Darker Days

13 Por cima do seu cadáver.


Se as coisas já estavam estranhas depois da briga com Terrance, os olhares e a sensação de perseguição ficaram dez vezes pior no dia em que Pip voltou à escola com o cabelo cortado. Todos sabiam como ele era orgulhoso de sua aparência inglesa antiga, e não fazia sentido algum para ele ter mudado o estilo de penteado do nada. Não estava feio, ninguém comentava isso — com exceção de alguns bullies aqui e ali -, então isso não chegava a afetar o britânico tanto assim. Entretanto, ainda era estranho ter todas aquelas pessoas com os olhos nele, como se ele fosse alguma atração de zoológico.

Ele não estava acostumado com isso, nem de longe, principalmente quando estava apenas andando pelo corredor. Parecia até que ele tinha cometido um pecado capital. Mas ele apenas recebeu um trato no cabelo.

Pelo menos não se tratava mais de nada relacionado à briga com Terrance, fato pelo que Pip estava mais do que grato, pois já não aguentava mais. Ele não queria ser visto como um valentão ou alguém forte. Isso só atrairia atenção de pessoas que quisessem o colocar para baixo de novo, além de trazer que, sempre que ele tinha algum holofote nele, era um chamariz maior ainda para as pessoas se sentirem no direito de o surrarem em troca de reconhecimento ou algo que ele pudesse ter — o que já não era nada demais.

Tudo que ele queria era aguentar os últimos dias que lhe restavam até Damien ser permitido de voltar à escola de novo. Depois disso, só precisaria aguentar mais alguns meses e as aulas acabariam. Ele estaria livre para explorar o mundo e fugir para onde quisesse. Só precisaria de um emprego e um lugar para ficar, mas, se estivesse com Damien, seria mais fácil planejarem tudo juntos.

O que erguia sua preocupação com o trabalho dele.

Damien sempre dizia como estava na Terra apenas por não conseguir trabalhar direito no inferno. Como seria quando eles terminassem o ensino médio e ele não tivesse mais uma desculpa para permanecer na cidade? Ele voltaria para o inferno? Se mudaria para a Terra?

Pip podia dizer que tinha a mesma preocupação sobre si mesmo. Ele já pensou várias vezes em se mudar para outro estado ou voltar para a Inglaterra, mas não tinha dinheiro para isso. Talvez pudesse se mudar para Denver e dever um pouco o aluguel até conseguir um emprego que o desse o suficiente para pagar tudo. Teria que passar algum tempo comendo menos, mas ele já estava acostumado com isso, então não seria um problema. Não tinha dinheiro para uma faculdade, então teria que esperar um pouco mais para seguir algo com curso superior.

Mas onde Damien encaixava em tudo isso?

Eles tinham planos tão diferentes e que envolviam mundos diferentes. Não é possível cuidar de tudo ao mesmo tempo, e Pip não queria acabar dependendo financeiramente de Damien, mesmo que ele acabasse se oferecendo alguma hora. Ele não sentia que isso era certo.

Será que eles terminariam após o fim do ensino médio?

Pip esperava muito que não. Mesmo que não pudesse ver Damien tanto quanto queria, seria ainda pior que nunca mais o visse. Ele o amava demais para simplesmente deixá-lo como uma parte de seu passado. Como uma parte de South Park.

O sinal do fim do intervalo tirou Pip de sua rede de pensamentos, jogando-o de volta à realidade.

Ele precisava voltar para a sala de aula. Podia conversar sobre planos futuros com Damien mais tarde, quando voltasse da detenção.

Enquanto caminhava pelos corredores, esperando escapar daqueles olhos insuportáveis, o britânico foi parado no meio do caminho pelo conselheiro.

— Ei, Pip, será que eu posso conversar com você um pouquinho no meu escritório antes das suas aulas? — perguntou o homem cabeçudo de forma calma e compreensiva.

— Hum… Eu precisava ir pra aula agora. Se eu me atrasar, vão descontar todos os pontos dos meus trabalhos e eu vou ficar com uma marca ruim do meu boletim.

Mackey reprimiu um grunhido com todas as suas forças.

Para de ser um nerdzinho fodido obcecado por trabalho uma vez na sua vidinha, francesinho.

— Não se preocupe com isso, Pip. — ele respondeu. — Eu vou mandar um recado para o professor da aula de agora e ele não vai poder descontar da sua nota, mkay? Agora por que não entra e temos uma conversinha?

O britânico engoliu em seco, sem muitas desculpas restantes que pudesse usar.

— … Está bem.

Ele entrou na sala sem uma boa sensação. Aquilo daria errado, com certeza. Ele provavelmente falaria algo sobre a detenção ou o ajudaria de alguma coisa que ele nem sabia que tinha feito, como já era de se esperar. No fim de tudo, Pip estava fodido de qualquer jeito.

Todos os seu sentidos gritavam para que ele saísse correndo e não olhasse para trás, tudo para escapar da situação desconfortável em que Mackey certamente o colocaria, mas seria rude desrespeitar as ordens do conselheiro.

— Obrigado, Pip. Pode sentar, mkay? — o britânico assim o fez, e ele se sentou em uma cadeira logo ao seu lado. — Eu não pude deixar de perceber que você cortou seu cabelo.

Isso era o que todos pareciam estar reparando nele ultimamente.

Era estranho como nunca reparavam nele por nada e de repente ele se tornou o centro das atenções da escola. Sempre tinha uma pessoa ou outra falando dele em algum canto e ele não aguentava mais. Ele preferia muito mais ficar isolado de todos do que receber aquele tipo de atenção. Especialmente se o levaria para o escritório do conselheiro, o lugar mais desconfortável da escola toda. Até os armários eram melhores de se estar do que ali.

— Tem algum problema nisso? — ele perguntou em voz baixa, apreensivo, e inconscientemente levou os dedos aos fios loiros rebeldes.

— É claro que não, de forma alguma! — o conselheiro apressou-se a dizer. — Ficou muito estiloso, por sinal.

O britânico abriu um sorriso tímido, suas bochechas corando em um tom rosado.

— Eu agradeço o elogio, Mr Mackey. Significa muito pra mim.

— Não foi nada. Enfim, o que eu queria falar com você é sobre a razão por trás do corte.

O interesse de Pip de repente foi atiçado.

Ele sabia o que tinha acontecido com ele na rua naquela tarde? Alguém tinha visto alguma coisa? Será que, pela primeira vez na vida, os bullies de Pip seriam punidos da forma correta e ele receberia o apoio que precisava?

É claro que não. Que ideia tola. Se fosse assim, ele não teria o nome de Pip.

As palavras que saíram da boca de Mackey provaram justamente o que ele já pensava:

— Foi o Damien que fez isso?

O britânico arregalou os olhos, horrorizado e ofendido. Ele não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir.

— Perdão?

Mackey pigarreou e desviou o olhar por um segundo.

— Olha, me deixe explicar. Eu sei que vocês dois têm saído e namorado há algum tempo, que ele se importa com você e você com ele, assim como namorados devem fazer, mas você não acha que talvez ele seja uma má influência para você ou esteja te usando de alguma forma?

Pip franziu o cenho, sentindo aquele familiar sentimento de revolta crescendo e queimando em seu peito.

— Damien nunca faria isso! Ele me ama e eu o amo de uma maneira saudável!

— Sim, eu imagino que você possa pensar nisso, mas temos que levar em consideração o fato de ele ser o anticristo. Ele é o mestre da manipulação e, inevitavelmente, quem vai destruir nosso mundo no fim de tudo. Não acha que ele pode estar resolvendo começar com você?

O britânico estreitou os olhos.

— …Está insinuando que ele está me usando pra começar o apocalipse?

— Eu não estou dizendo com certeza, é claro. Apenas estou dizendo que a marcação tem que começar em algum lugar. Você também fez uma tatuagem recentemente, não?

A raiva de repente foi substituída por um arrepio assustador.

Como ele sabia disso? Ele não tinha contado para ninguém da tatuagem e ela não era em um lugar visível. Não tinha como ele ter percebido por um acaso, a não ser que o tenha visto fazendo a tatuagem.

— ...Você andou me stalkeando? — o britânico perguntou desconfiado.

— N-não, Pip! — Mackey foi rápido em dizer. — Eu só estava dando uma volta por Denver no dia e acabei vendo vocês dois saindo da loja de tatuagens. Imaginei que você devia ter feito alguma coisa por lá. Me diga, aquilo foi ideia dele?

— Não! Foi minha! E eu não fiz nenhuma tatuagem obscena! São apenas pássaros! E não estão nem na minha mão ou na minha testa, estão no meu ombro!

Mackey soltou um suspiro.

— Pip, eu preciso que você se acalme, mkay? Respire e relaxe os músculos. Isso não é bom pra sua saúde.

Foi quando Pip percebeu suas mãos tremendo. Ele estava certo. Ele estava se exaltando. Precisava se acalmar mais uma vez e manter a compostura, ou perderia a razão.

Ah, se apenas ele tivesse esperado.

— Olha, eu só estou preocupado que algo possa estar acontecendo com você. Se o Damien estiver te forçando a fazer qualquer coisa que você não queira e você estiver consentindo só pra deixar ele feliz, eu preciso saber pra poder te ajudar. Isso é um tipo de abuso, você sabe.

Pip puxou o ar pelo nariz com tanta força ao final da frase que ele quase sufocou.

Ele não estava em condições de se controlar agora nem se quisesse.

— Oh, estamos falando de abuso agora? Se for isso, Mr Mackey, eu sugiro que você pare de prestar atenção à minha vida amorosa e comece a prestar mais atenção nos alunos que você tanto adora.

Sem esperar uma reação do conselheiro, mas percebendo os olhos arregalados com seu tom de voz, inclinou a cabeça para o lado, mostrando a marca vermelha que havia ficado de sua última briga.

— Quando foi isso? — o adulto o perguntou, a voz trêmula.

— Isso foi da minha briga com o Terrance, quando ele tentou me enforcar com as próprias mãos. Uma briga pela qual você me deu duas semanas de detenção.

— Com quanta frequência isso acontece?

Deus, ele precisaria desenhar, não é?

— Todo dia! Isso acontece todo dia e você não dá a mínima! Ninguém nessa escola se importa! — o britânico gritou, sem paciência alguma. — Você viu as merdas que fazem com o Butters? Ou com o Tweek e o Craig? Até com o Clyde! Com o Cartman também não podia ser mais óbvio, e você escolhe se concentrar no que acontece na minha vida pessoal, nas coisas que deviam ser privadas, entre mim e Damien apenas!

Naquele momento, Pip esqueceu absolutamente tudo sobre ser um cavalheiro. Ele estava engolindo aquela raiva há tempo demais, e não se deixaria ser pintado de culpado novamente. Não dessa forma.

— Sim, Pip, eu sei, mkay, mas, como conselheiro, eu preciso me certificar de que está tudo bem com meus alunos. Se tiver algo acontecendo com você, eu quero ajudar.

— Com todo o respeito, Mr Mackey, mas você me ajuda muito mais ficando calado do que se metendo na minha vida. — rebateu sem pensar. — Eu sei me cuidar, sei controlar minhas próprias atitudes, e o fato de eu fazer uma tatuagem, gostar de sexo e namorar o anticristo não tem nada a ver com um relacionamento abusivo em potencial. Se você realmente se preocupasse comigo, teria me abordado sobre minha vida familiar e escolar há anos atrás, muito antes do Damien aparecer de novo. Agora, se me der licença, eu já perdi a quinta aula. Não quero perder mais nenhuma.

O britânico levantou-se da cadeira, ajeitou os shorts e destrancou a porta.

— Te vejo na detenção, Pip, mkay? — disse Mackey, encarando-o de soslaio.

O britânico nada disse. Estreitou os olhos e saiu com o que restava de sua dignidade.

Onde já se viu, invadir a privacidade dos outros daquela forma. Pip nunca se sentiu tão insultado em toda sua vida — e ele já foi insultado mais vezes do que era capaz de contar. Forçá-lo a fazer coisas que ele não queria fazer? Não é porque ele tinha uma vida sexual ativa que Damien o estava forçando a isso. O primeiro avanço foi dele, pelo amor de Deus!

O britânico caminhou a passos pesados até o banheiro, trancando-se na primeira cabine aberta que encontrou. Depois de todo aquele estresse, ele precisava passar um tempo com a cabeça mais tranquila.

Ele não voltaria para a sexta aula a tempo.

Soltando um suspiro, Pip segurou sua gravata borboleta com a ponta dos dedos, mordendo a própria língua em apreensão.

— Damien, será que eu poderia falar com você um minuto? — murmurou baixinho, cabisbaixo.

— É só abrir a porta do banheiro.

Pip girou a tranca e, ao sair da cabine, encontrou o anticristo logo ao seu lado, de braços cruzados, apoiado na porta ao lado.

Um pequeno sorriso cresceu nos lábios de Pip.

Ele realmente veio quando ele chamou.

— Aconteceu alguma coisa? — Damien perguntou. — Essa é sua primeira vez me chamando.

— O Mr Mackey me chamou na sala dele, ficou fazendo umas perguntas estranhas e invasivas sobre nosso relacionamento. Ele disse que você estava me usando pra começar o apocalipse e me forçando a fazer coisas que eu não queria.

O anticristo franziu o cenho, embasbacado.

A cada dia que se passava, os mortais pareciam surpreendê-lo das piores maneiras possíveis.

— Eu nunca faria isso! Sempre fui bem claro que você pode me dizer que quer parar quando quiser!

Pip tomou as mãos dele nas suas, entrelaçando seus dedos.

— Eu sei, amor, mas, aparentemente, não é com isso que ele está preocupado.

Damien suspirou. Ele já estava de saco cheio daquela cidade. Absolutamente ninguém salvava além de Pip. Todo o resto era ou medíocre ou a escória da terra.

Ele realmente fez a escolha certa ao sentar com Pip no refeitório naquele dia.

Suas mãos apertaram as dele e os olhos carmim encontraram azul profundo.

— Ignore-o. É um idiota.

O britânico assentiu.

— É exatamente o que eu pretendia fazer. — disse ele ao soltar das mãos de seu amado, dando um passo para trás.

— Então… Por que me chamou, se já sabia como lidar com a situação?

Incapaz de se conter, Pip sorriu e abriu os braços, abrindo e fechando as mãos como uma criança pedindo colo.

Damien soltou um riso e, puxando o britânico pelos braços, envolveu-o entre os seus, esmagando-o em um abraço apertado e quente.

Eles se viram há apenas algumas horas atrás, mas era quase como se tivesse passado um ano todo. Passar tanto tempo sozinhos era incômodo em um nível que a vontade de correr um para o outro era quase insuportável.

A sorte deles é que seriam apenas mais um dia.

— É bem solitário por aqui sem você pra conversar. — Pip murmurou com a bochecha sobre o ombro de Damien. — Eu sinto falta de ter você por perto.

Ele não mentiria, sentia o mesmo. Cada segundo que passava longe de Phillip era tão excruciantemente longo que até mesmo a morte seria mais suportável. Os ponteiros do relógio quase moviam para trás, tamanha era a demora para se verem novamente.

O anticristo, contudo, sorriu e acariciou as costas do namorado. Resmungar de nada adiantaria agora. Eles precisavam de segurança.

— Só por mais algumas horas. Logo logo eu vou poder voltar. — afastou-se com um passo para trás e encaixou a mão na bochecha do britânico, acariciando-a com o polegar. — Você vai ver, meu amor. Tudo vai acabar em um instante.

O britânico fechou os olhos e se inclinou sobre a palma de Damien, sentindo as pontas frias acariciarem sua pele e eriçar seus pelos.

Ele não suportaria mais tanto tempo sem aqueles toques. Ele precisava de mais. Desesperadamente.

Contudo, quando Pip estava prestes a avançar nos lábios de Damien, a porta de uma das cabines começou a se abrir.

Damien não podia ser visto nas dependências da escola, senão poderia ter sua suspensão aumentada ou até ser expulso.

Em um movimento impulsivo e desesperado, Pip puxou Damien para si e ambos cambalearam para dentro de uma das cabines, seus lábios já selados. Seus pés fecharam a porta com um chute estrondoso e o anticristo a trancou com um movimento de seus dedos, permitindo-o concentrar toda a sua atenção nos lábios de seu amado.

O mundo pareceu desaparecer por um segundo, como se existisse apenas aquela sensação que trepidava em seus lábios e os dedos desesperados que se agarravam à suas roupas.

Era uma verdadeira pena que eles não pudessem passar disso. Não por enquanto, pelo menos.

A névoa que cobria a razão de Pip se ergueu com o som de conversas paralelas do lado de fora do banheiro. Seja lá quem estivesse lá, essas pessoas não sairiam de lá tão rápido quanto gostariam.

— O que a gente faz? — ele perguntou em um sussurro, seu coração batendo em desespero pela segurança de Damien.

— Eu vou sair com um teletransporte: em um piscar de olhos, não vou estar mais aqui. Depois, você sai como se tivesse acabado de usar o banheiro ou espera eles saírem. Está bem assim?

Pip assentiu e, abraçando o namorado uma última vez, ouviu-o sussurrar em seu ouvido:

— Boa sorte.

O britânico soltou um resmungo involuntário e agarrou-se com força nas roupas de Damien, embora soubesse que fosse em vão. Ele inevitavelmente escaparia por seus dedos e eles só se encontrariam dali a horas a fio.

Em uma piscada, como Damien disse que aconteceria, ele já não pôde mais senti-lo em seus braços. Suas mãos estavam agarrando puro ar e o calor em seu tronco começou a se esvair.

Ele estava sozinho novamente.

Sob o som das vozes se afastando, Pip se confortou:

Faltava pouquíssimo tempo para que Damien voltasse à escola, uma questão de horas. Ele conseguia sobreviver até lá como sempre fez. Apenas precisava ser paciente. Apenas algumas aulas a mais e eles estariam juntos novamente. Ele teria seu melhor amigo de volta.

Abriu a porta da cabine com cuidado, espiando para ver se eles já tinham ido embora.

Estando finalmente sozinho, Pip deu um suspiro cansado.

Talvez ele furasse a detenção hoje. Chegar em casa mais cedo e passar mais tempo com Damien era tudo que ele precisava. Ninguém para lhe dizer o que fazer, sem olhares que o julgariam ou comentários maldosos e inconsequentes, que amassavam seu coração e o faziam querer voltar no tempo para quando ele nada mais era que a pedra no sapato de todo mundo — não que ele não fosse agora.

Ninguém perceberia que ele sumiu mesmo. Ele só precisava fazer o que sabia fazer de melhor: escapar por entre a multidão.

Às vezes era bom ser invisível.

(...)

Pip acordou muito mais disposto no dia seguinte. Chamem-no de tendencioso e com razão, mas ele estava realmente mais animado pelo retorno de Damien à escola.

Ele finalmente passaria os intervalos e o resto dos horários com um amigo! Já passou tanto tempo…

Com toda a rotina de ter Damien sentando ao seu lado e o mantendo interessado em conversas paralelas que ele nunca pôde ter com ninguém, ele acabou ficando mal acostumado. Qualquer minuto de silêncio parecia uma eternidade e ficar sozinho já não era mais tão confortável quanto antes. Embora ele preferisse muito mais ficar sozinho do que com os outros alunos daquela escola.

Agora com Damien de volta, poderia finalmente relaxar e se permitir abaixar a guarda um pouco, sem se preocupar com cada segundo que passava sozinho, por medo de alguém vir atrás dele.

Isso não quer dizer que as pessoas teriam parado de atormentar Pip, é claro.

Enquanto passavam pelos corredores, mão em mão, os comentários preconceituosos e de mal-gosto não passavam despercebidos para Pip, que agora era visto pela escola como “o namorado boiola do marginal”.

Ele nunca se importou com apelidos ou esses comentários estúpidos, mas havia de admitir que, depois de um tempo, começavam a ficar irritantes. E ele não queria acabar inconscientemente se acanhando de andar de mãos dadas com seu namorado.

Como sempre faziam, Damien e Pip se sentaram debaixo do armário do primeiro enquanto o sinal da primeira aula não tocava e se puseram a trabalhar, o britânico com as tarefas e o anticristo com o livro de capa grossa.

No fim do horário, Pip veio a descobrir que não era apenas ele o carente da relação, pois Damien grudou em seu braço como chiclete quando o sinal tocou.

— Deixa eu te acompanhar até a classe. — ele pediu, sua voz estranhamente desesperada. Era quase como se ele soubesse de algo ruim prestes a acontecer.

O britânico, que não estava em condições de ignorar as oportunidades de passar mais tempo ao lado de Damien, concordou na mesma hora, e ambos caminharam de mãos dadas pelos corredores.

Depois daquelas aulas, ao fim do horário, não poderiam voltar juntos, o que explicava a necessidade de passarem o máximo de tempo possível juntos. Pip havia pego duas semanas de detenção, e quase perceberam sua ausência na mesma quando resolveu se esquivar dos professores e fugir em meio aos demais alunos que também cabularam as horas de punição tediosa. Ele não podia arriscar de ser pego e ganhar mais tempo de castigo. Ele não aguentaria mais tempo naquela sala fechada, sem absolutamente nada para fazer além da lição de casa, a qual ele poderia terminar em poucos minutos.

Embora Pip odiasse ter que concordar com seus bullies, ele realmente era um nerd. Na época do orfanato, ele passava a maior parte do tempo fazendo a lição e revendo a matéria do dia, sem muito mais que pudesse fazer. E quando começou a ficar com sua prima foi a mesma coisa. Ela o obrigava a seguir a rotina de lições todos os dias após a faxina, dizendo que ele precisava ter as notas mais altas se quisesse sair daquela cidade de merda e ter um futuro um dia, e o dava uma surra caso ele não conseguisse terminar tudo. Foi culpa dela ele aprender leitura dinâmica, pois tinha um tempo limite para terminar tudo que precisava até ela vir verificar e o bater caso falhasse em um único exercício sequer.

Portanto, fazer a lição na detenção não servia de nada. Ele acabava tudo em cerca de meia-hora e passava o resto das horas lamentando não ter livros para ler. Nem mesmo o seu longo Grandes Expectativas o acompanhava mais nessas jornadas, já tão desgastado de tantas vezes que foi enfiado às pressas na mochila de Pip e relido pelo britânico.

Pip detestava Mackey por tê-lo castigado à detenção por apenas se defender de um ataque.

O dia passou em um piscar de olhos, e Damien e Pip logo estavam de mãos dadas na entrada da escola, sozinhos, uma despedida dolorosa para que o britânico fosse liberado para ir à detenção.

— Vai ficar então? — Damien murmurou ao separarem os lábios após um beijo.

— Eu preciso. — Pip lamentou. — Não quero acabar com mais tempo ainda e mais um registro ruim no meu histórico.

Damien entendia, embora não gostasse muito daquela necessidade. Ele não colocaria seu namorado em uma situação desagradável por seu desejo egoísta de beijá-lo o dia todo.

— Nos vemos depois então. — selou seus lábios novamente. — Poderíamos sair para tomar sorvete, o que acha?

O britânico sorriu.

— Parece bom. Faz um tempo que não vou ao parque.

Puxando o menor para seus lábios, Damien aproveitou os poucos segundos que tinha Pip ao seu alcance e o apertou em seus braços. Foi algo breve, efêmero, mas o suficiente para disparar ambos os corações em seus peitos, que clamavam por mais.

Relutantemente se separaram e uma das mãos do anticristo encaixou na bochecha do britânico, acariciando a região com o polegar.

— Estarei te esperando.

Pip sorriu e assentiu, resistindo ao máximo a vontade de beijá-lo de novo.

— Está bem.

No fim, ele não precisou resistir, pois o próprio Damien o puxou para mais um beijo. Também foi rápido, mas era um belo consolo para as horas que passariam sem que pudessem se ver novamente.

O britânico acenou em despedida para o namorado e virou-se para voltar para aquela escola escura e solitária.

Os corredores tinham um ar assustador quando estavam vazios, como se alguém fosse saltar por trás de Pip e acertar um golpe em sua cabeça.

O britânico teria dispensado aqueles pensamentos bobos como apenas isso: pensamentos bobos, se não tivesse acontecido exatamente isso.

Tudo ao seu redor estava escuro quando Pip abriu os olhos, e ao recobrar os sentidos percebeu-se preso em um cubículo. Os armários escolares.

Ele havia sido nocauteado no meio da escola e trancado em um dos armários escolares.

Com um chute, Pip arrebentou a porta do armário com facilidade e desceu de lá sem mais problemas.

O lugar estava escuro e sem ninguém à vista, quase como um deserto. Nenhum professor, aluno ou alma viva passando. Pip estava completamente sozinho naqueles largos corredores.

Sem saber o que fazer, ele decidiu sair pela porta da frente, o que se mostrou um tanto complicado ao perceber que o lugar estava trancado. Ele havia ficado inconsciente durante todo o horário de detenção e acordado só após a escola ter fechado.

Ele franziu os lábios, sentindo-se lentamente começar a entrar em desespero.

Token e Nichole já haviam ficado presos na escola uma vez, antes de namorarem, mas eles tinham comida, jogos e óleo de massagem. Pip não tinha nada disso, sequer tinha almoçado naquele dia. Sem contar que ele não podia sequer imaginar o desespero em que Damien devia estar, procurando por ele.

Bom, ele tinha dito que podia chamar por ele sempre que precisasse de ajuda. Seria a segunda vez em menos de uma semana, mas ele não estava numa posição exatamente confortável para escolher.

— Hum… Damien? Eu acho que estou com problemas. — ele murmurou para si mesmo.

Exatamente um segundo depois, o anticristo estava ao seu lado, agarrando-o pelos ombros e o encarando com preocupação em seus olhos carmim.

— Pelo amor de Deus, o que aconteceu com você?! Você sumiu o dia todo e eu não consegui sentir sua consciência em lugar nenhum pra te achar! Eu fiquei morrendo de preocupação.

Pip desviou o olhar para o chão, uma pontada batendo em seu peito. Ele não queria ter feito Damien passar por aquilo, mesmo que não fosse culpa sua.

— Eu sinto muito por isso, Damien. Eu estava indo pra detenção quando me nocautearam e me trancaram no armário. Só acordei agora.

O anticristo arregalou os olhos em fúria. Não só Pip tinha perdido a detenção como tinha sido atingido na cabeça e trancado em um armário. Aquilo era sequestro!

Damien ficou muito preocupado quando não encontrou Pip em casa ao fim do dia, ainda mais quando saiu procurando por ele pela cidade, sem nenhum resultado. Tampouco pôde localizá-lo, já que não conseguia sentir sua consciência.

Por um segundo, pensou que ele estivesse morto.

Aquele pensamento o dava arrepios.

Puxando o britânico para um abraço, Damien acariciou seus cabelos com ternura enquanto sussurrava em seu ouvido:

— Está tudo bem agora. Só um estalar de dedos e saímos daqui num instante. — ele sentiu Pip assentir em seu ombro e o apertou mais forte. — Quer que eu faça alguma coisa?

Ele negou com a cabeça.

— Não, Damien, não quero que você machuque ninguém.

— Chato. — o anticristo suspirou.

Pip riu, separando-se do abraço para apertar uma das bochechas do namorado entre os dedos.

— Não seja assim. Não precisamos revidar só porque eu passei algumas horas num lugar apertado. Se formos ver pelo lado positivo, eu nunca tive a chance de explorar a escola durante a noite. É uma experiência completamente nova!

Aquilo era parcialmente verdade, pois ele já tinha passado a noite na escola uma vez, porém, ao contrário dessa vez, ele não acordou no meio da noite, mas sim no dia seguinte. Sua sorte foi ser um sábado. Ninguém precisou ver as condições deploráveis de suas roupas ou seu cabelo.

Enquanto ele parecia um mínimo entusiasmado, Damien deixou escapar um murmúrio enquanto encarava as paredes, como se tivesse uma ideia em mente.

— No que você está pensando? — perguntou o britânico.

Damien abaixou a cabeça, suas bochechas pintadas de um vermelho fraco.

— É só…

— O que?

Ele negou com a cabeça.

— Esquece. Não é nada.

O britânico franziu o cenho e o chacoalhou pelos ombros.

— Damien, não faça esse suspense todo! Me conte! — insistiu ele com voz chorosa.

Damien suspirou e ergueu a cabeça, ao mesmo tempo que tentava disfarçar a vergonha.

— Eu só estava pensando em qual seria a reação do diretor e do filho da puta do Mackey se eles descobrissem que dois adolescentes treparam na mesa deles.

As bochechas de Pip enrubesceram de vergonha, mas ele não pôde evitar flertar com a ideia com um sorriso.

— Seria engraçado. — ponderou.

Damien piscou algumas vezes e desviou o olhar mais uma vez.

— Não precisamos fazer se você não quiser.

O britânico riu novamente e se atirou nos lábios do namorado, selando-os em um selinho. Com um sorriso em seus lábios e um brilho em seus olhos, disse:

O fato de você dizer isso só me deixa com mais vontade ainda.

Um sorriso travesso se fez presente nos lábios do anticristo. Um sorriso que Pip não se lembrava de tê-lo visto exibir.

Ele estava amando ver mais daquele novo Damien.

O anticristo tomou-o pela mão e ambos correram como duas crianças pelo corredor, rindo alto com a merda que estavam para fazer, mas sem se importar ao mesmo tempo.

Eles já estavam agarrados nos braços um do outro antes mesmo de chegar à sala do Mackey.

Tomando-o pela cintura, Damien ergueu Pip em seus braços e o colocou sentado na mesa, debruçando-se sobre ele e se aproveitando da posição para invadir sua boca com a língua.

Eles não tinham lubrificante, então sexo penetrativo estava fora de cogitação. Contudo, ainda podiam optar por alguns caminhos alternativos que dariam no mesmo resultado.

Pip nunca tinha recebido um boquete antes. Ele mal sabia fazer, na verdade, quem dirá receber. Aquele tipo de prazer era um privilégio muito longe de seus padrões, ao menos até algum tempo atrás.

A boca de Damien subia e descia em seu membro, sua língua alcançando desde a base até a glande, de uma forma que Pip não conseguia sequer imaginar como era possível. Seu corpo tremia com os choques de prazer que subiam por sua espinha, o moreno tendo que frequentemente manter suas pernas afastadas com as mãos, pois ele tinha o péssimo hábito de tentar fechá-las. O nome de Damien rolava de sua língua entre suspiros e gemidos, mas caíam em ouvidos surdos, o anticristo concentrado demais em manter o prazer correndo pelo corpo de Pip para prestar atenção.

A boca de Damien se soltou do membro com um estalo audível, substituindo-a por sua mão pouco antes do britânico chegar ao orgasmo.

As mãos trêmulas agarraram-se às bordas da mesa de Mackey para se sustentar, seu corpo tremendo e se arrepiando ao ser consumido pelo êxtase.

Ele nunca conseguia se cansar daquela sensação, daquele prazer que o consumia por completo e o fazia esquecer o próprio nome. O fato de que estava aproveitando aquele momento e aquelas sensações junto a Damien em um lugar onde definitivamente não deviam estar só deixava tudo ainda mais excitante.

Não mentiria, parte de si se sentia culpado por estarem fazendo aquilo na mesa de Mackey. Estava longe de ser algo que um cavalheiro deveria fazer. Mas, ao mesmo tempo, era como se uma parte de si que ele não sabia que exista tomasse controle de seu corpo. Ele se entregava de corpo e alma àquelas doces e viciantes sensações e aos beijos sedutores de Damien, incapaz de ver através da névoa que encobria sua razão.

Se ele pudesse, continuaria fazendo aquilo par sempre. Não havia nada que ele amasse mais do que consumar seu amor por Damien da forma mais prazerosa possível.

Ele fez uma nota mental de retribuir o favor à ele quando chegassem na sala do diretor.

— Você tá bem? — perguntou Damien enquanto limpava as roupas de Pip com um lenço, percebendo-o com os olhos fechados e o corpo totalmente entregue.

O britânico assentiu debilmente com a cabeça e tentou se sentar. Sua respiração estava agitada e seu coração batia, acelerado. Embora conseguisse ter uma noção das coisas ao seu redor, seu corpo estava mole, como uma boneca, e manter-se de pé era muito mais difícil do que deveria.

Percebendo sua dificuldade, Damien o tomou em seus braços em estilo noiva, acomodando sua cabeça em seus ombros para que ele não se sentisse desconfortável.

Ele estava prestes a sugerir que voltassem para casa e deixassem a vingança contra o diretor para uma outra oportunidade. Mas, antes que pudesse abrir a boca, percebeu as mãos do britânico puxando a gola de sua bolsa de leve, como se quisesse trazê-lo para mais perto, e, com seus olhos brilhando na luz fraca da sala, o sussurro deslizou de sua língua como manteiga:

— Mais.

Toda a razão e força que Damien tinha conseguido juntar nos últimos momentos foi simplesmente jogada pela janela, e ele sequer tentou resistir a puxar os lábios de Pip para si mais uma vez.

Eles encontraram o caminho para a sala do diretor por pura sorte, ou talvez tenham sido os poderes de Damien. Pip não sabia e tampouco se importava. Naquele momento, estava ocupado demais se deixando levar mais uma vez pela excitação daqueles beijos e por ter Damien tão próximo a si.

Embora tivessem uma vida sexual ativa, a última semana foi absolutamente péssima sem terem um ao outro por perto. Eles não tinham hábitos pervertidos assim durante as horas escolares, e resistiam muito bem. Entretanto, nos últimos dias, tendo tudo caminhando conforme Pip imaginava, a frustração de estarem sozinhos, isolados, foi tanta que foi essa a maneira que seus corpos encontraram de se livrar daquele terrível estresse que os perturbava durante todo aquele tempo.

Talvez as coisas fossem mais fáceis se não estivessem em South Park. Aquele lugar era como um inferno, talvez até pior. Seria fácil passar as horas sozinhos se tivessem o que fazer ou pessoas boas com quem passar. Mas o fato de absolutamente ninguém valer a pena e todos deliberadamente os caçarem das piores formas possíveis, só contribuía ainda mais para a saudade que ambos cultivavam pelo outro naquele meio-tempo.

Damien não tinha como proteger Pip daqueles que o quisessem machucar e Pip não tinha ninguém com quem pudesse conversar para distraí-lo de sua dor. Era como se tivesse uma parede entre eles, que não permitisse-os de saber o que estava acontecendo ou conseguir qualquer tipo de segurança de que tudo ficaria bem. E aquilo era frustrante demais para qualquer um aguentar.

No fim do dia, eles só estavam aliviados por finamente poderem ter o outro entre seus braços, de tal forma que nada e nem ninguém poderia os machucar.

Damien arrombou a porta da sala do diretor com um chute, recebendo uma repreensão de Pip por destruir propriedade alheia, mas ele não se importou. Ao colocá-lo sentado na mesa, resolveu dar uma mexida nas gavetas que ficavam ao lado de sua cadeira, só por curiosidade.

Não só ele encontrou camisinha e lubrificante, mas também algemas, chantilly, dois plugs anais e uma pena.

Seu rosto contorceu em desgosto.

— Eu não quero nem saber o tipo de coisa que acontece aqui. — disse ao tirar o que precisava da gaveta e fechá-la com força.

Pip riu, mas suas risadas foram logo contidas quando Damien atacou seus lábios vorazmente. Suas pernas foram separadas por suas mãos, as quais tomaram seu tempo acariciando a parte interna de suas coxas e sobrepondo-se a elevação em seu shorts.

Não levou muito para que ambos ficassem duros novamente, e as calças foram as primeiras peças a serem descartadas, tão rápido que podia-se até dizer que Damien havia feito alguma coisa com seus poderes.

Damien debruçou Pip sobre a mesa e, após cobrir seus dedos com o lubrificante, foi inserindo-os um a um em sua entrada, com calma para não deixar o britânico desconfortável.

As mãos de Pip agarraram-se com força aos ombros de Damien, e seu corpo inconscientemente se movimentava ao ritmo de seus dedos, buscando aquela emocionante sensação de prazer, a qual apenas Damien conseguia fazê-lo sentir.

Ele resmungou quando os dedos foram tirados de dentro de si, mas o anticristo não tardou em colocar a camisinha, a qual, se não fosse por seus poderes, estaria menor do que a que ele precisava, e se afundou nele mais uma vez.

A cada estocada, Damien enchia mais e mais o rosto de Pip com beijos, tentando repartir a atenção entre todos os pontos que sabia em que ele adorava ser tocado. A parte de trás de seu pescoço, o vão entre o pescoço e o ombro e atrás da orelha eram apenas algumas das regiões que o faziam estremecer e afundar as unhas em suas costas.

O britânico cruzou as pernas em sua cintura e usou os pés para aproximar ainda mais seus corpos, sentindo o membro de Damien indo cada vez mais fundo dentro de si, chegando a lugares que ele jamais conseguiria com seus dedos.

Damien, mais. — ele suplicou em um sussurro, tendo seus lábios selados pelos do anticristo de imediato.

Adentrando sua boca com a língua, Damien puxou Pip para mais perto, praticamente afundando suas costas na mesa dura e se enterrando em seu corpo, ao mesmo tempo que aumentava o ritmo das estocadas. Ele conseguia sentir seu coração batendo aceleradamente em seu peito e suas mãos desesperadas subindo por suas costas e puxando seu cabelo.

Em um dos puxões, Damien apartou os lábios dos de Pip para recuperar um pouco do fôlego, tomando os poucos segundos que tinha para observar o britânico debaixo dele.

Ele estava tão lindo com o cabelo cortado.

Voltou a afundar os lábios em Pip e, com o ritmo das estocadas mantido, logo chegou ao orgasmo, o que o incentivou a se apressar para levar o britânico ao mesmo.

Um gemido baixo escapou dos lábios de Pip quando chegou ao clímax, seus movimentos ficando desajustados e sem ritmo conforme seu corpo estremecia com o êxtase.

A mesa tinha ficado uma completa bagunça, bem como eles imaginavam que ficaria, mas ali, perdidos nos olhos um do outro, nenhum dos dois pôde se dar ao luxo de se importar.

Com um estalar de dedos, ambos já estavam vestidos e Damien já tinha Pip em seus braços. Ele invocou aquela familiar coluna de fogo e em menos de um segundo estavam de volta em casa. No quarto do anticristo, para ser mais específico.

O britânico se jogou na cama sem sequer considerar tomar banho. Estava cansado demais para se mexer pelas próximas duas horas.

— Você dormiu o dia todo e já está dormindo de novo. — brincou Damien ao vê-lo fechar os olhos.

— Não estou dormindo. — Pip respondeu. — Só com sono. Você sabe como fazer isso me esgota.

Damien sorriu e sentou ao lado dele, debruçando-se para o dar um beijo na testa.

Deus, ele o amava tanto e de tantas maneiras diferentes que era simplesmente inefável. Ele poderia passar toda a eternidade naquela posição que ele não se importaria, desde que pudesse continuar amando seu namorado entre seus braços.

De repente, a campainha tocou, interrompendo o momento dos dois.

Damien arqueou a sobrancelha ao olhar para a porta. Eram quase dez da noite, não é possível que alguém o tenha vindo visitar a essa hora.

Ele grunhiu.

— Vai dormir. Pode deixar que eu atendo. — disse para Pip enquanto se levantava.

O britânico assentiu e se virou de lado, sem ver o caminho que Damien percorreu para ir à porta.

Ele não esperava nada ao chegar lá. Talvez algum representante de alguma religião ou uma criança fazendo algum tipo de trote, coisas que aconteciam na Terra. Porém, quando abriu a porta e se deparou com aquela figura familiar, de longo capuz negro e foice na mão o encarando de cima, ele não soube o que fazer.

— Você? O que está fazendo aqui? — perguntou, espantado.

A encapuzada lentamente levou um dedo esquelético à boca, apontando em seguida para o quarto onde Pip rolava na cama, cobrindo-se de lençóis.

— Não queremos que ele acorde. — ela sussurrou e se convidou para entrar, passando direto por Damien e se sentando em seu sofá.

Uma atitude bem rude de sua parte, mas Damien não esperava nada mais da própria Morte. Ela nunca é convidada. Ela se convida.

— De todas as pessoas, eu não esperava uma visita sua. — disse o anticristo de braços cruzados ao se sentar ao seu lado.

— Sei que não nos falamos há algum tempo, Damien, mas sabe como sua tia é ocupada. — respondeu ela, deixando sua foice de lado.

— O que você quer aqui? — perguntou. — Diga de uma vez para que eu possa voltar à minha vida normal.

Ele não gostava de ser grosso, especialmente com um membro da família. Mas uma visita da Morte nunca era coisa boa, como já é de se imaginar. Se ela não estivesse ali para dizer algo importante, estava ali para levar alguém, e Damien ficava louco só de pensar na mínima possibilidade de ela ter vindo ali atrás de Pip.

Enchendo os pulmões de ar, a Morte calmamente expirou e virou o rosto para encarar o sobrinho por debaixo do capuz.

— Eu vim te alertar, Damien.

O anticristo franziu o cenho.

— Me alertar do que?

Não havia nada naquela terra que o pudesse ferir. Qualquer coisa que fizessem com ele seria facilmente consertada com uso de seus poderes. E não é como se o anticristo fosse uma entidade maligna da qual eles poderiam se livrar com um exorcismo.

Entretanto, sua respiração prendeu em sua traqueia quando a Morte virou o rosto em direção a seu quarto.

— Sobre ele. — ela disse, já começando a sentir o próprio peito de enchendo de culpa e pena. — Os anjos estão se preparando para reclamar sua alma logo. Ele não tem muito tempo.

Damien permaneceu com os olhos arregalados em espanto. Ele não sentia seu coração bater e muito menos seus pulmões enchendo de ar. Era como se ele tivesse simplesmente parado de funcionar.

Ele vai morrer.

E não há nada que você possa fazer para evitar.

Em todo o plano de existência, havia apenas uma única certeza: a morte. Ninguém pode evitar a morte, mas ela pode te evitar até chegar a hora de seu fatídico encontro. E o anticristo não era exceção à regra. Afinal, ele também morreria um dia, após cumprir seu propósito.

Mesmo assim, isso não tirava dele sua liberdade de se afligir.

Sem uma resposta dele, a Morte continuou.

— Depois que vi vocês dois juntos, achei que devesse te avisar antes para que pudesse se preparar.

Damien permeneceu parado, embora fosse contra sua vontade.Ele tinha tanto que queria dizer, tanto para gritar. Como ela sabia deles? Por que essa necessidade repentina de reclamar a alma de Pip quando poderiam ter feito isso há anos atrás, durante o ataque de Mecha Streisand? Por que ela só o estava contando isso agora? Ele tinha tanto que queria perguntar.

Mas ele não conseguia dizer nada.

A única coisa que escapou de sua boca foi:

— … Quanto tempo ele tem?

A Morte engoliu em seco.

— Cerca de duas semanas ou menos. Eles querem apressar as coisas, agora que finalmente organizaram a papelada dos atuais moradores e as listas de chamada.

Se tinha algo em que o inferno era melhor que o céu, era a organização. Damien sempre ouvia os anjos falando nas reuniões sobre confusões nas pastas, pessoas chamadas por engano ou até mortes atrasadas, coisas que, em seu reino, com seu método de organização, jamais aconteceriam.

Damien mais uma vez permaneceu em silêncio.

— Eu sinto muito pela notícia, Damien. Eu vi como você olha pra ele, sei que você o ama, mas não tem nada que podemos fazer. — ainda nenhuma resposta. — Na verdade, a alma dele está bem atrasada. Era para ter sido recolhida há muito tempo, mas, com a desorganização que Saddam Hussein deixou em sua última “visita”, a morte dele acabou atrasando e tiveram que empurrá-lo para o fim da fila, junto com mais um monte de gente. A única pessoa que tem preferência nisso tudo é o McCormick. — Damien continuou quieto, mas agora a encarava de soslaio com os lábios franzidos. A Morte riu. — O que posso fazer? É muito divertido zoar com ele, e ele sempre volta depois. Deixe sua velha tia se divertir um pouco, sim?

Damien nada disse. Voltou a encarar o chão e agir como se ela não estivesse ali.

Ela se sentia culpada, como se tudo aquilo fosse de alguma forma sua culpa. No entanto, ela estava apenas cumprindo ordens. Na verdade, estar ali, contando tudo para Damien, já era um ato muito bom de sua parte, visto que compartilhar informações sobre a data de morte de alguém é algo estritamente proibido.

— Veja pelo lado bom, meu querido, ao menos ele não vai mais sofrer. E eu tenho quase certeza de que ele irá para o céu, se o que os anjos me disseram está correto. Não é isso que você queria?

O que ele e Georgina queriam, sim, mas não seria a mesma coisa. Ele não poderia conviver com Pip da mesma forma que fazia na Terra caso ele fosse para o céu.

Foi o mesmo argumento que Phillip usou quando Damien o perguntou para onde ele preferiria que seu filho fosse após a morte. Embora para ele fosse egoísta, o homem dissera que gostaria muito de poder voltar a viver com o filho após sua morte, especialmente por não se verem há mais de doze anos.

Damien estava começando a entender.

Era egoísta, sim, mas ele não podia evitar. Ele também era humano, afinal.

Mesmo sem dizer nada, a Morte conseguia ler a tristeza nos olhos de Damien, a forma como ele encarava com pesar para o chão. Seu peito parecia repleto de espinhos vendo-o assim.

— Vai ficar tudo bem, Damien. Você vai ver. — ela sorriu por debaixo do capuz, embora ele não pudesse ver. — Ele vai ser muito feliz lá, eu te prometo.

Era uma pena que ela não pudesse puxá-lo para um abraço. Ele estava precisando muito.

— Bom, eu preciso ir. Já estou me atrasando para a coleta noturna. — disse ela ao se levantar do sofá.

O anticristo não respondeu, sequer olhou em sua direção.

A Morte soltou um suspiro e caminhou para a porta recém aberta com a foice na mão. Olhando para trás uma última vez, ainda sem receber nenhuma atenção do anticristo, ela enxugou as lágrimas que se acumulavam no canto de seus olhos.

— Até logo, Damien.

Tão silenciosa quanto chegou, a Morte fechou a porta, deixando o jovem anticristo sozinho o silêncio de sua casa.

Ele tinha acabado de voltar e Damien já o perderia novamente.

Sim, ele poderia visitá-lo quando fosse para o céu, mas não seria a mesma coisa. Eles não poderiam viver juntos ou compartilhar o quanto de memórias que gostaria com ele. Ao mesmo tempo que estariam juntos, estariam separados.

E Damien enlouqueceria.

Sem Pip para mantê-lo no chão, ele enlouqueceria. Voltaria a ser o mesmo Damien de antes: aquele que se afogava em trabalho e ia até para outros planos para conseguir terminar toda a papelada. A frieza em seu coração voltaria, assim como o isolamento em que se trancou desde a primeira vez. Ele não veria ninguém, não falaria com ninguém. Seria apenas ele em um grande e vazio palácio, com empregados que só o obedeciam por seu status e a conexão com seu pai.

Ele não poderia voltar àquela vida. Não quando tinha encontrado algo muito melhor, algo que o fazia sentir. Ele não suportaria o peso da eternidade sozinho. Não mais.

Ele voltou ao quarto capengando, encarando o chão. Não poderia encarar Pip e pensar que, em apenas alguns dias, ele escaparia por entre seus dedos. Ele desabaria ali mesmo.

O britânico imediatamente sentou ao ouvir a porta se fechando e Damien entrando.

— Quem era na porta? — ele perguntou, puxando os lençóis para cima do próprio corpo. Entretanto, não recebeu resposta. — Damien, está tudo bem? — ainda nada. Ele mantinha a cabeça baixa, como se o chão fosse mais interessante do que ele. Uma onda de preocupação atingiu o corpo de Pip. — Damien?

Os ombros do anticristo tremiam, assim como suas mãos, algo que Pip raramente o via fazer. Damien não era assim. Ele nunca manteve um ar misterioso daquela forma, especialmente depois da conversa que tiveram há alguns dias atrás. Aquilo estava estranho.

Foi quando ele percebeu.

Um pequeno soluço balançou o corpo do anticristo e ele levou uma mão ao rosto, esfregando freneticamente.

Ele estava chorando.

Os olhos de Pip se arregalaram em preocupação e ele instintivamente levantou da cama, caminhando em direção ao namorado. Sentou-se na beira da cama e esticou as mãos para Damien, instigando-o a abraçá-lo e sentar em seu colo.

Ele manteve a boca fechada quando o anticristo consentiu e fez o indicado. Enrolou sua cintura em seus braços e acariciou-lhe os cabelos com ternura. Seu corpo chacoalhava com os soluços e o coração de Pip se partia ao vê-lo assim. Ele parecia tão cansado, tão desesperado, com suas mãos agarrando-se à suas costas e o rosto enterrado em seu pescoço, as lágrimas escorrendo por sua pele arrepiada.

— Vai ficar tudo bem. — ele sussurrou, tentando consolá-lo. Suas mãos deslizavam desde o pescoço às costas de Damien, tentando desesperadamente relaxá-lo sob seu toque. — Eu estou bem aqui. Não vou à lugar nenhum.

Ouvir aquilo só fez Damien chorar ainda mais.