Darker Days
20 Obrigado
Pip não sabia mais quanto tempo ele estava sentado do lado de fora do castelo sem fazer nada. Ele não sentia vontade de ver ninguém ou falar nada pelo que deveria ser a primeira vez em sua vida, pois ele adorava socializar, e apenas ficou ali parado olhando para o nada. Já tinha mandado uma mensagem à seus pais de que não voltaria mais hoje, pois gostaria de passar um tempo sozinho. Apesar de ficar olhando para cima, seus dedos brincavam com o anel em seu dedo, em movimentos involuntários que ele não parecia consciente de estar fazendo.
Quando foi a última vez que ele passou tempo sozinho daquela forma? Não no sentido de estar fisicamente sozinho, mas sozinho em um ambiente confortável. O tempo que ele passava sozinho era apenas porque ele não tinha com quem passar o tempo, ele não tinha escolha, mas agora é diferente, e essa provavelmente foi a primeira vez que ele quis ficar sozinho.
Pip esteve sozinho uma boa parte de sua vida, mas ele sempre desejou companhia, mesmo que nunca a encontrasse; pensar que agora que ele finalmente tinha pessoas ao seu lado ele queria distância o deixava preocupado. Mas, de certa forma, ele próprio entendia a razão de estar assim. As coisas pareciam estar acontecendo tão rápido, embora ele saiba que na verdade não estavam. Ele estava no inferno a cerca de cinco meses, não era pouco tempo, e ele já se acostumou com muita coisa por lá que era muito diferente de onde ele veio, mas ele ainda se sentia estranho de alguma forma. Talvez ele nunca fosse se acostumar com tudo, talvez ele só fosse assim, ou seriam todos? As coisas eram tão complicadas e avançavam rápido demais para ele compreender, seria legal ter uma constante para ele se segurar.
Inconscientemente, Pip desviou o olhar para sua mão, onde seus dedos da outra mão ainda brincavam com o anel em seu dedo anelar. Ele sorriu e fechou as duas mãos em punhos, amassando o tecido da calça debaixo da palma. Parece que agora ele tinha ganhado justamente isso.
O britânico suspirou e voltou para dentro do castelo sem olhar para nada e nem ninguém, sua cabeça nas nuvens. De certa forma, ele se sentia perdido, sem saber o que fazer, enquanto de outra, aquela sensação o deixava ansioso, pois já tinha se acostumado a uma rotina que sempre se repetia em um ciclo vicioso, era bom poder variar, especialmente para aquele lado.
Ele se surpreendeu em encontrar Damien sentando no sofá da sala. Ele geralmente se isolava no quarto ou no escritório quando precisava trabalhar e só saía quando terminava. Aquela ocasião era bem inusitada.
— Hey. — o britânico o cumprimentou e se sentou ao seu lado no sofá.
O anticristo, que estava bem concentrado em seu trabalho, se assustou com o chamado. Ele ergueu o olhar e sorriu na direção de Pip.
— Oi. — deixou a papelada de lado por um segundo e se inclinou para beijar a bochecha do britânico. — Você está bem?
Pip fez que sim com a cabeça.
— Só cansado. — apoiou a cabeça no ombro de Damien e soltou um suspiro para provar seu ponto.
— É o que costuma acontecer quando você chora demais. — o anticristo rebateu e levantou uma mão para acariciar os cabelos do britânico.
Pip riu baixo. Não é como se Damien estivesse mentindo, ele provavelmente passou mais tempo chorando no inferno do que em toda sua vida na terra, mas ele não se incomodava. Sempre ouviu dizer que chorar é saudável; significava que ele estava muito bem de saúde, não?
— Por que a preocupação? — ele perguntou para Damien, erguendo o olhar em sua direção.
— Achei que você estaria com seus pais agora. Vi você sentado do lado de fora quando passei pela janela. Você tem certeza de que está tudo bem?
— Tenho! Eu só queria pensar um pouco, clarear a cabeça. Foi muita coisa para processar em um dia só.
O anticristo compreendia perfeitamente o sentimento. Não podia dizer que estava na mesma situação de Pip, mas também estava surpreso com aonde tinham chego. Seu trabalho era apenas aprender sobre o apocalipse para trazê-lo no futuro e julgar e condenar as almas pecadoras no processo. Ele não esperava que as coisas entre ele e o britânico ficariam tão sérias ao ponto de ele sequer considerar casamento. Na verdade, não era para eles estarem juntos pra começo de conversa. O fato de estarem ali já era uma grande surpresa para ambos.
Também deixava o anticristo um tanto inseguro, pois nunca participou de nada parecido em toda a sua vida. Ele nunca sabia se estava sendo um bom namorado — agora noivo — para Pip e sempre tinha a impressão de que podia fazer melhor de alguma forma. Ele estava acostumado aos padrões altos impostos pelo céu sobre ele, sobre a própria bíblia na verdade; as coisas sempre foram assim desde que ele nasceu, era apenas natural que ele colocasse o mesmo julgamento sobre si mesmo.
Pelo menos, pelo que pôde observar nas reações de Pip, parecia estar fazendo um ótimo trabalho naquele relacionamento.
— Se você precisar de mais tempo, podemos remarcar sem problemas. — insistiu Damien.
— Não, não, você já deve ter marcado, não precisa mudar. Eu não me importo, de toda forma, também sou um tanto apressado. — Pip coçou a nuca. — Você vai convidar alguém? Disse que só precisávamos de duas testemunhas…
— Só meu pai. — ele deu de ombros. — Já resolvi os assuntos com o céu e vão deixar ele descer por tempo suficiente para assinarmos os papéis. É um processo bem rápido, menos de dez minutos. O casamento aqui debaixo não é tão complicado quanto na superfície; não comigo no comando, pelo menos.
Ao seu lado, Pip sorria e balançava as pernas para a frente e para trás como uma criança.
— Eu vou conhecer seu pai. — aquele pensamento o deixava estranhamente entusiasmado, mesmo sabendo que o pai de Damien era ninguém mais ninguém menos que Satã em pessoa.
Aparentemente, Damien ficou com a mesma preocupação, pois entrelaçou seus dedos aos dele e apertou sua mão.
— Não precisa ficar assustado. Ele não é tão durão como vocês, cristãos, pintam; na verdade ele é bem sensível até. — Não duvido que ele esteja passando o rodo lá no céu. Por isso não liga, deixou as últimas palavras pairarem no ar, sem fazer a mínima questão de olhar para elas.
— Oh, eu não estou assustado! Estou ansioso! Tenho certeza de que seu pai é uma ótima pessoa, Damien. Não estou preocupado com o que disseram lá na Terra. Digo, eu admito que posso ser um tanto lento, mas não a ponto de não conseguir ligar dois mais dois.
— Acho que você vai gostar bastante dele. Sempre imaginei que os dois se dariam bem juntos. Quem sabe, se tivermos mais tempo, ele possa te ensinar a cozinhar. A comida dele é uma delícia.
— Foi com ele que você aprendeu? — o britânico deu uma piscada e Damien revirou os olhos após afagar seus cabelos com a mão.
— Eu ficava olhando ele mexendo os ingredientes enquanto lavava a louça do almoço. Acabei pegando de olho.
— Autodidata? Isso é muito legal, Damien! Eu adoraria poder receber algumas aulas de vocês alguma hora.
— Posso te ensinar depois. — Damien sorriu e apertou novamente a mão dele, seu dedo inconscientemente passando por cima da aliança que colocou em seu dedo anelar. — E, no geral, você está se adaptando bem aqui?
— Estou sim! Não sei se ainda estou muito à vontade para ficar saindo de casa, mas o que eu vi até agora me agradou muito. As pessoas aqui parecem mais tranquilas do que as pessoas de South Park e o barulho não é tão ruim quando se acostuma com ele, por mais que eu gostaria de um minuto a mais de silêncio.
— Está na minha lista de coisas para mudar quando tiver tempo. Essa merda tá assim desde antes de eu nascer. — o anticristo soltou um gemido de desgosto. — Quer um pouco de água?
— Quero sim, por favor.
Tão rápido quanto se levantou para ir, Damien voltou com um copo cheio da mão e o entregou à Pip, que bebeu tudo quase que de uma vez. Ao deixra o copo de lado, o britânico deitou a cabeça para trás e sorriu para o noivo, que continuava o encarando de cima.
Damien cruzou os braços e, inclinando-se apenas um pouco mais para a frente, trouxe os lábios de Pip para si. Foram só alguns selinhos repetidos, mas Damien conseguia sentir com clareza o sorriso se formando nos lábios de Pip além dos pequenos risos que ele deixava escapar entre beijos. Nada muito intenso, mas significativo da mesma maneira.
O anticristo mal podia acreditar que estaria casado ao fim da tarde do dia seguinte, e com alguém tão doce e atencioso como Pip. Esse tipo de coisa só costuma acontecer em seus sonhos mais profundos, dos quais ele sempre lutava para não ter que acordar.
As mãos do britânico agarraram as laterais de seu rosto e o puxaram quando Damien tentou se afastar. Aparentemente alguém não estava tão desesperado para que ele devolvesse o copo à cozinha. Damien pulou por cima do sofá e se acomodou novamente ao lado de Pip, puxando seu rosto para um beijo mais profundo, com direito a língua e tudo. Era sempre uma boa tentação percorrer seu corpo com as mãos e sentir sua pele estremecer ao tocar seus pontos mais sensíveis, ainda que cobertos com roupa. Eles teriam seguido em frente facilmente se não fosse por apenas um pequeno inconveniente.
— Uh… Bom dia?
Damien arregalou os olhos e empurrou Pip de costas no sofá pelo susto. Não foi sua intenção acabar com tudo daquela forma, mas aquela interrupção realmente veio de forma inesperada.
— Jesus Cristo! — ele gritou, levando a mão ao peito e curvando-se para recuperar o fôlego.
O britânico se sentou no sofá e levou uma mão à cabeça para aliviar a dor do impacto. Ao olhar por cima do sofá, ergueu as sobrancelhas ao ver Kenny os encarando do meio da sala.
— Kenny?
O loiro desviou o olhar e escondeu os lábios. O ar começou a pesar, desconfortável, e o jeito como Damien passou a encarar Kenny não estava ajudando muito.
— Uh… Perdão pela intromissão… Fui atropelado por um caminhão, sabem como é? — Kenny gesticulou com as mãos e sorriu torto.
Pip levou as duas mãos à boca e seus olhos se arregalaram.
— Por Deus, você está bem? — perguntou e imediatamente se corrigiu. — Ah, mas que pergunta, Phillip, é óbvio que ele não está bem, ele morreu!
Kenny riu. Situação incômoda, mas ele preferia desviar o assunto o máximo que podia do que reconhecer o quão estranha verdadeiramente estava.
— Não se preocupa, já é parte da rotina.
— O que você quer, McCormick? — mas Damien o rebateu de frente, quebrando completamente o clima confortável que Kenny estava procurando.
O loiro de capuz cruzou os braços e puxou as cordinhas, se fechando atrás do tecido laranja.
— Não é como se eu quisesse ter morrido e caído aqui justo na hora pra ver vocês transando.
Damien não disse nada e fingiu que não ouviu o comentário desnecessário. Pip, por outro lado, entendeu muito bem o recado e desviou o olhar, o rosto completamente vermelho.
Desconfortável mais uma vez. Tanto tempo se passou desde que Kenny morreu pela última vez que ele tinha até esquecido o quanto as coisas podiam ser chatas com Damien por perto. Aquele cara não tinha nenhum senso de humor em todos os sete círculos do inferno.
— Bem que você falou que o Pip tinha morrido, você não tava brincando. — não resistiu em soltar o comentário, vendo como o britânico balançava o corpo de um lado para o outro no sofá, como se quisesse se acalmar.
— Tchau, Kenny. — o anticristo o cortou e o dispensou com um gesto de mãos. Kenny desapareceu no mesmo segundo e eles ficaram completamente sozinhos.
— O que você fez? — Pip perguntou com os olhos arregalados.
— Mandei ele de volta pra Terra. É uma longa história.
— Entendo.
— De qualquer forma, não se preocupe com nada. Vai dar tudo certo.
O britânico riu.
— Eu sei que vai. — disse com um sorriso. — Eu confio em você.
Damien deu um rápido beijo nos lábios de Pip e voltou para a cozinha para devolver o copo.
(...)
Já faz um certo tempo que Damien não acordava tão cedo. É claro que por “tão cedo” ele quer dizer “antes de Pip”, pois, por Deus, às vezes ele achava até que ele não dormia. Uma vez, ele acordou às quatro da manhã e ele já estava de pé desde as três. Às vezes preocupava o anticristo que ele passasse tanto tempo acordado e não dormisse, mas, considerando que ele passou dois anos fazendo justamente isso, não era exatamente improvável que ele estivesse acordando tão cedo de propósito.
Seu tempo em South Park o mostrou que Pip detestava ser improdutivo, e ele deve estar martelando a própria cabeça imaginando que tem algo para fazer — sendo que não tem — e para isso tem que acordar cedo. Damien raramente o via acordar mais tarde que ele, independente se ele tinha coisas para fazer ou não. Então, quando ele abriu os olhos e encontrou o loiro deitado ao seu lado, no mais profundo dos donos, ele ficou verdadeiramente surpreso.
Ele não estava fingindo, pois Damien sabia que ele tinha a respiração mais pesada enquanto dormia. Suas pálpebras estavam levemente inchadas, provavelmente por ter chorado na noite anterior, e seu anel reluzia em seu dedo ao descansar a mão sobre os lençóis, levemente curvando os dedos no travesseiro.
Damien resistiu à tentação de beijá-lo na bochecha, pois isso poderia acordá-lo, e deslizou para fora da cama. Pip permaneceu imóvel na cama e o anticristo usou daquela oportunidade para ir para a cozinha fazer o café da manhã. Ele colocou um par de meias nos pés para não fazer barulho e deixou o quarto. Criados o cumprimentavam enquanto descia, mas ele permaneceu quieto por todo o tempo. Chegou na cozinha e começou a fazer o café, com uma pequena ajuda de seus poderes para ir mais rápido, pois, agora que estava acordado, não demoraria muito para que Pip também acordasse e fosse atrás dele.
E, dito e feito, não demorou nem meia hora até Damien ouvir passos se aproximando da cozinha, e da porta passou o britânico, esfregando os olhos cansados com as costas da mão. Ao encontrar o anticristo ali, soltou um gemido cansado e se aproximou para abraçá-lo por trás.
— Você acordou cedo hoje. — ele murmurou em seu ombro.
— Não estava com muito sono. — Damien respondeu. — Já arrumei a maior parte da mesa, se quiser ir comendo.
— Você não está com fome?
— Não, estou bem.
Pip ficou na pontinha dos pés e deu um rápido beijo na bochecha de Damien para depois se sentar à mesa e puxar o bule de chá para se servir de um pouco.
Um silêncio confortável se instaurou entre eles, Damien terminando de cozinhar e Pip aproveitando-se do que já estava pronto, o que se resumia a basicamente alguns pães, bolinhos e chá.
O britânico desviou o olhar frequentemente para Damien, observando-o caminhar de um lado para o outro para pegar o que precisava e colocar na mesa. Era engraçado que fizesse isso quando podia apenas estalar os dedos e fazer tudo que precisava aparecer bem na sua frente com um milagre.
Assim como era engraçado que eles se casariam hoje. Aquela foi a primeira coisa que Pip pensou quando acordou e se encontrou sozinho na cama. Ele quase acreditou que fosse um sonho — pois certamente se parecia com um — até ver o anel que continuava em seu dedo, no mesmo lugar que o deixou. Ele sorriu e se arrumou para descer o mais rápido que pôde. Enquanto a hora não chegasse, ele gostaria de aproveitar todo o tempo que tinha para chamar Damien de seu noivo.
Ele não conseguia acreditar que aquilo era mesmo real. Parecia bom demais para ser verdade. Talvez seria mais difícil de acreditar se a prova não estivesse bem na sua mão, mas Pip era apenas assim desconfiado e inseguro desde sempre. Ele não gostaria de se machucar deixando-se levar demais por sonhos infantis e estúpidos.
Falando em sonhos, Pip acidentalmente se lembrou do que Damien disse à ele no dia anterior, após tirá-lo do meio da bagunça que fez na cozinha. De sua mão, o olhar de Pip correu para seu braço, mais especificamente o direito. A manga de seu pijama escondia perfeitamente a pele que algum dia sequer pôde ser chamada de tal, ocultava-a dos olhos apreensivos de Pip. Às vezes, ele ainda conseguia sentir a dor cravada em seus músculos, sem fim aparente, e via o vermelho escorrer da pele branca, reabrindo aqueles cortes grotescos e cheios de pus que ele não foi capaz de tratar sozinho. Suas mãos tremiam só de lembrar deles. Por uma simples questão de sorte eles não invadiam seus sonhos. Ao contrário dos de Damien, aparentemente.
— Dormiu bem? …Algum pesadelo? — o britânico resolveu perguntar, maneirando no tom da voz e engoliu em seco.
Damien negou com a cabeça. Pensando bem, ele já devia estar dormindo sem pesadelos já a algum tempo.
— Você?
Pip também negou.
— Tive um sonho muito bom na verdade.
Damien ergueu as sobrancelhas e se aproximou de Pip na mesa. Ele se sentou ao lado de seu noivo e se inclinou em sua direção.
— Qual foi seu sonho? — perguntou com um pequeno sorriso.
O britânico não resistiu e deixou seus lábios se curvarem em um sorriso largo. Sua cabeça pendeu para o lado, repousando no ombro do anticristo e Pip não fez questão alguma de manter suas mãos para si.
— Eu sonhei que ia me casar hoje.
— Você vai se casar hoje. — Damien respondeu enquanto ria.
— Melhor ainda!
Ele riu de novo e puxou o britânico para dar-lhe um beijo na bochecha. Damien estava tão ansioso para aquilo quanto Pip estava; era uma pena que tinham que esperar tanto tempo para assinar todos os papéis.
Quanto às partes burocráticas e todos os detalhes, o casal resolveu tudo durante a noite com apenas algum tempo de conversa. Segundo Damien, casar no inferno era tão fácil quanto, se é que não até mais, os casamentos da terra. Eles só tinham que assinar alguns papéis, escolher o sobrenome e selar o contrato com um beijo. Nada grandioso e nem digno de muita atenção, era muito diferente de como funcionavam os casamentos religiosos na terra.
Mas nenhum dos dois se incomodou com a ideia de uma união simples. Não tinham muitas pessoas para convidar e nem faziam nenhuma questão de uma cerimônia grande ou festa. Era perfeito.
— Quando iremos ao cartório? — perguntou Pip.
— Às três horas. Meu pai chegará em algumas horas, antes do almoço. Consegui um acordo para deixá-lo sair do céu por tempo suficiente para assinarmos os papéis e comermos alguma coisa.
— Mal posso esperar para conhecê-lo! — o britânico sorriu. — Me passa a geleia, por favor? Obrigado.
Pelas horas seguintes, o britânico e o anticristo as passaram como sempre faziam: sentados um ao lado do outro no sofá, Pip lendo um livro e Damien escrevendo sobre seu trabalho em seu livro. Às vezes a televisão ligava quando Damien queria um pouco de barulho e desligava quando ficava cansado. Às vezes, ele interrompia a leitura de Pip puxando seu rosto para beijar-lhe suavemente os lábios, às vezes por um segundo, às vezes o empurrando no sofá e pressionando seu corpo contra o dele até arrancar todo o fôlego de seus pulmões. Embora fosse complicado guardar a página onde parou quando Damien fazia isso, não seria Pip a rejeitar seus avanços e carícias — especialmente a essa altura do campeonato.
Incrível como sempre era tão fácil para Pip se perder nos lábios de Damien. No que deveria ser a quarta ou quinta vez nas últimas duas horas, ele se deixou ser inclinado no sofá e seu livro ser jogado no chão para o anticristo pressionar seus lábios nos dele e afastar sua consciência do mundo, restando apenas as sensações que o cobriam como um cobertor, da cabeça aos pés. As mãos de Pip deslizaram pelos cabelos negros de Damien sem se importar com a bagunça que faziam dos fios pelo caminho. Ele podia apenas suspirar enquanto os lábios de Damien clamavam os seus em repetidos e apaixonados beijos e suas mãos se aventuravam pela lateral de seu corpo. Ocasionalmente, um riso escapava dele e suas mãos apertavam mais o maior contra ele, o qual se afastava de seus lábios para beijar todo o resto de seu rosto.
Se não fosse pelo pequeno detalhe de alguém batendo à porta, não há dúvidas de que nenhum dos dois teria hesitado em seguir em frente e mais fundo com os beijos, em um momento que deveria ser íntimo demais para ser visto por olhos que não fossem os deles.
— Mas já…? — ponderou Damien em voz alta, surpreso ao mesmo tempo em que estava decepcionado.
Pip se sentou de volta no sofá e ajeitou o cabelo enquanto Damien caminhava para a porta. Ele não sabia quem estava lá, mas certamente ela não gostaria de saber o que ele e seu noivo estavam prestes a fazer em pleno sofá da sala.
Quando Damien abriu a porta seus olhos imediatamente se arregalaram em surpresa ao ver seu pai do outro lado, sem a companhia de ninguém além dele mesmo. Ele o cumprimentou com um sorriso e o puxou para um abraço apertado sem nem esperar por um cumprimento do filho.
— Damien! Meus parabéns pelo noivado, filho! — Satã exclamou enquanto suspendia Damien no ar. — Eu teria te parabenizado de maneira melhor, mas estava um tanto ocupado na hora, sinto muito. — ele colocou Damien no chão com um sorriso e limpou a garganta. — Então, agora seria uma boa hora para conhecer meu futuro genro?
A palavra com g chamou a atenção de Pip, que escutava tudo dentro de casa. Ele ergueu as sobrancelhas e seu coração parou em seu peito por um segundo. Tanto quanto estava ansioso para conhecer o pai de Damien — do qual ainda se lembrava da luta com Jesus a anos atrás — Pip estava nervoso. Ele nunca trocou uma única palavra com Satã e embora Damien sempre se referisse a ele com amor e afeto em sua voz, ele não podia deixar de ficar paranoico com a ideia de que estava prestes a conhecer seu sogro no dia de seu casamento. Tomara que o antigo Rei do Inferno não se incomode com tamanha demora, com certeza ia contra o que era tradicional.
Pai e filho passaram pela porta e Pip imediatamente estreitou a coluna ao colocar os olhos com os de Satã. Seu coração batia acelerado em seu ouvido, mas ele permanecia com o sorriso mais calmo em seu rosto.
— Pip, esse é o meu pai. — Damien gesticulou para a criatura quase o quádruplo do seu tamanho ao seu lado.
— É um prazer conhecê-lo. Sinto muito por termos que nos encontrar assim tão tarde. — Satã sorriu para o pequeno britânico e o peso que tinha em seu peito pareceu sumir tão rápido quanto surgiu. Ele tinha um tom de voz tão amável e simpático, Pip não conseguiu ficar desconfortável.
— Sem problema algum. É um prazer conhecer o senhor. — o britânico respondeu com um sorriso satisfeito.
— Por favor, me chame só de Satã.
— Está bem, Satã.
O rei do inferno se virou para o filho com uma expressão bem satisfeita.
— O seu noivo é muito bem educado, hein, Damien?
Orgulho era um sentimento raro para Pip sentir, especialmente tratando de si mesmo. O tempo depois de morto não mudou muita coisa, ele ainda não se via como nada muito grande ou interessante; nada do que ele fazia pundonor si mesmo era relevante e era raro, se não impossível, que alguém o reconhecesse por alguma característica sua. Pip se sentiu estranhamente valorizado ao ter sua educação elogiada — e ser chamado de noivo o deu uma felicidade ainda maior.
— Obrigado! Fui mandado para Londres quando era mais novo para aprender a ser um cavalheiro.
Satã passou muito tempo longe do inferno, mas conhecia quase todos os que entravam lá, ao menos os de sua época, mas ele nunca tinha conhecido alguém que soasse tão refinado quanto o noivo de Damien — Pip— soava. Ele havia de admitir que aquilo chamou muito sua atenção.
— Bom, isso explicaria o sotaque.
— Oh, não, não, não. Eu sou britânico mesmo. Me mudei para os Estados Unidos aos sete anos e meio, mais ou menos. Conheci Damien um ano depois.
— Ah, disso eu sei. Damien me contou tudo sobre você! — disse Satã. — Não nos falamos sempre, mas sempre que ele subia, especialmente nos últimos dois anos e meio, ele passava o tempo todo falando de você.
As bochechas de Pip coraram e ele desviou o olhar para Damien, o qual estava na mesma posição que o britânico, com a mesma cor em sua pele pálida que ele.
— Bom… Espero que não sejam coisas ruins. — Pip brincou e coçou a nuca.
— De forma alguma! Damien adora falar sobre o quão incrível você é e sobre o quanto ele te ama.
Enquanto Damien queria enfiar sua cara no chão, Pip estava dividido entre se deixar ser tomado pela vergonha e deixar o sorriso tomar conta de seu rosto. Ele escolheu o segundo.
Ele disse ao pai dele o quanto me ama. Pip não evitou de se sentir emocionado com o pedaço de informação. Tudo parecia tão irreal, como em um sonho, e soava incompreensível em seu vocabulário que alguém pudesse ser tão atencioso com ele quanto Damien era. Cada palavra, ainda que vindo da boca de outra pessoa, ia direto para seu coração, e Pip se apaixonava mais e mais por seu noivo a cada segundo.
Toques vieram da porta, interrompendo o momento entre os três e forçando seus olhares para a frente.
— Seus pais chegaram. — constatou Damien.
Pip se afastou dos dois demônios — sem se esquecer de nenhuma palavra que Satã disse — e correu até a porta. Ao abri-la, foi imediatamente atacado pelos braços de sua mãe grudando em seu pescoço e o puxando para um grande e apertado abraço.
— Meus parabéns, querido! — ela gritou. — Você não veio pra casa depois, então não pudemos te parabenizar. Parabéns! — Pip sorriu e retribuiu o abraço com a mesma intensidade. Sua mãe certamente era forte, ele estava ficando com menos fôlego a cada segundo, mas não significava que ele não podia expressar sua felicidade também. Era seu casamento, afinal de contas. — Nosso pequeno chegou no inferno a apenas alguns meses e já vai se casar! Pip, querido, você é tão sortudo!
O britânico olhou sutilmente por cima do ombro, percebendo o olhar de Damien sobre si, e sorriu. Ele era sortudo de fato.
— Mãe, pai, esse é o Satã, pai do Damien. — Pip apresentou seus pais após se afastarem do abraço.
— Oh, querido, nós sabemos. Já o conhecemos antes. — Georgina sorriu e se virou para o rei do inferno. — Seus luaus eram muito divertidos, Satã.
Satã agradeceu com um “obrigado” e um aceno de cabeça e os cinco se sentaram no sofá para conversar e esperar o relógio bater três horas à tarde. Conversaram sobre os noivos, é claro, e sobre o próprio inferno onde viviam — mas de um jeito bom.
Pip estava gostando bastante de ouvir sobre as experiências de seus pais sobre a transferência de poderes e mudanças no inferno e como eram as coisas para Satã no céu. Parecia de fato que ele estava em algum tipo de almoço em família, embora não estivessem almoçando de fato.
A mão de Pip grudou na de Damien em um toque leve, coincidentemente ao mesmo tempo em que o som do relógio soou pela sala ao marcar o horário. O britânico teve sua mão apertada em resposta e ele virou para Damien com os olhos brilhando e o peito apertado.
— Já deu o horário. — o anticristo suspirou e trouxe a mão de Pip para seu colo. Seus olhares se encontraram e ambos sorriram. — Vamos?
De repente, antes que qualquer um pudesse se mover, alguém bateu à porta. Os cinco se entreolharam e Damien se levantou para atender. O anticristo ficou surpreso de encontrar um demônio baixinho o esperando do outro lado com uma prancheta debaixo do braço.
Ele conhecia aquele demônio, era ele quem tomava conta do cartório, para onde eles estavam prestes a ir.
— Com licença, majestade, eu trouxe os papéis de compromisso.
— Nós estávamos indo para o cartório agora. — Damien disse, um tanto confuso.
O demônio balançou a cabeça e dispensou o anticristo com a mão, disse que não faria o governante do inferno perder tempo indo até um cartório para assinar papéis. Damien não tinha muito escolha a esse ponto, e acabou resolvendo apenas seguir em frente com o plano novo.
Imaginando que aquele demônio seria como um juiz de paz, Pip não estranhou quando ele se aproximou dele e colocou os papéis na mesa à sua frente.
— Você é o noivo de Damien? — ele perguntou para o britânico, que assentiu e respondeu “sou sim” em tom baixo. — É um prazer conhecê-lo. Você certamente conseguiu um bom achado, majestade.
Damien sorriu e assentiu com a cabeça. Quando ele murmurou “eu sei”, o coração de Pip quase explodiu ali mesmo. Eles mal podiam esperar para assinar os papéis.
— O que temos que fazer? — perguntou o britânico ao perceber tudo pronto na mesa.
— Só ler e assinar. — explicou o demônio.
— Oh. É certamente bem diferente de como as coisas funcionam na terra. — Pip comentou. Ele pode não saber muito sobre casamentos, mas tinha um conhecimento básico para saber que tinham costumes a mais feitos na Terra que não pareciam ser feitos no inferno. — Vocês não fazem troca de votos, certo?
— É possível, mas não é um costume por aqui; não no civil, pelo menos. — Damien o explicou.
Pip assentiu em compreensão e murmurou “certo” ao pegar a caneta.
Seu coração palpitou mais forte em seu peito ao assinar seu nome completo no espaço em branco. Era um processo tão rápido e simples, mas cada segundo parecia como mil anos-luz de uma vez só, levando o britânico mais e mais perto de uma vida casada com Damien.
O anticristo tomou a caneta passada para ele e assinou seu nome logo ao lado do de Pip. As linhas eram tracejadas com labaredas baixas, deixando uma marca permanente para trás.
E, simples assim, ele e Pip estavam casados.
O papel desapareceu envolto em chamas e os olhares se voltaram para as labaredas laranja. Durou apenas um segundo e todos voltaram a atenção ao demônio.
— Está feito. Parabéns pelo casamento. — disse ele. Sorriu para o anticristo e o demônio e deixou a casa sem dizer mais nada.
Muito estranho, era a única maneira com que Pip conseguia descrever como se sentia. Ele estava tão ansioso para seu casamento e já estava concluído! Foi tudo tão rápido e ele mal sentia nenhuma diferença em si, por mais que não conseguisse parar de sorrir. Talvez seja por isso que as pessoas prefiram o casamento religioso, mas a verdade é que Pip não se importava de qualquer forma. Ele estava feliz em poder olhar para seu anel e vê-lo não mais como um símbolo de noivado, mas, sim, de união perpétua.
Sutilmente e quase longe da vista de todos, Damien tomou a mão de Pip na sua, atraindo seu olhar e colocando um sorriso em seu rosto. Ao menos algo não havia mudado: a mão de Damien ainda era a mesma entre a sua.
O britânico se esticou para dar um beijo nos lábios de Damien, que acabou sendo um pouco mais longo do que o esperado, e os dos acabaram quase esquecendo que havia outras pessoas presentes. Satã e os pais de Pip não pareceram se importar no entanto, e apenas desviaram o olhar até o som de beijos cessar.
O casal se afastou um do outro com as bochechas completamente vermelhas — as de Pip mais do que as de Damien — e voltaram à posição inicial no sofá como se nada tivesse acontecido. A vergonha era clara, mas ninguém ali pareceu reconhecê-la e tudo foi deixado de lado, com apenas a promessa silenciosa de Damien e Pip de aproveitarem melhor o tempo juntos após serem deixados sozinhos.
Ao encararem seus pais, nenhum dos dois verdadeiramente se surpreendeu com as lágrimas nos olhos dos três. O orgulho reluzia em suas órbitas e escorria por suas bochechas, todos felizes pelo relacionamento de seus dois filhos.
— Nosso pequeno Pip, tão jovem e já casado! Oh, dia glorioso! Dia glorioso de fato! — Georgina colocou as mãos no rosto e secou as próprias lágrimas.
Os três se aproximaram dos recém casados e os puxaram para um abraço forte. Sussurraram parabéns e derramaram lágrimas junto aos dois em meio ao afeto e o carinho. Satã envolvia a todos em seus braços enquanto Georgina e Phillip encaixaram os dois menores facilmente entre os seus mais curtos, como um grande e colorido sanduíche humano — e um demônio e meio.
Depois do abraço excessivamente longo e apertado, a família coletivamente decidiu comemorar o compromisso oficializado de seus dois filhos com um jantar. Como não usavam dinheiro no inferno, não foi necessário pegar qualquer tipo de bolsa ou utensílio extra. Os cinco deixaram o castelo e seguiram juntos em direção à rede comercial do inferno, onde ficava a maioria dos restaurantes, incluindo aquele em que Damien e Pip foram para seu pequeno encontro.
Várias pessoas reconheceram Satã pelo caminho e os pararam para cumprimentá-lo e perguntar sobre suas asas. Em consequência, durante esses momentos, as pessoas acabavam sabendo sobre o casamento de Damien com Pip e os parabenizando por ele. O anticristo não duvidava que, até o fim do dia, todo o inferno esteja sabendo de seu compromisso com o britânico.
Ao chegarem no restaurante, os cinco pegaram uma mesa e jogaram o tempo de espera pela comida fora conversando. Além de mais uma corrente de parabéns e elogios, seus pais aproveitaram o tempo raro que podiam passar juntos — considerando que Satã agora morava no céu e não podia descer com tanta frequência — conversando e falando sobre suas duas crianças.
Pip nunca achou que algum dia sentiria a sensação de passar vergonha por culpa das histórias constrangedoras que seus pais contavam dele. Ele cresceu a vida toda sem pais e sua irmã e todos os que vieram depois não eram nem um pouco chegados com ele a ponto de esse tipo de cenário acontecer. Aquela era certamente uma oportunidade única em sua existência, a primeira vez que acontecia, e a vergonha de Pip não conseguiria superar sua felicidade nem se tentasse, nem mesmo enquanto seu pai contava sobre a vez que ele achou que o vaso de flores fosse um penico.
Damien, no entanto, conseguia ficar constrangido com muito mais facilidade do que Pip, ele só era mais teimoso em mostrar. Ao invés de dar o chilique que daria quando tinha oito anos, o anticristo simplesmente cruzava os braços e fechava os olhos, como se estivesse dormindo, mas suas bochechas rosadas e o cenho franzido eram uma clara indicação de que ele estava prestando atenção em cada palavra proferida por seu pai naquela mesa.
Apesar de tudo, ele sabia admitir que o clima estava agradável. Ele estava com seu pai, como quando eram mais novos e saíam juntos para almoçar, o que por si só já o dava muita nostalgia, e também com os pais de seu marido, compondo um cenário no qual ele nunca imaginou estar antes. Damien nunca pretendeu casar, sequer imaginou ser possível com todos os deveres que tinha que fazer. Mas ali estava ele, sentado em uma mesa com seus sogros, seu marido e seu pai, como em uma reunião de família daquelas novelas que os mortais assistiam.
No meio do almoço, quando todas as taças estavam cheias e os pratos de comida esvaziando aos poucos, Satã limpou a garganta com força e atraiu todos os olhares da mesa, e de algumas vizinhas, para sua direção. Ele pegou a própria taça na mão e a ergueu levemente para o alto.
— Eu quero propor um brinde — ele começou e virou-se para Pip e Damien. — Ao nosso casal feliz. Que vocês dois tenham uma eternidade estável, cheia de saúde e a passem como o casal mais feliz de todos os três planos. Que seu compromisso e essa felicidade dure até o fim dos tempos.
Os quatro restantes trocaram olhares e breves sorrisos e também ergueram as taças. Elas chocaram-se de leve, os sons ocultos em meio ao sonoro “saúde” ecoando da mesa. De repente, palmas foram ouvidas de algumas mesas do lado, e os cinco perceberam que o discurso de Satã não foi ouvido apenas por eles.
Aquela atenção seria algo com que Pip demoraria para se acostumar, especialmente tratando-se de um sentido positivo e envolvendo tantas pessoas. Quando Damien o disse que os habitantes do inferno eram curiosos, não estava mentindo. A maioria ali provavelmente nem sabia o que estava acontecendo, mas estavam felizes e batendo palmas ainda assim. Mas isso não impedia o britânico de se sentir lisonjeado e sorrir de volta para aqueles que sorriam para ele.
— Oh, meninos, estamos tão orgulhosos de vocês. — Phillip exclamou ao cessarem as palmas. — Veja só até onde chegaram. Que toda a sorte esteja do lado de vocês e os proteja por toda a eternidade.
Damien e Pip sorriram para o Pirrup mas velho e logo voltaram a comer, sem o conhecimento dos demais que eles tinham os dedos entrelaçados e bem apertados debaixo da mesa.
A conversa paralela tomou a mesa quando terminaram de comer, e os cinco passaram os últimos momentos juntos, no caso as últimas duas horas, continuando com as conversas anteriores, que facilmente variaram de como as coisas estavam na Terra para de onde vinha a comida no inferno — spoiler: ninguém sabia.
Durante toda a conversa, Pip não conseguiu parar de sorrir, completamente absorvido por aquele momento agradável com seus pais e o pai de Damien. Corria tudo tão naturalmente que parecia até que ele viver assim sua vida toda, sempre cercado de pessoas que estavam confortáveis com ele e o consideravam alguém digno, um ser humano. Chega a ser estranho pensar que por muito tempo não foi assim e que ele demorou a se acostumar de fato com a presença de seus pais; mas lá estão eles agora, conversando como os adultos que eram — alguns mais jovens que outros — e jogando as horas fora com papo furado e assuntos dos mais variados.
Infelizmente, aquela reunião não podia durar para sempre, e alguns anjos entraram no estabelecimento, procurando pelo rei do inferno.
— Com licença. — um deles disse ao se aproximar da mesa do casal. — Nós viemos levar o Satã de volta para o céu. O horário de saída acabou e Deus disse que precisa falar com você.
Essa frase continuava estranha para os ouvidos de Pip. Ele demoraria muito a aceitar que Satã estava no céu.
— Sinto muito, garotos, mas parece que já tenho que ir. — o rei do inferno se desculpou ao levantar da mesa.
— Foi um prazer conhecê-lo, Satã. — o britânico sorriu.
— Digo o mesmo, Pip. Você é certamente um rapaz adorável e merecedor de todo o amor que meu filho tiver para lhe dar.
— Eu agradeço muito! — ele agradeceu com as bochechas rosadas. Era uma grande honra ter o pai de Damien pensar tão bem de si.
— Venham me visitar no céu se puderem. Podemos fazer um piquenique e tomar chá, Damien me disse o quanto você gosta, Pip.
— Temo que puxei ao estereótipo nesse aspecto. — Pip riu. — Não se preocupe, Satã. Damien e eu ficaremos honrados em subir e te visitar. Eu gostei muito da sua companhia conosco hoje; obrigado por vir.
— Obrigado por me receberem. Cuide bem do meu filho, Pip, e fique de olho nele. Ele tende a se deixar levar e trabalhar demais, sem parar nem pra tomar nem um copo de água. Mostre pra ele quem manda na casa.
Pip riu alto.
— Pode deixar!
Os anjos acompanharam Satã para fora, cutucando seu braço de leve, e um raio de luz surgindo do céu foi a única indicação que os meninos tiveram de que ele tinha definitivamente ido embora.
— Bom, já que Satã se foi, talvez seja melhor irmos também; dar espaço ao casal recém casado. — disse Georgina ao cutucar o braço de Phillip com o cotovelo. Eles trocaram olhares estranhos, os quais Pip não entendeu o significado; mas Damien sim, por isso permaneceu calado por um tempo. — Muito obrigada por tudo, Damien. Por tudo que fez por nosso filho e nossa família. Você não tinha que fazer tudo o que fez, não tinha que protegê-lo, nos contar sobre as coisas na superfície e muito menos todo o resto, mas você ainda assim o fez e nós seremos eternamente gratos a você. Cuide muito bem do nosso menino. Ele te ama muito.
O anticristo sorriu, orgulhoso, e apertou a mão de seu marido por debaixo da mesma.
— E eu, certamente, o amo também. Não se preocupe, Georgina, eu farei meu melhor.
— Eu sei que fará, querido. Confio em você, tanto como líder, quanto como marido e amigo. Vocês serão muito felizes juntos, eu tenho certeza!
Antes de todos irem embora, Damien soltou da mão de Pip por um segundo e se afastou para dar espaço para ele se despedir de seus pais.Não querendo se intrometer, despediu-se rapidamente de Georgina e Phillip e saiu para esperar do lado de fora.
Uma vez sozinhos, a britânica se virou para o filho com um sorriso e entrelaçou a mão em seus cabelos.
— Nós estamos tão orgulhosos de você, Pip. Você chegou tão longe, querido, mesmo com tantos querendo te derrubar e fazendo pouco caso de você. Você persistiu e seguiu em frente, você sobreviveu, e agora você está junto de nós novamente e tem um marido incrível ao seu lado. Você é tão sortudo, querido. Tenha certeza de sempre zelar pela sua família e a colocar acima de tudo, pois agora ele faz parte dela. Todos nós somos uma grande família e devemos cuidar dela como nosso bem mais preciso, você entende? — Pip assentiu e murmurou “sim”, colocando um sorriso nos lábios de Georgina. — Eu te amo tanto, querido. Fico muito feliz por poder te chamar de filho.
O britânico estava mais uma vez à beira de lágrimas, devia ser a quinta vez só na última hora, e não se conteve em pular no pescoço de sua mãe e a dar um forte abraço. Ele estava tão feliz de estar ali, ainda mais de estar certo esse tempo todo sobre seus pais. Seu coração parecia crescer um pouco mais toda vez que sentia o amor de seus pais ressoar por ele. Apesar de estar no inferno, alguém poderia facilmente dizer à Pip que ele estava no céu e ele provavelmente acreditaria.
Georgina retribuiu o abraço com a mesma força com que seu filho a apertava. Ela compartilhava de uma felicidade tão grande quanto a dele. Enquanto Pip nunca conheceu seus pais, Georgina e Phillip tiveram que viver os últimos anos apenas no aguardo de que seu pequeno — agora não mais tão pequeno assim — se juntasse a eles, e ainda tinham que lidar com este conflito de querer reencontrar Pip e não querer ao mesmo tempo, pois isso significaria que ele descenderia ao inferno. É muito bom que nenhum deles precisava se preocupar com isso agora.
— Me deixe orgulhosa. — ela disse e secou as próprias lágrimas após o abraço. — Muito mais do que eu já sou agora por ser sua mãe.
— Eu vou. — Pip disse com um aceno de cabeça.
— Oh, meu pequeno raio de sol. Nós te amamos tanto.
— Também amo vocês. Muito, muito.
Georgina prendeu o rosto de Pip entre suas palmas e o puxou para beijar sua testa, o que fez o menor rir baixo.
— Nos vemos logo, filho. — seu pai disse e afagou seus cabelos. — Aproveite muito o tempo que tem com seu marido e escute o que Satã disse.
Pip assenti e se despediu deles com um último abraço antes de seguir para a saída.
Damien, que o estava esperando do lado de fora, tomou sua mão na dele e o puxou para irem logo para casa, pois, em suas palavras, estava exausto. Contudo, o britânico logo descobriria que isso era mentira, pois Damien colou os lábios nos dele no segundo em que fecharam a porta de casa.
Tornava um pouco difícil beijar enquanto sorria, mas não faz mal. Enquanto ele tivesse seu marido, tudo estava bem.
Pip retribuía com a mesma paixão, apesar da breve resistência inicial, suas mãos agarrando-se aos cabelos de Damien e afundando os dedos em seu couro cabeludo. Ele quase tombou para trás algumas vezes com a força de Damien sobre si e se forçou a segurar mais forte no anticristo para não cair. Damien inclinou Pip para trás e o segurou entre os braços; puxou-o para seu colo estilo noiva em um movimento fluido e separou seus lábios dos de Pip por um segundo para beijar seu pescoço.
— Damien! Faz cócegas! — o britânico riu e tentou empurrar o rosto do marido para longe.
O anticristo o ignorou completamente e continuou pressionando beijos na sua pele, desde seu pescoço e suas bochechas até atrás de sua orelha e a ponta de seu ombro. Ele não podia evitar, seu coração batia com força e ecoava em seus ouvidos e o fogo que queimava em seu peito o atraía naturalmente ao raio de sol que tinha em seus braços; era apenas natural que ele quisesse apertar Pip em seu peito e despejar todo o amor e felicidade que ele o fazia sentir.
O peito de Pip subia e descia em respirações descompassadas, tentando desesperadamente conseguir um pouco de ar em seus pulmões, mas a pressa dos lábios de Damien não tornavam as coisas fáceis para ele.
— Damien… — o britânico tentou dizer em um segundo, mas foi calado por outro beijo. — Não consigo… Respirar…
O anticristo recuou e finalmente deu espaço para Pip encher os pulmões. Ele riu com a cara de peixe de Pip; seus lábios abriam e fechavam com suas respirações e seus olhos permaneceram fechados como se ele ainda estivesse em transe. Damien teve que se conter ao máximo para não beijar o britânico de novo.
Enquanto esperava Pip se recuperar, Damien aproveitou o tempo vago para levar seu novo marido para seu quarto. O britânico sequer se mexia ao caminhar, como se estivesse inconsciente; seu corpo se encolheu no colo de Damien e pressionou o rosto em sua blusa. Como Pip conseguia ser tão fofo sem nem tentar é um mistério que Damien jamais conseguirá desvendar.
A porta do quarto se abriu sem Damien precisar mexer um único músculo e derrubou Pip na cama sem cuidado nenhum. O britânico soltou um gemido e se sentou de imediato para tentar se equilibrar. Damien se sentou ao seu lado e sorriu ao ouvir Pip reclamar por tê-lo jogado na cama.
Sem uma resposta, o britânico simplesmente sentou e deixou Damien encostar em seu ombro. As mãos dele sobrepuseram-se às de Pip e seus dedos entrelaçaram. Ninguém dizia nada, apenas se deixaram levar pelo calor em suas mãos e o conforto da posição em que estavam. Os olhos de Pip desviaram para suas mãos entrelaçadas e repararam na forma como o polegar de Damien acariciava seu dedo anelar, bem em cima de sua aliança.
— Você não tem um anel? — questionou o britânico ao perceber a mão de Damien sem nada no dedo anelar.
O anticristo seguiu seu olhar por um momento e soltou da mão dele. Do meio de pequenas labaredas conjuradas em sua mão, um pequeno anel prateado caiu na palma de Damien. Era exatamente igual ao de Pip, só em um tamanho um pouco menor para caber no dedo fino do anticristo.
— Quer colocar? — ele pegou o anel entre os dois dedos e o ofereceu para Pip.
O britânico fez que sim com a cabeça, suas bochechas vermelhas, e tomou o pequeno objeto em mãos. Com as mãos levemente trêmulas, ele tomou a mão esquerda de Damien na sua e deslizou o anel em seu dedo. Ele deu um sorriso satisfeito ao ver o objeto reluzente na mão de seu marido e não resistiu em puxá-lo para si e beijar a costa, bem em cima do anel.
— Ficou muito bem em você. — Pip sussurrou ao erguer o olhar, ainda mantendo a mão de Damien na sua.
Seu marido sorriu e apertou sua mão, sua pele lisa deslizando sobre a dele.
— Ficou perfeito, amor.
Damien pressionou um beijo nos lábios de Pip e se inclinou para jogá-lo de costas na cama. Suas mãos subiram ao cabelo do britânico, puxando-os de leve e conseguindo gemidos em resposta. Ambos chutaram os sapatos para fora da cama com o esquentar dos beijos acompanhados de língua. O corpo de Pip tremia sob os toques de Damien acompanhando o deslizar de suas mãos por sua roupa; as erguia aos poucos para revelar pequenos pedaços de pele, mas nunca o suficiente para tirar a peça. Seus dedos provocavam Pip com toques suaves em sua cintura enquanto sua boca atacava a dele com beijos molhados e desviava periodicamente para mordiscar sua orelha ou beijar seu pescoço.
Damien não tinha a menor noção do que aquilo fazia com Pip; ele mal tinha começado e seus shorts já estavam apertados, aguardando por receber alguma atenção por entre as pernas daqueles toques divinos que o deixavam à beira da insanidade. Damien estava tão perto, mas tão longe ao mesmo tempo e Pip sentia que enlouqueceria se isso continuasse por muito mais tempo.
Um choque de prazer correu o corpo de Pip ao sentir Damien separar suas pernas e colocar o joelho perigosamente perto de sua virilha. Foi um sentimento rápido, que foi logo superado por um mais forte quando a mão do anticristo de fato desceu até entre suas pernas e começou a esfregar o membro de Pip por cima da roupa.
— Damien… — foi a única palavra coerente que Pip conseguiu formar antes de se perder no prazer dos toques do marido. Era incrível como ele conseguia o tirar de sua concentração tão facilmente.
Sorrindo, Damien clamou os lábios de Pip para si sem respondê-lo. Ao invés disso, ele aumentou a fricção dos movimentos e pôde de fato sentir o britânico tentando acompanhar seus movimentos com a cintura, desesperado pelo contato direto e sua própria libertação.
Mas ele não era assim tão cruel e em poucos minutos despiu a si mesmo e Pip. Agarrou seu membro com uma mão só e voltou a marturbá-lo junto aos movimentos que sua boca fazia em seu pescoço, mordendo e chupando a área sensível até seu marido virar nada além de geleia debaixo dele.
Devagar, Damien deslizou a mão pela lateral do corpo de Pip, fazendo o loiro estremecer com os toques em sua pele sensível, e puxou suas duas pernas para encaixá-las ao redor de sua cintura. Se debruçou sobre Pip mais uma vez e prendeu seus dois membros em sua mão e começou a masturbá-los.
A cintura de Pip acompanhava os sentimentos a medida que aceleravam, buscando sempre uma fricção maior, mas sempre acabava perdendo-se em seus próprios movimentos em meio à atenção que Damien para o resto de seu corpo; suas mãos acariciavam e massageavam seus mamilos e cutucavam sua pele ao trilhar as unhas na lateral de sua cintura, onde Pip sentia mais cócegas. Seus lábios pressionaram beijos pesados contra os seus, chupando a pele com cuidado e aproveitando-se da distância entre eles para atravessá-los com a língua no processo.
Damien só se afastou de Pip para atacar seu pescoço, mordendo e beijando a pele até ela ficar completamente vermelha debaixo de seus lábios. Ele conseguia sentir as mãos do britânico arranhando suas costas, possivelmente frustrado com os movimentos lentos de sua mão — o que Damien não negaria estar fazendo de propósito — e um sorriso malicioso surgiu em seus lábios, pois ele amava provocar seu amante, agora marido.
— Rápido… — Pip sussurrou contra os lábios do anticristo. Ele tinha os olhos fechados e tentava desesperadamente mover a cintura e investir contra a mão que o masturbava, buscando uma fricção maior.
Sob o comando de seu marido, Damien não consegue negar-lhe algo. Puxou as pernas de Pip para aproximar mais suas intimidades e, encaixando um braço debaixo de sua lombar, acelerou o movimento do corpo e tornou a se esfregar no britânico, agora apenas com movimentos mais rápidos.
Pelo resto do sexo, Pip manteve-se calado e deixou que Damien o tomasse por inteiro em seus movimentos. Em meio aos toques em sua pele e toda a atenção com que seu marido o banhava, ele não conseguiu conter o sorriso em seus lábios e os olhos fechados para sentir melhor o prazer carregar sua consciência para longe.
Seu toque na realidade já havia se perdido a muito tempo, e sua cabeça podia apenas pensar no quão incrível Damien o fazia se sentir. Cada toque, cada beijo em sua pele e cada faísca que ele acendia com os movimentos de sua mão em seu membro fazia Pip se perder mais e mais naquela bomba de sensações e emoções de forma que nunca experienciou antes em toda a sua vida e sua morte. Damien era o único que sabia — e podia — tocá-lo da forma que tocava e o fazia se perder assim. Pip se entregava a ele como jamais se entregaria a ninguém e amava saber que ele o tentava da mesma forma; o fazia se sentir potente e valorizado, nunca o desperdício que ainda pensava ser de vez em quando.
Sentindo-se próximo ao orgasmo, o britânico arriscou um olhar para o anticristo. Seus olhos carmim estavam fechados e as gotas de suor eram visíveis em sua testa e a parte superior de seu tronco; ele também estava soltando gemidos baixos contra sua pele, perseguido pelo prazer que sua mão e os toques de Pip em sua pele o proporcionam. Do que conhecia de seu marido, Pip podia dizer pela expressão em seu rosto que ele também estava perto do orgasmo.
De todas as mais de sete bilhões de pessoas que tinha no mundo dos vivos, Damien escolheu Pip para fazer isso, escolheu Pip para compartilhar daquele sentimento — tanto físico quanto emocional e espiritual — e, enquanto o prazer fazia o britânico arquear as costas e morder os lábios para conter um gemido, Pip não podia evitar de amar a si mesmo por ter chegado onde chegou.
De todas as mais de sete bilhões de pessoas que tinha no mundo dos vivos, ele casou com Damien; ele sobreviveu às provocações e ameaças dos outros; ele permaneceu o mesmo, convicto em seus próprios valores. Ele pode estar morto, mas isso não apagava todas as vitórias que conseguiu durante sua existência, vitórias que, até alguns anos atrás, ele sequer imaginaria possíveis. Mas olha onde ele tinha chegado.
Damien soltou um suspiro pesado ao atingir o próprio orgasmo e arregalou os olhos em espanto ao sentir as mãos de seu marido agarrarem a lateral de seu rosto e pressionarem seus lábios contra os dele em um profundo beijo, pouco antes do britânico atingir o próprio orgasmo. Ele não teve tempo de processar o próprio êxtase antes de ser virado pelo britânico e pressionado contra a cama para ser coberto de beijos, não que ele tivesse algo contra aquela atenção, é claro. Damien cedeu à atenção do marido com prazer, permitindo-onde bagunçar seus cabelos com suas mãos e pressionar seu corpo contra o dele, de uma maneira que ele sabia não ser sexual.
Os olhos de Pip pareceram brilhar como safiras quando Damien conseguiu colocar o seu próprio olhar nele. Pip o encarava com amor e afeto enlaçado em cada gota de azul que compunham suas belas íris, seus lábios curvaram-se no mais lindo sorriso, do tipo que fazia suas bochechas ficarem muito maiores do que verdadeiramente eram e tentava quem visse o sorriso a apertar as maçãs de seu rosto. O coração de Damien deu um pulo e ele não resistiu em retribuir o sorriso e pressionar um selinho rápido em seus lábios, ansiando por tê-los sobre os seus novamente.
— Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, sabia? — ele ouviu Pip sussurrar em seu ouvido ao fim do beijo. Ar saiu das narinas de Damien em um riso silencioso e suas mãos apertaram o britânico contra ele. — Eu falo sério! Antes de você voltar, não tinha um motivo para eu sair da cama todos os dias, especialmente sabendo de tudo que ia acontecer, as surras que eu levaria e os gritos que ouviria. Quando você apareceu, tudo mudou de um jeito que eu não esperava, nem um pouco! Você me fez querer viver, Damien. — o britânico desviou o olhar por um segundo, suas bochechas completamente vermelhas, e riu. — Pode ser um tanto irônico que eu esteja falando essas coisas estando morto, mas é verdade. O que eu sinto não mudou. Minha vida era miserável lá em cima e eu tentava desesperadamente não reconhecer e me iludir para não ter que aceitar; a verdade é que as coisas nunca foram fáceis para mim, durante boa parte da minha vida, mas as coisas que eram difíceis antes começaram a parecer tão mais fáceis com você do meu lado. Não pelos seus poderes, mas estar do seu lado deixava, deixa meu peito leve de tal forma que é como se nada pudesse me atingir. Enfrentar as dificuldades da escola se tornou mais fácil com você por perto, eu até criei coragem para enfrentar o conselheiro uma vez! E eu só tenho a você a agradecer por tudo isso. Damien, você é meu único e melhor amigo e a pessoa mais importante pra mim, e eu estou muito feliz em poder dividir a minha eternidade com você. Eu estou muito feliz que você me quer e, por quanto tempo você me quiser, eu serei inteiramente seu.
O anticristo sorriu e puxou Pip para beijá-lo novamente, sem verdadeiramente revelar a forma como seu coração parecia um tambor batendo dentro de seu peito. Puta que pariu, ele amava Pip com cada fibra de seu ser.
— Faço de tuas palavras as minhas, Phillip. Tú não sabes o quanto significa para mim ter-te ao meu lado. Tú colocas significado de fato em minha vida imortal e demoníaca de tal forma que nenhum escrito poderá jamais substituir. Deste dia em diante, de tal forma como jurei quando na superfície, eu vivo por ti e por ti morrerei se necessário, até o fim da eternidade. E, por quanto tempo me quiseres, é o tempo que me terás. Amo-te mais do que já amei a qualquer outro e jamais amarei em toda a história do mundo. Hoje fiz de ti meu marido, mas é a ti a quem pertenço e me entrego por completo. Tú me tens à tua disposição para o resto da existência, meu amor.
Lágrimas escorriam dos olhos de Pip da mesma forma que o faziam pelas bochechas de Damien. Não se conteve mais e se atirou no pescoço do anticristo para apertá-lo entre seus braços. Ele não podia evitar aquela chuva de sentimentos dentro de si, não quando Damien o fazia perder o controle de si mesmo tão rapidamente.
O britânico selou seus lábios em um beijo caloroso e molhado de lágrimas, o que foi prontamente retribuído pelo anticristo, que levou suas mãos ao pescoço de Pip e puxou-o junto à ele para prendê-lo entre seus braços. Sua figura baixinha e magra cabia perfeitamente entre eles, dando à Damien o prazer maior de o apertar mais ainda.
Estar deitado ali, naquela cama, com Pip, era surreal. Damien nunca imaginou que chegaria tão longe em toda a sua existência pré-destinada. Ele viveu tantos anos para o apocalipse e agora ele estava casado, casado com a pessoa mais doce e amável que ele já conheceu. Aquilo era impensável, muito além de qualquer coisa que Damien podia desejar.
Da mesma forma, não podia imaginar como ele estava se sentindo. Pip passou tanto tempo sendo odiado que a ideia de se casar devia ser tão estranha para ele quanto para o próprio Damien. Para alguém que se acostumou tanto com socos, chutes e palavras de desprezo durante toda a sua vida, ele não tinha como saber o quanto significava que finalmente tivesse alguém que o acolhesse em seus braços da forma que Damien acolheu. Ele tinha seus pais agora, estava em um lugar seguro, longe de tudo que o pudesse machucar, e Damien teria certeza de dar seu melhor para garantir que a eternidade de seu marido fosse a melhor possível, por todo o tempo que ele desejasse ficar ao seu lado. Suas palavras anteriores eram verdadeiras e ele as carregaria consigo até o fim de tudo como verdade divina talhada em pedra.
— Obrigado. — o anticristo murmurou contra a pele do britânico ao pararem o beijo.
Pip ergueu as sobrancelhas, confuso. Ele apoiou a cabeça entre o travesseiro e o vão do pescoço de Damien e o encarou com seus olhos curiosos.
— Pelo que?
Damien o apertou e apoiou o queixo em sua cabeça por um segundo, sentindo o cheiro de seu shampoo e os fios loiros desarrumados fazendo cócegas em sua pele. Ao olhar para baixo, foi recebido com grandes e brilhantes olhos azuis, tão profundos com o oceano, que o puxaram de uma só vez para seu canto hipnótico, do qual Damien nunca conseguia escapar.
Da mesma forma que Pip facilmente se perdia em seu carmim, o mesmo acontecia com ele. E Damien não gostaria de estar em nenhum outro lugar. Nem em um milhão de anos.
— Por existir.
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