Darker Days

12 Quem te encara de volta.


Os dias passavam mais lentamente para Pip agora que Damien não o acompanhava mais para a escola. Passaram-se três dias desde o incidente e caminhar pelos corredores era ainda mais ameaçador do que antes. As pessoas encaravam o britânico como se ele fosse algum tipo de aberração ou problemático, como se ele não devesse estar ali. Ele estava muito mais acostumado aos olhos críticos e de desprezo do que estes de espanto e curiosidade, como se ele fosse algum tipo de animal de zoológico para ser observado.

As pessoas já não pegavam no seu pé como de costume, como se estivessem lhe dando espaço — como se se importassem -, mas ele ainda ia para a escola sozinho, almoçava sozinho, ia para a detenção sozinho e voltava sozinho. Era ainda mais solitário do que antes. Tendo passado tanto tempo junto a Damien tornava as coisas ainda mais difíceis. Ele se acostumou à sua companhia, aos seus comentários sarcásticos e seu jeito quieto. Estar perto dele, mesmo quando estavam em silêncio, era algo confortante. O mostrava que ele não estava sozinho.

Mas ele estava. Agora mais do que nunca. E as horas que passava sem nada para fazer na detenção não ajudavam. Ele apenas encarava o relógio com pesar, aguardando os minutos passarem para poder voltar para casa e passar tempo junto ao namorado.

Ele odiava as horas de detenção. Podia usar aquele tempo para fazer lição e refletir sobre a vida, mas isso ele já fazia nas horas que ficava sozinho. Não precisava de mais nem um segundo pensando sobre como ele era um pateta que não tinha mais o que fazer da vida além de estudar.

Ao contrário do que os professores achavam, ninguém realmente refletia sobre as próprias ações na detenção. Tudo que era reproduzido naquele lugar era desprezo e ódio para aqueles que acabaram os mandando naquele lugar. Pessoas raramente se culpam por aquilo que fizeram. O primeiro instinto é jogar a culpa em alguém, e, se não há ninguém, a raiva vai para quem os pegou no flagra e os colocou naquela situação incômoda. Pip provavelmente era o único a refletir sobre a própria vida na detenção, apesar de, nesse caso, Damien o garantir que ele não tinha culpa alguma do que aconteceu.

Em vista de tudo, o que mais irritava o britânico sem dúvidas era o tempo a mais que levava para chegar em casa. Menos tempo em casa significava menos tempo junto a Damien, e essa era a melhor — senão a única parte boa — de seu dia. Mesmo que já fizessem tudo juntos, pouco importava para Pip, pois nunca, nunca, se cansavam, de qualquer coisa que seja. Desde as conversas cotidianas à bagunça de lençóis em que acabavam enroscados, nada se tornava velho demais para que se decidissem por outro caminho.

E era isso que o frustrava. Quando tudo com Damien é bom, como ele pode aguentar esperar quase um dia inteiro para chegar em casa e se perder em seu abraço? Era enlouquecedor!

Entretanto, mesmo com a demora e a sensação de tempo perdido, o casal sempre encontrava um jeito de compensar o tempo perdido quando o horário das aulas acabava e Pip voltava da detenção.

Com a janela fechada e a porta selando a privacidade que compartilhavam no quarto, Damien mordia o lábio inferior, tentando conter os gemidos que queriam sair de sua boca, e segurava o cabelo de Pip com relativa força, suas mãos acompanhando os movimentos para cima e para baixo que ele fazia com a boca em seu membro.

Para a primeira vez de Pip fazendo um boquete, ele estava indo incrivelmente bem. Damien mal conseguia conter os suspiros e espasmos que percorriam seu corpo, tremendo-o por completo.

Ele precisava se policiar, ao mesmo tempo que surfava naquela onda de prazer, para não puxar o cabelo de Pip ou forçá-lo até onde ele não conseguia ir.

O anticristo, de repente, sentiu uma onda de eletricidade em particular percorrer sua espinha, e não teve tempo de avisar o britânico antes de chegar ao orgasmo.

Pip fechou os olhos com força, interrompendo seus movimentos e retirando-se daquela posição desconfortável. Ele tinha uma mão na frente da boca e uma expressão de desgosto do rosto, como se tivesse acabado de chupar um limão.

— Pip, cospe! — Damien se apressou a dizer, preocupado com as caras que ele fazia. — Você não tem que…

Mas ele já tinha engolido.

Seu corpo se arrepiou dos pés à cabeça. Não era exatamente um gosto agradável — talvez fosse essa uma das razões das pessoas usarem camisinha durante sexo oral, além de se prevenir contra doenças, é claro.

Damien franziu o cenho e conteve a vontade de dar um peteleco na testa do britânico. Ao invés disso, puxou-o para cima e o confortou com um carinho em suas costas com uma mão, enquanto a outra puxava suas calças para cima.

— Você tá bem?

O britânico assentiu com lábios franzidos e o corpo rígido, e o anticristo quase revirou os olhos. Ele sabia que devia ter avisado com antecedência.

— Vou só lavar minha boca. Já volto.

Pip saiu correndo para o banheiro antes que Damien pudesse dizer qualquer outra coisa, batendo a porta atrás de si. Ele foi relativamente rápido, apenas escovou os dentes e fez bochecho, o suficiente para substituir o gosto de sêmen por menta.

Ele deixou o banheiro com um suspiro e se jogou na cama, sendo puxado para perto de Damien pelos braços e preso pelos mesmos.

— Muito ruim? — o moreno perguntou com a sobrancelha arqueada.

O loiro negou com a cabeça e voltou a se aconchegar no peito do namorado, deliciando-se com sua risada grossa.

Era tão confortável, aquele calor e segurança. Quando estava com Damien, Pip tinha certeza de que nada poderia o machucar. Ele estava na mais perfeita tranquilidade.

Isto é, até o relógio bater seis da manhã.

— Eu queria não ter que ir. — murmurou o britânico ao encostar a cabeça no peito do namorado. — Queria poder ficar aqui com você.

Damien não mentiria, é o que ele queria também. Entretanto, como ele já sabia há muito tempo, não era sempre que ele conseguiria o que queria.

Era realmente uma pena, pois ele adoraria passar uma semana inteira sem ter que fazer nada, apenas ficar junto da pessoa que amava.

— Ainda podemos ficar juntos depois. Eu vou estar bem aqui quando voltar, te esperando.

Pip sorriu e ergueu-se para clamar mais uma vez os lábios do namorado para si.

Era difícil para ele, encarar aquele lugar sozinho quando já se acostumou a ter alguém sentado ao seu lado. Suas condições naquele lugar também não ajudavam muito, pois ele não tinha uma única memória feliz naquela escola além de, talvez, alguns trabalhos feitos junto a pessoas decentes. Se pudesse permanecer dentro daquela bolha confortável em que dormia junto a Damien, não pediria mais nada.

— É só mais um dia, meu amor. Vai acabar logo. — Damien tornou a consolá-lo ao separarem os lábios, acariciando seus cabelos.

Outra coisa pela qual Damien não mentiria: a sua raiva quando via Pip voltar machucado da escola. Sua cabeça fervia, assim como suas mãos, e ele tinha vontade de jogar todos que fizeram isso com ele na parede.

Aquele não era um bom momento para colocar em prática a conversa que tiveram há alguns dias atrás. Na verdade, o timing não podia ser pior. Mas era sempre assim com eles. Se tinha algo com o que South Park era horrível, era tempo, e isso não mudava quando a questão era as coisas que aconteciam com seus habitantes.

O anticristo tirou o sorriso dos lábios e encarou o britânico com seriedade.

— Pip, eu sei que você pediu pra eu não fazer nada, mas minha oferta continua aberta. Eu posso acabar com tudo isso num piscar de olhos. Tudo que você precisa fazer é mandar.

O britânico engoliu em seco e desviou o olhar.

Aquela era uma oferta proposta por Damien no primeiro dia em que Pip voltou da detenção. Não tinha apanhado muito naquele dia, mas não conseguia caminhar sem mancar. E foi quando ele o ofertou que, se algum dia eles passassem do limite e ele não aguentasse mais, sob seu comando, ele podia acabar com tudo aquilo para sempre. Mas Pip não tinha muita certeza se queria saber o que Damien faria com o sujeito que tornasse seu alvo.

O peso de manter uma relação íntima com o anticristo pareceu finalmente cair em seus ombros. Mesmo com o trabalho de ser o advogado de Deus, Damien ainda era aquele que, supostamente, deveria trazer o fim do mundo, para ultimamente ser morto por Jesus. Ele era o filho de Satanás e encarnação de todo o mal — muito embora a ironia fosse do tamanho de Júpiter. Havia uma força nele que sussurrava em seu ouvido, o dava ideias ruins e perigosas de coisas que poderia fazer, regras que poderia infringir, para estabelecer sua própria vontade. Isso existia em cada adolescente, a vontade de passar por cima das regras, mas o caso de Damien era um pouco mais grave que isso, pois suas ações poderiam eventualmente trazer o fim de tudo aquilo que conheciam.

E todo aquele peso agora estava nos ombros de Pip. Ele é quem decidirá em quem Damien podia ou não usar seus poderes.

Aquilo era uma grande responsabilidade. E ele finalmente entendia a razão de Damien se conter quando perto dele. Ele não sabia se conseguiria lidar com tanto poder em suas mãos, mas faria o possível. Não queria desapontá-lo.

— Minha resposta ainda é não, Damien. — disse com firmeza. — Eu sei que eles não são pessoas boas e que vão acabar pagando por isso alguma hora, mas eu não me sinto confortável em ser quem vai fazê-los pagar. Dá a impressão de que eu sou algum chefe da máfia, sei lá.

Damien riu, apesar de a discussão não ser sobre algo trivial ou confortável. Pip era simplesmente uma graça.

— Melhor irmos deitar. Você ainda tem detenção depois da aula amanhã e precisa estar disposto. — disse e beijou uma das têmporas do namorado.

Pip resmungou, mas fez como lhe foi pedido e se colocou ao lado de Damien, envolvendo-o em seus braços e aconchegando o rosto sobre sua cabeça.

(...)

No dia seguinte, Pip acordou já com vontade de voltar a dormir. Não queria ter que passar mais um dia inteiro longe de Damien daquela forma. Mesmo que faltasse pouco para que voltassem a ficar juntos outra vez, ele era impaciente. Não gostava de esperar, especialmente quando se tratava de Damien.

Mas, como ele já sabia, as coisas raramente se seguiam como ele queria. Além de que, parando para pensar, ele estava começando a agir como uma criança mimada. Precisaria se policiar quanto a isso.

Assim que terminou de se arrumar, Damien o acompanhou até a porta, mão tomada na sua e dedos entrelaçados.

— Me chame se precisar de qualquer coisa. Eu já te expliquei como invocações funcionam, né?

Pip assentiu.

Damien o havia explicado há três noites atrás. Para invocar um demônio sem usar de um ritual complicado, especialmente com demônios com os quais já se tinha um laço, era preciso apenas chamar por seu nome. Portanto, a qualquer momento do dia, se Pip chamasse pelo nome de Damien, ele o atenderia.

O lembrava de um cão de guarda de certa forma, mas ele não disse nada sobre o assunto.

Pip colocou-se na pontinha dos pés e se inclinou para beijar Damien nos lábios, contato que o moreno logo retribuiu.

— Nos vemos em algumas horas. — ele murmurou para o britânico, que assentiu.

Despedindo-se de Damien com um braço apertado, Pip se colocou em seu caminho. De volta para seu pequeno mundo de ignorância e desprezo.

No segundo em que Pip passou pela porta da frente, os olhares se colocaram nele, os quais ele coletivamente ignorou e apenas seguiu para o armário.

Ele odiava quando olhavam para ele. Preferia muito mais passar despercebido do que ser o centro das atenções. Mas isso parecia estar se repetindo cada vez mais depois do confronto entre ele e Terrance.

Pip sabia que era pequeno e fraco. Ele não conseguiria fazer mal a uma única pessoa, a não ser que estivesse extremamente irritado. Imaginava que fosse essa a razão da surpresa de todos quando ele “venceu” a briga. Mas, mesmo assim, não podiam seus colegas cuidar das próprias vidas ao menos uma vez? Ele só queria seguir com as malditas horas naquela escola para poder finalmente voltar para casa junto a Damien.

Mas, quanto mais tempo passava, as coisas continuavam as mesmas, se não piores. As pessoas o encaravam no almoço, durante a classe, cochichavam enquanto o olhavam de soslaio, até mesmo a detenção estava sendo um inferno. Já havia se passado quase uma semana desde o incidente, pelo amor de Deus, parem de olhar para ele!

Ele já não estava aguentando mais. Queria pegar suas coisas e sair correndo o mais rápido possível para escapar daquelas malditas horas extras que ganhou naquela escola chata. Tudo para escapar daqueles olhares curiosos e invasivos, que mais pareciam tentar amedrontá-lo que admirá-lo.

Quando foi finalmente liberado da detenção, Pip praticamente jogou tudo na mochila e esperou os demais saírem da sala, assim sairia com mais calma.

Enquanto seguia para casa, o britânico só podia pensar em todas as coisas que faria quando finalmente voltasse para o conforto de casa. Estava ansioso por voltar para um lugar onde não precisava se preocupar com o que fazia ou como se comportava, onde se sentia livre das pressões daquela cidade que sempre o tentava derrubar.

Ele abriu um sorriso ao rever o que tinha acabado de pensar. Casa. Depois do que aconteceu com seu antigo lar, ele nunca imaginou que sua verdadeira casa estaria bem debaixo de seu nariz. Parando para pensar, ele nunca sentiu qualquer conexão com os lugares em que passou a vida, desde a casa de sua irmã à casa de sua prima. Ele nunca teve um lugar que poderia chamar de seu com orgulho enlaçado em sua voz. Não até agora.

Ele estava adorando passar aquele tempo a mais com Damien. Dormir sobre o mesmo teto, dividir a mesma cama, compartilhar as tarefas, parecia até que eram casados.

Não que Pip se opusesse à ideia. De modo algum.

Enquanto praticamente saltitava pelo caminho, o britânico falhou em perceber uma dupla esperando por ele, escondida atrás da cerca de uma casa verde escuro. Quando Bill e Fosse saíram de trás do esconderijo, um deles, Pip não sabia dizer qual, soltou um grito, tirando-o do chão e quase o fazendo cair de susto.

Seu coração imediatamente começou a acelerar e seus instintos começaram a bater à sua porta, gritando para que ele fugisse. E só ficaram ainda mais altos ao colocar os olhos nos sorrisos maliciosos que a dupla infame tinha no rosto.

— Você não achou que tinha escapado da gente, né? — Fosse deu um passo à frente, olhando para o britânico como se ele não fosse nada mais que um verme. — Nem se preocupe em fingir. Ninguém aqui vai cair nos seus truques.

Pip engoliu em seco, dando um passo para trás.

Aquele não era o papo de sempre. Havia algo errado. Ele nunca quis fugir tanto na vida.

— Nada daquilo lá foi proposital, não é? Você só entrou em pânico por causa da faca.

Eles estavam falando de quando Terrance o atacou.

Pip assentiu com a cabeça, sem dizer uma única palavra.

— Na minha opinião, o Trent foi um idiota. — disse Bill. — Não é culpa sua que ele não sabe acender a porra de um fogo de artifício direito. E agora, por culpa dele, você virou o assunto mais falado da escola.

Talvez fosse verdade, mas ele não queria ser o centro das atenções. Pip apenas queria viver seu dia normalmente, sem sofrer com atormentações e precisar se preocupar a cada passo que dava para fora de casa. Por que ninguém conseguia entender?

Fosse alargou o próprio sorriso.

— Alguém precisa te colocar de volta no seu lugar, francesinha. — estralou os dedos, e Pip estremeceu dos pés à cabeça.

— Por favor, cavalheiros, não há necessidade de brigar… — ele tentou dizer, mas seu rosto foi recebido com um soco, impedindo-o de continuar a falar.

Fosse o empurrou no chão com força, passando por trás dele e agarrando-o por trás. Puxou seus braços e o prendeu de uma forma que sabia que ele não conseguiria se soltar. Não que ele conseguisse se fosse em outra posição.

À sua frente, Bill caminhou para perto de seu rosto, ainda mantendo a postura ereta, mas com um sorriso particularmente maldoso no rosto.

— Você parece uma mulherzinha com esse cabelo. Que tal um corte?

De seu bolso, ele puxou uma tesoura fina de ponta, do tipo que cabeleireiros usam para o ofício profissional.

Mas Bill não era profissional.

Nunca em sua vida Pip imaginou que uma simples tesoura pudesse parecer tão ameaçadora.

Os olhos do loiro arregalaram e ele tentou desesperadamente se soltar, mais ainda quando Bill jogou sua boina no chão e agarrou um tufo enorme de cabelo.

Quanto mais ele tentava lutar, mais os garotos seguravam seus braços. Chutar não adiantava, pois eles o tinham completamente imobilizado. E, embora seus machucados já tivessem se recuperado consideravelmente, ter aquelas mãos grudentas e grossas segurando seu pulso tão forte era como ter fantasmas atravessando sua pele, reabrindo as feridas que ali deixaram sua marca. Ele conseguia sentir o sangue escorrendo pela pele, pingando no chão, o som ecoando em seus ouvidos, lentamente quebrando os pilares de sua sanidade.

Aquela sensação tão familiar retornou, tão familiar como se morasse em seu corpo e se alimentasse de sua alma. Suas mãos começaram a tremer e suor frio escorreu por sua testa. Contra sua própria vontade, parou de resistir, seus músculos relaxando sob a posse agressiva de seus agressores.

Ele se sentia morto. A cada tesourada e mecha de cabelo contada fora, era como se um pedaço de sua alma fosse embora com ele. Ele não conseguia se mexer, sequer sabia como estava respirando.

As risadas que escapavam dos mais velhos sequer chegava a atingir seus ouvidos. Se não fosse o tapa que recebera, teria apagado completamente. Mãos brutas agarraram sua blusa e o empurraram direto ao concreto. O impacto de sua cabeça arrancou um gemido de sua boca, o único som além da respiração errática. Um último chute foi desferido em sua barriga e os garotos o deixaram para trás, rindo pomposamente, como se fossem as pessoas mais sortudas do mundo.

Lentamente, o britânico se levantou, assim que teve certeza de que os rapazes estavam longe.

Havia gotas de sangue e quantidades alarmantes de fios de cabelo espalhados ao seu redor. Seu coração bateu rápido em seu peito ao levar a mão à cabeça. O que eles tinham feito com ele? Ele se perguntava em pensamento, mas não estava certo se queria saber a resposta.

Caminhando com mãos trêmulas sobre o peito, olhou seu reflexo em uma pequena poça de água que restou da chuva de alguns dias atrás.

Seu cabelo estava completamente desfigurado. Pedaços desiguais e mechas inteiras faltando, era como se tivessem dado a tesoura à uma criança. Não havia nenhum vestígio de seu antigo corte, o estilo que tanto o definia, zoado por outros por ser brega e cafona, mas, ainda assim, era seu. Uma parte dele.

E ela foi arrancada dele.

Seus olhos azuis refletiam naquela poça e não viam nada mais que um simples borrão, um fantasma de quem ele costumava ser.

Ele não conseguia se reconhecer.

Uma mão trêmula se ergueu para acariciar o desastre que fizeram em sua cabeça. Seu cabelo estava completamente destruído, nem uma única mecha intacta.

Ele podia parecer com qualquer um, mas aquela pessoa de cabelos loiros, olhos azuis e roupa cafona que o encarava de volta naquela poça, com fios dourados escorrendo de seus dedos e olhos cheios de lágrimas, não era ele.

Aquele não era Phillip Pirrup.

Uma coisa que se deve saber sobre apelidos é que eles só podem ser usados por tanto tempo até se tornarem sua nova identidade. E ele era chamado por apelidos há muito tempo.

A água da poça tremia com cada lágrima derramada, desfigurando mais e mais seu reflexo até este se perder em meio às ondas.

Ele não era mais Phillip. Era apenas Pip. O saco de pancada da escola. A pessoa a qual os jovens de South Park iam atrás caso precisassem desestressar ou apenas sentissem vontade de dar um soco em alguém. Alguém que existia apenas para ser abusado.

Pip nunca seria aceito, independentemente do quanto tentasse. Pip jamais receberia compaixão de seus colegas de classe, nem mesmo dos jovens adultos da cidade. Pip receberia apenas chutes, socos e desgosto de seus colegas. Pip não teria amigos e nem amor da própria família. Pip era apenas um francês órfão de roupas cafonas que servia apenas para satisfazer os desejos sádicos das almas condenadas de South Park. Pip era odiado por todos. Pip não tinha escolha. Pip não tinha nada. Pip era nada.

Pip.

Que nome horrível.

Com o pouco de força que lhe restava, cambaleou de volta para casa, seus olhos nunca erguendo-se do chão e as lágrimas deixando uma trilha de tristeza por todas as ruas que passava.

Damien estava a escrever em seu livro quando abriu a porta, seus olhos carmim deslizando em sua direção e se arregalando ao ver o estado em que ele se encontrava.

Ele não podia esconder o estado de seu cabelo, nem mesmo com sua boina, ou com a falta de luz, tampouco podia esconder o vermelho de seus olhos, resultado das lágrimas derramadas pelo caminho e seu espírito destruído.

Damien jogou o livro de lado e correu em sua direção ao perceber suas pernas desistindo de carregar seu peso, levando-o ao chão. Por pouco Pip não caiu de cara no chão, batendo no peito do anticristo ao invés do piso duro, mas, mesmo se tivesse, não faria diferença de qualquer forma.

A voz desesperada de Damien parecia tão distante, quase como um sussurro, daqueles que ele ouvia bem ao fundo em seus sonhos. Ah, como ele gostaria de poder sonhar novamente.

Seus olhos azuis, agora opacos com desesperança, tornaram a se encher de lágrimas ao sentir a mão do anticristo acariciando seus cabelos, tirando mais e mais fios soltos. Ele estava perdendo cada vez mais partes de si, e, a cada fio que caía no chão, mais ele sentia sua alma despedaçando dentro de si.

Ao puxar os fios desiguais, Damien percebeu a quantidade absurda de cabelo preso em seus dedos. Era como se não tivessem raízes, como se nada os prendesse à Pip.

Não havia dúvidas de que algo aconteceu no caminho de volta. Merda, ele devia tê-lo esperado. Ele sabia dos riscos de deixá-lo sozinho na detenção e, ainda assim, o fez, e agora ele estava em um estado muito pior do que quando o encontrou.

— O que aconteceu com o seu cabelo? — a pergunta saiu como ar em sua boca, sem esperar pela permissão de seu cérebro para dizê-las. Seus olhos não conseguiam deixar a pilha de fios que tinha em mãos, ao mesmo tempo que seus ouvidos captavam o choro baixo de Pip em sua blusa, sem poder fazer nada.

O britânico não respondeu. Ao invés disso, afundou ainda mais a cabeça em seu peito e continuou a chorar.

Damien não conseguia acreditar no que estava vendo. O estado de Pip era péssimo. Se não fosse pelas roupas e sua aura, teria ele o reconhecido quando entrou em casa? Ele estava pasmo, sem conseguir reagir, e com certeza aquilo não estava muito melhor para Pip.

Na condição emocional em que estava, Damien sabia que não conseguiriam conversar direito, isso se ele conseguisse falar. O anticristo suspirou e pegou Pip em seus braços, optando por levá-lo ao quarto e deixá-lo sozinho por um momento, a fim de desabafar suas mágoas.

Ele ficou trancado lá por mais de cinco horas, e tudo que Damien conseguia ouvir do lado de fora era seu choro baixo, abafado pelo travesseiro no qual ele, certamente, escondia o rosto.

Dizer que estava preocupado era pouco. Céus, o que podia ter acontecido com Pip enquanto ele estava no conforto de seu lar, trabalhando? Mil e uma possibilidades passavam por sua cabeça, uma pior que a outra. Seu coração batia forte e dolorosamente em seu peito, ansiando por entrar naquele quarto e inundar o menor com todo o amor que tinha por ele. Ouvi-lo chorar era como um milhão de facas em seu peito, e não poder fazer nada era pior ainda.

Mas ele foi paciente. Por uma hora, esperou do lado de fora da porta, aguardando que Pip se acalmasse e esgotasse as lágrimas que tinha para derramar na superfície macia do travesseiro. Não era a melhor das coisas a se fazer nesse momento, mas ele precisava do próprio espaço, precisava liberar aqueles sentimentos que o atormentavam há tanto tempo, pois não era sempre que Damien o via chorar. Não daquele jeito.

Quando o barulho vindo do quarto parou, Damien viu como sua deixa para entrar. Lentamente, destrancou a porta e a abriu, tomando cuidado para não assustar ou deixar o britânico ainda mais nervoso do que estava.

Deitado na cama estava o loiro, com o rosto oculto pelo travesseiro e uma mão sobre a cabeça, agarrando-se aos fios que escapavam pelo vão entre seus dedos. Seu choro não havia cessado, apenas ficado mais baixo, ao ponto de que o único som que escapava de sua boca era o de seus soluços.

— Pip?

Ele estremeceu ao som do nome.

Damien não perguntaria se ele estava bem, pois era óbvio que não estava, mas também não podia ficar ali parado deixando que seu amado continuasse a desabar em choro. Adentrou o cômodo e sentou ao lado do britânico, quase cometendo o erro de colocar a mão sobre sua cabeça. No último segundo, acariciou suas costas, um sinal de que ele estava ali, disposto a ouvir.

— Eu não sei quanto mais eu consigo aguentar. — ouviu-o sussurrar ao virar seu rosto para fora do travesseiro. Seus olhos azuis encaravam sua mão, mais especificamente, os fios soltos que esta segurava. — Eles destroem tudo que eu tenho. Logo não vai restar nada de mim. — um soluço chacoalhou seu corpo e as lágrimas retornaram a seus olhos. Puxando a mão ao peito e pressionando os fios sobre o coração, Pip rangeu os dentes e apertou os olhos, as lágrimas mais uma vez escorrendo por suas bochechas. — Eu só quero ir pra casa.

Damien nunca o tinha visto daquela forma antes, com tanto desespero em seu coração, suas pequenas mãos erguendo-se o mais alto que podiam, na esperança de encontrar alguma coisa, qualquer coisa, em que pudesse se segurar. O brilho em seus olhos estava fraco e seu espírito completamente destruído, como se toda a pureza e inocência que Damien tanto admirava nele tivesse sido arrancada de seu corpo a força, deixando apenas destruição e um coração ferido para trás.

Aquilo estava fora de seu controle. Damien sabia que, independentemente do que dissesse, nada faria Pip se sentir melhor.

Ele estava quebrado, desmantelado, com peças destruídas além de sua capacidade de concerto. Sua magia também não faria efeito. Mesmo se concertasse o que estava quebrado por fora, não conseguiria reparar o que estava quebrado por dentro.

Pela primeira vez desde que chegou à terra, ele estava com medo. Ele o estava perdendo. Ele o tinha bem ali e ele estava escorrendo pelo vão entre seus dedos. Se não fizesse algo para estancar o vazamento, Damien o perderia para sempre.

Mas o que fazer quando nem mesmo sua influência como anticristo seria eficiente?

Damien detinha pouco conhecimento sobre como lidar com pessoas, e aquela situação certamente não era diferente. Aquilo não era trabalho para uma entidade religiosa, era trabalho para uma mãe.

Os movimentos das mãos de Damien nas costas de Pip cessaram de repente, atraindo finalmente a atenção dos olhos de Pip. Isso era bom sinal; significava que, mesmo quebrado, ainda havia partes de si que permaneciam intactas, do contrário não teria se importado de olhar para ele.

O anticristo permaneceu sério, seus olhos carmim fazendo estremecer o corpo do britânico. Mesmo com a tristeza contaminando seu espírito, era incrível como uma pequena parte de si ainda se deixava encantar por aqueles olhos. Céus, ele estava realmente quebrado, não estava?

— Tem algo que eu quero te mostrar. — disse Damien, tomando a mão de Pip na sua e, não só tirando os cabelos arrancados de sua mão, mas puxando-o para fora do quarto.

Ainda relutante, Pip o seguiu até a sala, onde o anticristo pegou seu livro de cima da poltrona e abriu em uma página marcada em vermelho. Todas as palavras estavam escritas em latim, tornando-a inútil para que ele conseguisse ler; Damien, no entanto, passava os olhos pelas linhas rápido como se fosse vento. Após terminar, ergueu-os na direção de Pip.

Ele não sabia se era impressão sua, mas ele pareciam bem mais fortes do que há alguns segundos atrás.

— Infelizmente, não posso te mostrar imagens, pois minha memória da conversa já não está tão fresca, mas lhe garanto que os áudios estão intactos.

Damien fechou os olhos, sua boca movendo-se e recitando alguns versos que Pip não conseguia ouvir.

Enquanto aguardava, o britânico enxugou as lágrimas que escorriam por suas bochechas. Se estivesse sendo sincero consigo mesmo, queria voltar ao quarto e rezar para desaparecer em meio às cobertas. Até mesmo agora, ele não conseguia se sentir no controle de si. Sabendo que estava completamente em pedaços, desfigurado, longe de ser aquele que costumava ser. Ele se sentia preso no corpo de outra pessoa.

Ao menos esperava que essa pessoa fizesse jus ao seu amor por Damien.

Falando no diabo, a voz do anticristo voltou a se fazer ouvida, dessa vez, soando um pouco mais distante, como uma gravação.

Você pode mesmo fazer isso? — ele perguntou com uma voz feminina. Agora Pip tinha certeza de que era uma gravação.

Mesmo quando estava em seu pior estado, Damien não deixava de surpreendê-lo.

É claro que posso. — respondeu a si mesmo, em sua própria voz. — Tem um tipo de poder que me permite repassar mensagens e eventos para qualquer pessoa que eu desejar. Só preciso me lembrar da conversa e das imagens. Mesmo que eu acabe esquecendo de como foi, ainda funciona se eu lembrar de qualquer parte da conversa que seja.— houve uma pausa, como se estivesse recobrando o fôlego. — Se eu estiver mostrando isso à ele em algum momento no futuro, ele está ouvindo tudo que estamos falando.

Ele? Será que estavam falando de Pip? Bom, se considerar que era algo que Damien queria mostrá-lo, provavelmente sim. Agora, quem gostaria de falar com ele, ele não sabia.

— Então, tem algo que você gostaria de dizer pra ele? - mais uma pausa, e então… — Pode falar, Senhora Pirrup.

Damien abriu os olhos, suas pupilas carmim completamente apagadas, deixando seu olho semelhante à um espelho, mas sem imagens. Mesmo sem olhos, ele olhava diretamente para Pip, como se atravessasse diretamente sua alma.

O coração do loiro parou.

— Phillip, eu não sei se pode me ouvir, se isso realmente funciona ou se Damien está apenas tentando me fazer sentir melhor. — suspirou com a respiração trêmula. — Mas, se isso for real, se você estiver realmente me ouvindo, eu só quero que saiba o quão orgulhosa eu estou de você.

Os lábios de Damien se curvaram em um sorriso, e os olhos de Pip, arregalados, começaram a lacrimejar novamente.

— Mesmo com tudo pelo que você tem passado, mesmo com as pessoas sendo ruins com você e te fazendo passar por maus bocados, você não desiste. Você continua seguindo em frente e vivendo sua vida da melhor forma que consegue, e isso com certeza precisa de muito mais coragem e bondade que muitas pessoas podem cultivar durante toda a vida. E eu estou muito orgulhosa por você ter conseguido chegar tão longe. E tudo isso sozinho! Isso é formidável, meu amor!— o entusiasmo em sua voz, no entanto, começou a diminuir durante aquela pausa, assim como o sorriso que antes estampava os lábios do anticristo. — Mas perseverança não dura para sempre. Eu sei disso. Um dia, certamente, você irá se cansar. Se cansar de passar por todo esse sofrimento todos os dias, se cansar de sentir todos os olhares de ódio de pessoas que nem te conhecem sobre você, mesmo que não tenha feito nada. Ou algo vai acontecer; algo que vai fazer você se sentir como um nada, como se não importasse se você não tivesse um propósito.

Seus olhos azuis inconscientemente desceram em direção à sua mão, que, embora não segurasse mais os fios, ainda conseguia sentir a textura como um fantasma entre seus dedos. Fechou-os em punhos, apenas voltando a erguer o olhar ao ouvir a voz voltar a deixar os lábios de Damien.

— Quando esse momento chegar, e você pensar que não tem mais razões para seguir em frente, eu só quero que saiba, Phillip, que, independentemente do que você escolha fazer, eu sempre vou te amar. E eu sempre terei orgulho de você, Phillip, não importa o que você faça.

Ah, Deus, ele não ia aguentar. Seu coração parecia estar inchando e as lágrimas já tornaram a manchar suas bochechas, mas o pequeno sorriso que adornava seus lábios era algo novo.

Ele sentia como se fosse explodir.

— Embora eu tenha de admitir que o pensamento me perturba, e eu prefira que você permaneça do outro lado, se, por ventura, você vier a acabar no inferno, saiba que eu te receberei em minha casa de braços abertos. — dos olhos espelhados de Damien brotaram lágrimas, as quais escorreram até o canto de seu sorriso. — Eu te amo, Phillip. Nunca se esqueça disso. Posso estar fisicamente longe de você, mas, ao mesmo tempo, sempre estarei bem ao seu lado, mesmo que você não consiga ver.

Soluços tomaram seus pulmões, empurrando seu diafragma e pressionando-o a derramar o restante das lágrimas que tinha em seu estoque.

Eu também te amo, mãe. — ele queria gritar. Queria atravessar o espelho dos olhos de Damien e se atirar nos braços dela, envolto em sua delicadeza e aproveitando seu amor, mas as lágrimas e o sorriso largo, assim como a tremedeira em seus ombros, não o permitiam de fazê-lo.

Antes da comunicação se encerrar, o anticristo endireitou as costas.

— Oh, Damien, querido, se não for muito incomodo, poderia dar isso ao meu pequeno Pip, por favor?

Antes que o britânico pudesse reagir, Damien levantou da poltrona, o livro caindo no chão, e se aproximou de si. Então, tomando as bochechas na palma de suas mãos geladas, inclinou sua cabeça para a frente e tocou os lábios em sua testa, bem em cima de um chumaço de cabelos cortados.

Era por isso que ele estava lutando. Essa era a razão de sua existência. Sua mãe lutou tanto para lhe dar a melhor das educações e garantir que ele tivesse um bom futuro. Ela o amava. Estava orgulhosa dele. Ele não podia deixar tudo aquilo ser em vão. Não podia jogar sua confiança fora.

Com um sorriso nos lábios, Pip se lançou nos braços de Damien, apertando-o entre eles com força suficiente para sufocar.

— Obrigado, Damien. Eu precisava ouvir isso. — ele disse entre soluços, as lágrimas ainda escorrendo livremente por seus olhos.

— Você entende agora? — Damien perguntou, ao que Pip assentiu, ainda sorrindo.

Se separaram do abraço e o britânico limpou a mão cheia de fios loiros em seu shorts.

— Você… Poderia me ajudar a consertar meu cabelo? — perguntou à Damien, um tanto nervoso, pois não queria acabar aparentando que queria se aproveitar dos poderes dele.

Damien, no entanto, apenas sorriu.

— Acho que posso fazer melhor que isso.

Tomando Pip pela mão, levou-o ao banheiro, onde o colocou de frente para o espelho de olhos fechados. Tirou da gaveta uma tesoura e, sob sua permissão, começou a ajeitar as pontas desiguais.

Não demorou muito, uma questão de quinze minutos, mas Pip já criou muita expectativa nesses poucos minutos passados.

— É só um corte temporário e eu não sou um bom cabeleireiro, mas, se eu puder ser sincero, acho que você ficou lindo com esse corte. — disse o anticristo, sorrindo para si mesmo. — Então… O que achou?

O loiro abriu os olhos e arregalou os olhos ao se olhar no espelho.

Seu cabelo, que antes era longo, um pouco acima da altura dos ombros, agora parecia que tinha recebido uma escova. As pontas pequenas curvavam-se para os lados, como se fossem rebeldes. Não estava raspado e tinha estilo. Era como se fosse seu corte original, mas mais curto e curvado para fora.

O britânico virou a cabeça de um lado para o outro e abriu um sorriso.

— Está incrível! — ele exclamou.

Damien piscou.

— Você acha mesmo?

— Absolutamente! Para ser sincero, eu vou sentir falta do meu cabelo, mas é só cabelo! Vai crescer de novo. — o britânico, com seu típico sorriso otimista no rosto, se virou para Damien. — Não é?

O anticristo sorriu. Seu Pip estava de volta.

— É claro que vai.

O britânico sorriu mais largo ainda e voltou a se admirar no espelho.

— Acha que ela gostaria também? Eu sempre quis ter um corte igual ao dela, desde pequeno, por isso sempre mantive aquele estilo. Não é exatamente a mesma coisa, mas também é bonito, não acha?

Damien abraçou Pip por trás e beijou sua bochecha com carinho.

— Ela adoraria.

Apesar do amor em sua voz, havia insegurança em seus olhos. Ele sabia como o corte de Pip era importante para ele, e temia muito que não tivesse feito um bom trabalho.

Para sua sorte, Pip logo percebeu a chateação em seus olhos e se virou para afagar seu rosto com a ponta do nariz.

— Isso está muito bom, Damien. Eu realmente gostei, de verdade. Não vou mentir que também adoro meu cabelo com o corte original, mas você fez um ótimo trabalho cuidando dele. Ficou muito lindo!

Sem saber o que dizer, Damien apenas assentiu e pensou numa forma de mudar de assunto.

Até que se lembrou de um detalhe importante.

— Tem algo que você gostaria de falar pra ela? — perguntou em voz baixa, acariciando levemente os ombros do britânico.

Pip ficou em silêncio por um momento, encarando o chão como se tivesse encontrado algo muito interessante por lá.

Sua cabeça estava completamente vazia. Por tantos anos ele pensou em como seria conhecer seus pais, por mais distante que o sonho parecesse, e agora ele tinha essa oportunidade, ele podia falar com sua mãe! Não seria cara a cara, mas ainda seria uma comunicação. As palavras pareciam fugir de sua cabeça, completamente inexistentes. Sua mãe parecia uma pessoa tão doce, exatamente como ele sonhou, exatamente sentia nas sensações vagas de estar sendo segurado em braços protetores e ninado em uma cadeira de balanço. Ele precisava responder algo bom, não queria que ela pensasse mal dele, ou que não atingisse suas expectativas. Pip precisava se mostrar um bom filho e orgulhar a mulher maravilhosa que o criou.

Ele brincou um pouco com os dedos da mão, trilhando os lábios com os dentes.

— Só… Diga à ela que eu a amo. Mesmo que eu não lembre do rosto dela, eu tenho certeza disso.

Damien abriu um sorriso e assentiu, puxando Pip para si e o colocando em seu colo estilo noiva. Atacou sem piedade seu pescoço, provocando risadas a escapar de sua garganta.

— Damien! — exclamou seu nome entre os risos, agarrando-se ao seu pescoço ao mesmo tempo que balançava as pernas, tentando se libertar.

O anticristo chutou a porta do banheiro e saiu carregando Pip nos braços. Ambos riam, como duas crianças idiotas, e trocavam beijos e carícias sem pudor. Não precisavam se conter agora que estavam em casa.

Entretanto, eles não estavam sozinhos.

Do lado de fora, silenciosa como a noite, uma figura observava pela janela, oculta em um manto de escuridão.

Ver aquela cena quebrava seu coração. Saber da verdade quebrava seu coração. Eles eram tão lindo juntos, e a forma como Pip conseguia fazer Damien sorrir e trazer à tona tudo que há de bom nele era incrível. Aquele garoto realmente tinha muito poder em suas mãos.

É uma pena que não duraria por muito mais tempo.