Darker Days
18 Me chame pelo meu nome
Um delicado gemido escapou os lábios de Pip ao despertar. Ele ainda estava deitado no sofá, com um cobertor jogado sobre seu corpo magro e espalhado no chão. O sono ainda tomava conta de seus olhos, o que o impediu de ver as duas figuras adultas caminhando de um lado para o outro de forma clara. Tendo ficado acordado até tarde e com tantas emoções em seu peito, é apenas previsível que Pip teria dificuldade para permanecer desperto por muito mais tempo.
Eventualmente, o britânico esfregou os olhos e se sentou no sofá, seu corpo pesado devido ao sono. As coisas ainda estavam um pouco borradas em sua visão, mas esta logo se ajustou a seus arredores, permitindo-o observar a sala com clareza.
Ao percebê-lo desperto, Georgina abriu um sorriso e se aproximou do sofá.
— Bom dia, dorminhoco. — ela cumprimentou, afagando os cabelos de Pip. — Você passou um bom tempo no sofá. Está com dor na coluna?
O britânico negou com a cabeça e bocejou.
— Estou bem.
Georgina retribuiu com um sorriso e se agachou em frente ao filho para abraçá-lo.
— Venha tomar café da manhã conosco, Phillip. — ela disse. — Damien chegará em breve para ouvir sua escolha.
Pip assentiu com a cabeça e seguiu em silêncio para a cozinha, em parte por conta do sono, em parte por desconforto. Ele não queria ter que pensar em sua escolha logo cedo — ou seja lá que horas eram. Aquela era uma situação complicada, em que ele tinha que pensar bastante. Por um lado, ele queria muito passar tempo com seus pais, por outro, ele gostaria muito de continuar dividindo a casa com Damien; já tinha se acostumado com aquela rotina. De qualquer forma, seja lá o que ele escolhesse, Pip teria que sacrificar alguma coisa.
Bom, talvez sacrificar fosse demais. Eles todos continuariam a compartilhar o inferno, sabiam o endereço do outro; visitas não seriam difíceis. E Pip era um adulto, já tinha vinte e um anos — apesar de ter dormido durante seus três aniversários -, ele podia ter a própria rotina e os próprios desejos e não ter que seguir o que os outros o mandam fazer.
A questão é que Pip nunca teve controle sobre suas opções antes. Durante todos os momentos de sua vida, todos o empurravam para onde queriam, independente de sua opinião e vontade. Ninguém se importava. E agora simplesmente esperavam dele que ele tomasse uma decisão, com expectativas de ambos os lados, sem a menor base de ajuda para ele. Ele nunca teve que fazer isso antes, e ele na verdade não se importava muito de onde ele moraria; qualquer coisa seria melhor que sua antiga casa no mundo dos vivos — ou o que era dela antes de explodir. De qualquer forma, todos eles moravam no mesmo lugar de qualquer forma, só levaria um tempo a mais para visitar um ou outro.
Chegando na cozinha, os três tomaram café da manhã em silêncio, com exceção da conversa paralela entre seus pais. Pip não estava num humor muito bom para ficar conversando, estava fisica e emocionalmente exausto, e a falta de sono na noite anterior não ajudou muito.
Seus pais, no entanto, não demoraram em perceber seu sono e seu jeitinho aéreo enquanto cutucava a salada de frutas com o garfo; ele parecia quase triste. Phillip e Georgina se entreolharam, preocupados. Por terem passado tantos anos longe de Pip e não saberem quase nada sobre como seu filho estava hoje em dia, eles não tinham como saber com certeza por tudo que ele estava passando; é como se eles estivessem conhecendo seu filho pela primeira vez. Os preocupava que fizessem algo que o pudesse chatear justamente por não saberem como se aproximar dele.
Georgina, tomando coragem, umedeceu os lábios e perguntou:
— Phillip, depois do que você me disse ontem, eu fiquei me perguntando… Você gostaria que nós parássemos de usar seu apelido?
Pip ergueu o olhar de sua salada de frutas, curioso e confuso.
— Meu apelido?
— Você não tem lembranças boas dele e nós não queremos ter que te lembrar dessas coisas horríveis toda vez que quisermos conseguir sua atenção. — tudo que Georgina menos queria era deixar seu filho desconfortável, e depois do que ela ouviu ontem, apesar de partir seu coração, ela estava disposta a abandonar seus costumes antigos imediatamente se estes fizessem com que Pip não se sentisse bem. — Se você quiser que chamemos você pelo nome, podemos chamar seu pai de Phil. Você não se importa, não é, Phil?
Phillip riu e negou com a cabeça.
— É claro que não. Qualquer coisa para deixar meu filho confortável.
Pip arregalou os olhos, finalmente entendendo a situação e começou a murmurar e gaguejar incoerentemente. Por Deus, ele passou uma mensagem completamente errada! Ele não estava infeliz ou tampouco se importava com esses detalhes; para ele, tudo era irrelevante, eles todos estavam mortos! Ele só queria poder ter uma boa noite de sono e seguir adiante com seu pós-vida como ele seguiria na Terra; ele não queria que ninguém se preocupasse com ele, especialmente por algo tão bobo.
— N-não! Não precisa! Está tudo bem, eu… Sim, é verdade que as crianças de South Park tornaram meu apelido algo ruim pra mim, mas… Mas agora que eu sei o que realmente significa, eu quero ganhar esse significado de volta. Eu não quero que algumas experiências ruins arruinem algo precioso que eu tinha com vocês.
Ouvindo seu filho falar tudo aquilo, Georgina não conseguiu conter as lágrimas. Ela tinha sentido tanta falta dele, não conseguiu se segurar em levantar da cadeira e ir até ele para lhe dar um abraço apertado. Seu pequeno havia crescido tanto, e ela conseguia ver perfeitamente a compreensão e a compaixão em seus olhos; mesmo com tudo o que ele passou, tudo o que sofreu, ele continuava seguindo firme e forte, sem deixar que aquilo o abalasse e aquelas pessoas horríveis destruíssem o que lhe restava de si. E Georgina não podia estar mais orgulhosa dele.
— Oh, meu pequeno Pip… Meu pedacinho de sol… Você é a maior preciosidade da minha vida. Da minha vida e da minha morte. — enquanto o apertava em seus braços, a loira tinha a vaga percepção de Pip cedendo a seus carinhos e retribuindo o contato com ternura, acompanhado de algumas lágrimas frescas escorrendo do canto de seus olhos e pingando em sua roupa. Ele passou por tanto, precisava ouvir e saber o quanto era querido, mesmo que precisasse repetir milhões e milhões de vezes. Georgina nunca se cansaria de dizer ao seu filho o quanto o amava. — Qualquer decisão que você tome, nós sempre vamos te amar.
Os ombros de Pip começaram a tremer, com quanto mais suas lágrimas escorriam. Estava muito cedo para isso, ele mal tinha acordado, mas já estava derramando seu coração no chão como se fosse a primeira vez.
Não faz tão mal. Já a quase três anos que Pip não chorava, ele precisava disso; especialmente considerando toda a situação em que estava agora. Sua vida pela primeira vez estava boa, boa por inteiro! Tá, não era sua vida, porque ele estava morto, mas ainda assim, era uma mudança drástica de cenário e ele não estava esperando por isso, nunca em um milhão de anos! Ele não podia evitar de chorar!
Uma vez que o tempo passou, as lágrimas secaram e o assunto dissipou, todos conseguiram terminar o café da manhã tranquilamente e seguiram com a rotina. Sem muito mais o que fazer além de olhar para o teto, Pip ocupou-se com olhar as fotos espalhadas pela casa e imaginar que histórias elas contavam. Sua mãe às vezes aparecia para contar algumas delas, mas não com tanta frequência, visto que ela e seu pai estavam passando o dia tomando conta da casa.
De vez em quando, ele veria uma foto de seus pais juntos e pensaria em Damien, em como devia ser seu dia a dia no inferno e o quanto aquilo se diferenciaria de em South Park. Ao menos ele tinha um certo conforto aqui, afinal morava em um castelo.
Estranho, mas não muito, que embora tenham passado apenas algumas horas, Pip já sentia uma imensa falta do anticristo. Estar com seus pais era bom, ótimo na verdade, mas ele se acostumou tanto com estar com Damien que era estranho fazer qualquer outra coisa.
Por um segundo, o britânico ponderou se isso significava algo ruim. Ele não queria desprezar seus pais, de maneira alguma; só precisava de tempo e segurança, algo que ele, infelizmente, parecia demorar para conseguir ali.
Em algum momento, enquanto Pip encarava um quadro do corredor, sua mãe se aproximou dele com uma vassoura na mão, possivelmente para limpar o lugar onde ele estava pisando. No meio do caminho, acabaram engajando em uma conversa, e ela o surpreendeu quando, em um momento de silêncio, o quebrou dizendo:
— Sabe, Pip, talvez você devesse ficar com o Damien.
O britânico ergueu a sobrancelha, espantado.
— Achei que você fosse me pedir pra ficar.
— Eu quero que você fique; quero que possamos nos reconstruir juntos, como uma família, mas eu também quero que seja natural. Eu não quero que você se sinta pressionado ou preso aqui. Além do mais, eu tenho certeza de que Damien sente sua falta tanto quanto nós.
E, se vocês forem selar o relacionamento um dia, é melhor que já saiba da rotina dele.— ela guardou as últimas palavras para si mesma.
Embora Pip não quisesse admitir, no fundo ele sabia que ela estava certa. Ele estava tentando ser compreensivo e mente aberta, mas sabia que não seria uma boa estratégia ficar direto com seus pais; ele mal os conhecia. Ele os amava, é claro, mas ele, ao contrário dos dois, não estava acostumado àquela vida no inferno, e quem melhor para apresentá-lo que o próprio governante de lá?
Georgina percebeu a apreensão no rosto do filho, que encarava as próprias mãos com as sobrancelhas abaixadas, e, colocando uma mão em seu ombro, abriu um sorriso compreensivo em sua direção.
— Se ficar com Damien é o caminho que crê ser o que mais vai te fazer feliz e mais confortável, pois vá em frente. Ficaremos bem aqui e vocês poderão nos visitar sempre que quiserem.
Deus, Pip amava sua mãe.
Georgina afagou os cabelos do filho e fez o caminho de volta para a entrada do corredor, provavelmente para avisar Phillip de sua decisão.
Ela parecia calma, o que acalmou um pouco o coração de Pip, mas agora o que o preocupava é como Damien reagiria. Ele não sabia se ele o julgaria de alguma forma por não querer ficar com os próprios pais ou não, mas isso é algo que ele teria que arriscar pra saber.
Cerca de uma hora depois, a campainha tocou, anunciando a chegada do anticristo. Phillip e Georgina pararam de trabalhar para receber sua visita e Pip se juntou a eles na sala, seu rosto contorcido de nervoso. Ele só queria que as coisas corressem bem.
Damien, com a permissão de Georgina, entrou na casa após cumprimentar a todos e se dirigiu de uma vez à Pip. Ele não queria perder tempo algum para chegar ao objetivo de ter vindo.
— Já fez sua escolha? — ele perguntou ao britânico, sempre mantendo a postura formal.
Escondendo sua hesitação, Pip assentiu.
— Já, eu vou com você. — ele disse em um suspiro só, sem querer postergar aquilo mais do que ele já teve que fazer.
Damien assentiu em compreensão, os demais alheios para a pressão que se aliviou em seu peito. Ele virou-se para Phillip e Georgina e perguntou:
— Senhor e senhora Pirrup, estão de acordo?
— É claro! — disse Georgina, acompanhado por um aceno de cabeça de Phillip. — Qualquer coisa que deixar nosso filho feliz vai nos deixar também. Além do que, é importante para casais terem sua privacidade.
As bochechas de Pip coraram vigorosamente e o anticristo simplesmente ignorou o comentário, embora o impacto deste se mostrasse nas horas de suor que escorriam de sua testa. A esse ponto, não era difícil tirar a conclusão óbvia da vida privada daqueles dois; eles não eram exatamente sutis.
— Só espero que não se incomodem se passarmos por lá de vez em quando. — disse Phillip, querendo desfazer o momento constrangedor que sua esposa criou. — Adoraríamos poder passar algum tempo com vocês, se não for incomodar.
Damien imediatamente balançou a cabeça e gesticulou com a mão.
— De forma alguma. Sintam-se bem-vindos para aparecer no castelo quando precisarem. Se um de nós não puder atender a porta, serão recebidos por um criado que os guiará até a sala, onde poderão esperar para quando pudermos descer.
— Não se preocupe, não nos incomodamos de esperar se estiverem ocupados. — disse Georgina. — Poder ter a mínima chance de conseguir algum tempo com vocês, sabendo como sua agenda é lotada, Damien, já é um privilégio imenso.
Infelizmente o anticristo não podia negar, ele era sim uma pessoa muito ocupada. Sua agenda deu uma aliviada recentemente devido à falta do que fazer, mas não quer dizer que não tinha mais e mais para ser resolvido a cada dia. O inferno é um lugar muito movimentado, e o diabo não tira férias.
— Ei — Damien chamou a atenção para si. — Se vocês quiserem vir jantar em casa hoje, eu não estou muito ocupado. Podíamos colocar os papéis em ordem, por assim dizer, sobre como as coisas vão se seguir daqui pra frente.
Phillip e Georgina pareceram se empolgar e sorriram ao mesmo tempo.
— É uma excelente ideia, Damien! Podemos passar mais tarde no castelo para jantarmos todos juntos como uma família de verdade, finalmente! — exclamou a loira, não escondendo a própria empolgação.
Pip também pareceu compartilhar do sentimento.
— Parece uma esplêndida ideia! Vamos adorar poder receber vocês!
— Com certeza. São muito bem-vindos a hora que quiserem. — Damien confirmou mais uma vez.
— Pois bem, então talvez vocês devam ir andando para preparar tudo. — Phillip cruzou os braços e sorriu, mas, bem na hora em que ia caminhar para a porta, Georgina resolveu se intrometer mais uma vez.
— Na verdade, Damien, será que posso falar com você um segundo?
O casal se entreolhou por um segundo, mas Damien só deu de ombros e acompanhou Georgina para a cozinha enquanto Pip era levado à porta por seu pai.
Levemente preocupado, o anticristo espiou os outros dois uma última vez pelo canto do olho antes que Georgina tomasse sua atenção mais uma vez.
— Eu queria lhe avisar de algo importante quanto à Phillip. — ela disse antes de suspirar. — Eu não sei exatamente o quanto ele herdou de mim, e você o deve conhecer muito mais do que eu agora, mas, quando eu tinha a idade dele, em minha adolescência, eu costumava ter um certo… Apetite sexual. Foi por pura sorte que eu não fiquei conhecida como prostituta em minha época de menina. De qualquer forma, eu achei que devia te alertar para o caso de Phillip ter herdado minha metade ruim, para que você não estranhe. Afinal, ele além de tudo é um garoto. Garotos são assim mesmo.
Ah, e como eram. Mesmo depois de dois anos de abstinência, Damien ainda sentia o cansaço das incontáveis rodadas de sexo que tiveram enquanto o britânico ainda estava vivo. Damien estava bem ciente do apetite sexual de Pip; mas Georgina não precisava saber disso.
— Não se preocupe, senhora Pirrup, vou ficar me manter atento a isso. Eu e Phillip sempre nos mantivemos muito seguros quanto a nossa vida sexual.
— Fico muito aliviada em saber disso. — disse a loira com um sorriso. — Era só isso, pode ir já. Cuide bem do nosso menino.
— Não tenha a menor dúvida. — o anticristo respondeu de imediato, sem esperar um único segundo. Se depender dele, ele congelaria o inferno inteiro se Pip pedisse. Ele faria de tudo para deixar seu namorado confortável em sua casa.
Ao voltar para a sala, Damien e Pip despediram-se dos pais do britânico, o segundo os envolvendo em um abraço apertado pela última vez, e os deixaram para trás, naquela casinha do centro do distrito residencial.
Phillip fechou a porta e o casal enfim estava sozinho, ainda que em lugar público. Damien pôde enfim soltar a respiração que estava segurando e cumprimentar seu namorado devidamente.
— Então, você se divertiu… — mas antes que ele pudesse terminar de falar, Pip se jogou em seus braços, com lágrimas escorrendo pelas bochechas, e o abraçou com todas as forças.
— Obrigado, Damien. Eu nem sei como posso te agradecer o suficiente por tudo que você fez por mim.
O anticristo hesitou por um instante, apenas sentindo o britânico com os braços ao redor de si, mas logo correspondeu o contato e apertou Pip contra si. Sua mão carinhosamente acariciou seus cabelos enquanto a outra se enrolou em sua cintura, acomodando-o em seu enlaço.
Ele estava muito feliz que Pip estava feliz. Não podia imaginar que visões distorcidas do inferno ele tinha; e Damien odiaria que sua vida ao seu lado acabasse prejudicada por esses preconceitos. A vida lá é difícil, ele não negaria, mas não é tão complicado de ser levada após um certo costume. Agora que ele sabia que o britânico estava feliz, mesmo que uma felicidade momentânea, ele já podia se deixar aliviar.
Puxando Pip para a ponta dos pés, Damien selou seus lábios nos dele em um beijo breve, mas que foi imediatamente retribuído pelo britânico, seus braços apertando ao redor do namorado. Imediatamente após a quebra do contato, Damien pegou Pip por debaixo das pernas para seu colo, forçando-o a segurar-se em seu pescoço, e passou a marchar de volta para seu castelo, um sorriso pomposo em seus lábios.
Da janela, Georgina e Phillip os acompanharam com o olhar, também sorrindo. Apenas pelo breve momento em que viram seu filho e o anticristo como um casal, já puderam dizer o quão próximos eles deviam ter se tornado. Pip tinha um enorme sorriso em seu rosto e Damien retribuía em igual intensidade apesar dos toques mais delicados. Se tivessem sorte, e eles tinham certeza que teriam, Pip e Damien não se separariam tão cedo.
Enquanto isso, o anticristo, carregando Pip em seus braços, caminhou de volta para o castelo, usando o parque como um leve desvio para chegarem mais rápido. O britânico se segurava com força em seus braços e mantinha a cabeça apoiada em seu peito, enquanto seus olhos observavam seu arredores curiosamente. Damien mal podia esperar para os dois poderem fazer um passeio completo pelo inferno. Ele queria mostrar à Pip todos os lugares que ele gostava de visitar quando precisava de um tempo para si ou quando queria tirar um tempo de toda a gritaria e tortura de pecadores; ele tinha certeza de que Pip precisaria daquela informação no futuro.
Ao passarem pelo último caminho para chegar ao castelo, Pip, embora tentando concentrar-se em tudo aquilo que podia ver, notou algumas pessoas cochichando entre si e seus olhos o observando. Tendo vivido em South Park por tanto tempo, ele estava acostumado com pessoas o olhando e dizendo coisas maldosas sobre si por suas costas; mas ele não estava em South Park, e isso inevitavelmente o deixou nervoso. Ele era tão patético assim que sempre seria julgado a qualquer lugar que fosse sem que as pessoas sequer o conhecessem?
— O pessoal daqui fala bastante, não é? — ele se arriscou a dizer, ignorando os demais e olhando para Damien.
O anticristo deslizou o olhar por seus arredores, buscando de quem ele estava falando; e, de fato, as pessoas estavam cochichando enquanto olhavam para eles. Damien não os culpava, afinal ele estava carregando uma pessoa que eles nunca viram no colo em direção a seu castelo.
— É só porque você é novo. — disse ele. — Eles não te conhecem. Mas não se preocupe, logo vão se acostumar a você e te tratar como a qualquer outra pessoa. Ironicamente, as pessoas aqui são muito mais gentis do que em South Park.
Irônico mesmo, pois Pip sempre imaginou que as pessoas revelariam justamente o seu pior caso caíssem no inferno; elas já estavam mortas, tecnicamente não haveria nenhuma razão para se comportarem bem, não? Aparentemente ele estava errado.
Entretanto, agora autoconsciente de tudo ao seu redor, Damien estreitou os lábios e apertou as mãos nas pernas de Pip.
— Quer que eu te coloque no chão? — ele perguntou, preocupado com a perspectiva do britânico quanto a tudo aquilo.
Pip, no entanto, negou com a cabeça.
— Está tudo bem, eu gosto quando você me carrega. — sorriu e inclinou o tronco levemente para cima, permitindo-se pressionar um beijo na bochecha do anticristo.
Mantendo um sorriso fixo em seus lábios e com as bochechas levemente coradas, Damien seguiu caminho. Seu coração batia acelerado em seu peito e ele tinha que resistir grandemente à tentação de se lançar aos lábios de Pip e clamá-lo ali mesmo, na frente de todos os cidadãos de seu círculo.
Resistindo com todas as forças que tinha, Damien e Pip continuaram o passeio de volta para o castelo. O britânico observava atenta e curiosamente tudo o que passava ao seu redor, ansioso para descobrir tudo sobre como realmente era a casa de Damien, se era de fato como as pessoas da superfície diziam que era.
Ele ainda estava cansado, mas tomava cada oportunidade que tinha para compensar seu tempo já perdido. Por Deus, ele tinha vinte e um anos agora! Não era o momento de ficar desperdiçando mais e mais tempo, mesmo que ele esteja morto.
— Podemos parar um segundo? — Pip pediu baixinho ao reparar em algo no canto do olho.
— Por que?
Mas Pip estava de volta ao chão antes que Damien pudesse dizer qualquer coisa. Ele quase perdeu o equilíbrio se debatendo para descer, mas não aconteceu nenhuma casualidade. O britânico caminhou para dentro do parque, deixando a trilha para trás, e foi acompanhado pelo anticristo de uma certa distância. Seus olhos e pés curiosos seguiram o brilho que o atraiu por um segundo até chegar a uma espécie de lago feito de lava entre as árvores do parque.
— Vocês têm um lago de lava! — Pip exclamou em espanto.
— Na verdade é meio que um oceano; tem até peixes. — Damien complementou ao parar ao seu lado.
Pip soltou um “uau” baixinho.
— Vocês podem nadar aqui?
Com um dar de ombros, Damien mudou o peso do corpo entre os pés.
— Não sei, eu nunca entrei.
Pip sorriu e se aproximou do lago; parou bem na borda, sem chegar perto o bastante para ser molhado. Ele nunca tinha visto lava de perto antes.
— Talvez só os nascidos do inferno possam entrar… Admito que estou bem tentado a entrar, mas não quero acabar morrendo e deixar você esperando mais dois anos até meu retorno.
— De jeito nenhum.
O britânico riu com a resposta atravessada de Damien e, ao se levantar, entrelaçou seu braço ao dele.
— Não se preocupe. Eu não planejo deixá-lo em nenhum momento futuro.
Um sorriso se formou nos lábios de Damien, que desfez os braços cruzados para tomar a mão de Pip na sua.
— Eu fico feliz.
E ele realmente estava. Os últimos dois anos que ele passou esperando por Pip foram os mais agonizantes de toda a sua vida. Ele podia apenas respirar aliviado que não tinha mais que esperar.
Se afastando do oceano, o casal retornou à trilha de volta para o castelo, caminhando de mãos dadas.
— Quando você vai me mostrar o restante do inferno? — perguntou Pip.
— Achei que você talvez quisesse descansar e se adaptar no castelo primeiro, já que ainda é novo por aqui, mas, se quiser, podemos ir agora.
— É melhor não. Não quero que meus pais cheguem em casa e o jantar ainda não esteja pronto.
Damien franziu o cenho e olhou para cima por um segundo.
— Mas ainda é cedo.
— Cozinhar demora, Damien. — rebateu Pip. — Nem todos podem fazer as coisas aparecerem do nada como você.
— Eu posso cozinhar, se preferir. Iríamos mais rápido assim.
— Não precisa; eu insisto. Podemos conhecer o inferno pela manhã. Ao menos eu pude conhecer um lugar já. Seus parques são lindos, mesmo que eu não esteja acostumado a ver esqueletos por todo lado. — não era algo que o chamou muita atenção enquanto passavam pela trilha, mas foi um detalhe interessante que percebeu.
Damien sorriu com o canto do lábio.
— Se pensar demais, nós vivemos no halloween o tempo todo. — brincou.
Pip riu e levou a mão aos lábios.
— Eu não tinha pensado nisso!
Inconscientemente, Damien apertou mais a mão de Pip na sua. Ele estava com tanto medo de esquecer o quão belo era o sorriso de Pip, por tanto tempo que passou sem tê-lo ao seu lado. No fim, ele não esqueceu, de forma alguma, mas ter o britânico enfim ao seu lado, tão perto do alcance de seus dedos, era uma tentação muito maior do que qualquer outra coisa que passou em sua vida. Ele queria puxá-lo, ali mesmo, e beijá-lo até dizer chega, até que ambos esquecessem os próprios nomes.
— Puta que pariu, Pip, você deixa meu trabalho de não querer apertar suas bochechas incrivelmente difícil. — Damien admitiu em voz alta, seus olhos brilhando em claro desejo ao encarar Pip.
Ele riu mais uma vez, as bochechas coradas.
— Eu não me importo se quiser apertar minhas bochechas.
O anticristo ergueu as sobrancelhas e murmurou, como se divertisse a ideia.
Pip abriu um sorriso e, observando os dedos de Damien, esperou que o polegar e o indicador pressionassem um ao outro ao lado de seu rosto, de fato apertando sua bochecha. A surpresa veio quando Damien apertou sua bunda ao invés disso.
As bochechas do britânico prontamente ganharam um vermelho forte e seus olhos se arregalaram em choque. Ele, que conhecia Damien há relativamente bastante tempo, não esperava, de forma alguma, que ele fosse apalpá-lo de forma tão explícita na frente de qualquer um que pudesse estar passando ali para ver. A vergonha subiu por seu corpo como unhas em suas costas, estremecendo-o da cabeça aos pés.
Bem à sua frente, Damien cobriu a boca com a mão, abafando suas risadas.
— Damien! — Pip exclamou em protesto, sua voz mais fina que o normal. Mas, antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, o anticristo saiu correndo com um sorriso infantil em seus lábios.
Pip correu atrás dele, mas Damien corria bem mais rápido do que ele, especialmente nas curvas, já que sabia tudo sobre o lugar onde estavam enquanto Pip ainda era novo.
Damien não podia evitar o sorriso brincalhão em seu rosto enquanto corria; seu coração batia com força em seu peito, acompanhando seus pés na correria. Era incrível como Pip podia fazê-lo se sentir como uma criança de novo. Há muito tempo ele não fazia brincadeiras inapropriadas ou agia de maneira estúpida em geral. Apenas Pip o provocava a agir daquela maneira.
Ele continuou a correr por um tempo até uma sensação começar a subir por suas costas, uma sensação estranha. Damien olhou por cima do ombro bem a tempo de ver Pip tropeçar enquanto corria e cair de cara no chão. Arregalou os olhos e parou de correr de imediato, voltando todo o caminho de volta para o britânico.
— Caralho, você está bem? — ele perguntou e se agachou para ajudar Pip a levantar.
Entretanto, quando Pip começou a se levantar, ele usou o impulso em sua perna para se lançar em cima do anticristo e empurrar ambos ao chão. Como se tivesse planejado tudo, o britânico teve certeza de que um de seus braços se apertasse a cintura de Damien com força enquanto uma se prendia em cima de sua bunda, retribuindo o gesto que Damien tinha feito nele anteriormente.
Damien piscou para afastar o espanto e aos poucos se tornou consciente do rosto de Pip pressionado contra seu peito e a mão dele em sua bunda.
— Ok, acho que eu mereci isso.
— Mereceu. — Pip sorriu, erguendo o rosto e debruçando-se mais sobre o anticristo.
Eles se encararam por um tempo em silêncio, Pip por cima de Damien, ambos lentamente perdendo-se nos olhos um do outro. Os cabelos de Pip, que caíam na lateral de seu rosto, fazendo sombra em seus olhos, foram facilmente afastados pela mão de Damien, cujos dedos se entrelaçaram a suas mechas loiras, puxando-as para trás de sua orelha. A cabeça de Pip pendeu delicadamente para o lado, buscando o contato da mão de Damien, e seu coração simplesmente derreteu. Por Deus, Pip era demais para ele.
Ambos buscaram o contato dos lábios ao mesmo tempo, assim como ambos os dedos enterraram-se nos cabelos um do outro, aprofundando-o. Os cabelos de Pip cutucavam o rosto de Damien levemente, fazendo cócegas, mas Damien teve apenas que colocá-los atrás da orelha dele para não o pinicar e ele poder concentrar-se completamente nos lábios de Pip.
Ele jamais se cansaria disso, jamais enjoaria de beijar o britânico. Seus lábios eram como o céu contra os seus e o jeito que suas mãos entrelaçavam a seus cabelos cor de ébano e desciam para seu rosto, prendendo-o entre suas palmas, o arrepiava por completo; ele não podia evitar de perseguir o calor que Pip o proporciona. Ele queria se perder naquela sensação, afundar nela e nunca mais sair; ele queria Pip para ser seu e para ser dele por todo o resto da eternidade.
— Damien? — Uma voz soou acima dos dois, assustando o britânico e o fazendo olhar imediatamente para cima. Damien imitou o gesto de forma lenta e uma expressão frustrada. Acima deles, dois homens os olhavam com neutralidade em seus rostos, um deles mais próximo que o outro. — Desculpa, estamos interrompendo algo?
— Estão. — Damien respondeu de imediato, ao mesmo tempo em que Pip cobria o rosto por vergonha e começava a se erguer de cima de Damien.
— Sentimos muito, mas precisávamos falar com você sobre algo.
O anticristo assentiu.
— Claro, só me deem um segundo. — ele puxou Pip pelo braço quando este tentou sair de cima dele, o trouxe de volta para seu colo, deu-lhe um rápido beijo na bochecha e só então se levantou, abandonando o britânico transtornado no chão, com os cabelos totalmente desgrenhados.
Pip isolou-se em um canto do parque enquanto Damien resolvia seus assuntos com os moradores que se aproximaram dele. Ele nunca tinha passado tanta vergonha antes. Ele e Damien foram pegos se pegando no meio do parque todo! Como ele ia poder colocar a cara pra fora de casa agora?! Pip não era um estranho para sem vergonhices assim em um ambiente público, considerando que ele e Damien já transaram em cima da mesa do diretor e do conselheiro, mas eles nunca foram pegos.
Durante todo o tempo que o anticristo passou conversando com os dois rapazes, Pip passou querendo enterrar a cara na terra toda vez que algum dos dois fizeram contato visual com ele. O britânico literalmente tinha acabado de sair do limbo e já devia estar causando uma péssima impressão nos cidadãos do inferno. Aqueles homens provavelmente pensavam que ele era um pervertido, ou até pior — poderiam pensar que Damien era um pervertido, que dispensava os deveres como anticristo para ficar se pegando com o namorado no meio de parques.
Quando eles pararam de conversar, o rosto de Pip continuava parecendo um tomate; não melhorou nem um pouco. Os dois homens agradeceram à Damien pela atenção e, antes de se afastar, um deles se virou na direção de Pip e disse:
— Perdão por atrapalhar o momento de vocês. — ele abriu um sorriso amigável e Pip quis se dar um tiro ali mesmo. — Não fique acanhado, garoto. Todo mundo já se pegou em público alguma vez na vida. Não precisa se envergonhar por isso.
O homem ao seu lado assentiu, e Damien quase se pegou fazendo o mesmo. Ele ainda se recordava de quando era criança e quase encontrava seu pai e algum desconhecido transando em algum lugar aleatório da casa. Ugh.
— Boa sorte pra vocês dois. Foi um prazer conhecê-lo. — disse o segundo homem, acenando com simpatia.
— Oh! — Pip arregalou os olhos e brincou com as próprias mãos em frente ao corpo. — Hum… Idem.
Os dois logo foram deixados sozinhos novamente e Pip pôde finalmente ter seu colapso. Ele soltou um grunhido alto e bateu com a cabeça no ombro de Damien, onde começou a resmungar como se assim seus problemas fossem desaparecer.
O anticristo deu um sorriso compreensivo e acariciou seus cabelos loiros com movimentos suaves.
— Estranho?
Pip fez que sim com a cabeça.
— Nós já fizemos isso em outros lugares, mas nunca fomos… Pegos, antes.
Damien conteve-se para não rir.
— Não se preocupe. O pessoal daqui não tende a julgar. Só alguns são mais chatos, mas a grande maioria não se importa com o que você faz do seu pós-vida. Mas se isso te fizer desconfortável, eu não faço mais.
— Não, não, está tudo bem. Eu só preciso me acostumar com a ideia, mas não sou totalmente contra. Você só me assustou um pouco, nada demais. — o britânico riu forçado e imediatamente desviou o assunto. — Eles não te chamaram de majestade.
Não era exatamente um detalhe que as pessoas costumavam reparar, mas havia essa peculiaridade quanto a Damien.
— Na verdade meu título de realeza não passa disso: um título. — ele deu de ombros. — As pessoas podem me tratar da forma que desejarem, desde que mantenham o respeito e a boa compostura.
— Mas continua sendo um título.
— Sim. Eu continuo sendo o Príncipe do Mal e meu pai continua sendo o Rei do Inferno, mesmo já tendo morrido.
Pip murmurou em compreensão e as informações começaram a girar em sua cabeça. Como todo bom britânico, ele tinha um fascínio especial com famílias reais, e ele adorava ouvir sobre os tipos de governo e monarquias — era um bom entretenimento e muito divertido de pesquisar sobre — e com o inferno não seria diferente.
— Vocês não têm uma rainha?
Damien ficou quieto por um momento, o que levou Pip a acreditar que tocou em algum assunto proibido, mas o anticristo se pronunciou antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa.
— Eu não tenho absolutamente nenhuma ideia de quem é minha mãe, mas não tem importância. Eu duvido muito que ela gostaria do título. Ninguém quer ser governante do Inferno. Trabalho demais para pagamento de menos, e as pessoas te odeiam sem nenhuma razão.
Para ser sincero, às vezes Pip esquecia que Damien era o anticristo. Ele ia contra tudo que os ensinaram na igreja e tudo mais, não tinha como o britânico vê-lo como aquela criatura que descreveram para eles que iria destruir o mundo. Entretanto, ele conseguia imaginar que não deviam ser todos do inferno que desapegavam dessas visões, além de pessoas no mundo humano que poderiam ir contra Damien se colocassem seus olhos nele.
Mas Damien não era nada como as histórias que corriam na Terra.
— Eu não acho que seria algo ruim, governar o inferno. — Pip disse, encolhendo os ombros. — Eu acho incrível o que você faz por essas pessoas, Damien.
O anticristo sorriu.
— É bom ser valorizado por alguém. Obrigado.
— Sem problemas. — o britânico retribuiu o sorriso e grudou em seu braço. — Então, o que as pessoas no inferno fazem pra se divertir? Suponho que, estando mortos, ninguém tenha que trabalhar.
— Correto. Quem trabalha são os demônios, os cidadãos apenas perambulam por aí. Às vezes temos eventos para os habitantes do inferno; luaus, festas, reuniões, clubes, essas coisas. Na verdade, o inferno é bem parecido com a Terra, com a exceção de que todos já estão mortos.
— Que interessante! — Pip exclamou. — E o que mais eles fazem?
— Fodem.
Pip arregalou os olhos com a franqueza do anticristo.
— Oh…
— Perdão, eu não devia ter sido tão direto. — Damien balançou a cabeça e riu fraco.
Agora que Damien havia lhe chamado a atenção, Pip não viu nada de muito interessante que pudesse ser feito na casa de seus pais; e, já que estavam mortos, tecnicamente não teriam que se preocupar com questões de gravidez e doenças, já que as pessoas ali morriam por dano externo.
Até que não parecia uma má ideia.
O britânico apertou seu braço no de Damien e sutilmente se aproximou dele.
— Está tudo bem. Eu não sou exatamente contra. — ele disse a última parte baixinho. Inevitavelmente, ele conseguiu chamar a atenção de Damien, que o encarou com as sobrancelhas erguidas. Bom, se ele estava disposto a deixar uma brecha aberta para ele, Pip seria estúpido de não aproveitá-la. Ele sorriu com o canto dos lábios e aproximou seu rosto do de Damien ao ponto de seus narizes quase se tocarem. — E você ainda me deve por ontem à tarde.
De repente, Damien não sabia mais onde colocar as mãos. Ele se arrepiou dos pés a cabeça e seu corpo simplesmente travou. Pip tinha seus olhos completamente presos nos dele, sem a menor esperança de que ele pudesse se afastar, e quanto mais ele olhava, mais tentado Damien ficava a simplesmente fingir que o resto do mundo não existia e agarrar o britânico ali mesmo.
— Phillip, você me tenta de um jeito que nem imagina. — ele sussurrou, sem saber o que dizer, e Pip soltou um riso.
E você devolve duas vezes pior me chamando pelo meu nome.— Pip rebateu em sua mente, tentando ignorar a sensação desconfortável que atritava seus músculos sem sua permissão.
O britânico deixou escapar um gemido desconfortável e, se colocando na pontinha dos pés, inclinou-se sobre Damien, seus lábios caindo perfeitamente ao lado das orelhas pontudas dele, e sussurrou:
— Então pega.
Foda-se. Absolutamente foda-se.
Agarrando Pip pelos ombros e com um tremeluzir do fogo em seus olhos, Damien os teleportou de volta para seu quarto em uma fração de segundo, bem a tempo de empurrar o britânico de costas em sua cama.
Damien se sobrepôs a ele por dois segundos, antes de mergulhar e absolutamente devorar os lábios de Pip nos seus; invadindo-o com a língua, parando por períodos muito breves de tempo e os atacando novamente com o dobro de fome. Damien não podia esperar para tomar Pip para si novamente, ele já havia esperado por mais de dois anos.
O britânico retribuía na mesma intensidade, compartilhando da excitação e ansiedade por compartilharem aqueles momentos mais uma vez.
Cada toque de Damien em seu corpo, mesmo que ainda vestido, era como uma nova corrente de choque que o percorria sem parar; como se fosse sua primeira vez tudo de novo. Cada movimento de Damien parecia muito bem pensado e planejado; ele sabia exatamente onde segurar e onde colocar mais atenção em suas carícias para levar Pip exatamente aonde ele queria.
Em um segundo, as roupas de ambos estavam no chão, completamente esquecidas, e Damien estimulava Pip com uma mão enquanto a outra, coberta de lubrificante, conquistava passagem em sua entrada. A mão direita de Damien subia e descia no membro do britânico com cuidado e sua boca intercalava entre marcar seu pescoço e seu tronco, dando uma atenção especial aos mamilos.
A reação de Pip era imediata a cada toque, desde os suspiros e gemidos que escapavam de sua boca à forma como seus dedos apertavam o lençol e puxavam os fios de cabelo de Damien com força. Pip se sentia engolido por aquelas sensações viciantes que percorriam seu corpo; logo mais ele sequer precisaria de penetração para chegar ao orgasmo. Tantos choques corriam em sua pele ao mesmo tempo, deixavam todos os seus pelos de pé e o empurravam com força para a beira do precipício. Aquelas mãos quentes e delicadas do anticristo eram como profissionais sobre sua pele; sabiam bem onde tocar e quando tocar para provocar a maior reação do britânico.
Às vezes ele achava que Damien fazia aquilo de propósito, só para vê-lo se contorcendo de prazer na cama.
Bom, ele não estava muito longe da verdade. Uma das maiores tentações que Damien tinha de resistir ao longo do dia, que teve de resistir desde o começo de tudo, para não atacar seu namorado era vê-lo tremendo com o prazer que ele conseguia proporcioná-lo. Os gemidos, os suspiros e cada mínimo tremor era mais que o suficiente para fazer o anticristo perder completamente o controle dos próprios impulsos. Pip tinha um poder sobre ele que ninguém jamais teve ou terá em toda a eternidade; ele conseguia deixá-lo na palma da mão com muito pouco, como se Damien fosse uma verdadeira marionete a ser controlada por ele — não que ele estivesse reclamando.
Damien faria de tudo por Pip, e se a teoria de Georgina sobre o tamanho de seu apetite sexual se provasse de fato correta, ele não se incomodaria de forma alguma em proporcionar-lhe prazer quantas vezes ao dia ele quiser. Não é como se Damien precisasse comer mesmo, trocar algumas refeições por outras não faria muita diferença.
Ao conseguir inserir os dedos dentro dele por completo, Damien lentamente começou com movimentos circulares na região, aos poucos tentando encontrar aquele ponto em particular de Pip que já alcançou tantas vezes com o dedo médio. Era bom que ele tinha cortado as unhas algumas noites atrás, ou aquilo podia ter-se tornado algo bem feio.
Enquanto isso, o britânico agarrava-se desesperadamente nos cabelos e nas costas de Damien, puxando e arranhando com força na tentativa de aliviar alguma da tensão em seus músculos. Se continuasse assim, ele logo gozaria com pouco demais, e teria que se contentar com meio prato ao invés de todo o cardápio.
— Damien, vai logo. — ele sussurrou pouco antes de uma mordida em seu ombro sacudir seu corpo.
Acatando as ordens do namorado, Damien puxou seus dedos de volta para si e os substituiu de uma vez por seu membro. Ele não perdeu tempo em começar os movimentos de vaivém, e a reação de Pip foi quase que imediata. Um gemido alto escapou de seus lábios sem que pudesse contê-lo, suas mãos apertaram mais a pele do anticristo debaixo de suas unhas assim como as pernas que se entrelaçaram ao redor de sua cintura.
Damien, no entanto, que aparentemente tinha outros planos para aquele momento, puxou o britânico por debaixo dos braços e o encaixou sentado em seu colo, preso por suas pernas dobradas.
Pip não sabia exatamente como reagir, nunca tinham feito sexo naquela posição antes — e ele também não tinha visto tantos vídeos pornográficos assim para ter uma ideia de como funcionava. Ele podia sentir o membro de Damien fundo dentro de si, já tendo alcançado sua próstata, e seus músculos tremiam de antecipação; mas ele não sabia o que fazer.
Até aquele ponto, ele estava se virando apenas da forma como Damien o guiava; afinal ter uma educação sexual é diferente de fazer sexo. Pip tinha apenas a noção básica de como funcionava.
Contudo, ao sentir o primeiro movimento da cintura de Damien contra seu corpo, a reação automática de quicar para seguir o fluxo daquela sensação foi imediata, e ele não conseguiu parar depois disso. Seu corpo subia e descia em seu próprio ritmo, acompanhando as estocadas de Damien. As mãos apoiavam-se nos ombros de Damien e as unhas cravaram em sua pele, arrancando alguns grunhidos e até gemidos do anticristo, o qual, em resposta, apertou as próprias mãos ao redor de sua cintura e aceleraram seus movimentos, guiando-o junto às ondas de prazer.
Com um ritmo estável, Damien esticou a própria coluna para aproximar seu tronco ao de Pip e, ao mesmo tempo em que envolveu seu membro com uma mão e começou a masturbá-lo, afundou os lábios em seu pescoço, distribuindo beijos e chupões por toda a área que sabia ser sensível ao britânico.
Pip tremia em cima dele ao ponto de mal conseguir se apoiar nos próprios joelhos. Aquilo era demais, muita coisa ao mesmo tempo para ele poder aguentar de uma vez só. O prazer o envolvia de tantos lugares diferentes e de uma vez só que ele não conseguia nem imaginar como ainda não tinha gozado. Puta que pariu, se era isso que ele estava perdendo em todo o tempo que ficou no limbo dormindo, então talvez o melhor fosse continuar vivo mesmo, nem que ele precisasse tomar uns tapas e chutes na escola para isso.
Lentamente se aproximando do próprio orgasmo, Damien começou a acelerar as estocadas e investir mais no namorado para se certificar de que ele também chegasse ao próprio clímax. Seu lado demônio sentia-se tentado a deixar o britânico absolutamente esgotado depois disso; queria sugar toda a energia dele e afogá-lo naquelas sensações maravilhosas da mesma forma que Pip o tentava apenas por existir ao seu lado. Com cada gemido, tremor e estocada, menos controle Damien tinha sobre si mesmo. Aquela parte de si que gritava para tomar aquela alma pura e fazer dela sua tornava-se cada vez mais escandalosa e estridente, tornando-se impossível de ser ignorada — não que Pip provavelmente gostaria que Damien o fizesse.
O anticristo clamou os lábios do britânico para si em um beijo desengonçado no mesmo momento em que, por um esforço a mais de sua mão direita, Pip arqueou a coluna, envolvido pelo choque e êxtase do orgasmo. O próprio anticristo não seguiu muito atrás, precisando de apenas algumas estocadas a mais para se desfazer dentro de Pip.
Damien retirou-se de dentro dele com cuidado e os dois caíram na cama, Pip de costas e Damien sobre seu peito, cansados.
Por um segundo, o anticristo imaginou como esqueceu que aquilo era tão bom, mas a curiosidade divertida foi logo substituída por uma leve angústia. Ele esqueceu porque Pip estava morto e desaparecido por dois anos. Por Deus, como ele conseguiu passar dois anos sem Pip? Tudo naqueles dois anos parecia um borrão; ele não se lembrava de nada do que fez de relevante fora trabalhar e fazer algumas visitas periódicas à casa dos Pirrup, até que isso se tornou mais doloroso do que prazeroso e ele começou a aparecer menos e menos — eles o lembravam dele demais. Seus criados até chegaram a insinuar que ele deveria seguir em frente, como se Pip nunca fosse sair do limbo; e Damien nunca ficou tão bravo em toda sua vida ao ouvir alguma coisa sair da boca de seus criados. Ele os teria demitido se não fosse um tiro no pé — ele precisava de ajuda para lidar com toda a papelada do inferno. Fora esses pequenos eventos frustrantes, tudo era um absoluto borrão, como se ele estivesse inconsciente por meses, da mesma forma que ele estava.
Damien pendeu a cabeça para o lado e observou Pip com carinho em seu olhar. O britânico tinha a respiração descompassada, os olhos fechados e os lábios puxados levemente para cima em um meio-sorriso. Ele parecia cansado, mas claramente ainda esperava a euforia do êxtase diminuir em seu sistema.
Sem dizer nada, Damien puxou Pip pela cintura e afundou o rosto em seu ombro marcado com os olhos fechados. Ele não queria sentir nada, pensar em nada e nem fazer nada, apenas concentrar-se em Pip por um momento.
Ele estava ali, ali junto a ele, e para Damien ainda parecia mais um sonho lúdico do que parte de sua realidade. Quando voltou para casa na noite passada, ele estava completamente apavorado em voltar para aquela casa no dia seguinte. Ele não queria bater à porta e descobrir que tudo foi nada mais que um sonho seu, que Pip ainda estava no limbo e levaria muito mais tempo para que finalmente pudesse vê-lo novamente. Ele não aguentaria esperar mais, teria um colapso!
Delicadamente, os dedos de Pip se entrelaçaram aos cabelos negros do anticristo, tendo ele se virado de lado em sua direção para melhor retribuir o contato do abraço. O britânico não tinha como saber pelo que ele tinha passado em todos aqueles anos em que esperou pelo momento em que veria novamente, e Pip não estava consciente nesse tempo para saber como era a sensação, o melhor que ele podia fazer era oferecer seu conforto a Damien e assegurá-lo de que sua promessa continuava a mesma. Ele não iria a lugar nenhum.
Cedendo aos toques do britânico, Damien pôde enfim se acalmar. Aqueles toques pareciam muito reais, muito além dos sonhos lúdicos e alucinações que costumava ter quando ficava acordado até tarde demais. Ele estava de fato ali, com as mãos em seu cabelo e o deixando enterrar o rosto mais e mais fundo na curva de seu pescoço, respirando, tão próximo, seu cheiro característico, o cheiro que pertencia apenas a ele. Damien podia sentir a sensação familiar de quando uma alma translúcida estava por perto bem em cima dele, pois esta estava bem ao seu lado; e Damien podia dizer com certeza de que ele nunca sentiu sensação tão forte com nenhum outro cidadão do inferno. Todos tinham algo que borrava sua visão, mas a alma de Pip era completamente transparente; como se nem estivesse lá, apenas uma janela com vista para o lado de fora de uma casa. E Damien se encontrava mais e mais atraído por aquela sensação dia após dia.
A verdade é que aqueles dois anos longe não mudaram absolutamente nada. Damien continuava tão caído por Pip quanto sempre esteve. Mesmo que tivesse que esperar a eternidade por ele, o anticristo sabia que de forma alguma poderia substituí-lo. Ele tinha apenas a agradecer por não passar o resto de sua eternidade miserável agonizando por sua perda. Mas aquele Deus lazarento não o faria agradecer, a isso ele se recusava.
Enfim mais calmo e com as forças restauradas, Damien forçou os braços para se sentar, ainda que com dificuldade, enquanto Pip permanecia deitado.
— Pip, precisamos fazer o jantar.
O britânico, com as pálpebras semi-abertas, encarava Damien com o claro peso do sono sobre elas.
— Não consigo levantar. Você acabou comigo, Damien. — ele fechou os olhos por um segundo e suspirou. — Faz de novo.
O anticristo arregalou os olhos.
— O que?
Pip demorou para responder, sua mente ainda tardando em ser colocada de volta no lugar.
Ele pendeu a cabeça para o lado e encarou Damien com aqueles malditos olhos azuis pedintes.
— Eu não sinto a sua pele sobre a minha a mais de dois anos. Posso ter estado dormindo, mas consigo sentir a diferença no seu toque; é quente e frio ao mesmo tempo, me queima e me eletrocuta como se fosse a primeira vez, e eu sei que não estou mais dormindo. Por favor, me deixe sentir de novo.
Deus, Pip não tinha a mínima ideia do quanto Damien ficava fraco quando ele falava daquele jeito, especialmente quando o olhava daquele jeito que o deixava completamente louco e fora de si.
Damien debruçou-se sobre Pip mais uma vez, jogando o lençol para o lado de forma brusca, e atacou seus lábios com beijos frenéticos; toques aos quais o britânico não tardou em ceder.
Aproveitando o lubrificante restante do último round, não foi tão difícil para Damien e Pip voltarem ao lugar de onde pararam. O britânico agarrava-se aos ombros do anticristo com força enquanto este dividia a atenção entre as investidas e movimentos de cintura e masturbar seu membro já rígido.
Apesar de obviamente já terem feito sexo várias e várias vezes, Pip não estava mentindo quando disse que agora era como se começasse tudo de novo. Em sua pele, parecia que Damien nunca o tinha tocado daquela forma antes, como se de fato fosse a primeira vez que suas unhas corressem suas costas, seus lábios passeavam por seu pescoço e ombros e os prazeres o cobriam por dentro e por fora. Era como se ele se viciasse naquela droga mais uma vez.
Deitados na cama, o barulho da madeira rangendo entrava brevemente em seus ouvidos até ser substituídos pelos sons de gemidos e suspiros de ambas as partes. Damien conseguia sentir parte de sua mente lembrando-o do tempo curto que tinham, mas essa parte minúscula de si foi facilmente engolida pela que gritava para ir mais fundo, clamar mais daquela sensação que o mantinha preso em uma coleira e completamente desorientado. Ele queria tudo de Pip, até o último fio de cabelo.
E agora ele finalmente podia tê-lo; tê-lo por inteiro, só para ele. Depois de quase três anos de espera e toda a tortura que veio antes, Pip estava de fato ao alcance de seus dedos, longe de mãos pecadoras que pudessem querer machucá-lo.
Seu orgasmo veio de formas mais relaxantes do que Damien podia descrever em palavras.
Pip demorou um pouco mais, precisando de mais investidas e demandando mais atenção do anticristo do que sua mente nublada pelo êxtase podia dar; mas ele o fez a despeito de tudo.
No fim, sua tentativa de cansá-lo se mostrou de pouco sucesso.
O anticristo e o britânico passaram quase o dia todo dormindo pela exaustão, perdendo todas as horas que precisariam para fazer a comida e arrumar a casa em um sono pesado.
Antes que até mesmo os criados do castelo se deram conta, o dia já começou a se encerrar e os habitantes do inferno a sossegar o facho. As pessoas voltaram aos poucos para suas casas enquanto algumas saíam para dar uma volta ou ir à algum restaurante com a família, e foi só quando Phillip e Georgina chegaram ao castelo que o casal começou a despertar.
Pip foi o primeiro a acordar, tendo ouvido a agitação dos criados e decidiu sair para ver do que se tratava. Quase perdeu o equilíbrio algumas vezes, mas enfim conseguiu chegar ao cabide para pegar um hobby e sair do quarto. Ele teria acordado Damien, mas ele estava com uma cara de cansado de dar pena, então o deixou dormir por um tempo a mais.
Mas o britânico não chegou muito longe sem ter que voltar correndo para seu quarto. Ao colocar a cabeça para dentro da entrada, avistou seus pais sendo guiados para dentro por Demonius enquanto trocavam algumas conversas paralelas.
— Bem-vindos, senhor e senhora Pirrup. Meu mestre avisou que vocês viriam. Por favor, fiquem à vontade. — o criado disse ao convidá-los a entrar.
— Ora, muito obrigada. — agradeceu Georgina.
— Mestre Damien e mestre Phillip logo devem retornar com o jantar.
— Não se preocupe, não temos pressa. — seu pai o dispensou com um gesto de mão e ambos se sentaram no sofá próximo.
Pip absolutamente disparou de volta para o quarto como um torpedo. Seus pais já estavam ali e eles não fizeram absolutamente nada para o jantar. Quanta irresponsabilidade da parte deles!
O britânico praticamente se jogou em cima do anticristo para acordá-lo, chacoalhando seus ombros com desespero.
— Damien, acorda, estamos atrasados! Meus pais já estão aqui! — ele exclamou, esse mesmo desespero transbordando por sua voz.
— Mas já? — Damien murmurou ao esfregar os olhos. — Só dormimos por alguns minutos.
— Damien, estamos dormindo desde às quatro da tarde, praticamente! — Pip gritou enquanto corria pelo quarto para buscar algo que vestir.
Culpa de quem que quis um round dois quando tínhamos compromisso?— Damien rebateu em sua mente, mas não disse nada a não ser um “Filha da puta…” com a língua enrolada pelo sono.
— Como vamos fazer com a comida? — perguntou o britânico ao colocar sua roupa de volta e se livrar do hobby.
— Não se preocupe com isso. Posso resolver tudo em um estalar de dedos. Mas só dessa vez. — o anticristo estreitou os olhos e estalou os dedos.
Enquanto Pip demorava para perceber que sua roupa estava muito inapropriada para um jantar com seus pais, uma nuvem obscura baixou em sua cabeça e seu peito se contraiu em angústia.
Eles não estariam naquela situação constrangedora se não fosse por ele. Se ele tivesse mais controle de si mesmo. Pip mal tinha chego no inferno e já estava atrapalhando completamente a rotina de Damien, e esta já não era fácil para começar.
— Desculpa. — o britânico se desculpou com a cabeça baixa.
Percebendo o baixo astral do namorado, Damien se aproximou dele e o envolveu em um abraço por trás.
— Está tudo bem, só tente se controlar um pouco mais daqui em diante. — ele sussurrou e beijou a bochecha de Pip.
— Ok, eu posso tentar. — enquanto se aproveitava do carinho do anticristo por um segundo, a ficha de Pip para suas roupas grudentas enfim caiu. — Damien, acho que essas roupas não vão ficar boas para um jantar. Eu não quero que meus pais pensem que eu sou desajeitado com meu vestuário.
— Se quiser usar uma das minhas, fique à vontade. Ou posso apenas ajeitar ela pra você.
Mas Pip negou com a cabeça.
— Eu posso encontrar algo no guarda-roupa que me sirva, mas vou tomar um banho primeiro. Vá descendo para eles não ficarem esperando por alguém.
— Mas e você?
— Desço em um segundo. Apenas diga que eu não estou muito bem e vou demorar um pouco.
Damien assentiu com a cabeça e, clamando os lábios de Pip uma última vez para si, deixou o quarto para trás.
Ele fez o melhor para chegar ao primeiro andar sem se desconcentrar muito, mas a pressa e o cansaço inevitavelmente culminaram em uma demora desnecessária para descer as escadas para o primeiro andar.
— Perdão pela demora. — ele disse ao encontrar com os pais de Pip, que o cumprimentaram com um abraço e dispensaram as desculpas.
— Phillip não vai se juntar à nós? — perguntou o patriarca.
— Ele não estava se sentindo muito bem e resolveu tirar um cochilo, mas deve descer em alguns minutos. Eu estava vendo se ele estava bem, por isso demorei para descer.
Phillip apenas dispensou o assunto, preferindo voltar a atenção para a conversa. Georgina, no entanto, não caiu naquele papinho, evidenciado pela forma como ela estreitou os olhos e ergueu as sobrancelhas com um sorriso no canto dos lábios para o anticristo.
Damien corou, mas não disse nada.
Alguns minutos mais tarde, passos apressados desceram as escadas novamente, dessa vez pertencentes à Pip, que ficou um pouco para trás para escutar a conversa de Damien com seus pais.
— Então, Damien, você ainda tem frequentado South Park? — seu pai perguntou.
— Não. Desde a morte de Pip, eu não volto lá há um bom tempo.
— Espero que tenham uma vida muito longa, pois não tenha dúvida que vou acabar com todos eles quando caírem aqui. — sua mãe resmungou com os braços cruzados.
— Acredite, Georgina, estou te acompanhando na fila. — Damien sorriu e ela riu.
O britânico não se esforçou para parar o sorriso que veio a seus lábios. O alegrava muito que seus pais e Damien estivessem se dando tão bem assim. Suas três pessoas favoritas no mundo se gostavam, e isso não podia estar melhor para ele. Bom demais para ser verdade.
Ele cuidadosamente se aproximou, mantendo a postura formal a qual foi ensinado a manter, e prosseguiu a cumprimentar seus pais.
— Estou aqui! Perdão pela demora, eu não estava me sentindo muito bem.
Seus pais sorriram e o abraçaram sem questionar, fazendo questão de apertá-lo em seus braços.
— Está melhor agora, querido? — perguntou Georgina, apertando suas bochechas.
— Estou sim, mãe, obrigado. — Pip respondeu com um sorriso.
Estando tudo resolvido, Damien guiou Pip e seus convidados para a sala de jantar, onde tudo já estava pronto para consumo, em um estalar de dedos. Os quatro se reuniram em uma mesa e prosseguiram a jogar horas fora conversando e comendo. Damien comentou sobre seus deveres no inferno, Pip sobre suas impressões do lugar, seus pais sobre como a situação os estava afetando e os quatro até conseguiram entrar em um acordo sobre como as visitas de Pip funcionariam dali pra frente. Tudo correu perfeitamente bem e numa tranquilidade que seria impossível na cafeteria da escola de South Park, por exemplo.
Desnecessário dizer que Pip estava tendo um momento excelente com seus pais e namorado.
Em alguma hora, o britânico sentiu dedos se entrelaçarem aos dele por debaixo da mesa. Seu olhar foi imediatamente atraído para o de Damien, que o fitava de canto de olho com um meio-sorriso em seus lábios.
O britânico retribuiu o gesto com um aperto de sua mão e um sorriso próprio e ambos então voltaram para a conversa, alheios para o fato de que Georgina e Phillip os pegaram no mais absoluto flagra.
Eles não eram cegos, sabiam quando um casal estava de mãos dadas por debaixo de uma mesa e trocavam olhares repletos de afeto por canto de olho. Eles tinham que saber, afinal, estavam fazendo a mesma coisa no lado deles da mesa.
Não tinha como descrever a alegria que sentiram em saber que seu filho encontrou para ele o que eles levaram tanto tempo para encontrar, em especial que estava na mais definitiva altura de permanecer ao seu lado. Por quanto tempo durasse, nem que fosse a eternidade, Georgina e Phillip apoiariam a união de seu filho e do governante do inferno com todas as forças que tinham.
Ao fim da noite, Damien ficou na cozinha para lavar os pratos e o britânico acompanhou seus pais até a entrada para guiá-los até a saída e se despedir deles apropriadamente.
A noite certamente foi um deleite. Pip nunca tinha se reunido com tantas pessoas queridas ao mesmo tempo — talvez porque ele não tivesse pessoas queridas na Terra, mas isso é apenas especulação. De qualquer forma, ele ficou muito feliz pela participação de seus pais no jantar, e especialmente por vê-los se dando tão bem com seus namorado. Aliviou uma série de preocupações que ele tinha sobre seu relacionamento com o anticristo quando estava vivo.
— Muito obrigado pela visita. — disse Pip ao chegarem na porta.
— Nós que agradecemos pelo jantar. Estava maravilhoso. — agradeceu seu pai, apertando a mão de Georgina na sua e exibindo um sorriso nos lábios.
Com um sorriso de orelha a orelha, Pip lançou-se no pescoço de seus pais, os envolvendo com os braços em um abraço. Eles hesitaram por um momento, mas logo retribuíram o contato com o mesmo amor e carinho de Pip.
— Eu amo vocês. — o britânico murmurou, escondendo o rosto nos ombros dos dois. — Venham visitar mais vezes, tá bom?
Ao ouvir o apelo do filho, a reação de Georgina e Phillip foi imediata. Eles apertaram o menor em seus braços, a ponto de o erguerem do chão, e compartilharam lágrimas junto a ele.
— Oh, Phillip… Nós também te amamos. — sua mãe sussurrou em seu ouvido. — Prometo que vamos aparecer mais aqui. Vocês vão até se cansar da gente.
Pip riu baixo e soltou um suspiro contra os ombros de Georgina e Phillip, finalmente relaxando apesar de estar acima do chão. Era bom finalmente se sentir como parte de uma família. Ele tinha ganhado o que quis a vida inteira, e ele não podia evitar de chorar, mesmo que fosse pela vigésima vez só nos últimos dias. Não que ele se importasse, o peso em seus ombros parecia diminuir toda vez que uma lágrima escorria por suas bochechas. Ele esteve contendo aquelas angústias por tanto tempo, e agora elas foram tiradas de seus ombros de forma tão súbita, foi um completo choque.
As mãos delicadas de Georgina acariciaram as costas de Pip com movimentos calmantes, da mesma forma que ela lembrava fazer quando seu pequeno acordava durante a noite quando havia tempestade de raios. Ela sentiu tanta falta dele. As coisas podiam não ser mais as mesmas, mas seu pequeno continuava seu pequeno ainda assim, e ela o amava com cada fibra de seu ser.
— Tenho certeza de que você será muito feliz aqui embaixo, querido. Não será agradável a princípio, mas verá que logo se acostuma com os gritos e o calor.
— Não se preocupe comigo, mãe. Eu vou ficar bem. — ele disse com um sorriso e apertou mais os braços ao redor dos dois.
E pelo que deveria ser a primeira vez, Pip sentia que era verdade.
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