Darker Days

8 O que querem fazer com você.


Era estranho estar de volta ao inferno, Damien percebeu após ser cumprimentado pelo primeiro demônio enquanto caminhava pela área residencial. Ele havia se acostumado tanto com o ar claro, céu azul e pessoas vivas andando de um lado para o outro que agora seria impossível não estranhar o céu vermelho, o aspecto cavernoso, o fogo e os gritos, os quais foram os responsáveis por ele ir à Terra em primeiro lugar.

Infelizmente, era um mal necessário. Com tanto trabalho acumulado, se ele não tomasse as providências necessárias como anticristo e governante do inferno, poderiam começar um levante contra ele e ele seria demitido, e sayonara dinheirinho suado ao fim da semana. Era um trabalho que enchia o saco às vezes, mas que pagava bem, além de que Damien se sentia mais confortável julgando almas caídas e administrando o inferno do que destruindo o mundo, o que era muito mais trabalhoso, exigiria todo o seu tempo e ele teria que deixar tudo que conheceu para trás por, pelo menos, mil anos. Incluindo Pip. Ele preferia muito mais trabalhar suado e ter menos tempo livre do que trabalhar em tempo integral, não ter tempo pra nada e receber menos.

Cada um ganha a vida da maneira que pode, e o anticristo não ganha privilégios por ser o anticristo, não é assim que as coisas funcionam entre céu e inferno.

Na verdade, o inferno era bem semelhante à terra em muitos aspectos: tinha casas, restaurantes, hotéis, motéis, parques, clubes e tudo mais. A única diferença gritante era o sistema de punição aos pecadores, o qual era aplicado de forma mais rígida no sétimo círculo do inferno, onde Damien morava. Os círculos restantes eram apenas para área residencial, a parte mais humana do inferno, ao qual os pecadores iam ganhando acesso conforme suas penas sejam cumpridas. Alguns se davam tão bem que eram até escolhidos para a reencarnação, porém, isso era extremamente raro. Nesse aspecto, Deus preferia confiar novas vidas à suas almas perfeitas. E por isso o exército de Deus ficava cada vez menor ao passo que o de Damien só crescia.

Mas não era tão ruim. Damien considerava alguns círculos do inferno até tranquilos para realizar seu trabalho, ainda que falhos. Algumas áreas residenciais ficavam muito próximas da zona de punição, onde estavam os pecadores, o que o anticristo se lembrava ser uma das maiores reclamações das almas neutras.

Pelo menos eles gostavam do parque.

O parque… Damien se perguntava se algum dia teria chance de levar Pip lá. Não era perfeito, mas era uma grande área verde, com árvores, bancos, lagos e pessoas passando por ali como se nada estivesse errado com o mundo. Se não fosse pelo fogo e os gritos…

Não. Isso não aconteceria. Pip não iria para o inferno quando morrer. Ele iria para o céu. Damien se certificaria disso nem que tivesse que invadir o céu e tomá-lo ele mesmo.

Ele se perguntava se estaria tudo bem com Pip na Terra. Apenas dois dias tinham se passado e ele já sentia tanto sua falta. Sua casa era muito silenciosa, exceto pelos barulhos vindos de fora, e Damien não conseguia sentar no sofá para trabalhar sem lembrar do britânico cutucando seu ombro para pedir ajuda com a lição. Ele estava tão mal-acostumado que a solidão que ele sempre amou agora mais parecia um castigo, uma tortura. Considerando que o castigo vem naturalmente para as pessoas no inferno, talvez aquele fosse o seu por ter interferido na vida daquelas pessoas na terra.

Mas ele faria tudo de novo, não importa o que Deus ache disso.

Por isso precisava acelerar a mão. Quanto mais rápido terminasse o trabalho, mais rápido poderia ver seu namorado novamente e mais rápido poderia esfregar a cara daqueles que o atormentavam no asfalto quente. Era um plano tão perfeito que até rimava.

Quem sabe, se sobrasse um tempo, ele poderia voltar a fazer suas reuniões com a população neutra para consulta também. Ele sentia falta daquela época, quando tinha tempo para ouvir toda e cada sugestão e reclamação da área residencial, lhe passava uma sensação boa. Além do que, havia uma pessoa em especial com quem desejava falar, e não seria uma conversa flúida e recompensadora se ele tivesse pouco mais de meia hora em suas mãos.

Se concentra, Damien.— ele se repreendeu, forçando o próprio rosto a encarar o livro e os demais papéis à sua frente.

Voltou a deslizar a caneta pelas páginas, preenchendo alguns formulários e agendando alguns compromissos a serem realizados por seus encarregados.

De repente, um barulho, algo como um impacto, ecoou por sua sala, mas o anticristo não precisava olhar para saber quem estava ali, tampouco se importava em lhe dirigir o olhar.

— Muito corajoso da sua parte mostrar sua cara na minha casa, McCormick.

Morrendo com certa frequência, o garoto mais pobre de South Park sempre era uma visita aguardada na casa de Damien.

É claro que isso não significava bem-vinda.

Damien e Kenny não eram amigos, o anticristo sequer o considerava um colega direito. Kenny era apenas alguém que aparecia na sua casa de vez em quando sem ser convidado. Eles não tinham o costume de conversar ou sair juntos, por mais que o loiro aparecesse ali com certa frequência.

Kenny fedia. Fedia a podridão do pecado, e, conseguindo sentir o cheiro reconhecê-lo de longe, sempre que ele aparecia em seu castelo, Damien ficava nauseado o dia inteiro. Como se não bastasse o dia em que ele e seus amigos se juntaram ao redor dele e Pip, no primeiro dia de retorno à escola. A vontade de vomitar foi tanta que ele não tinha a menor ideia de como conseguiu resistir a vontade de ir ao banheiro.

Ele sabia de experiência que dar corda para aquele tipinho nunca era bom, porém, não é como se Kenny fosse lembrar daquela conversa. Ele sempre se esquece de tudo assim que acorda em sua cama, seguro após um novo nascimento.

— Não é como se eu pudesse controlar aonde eu vou quando eu morro. — ele rebateu. — Me dá um desconto, Damien, vai.

O anticristo fechou seu livro com força, prensando todos os papéis soltos entre suas páginas e as grossas capas

— Eu não dou desconto pra pecadores.

Ignorando qualquer resposta de McCormick, Damien se retirou da sala, optando por ir à cozinha para beber algo e espairecer enquanto fosse forçado a aturar a presença do garoto pobre, o qual, para seu azar, seguiu atrás dele.

— Qualé, cara, nós éramos amigos, lembra?

O anticristo se conteve ao máximo para não revirar os olhos e grunhir igual a um adolescente irritado, apesar dele ser exatamente isso. Ele simplesmente odiava pensar sobre seu passado, sobre as coisas que fez. Seu eu pequeno era provavelmente a pessoa mais alta em sua lista de ódio, atrás dos bullies de Pip.

Submisso aos desejos do pai, ele não tinha escolha se não fazer tudo que ele mandava, o que sempre implicava em não ter amigos e colocar fogo em tudo que via pela frente, incluindo na única pessoa que de fato o acolheu.

Damien não tinha a menor ideia de como superou a dependência que ele tinha em relacionamentos afetivos, mas agradecia muito por tê-lo feito. Suas maneiras na época eram quase que o suficiente para definí-lo como caótico neutro, a única exceção sendo justamente a necessidade de obedecer às ordens de seu pai.

No geral, se perguntassem à ele, aquele Damien estava morto, enterrado no mais profundo abismo em um caixão fechado com sete milhões de chaves, para nunca mais ser encontrado, tampouco lembrado. Damien sentia completa vergonha de seu eu do passado, e jamais queria lembrar dele. Ao invés disso, preferia focar em seu trabalho e fazer o que é certo, além de consertar os erros que aquele pirralho fraco e infantil cometeu ao longo de sua miserável vida.

Ele tinha conseguido deixar aquilo tudo enterrado por tanto tempo, não seria agora e não seria Kenny que desenterrariam.

— Eu lembro da sua cara de ornitorrinco. — sorriu maldosamente. — Me pergunto se poderíamos reviver os velhos tempos.

O loiro deu um passo para trás, que, apesar de discreto, não passou despercebido ao olhar de Damien. Kenny estava brincando com fogo.

— Isso tudo é pelo que aconteceu com o Pip? Foi há quase cinco semanas atrás!

Ele provavelmente não entendia a gravidade da situação que estava criando ao trazer o nome do britânico para a mesa. O anticristo já não estava no melhor dos humores, e pensar em seu passado piorava tudo, e agora aquele homem queria trazer um inocente pra discussão? Era um pedido para ser queimado vivo.

— Não importa quanto tempo passou. — ele bateu a geladeira com força. — Achei que minha posição já estivesse clara.

Kenny ergueu as sobrancelhas e fechou as mãos em punho na cintura.

— Você é um puta de um hipócrita.

Damien suspirou.

— Como exatamente?

— Você se acha o cara certinho, salvador da pátria, sendo que você já fez exatamente a mesma coisa que a gente! O aniversário do Cartman? Pelo menos eu nunca coloquei fogo em ninguém! Você diz que nós somos um bando de pecadores imundos, mas não fomos nós que explodimos uma pessoa inocente.

Ele apenas semicerrou as sobrancelhas e tomou um gole de sua água.

— Eu admito, fiz escolhas ruins quando criança. Eu imaginava que valia mais a pena ter quatro amigos falsos do que um amigo verdadeiro, mas as coisas não são mais assim. Eu amadureci muito desde então; tenho um trabalho, coisas pra fazer, ser popular e socializar se tornou algo desnecessário, como se algum dia tivesse sido. Eu não preciso mais de vocês, tampouco quero. Vocês não passam de um bando de pecadores imundos que não aproveitam as chances que têm, ao menos eu estou tentando compensar os meus erros. Além do que, ele já me perdoou, e só a opinião dele importa.

— Quer dizer que a opinião da mãe dele não? — o loiro sorriu ao ver o contrário travar. — Não tenho certeza se ela ficaria muito feliz de ver seu filho namorando o mesmo cara que o explodiu em um show de fogos de artifício quando eles eram crianças. Eu não deixaria meu filho ficar com um cara que faz isso.

Damien realmente não estava com humor para lidar com aquilo, especialmente na frente de Kenny, que poderia usar tudo que ele falasse contra ele, exatamente como sua acusação fazia.

— Você tem andado muito com eles. Saia do meu inferno.

Uma vez que ele virou suas costas, Kenny já não estava mais lá, mas seus dizerem ecoavam em sua mente.

Ele não queria admitir, mas ele estava certo. Ele tinha de fato feito muito mal à Pip, aquela brincadeira podia tê-lo matado, e tudo para ser amigo de pessoas que sequer valiam a pena. Se Damien fosse pai, também não deixaria seus filhos andarem com pessoas como ele.

Porém, ele tinha crescido. Todos no inferno sabiam disso. E apesar dos pesares, ele estava fazendo um bom trabalho cuidando das almas neutras e punindo as almas pecadoras.

O temor estava em se aquilo era verdade ou apenas uma suposição egocêntrica dele.

Talvez ele devesse adiantar a audiência com a população do inferno. Por precaução.

(...)

Pip acordou com dor de cabeça e um gosto horrível na boca, o que só contribuiu para seu mal-humor e estresse, como se acordar para mais um dia de escola já não fosse o bastante. Tinha um gosto horrível em sua boca, que ia de sua língua até sua garganta, não deixava um único canto com uma sensação decente. Tinha gosto de sabão.

Na noite passada, quando sua prima voltou para casa, os dois acabaram por entrar em uma discussão. Ele não conseguia lembrar exatamente porquê, o único momento que de fato estava engraçado em sua cabeça foi quando ela o agarrou pelo braço e pelos cabelos, levou-o ao banheiro e forçou a barra de sabão do chuveiro dentro de sua boca. Ela gritava palavras raivosas sobre como ele estava muito boca suja e precisava se limpar, de novo e de novo e de novo, enquanto ele tentava ao máximo empurrá-la para longe e se livrar daquele gosto horrível em sua boca.

Ele fazia espuma e o gosto de lavanda invadia suas papilas gustativas e seu nariz, tão fundo em sua garganta que ele quase não conseguia respirar. Pip tinha perdido a conta de quantas vezes tinha engasgado naquele meio tempo e a espuma subiu por seu nariz e desceu pela garganta. Mesmo depois de vomitar três vezes, ele ainda conseguiu sentir o gosto pelo resto da noite.

Apesar de toda a ideia de limpeza que rodava ao redor do sabão, Pip se sentia sujo, exatamente como Lorraine dizia que ele estava.

Um gemido de desconforto escapou de sua boca ao começar a se mexer. Ele precisava se levantar logo e se preparar para mais um dia de escola.

Sentando na cama, encarou a chave em suas mãos com olhos doloridos. Mal havia se passado dois dias e ele já sentia sua falta. E doía. Aquela chave com pentagrama na ponta era o único pedaço de Damien que lhe restava. Pressionou o objeto aos lábios com dor no coração, em seguida, cedeu às obrigações e saiu da cama, eventualmente guardando a chave no bolso de seu shorts.

Porém, no fim, aquilo se mostrou uma má ideia. Durante uma de suas surras diárias, um dos garotos que chutava suas costelas percebeu o objeto escapando de seu bolso e ficou curioso para ver o que era. Não havia dúvidas de que Pip teria perdido aquela chave se não fosse pelo segundo em que o grupo de bullies hesitou, permitindo que o britânico se aproveitasse da situação e escapasse para o banheiro.

Seu corpo inteiro estava doendo, mas não era nada fora do comum. Comparado à dor que sentia no braço há alguns dias atrás, aquilo era apenas uma coceira incômoda, poderia facilmente lidar com isso pelo resto do dia, o difícil seria escapar de mais deles.

Com Damien passando alguns dias fora, os outros alunos, seu bullies, para ser mais específico, o viam como presa fácil, como se ele não apanhasse mesmo com a presença do anticristo na cidade. Mas ele tinha prometido ao namorado que cuidaria de si mesmo, e isso incluía finalizar o dia com a menor quantidade de feridas possível.

Por sorte, aquele dia em específico não foi muito corriqueiro, Pip tendo apenas seu dinheiro roubado e levando suas surras. Não era bom na visão geral, mas ele conseguiu chegar em casa sem dor na perna.

Cansado, pegou a primeira chave do bolso e inseriu-a na fechadura, apenas notando um detalhe após o som da porta fechando: aquela não era sua chave.

Ele encarou o pentagrama com curiosidade. Será que aquele objeto era amaldiçoado? Damien não o daria nada que o fosse machucar, então não fazia sentido. Talvez fosse só um detalhe interessante sobre aquela chave em específico. Sua cabeça estava se enchendo cada vez mais de perguntas.

— Você pode abrir qualquer porta? — vocalizou seus pensamentos, como se a chave pudesse respondê-lo. Puxou a chave certa do bolso e tentou abrir a porta, o que deu certo, já que era sua chave. Depois, tentou trancar com a chave de Damien, o que também deu certo! — Que incrível! Eu provavelmente deveria tomar mais cuidado com você. Eu odiaria que o Damien perdesse algo tão útil. Deve ter algum jeito mais fácil de te carregar por aí que não seja no meu bolso. Se alguém resolver me perseguir, você pode cair e eu não percebo.

Sem olhar pela casa, Pip subiu ao quarto e pegou um antigo cordão com um pingente da Inglaterra que guardava no fundo da gaveta. Já não usava aquilo há muito tempo, não faria falta. Abriu o fecho e, tirando o outro pingente, passou a linha pelo meio da estrela. Se usasse como um acessório, podia passar o dia inteiro com a chave e não correr o risco de perder, visto que ele poderia escondê-la por debaixo da blusa. Parecia um excelente plano.

Já com o problema resolvido, o britânico desceu as escadas e se dirigiu à cozinha em busca de algo para comer, só então percebendo outro detalhe importante: sua prima não estava em casa.

Mal sinal. Se ela não estava em casa, provavelmente estava fazendo compras, o que significava que chegaria tarde, com uma garrafa de bebida na mão, procurando por ele.

O mais rápido que pôde, Pip fechou a geladeira, correu para o segundo andar, juntou algumas roupas e outros utensílios em sua mochila e deixou a casa como se nunca tivesse entrado.

Ele conhecia aquela rotina, conhecia muito bem. Lorraine sempre passava pelo bar quando voltava das compras, e, inevitavelmente, tomava uma ou duas. E quando chegava a hora de voltar para casa, ela nem fazia questão de ser sutil; gritava por seu nome, amaldiçoava vinte e uma gerações de sua família e o batia com toda a força que podia.

Seu braço latejou.

O que passou naquele dia ficaria para sempre gravado em sua memória, independentemente do que ele faça. Às vezes, quando ele fechava os olhos, ainda conseguia sentir a dor da garrafa batendo nele, o desespero que teve em cobrir o rosto, vendo que Lorraine, sem a menor noção do que fazia, mirava em seus olhos. A garrafa não quebrou no primeiro golpe, mas no segundo, e o estalo do vidro não foi o bastante para que ela saísse do transe. Não importava o quanto Pip gritasse ou implorasse que ela parasse, ela continuava. O vidro rasgava sua pele como papel, e a dor só piorava. Os cacos que se soltavam penetravam sua carne como uma furadeira, fatiando e arrancando mais e mais gritos desesperados de sua boca. Mas, como moravam em um bairro mais pobre, não era nada que os moradores da região não enfrentassem diariamente. Ninguém veio ao seu auxílio, e o vidro só fez o que queria, deixou seu braço completamente desfigurado.

Do jeito que estava agora, seria praticamente impossível pensar que aquilo tudo aconteceu, mas era verdade. Pip nunca esteve tão desesperado em sua vida quanto naquela noite. Os pontos fechando sua pele e as ataduras pareciam provocá-lo sempre que pousava seus olhos neles.

É isso que todo mundo gostaria de fazer com você.— eles diziam, riam de sua cara, assim como todos os outros, e Pip tinha que dar seu melhor para impedir as lágrimas de escaparem de seus olhos.

Ele imediatamente bloqueou esses pensamentos, ao invés disso concentrando-se em outra coisa.

Seus olhos azuis olhavam na direção da rua de cima, por onde ele inevitavelmente passava para chegar à escola, onde ficava a casa de Damien. Ele não esperava se abrigar na casa dele tão cedo, apenas se passaram dois dias, mas já que ele disse que não havia problema, e inclusive o deu uma cópia da chave, o britânico teria que tomar vergonha na cara e escapar de uma zona tóxica pela primeira vez na vida.

Ele não conseguia evitar de pensar que estava apenas fugindo de seus problemas daquela forma, mas seu lado medroso falava mais alto naquela hora, não queria acabar com mais um braço igual àquele.

Chegando à casa cinzenta, Pip tirou a chave do pescoço e, assim como Damien o permitiu, se fez em casa. Trancou a porta atrás de si e foi para o quarto de hóspedes, deixando sua mochila empacotada às pressas em cima da cama e voltando para o sofá da sala. Ele deitou e esticou as pernas até a outra ponta do móvel, abraçando-se à uma almofada e escondendo metade do rosto no tecido.

Tinha o cheiro de Damien. O estofado cheirava a conforto e segurança, algo que Pip sentia apenas na mais rara das ocasiões. Ele queria se agarrar àquela sensação e mantê-la ao seu lado para sempre, se afogar naquele cheiro e ser engolido por inteiro até não lembrar o próprio nome.

Seu corpo começou a mover-se sozinho, sua cintura movendo ritmicamente contra a almofada e sua respiração perdendo o compasso. Pequenos choques subiam por sua espinha e seu shorts ficava cada vez mais apertado com a ereção crescendo entre suas pernas. O cheiro e as sensações o entorpeciam e deixavam completamente entregue aos pequenos prazeres que sentia. Ele quase conseguia sentir os braços de Damien ao redor de si e sua perna masturbando seu membro enquanto clamava seus lábios e sussurrava promessas e desejos em seu ouvido.

Ah, que belo cenário. Era realmente uma pena que estava apenas em sua mente.

Quando sentiu que podia gozar a qualquer momento, a realidade encontrou uma abertura em sua mente, pingando a noção de bom senso em sua consciência.

Pip arregalou os olhos.

O que eu estou fazendo?! — ele gritou em sua mente, jogando a almofada longe com rapidez e encolhendo em uma bolinha.

Ele nunca tinha sentido tanta vergonha em toda sua vida. Isso era uma completa falta de educação e respeito para com Damien e sua casa. Ele havia explicitamente dito para que Pip não fizesse bagunça, e ali estava ele, se esfregando na almofada do sofá da casa dele.

Mas tinha um cheiro tão bom…

Deitando de bruço no sofá, o britânico enterrou o rosto vermelho no braço do sofá, escondendo a vontade de chorar de constrangimento.

Ele não conseguia evitar. Ele era um garoto. Garotos tinham esses impulsos e vontades, às vezes nas horas mais aleatórias do dia e sem razão alguma. Mas ele podia muito bem ter tentado com mais vontade para conter aqueles impulsos, assim não estaria passando tanta vergonha.

Sentou-se ereto e encarou o volume entre suas pernas. Ele provavelmente deveria tomar um banho gelado.

Só esperava que Damien não se importasse que ele se fizesse demasiadamente confortável em sua casa.

Ele despiu-se constrangido, entrando o mais rápido que conseguiu no chuveiro e ligando a água gelada, sem uma única vez olhar para baixo.

Ainda dava para sentir o sangue correndo em suas bochechas, tingindo sua pele de vermelho. Ele quase não se mexeu durante o banho todo, deixando as gotas geladas pingarem em sua pele e levarem o calor para longe.

Apesar da tremedeira tomar conta de seu corpo ao sair do banho gelado, pelo menos ele não tinha mais uma ereção.

Deus, só de pensar nisso já o dava vontade de enfiar a cabeça no chão e desaparecer.

Colocou uma roupa mais casual e voltou à sala, encarando o maldito móvel com olhos estáticos.

Ele estava com medo de sentar naquele sofá de novo, o evitaria a todo custo de agora em diante.

No fim, optou por ficar em seu quarto, mesmo que lá não tivesse uma televisão, ao menos poderia estudar mais uma vez o conteúdo que os professores deram como tema para as próximas provas, além de fazer as lições extras que os seus colegas gentilmente pediram à ele.

Pip não guardava muita compaixão por ter seu tempo livre reduzido, mas não é como se ele fosse conseguir fazer outra coisa se não estudar mesmo. Ele não tinha amigos para tornar as idas à cidade mais divertidas e alegres, e o único amigo que tinha estava literalmente debaixo de seus pés. Quando passava as tardes em casa, ou estava fazendo mais tarefas ou fazendo a faxina na casa, visto que Lorraine preferia se ocupar com os próprios assuntos. Se não fosse por Pip, certamente estariam vivendo com uma coletânea de aranhas, ratos e baratas agora.

Talvez ele devesse dormir um pouco, aproveitaria que já estava na cama e recuperaria todas as horas de sono que perdeu ao passar a noite em claro cuidando de seu braço.

Justo quando ele encontrou uma posição confortável na cama, seu celular começou a tocar.

Estranhamente, quando Pip o pegou, não tinha nenhum número marcado.

Aceitou a chamada já preparando seu coração para mais um trote ou brincadeira de mau gosto, talvez algum esquema. Atendeu sem muitas expectativas.

— Alô? — Deus, sua voz soava tão cansada assim? Era melhor que dormisse o mais rápido possível.

Eu sabia que você estaria aí.

Aquela voz…

Ele podia dormir mais tarde.

— Damien!

O anticristo deu uma risada anasalada.

Só minha voz, mas sim.

— Já é mais que suficiente. Como estão indo as coisas no inferno?

O trabalho está um pouco mais acumulado do que eu pensava, mas consigo resolver tudo até domingo, eu espero. — saber disso deixava Pip muito feliz, significava que o veria mais cedo que o esperado. — E por aí?

Ele abriu um sorriso largo.

— Muito melhor agora que você ligou. Eu nem sabia que você podia ligar. Você me disse que não tinha celular!

E não tenho, mas temos telefones no inferno. Sabe tabuleiro ouija?— Pip murmurou. - É tipo isso, mas ao contrário. Consigo falar com quem eu quiser, contanto que eu faça o ritual certo. É assim que os demônios e espíritos malignos costumam assustar e amaldiçoar suas vítimas.

— Isso é tão interessante! Quando você voltar, pode me contar mais sobre o inferno? Se você tiver tempo, claro.

É claro que posso. Só espero que o assunto não te entedie.

— De forma alguma! Eu adoro conversar com você, Damien.

Também gosto de conversar com você. É melhor do que com meus criados.

Pip sorriu. Seu coração batia forte e a voz de Damien ressoava em seu interior, como uma descarga de eletricidade que percorria toda sua espinha. Ele não tinha notado o quanto realmente sentia falta de Damien. Em apenas dois dias, alguns imaginariam que não haveria tempo para se sentir falta de um amante. Ele e Damien deviam estar ainda na fase da lua de mel de um relacionamento.

— Estou com saudade. — confessou ao telefone.

Também estou. Eu tinha esquecido o quanto o inferno era chato sem alguém pra conversar. Nunca achei que sentiria falta da Terra. Bom, não é exatamente da Terra que eu sinto falta, é de você.

O sangue subiu mais uma vez às bochechas de Pip e seu sorriso se alargou.

Ele sente minha falta.

— Quando você volta?

Está tudo bem?— Damien foi rápido em perguntar, preocupado com o britânico.

— Não. Digo, sim, mas não é por isso que eu perguntei. Eu só sinto sua falta, só isso.

Ele tinha se esquecido o quão solitário era sua rotina sem alguém para conversar. O silêncio que o envolvia enquanto ia para a aula e lanchava sozinho chegava a ser insuportável, e Pip voltara a ansiar pelo sinal da saída como se Damien nunca tivesse voltado.

Pip não tinha amigos. Pip não tinha ninguém. E a única pessoa que poderia espantar sua solidão estava em um plano de existência completamente diferente do seu. Não podem culpá-lo por se sentir assim.

— Não se preocupe, eu volto logo. As coisas estão fluindo bem por enquanto, devo terminar tudo em uns quatro ou cinco dias. Na verdade, foi por isso que eu te liguei, estou adiantado com o trabalho e queria ouvir sua voz.

Pip abriu um pequeno sorriso.

— Espero que tenha valido a pena.

É claro que valeu. Sua voz é linda.

Ah, se apenas isso fosse verdade…

— Meus colegas costumam me zoar pelo meu sotaque. Me chamam de francês. Acho que também deve ser por conta das minhas roupas.

Isso é ridículo e, francamente, muito ignorante. Só porque você usa uma boina, não quer dizer que você é francês. O sotaque também não tem nada a ver. Franceses tem o “r” mais chiado e a língua mais arrastada. Os ingleses praticamente ignoram a existência do “r” na maioria das palavras. Isso é bem ignorante.

Apesar de um tanto generalizado, Damien estava certo em sua maioria pela forma como o sotaque inglês funcionava. Deixava Pip feliz em saber que alguém finalmente entendia sua questão com a fala. Se bem que, francamente, ele questionava se a forma como falava deveria ser considerada sotaque, sendo que o inglês britânico surgiu muito antes do inglês americano.

— Bom saber que alguém entende como variação linguística funciona.

Na pausa que veio em seguida, Pip já começou a se preparar para um sermão ou mais um questionário.

O seu sotaque te incomoda? - questionário, então.

Ele desejava que não. Ele realmente desejava que não. Amava sua língua, amava seu país, mas não fazia nada bem para sua autoestima ser frequentemente zoado por vir de um lugar diferente.

— Um pouco, sim. É um tanto difícil gostar de algo em você quando esse algo é sempre motivo de chacota entre os seus colegas. Eu já perdi a conta de quantas vezes me desprezaram por eu ser inglês, ou, na visão deles, francês. Acho que posso dizer que não sou exatamente o maior fã da maneira como falo.

Damien ficou quieto do outro lado da linha. Provavelmente estava com raiva ou processando as palavras.

A esse ponto, Pip já conseguia dizer com quase certeza quando Damien estava em conflito ou em algum momento de raiva, e aquele com certeza se encaixava no segundo.

Se você pudesse, se livraria dele?— ele perguntou.

Pip gostava de se manter autêntico, fiel à pessoa que era. Porém, quando esse alguém é diariamente submetido a tantas tormentas apenas por existir, é inevitável questionar se realmente era ele quem estava certo naquela situação.

— Talvez. Não é que eu tenha vergonha das minhas origens, eu só sinto que talvez fosse mais incluso se eu não fosse tão… Inglês.

Pois então pare de pensar nisso agora.— Damien se apressou a dizer. - Se eles te excluem por ser diferente, é exatamente por isso que você deverá ficar longe deles. Porque, se você tivesse começado a andar com eles, eu não estaria te ligando agora. Sua alma estaria tão pútrida quanto a deles.

Ele tinha um ponto. Damien o elogiava tanto por sua paciência e habilidade de se manter uma pessoa autêntica. Pensando assim, cortava o coração de Pip que ele nunca teria chego onde está agora se tivesse cedido à tentação de pertencer à um grupo, mesmo que tal grupo esteja cheio de pessoas ruins.

— Eu só me sinto meio inseguro às vezes. É normal, eu acho.

Pip, eu te garanto que sua voz é linda. Eu te liguei do inferno só pra te ouvir falar.

Ele sorriu, mais uma vez de bochechas coradas.

— Obrigado, Damien.

Do outro lado da linha, o anticristo sorriu.

Sem problemas. Apenas não acredite no que pecadores imundos dizem sobre você. Eles, literalmente, não têm moral nenhuma pra falar.

O britânico riu, relaxando no travesseiro.

— Você realmente odeia eles, não é?

Damien grunhiu.

Ficar perto deles prejudica meu bem-estar fisico. Eu fico com vontade de vomitar toda vez que algum deles chega perto de mim.

— Isso quer dizer que eu não tenho nenhum pecado? — genuinamente curioso, perguntou.

Nada que não possa ser perdoado se você tiver uma boa defesa. E só acontece que eu sou um dos melhores advogados formados em todos os nove círculos do inferno.

— Tenho certeza que é, Damien.

Damien era tão talentoso, é claro que conseguiria absolvê-lo com facilidade se quisesse. Fazer Pip ascender aos céus seria um trabalho muito fácil para ele, ele era incrível afinal.

Mas Damien não morava no céu. Uma vez que Pip entrasse lá, ficaria sozinho novamente. Dessa vez, para sempre.

Merda, eu tenho que ir. — a voz de Damien cortou seus pensamentos. — Te ligo depois. Te amo. Tchau.

— Tchau. — despediu-se para a chamada já encerrada, os toques do telefone enchendo seus ouvidos.

Ele não culpava Damien por acabar desligando na sua cara, devia estar muito ocupado. Assim como Pip deveria estar com sua lição.

Suspirando, o britânico sentou na cama e voltou a tomar os lápis e cadernos em mãos, isolando-se da conversa que acabara de ter com Damien. Ao menos ele se sentia melhor agora que recebeu notícias dele, colocou um sorriso em seu rosto e alegria em seu peito.

Espera um segundo.

O que foi aquilo que ele disse no fim da ligação?