Darker Days

19 Compromisso com o diabo


Pip estava absolutamente amando seu novo trabalho no inferno. As pessoas eram gentis com ele e muito compreensivas quando ele não sabia responder alguma pergunta que elas o faziam, além de terem aceitado seu relacionamento com Damien com extrema facilidade!

As coisas pareciam realmente estar indo bem para ele no inferno, estava gostando bastante das coisas por lá.

O britânico estava em sua ronda diária pela área residencial do nono círculo, esperando que as pessoa viessem à ele para reclamar e comentar sobre a situação em que se encontravam, qualquer coisa que pudesse ajudar a ele e Damien a tornar o inferno um lugar mais agradável para aqueles que mereciam. Ele atendia desde adultos à crianças e idosos, pessoas das mais diversas idades, religiões e etnias. Todos vinham à ele por ajuda. Fazia Pip se sentir querido. Ele estava verdadeiramente gostando daquele trabalho.

Enquanto passava por uma das regiões menos movimentadas da área residencial, ele tinha acabado de conversar com uma garotinha quando um par forte de mãos chocou com suas costas, levando seu corpo ao chão.

Ele não teve tempo de ver quem era, pois passaram sobre ele com muita velocidade e seu rosto estava no chão antes que ele pudesse fazer qualquer coisa quanto a isso.

Seu primeiro instinto foi o de imaginar que foi apenas um acidente; ele sabia como as crianças podiam ser desastradas em sua pressa por encontrar o que fazer. Entretanto, pouco tempo se passou desde que ele se colocou de pé para que um chute na canela o levasse de volta ao chão.

Antes que Pip pudesse tentar se levantar, a despeito da dor, dedos grosseiros agarraram-se a seus cabelos e seu braço, puxando ambos para cima com força ao levantá-lo do chão.

O ar foi arrancado de seus pulmões assim como alguns fios de sua cabeça, tamanha foi a força com a qual ele foi puxado. Pip tentou se debater para se soltar daquelas mãos pesadas, mas elas só se agarraram ainda mais a seu corpo, como se estivessem presas ali.

— Olha só quem temos aqui. — uma voz grossa carregada de malícia e extremamente familiar sussurrou em seu ouvido e Pip tremeu da cabeça aos pés.

Ele foi logo tomado por uma sensação de medo que já não sentia há muito tempo. A adrenalina correu com pressa em suas veias, cada microfibra de si gritando para sair correndo, ao mesmo tempo que uma pequenina parte de si sussurrava que não tinha jeito; independentemente do quanto ele lutar, ele sabia muito bem o que estava vindo e o que aconteceria com ele se tentasse se soltar.

Pip pôde apenas travar e deixar suas mãos tremerem enquanto Trent Boyett largava seu braço apenas para passar o dele ao redor de seu pescoço, efetivamente prendendo-o no lugar pela pressão em sua garganta.

Ele estava de costas, mas quase conseguia vê-lo: o sorriso maldoso em seus lábios, a tensão em seus músculos e a vontade de machucar correndo por suas veias, o prazer visível em seu rosto ao ver o britânico sangrando e gemendo de dor no chão.

Uma risada perversa ecoou em seus ouvidos, fazendo seu sangue gelar e seu corpo tensionar, preparando-se para o impacto de um soco ou um chute nas pernas.

— Você não achou que ia escapar dos seus problemas morrendo, não é, francês? — a voz dele cuspiu em seu ouvido, quase literalmente pela proximidade de sua boca.

Os olhos de Pip se arregalaram ao sentir algo afiado pressionar ao lado de sua barriga, pouco a pouco aumentando a pressão e começando a romper o tecido de sua roupa e a fina camada de pele que protegia seus músculos e sua carne.

— Não importa onde você for ou quem estiver com você, nós vamos te achar e te colocar de volta no seu lugar. — Trent sussurrou com falsa delicadeza em seu ouvido, perto demais para conforto, e, como para sustentar a própria fala, deu um forte chute na canela e atrás do joelho do britânico, levando-o ao chão e quase sufocando-o com o braço ao redor de seu pescoço. — De novo e de novo e de novo e de novo. E não tem nada que você possa fazer pra nos parar; nem você e nem o seu namorado boiolinha.

Trent cravou a faca com força na lateral de sua barriga, arrancando um imediato grito de dor do britânico, e o chutou nas costas para prendê-lo de vez no chão. Ele se debruçou sobre ele e, tendo-o debaixo de si, voltou a esfaqueá-lo na lateral do corpo com toda a força que suas mãos revoltadas conseguiam.

A cada movimento, Pip conseguia sentir seus órgãos gritando em protesto com o objeto cortante invasivo em seu corpo, um intruso que não devia estar ali, e ele já não podia conter as lágrimas de dor que ameaçavam escorrer por suas bochechas.

Quando a faca parou de cortar sua pele, Pip podia praticamente sentir seus intestinos capengando para o lado, atraídos pelo corte que seu bully fez ao lado de seu corpo. Por que ele não estava morto? A dor só aumentava mais e mais e não mostrava nenhum sinal de parar. Ele só queria morrer.

Trent o deixou agonizando no chão e deu a volta, já com o pé erguido para dar-lhe um chute na lateral do rosto. A ponta do sapato pegou bem no ouvido de Pip, e tudo se tornou estática. Ele não conseguia ouvir praticamente nada, mas a dor continuava com cada chute, um mais forte que o outro, que Trent desferiu ao lado de sua cabeça.

Ele o agarrou pelos cabelos e desferiu o próximo em seu rosto, por certo quebrando seu nariz e cortando o lábio, se o gosto de sangue em sua boca dizia qualquer coisa sobre ele.

Pip queria gritar, espernear, fazer qualquer coisa menos jazer inútil no chão, mas não tinha jeito. Ele não poderia lutar nem se quisesse, Trent acabaria com ele antes que ele tivesse chance, pois Pip era apenas um francês fraco e inútil, que não servia para nada além de ser constantemente judiado por qualquer um que precisasse descontar a raiva em alguma coisa. É o que ele para sempre seria, vivo ou morto.

— Dói não dói? — caçoou Trent enquanto continuava a chutá-lo, o pé agora entrando no machucado deixado pela faca. Pip gemeu de dor, sua garganta já fraca demais para reproduzir qualquer outro som. — Por que não descreve a dor pra mim? Vamos ver se é pior do que ser queimado vivo. Ah, espera, você já sentiu isso também, não é?

Um breve flash da semana em que conheceu Damien passou por sua cabeça, e a dor invadiu seu peito tão rápido quanto a lembrança chegou. O único amigo que ele pensou ter, a única pessoa que falou com ele sem ser em tom de desprezo ou escárnio, o esfaqueou pelas costas na primeira oportunidade que teve. Ele o traiu na primeira oportunidade que teve de se tornar popular e deixou Pip para trás sem pestanejar, como se ele não fosse nada.

Mas como ele poderia culpar Damien por isso? Não é como se ele também gostaria de continuar na própria companhia. Quem é que gostaria de passar tempo com um órfão francês inútil como ele?

Ao se cansar de chutá-lo, Trent o agarrou pelos cabelos de novo e o puxou para cima, sustentando-o por debaixo dos braços para deixá-lo de pé. Ele balançou a faca ensangüentada perigosamente perto de seus olhos, com movimentos pendulares.

— Eu me pergunto como a sua carinha de lua ficaria com um pouco mais de vermelho nela. Não quer descobrir?

Os olhos azuis encharcados do britânico se arregalaram quando a faca não penetrou em seus olhos, mas em seu braço. Movimentos sem padrão pintavam sua pele branca, derramando o vermelho de suas veias no chão e em sua roupa; uma mistura de feridas novas com antigas que se abriam novamente. Ele podia sentir sua pele se abrindo para seus músculos derramarem o sangue por aqueles cortes sujos e cobertos de pus, escondidos debaixo de uma fina camada de papel higiênico dissolvido.

Ela estava mirando em seu rosto.

— Vou fazer o que sua prima não teve coordenação pra conseguir. — Trent caçoou mais uma vez, ao ritmo que a faca cortava mais e mais fundo em seu braço, rompendo qualquer coisa que estivesse em seu caminho. Por que ele ainda não estava morto? Por favor, alguém o mate!— Ela pode me pagar com um hambúrguer depois; não é como se você valesse muito mais que isso.

Trent tirou a faca de seu braço e delicadamente a pressionou contra o canto de seu lábio, trilhando suavemente o caminho que ela seguiria para perfurar sua pele, desde o canto direito da boca à orelha direita e desde o canto esquerdo da boca à orelha esquerda, ele ia rasgar metade em um sorriso psicótico, quase tão horrível quanto o dele.

Ele voltou o objeto cortante ao local inicial, o canto direito de sua boca e pressionou levemente a lâmina sobre a superfície sensível, o sangue começando a escorrer em uma fina linha até seu queixo.

Não importa o quanto Pip tentasse se debater, Trent apenas apertava ainda mais os braços ao redor de si, mantendo-o fixo no lugar, sem a menor esperança de escapar da completa dilaceração.

Ele não podia fugir, não podia morrer, estava perpetuamente preso naquele ciclo de tormento. Mas Pip deve ter merecido de alguma forma. A dor, o sofrimento e a tormenta, ele certamente fez algo para merecer aquilo. Sua existência patética não servia para mais nada além de ser uma pedra no sapato de todos. Ninguém se importaria com seu sofrimento e resmungos patéticos; se Pip desaparecesse, ninguém se importaria, talvez até fosse melhor.

O corpo do britânico cedeu e pendeu sem vida nos braços de Trent, à mercê de qualquer crueldade que ele escolhesse fazer com ele. Inútil do jeito que era, Pip não poderia fazer nada para impedir o que estava prestes a acontecer. Se sua existência não valia de nada, ao menos alguém ficaria contente com algo que viesse dele, mesmo que este algo seja dilacerar sua mandíbula e desfigurar seu rosto até ele não passar de uma pilha de pele e carne exposta.

Antes de continuar a trilha pelo rosto contorcido em dor, Trent ergueu o olhar para a frente, seus olhos azuis reluzindo na luz do fogo.

— O que você tá olhando, aberração? Não é como se você pudesse fazer qualquer coisa pra me parar.

Damien acordou suando frio. Sua respiração estava ofegante e o coração batia no peito com uma força inimaginável.

Ele não tinha um pesadelo a muito tempo, e aquele deve ter sido um dos piores. Ele não só viu toda aquela atrocidade acontecer com a pessoa que ele mais ama, mas foi como se pudesse sentir o que Pip sentia na hora. Ele sentiu o quão cansado ele estava, o quão horrível a pressão em seus ombros caía e o quanto ele daria para simplesmente ir embora.

Quando seus olhos se voltaram para o espaço ao seu lado, Damien percebeu que estava sozinho, e seu coração parou de bater. O lado da cama de Pip estava feita, como se nunca tivesse sido ocupada em primeiro lugar. Conforme seus pensamentos aceleravam, mais o anticristo se desesperada, a adrenalina correndo em suas veias como louca.

Não. Não, não.

Damien se levantou da cama correndo e disparou para fora do quarto. A preocupação martelava em seu peito e sua cabeça latejava com aqueles pensamentos e a vaga lembrança de todas as cenas de seu sonho passando por seus olhos cada vez que ele abria uma porta do corredor.

Mas Pip não estava em lugar nenhum.

Não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não…

Quando ele estava prestes a começar a gritar seu nome, um cheiro de queimado entrou em suas narinas, acompanhado pelo som de tosses secas. Seus olhos se arregalaram e o coração parou de bater por um segundo.

Damien correu para a cozinha o mais rápido que pôde, ignorando tudo que seus criados pudessem ter falado para ele no meio do caminho.

Uma vez que entrou no cômodo, uma fumaça preta subiu em seu rosto e Damien começou a tossir.

— Pip?

Em frente ao fogão, mas mais em meio à fumaça do que qualquer coisa, o britânico agitava a mão para afastar dita fumaça enquanto tossia desesperadamente.

Damien correu em sua direção e prontamente o tirou de perto da fumaça, de volta para o corredor, e bateu de leve em suas costas para ajudá-lo a recuperar o fôlego.

— Tá tudo bem, respira fundo. — Damien murmurou enquanto acariciava as costas de Pip, mas ao mesmo tempo tomava as próprias palavras para si mesmo.

Uma vez que o britânico conseguiu recuperar o fôlego ele imediatamente tentou levantar, o que provou ser um erro pois tanto ele quanto Damien quase caíram no chão, o loiro tendo se segurado com força em seu braço.

— O que você estava fazendo? — Damien perguntou, assustado.

Pip balançou a cabeça e se colocou de pé, coçando o nariz enquanto se colocava em seus pés.

— Desculpe se te acordei. Eu estava tentando fazer alguma coisa decente pro café da manhã, mas parece que eu realmente não levo jeito pra cozinhar. — ele abriu um sorriso torto, tentando aliviar a própria tensão de ter quase explodido a cozinha, mas o anticristo continuou cabisbaixo. — Damien, está tudo bem? Você parece triste. — a princípio, ele não respondeu e apenas desviou o olhar, mas ele sabia que Pip não se contentaria em apenas observar sua expressão cansada; o britânico era curioso. — Qual o problema?

Não é nada, ele quase disse, mas lembrou da promessa de dedinho que fez para Pip há três anos atrás, quando ainda estava em South Park. Ele não mais esconderia coisas de Pip, ainda mais agora que o britânico já estava morto de qualquer forma.

Por mais que doesse ter que tirar aquelas palavras de sua boca, Damien não mais conseguia olhar para aqueles olhos azuis e mentir.

— Eu sonhei que você não estava… Bem.

Ele não conseguia falar aquilo. Não conseguia dizer para Pip a cena horrenda e tão real que viu em seu sonho. Ele não podia relembrá-lo daquele tormento, muito menos do que poderia ter acontecido se ele de fato não pudesse ter feito nada para ajudar o britânico.

Pip pareceu confuso por um segundo, permanecendo em silêncio e apenas sentindo o anticristo o segurar em seus braços. Mas ao sentir uma carícia em especial em seu braço, seu braço machucado, Pip entendeu o que Damien quis dizer.

Seu peito se contraiu em empatia e o envolveu em um abraço.

— Oh, Damien… Eu sinto muito que você tenha sonhado com isso.

— Não peça desculpas por algo que você não tem controle. — Damien balançou a cabeça. — Não foi sua culpa eu ter sonhado com isso.

Pip não tinha a menor ideia como só ouvir sua voz já fazia horrores para melhorar a saúde mental de Damien.

— Posso pelo menos me desculpar por ter queimado a comida. Não acho que isso deve ter te ajudado muito com sua preocupação… — Pip desviou o olhar com um meio sorriso no rosto, tentando claramente desviar o assunto para não continuar adicionando ao mal-estar do anticristo.

Damien sorriu e afagou os cabelos de Pip.

— Não precisa se preocupar com isso. Eu fico com a cozinha.

— Mas me sinto um pouco mal por deixar tudo nas suas costas.

— Não se preocupe, sei o que estou fazendo. Mas, se importa tanto para você, eu não me importaria com um pouco de ajuda.

Pip sorriu, assentiu vigorosamente e acompanhou o namorado até a cozinha.

O anticristo abriu a janela para se livrar da fumaça e, com alguns sopros de vento, a cozinha estava quase que como nova, sem contar o cheiro de queimado e a bandeja de pedras carbonizadas que foi deixada na pia.

— Acho melhor jogar esses fora… — Pip pegou as luvas para jogar o conteúdo da bandeja fora, mas Damien foi mais rápido e roubou os biscoitos torrados antes que o britânico pudesse pegá-los. — Damien!

— O que? Eu adoro biscoito queimado. — ele disse de boca cheia. — Estão ótimos, querido. Eu adorei.

Pip levou a mão à boca para conter a risada.

— Bom saber que não serão desperdiçados.

Depois de comer tudo da bandeja, Damien puxou Pip para ajudá-lo a fazer o café para ele, afinal o britânico devia estar faminto depois de quase morrer asfixiado.

Era estranho pensar que logo faria dois meses que Pip estava morando no inferno. Apesar de tanto tempo passar, ele ainda não estava acostumado com aquela rotina parada e de nada para fazer. O britânico passava a maior parte de seu tempo lendo, os livros que Damien guardou para ele de quando estava vivo, andando pelo castelo ou simplesmente fazendo companhia a Damien enquanto ele trabalhava. Até o presente momento, Pip nunca saiu de lá para conhecer o inferno. Já pensou várias vezes em fazê-lo, mas nunca conseguiu se obrigar a isso. Toda vez que tentava, ele fraquejava e voltava para o quarto de Damien. Ele só saía para visitar seus pais, nada mais.

Ao menos isso o dava tempo para decidir o que fazer com seu pós-vida, já que ele não tinha mais que sair para trabalhar, estudar, se formar e todas as coisas que queria quando em vida. Agora ele sabia que cozinhar definitivamente não era uma dessas coisas.

Cerca de meia hora depois, o casal terminou de cozinhar uma fornada de biscoitos e se sentou à mesa para comer. Damien já estava satisfeito e só observou Pip comer por um tempo antes de se levantar e o abraçar por trás, enterrando o rosto no topo de sua cabeça.

Já faz mais de dois meses que Pip tinha voltado, que estava no inferno e estava seguro debaixo das asas de Damien, mas o anticristo ainda tinha a sensação de que aquilo era muito bom pra ser verdade.

Ele passou dois anos aguardando o retorno de Pip pacientemente, e mais de uma vez quase perdeu a esperança de que ele algum dia fosse voltar, pois não era incomum que almas acabassem presas no limbo para sempre. E aquele pensamento o atormentava dia e noite, e não tinha nada que ele pudesse fazer a respeito.

Sempre que Damien acordava, ele temia abrir os olhos, pois sempre temia que ao fazê-lo não encontrasse o britânico dormindo ao seu lado. Ele tinha que constantemente se lembrar de que ele estava sob sua guarda, era sua responsabilidade oficial, e ninguém mais poderia tirá-lo dele.

Mas era tão difícil quando ele não conseguiu protegê-lo quando estava vivo.

Seus braços se apertaram ao redor de Pip e quando este terminou de comer, virou em sua direção e puxou o anticristo para seus braços. Ele adorava quando Damien ficava extra afetuoso consigo; seus abraços eram tudo que ele precisava quando se sentia sozinho. Deus, se ele pudesse manter Damien ao seu lado assim para sempre, ele não hesitaria um segundo para concordar.

— Eu te amo. — o britânico gentilmente sussurrou e apoiou a bochecha no ombro do anticristo.

O coração de Damien pulou em seu peito e ele puxou Pip para um rápido beijo nos lábios. Suas mãos subiram para seu rosto e entrelaçaram-se a seus cabelos, massageando o couro cabeludo com gestos suaves.

Ele o manteria grudado nele o dia todo se pudesse. Não queria largá-lo nunca mais. Por toda a eternidade, Pip seria seu tanto quanto ele queria ser dele. Damien daria seu reino inteiro sem questionar para que Pip soubesse o quanto de fato ele significava para ele. Ele era seu tudo.

Os dois trocaram sorrisos apaixonados ao separarem os lábios e foram arrumar a cozinha, já tendo terminado de tomar o café da manhã.

— O que acha de sairmos um pouco hoje? Pra você conhecer o pessoal daqui. — perguntou Damien enquanto iam para a sala.

Pip não tinha muita certeza sobre isso, ainda estava um pouco nervoso de conhecer a todos — por isso a demora para sair do castelo -, mas sabia que inevitavelmente teria que sair alguma hora.

Percebendo a apreensão no rosto de seu amado, Damien tomou sua mão e trouxe seu rosto para si com a outra.

— Não se preocupe, eu vou estar com você o tempo todo.

O britânico sorriu e assentiu.

Com os anos, Pip passou a ter um certo desgosto por socializar. Não só as pessoas não o aceitavam quando ele tentava se aproximar, como efetivamente iam atrás dele quando ele se afastava, apenas para jogá-lo no chão mais uma vez. Mas o inferno não podia ser assim, não pela forma como Damien parecia tão despreocupado quanto a tudo. Pip estava com medo, ele não queria voltar as coisas como eram em South Park. A tortura do isolamento e rejeição já era o suficiente para uma vida só, ele não precisava disso em seu pós também.

O tempo no limbo tinha ajudado de certa forma, não doí tanto quanto antes, mas sempre que Pip fechava os olhos, ele conseguia senti-las. As cicatrizes gritantes em seus braços, pernas e rosto, a sujeira dos comentários desprezíveis impregnando sua pele e seu sangue gelando quando uma sombra se projetava acima dele.

Ele não queria passar por isso de novo, não quando as coisas finalmente estavam dando certo para ele. Ele estava cansado de acordar em armários, levar tapas e fazer as coisas para os outros como se fosse um serviçal. Ele só queria poder focar em si mesmo pra variar, era tanto para pedir?

Aparentemente sim, pois olha o que acontecia com ele quando ele fazia as coisas certo. Era como se Pip tivesse nascido para sofrer.

Pelo menos era o que ele achava até conhecer Damien.

Ele ainda estava com aquilo na cabeça quando a hora de deixarem o castelo chegou. O nervosismo martelava no fundo de sua cabeça como se fosse feito de tijolo e seu coração palpitava de uma forma muito incômoda, seu peito parecia se contrair ao nível que desapareceria em sua caixa torácica se ficasse um milímetro menor. Contudo, ainda assim, ele tomou a mão de Damien quando foi oferecida a ele e os dois deixaram o castelo sem dizer mais nada.

O inferno era bem mais parecido com a Terra do que Pip esperava. Eles tinham casas, parques, até uma fonte, todo o tipo de coisa que ele via quando saía para dar uma volta. Alguns centros comerciais apareciam ao longe, em forma de placas e propagandas chamativas, e Pip teve quase certeza de que viu um cais com barcos a vela quando passaram próximos à “água”. Aquele certamente era um lugar curioso e ele não mentiria que estava ansioso para descobrir mais sobre o lugar onde Damien morava e tudo que tinha lá. Seu medo ainda era existente, mas como todo bom curioso, o outro lado fala mais alto.

Ao se aproximarem de um restaurante para almoçar, Pip apertou a mão do anticristo na sua, engolindo em seco e em nervosismo. Havia muito mais gente ali do que em todo o trajeto que fizeram até agora e ele não podia evitar de ficar nervoso. Era puramente irracional, mas seu corpo parecia continuar insistindo que alguma coisa pularia de trás dele e o golpearia na cabeça, ou o daria um chute na barriga.

Damien retribuiu o contato e puxou o britânico para mais perto de si. Ele tinha plena noção de que Pip não sabia lidar com tudo que aconteceu, mesmo depois de passar tempo no limbo, por isso mesmo precisava o dar o máximo de conforto possível para que ele se sentisse acolhido bem em sua casa.

Ele entrelaçou seus dedos aos de Pip quando chegaram na entrada e pediram uma mesa. O atendente do dia não os questionou sobre qualquer coisa além do tamanho da mesa que queiram e foi embora logo depois.

A respiração de Pip travou em sua garganta quando se sentaram. A mesa era pequena e ele estava sentado bem próximo a Damien, o que o dava um certo conforto, mas a quantidade grande de pessoas ao seu redor o deixava muito desconfortável.

Mais uma vez Damien apertou sua mão e o assegurou de que tudo ficaria bem. Puxou o cardápio e o entregou primeiro para Pip, assim ele se distrairia com alguma coisa que não fosse as pessoas ao seu redor.

O tempo então foi passando e a comida do casal chegou, permitindo-os enfim focar em algo diferente que não fosse o silêncio que os envolvia — e a comida era mesmo muito boa.

Pip soltou um suspiro após terminar sua salada. Até agora a experiência não estava sendo tão ruim. As pessoas sequer pareciam tomar nota de sua existência. Ninguém falava com ele, olhava pra ele ou chegava perto dele. Não sabia se era por conta de Damien estar ali, mas as pessoas realmente pareciam ignorá-lo, ou simplesmente seguiam com suas vidas e fingiam que eles não estavam ali. Não incomodava o britânico, ele gostava de não ser notado, pois o dava algum tempo para descansar sua cabeça e não se preocupar se alguém o empurraria no chão ou o acertaria com algo na cabeça.

Contudo, com o tempo livre que conseguiu após terminar a comida, a sensação de estar sendo observado pareceu rastejar por suas costas como uma aranha, deixando-o muito desconfortável. Para todo lugar que ele olhava, olhos pareciam segui-lo, encarando de perto, arregalados e atentos.

Pip engoliu em seco.

— Você também está com a sensação de ser observado? — sussurrou para Damien, remexendo as mãos em seu colo.

O anticristo sutilmente encarou ao seu redor e, de fato, algumas pessoas ali estavam os espiando pelo canto dos olhos, mas ele não percebeu nenhuma má intenção ou qualquer outra coisa que pudesse prejudicar o loiro.

— As pessoas do inferno são muito curiosas, e nunca viram você antes. Acredito que estão estranhando alguém novo estar andando comigo, já que eu raramente venho pra esses lados.

Pip murmurou em compreensão e tentou relaxar. Não tinha nada com que se preocupar. Aquilo era normal. Não tinha motivo para ficar nervoso ou com medo.

— Você também não é muito do tipo que sai de casa, não é, Damien? — ele perguntou com um sorriso. Talvez desviar o assunto melhorasse sua tensão.

Damien negou com a cabeça.

— Me tornei mais caseiro com o passar dos anos, mas gosto de sair em ocasiões especiais.

O britânico ergueu as sobrancelhas.

— Oh, e hoje é uma ocasião especial?

— Se eu puder passar com você, sim. — Damien respondeu tomando suas mãos.

Um sorriso largo surgiu em seu rosto e ele retribuiu o gesto de afeto.

Pip estava certo: desviar o assunto melhorou sua tensão.

Depois do almoço, ambos pagaram a conta e foram caminhar pelo parque e refletir. Não era tanta gente que vinha naquela área, preferindo ficar em áreas mais movimentadas, o que tornava o lugar perfeito para Pip, já que estava tão incomodado com multidões.

— Como você vê seu futuro aqui? — Damien perguntou à Pip ao se sentarem à beira da fonte.

— Não tenho muita certeza. Eu tenho gostado bastante até agora. É um tanto monótono, mas parte disso é culpa minha já que eu não saio de casa. — Pip coçou a nuca e sorriu torto. — Fora isso, acho que eu não me importaria de passar meu pós-vida sentado numa poltrona lendo livros. Nesse aspecto, meus colegas não estão errados sobre mim: eu sou um pouco nerd.

Damien riu.

— Livros eu tenho aos montes. Não precisa se preocupar com isso.

— De fato, e agradeço muito por sinal. — Pip acenou com a cabeça e o silêncio surgiu mais uma vez, preenchido pelo som da água da fonte.

— Você se vê indo à algum lugar? — Damien voltou a perguntar depois de um tempo.

— Li em algum lugar que vocês tem barco a vela. Eu nunca velejei antes e me parece muito divertido.

— Faremos isso algum dia então.

Pip observou Damien atentamente, notando a forma como seus lábios de estreitaram em uma fina linha e suas sobrancelhas estavam levemente franzidas, como se estivesse em pensamento profundo.

Não demorou muito para ele compreender o porquê. Pip tomou uma das mãos de Damien na sua e entrelaçou seus dedos. Ele ergueu o olhar e carmim se encontrou com azul.

— Damien, não precisa se preocupar comigo. Eu sou do tipo que não se incomoda com pouco.

O anticristo apertou a mão do britânico com um suspiro e escorregou para mais perto dele.

— Eu me preocupo porque não quero que você seja infeliz aqui. Não é todo o tempo que eu posso passar com você e não quero que sinta que estou te abandonando.

— Pare de se preocupar com isso, bobo! — Pip respondeu. — Faça seu trabalho e não se preocupe comigo. Contanto que eu saiba onde você está, está tudo bem por mim. Eu não me incomodo, Damien, de verdade. Não interrompa seu trabalho por minha causa.

— Mas você está confortável fazendo apenas isso? — protestou Damien.

Pip quase riu.

— É claro. Damien, eu realmente não me importo desde que possa continuar com você e meus pais. Vocês são os únicos que importam pra mim.

Damien compreendeu o que Pip queria dizer, mas sua preocupação ainda era evidente em seu rosto. Ele só queria que Pip se adaptasse bem no inferno e que não sofresse como sofria na Terra.

— Algumas pessoas tem crises existenciais quando passam muito tempo aqui. Se quiser que eu faça algo para melhorar sua situação caso aconteça algo parecido…

— Não se preocupe, eu falo com você se acontecer alguma coisa. — Pip o assegurou e deu um beijo na palma de sua mão.

As bochechas de Damien coraram e ele contraiu os dedos de leve, roçando a ponta de um dos dedos nos lábios de Pip.

— Tudo bem então. Fico feliz que possa considerar minha casa a sua casa.

Pip sorriu.

— Eu acredito que uma casa, além do físico, é qualquer lugar onde você está com pessoas que você ama. Então é claro que o castelo é minha casa, Damien, você está nele.

Retribuindo o sorriso, Damien acariciou a bochecha de Pip com o polegar e o puxou para um abraço caloroso e terno, que queimava com todo o calor e fogo ardente que o anticristo tinha em seu peito.

Ele queria manter Pip perto de si para sempre. Queria tê-lo ao seu lado para o resto de sua eterna existência. Nunca se cansaria dele e passaria todo o tempo com um sorriso em seu rosto se pudesse apenas ouvir sua voz falando sobre seu dia enquanto seus olhos focavam em seu trabalho, ocasionalmente desviando o foco para ver o brilho charmoso que reluzia nos seus.

Damien queria poder sempre acordar e saber que Pip estaria esperando por ele onde quer que esteja, que ele não precisava se preocupar e sempre poderia encher o britânico de abraços e beijos carinhosos e cheios de amor. Poder sempre pensar nele e este com ele, mesmo se estivessem separados.

E ele sabia exatamente como.

(...)

Comparado às primeiras semanas, acordar no inferno agora não era mais uma experiência tão inusitada assim para Pip. Admitidamente foi difícil se acostumar com os gritos de terror no meio da noite e os pesadelos que eles induziram, mas, conforme o tempo foi passando — ou pelo menos ele achava que o tempo passava — as coisas foram normalizando. Ele levantava todo dia quando o relógio de Damien diziam ser sete da manhã e se mandava para a cozinha para fazer algo para comer. Pip não era do tipo de pessoa que conseguia acordar tarde, pois sentia que estava jogando todo seu dia fora. Ele podia estar morto, mas por que ele usaria sua morte para dormir sendo que ele já passou dois anos inteiros fazendo isso? E além do mais, acordar cedo significava que ele tinha a chance de ver Damien dormindo, sem aquelas rugas de expressão irritadas em seu rosto; era um dos únicos momentos em que ele parecia tranquilo.

Mas naquele dia, quando Pip acordou, Damien já estava de pé. Não era incomum, mas o britânico sempre se espantava quando acordava e a cama estava vazia, pois Damien geralmente o acordava junto a ele quando levantava mais cedo para que pudessem fazer o café da manhã juntos.

Pip se levantou e se espreguiçou para depois seguir direto para o andar de baixo para procurar Damien. Ajeitou as mangas enroladas de seu pijama semi-novo, o qual comprou logo após se mudar para a casa de Damien, e seguiu para a cozinha. Encontrou o anticristo de imediato, este debruçando-se sobre a pia para colocar água dentro da chaleira.

— Bom dia. — o britânico cumprimentou com a voz sonolenta.

— Bom dia. — Damien respondeu por cima do ombro. — Perdão por não ter te acordado, mas você estava com uma cara de sono ontem à noite e quis te deixar dormindo.

— Não tem problema. — disse Pip ao se aproximar. — Pelo menos eu não demorei demais e perdi o café.

Pip se colocou na ponta dos pés para dar um selinho de bom dia em Damien e sentou-se logo à mesa para esperar pelo restante do café. Depois do último desastre na cozinha, ele não chegaria perto de um fogão tão cedo. Não que Damien se incomodasse de cozinhar para ele de manhã. Na verdade, ele não se importaria nem um pouco se pudesse cozinhar para ele pelo resto da eternidade.

Com um sorriso inconsciente nos lábios enquanto esquentava a chaleira, Damien remoeu como esperar cinco meses para juntar dinheiro suficiente para fazer o que queria fazer o deixou extremamente agoniado. Mas! Ele conseguiu o suficiente no fim das contas e também um espaço na sua agenda para que pudesse encaixar o dito compromisso. Sua única amargura era a necessidade de voltar à superfície para fazê-lo.

Após o almoço, Pip se aproximou de Damien e o disse:

— Vou passar na casa dos meus pais, tudo bem?

— Está bem. — Damien concordou, rindo mentalmente pela falta de noção de Pip sobre como sua decisão de sair casava com seu compromisso da tarde.

Antes que o britânico pudesse sair, Damien arregalou os olhos, tendo lembrado de um detalhe importante:

— Ah, será que poderia pedir para a Georgina me encontrar na fonte do parque às cinco horas?

— Claro. — Pip respondeu com um sorriso, ocultando a sensação estranha que sentiu por trás dele.

Com isso, ele deixou o castelo e o anticristo ficou enfim sozinho. Mas não por muito tempo, pois, com um estalar de dedos, ele estava de volta ao lugar onde nunca mais gostaria de voltar: a superfície.

Damien ainda guardava um imenso desgosto por aquele lugar, especialmente depois de tudo que viu acontecer com Pip ali, mas, infelizmente, ele precisava subir ali para conseguir o que queria, pois não havia joalherias no inferno.

Para a sorte de Damien, não se transportou para um lugar muito longe de onde precisava chegar, e a caminhada foi rápida e tranquila.

Isto é, até uma figura loira de jaqueta laranja o parar no meio da rua.

— Damien! — a voz irritante de Kenny penetrou seus ouvidos, imediatamente jogando todo o bom humor que o anticristo pudesse ter no lixo. Ao se virar, deu de cara com o primeiro e único, que sorria um sorriso torto em sua direção. — Cara, já faz três anos que eu não te vejo!

Damien deu de ombros.

— Estive ocupado. Não como você, aparentemente. — ele disse, apontando para as manchas de óleo no rosto do McCormick. No geral, nada pareceu mudar em Kenny nos últimos dois anos. Ele continuava com a mesma roupa de sempre, cabelo sujo e sardas bem visíveis. Era quase como se o tempo não tivesse passado para ele.

O loiro riu e também deu de ombros.

— Sem dinheiro pra faculdade, irmão. Tenho feito bicos em mecânica, é até que bem legal.

— Não perguntei.

Kenny murmurou em compreensão e ignorou a grosseria do anticristo.

— E onde tá o Pip? Eu nunca mais o vi na escola, não terminou as provas, não foi na formatura, ele simplesmente sumiu!

— Pip está morto.

O espanto se fez visível nos olhos de Kenny, que deu até um passo para trás em reflexo. É claro que ele não se importava com o britânico, eles nunca foram amigos, mas ouvir uma notícia dessas é certo de chocar qualquer um.

— Oh. Oh…

Damien estalou a língua no céu da boca, claramente desconfortável em tocar nesse assunto com Kenny.

— Já tem sua resposta. Agora pode ir embora. — ele disse e virou as costas para o loiro, que engoliu em seco e brincou com as próprias mãos por um segundo.

— Eu sinto muito, cara. Eu não gostava dele, mas vocês pareciam estar tendo um lance muito bom. — Damien não respondeu, tampouco fez parecer que ouviu alguma coisa, apenas começou a se afastar como se fosse o fim da conversa. Kenny continuava desconfortável, sem saber o que falar. Ele não gostava mesmo de Pip, tampouco se importava com ele, mas esse não era o tipo de coisa que se ignora e age como se não aconteceu. Acredite, ele mesmo estava farto de as pessoas agirem assim para com ele. — Minhas condolências.

A raiva que se revirava no estômago de Damien triplicou de tamanho em meio segundo e ele não conseguiu mais se conter. Tão rápido quanto o vento, ele agarrou o loiro pela garganta e o bateu contra a parede, arrancando o fôlego de sua garganta e quase o nocauteando só com aquele golpe. Ele pressionou o polegar em sua garganta, a unha comprida pressionando sobre seu pomo de Adão e o fazendo engasgar. O fogo do inferno refletia em seus olhos, que penetravam a alma de Kenny como adagas banhadas em ácido. Nunca em sua vida Damien se lembrou de ter sentido tanta raiva antes.

— Eu não quero as suas condolências. Você e seus amigos imbecis nunca deram um caralho de importância pra ele, então não me venha com esse papinho de “eu sinto muito” e “minhas condolências” agora que ele está morto. Se você sentisse muito, não teria tratado ele como lixo enquanto ele ainda estava vivo. Se tem algo que eu odeio mais do que tudo, é falsidade. Eu não quero suas condolências, não quero sua pena e muito menos sua compaixão. O dia que você e seus amigos morrerem, por Deus, vocês vão aprender o que é dor de verdade e você vai desejar que tivesse sido empalado. — antes de soltar o loiro, Damien deu mais uma apertada em seu pescoço, tirando dele o pouco de ar que conseguiu respirar naquele meio-tempo e aproximou seus rostos para que ele pudesse ver de fato sua fúria. — Fique longe de mim, fique longe da minha casa e fique longe do Pip. Ele não precisa de escória como você perto dele. E se você ousar me desafiar, não será o céu o palco do apocalipse.

Com a mensagem dada, o anticristo jogou Kenny no chão e pisou em sua mão enquanto passava por ele.

Ele estava farto daqueles pecadores nojentos. Que aquela fosse a última vez que ele fosse ter que subir para aquele mundo nojento ao invés de passar tempo com seu amado Phillip.

Com as pessoas fora de seu caminho, comprar o anel foi muito mais fácil do que o planejado, e, para contribuir ainda mais com a rotina de Damien, ele voltou ao inferno precisamente na hora certa: cinco da tarde em ponto.

Ele lamentava ter que chamar Georgina para encontrá-lo justamente na hora do chá, mas esse era o único horário que ele tinha disponível. Uma pena, pois ele gostaria muito de poder tomar uma xícara de chá com aquela família enquanto compartilhavam histórias de vida e morte.

Ao chegar à fonte do parque, onde algumas pessoas caminhavam por perto, encontrou Georgina esperando por ele sentada à beira desta, seus dedos brincando com as ondas que se formavam conforme a água caía — ao menos até onde aquilo podia ser considerado água.

Damien respirou fundo e se aproximou com calma, tentando não deixar transparecer seu nervosismo e usando seus poderes para esconder a caixinha.

— Boa tarde, Georgina. — cumprimentou ele ao parar ao lado dela. — Obrigado por ter vindo.

— Imagina, querido. É sempre um prazer te encontrar. Tem algum motivo de você querer que nos encontrássemos aqui? Phillip disse que você queria falar comigo… — ela disse se levantando da fonte e tirando uma bolsinha de moedas de dentro do bolso.

Damien cerrou as mãos em punhos para tentar fazê-las parar de tremer e mais uma vez puxou o ar para dentro. Aquela não era a hora para ficar nervoso. Ele não podia arruinar tudo agora, de forma alguma, ele nunca se perdoaria se o fizesse.

— Na verdade, sim, há. — ele hesitou por dois segundos, observando a loira buscar uma moeda dentro da bolsinha. — Georgina, a senhora sabe que amo teu filho.

Ela não pôde evitar o sorriso que veio a seus lábios e o olhar carinhoso que deu ao anticristo. Ainda parecia muito surreal aos seus ouvidos ouvir aquilo. Ela não conseguia colocar em palavras o quão orgulhosa estava de seu filho por ter conseguido alguém tão maravilhoso em sua vida.

— Ah, sim, estou bem ciente, meu bem. E agradeço muito por sinal. Meu pequeno precisa de mais pessoas boas como você na vida dele, especialmente considerando… O resto.

Damien assentiu sutilmente e limpou a garganta antes de continuar. Era agora ou nunca.

— Nos poucos tempos que eu e Phillip de fato nos encontramos em um relacionamento, posso dizer que não há mais ninguém em toda a eternidade e vastidão dos três planos a quem eu poderia me devotar senão ele, por quanto tempo ele me quiser. Nesses termos, venho a ti neste dia pedir que, a esta hora amanhã, a senhora me permita ter sua mão e levá-lo para ser recebido no cartório e casado.

A mão de Georgina travou no segundo em que ia jogar a moeda, fazendo esta cair de seus dedos e quicar para dentro da água ao bater na borda de pedra. Seus olhos se arregalaram e a cabeça virou na direção de Damien tão rápido que o estralar de seu pescoço foi audível até para o próprio anticristo.

Com a expressão de espanto que ela carregava, Damien pensou que por um segundo ela não o permitiria. Porém, conforme seus lábios curvaram-se em um sorriso, suas esperanças foram voltando aos poucos.

— Meus ouvidos me enganam? Eu ouvi isso certo? — ela levou as mãos à boca e virou o rosto antes que Damien pudesse responder. Georgina abria e fechava a boca, sem saber o que dizer, ou se deveria dizer alguma coisa. Ela estava simplesmente sem palavras. Levou alguns segundos para se recompor, mas enfim conseguiu, e não fez pouco de expressar sua felicidade depois disso. — Oh, Damien, isso é esplêndido! É claro que dou à vocês minha bênção! Faço questão de ajudar a pagar se precisar.

— Não será necessário.

Damien negou com a mão, mas Georgina cruzou os braços e ergueu as sobrancelhas, claramente se mostrando contra aquele protesto.

— Tolice! Eu faço questão! E é certo que Phillip também concorda comigo. — ela rebateu, e logo sua expressão defensiva se desmanchou para voltar à sua forma animada acompanhada de pequenas lágrimas no canto de seus olhos. — Ah, Deus, meu pequeno Pip vai se casar! Oh, dia glorioso!

Damien sorriu ao ver o quão feliz ela estava. Vendo-a assim agora o fazia se sentir estúpido por ter duvidado que ela concordaria. Agora havia apenas um último detalhe para acertar tudo de vez.

— Eu só preciso que ele aceite.

— Ora, Damien, é claro que ele vai aceitar! Meu pequeno pode ser um tanto devagar, mas ele não é nenhum tolo. Não vês o jeito como ele te olha?

— É claro que vejo. — protestou Damien. — Meus temores vêm de não poder tornar-me um marido a altura do que ele merece.

Um sorriso terno adornou os lábios de Georgina, que se agachou para colocar uma mão no ombro do anticristo e encará-lo nos olhos, da forma que conhecia que era o melhor jeito de enfiar algo em sua cabecinha teimosa.

— Damien, por favor, eu imploro a ti que acredite em minha palavra quando digo que não há mais ninguém com quem Phillip desejaria estar se não você. E não há ninguém mais para quem eu concederia a mão do meu menino se não a ti. — ela levou as mãos às bochechas dele e as apertou de leve em suas palmas, amassando seu rosto. — Acredite, você não tem nenhuma outra resposta a receber além de um sim.

As bochechas de Damien ganharam cor e ele deu um sorriso amassado. Adorável.

— Bom, nesse caso, se importaria de pedir para que ele me encontre no castelo quando voltar para casa? Eu… Pretendia pedir hoje.

— De forma alguma, bem. Na verdade, será a primeira coisa que farei quando chegar em casa. — ela sorriu e largou das bochechas de Damien. — Ah, Deus, é melhor eu me apressar. Não há tempo a perder. Muito obrigada por vir até mim, Damien, você certamente alegrou meu dia.

Damien acenou de leve com a cabeça e acenou em despedida para Georgina quando ela começou a se afastar. Uma vez que estava fora de vista e teve certeza de que ninguém estava olhando para ele, comemorou.

(...)

Georgina não podia evitar de sorrir por todo o trajeto até sua casa. Aquela era uma notícia muito boa para ser verdade. Seu filho ia se casar! Ela nem estava preocupada se ele aceitaria, pois, com como as coisas estavam correndo nos últimos dias, a resposta era mais do que óbvia. Ela só tinha que conseguir que Pip voltasse para o castelo e tudo estaria bem.

Ao chegar perto de casa, Georgina teve a leve impressão de ouvir alguém cantando, o que se mostrou uma suspeita mais e mais concreta conforme ela se aproximava. Ela abriu a porta e o som de Ocean Eyes invadiu seus ouvidos, com o leve sotaque britânico da voz de seu filho carregando a melodia. Ele e Phillip estavam testando a máquina de karaokê que tinha na sala, ambos sentados no sofá e o pequeno com o microfone na mão.

Um sorriso surgiu nos lábios de Georgina. Ela nunca soube que Pip sabia cantar, e agora ele ia se casar, conseguir uma vida completa e ele estava crescendo tão rápido em tão pouco tempo, até mesmo para os padrões de uma mãe, e ela não sabia se conseguiria aguentar em pé.

Os dois homens tomaram nota de Georgina parada na porta e pararam a música, ainda sem nenhuma reação dela, deixando-os preocupados.

— Mãe? Está tudo bem? Você parece um tanto avoada… — Pip perguntou, deixando o microfone de lado e levantando do sofá para se aproximar.

— Deixe-me pegar um chá para acalmá-la. A sua sorte, meu amor, é que não bebemos tudo quando partiu. — Phillip complementou e deixou a sala enquanto seu filho guiava a loira para o sofá.

Preocupado, Pip tomou a mão de sua mãe e a deu um meio abraço. Ela parecia apreensiva, preocupada com alguma coisa, mordia os lábios e olhava para ele com nervosismo.

— Algo errado, mãe? — ele se arriscou a perguntar e, por Deus, a inocência naqueles olhos azuis era demais para Georgina aguentar. Ela era péssima em guardar segredos!

Virando-se para Pip, Georgina tomou suas mãos e inclinou-se em sua direção, como que para se assegurar de que ninguém os ouviria.

— Phillip, tem algo que eu preciso te contar.

O britânico imediatamente estremeceu de ansiedade, sua curiosidade atiçada. Quando sua mãe o chamava pelo nome daquela forma, com aquele tom de voz, era para lhe contar algo muito importante.

— Por favor, conte logo, você está me deixando ansioso! — ele suplicou por respostas, praticamente pulando no sofá.

Georgina provavelmente se culparia o resto da eternidade por contar algo tão importante e estragar a surpresa, mas quando Pip lhe pedia alguma coisa com aquele sorriso ela não conseguia negar. Sua conexão com o filho pode não ser tão forte quanto ela gostaria que fosse devido ao tempo perdido, mas o amor de mãe que ela tinha por ele tornava impossível não cair de amores por ele.

— Você está com o restante do tempo livre hoje, certo?

— Estou.

O sorriso da loira aumentou e ela puxou Pip para mais perto.

— Pois assim que você sair daqui, corra para o castelo, pois vossa majestade o aguarda para pedir para fazer de ti um marido.

Pip demorou um pouco para processar o que ela o dissera, mas, quando a ficha finalmente caiu, seus olhos se arregalaram e ele podia jurar que seu coração parou de bater por um segundo. Foi como se o mundo todo parasse de girar e ele tivesse sido jogado de cara no chão.

Damien o estava esperando para pedir sua mão em casamento.

— Eu vou casar! — ele gritou e se lançou nos braços da mãe, deixando que ela o apertasse enquanto ele retribuía o gesto com igual intensidade.

— O que está acontecendo? Por que estão tão felizes? — seu pai perguntou ao entrar na sala com uma xícara de chá na mão.

Georgina se virou para o marido, ainda com o filho em seus braços, e franziu o cenho para ele de forma brincalhona.

— Ora, Phillip, dê um pouco mais de atenção ao seu filho, por favor! Ele vai casar!

Por um segundo o patriarca quase deixou cair a xícara no chão, completamente tirado de sua zona de conforto. Assim como o próprio Pip ficou, ele estava chocado, sem saber como reagir. Deixou a xícara em uma estante para não correr maiores riscos e se aproximou do sofá.

— Você vai se casar? Pip, isso é esplêndido! — ele sorriu e se sentou ao lado do menor, o último a entrar no aperto do abraço, o qual durou apenas alguns segundos antes de Georgina empurrar os dois e se levantar.

— Ok, ok, vamos parar de perder tempo com abraços, podemos fazer isso depois! Levante e vá logo, Pip! Não quer deixar o Damien esperando, quer?

Ela estava certa. Afinal, Damien não o havia feito o pedido ainda, continuava apenas um spoiler de sua vida. Para que se tornasse real e eles pudessem comemorar de fato, Pip precisava voltar à casa de Damien, onde sua mãe disse que o encontraria.

Ele se levantou do sofá e correu até a porta, apressado.

— Eu volto mais tarde!

— Noivo! — seu pai gritou de volta, fazendo suas bochechas ganharem cor e colocando um sorriso em seu rosto.

O britânico disparou pela rua o mais rápido que suas pernas conseguiam correr, sem se importar com o que as pessoas poderiam pensar dele se o vissem. Ele estava tão empolgado que acabou tropeçando três vezes durante o caminho e caindo de cara no chão. Mesmo assim, ele continuou correndo, sem se deixar abater por esses pequenos inconvenientes. Só desacelerou quando chegou ao castelo.

Para sua surpresa, Damien estava esperando por ele na entrada, na posição perfeita para vê-lo chegar correndo e acabar todo esbaforido, sem um único grão de ar nos pulmões.

— Ei, ei, ei, pra que essa pressa toda? — Damien o acalmou e colocou a mão em seu ombro. — Respira fundo e aquieta esses nervos antes de tentar se mexer.

Pip estava dobrado com as mãos na barriga, que doía de tanto correr, e sua respiração entrava e saía por sua boca, impedindo qualquer palavra que tentasse dizer de se formar. Seu cérebro não tinha tempo de processar a vergonha que provavelmente passou ao chegar todo desarrumado e sujo de cair no chão, e mesmo se tivesse, ele não iria, pois mesmo esbaforido, ele ainda não conseguia tirar as palavras de sua mãe de sua cabeça.

Damien ajudou Pip a se levantar e acariciou suas costas com movimentos suaves para acalmá-lo. Não sabia a razão daquele desespero todo, mas que ele precisaria de ar era fato.

— Está melhor? — ele perguntou quando sua respiração voltou ao normal e Pip assentiu. — Que bom. Pra que essa pressa toda? Você veio de lá até aqui correndo?

— Achei que estava atrasado. — Pip deu a desculpa mais esfarrapada que lhe veio à mente e abriu um sorriso bobo. — De qualquer forma, há algum motivo especial pra você querer me encontrar aqui?

Damien murmurou e quase levou a mão direto à caixinha em seu bolso, mas se conteve no último segundo. Algo lhe dizia que Pip já sabia a razão, por isso a clara falta de sutileza, mas ele preferiu dar à ele o benefício da dúvida. Mantinha a graça viva por mais algum tempo.

— Eu só achei que você gostaria de passar algum tempo ao ar livre, já que não sai com tanta frequência. — ele respondeu, uma desculpa igualmente esfarrapada que Pip pareceu perceber com clareza.

— Entendi.

Ele estreitou os lábios e suas sobrancelhas se juntaram com sutileza, um sinal de impaciência, mas Damien não podia fazer aquilo agora, não em um lugar tão aberto. O anticristo tomou sua mão e o saiu arrastando pelo jardim do castelo, propositalmente o canto mais remoto do lugar, onde não havia ninguém além deles.

— Como foi na casa dos seus pais? — Damien puxou assunto para tentar quebrar o gelo e a impaciência de Pip, que se fazia mais e mais explícita a cada minuto que passava.

— Foi tudo bem. Minha mãe estava cozinhando quando eu cheguei, então pude provar alguns dos biscoitos dela. Estavam uma delícia.

— E seu pai como está?

— Está bem.

Por Deus, me peça logo! Pip queria gritar, mas precisava se manter centrado para não afugentar seu futuro noivo. Só pensar nessa palavra o dava arrepios, mas de um jeito bom. Pip nunca imaginou que algum momento assim aconteceria em sua vida, nunca em um milhão de anos, e agora que ele sabia que iria, não podia evitar de querer que esse momento chegasse o mais rápido possível. É apenas lógico.

Os dois se sentaram no chão atrás do castelo sem soltar as mãos e Damien percebeu como Pip parecia agitado, na ponta da cadeira, esperando que algo acontecesse enquanto o encarava com aqueles grandes e belos olhos azuis. Ele teve que realmente morder a bochecha para não dar risada da forma como Pip falhava miseravelmente em tentar não transparecer que estava esperando.

Me dá! Me dá! Me dá! seus olhos pareciam dizer, implorar para ver o que ele trouxe consigo de sua pequena aventura na superfície, embora talvez ele não soubesse todos os detalhes que Damien tinha planejado, incluindo a própria existência do anel.

Mas ele já sabia. Ele sabia o tempo todo.

Com um sorriso torto em seus lábios, Damien pigarreou, quase fazendo Pip pular pelo susto.

— Pip, o motivo de eu ter pedido para virmos até aqui…

— Você vai me pedir em casamento! — sua língua, traiçoeira, o traiu e falou demais, como sempre, e o britânico jogou as duas mãos à boca enquanto Damien caía na risada.

Não era para ele ter falado isso. Deus, ele estragou tudo! Aquela era sua chance de ter o momento de sua vida, com a pessoa que mais amava, em que ele provavelmente faria um discurso romântico, com aquele vocabulário culto que o deixava nas nuvens, antes de pedir sua mão em casamento. Mas agora Pip tinha arruinado tudo com sua língua grande, de novo. Ele era um inútil mesmo.

Enquanto Damien ria, Pip escondeu o rosto vermelho por trás das mãos, desejando poder desaparecer para sempre sem deixar rastros.

O anticristo limpou uma lágrima do canto do olho e encheu o pulmão para recuperar o fôlego.

— Bom, errado você não está. — ele soltou ar pelo nariz e, delicadamente, tirou as duas mãos de Pip da frente de seu rosto e as tomou para si, prendendo seus dedos entre os dele. Sem mais opções além de erguer o rosto, os olhos de Pip encontraram o magnífico brilho carmim dos do anticristo e um sorriso terno e cheio de delicado amor em seus lábios. — Phillip, você aceita se casar comigo?

Pip se jogou nos braços de Damien sem o dar uma resposta. Seus ombros tremiam com os soluços que chacoalhavam seu corpo e lágrimas escorriam sem a menor tentativa de resistência por sua parte. Ele simplesmente se deixou ser dominado pela alegria e a emoção do momento. Ele podia saber que aquilo aconteceria, que Damien o pretendia pedir em casamento, mas de fato ouví-lo dizer aquelas palavras em voz alta, e direcionadas à ele, Deus, Pip podia morrer ali mesmo e morreria feliz. Essencialmente porque ele voltaria de qualquer forma, pois já estava morto.

Damien acolheu o britânico entre seus braços e apoiou a bochecha na lateral de sua cabeça, suas mãos acariciando suas costas com movimentos suaves e esperando pelo que pareceram horas para que ele parasse de chorar. Ele não precisava de uma resposta verbal para saber que era um sim.

Damien enxugou suas lágrimas com o polegar ao se afastarem do abraço e o deu um suave beijo nos lábios. Ambos sorriam, seus olhares presos um ao outro e sem soltar as mãos. Aproximaram as testas e, ao encostar uma na outra, Pip trouxe as duas mãos para as bochechas de Damien para acariciar a pele pálida debaixo de seus dígitos. Ele não tinha percebido antes que o próprio anticristo tinha trilhas de lágrimas escorrendo de seus olhos.

— Quando pretende fazer a cerimônia? — Pip perguntou baixinho ao dar um beijo na ponta do nariz de seu agora noivo.

— Seria do meu mais puro interesse, como convém meu sentimentos e ansiedades, já estarmos casados a essa hora amanhã. — Damien respondeu em seu tom sério, ainda mantendo o sorriso em seus lábios.

— Amanhã?! — Pip exclamou em choque. Era bem cedo para duas pessoas que decidiram se casar naquele exato instante.

— Podemos adiar se preferir…

— Não! Digo, você só me pegou de surpresa, só isso. Não atrapalha o planejamento que seja tão em cima da hora?

— De forma alguma. Os únicos a serem comunicados de fato são o cartório e nossos pais. Necessitamos apenas de papel, caneta e duas testemunhas.

A forma como Damien falava fazia tudo parecer tão real, tão palpável. Pip nunca imaginou que chegaria o dia em que ele ia de fato se casar, mas ali eles estavam agora; Damien tirando o anel que comprou do bolso e tomando a mão de Pip na sua para colocá-lo em seu dedo anelar.

Os olhos de Pip rapidamente se encheram de água de novo ao admirar aquele acessório brilhante em seu dedo, que reluzia com a luz do fogo.

Com um sorriso nos lábios, Damien puxou Pip para um beijo apaixonado e o envolveu entre seus braços. Ele o pressionou contra si com todas as suas forças, suas mãos passeando por suas costas e puxando de leve os fios de cabelo de sua nuca. Ele estava tão feliz por ele ter dito sim que não pôde evitar de chorar junto a ele.

— Eu preciso ir agora, está bem? Muito trabalho para terminar. — Damien disse ao afastarem os lábios. Lhe doía ter que fazer isso, separar-se dele tão cedo, mas ele realmente tinha coisas para resolver, especialmente agora que tinha mais um compromisso em suas mãos. Damien deu mais um beijo em Pip e então tomou sua mão para si. — Te espero mais tarde. — beijou ternamente as costas de sua mão, mantendo a pele próxima ao rosto. — Eu te amo tanto, Phillip.

O britânico flexionou os dedos contra a mão de Damien e sorriu, completamente nas nuvens. Seus dedos demoraram apenas alguns segundos a mais para se desentrelaçarem, e Pip ainda manteve a mão no ar por alguns segundos, como se aguardasse o retorno do toque e do calor para sua pele.

Enfim, os dois seguiram em caminhos diferentes, Damien para dentro de casa e Pip esperando um pouco mais do lado de fora. Uma vez que o anticristo fechou a porta atrás de si, lançando ao britânico um último sorriso e um beijo com a mão, ao qual Pip retribuiu, ele soltou um grito esganiçado e trouxe a mão aos lábios, beijando repetidamente a aliança em seu dedo enquanto seus olhos enchiam de água novamente.