de algumas letras que um dia estiveram ali.
P… R… U… P.
Pirrup.
Esse era seu sobrenome.
O que significava que também era o sobrenome das pessoas que viviam naquela casa.
O britânico arregalou os olhos e se virou para Damien, sentindo vagamente a sensação de seu coração acelerando em seu peito.
— Essa é…? — ele não foi capaz de terminar a frase, mas Damien entendeu o que ele quis dizer.
— É sim.
Pip engoliu em seco e virou-se na direção da casa, como se caso a encarasse por tempo suficiente, saberia a resposta para todas as perguntas que estavam em sua cabeça. Suas mãos começaram a suar e seus pensamentos a espiralar. Ele sentia como se estivesse preso ao chão, sem a menor ideia do que fazer primeiro, talvez tivesse até esquecido de como respirar.
— Então, o que eu deveria…
Ele soava tão nervoso, o que já era de se esperar, mas Damien permaneceu paciente e, ainda mantendo certa distância, inclinou-se na direção de Pip.
— Poderia começar batendo na porta, acho que seria uma boa iniciativa.
O britânico respirou fundo e, tirando os olhos da casa, passou pelo portãozinho de madeira branca e começou a caminhar em direção à porta. Damien seguia calmamente atrás dele, mantendo sua distância para dar espaço ao namorado.
Ele não via seus pais há mais de dez anos, sequer se lembrava do rosto deles. Como será que eles eram? Será que eram legais? Será que eram como em seus sonhos? Se Damien o tinha trazido ali, não deviam ser ruins, mas a experiência em South Park ensinou à Pip que nem sempre as aparências eram confiáveis. O que pensariam dele quando o vissem? Ficariam muito desapontados com a pessoa que ele se tornou? Será que sabiam de tudo que aconteceu na Terra? Sabiam do bullying? De sua prima? De Damien?
Pressionando os lábios juntos e engolindo em seco mais uma vez, Pip subiu os degraus da entrada, deu três toques leves na porta com mãos trêmulas e finalizou com um passo para trás.
Havia barulho vindo de dentro, passos correndo de um lado para o outro, lentamente se aproximando da porta.
— Não, querido, eu posso pegar mais tarde, deixa só eu atender a porta e eu já vou! — uma voz feminina gritou de dentro da casa, falando com outra pessoa, porém, conforme os passos se aproximavam, também ficava mais alta sua voz.
A porta se abriu acompanhada de um rangido, e o corpo de Pip ficou completamente paralisado conforme a figura da mulher de cabelos loiros se fazia mais e mais visível.
— Eu posso… — a voz de Georgina morreu em sua garganta no segundo em que seus olhos fizeram contato com os de Pip, e seu corpo também travou.
Ela era igualzinha à foto, desde os cabelos, com exceção do comprimento, até a roupa, a qual tinha um leve toque de novo. O cheiro de biscoitos de baunilha saiu pela porta no segundo em que ela a abriu, atingindo Pip com um estranho sentimento de nostalgia.
Ambos ficaram parados se encarando por alguns segundos, em silêncio, como se processassem lentamente o que estava acontecendo.
Georgina não estava por perto para ver seu filho crescer e saber que tipo de roupas ele usaria no futuro, sequer se ele gostaria de saber sobre as roupas com as quais ela o vestiu quando ele era pequeno. Porém, vendo a forma como o casaco e a boina cabiam perfeitamente em seu corpo, além de ter o cabelo no perfeito comprimento que ela tinha quando era jovem, ela sabia. Ela simplesmente sabia.
— … Phillip?
O corpo de Pip estremeceu dos pés à cabeça com a simples menção de seu nome.
Ela o conhecia. Ela o reconhecia. Ela sabia quem ele era.
Lágrimas começaram a rolar de seus olhos conforme a realidade aos poucos tornava-se mais acreditável. Pip estava cara a cara com aquela por quem lutou sua vida inteira.
— Mãe…!
Antes que ele pudesse fazer qualquer movimento, Georgina puxou o filho pelos ombros e o prendeu entre seus braços, suas próprias lágrimas pingando no topo de sua cabeça. Soluços abalavam seus ombros e sacudiam seu corpo, tremendo suas pernas até sucumbirem junto às de Pip, ambos vindo ao chão.
Pip retribuiu o abraço com a mesma intensidade, afundando o rosto cheio de lágrimas sobre os seios da mãe. O calor de seu corpo era tão aconchegante que ele se sentia de volta no útero, onde era confortável e seguro; onde nada podia machucá-lo. Ele estava de volta a seus braços, ao conforto de sua família, da mulher que o deu à luz e, mesmo depois de tantos anos sem ouvir falar dele, o amava como se ele ainda fosse o pequeno Pip de quatro anos.
— É você! É você! É você! — ela exclamava repetidamente entre soluços, cobrindo o rosto de Pip de beijos e mesclando as lágrimas salgadas. — Meu pequeno Pip, é realmente você!
Pip não conseguia dizer nada, apenas agarrava-se às vestes da mãe e deixava que as lágrimas e os soluços o balançassem e tomassem conta de seu corpo, que acompanhava os movimentos de vai e vem de sua mãe, que o balançava de um lado ao outro como se o ninasse.
Georgina devia estar com a cara toda borrada de maquiagem de tanto que estava chorando. Ela mal podia acreditar que seu pequeno estava de volta em seus braços. Ele estava seguro. Ele estava de volta. E seu coração se expandia cada vez mais de tanta alegria. Seus choros ecoavam em seus ouvidos, misturando-se com os soluços de Pip, e ela o apertava cada vez mais contra seu peito. Palavras não podiam descrever o alívio que ela sentia agora, em finalmente ter seu pequeno de volta em seus braços.
Tanto tempo havia passado desde que ela o tinha visto pela última vez, e mesmo assim ele não tinha mudado nada. Ele continuava menor que ela, embora obviamente mais alto do que quando tinha quatro anos, ainda usava roupas do estilo inglês com que ela o vestia quando pequeno, até estava usando a boina que ela fez para ele há tantos anos atrás! E ele tinha o mesmo cheiro, a mesma cor, os mesmos olhos azuis cheios de esperança e amor, ela simplesmente não conseguia suportar.
O corpo de Pip tremia nos braços de Georgina, as lágrimas caindo descontroladamente por seu rosto. Os toques das mãos dela em seus cabelos eram tão delicados como quando era pequeno. Como quando ainda era vivo. Ele se sentia uma criança de novo, agarrando-se ao colo da mãe para afastar a dor que afligia seu peito.
Vê-lo assim, tão pequeno em seu colo, a lembrava de quando ela o confortava de seus pesadelos. Quando ele acordava durante a noite e corria para seu quarto chorando, e dormia com ela a noite toda, espremido entre ela e Phillip como um sanduíche. Ela sentia falta daqueles tempos. Sentia falta dele.
E agora aqui ele estava, espremido mais uma vez entre seus braços.
Um sorriso puxou seus lábios ao acomodar Pip em seu colo, suas pernas dobradas sobre as dela e a cabeça encostada acima de seu seio, o rosto ainda enterrado em sua pele. Seus dedos lentamente acariciaram seus fios dourados, trilhando caminhos invisíveis com a ponta das unhas.
— Você estava certo esse tempo todo. — ela sussurrou. — Esse corte combina com você.
Seu filho era tão lindo. Mesmo depois de tantos anos, ela conseguia dizer com certeza que ele continuava o mesmo garotinho que conquistou seu coração com apenas um olhar. Ela o amava mais do que tudo naquela eternidade. E, agora que o tinha de volta, finalmente estava completa.
Ela lamentava tanto que nem todos o vissem como ela o via. O fato de que tantas pessoas o fizeram mal e o machucaram de tantas formas diferentes a enfurecia além da consideração. Ela teve a certeza de pessoalmente caçá-los com suas próprias mãos quando os encontrasse no inferno.
Mas, ao mesmo tempo, seu filho precisava mais de sua atenção do que sua vingança estúpida. Tantos anos sofrendo em silêncio, sem poder fazer nada para lutar contra aqueles que o machucavam deviam ter feito muito mal a seu espírito. Sua demora para voltar para casa era a prova disso. Pip resistiu tão bravamente, de um jeito que Georgina sabia que os outros jamais seriam capazes. E ele precisava saber seu valor, precisava saber o quanto ela o amava e o quanto seu esforço valeu a pena no final, mesmo que ele tenha acabado no inferno ao fim de tudo.
Ela cautelosamente levou os lábios à testa do filho, plantando um beijo no lugar e erguendo seu rosto para acariciar sua bochecha.
— Você foi tão corajoso, meu bem. Estou tão orgulhosa de você. — ela disse com lágrimas nos olhos.
O coração de Pip parecia que ia explodir. Sem conseguir se conter, o britânico se lançou no pescoço da mãe, enterrando o rosto em seu ombro e chorando ainda mais forte que antes.
Ele esperou tanto tempo por aquilo, para ser amado, para ter sua família de volta, e agora finalmente conseguiu. Ele estava de volta em um lugar aconchegante que o aceitava, nos braços calorosos e atenciosos de sua mãe.
E ela o amava.
Perdidos no calor daquele abraço apertado, nenhum dos dois percebeu quando Phillip, o pai de Pip, entrou na sala, os olhos grudados no jornal e apenas percebendo algo errado quando ouviu os soluços e o choro de sua esposa.
— Georgina, por que você está demorando… — imediatamente se interrompeu ao ver a cena. — Meu bem? O que aconteceu?
A loira não respondeu. Simplesmente ergueu o olhar por cima do ombro e sorriu, voltando a desabar em lágrimas.
O homem, de cabelos quase castanhos e olhos azuis, arqueou a sobrancelha sem entender o que se passava. Ele entendia que às vezes sua esposa podia chorar por nada, mas ela nunca havia desabado daquela forma.
Foi quando ela se virou para o lado e mostrou a pequena bolinha de cabelos loiros que se agarrava a seu vestido que a ficha de Phillip caiu.
— Pip! — o apelido deixou seus lábios mais rápido que ele próprio pôde processar.
Antes que Georgina ou Pip pudessem vê-lo se aproximando, Phillip se atirou nos braços da esposa, prendendo a ambos entre eles.
O britânico não conseguia enxergar com tantas pessoas o abraçando, mas não precisava ver para saber que era seu pai.
As lágrimas continuaram a cair de seus olhos e chacoalhar seu corpo contra seu controle. Ele nunca esteve acostumado a ser amado daquela forma. Era como uma bomba de sentimentos positivos atirados contra ele de uma vez só. Ele não conseguia aguentar isso. Seu pobre coração não estava acostumado a tanto de uma vez.
Ele lentamente cedeu ao contato, seu corpo deslizando pelos braços dos pais e enfim encontrando uma posição confortável no colo da mãe. Eles continuaram a abraçá-lo por Deus sabe quanto tempo, tudo enquanto Damien assistia da porta, observando atentamente a forma como as lágrimas de Pip paravam de rolar para dar lugar à um sorriso aliviado.
Ele finalmente estava em casa.
Percebendo o cansaço acometendo seu filho, pois é óbvio que ela percebeu, Georgina gesticulou para que Phillip se afastasse e tomou o filho em seu colo para levá-lo ao sofá.
Ele era muito mais leve do que deveria ser para um rapaz de agora vinte e um anos. Entretanto, Damien tinha mencionado anteriormente que ele não comia direito por conta das condições em que sua prima o colocava.
Pobre Pip. Sofreu tanto naquele reino horrendo que era a superfície, e sem nenhuma razão justificável!
Mas estava tudo bem. Nada que uma boa refeição e muito amor de mãe não pudesse curar. Nem que demorasse um milhão de anos, Georgina tinha todo o tempo do mundo para acolher seu pequeno entre seus braços e lembrá-lo, dia após dia, do quanto sua família o amava. Tudo para que ele se sentisse bem novamente.
Enquanto a loira acolhia Pip entre seus braços mais uma vez e o ninava com movimentos rítmicos, Phillip se virou para a porta, onde o anticristo o encarava.
— Muito obrigada, Damien, por tudo que você fez por nossa família. — disse ele, caminhando até a porta e puxando o jovem anticristo para um abraço quando este tentou apertar sua mão. Não havia motivo para trivialidades assim. Eles estavam entre família agora. E Damien era mais que bem-vindo.
Do sofá, sem parar de acariciar os cabelos de Pip, Georgina sorriu.
— Temos muito a te agradecer, Damien. Você fez tanto por nós sem sequer nos conhecer, trouxe nosso filho de volta… Nós seremos eternamente gratos a você.
Erguendo a cabeça do colo da mãe, seus olhos azuis encontrando os carmim do namorado, Pip soltou um murmúrio.
É claro que ele sabia da conexão de Damien com seus pais, ele já assumiu que tinha se encontrado com eles, mas nunca lhe foi explicado com clareza até onde aquele contato se estendia. Ou como Damien sabia de tudo que aconteceu em sua família.
— Damien, como você…?
Mas seu pai foi mais rápido em responder.
— Seu amigo, perdão, namorado, assim que descobriu seu paradeiro, nos avisou imediatamente.
— E tem nos mantido informados também. — completou Georgina. — Ele nos conta tudo sobre você em relatórios diários.
Um medo de repente encher o interior de Pip, levando um arrepio por sua espinha.
— Tudo? — perguntou para a mãe, seus olhos brilhando como os de uma criança encrencada.
Ele quase engoliu em seco. Por mais que eles fossem seus pais, havia coisas sobre sua vida que ele não gostaria de compartilhar com eles.
Sobre todos os momentos que passou com Damien em sua relação. Sobre todas as vezes que ele sussurou aquelas palavras, ah, tão carinhosas em seu ouvido, palavra que eram reservadas apenas para ele. Sobre todas as coisas que fizeram juntos, escondidos entre as quatro paredes de seu quarto, e até mesmo fora delas. Aquelas eram coisas pessoais e íntimas demais para se contar à alguém, mesmo que esse alguém fosse seus pais.
Suas bochechas se pintaram de vermelho sem ele perceber, o que fez sua mãe soltar uma risada.
— É claro que pedimos que mantivesse sua privacidade, mas, com essa exceção, sim. Tudinho. — ela acariciou o cabelo de Pip e o puxou para um abraço para que ele pudesse esconder o rosto em seu colo. Eles podiam resolver esse assunto mais tarde.
— Tão jovem e já é um governante tão bom… Meus cumprimentos aos pais. — disse Phillip, abrindo um largo sorriso para o anticristo.
— Terei certeza de mandá-los, obrigado.
— Então vocês não estão… Bravos? — Pip ergueu a cabeça e encarou ambos os pais.
— É claro que não, meu bem. — disse Georgina. — Damien é um rapaz excelente. Você tem muito bom gosto.
Ainda um tanto tímido, Pip abriu um pequeno sorriso e se permitiu relaxar nos braços de sua mãe, aproveitando daquele conforto e não mais precisando se importar com expectativas e indagações.
— Creio que vocês talvez gostariam de ter um pouco de privacidade para passar o tempo com seu filho. Eu os deixo aqui. — Damien fez um rápido cumprimento de cabeça e virou ligeiramente o corpo para a porta, antes de parar ao se lembrar de algo importante. — Ah, Pip, a partir daqui, a decisão vai de você sobre onde quiser morar. Se escolher ficar comigo no palácio, seus pais serão mais do que bem-vindos a hora que quiserem. Se escolher ficar com seus pais, espero que não se importem se eu fizer algumas invasões de vez em quando.
— De forma alguma, majestade! — Phillip logo se intrometeu. — Você sempre será bem-vindo em nosso humilde lar. É sempre uma companhia tão agradável de conversar.
O anticristo assentiu e seus olhos caíram mais uma vez sobre Pip, o qual já não esboçava mais aquela certeza que tinha no rosto a um minuto atrás.
— Eu voltarei amanhã de manhã para ouvir sua resposta. Se precisar de mais tempo, pode falar comigo.
O britânico assentiu e acompanhou Damien com o olhar enquanto este caminhava para a porta e deixava a residência dos Pirrup para trás.
Seu coração se contraiu por um segundo ao não receber um beijo de despedida.
Pip engoliu em seco, olhando para o nada. Como poderia decidir algo assim? Ele não queria se separar de Damien, mas também queria aproveitar o tempo que tinha com sua família. Pip era simplesmente péssimo em tomar decisões, e aquela com certeza acabaria em desastre.
— É engraçado, eu não sabia que tínhamos um amanhã de manhã. O tempo não funciona exatamente muito bem aqui. — Phillip soltou um riso forçado, numa tentativa de aliviar aquele clima espesso, mas não deu certo. — … Phillip, está tudo bem se estiver indeciso. É uma escolha difícil. Eu vou preparar um pouco de chá para nós, depois você irá se deitar e pensará nisso quando estiver mais calmo. Parece bom? — distraído, Pip acenou vagamente com a cabeça. — Ótimo, então vá se lavar, pois você certamente teve um longo dia.
Com o incentivo do pai e um sorriso da mãe, Pip foi dispensado corredor adentro para o banheiro, onde ele passou quase dois minutos fazendo os mesmos movimentos com as mãos.
Ele não sabia o que pensar quanto à isso, seja escolher ou a nova situação em que se encontrava. Ele estava feliz, é claro, mas eram tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que ele não sabia se conseguiria acompanhar.
Fechando a torneira, o britânico se encarou no espelho do banheiro por mais um alguns segundos, aproveitando para regular sua respiração, e só depois de secar as mãos saiu.
Sua mãe estava sentada no sofá da sala, encarando a cozinha, onde seu pai estava. Ela não parecia ter mexido um único músculo desde que Pip se levantou para ir ao banheiro.
— O chá ainda não está pronto. — disse ela com um tom meigo e virou-se para Pip com um sorriso.
— Achei que você fizesse o chá. — disse ele. — Ao menos era o que a irmã dizia quando criticava o meu.
Georgina resolveu deixar a mensagem subliminar passar e negou com a cabeça, ao mesmo tempo em que sua mão batia de leve no lugar ao seu lado.
Pip manteve-se calado e sentou ao lado da mãe.
— Seu pai quis fazer hoje. Ele gosta bastante de cozinhar. Por Deus, eu me lembro de quando voltava para casa e encontrava vocês dois na cozinha… Vocês faziam a maior bagunça com as minhas panelas e a farinha. Deus, a farinha! Um dia, você inventou de tentar abrir sozinho a farinha pra fazer biscoitos. Ficou coberto da cabeça aos pés de branco!
O britânico abriu um sorriso. Ouvir sua mãe falar era mais divertido do que ele seus sonhos faziam parecer. Ele não tinha vergonha como seus colegas tinham, ele na verdade estava gostando muito de ouvi-la falar.
— Imagino que tenha sido difícil de lavar. — ele disse, incentivando-a a continuar.
O sorriso de Georgina cresceu em seus lábios.
— E como! Você não parava quieto! Você era bem agitado quando pequeno, especialmente aos três para os quatro anos. Você dava muito trabalho, Phillip, mas valia a pena. Admito que parte disso foi culpa minha. Você tinha um sorriso tão fofo que eu não conseguia dizer “não” pra você.
Pip fechou os olhos ao sentir a mão de sua mãe acariciar-lhe o topo da cabeça. Ele inconscientemente pendeu a cabeça na direção do contato, como se estivesse em transe. Era uma sensação tão boa, como se ele estivesse envolvido em um cobertor. A forma como os dedos dela passeavam por seus fios longos, como se os massageassem, o davam a leve sensação de sono. Era hipnótico, Pip poderia facilmente dormir daquele jeito.
Poderia, se não fosse pelo som de alguém fungando.
Ele abriu os olhos de imediato e olhou com preocupação para sua mãe, a qual tinha a outra mão pressionada com força contra a boca.
— Mãe, o que foi? — ele perguntou, preocupação aparente em sua voz.
— Eu perdi a sua infância. — Georgina respondeu com a voz baixa. — Você tinha só quatro aninhos quando eu morri. Eu perdi sua primeira ida para a escola, seus amigos, seu crescimento. Eu deixei você pra trás pra lidar com um mundo que não queria mais nada além de ver você sofrer. Eu te abandonei quando você ainda precisava de mim. Eu sinto muito, Phillip.
Lágrimas escorriam por seus olhos, desenfreadas, e cada uma que caía em seu colo era mais um motivo para Pip se desesperar.
— Não! Não é nada disso! Por favor, não chore! Não foi sua culpa! — ele tentou consolá-la, tirando a mão de sua cabeça e prendendo-a entre as suas.
— Se eu não tivesse virado aquela esquina… Nenhum de nós estaria aqui. — ela disse entre soluços.
— Por favor, não chore. Não foi culpa sua. Você não tinha como saber.
Pip não tinha experiência nenhuma naquele tipo de situação. Ele não fazia ideia do que fazer. Em um impulso, ele simplesmente escolheu largar a mão de sua mãe e abraçá-la, puxando seus ombros para perto dele e a apertando o máximo que podia, contato esse que foi retribuído de imediato.
Pip não resistiu em compartilhar algumas lágrimas também, deixando-se levar facilmente pela tristeza da mãe.
Damien provavelmente pensaria que eles tinham muito em comum. Ambos eram muito sentimentais.
Eles permaneceram assim por algum tempo, abraçados e aproveitando o calor um do outro, além de compartilharem algumas lágrimas, até Georgina se afastar brevemente do contato.
Ela permaneceu próxima a ele, observando-o com seus olhos azuis. Suas duas mãos seguravam-se às dele até uma delas erguer-se à altura de seu rosto. Ela delicadamente ergueu seu queixo com a ponta dos dedos e o inspecionou por um segundo com os olhos inchados. Havia uma dor muito clara neles, e Pip já imaginou saber do que se tratava quando o polegar dela começou a acariciar sua bochecha esquerda.
— Você tinha bochechas tão redondinhas quando era pequeno… — ela murmurou, e Pip já teve a confirmação de que estava absolutamente certo em sua dedução. As lágrimas voltaram brevemente aos olhos de Georgina. — Ah, meu bem, o que eles fizeram com você? Eu sinto muito por não ter estado lá pra te ajudar. Como mãe, eu deveria estar lá pra te ajudar com essas coisas.
— Eu gosto de pensar que já acabou. — o britânico apertou a mão dela nas suas. — Não é como se eles pudessem chegar até mim agora.
Georgina assentiu vigorosamente.
— Sim, sim, você está seguro agora. Está aqui com a gente. E certamente que Damien fará de tudo para que você se sinta acolhido no inferno.
É claro que ele iria. Era Damien.
A conversa dos dois logo foi interrompida quando Phillip apareceu na sala, avisando sobre o chá estar pronto.
Apesar de Pip gostar muito de chá, a conversa que se seguiu passou como um piscar de olhos para ele. Ele ainda estava muito aéreo com tudo isso, e mal participou das conversas além de quando seus pais o traziam de volta para perguntar alguma coisa.
Quando todos terminaram de comer, Pip pediu licença para ir ao seu quarto improvisado, o que seus pais os deram sem nenhum problema.
Ele fechou a porta atrás de si e se sentou à beira da cama, a qual dava de frente para o espelho da penteadeira.
Pip estava quase igual a como deixou a Terra, com exceção de seu cabelo ter voltado a seu estado comprido. Ele continuava exatamente o mesmo.
Ele só esperava que as coisas agora não fossem mais as mesmas, considerando que ele não estava mais em South Park. Porém, o pequeno britânico não podia evitar de se sentir inseguro quanto à tudo. Mesmo com mudanças mais do que óbvias, ele ainda temia que alguma hora fecharia os olhos e despertaria na velha cama da casa de sua prima. E nada disso teria acontecido.
Ao som de um toque na porta, Pip quase pulou da cama de susto.
— Toc toc. — sua mãe cantarolou e colocou a cabeça para dentro com um sorriso. — Permite-me de entrar?
O britânico soltou um suspiro aliviado e assentiu com a cabeça.
— Sinta-se à vontade.
Georgina sorriu e passou pelo vão da porta, fechando-a atrás de si com cuidado para não fazer barulho.
— Perdão, eu não queria acabar invadindo seu espaço pessoal.
— Está tudo bem. Eu nunca tive uma mãe que invadisse meu espaço pessoal antes.
Ela mais uma vez ignorou as implicâncias daquela frase e se sentou ao lado de Pip na cama. Dessa vez, ela não encarava seu rosto, mas sim seu cabelo, com um brilho de adoração em seus olhos.
— Eu posso pentear? — ela perguntou, acariciando uma mecha loira entre o polegar e o indicador.
— Claro.
Georgina sorriu mais uma vez e puxou o filho para seu colo, ajeitando-o em suas pernas para que pudesse vê-lo pelo espelho tanto quanto de costas para si.
Usando seus dedos, Georgina entrelaçava-os aos cabelos de Pip e os puxava com o máximo de delicadeza para si, desatando os pequenos nós que ali se escondiam.
Pip poderia dormir tranquilamente com aqueles movimentos. As mãos de sua mãe pareciam com as de um anjo, colocando sua mente em transe e o seduzindo a ceder à escuridão e ao conforto.
Ele nunca experienciou algo assim antes, não com o carinho de uma mãe. Pip sempre se perguntou como seriam as coisas se ele ainda tivesse sua mãe tomando conta dele, se ela seria uma pessoa bondosa ou acabaria como mais um número nos registros cruéis de famílias abusivas.
Ele não imaginava a razão de ter duvidado disso por um segundo.
Entretanto, por mais que ela fosse delicada com ele e que ele pudesse sentir cada gota de seu amor em seus toques delicados, ainda havia um último assunto pendente. Uma última dúvida que ele gostaria de esclarecer.
— Por que vocês me chamam assim? — ele perguntou, desmanchando o sorriso prazeroso que tinha nos lábios.
Georgina piscou algumas vezes, ainda acariciando os cabelos do filho.
— De que?
— Pip. — ele respondeu com a respiração levemente trêmula.
Embora o britânico estivesse um tanto desconfortável com a pergunta, sendo de algo que o incomodava facilmente, Georgina não fez muita questão de esconder sua risada.
— Oh, querido, veja, quando você era pequeno, ainda tinham muitas palavras que você não sabia como falar. Então já pode imaginar que, como o nome da família do seu pai é Pirrup e seu nome de batismo é Phillip, seu linguajar infantil não conseguia produzir nada mais longo ou mais explícito que Pip. Assim, você chamava a si mesmo de Pip e assim passamos a chamá-lo. Eu, particularmente, achava o apelido adorável, além de ser um ótimo jeito de distinguir você do seu pai, tendo em vista que ambos compartilham do mesmo nome.
Pip estreitou os lábios em uma fina linha e parou de tremer.
Isso fazia muito mais sentido.
— Ah. Entendo.
Sua mãe arqueou a sobrancelha, mas sem nenhuma malícia em seu rosto.
— Oras, mas por que essa pergunta?
E aí estava mais uma coisa que ele sabia que apareceria uma hora ou outra. Infelizmente, ele teria que enfrentar aquele problema de cabeça.
— Onde eu morava, meu apelido tinha um significado diferente.
Georgina piscou duas vezes, estranhando o comportamento do filho.
— Qual?
O loiro respirou fundo e fechou os olhos. Era só questão de tempo até receber o impacto, então é melhor já se prevenir.
— Todos me chamam de Pip porque me odeiam. É como as coisas funcionavam, pelo menos. Eu não tinha a menor ideia de que era porque eu não sabia falar meu próprio nome. Parece meio estúpido, se parar para pensar. O estúpido órfão francês que não sabe falar o próprio nome.
Ele tentou fazer passar como nada demais, mas era fato, pela forma como sua mãe parou de mexer em seu cabelo e o abraçou com força, que ela estava incomodada.
— Mãe?
— Será que não há uma única coisa em você que eles não destruam? — ela o apertou um pouco mais, pressionando-o contra seu peito.
— O que você quer dizer?
Georgina fechou os olhos por um segundo, tentando conter a própria raiva.
— Você não costumava soar assim, tão cabisbaixo, como se você merecesse o tratamento que recebe. Você era uma criança tão animada e divertida, sempre segura do que estava fazendo e tão solta. Até quando sua irmã imbecil aparecia em casa, você a recebia com um sorriso e um abraço, mesmo que ela repetisse várias vezes que não gostava. Mas agora… Eu sinto essa aura estranha ao seu redor, como se uma mão estivesse segurando seu pescoço, te impedindo de respirar. Você não costumava ser assim, desprezando a si mesmo e se colocando para baixo.
Pip não se defendeu. Já não lhe restavam desculpas para tudo o que aconteceu em sua vida.
— Isso é obra dela, não é? — Georgina rangeu os dentes. — Foi ela quem começou a te puxar pra baixo? Foi ela quem fez você se sentir assim?
Quanto mais ela perguntava, mais Pip podia sentir aquelas velhas feridas abrindo. Ele não gostava de tocar nelas, mas se fosse ajudar sua mãe naquele momento que era tão difícil para ela quanto para ele, ele o faria.
— Mrs. Joe Gargery não era exatamente a irmã mais estável. Ela se preocupava muito, o que é justificável considerando a situação na Inglaterra na época. Mas ela sempre se irritava demais, e acabava descontando em mim e no Joe. Eu não a culpo, tenho certeza de que não foi a intenção dela fazer isso…
— Que ela há de arder no fogo e permanecer neste por toda sua maldita eternidade. — a loira murmurou ao ranger os dentes e cerrar os punhos.
— Mãe…
Georgina balançou a cabeça, se forçando fora do transe de ódio.
— Eu sei que não estou em posição de escolher favoritos e que ela também era minha filha, porém, independentemente de ter saído do meu ventre, isso não justifica a mulher horrenda que ela se tornou. Quando nos encontramos no inferno, eu já sabia que as coisas não seriam as mesmas.
Nisso Pip não tinha pensado: que seu pais pudessem ter encontrado sua irmã quando ela morreu.
— O que aconteceu com ela?
— Ela foi levada pelos demônios para a área de punição de pecadores do nono círculo. Veja, Phillip, essa é a área residencial do nono círculo, onde pecadores como você e eu podemos descansar, tendo sido injustiçados pelas mãos do céu. Agora, ela, vai arder no mais profundo dos fogos do inferno até o fim dos tempo e depois disso. O próprio Damien me assegurou disso.
— Isso é realmente necessário? Toda essa violência?
— Este é o inferno, filho. Os pecadores caem aqui para serem punidos pelas atrocidades cometidas em vida. Você e eu somos apenas exceções à regra. — Georgina suspirou e suavizou o aperto dos braços ao redor de Pip. — Eu sinto muito. Não devia estar falando disso. Tenho certeza que você, ainda sendo você, ainda a ama.
— Ela sempre será minha irmã, mesmo não sendo a melhor pessoa do mundo. — foi a forma como Pip resolveu responder, apoiando a cabeça no colo de sua mãe.
Ela abriu um pequeno sorriso e, em troca, apoiou a dela na dele.
— Me perdoe, Phillip, eu não queria despejar tudo isso em você. Você já sofreu o bastante por uma eternidade inteira.
— Está tudo bem.
Completamente desistindo da ideia pela qual entrou no quarto em primeiro lugar, Georgina puxou Pip para mais perto de si, apoiando as pernas dele sobre as suas e o envolvendo em seus braços como a uma criança pequena.
Pip imediatamente se permitiu relaxar e abriu um pequeno sorriso nos lábios. Não sabia o que tinha no perfume de sua mãe que simplesmente o forçava a dormir. E ele assim o fez.
Percebendo seu pequeno adormecido, Georgina o tomou com cuidado no colo e o colocou para dormir na cama. Tirou seus sapatos e os deixou ao lado da cama, cobrindo-o com o lençol para que pudesse descansar tranquilamente.
Enquanto acariciava seus cabelos, agachada ao lado da cama, Georgina não resistiu em deixar seus pensamentos fluírem pela boca.
— Eu queria poder ter feito mais por você. Oh, Pip, você não sabe como me dói saber de tudo que aconteceu contigo e não poder ter estado lá para te ajudar. Eu não queria que nada disso acontecesse, não queria que te machucassem. Você foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida e o mero pensamento de que alguém gostaria de fazer mal a você me faz tremer de nervosismo. Mas você pode respirar agora, Pip. Você pode descansar tranquilo, sem se preocupar com quem vai cruzar seu caminho. Pode sair de casa sem se preocupar com se vai se machucar ou se as pessoas vão te aceitar como é.
Ela lentamente deslizou a mão do cabelo do filho para suas bochechas, acariciando a pele macia com ternura.
Seus olhos mais uma vez se encheram de lágrimas e seus lábios se estenderam no maior sorriso do dia quando Pip se remexeu durante o sono e se agarrou a sua mão, envolvendo-a em um abraço.
Ela deu-lhe um beijo no topo da cabeça e afagou sua testa com a dela.
— Você é perfeito, Pip. Do jeitinho que você é, você é perfeito.
(...)
A casa estava completamente em silêncio quando Pip acordou. Considerando que as janelas estavam fechadas e cobertas com a cortina, provavelmente estava de noite, ou na hora em que todos convenientemente decidiam dormir.
Pip sentou na cama e esticou os braços, espreguiçando-se, antes de se levantar e andar só de meias até o corredor.
Tudo estava silencioso no corredor também, e nenhuma luz estava acesa. Definitivamente estava de noite, e o britânico ficou legitimamente surpreso com o fato de que Damien não mentiu ao dizer que o inferno escurecia durante à noite.
Estranho, mas ele podia se acostumar com isso.
Com cuidado para não acordar seus pais, Pip ajeitou suas meias e andou na ponta dos pés para o andar de baixo. Ele estava sem nenhuma vontade de voltar a dormir, além de não estar com sono. Apenas seguia para onde seus pés o levavam.
Ele acabou no andar de baixo, o qual também estava silencioso. Pip se sentia estranho invadindo aquele espaço daquela forma, mas seus pais o disseram que ele podia ficar à vontade enquanto ficasse na casa, então resolveu dar à eles um voto de confiança.
Caminhando pela frente do sofá, onde ficava uma estante de livros, Pip percorreu-a com seus olhos curiosos até parar em uma foto enquadrada. Era de duas pessoas, trajadas em roupas típicas de um casamento. O homem e a mulher sorriam um ao lado do outro, abraçados com uma mão só, enquanto a mulher segurava um buquê.
Era uma foto do casamento de seus pais.
O britânico não conteve um sorriso ao pegar o porta-retrato em mãos para analisá-lo mais de perto. Eles pareciam tão felizes naquela foto, como se o amor realmente pudesse ser visível aos olhos. A forma como seus olhos brilhavam quando olhavam para o outro parecia até magia.
— É de um ensaio.
Pip pulou ao súbito som da voz, apertando o quadro em suas mãos para não deixá-lo cair. Ao virar a cabeça em sua direção, percebeu seu pai parado no canto da porta. Ele o encarava com um sorriso no rosto e uma tranquilidade em seu olhar.
— Não é uma foto de verdade do nosso casamento. — ele disse enquanto se aproximava do britânico. — Refizemos a cerimônia e pagamos um fotógrafo para fazer um ensaio como lembrança.
Pip murmurou e abaixou a cabeça.
— Perdão, eu não deveria estar mexendo. — ele disse e colocou o quadro de volta no lugar.
— Não peça desculpas, Phillip. — disse seu pai ao acariciar seus cabelos. — Você acabaria sabendo dessa história mais cedo ou mais tarde. É apenas uma das histórias que queríamos contar pra você quando crescesse. Não sobre o ensaio, o casamento de verdade.
Pip abriu um sorriso educado e voltou a encarar o quadro, sem dizer nada. Vendo como eles estavam felizes naquela foto, aquela seria sim uma história que ele adoraria ouvir — ainda mais se eles estavam tão felizes assim com apenas um ensaio.
Seus pais deviam ter tantas histórias para contar, Pip só gostaria de não ter tido que demorar tanto para ouvir. Ele se sentia parcialmente culpado por aquela demora, e imaginava que não teria um jeito apropriado para compensar todo o sofrimento e angústia que ele tinha causado.
— Você está desconfortável? — Phillip perguntou, sua voz grave o pegando de surpresa mais uma vez.
Pip virou-se na direção do mais velho e arqueou uma sobrancelha.
— Perdão?
— Você ficou mexendo no cabelo o dia todo. — ele apontou para a mão de Pip, a qual ele nem mesmo percebeu estar mexendo no cabelo. — Georgina diz que isso é geralmente um ato de nervosismo. Tem algo errado, Phillip?
O menor abaixou a cabeça e envolveu a si mesmo em um abraço.
É, ele estava claramente desconfortável.
— Eu sinto muito se fomos muito apressados em querer recuperar o tempo perdido. — o maior começou a dizer. — Nós te conhecemos desde que você nasceu, mas você não tem nenhuma lembrança nossa. Georgina estava tão empolgada para quando você chegasse que não deve ter pensado que, para você, somos um bando de estranhos.
Pip engoliu em seco e abaixou a cabeça, envergonhado. Ele não queria se sentir assim, mas não podia evitar. Seu pai estava coberto de razão.
— Admito que não estou muito acostumado a receber tanta atenção assim. O máximo que eu recebia de afeto vinha por parte de Damien, e sempre éramos bem reservados quanto a proximidade, exceto se estivéssemos sozinhos. Mas não é que eu não quero passar tempo com vocês! Eu quero! Eu acho que só preciso de um tempo para me acostumar com a ideia. Mas, por favor, não pensem que eu esteja fazendo descaso com vocês!
Phillip podia não ter conhecido muito sobre seu filho durante seu crescimento, ele ainda conseguia ler suas emoções com precisão.
— Você tem alguma coisa te incomodando, não tem?
Lentamente, Pip assentiu.
Phillip imitou o gesto em compreensão e, dando as costas para o filho, caminhou até o sofá e bateu gentilmente no lugar vazio ao seu lado.
— Quer falar sobre isso?
Pip sorriu carinhosamente e seguiu o pai para o sofá, sentando ao seu lado.
— Diga, o que está te perturbando? — o mais velho calmamente perguntou enquanto acariciava os cabelos de Pip. — Alguma coisa na casa… No ambiente novo… Ou você simplesmente não está conseguindo se adaptar?
O britânico encolheu os ombros por um segundo e juntou as mãos no próprio colo.
— … Eu nunca fui muito bom nisso. Eu nunca… Me adaptei. Nem nos Estados Unidos, nem na Inglaterra. Eu nunca tive nenhum amigo antes, acho que o meu jeito deixava as pessoas incomodadas. Elas riam de mim, jogavam coisas em mim e me zoavam pelas minhas costas. Me disseram para não retaliar, que isso passaria, mas até o dia da minha morte, o único amigo que eu fiz foi o Damien. Eu nunca soube o que estava errado. Todos pareciam ter um grupo, nem que fosse uma pessoa, mas eu sempre ficava sozinho. Não tinha porque ser um problema com eles, todos tinham alguém, então a única conclusão lógica é que o problema era eu. — Pip engoliu em seco. Ele não gostava de falar sobre aquela parte. — Eu tentei me encaixar. De verdade. Tentei me juntar à eles em seus jogos, acompanhava algumas tendências, até cheguei a praticar bullying uma vez pra tentar me encaixar. Eu não me orgulho, é claro, e não importa de qualquer forma; não deu certo. Tudo que imitá-los me rendeu foi uma pedra na cara e ficar inconsciente por oito horas. Então eu desisti. Eu não tinha muita coisa pra fazer sozinho, já que não tinha amigos. Eu aproveitava o tempo lendo e revisando a matéria que eu não sabia muito bem, mas até isso se tornava chato. Eu devo ter relido o Grandes Esperanças mais de seis vezes. A prima não tinha muitos livros na casa dela, e eu só tinha esse.
Phillip escutava pacientemente cada detalhe da história, sem dizer nada, sem deixar Pip perceber o quanto ouvir aquilo acabava com ele.
Sem resposta, o menor respirou fundo e continuou:
— Nesse meio tempo, sem muito pra fazer, eu acabava pensando em como minha vida seria se vocês ainda estivessem vivos. Eu não sabia como vocês eram, então não me vinham imagens na cabeça, muito menos alguma foto familiar ou algo relacionado. Eu na verdade não tinha muita base para pensar em como seria minha vida se ela fosse boa. Eu não sei o que eu tinha, eu só… Gostava de imaginar que eu tive bons pais, que cuidavam de mim da melhor forma que podiam e que me amavam, como os pais dos comerciais de margarina da televisão. Mas, mesmo sonhando com essas coisas, eu nunca verdadeiramente imaginei que se tornaria real. Eu acho que estou meio perdido, entende? Agora que estou aqui, não sei o que fazer.
Phillip murmurou em compreensão e puxou o pequeno para um abraço. Pip apoiou a cabeça em seu peito, não podendo usar os braços pela posição desconfortável, mas se permitindo relaxar sob o contato.
A forma como ele acariciava suas costas com movimentos circulares o passava uma sensação nostálgica, e Pip não resistia a imaginar quantas vezes seus pais já não o confortaram em algum momento difícil antes.
— Parte de mim sempre achou que as coisas continuariam as mesmas. Que eu fosse viver a mesma vida pra sempre e que eu morreria sem ter feito um único amigo, sendo para sempre conhecido como o órfão francês que todos odeiam.
O tom de voz machucado de Pip preocupava Phillip mais do que ele provavelmente imaginava. Assim como Georgina ficava horrorizada com as coisas que ouvia sobre a superfície, ele também ficava. A única diferença é que Phillip levava as coisas de forma menos agressiva que sua esposa.
— Que bom que não foi isso que aconteceu. — ele murmurou com um sorriso no rosto.
Pip logo sorriu também, suas bochechas levemente tingidas de vermelho.
— Eu tenho muito a agradecer ao Damien. Ele mudou coisas na minha vida que eu nem pensava serem possíveis, e eu amei cada segundo que eu passei podendo ver o quanto ele tinha mudado também. Ele era bem diferente quando éramos pequenos.
Deus, Pip era exatamente igual a ele quando era mais novo. Ele ainda se lembrava da época em que sua irmã o provocava quando ele falava de Georgina. Ela dizia que ele fazia uma cara de bobo e praticamente babava atrás dela. “É uma pena que ela esteja casada”, ela dizia, como se fosse de propósito para deixá-lo chateado, mas não funcionava de forma alguma. O mesmo olhar que sua irmã dizia que ele tinha, era o mesmo que seu filho tinha agora mesmo.
Se Damien significava tanto para Pip quanto Georgina significava para ele, ele não podia imaginar o quanto seria difícil para seu filho escolher onde ficar.
— Ele significa muito para você, não é? — ele perguntou com um suspiro.
O sorriso de Pip aumentou em seus lábios, seu coração batendo mais rápido com a simples menção do anticristo.
— Damien é a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Eu não sei onde eu estaria agora se ele não tivesse aparecido. Eu o amo muito.
— Ele nos manteve informados sobre a situação com seu relacionamento. — disse Phillip, afagando os cabelos do filho. — Você significa muito para ele também, Phillip.
A visão de Pip começou a nublar e as lágrimas mais uma vez se fizeram presentes em seu rosto, escorrendo por suas bochechas e pingando em sua roupa, assim como na de seu pai.
— Oh, filho, não chore. — ele sussurrou para o menor, o apertando mais em seus braços.
— Desculpa. — Pip respondeu enquanto secava os olhos com a mão. — Eu só tenho andado meio emotivo nos últimos tempos. Eu estou tão feliz por vocês estarem aqui.
— E nós também estamos felizes por você estar aqui. Nós esperamos muito tempo por você, rapazinho. E, mesmo se você escolher ir com o Damien, tenha certeza de que Georgina e eu vamos fazer tudo que pudermos para recuperar o tempo perdido, ao mesmo tempo que respeitando seu espaço. — ele se afastou do menor por um instante e levou suas mãos à suas bochechas, afastando suas lágrimas com os polegares. — Nós podemos te visitar todo fim de semana ou até antes. O tempo que você quiser. Temos toda a eternidade para compensar tudo que aconteceu. E eu e sua mãe estaremos sempre do seu lado para tudo que você precisar, não importa o que aconteça.
Pip engoliu o soluço que tentou chacoalhar seus ombros e se jogou no pescoço do pai, envolvendo-o em um abraço.
— Obrigado, pai. — ele sussurrou, deixando mais uma vez o sorriso puxar seus lábios.
— Sempre que precisar, filho. — Phillip respondeu e correspondeu o abraço enquanto acariciava suas costas, confortando-o. — Devemos subir?
Talvez fosse a melhor ideia, sim, já que sua mãe provavelmente estranharia não encontrar nenhum dos dois em seus quartos ao despertar. No entanto, Pip estava muito confortável naquele abraço, há tanto tempo sem senti-lo, e ele não queria soltar.
— Só mais uns minutinhos.
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