Darker Days
9 Céu vermelho.
Damien nunca achou que uma casa simples e colorida poderia ser tão ameaçadora quando vista daquela perspectiva. Ele tentava manter a compostura e a seriedade, mas por dentro tudo estava um verdadeiro caos. Já não eram frequentes suas visitas ao distrito residencial, e aquela em específico poderia melhorar ou piorar — e muito — o seu humor. Isso e também arruinar todos os seus planos dependendo do julgamento que ela lhe desse. Mas que tipo de anticristo e governante do inferno ele seria se não tivesse plena certeza de que a justiça era implantada em seu reino?
Na força do ódio, encheu o pulmão de ar e atravessou o portão branco da entrada, subiu os poucos e baixos degraus da porta de entrada e bateu com dois toques à porta.
— Já vai! — gritou uma voz feminina de dentro da casa, esta sendo seguida por passos que ficavam cada vez mais altos e apressados conforme se aproximavam da porta.
De dentro da casa, um rosto jovem se revelou. Uma mulher alta de cabelos loiros escorridos graciosamente pelo ombro, olhos azuis tão profundos quanto o oceano e pele brilhante.
Igualzinha a ele.
Ela devia ser incrivelmente nova quando faleceu, não chegando nem aos quarenta anos. Damien se lembrava de ver algo relacionado à uma doença quando verificou seu relatório, mas agora o nome não vinha à sua cabeça.
Contudo, ele se lembrava sim da razão de ter parado no inferno: sexo antes do casamento e divórcio.
Ao ver quem estava atrás da porta, a loira arregalou os olhos e a abriu de uma vez.
— Vossa majestade? Ora, mas que honra! O que o trás aqui? — ela exclamou em sua voz carregada de sotaque.
Damien abriu um pequeno sorriso e ajeitou as mãos atrás das costas.
Ela era igualzinha a ele.
— Eu sinto muito por aparecer tão repentinamente, senhora Pirrup. Essa lacuna na minha agenda surgiu de última hora.
— Sem problema algum, alteza. — ela insistiu. — Por favor, entre e fique à vontade. Vou fazer um pouco de chá. Alguma preferência?
— Qualquer coisa que fizer está bom, muito obrigado. — disse e fechou a porta.
Georgina esteve vivendo com Phillip no inferno por mais de dez anos e até agora pareciam estar se adaptando muito bem. Ela e o marido frequentemente saíam para caminhar pelo parque e socializar com outros moradores do inferno, frequentando bares, lojas e áreas de lazer, dos quais o anticristo tinha muito orgulho de ter permitido.
Georgina logo retornou à sala com uma bandeja em mãos, onde tinha um bule de chá e duas xícaras, assim como adoçante e torrões de açúcar.
Damien agradeceu ao ser estendido a primeira xícara e levou a porcelana aos lábios, provando do líquido quente que escorria por sua garganta.
— Se me permite perguntar, o que te trás aqui, vossa majestade? — ela perguntou ao tomar o assento ao seu lado.
— Eu precisava falar de algo com você, se me permitir.
Georgina estreitou os lábios em uma fina linha.
— Oh, dear… Aconteceu algo? Oh, eu disse ao Phillip que não devia sair com os amigos tão perto da zona de obras! Eu sabia!
— Não, não, não, não é nada sobre isso. — Damien rapidamente interrompeu, gesticulando com as mãos. — Na verdade, eu precisava falar sobre o seu filho.
No segundo em que a palavra foi mencionada, seus olhos se arregalaram e a xícara quase deslizou de suas mãos.
— Phillip?! Você viu meu filho? Ele está bem? Aconteceu alguma coisa? Por favor, majestade, me diga!
— Se acalme, senhora Pirrup, por favor. — Damien tomou nas mãos dela as suas. — Eu terei prazer em lhe contar tudo, mas preciso zelar pela saúde dos meus habitantes primeiro.
Respirando fundo, a loira tentou se acalmar, embora seu coração martelasse com força em seu ouvido.
— Eu sinto muito. — ela se desculpou em voz baixa, pensamentos sobrevoando sua mente.
Então Damien realmente foi à terra, como diziam os boatos. Estava explicado a razão de nenhum outro pronunciamento ser emitido do palácio.
Ela ouviu pacientemente, seu coração ansiando por notícias de seu filho mais novo, o único de sua família que estava vivo.
— Como governante do inferno, considerando as condições em que estou, achei que o mais justo a fazer seria te deixar à par da situação, afinal você é a mãe dele.
— Entendo. Por favor, majestade, continue. — ela suplicou, não encontrando mais forças para continuar segurando a xícara em suas mãos e a deixando de lado.
— Eu encontrei com seu filho durante minha transferência temporária para a Terra. Desde então eu o tenho feito companhia durante os intervalos e após as aulas.
Georgina murmurou em compreensão. Era um grande alívio para seu coração que seu filho tenha feito um amigo. Ela sempre teve tanto medo de Phillip acabar sozinho por seu jeito atipicamente alegre, muito embora essa fosse sua melhor qualidade. O anticristo, por mais irônico que pudesse parecer perante a Bíblia, era uma boa pessoa com um coração de extrema bondade e senso de justiça. Seu filho tinha tanta sorte.
— E ele está bem?
E ali estava. A pergunta que Damien não gostaria de ter que responder, mas sabia que teria.
Ele se consolou internamente e dirigiu-se a Georgina com a voz mais doce que conseguia fazer sair de sua garganta.
— … Você sabe que eu não posso mentir. As coisas não estão fáceis pra ele na Terra. Ele sofre de um bullying frequente e ataques de pânico quando alguma coisa o engatilha. Maltratá-lo é quase como um ritual, uma tradição. Se você quer ser aceito, precisa machucá-lo de alguma forma. Ele passa os dias sozinho, isolado nos cantos e pra ele é uma vitória que volta pra casa com poucos machucados.
Os olhos azuis da britânica se encheram de água. Tão rápido quanto veio, sua felicidade se esvaiu, dando lugar ao temor pelo bem-estar de seu filho.
— Ah, Satã, meu pobre Phillip.
O coração de Damien se partia em ver uma moça tão bondosa chorando sem que ele pudesse fazer nada. Era seu dever contar à mãe de seu amado sobre tudo que aconteceu, ela tinha o direito de saber, e ele, por sua vez, sabia o quão difícil era para ela aguentar a morte sem saber nada sobre sua pessoa mais querida.
— Eu entendo a sua raiva e sua dor — ele a consolou com uma mão em suas costas, compartilhando a mais sincera preocupação por Phillip. -, também não foi fácil pra mim vê-lo todo dia com um machucado diferente. Eu fiz o que pude dentro dos meus limites pra espantar o máximo deles que consegui, mas não sei como era o nível de agressão antes para conseguir comparar.
Georgina engoliu o choro e secou as lágrimas com o polegar.
— E a Lorraine? Depois da irmã dele, era pra ela cuidar do Phillip. Como ela está se saindo?
O anticristo deu seu melhor para não grunhir com a pronúncia de tal nome.
— Pelo que ele me contou, ela não o acolheu de primeira. Ficou cerca de um ano em um orfanato até ela ser convencida a acolhê-lo na familia.
— E então?
O suspiro que Damien soltou não transpareceu como algo muito bom para a loira, cujo coração já estava apertado o suficiente. Rezava para que seu filho estivesse bem, mas a cada palavra proferida pelo governante menores ficavam suas esperanças.
— … Me perdoe, senhora Pirrup. Me dói muito ser sincero dessa forma, mas ela é uma das piores guardiãs que eu já vi em todos os mil anos que estou destinado a viver. Ela o faz de empregado e obriga a cuidar da casa, não cozinha, não o deixa comer e tampouco se importa com sua socialização ou educação, apenas com o dinheiro que gasta no almoço.
Se o próprio Damien teve que se conter para não deixar transparecer o ódio que aquela mulher o dava, não conseguia imaginar o quanto Georgina devia estar sofrendo. Era de seu filho que ele estava falando, seu filho que estava sofrendo. Era como se ela estivesse de fato sendo torturada por seus pecados.
— Aquela vadiazinha… Quando não é a irmã, a incompetente é a prima! Eu disse à Mary que criar a menina nos Estados Unidos era uma má ideia e agora esse monstro quer arruinar a vida do meu filho! Se algum dia eu a encontrar na minha frente, vou espremer o pescoço dela até a garganta estourar pela boca! Todos eles!
Ela logo começou a chorar novamente, substituindo a raiva em Damien por tristeza e preocupação. Não podia nem imaginar o tamanho do sofrimento da loira em ouvir essas notícias terríveis. Seu corpo tremia com os soluços e ela segurava os cabelos entre os dedos, desesperada.
— Eles vão matá-lo. Vão matar meu filho. Vão matar meu filho e eu não posso fazer nada pra impedir! — ela esbravejou. — É tudo culpa minha. Eu não devia ter saído de casa naquela noite. Se eu tivesse escutado os avisos do jornal, se eu tivesse evitado aquela rua, o Phillip não estaria… Ele não… Eu sou uma péssima mãe!
Lágrimas escorriam sem controle pela face pálida como o rio pelo canal. Seus soluços se tornavam cada vez mais altos e ela já não conseguia se controlar.
Queria destruir a tudo e a todos, descontar neles sua raiva e salvar seu filho de toda aquela tortura e sofrimento. Mas não podia. Ela o abandonou lá em cima para ser devorado por lobos enquanto ela e o marido viviam uma vida tranquila na área neutra no distrito residencial do inferno. Ao invés de apanhar e ser desprezado, Phillip podia estar recebendo um abraço aconchegante de sua mãe ou criando memórias esplendorosas com o pai. Mas não podia, porque eles estavam mortos.
— Por favor, não diga isso. — Damien suplicou, seu coração transbordando com pena e dor. — Você não é uma péssima mãe. Há pessoas muito piores pelo mundo, que abusam de seus filhos. Você não tinha como saber que aquilo aconteceria.
Ela ergueu o olhar e encarou fundo nos olhos carmins do anticristo, podendo quase ler a sinceridade refletida neles.
Georgina repreendeu um soluço.
— … Ele tinha só quatro aninhos. Ele era só uma criança quando eu o deixei. Ele tinha um sorriso tão lindo e um brilho tão inocente dos olhos. Sempre uma caixinha de alegrias. Mesmo quando as coisas estavam difíceis para nós, ele sempre sabia o jeito perfeito de alegrar todo mundo na casa. Ele tinha tanta energia e sempre sorria pra tudo, não tinha como ficar triste perto dele. E os abraços… Phillip foi sempre muito carinhoso com abraços, mesmo tão novinho. Era sempre tão quentinho e aconchegante, e o jeito como ele me imitava quando eu acalmava ele… Meu filho sempre foi a coisinha mais preciosa do meu universo. — um sorriso de orgulho e saudade cresceu em seu rosto, estendendo-se de orelha a orelha. — Sabe, eu tinha cabelo curto na época, um pouco acima da altura do ombro. Ele se recusava a cortar o dele, dizia que queria um igual ao meu. Eu insistia que um corte curto ou repicado ficaria lindo nele, principalmente pelo tom de loiro dos fios; eram tão lindos, mas ele insistia que queria um igual ao meu, então deixamos. Ele ficava uma graça com a boina que eu costurei pra ele e as roupas típicas inglesas, era chique e tradicional ao mesmo tempo. Imagino que o corte combinaria muito com aquela roupa. Ficaria perfeito.
Imagens cruzavam por sua cabeça enquanto divagava nas imagens de sua juventude. Seu filho de quatro anos, agora com quase dezenove, com aquelas roupas cafonas de época e um corte igual ao seu antigo. Ele sorria. O sorriso mais lindo que ela tinha visto em toda sua vida. Seu filho era perfeito, sincero e a coisa mais doce já criada em todo o universo.
Até a imagem mudar.
Seu sorriso desaparecia, era arrancado de seus lábios por mãos brutas e violentas que não o tratavam com o respeito e dignidade que ele merecia. Mãos que, sem piedade alguma, destruíam sua alma, pedaço por pedaço, tirando o que queriam e desfigurando seu corpo com chutes e socos, tingindo sua pele de roxo e vermelho.
E não sobrava nada de Phillip. Apenas os restos mortais da criança sorridente que um dia ele foi.
O branco de seu vestido dobrou-se entre seus dedos fechados em punho. A raiva crescia em seu peito a cada segundo e Georgina encarava a parede a sua frente como se pudesse fazer um buraco nela com os olhos.
— Eu não vou perdoá-los. Nenhum deles. Tudo que eles fizeram ao meu filho, nada disso vai passar barato. Nem que eu tenha que acabar com eles eu mesma, eles vão pagar pelo que estão fazendo com ele!
Damien permaneceu quieto por um tempo, compartilhando do sentimento e o gosto do ódio em sua língua.
Mas ele era o governante, tinha que manter a compostura.
— Não se preocupe. Tenha certeza de que todos eles serão punidos quando chegar sua hora. Todos receberão o castigo que merecem, assim como ela está recebendo agora.
A britânica assentiu, julgando rude a ideia de lamber os lábios ao pensar na irmã mais velha de Phillip, a maldita prole do outro casamento. Ao menos agora sabia onde ela estava e que estava recebendo o que merecia.
— Obrigada, majestade. Eu fico muitíssimo grata por tudo que está fazendo por nossa família. Mas, perdoe a intromissão, como estão as coisas com meu filho além disso? Você disse que estava passando tempo com ele na Terra, como isso aconteceu?
Ela estava curiosa, era apenas natural. Ela não via o filho há muitos anos, é claro que gostaria de saber de cada detalhe de sua vida.
Damien sorriu.
— Quando voltei para South Park para fazer meu trabalho em paz, encontrei com ele por acaso na frente da minha casa. No dia seguinte, sentamos juntos no almoço e o hábito se tornou rotina.
Georgina agora compartilhava do sorriso, grata por ter alguém tão influente zelando pela segurança de seu filho.
Porém, enquanto o anticristo divagava, ela notou algo estranho em seus olhos. Um brilho distinto que se fazia presente sempre que ele mencionava o nome de Phillip. E Georgina conhecia aquele brilho perfeitamente bem.
Quando ele terminou de falar, ela bebeu um gole de seu chá, planejando as palavras em sua mente.
— Sabe, majestade, você passou muito tempo fora do inferno. Alguns boatos corriam de que você não estava tardando por trabalho, mas sim por alguém. É possível que você e Phillip… Você sabe… Estejam juntos?
A respiração de Damien travou em sua garganta involuntariamente e o anticristo soltou o ar pelo nariz.
Agora era a hora da verdade, o motivo de Damien ter aparecido ali em primeiro lugar. Não seria justo e nem compreensivo de sua parte conhecer do paradeiro da mãe de seu namorado e não mantê-la informada sobre o que acontecia na superfície. Ele sabia o quanto os habitantes neutros do inferno, especialmente as famílias, sentiam falta de um parente ou outro que ainda estava vivo. É claro, ele não podia descobrir o paradeiro de todos e fazer um relatório completo como agora, mas, já que podia com Pip, não via motivos para não fazê-lo.
Ele ajeitou as mãos no colo e olhou fixamente para um ponto da parede.
— Se você se refere à andando juntos, a resposta é sim. — disse, engolindo em seco em seguida. — Se se refere à juntos como um par romântico, a resposta também é sim.
Georgina chupou o ar entre os dentes, surpresa. O azul de seus olhos encolheu, tomado pelo arregalar de suas pupilas.
Ela não respondeu, o que o anticristo tomou como sua chance para continuar falando.
— Eu não sei explicar exatamente quando aconteceu ou como, mas aconteceu e decidimos dar uma chance à ideia. — ele conteve um sorriso, não querendo parecer muito abusado perante a mãe do garoto que amava. Derrubou o aspecto confiante de seu rosto e desceu o olhar para as próprias mãos, verdadeiramente apreensivo. — Porém, eu entendo se você e seu marido forem contra. Não são todas as pessoas que mantém a mente aberta para novos tipos de relacionamento, e, se for de seu desejo, vou respeitar seu pedido e me afastar.
Por mais que fosse doer e ele realmente não quisesse fazer isso, ele sabia como Pip prezava pelos desejos dos pais, certamente não gostaria de contrariá-los, especialmente se se tratassem de uma família antiquada.
Damien podia ser contra ou pensar que era um verdadeiro absurdo, mas é o que havia de ser feito. Era o que era justo.
Contudo, sua sorte veio na forma de um sorriso nos lábios de Georgina, que mais uma vez deixou a xícara na bandeja, não confiando na habilidade das próprias mãos de segurá-la.
— Está brincando? De forma alguma! Nem eu e nem Phillip nos oporíamos a isso! Jamais! Se meu filho estiver em um relacionamento, qualquer relacionamento, eu fico muito mais tranquila que seja com alguém que eu sei que é de confiança.
Damien não pôde conter os impulsos do próprio corpo, corou.
Simplesmente adorável.— Georgina sorriu em sua mente, admirando a desconstrução da personalidade séria e intimidadora do governante do inferno para uma curvada e tímida. Imaginava o tamanho da coragem que ele teve que criar para contar sobre Phillip à ela, especialmente sabendo que ela e o marido eram antiquados.
— Não há ninguém mais competente para cuidar do meu filho do que você, majestade.
Aquilo tirava um grande peso do peito do anticristo, o qual dessa vez não conseguiu conte o sorriso. Damien estava feliz que ela havia aceitado, significava muito.
Ainda assim, aquilo não estava certo. Querendo ou não, Kenny estava certo. Ela precisava saber de tudo que aconteceu. Absolutamente tudo.
Seu sorriso foi arrancado de seu rosto por ele mesmo, e isso chamou a atenção da britânica, que se colocou ereta mais uma vez.
— Eu tenho que confessar uma coisa. Não acho que seja certo que você saiba de tudo e não disso. — aquilo sim seria o fim. Ele tinha chegado tão longe… Mas já era hora. Com uma inspiração profunda, continuou: — Eu não escapei da tradição. Quando fui à South Park pela primeira vez, quando tinha oito anos, também fui vítima do bullying deles. Eu e Pi… Phillip, fomos amigos por uma semana, sendo os outros dois excluídos da escola. — ele fez uma pausa, contendo as lágrimas de escaparem de seus olhos ao se lembrar daquele dia horrível. — Eu o traí, usei da tradição pra conseguir me integrar àquele grupo de pecadores imundos.
Georgina não expressou reação física, apenas continuou ouvindo ao que poderia ser respondido à seguinte pergunta, feita em uma voz trêmula:
— O que você fez?
Damien franziu o cenho, fuzilando as próprias mãos, envergonhado.
— Usei meus poderes para usá-lo de fogos de artifício na festa de aniversário de um gordo babaca.
Antes que Georgina pudesse falar qualquer coisa, Damien começou a falar consigo mesmo, não mais esperando por uma resposta da loira para continuar.
— Se tem uma coisa, qualquer coisa, que eu mudaria na minha vida, é aquele dia. Eu simplesmente não consigo acreditar que meu eu do passado era burro o suficiente pra cair nas tentações de mortais sujos como aqueles, que eu estava tão desesperado por atenção que concordei com um absurdo daqueles. Eu odeio aquele pirralho com tudo que tenho guardado no lugar onde minha alma deveria estar.
Ele falava com tanta raiva, tanto ódio enlaçado em sua língua, que era estranho pensar que o alvo de tamanha negatividade era ele mesmo.
Ela conseguia ver o arrependimento claro como o dia refletido em seus belos olhos carmim. Ela não sabia o que de fato aconteceu no dia em que o anticristo se referia, tampouco gostaria de saber detalhes sobre como seu filho disparou em direção aos céus e explodiu em uma bola de fogo. Não, sua mente estava em outro assunto, algo que, para ela, era muito mais importante.
— Ele te perdoou?
A pergunta, rápida em quebrar o silêncio, atraiu facilmente a atenção do carmim dos olhos de Damien, que arqueou uma sobrancelha em confusão.
— Phillip. — ela articulou. — Ele te perdoou?
Damien murmurou e voltou a olhar as próprias mãos, ponderando.
— Não chegamos a entrar muito em detalhes sobre isso, não conversamos com tanta formalidade quanto eu e você agora, mas ele disse que sim.
Georgina esboçou um sorriso satisfeito.
— Isso já é o bastante pra mim. Se meu filho te perdoou e te considera a ponto de mantê-lo tão próximo de seu coração, não tenho escolha a não ser fazer o mesmo. — ela disse com ternura enlaçada em sua voz de sotaque britânico.
Gentilmente, tomou as mãos de Damien na sua e ergueu o olhar em sua direção, permitindo-o observar a ternura e compaixão refletida em azul profundo.
Igualzinha a ele.
— Pessoas mudam, majestade. Não é porque és o anticristo que não tens o direito de mudar-te também. São os outros que me irritam. Se fosse qualquer outra pessoa daquela cidade desprezível, não haveria discussão, mas, já que é você, tem a minha permissão para namorar meu filho.
Não vendo motivos para se conter, Damien soltou um suspiro aliviado.
— Obrigado. Prometo que farei meu melhor para que ele seja a pessoa mais feliz enquanto estiver ao meu lado.
Damien tomou um susto quando ela de repente o envolveu em um abraço apertado, seu sorriso aumentando o volume das bochechas encostadas em seu ombro.
Igualzinha a ele.
— Vai cuidar dele, não vai? — ela suplicou, quebrando o contato. — Por favor, não pense que eu seja preconceituosa, mas eu realmente não gostaria que ele acabasse aqui.
— Tudo bem, eu entendo, eu também não quero que ele desça. Ele merece o céu. — como um bom cavalheiro, tomou uma das mãos de Georgina nas suas e depositou um suave beijo sobre a costa. — Não se preocupe, eu vou cuidar dele.
— Muito obrigada, vossa majestade. — ela agradeceu, e então riu. — Suponho que agora eu não deva mais te chamar por títulos, correto? Afinal, se Phillip algum dia desejar trazer você para a família, seria questionável o uso dos pronomes de tratamento.
As implicações de um possível casamento passaram despercebidos pelos ouvidos de Damien, ou talvez isso ele tenha escolhido, e um sorriso confortável fez morada em seus lábios.
— Se assim desejar, chamem-me da forma que desejarem.
Georgina sorriu.
— Pois bem, Damien. Muito obrigada por me contar. Eu aprecio muito o seu gesto.
— Só fiz o que era certo, senhora Pirrup. — disse ele, se levantando.
— É claro. Aliás, Damien, se estiver disponível amanhã, eu adoraria poder continuar conversando com você enquanto tomamos uma xícara de chá. Tenho certeza que meu marido vai ficar muito contente em saber sobre como nosso filho tem um excelente companheiro ao lado dele.
O anticristo assentiu sem pensar duas vezes.
— Mandarei um demônio mensageiro com minha resposta amanhã de manhã. Tentarei meu melhor para comparecer.
Georgina o guiou até a porta e fez uma reverência com a cabeça, a qual foi retribuída por Damien.
— Obrigada novamente, majestade. — agradeceu mais uma vez e fechou a porta, desejando ao governante do inferno uma boa viagem de volta.
Ao bater da porta soar, Damien marchou de volta para o palácio, com o coração batendo muito mais leve.
Um peso a mais havia sido tirado de seus ombros. Agora tudo que lhe restava fazer era terminar a papelada e regressar a South Park, onde poderia enfim se jogar nos braços de seu amado e encher seu rosto de beijos, com todo o afeto e amor que ele tinha para dar, todo o afeto que merecia.
Ah, ele mal podia esperar.
(...)
Quando acordou em meio a cobertas quentes e aconchegantes e um ambiente amigável e acolhedor pelo terceiro dia consecutivo, Pip sorriu. Era tão bom poder acordar em um lugar que ele conhecia e que não era abusivo ao mesmo tempo, ele simplesmente não resistiu em ficar por um tempo a mais.
Dormir na casa de Damien já havia se tornado um hábito. Todos os dias, após o término das aulas, Pip se esgueirava pela casa da prima para subir a seu quarto, pegar roupas limpas e qualquer coisa que ele precisasse ou achasse que deveria levar e subia a rua em direção à casa do namorado. Ele já morava lá a esse ponto. Não sabia como Lorraine ainda não tinha reparado na ausência de seu pequeno mordomo e partido à sua procura. Talvez ele não fosse tão importante assim pra ela quanto ele pensava, nem mesmo para arrumar a casa.
Com um bocejo, Pip afastou os fios loiros que caíam na frente de seus olhos e se levantou para ir à escola. Apenas algumas horas de tormento para depois passar o dia todo em seu santuário, onde cada cantinho o lembrava da pessoa que mais o fazia sorrir, da pessoa que o amava.
Seu coração batia forte ao pensar naquelas duas palavras proferidas na voz do anticristo, direcionadas para ele. Pip nunca teve uma única lembrança de alguém dizendo que o amava, nem mesmo de seus pais. Até onde sua mente conseguia chegar, Damien foi a primeira pessoa a dizer que o amava sinceramente, mesmo que tenha sido algo corriqueiro ou até no calor do momento.
Pensando em Damien, recordou-se de que a semana já estava quase chegando ao fim. Mais três dias se passaram desde que se falaram por telefone. Em apenas alguns dias, Damien retornaria.
Ah, seria tão estranho voltar a dormir em sua própria cama depois de se acostumar com o calor e o conforto da casa do anticristo. Seu santuário e o único lugar onde ele podia sorrir sem mesmo.
Isso não o preocupava, no entanto, pois a felicidade de ter aquelas palavras flutuando por sua cabeça, proferidas por aquele que tinha seu coração na palma de suas mãos, era o maior presente que Pip podia pedir em todos aqueles meses.
Mas o universo precisava de equilíbrio. Pip não podia ter coisas boas sem sofrer coisas ruins em troca.
Durante toda a última aula, nos poucos minutos que ele tinha pedido para beber água, foi perseguido por Trent e seu grupo de repetentes por todos os corredores que virava. Até chegou a ser preso em um dos armários, mas ele não estava com dor o suficiente nas pernas para não conseguir arrombar a porta com um chute.
Entretanto, estava, sim, dolorido o bastante para se cansar depois de tanto tempo correndo das mesmas pessoas. Ele quase tropeçou em um piso levantado no corredor justamente pelo cansaço de suas pernas.
Em um ato de desespero, Pip se refugiou no banheiro, na terceira cabine, onde trancou a porta e se encolheu em bolinha em cima do vaso.
Ele estava exausto, não aguentava mais correr. E, embora agora estivesse encurralado no banheiro, sem a mínima chance de escapar de seus bullies, ao menos tinha tempo para recuperar o fôlego e se preparar para a surra bem dada que tomaria.
Trent odiava que fugissem dele, ao contrário de Terrance e seus comparsas, que se divertiam em perseguir aqueles que decidiam atormentar. Ele preferia ser objetivo: espancava suas vítimas até elas não poderem mais se mexer de tanta dor e roubava qualquer coisa de valor que carregassem nos bolsos.
Em parte, era essa uma das coisas que preocupava Pip. Se eles fossem batê-lo para roubar as poucas coisas que tinha, a chance era grande que levassem a chave extra embora — afinal, se alguém carrega uma chave no pescoço, ela deve ser importante.
— Pip. — Trent cantarolou enquanto abria a porta do banheiro.
O britânico estremeceu.
Socos foram desferidos contra as portas, uma a uma, abrindo todas as que não estavam ocupadas. Quando chegou na terceira e a porta não abriu, Pip conseguiu quase ouvir o sorriso crescendo nos lábios de Trent.
— Abre a porta, francesinha. Eu vim te pegar pro nosso encontro.
De todas as piadas e brincadeiras de mal gosto que faziam com ele, Pip achava aquela a mais ridícula; a de que ele se vestia como uma francesa à espera de seu namorado para sair para jantar. Só que a francesa na verdade era um garoto, britânico e gay.
— Abre logo, caralho! — um dos comparsas de Trent gritou, irritado ao não receber uma resposta de Pip. — Você não tem como sair daí, tá cercado.
— Isso é realmente necessário? — ele perguntou com a voz trêmula. — F-foi só um dia de atraso, certamente a professora não vai se importar se…
— Cala a boca, Pip! — Trent esbravejou. — Você sabia do nosso acordo: faz a lição pra mim e em troca eu não arranco seus dentes na porrada. Já passou o prazo pra entrega e, oh! Eu não tenho nenhuma lição na minha mão. Agora sai daí pra eu acabar com a sua raça!
Pip levou a mão à chave de Damien. Realmente estava encurralado. Se não encontrasse alguma forma de escapar, provavelmente nem veria a luz do dia, tamanho seria o inchaço em seus olhos. Ele precisava pensar.
Havia três deles do lado de fora, o que o deixava em menor número. A porta estava trancada, mas era fácil de abrir e tinha uma fechadura do lado de fora. Se ele fosse rápido o bastante, conseguiria escapar e prender os outros no banheiro com a chave de Damien. Não seria uma atitude de um cavalheiro, mas ele realmente não estava a fim de ser espancado, não quando ele estava tendo um dia tão bom.
Era um plano arriscado, mas ele precisava arriscar.
Tirando sua boina e a amassando dentro de seu bolso, Pip tomou cuidado de se agachar no chão do banheiro e tomar um impulso para passar por debaixo de uma fresta, esta que era um pouco maior que sua cabeça, que dividia as duas cabines.
A porta da segunda cabine estava aberta, mas entreaberta, impedindo que seus atormentadores pudessem vê-lo passar e se erguer do chão.
Infelizmente, eles ainda assim podiam ouvir o ruído que seus sapatos fizeram ao passar por debaixo da parede.
— Ele passou pra segunda! — um dos três gritou, mas a reação dos demais foi atrasada.
Sem esperar um único segundo, Pip socou a porta do banheiro, a qual bateu bem na cara daquele que havia dado o primeiro grito, e correu para fora do banheiro, fechando a porta atrás de si e selando sua passagem com um toque da chave de Damien.
Os gritos dos garotos ali dentro eram abafados pela porta de metal, que bloqueava sua saída com hesito. O impacto mexia a porta para a frente de forma a assustar Pip, que imaginava que ela poderia soltar-se da parede e abrir passagem para seus atormentadores o perseguirem mais uma vez.
— A gente vai te pegar, francesinha! — a voz de Trent gritou do lado de dentro do banheiro, irada. — Marque as minhas palavras: eu vou acabar com a tua raça!
Foi realmente um golpe de sorte que Damien o tivesse dado uma chave amaldiçoada, cuja única missão era manter as portas pelas quais passava muito bem trancadas, de forma que a única coisa que poderia abri-las seria sua chave original.
Sem perder tempo para ver o que iria acontecer, Pip guardou a chave mais uma vez em seu pescoço e correu de volta para a sala.
Ele não negaria: estava feliz de ter se safado do tormento pela primeira vez naquele dia, eram hematomas a menos que Damien veria em seu corpo ao voltar para casa.
O resto do dia seguiu relativamente normal. Pip anotou as lições com afinco e a reunião que teve a tarde com os membros de sua equipe de trabalho correu naturalmente. Os garotos e Wendy não o trataram mal uma única vez e isso só deixou o britânico mais animado para aquele dia. Era como se a sorte estivesse virando a seu favor pela primeira vez na vida
Ah, pobre Pip. Sempre tão ingênuo. Ainda acreditava que alguma coisa ainda voltaria a seu favor naquela cidade, como se as pessoas pudessem aprender a amá-lo.
Pobre e ingênuo Pip.
Ele estava apenas terminando de ler um livro, sentado em sua cama, quando o som ecoou por toda a quadra e seus olhos se arregalaram, apavorados.
No primeiro estrondo, as mãos de Pip imediatamente voaram para seus ouvidos.
Ele odiava fogos de artifício.
Ironicamente, não tinha nada a ver com Damien ou o que aconteceu no terceiro ano. O que o abalou de verdade foi o ocorrido no quatro de julho, três anos depois. Seus colegas de classe tinham conseguido fogos de artifício especiais para soltarem no dia da independência dos Estados Unidos. Um grupo relativamente grande de outros garotos se juntaram a eles, o próprio Pip incluso. Ele não se lembrava muito bem do que aconteceu naquele dia, as únicas imagens que vinham à cabeça eram dele acendendo o fogo de artifício que foi lhe dado e uma grande explosão bem diante de seus olhos.
Diferentemente dos de Damien, aqueles fogos não eram mágicos, não garantiam a segurança de quem fosse afetado por eles. Estando sob as ordens do pai, Damien não tinha permissão de matar ninguém da superfície; atormentá-los estava bem, mas matar era outra história. Porém não era o mesmo caso com seus amigos.
Ao que Pip veio a descobrir, ou pelo menos era sua maior suspeita, alguém tinha sabotado seu fogo de artifício para que o mesmo não voasse, acharam que seria engraçado se ele explodisse na sua mão.
Foi por um verdadeiro milagre que ele sobreviveu. Tiveram que levá-lo ao hospital às pressas e ele sofreu diversas queimaduras — alguns diziam que ele tinha feito transplante de córnea, mas ele não acreditava em tudo que ouvia, pois nenhum dos médicos lhe disse qualquer coisa sobre isso quando o contaram de sua situação.
Suas feridas de curaram com o tempo, mas as cicatrizes em sua mente ficariam para sempre. Qualquer coisa que estalasse próximo a si, qualquer coisa que remetesse a explosões já era o suficiente para deixá-lo em estado de choque e mandá-lo direto para o banheiro, disparando em direção ao primeiro vaso sanitário que visse pela frente.
Que era exatamente para onde ele estava indo agora.
Todo o seu almoço, tudo que ingeriu desde que acordou naquela manhã, jogado descarga abaixo. Por um segundo, ele quase sentiu como se fosse desmaiar, mas foi apenas por um segundo. Assim que o maldito som parou, Pip conseguiu recuperar o fôlego e ir para a pia para lavar o rosto.
Ele odiava, do fundo de seu coração, pensar naquele dia. Lembrava-o da certeza de que haveria sempre um dia do ano em que ele estaria destinado a passar todas as vinte e quatro horas do dia se escondendo debaixo de cobertas e com um balde ao lado da cama para se debruçar e despejar tudo lá dentro. Ele se sentia fraco, incapaz. Se não conseguia manter a comida dentro do estômago só por um pouco de fogo, quem dirá sobreviver nesse mundo cruel.
Ele odiava se sentir fraco. A palavra parecia tirar sarro de todos os seus esforços nos últimos anos. Ele se levantou tantas vezes de tantas outras que caiu e aquela palavra, aquela maldita palavra, ria de todos os seus esforços e o julgava imponente, dizia que não importa o quanto ele se esforce, ele jamais será forte como os outros. Mas, por Deus, ele escolheria ser fraco a ser como seus colegas a qualquer hora. Se ser forte significava ser desprezível daquela forma, ele não queria ser forte.
Pip cambaleou de volta para seu quarto provisório e se jogou de cara na cama, completamente esgotado. Sempre ficava desmotivado e exausto quando sofria com seus ataques de pânico. Independentemente de sua crença sobre ser fraco ou não, isso não mudava a raiva que tinha de si mesmo por ser improdutivo.
Ao menos Damien não o julgaria por isso.
Embora o som não estivesse mais ali, ele conseguia sentir o cheiro de fogo, muito familiar para ele. Chegava a incomodar seu nariz de tão forte que era.
O que era estranho é que não deveria haver cheiro de fogo após a soltura de fogos de artifício.
Sempre o garoto curioso, Pip levantou da cama com certa dificuldade e caminhou até a porta, a fim de ver melhor o que estava acontecendo do lado de fora.
Não havia mais nenhum som, apenas o bendito cheiro de fogo, o qual já estava começando a incomodar.
Olhando para a rua de baixo, percebeu de onde estava vindo o cheiro. Uma fumaça preta se erguia no ar, como uma nuvem, passando uma imagem horrível que, para Pip, podia remeter apenas a desastre.
Não foi um fogo de artifício inofensivo, foi uma explosão. Assim como aquela que quase lhe tirou a vida há tantos anos.
Um arrepio percorreu sua espinha e o britânico sentiu uma vontade enorme de correr de volta para dentro e se esconder debaixo das cobertas até o sol nascer no dia seguinte. E é o que ele estava prestes a fazer, já com a mão na maçaneta para entrar novamente. Até ele perceber que o fogo estava vindo de sua casa.
O desespero tomou conta de seu peito e o momento desde que saiu porta afora até correr em direção à sua casa passaram como um borrão.
Por um segundo, ele ouviu gritos. Seus gritos. Como se o fogo estivesse ao redor de si e consumindo seu corpo até este se desfazer en cinzas e sonhos despedaçados.
Era quase a mesma sensação que ele tinha agora, parado em frente a sua casa, ou o que deveria ser sua casa.
Amarelo, laranja e vermelho, além de preto, eram as cores que dançavam em seu olhar enquanto via a madeira de sua casa pegar fogo e desabar bem diante de seus olhos.
Tudo que ele conhecia agora deitava em chamas. Qualquer coisa que ele pudesse ter de valor naquela casa agora não existia mais.
Não havia barulho nenhum de dentro da casa com exceção das chamas consumindo tudo que encontravam pela frente, transformando tudo que conhecia em nada mais além de fumaça e cinzas.
Podia ser um lar abusivo e tóxico, mas era tudo que ele tinha. Sem sua casa, ele não tinha nada.
Ele voltara a ser nada mais que um órfão. Ele voltara a ter oito anos.
Seus olhos começaram a marejar, coçando as órbitas e provocando-o a morder os lábios para impedi-las de escapar.
Era como se um pedaço de sua alma tivesse sido arrancado.
Ele não sabia quem fez isso, tampouco importava agora. Chorar ou descobrir quem fez aquilo com sua casa não a traria de volta, não o devolveria sua vida.
Contendo-se o máximo que pôde, Pip mordeu o dedo indicador com força e se apressou a voltar ao único lugar que tinha restante, o único que, por mais alguns dias, poderia chamar de lar.
Suas mãos desengonçadas tremiam ao pegar a chave e as lágrimas já escorriam por seus olhos ao abrir a porta da casa de Damien. Ele mal conseguiu trancar a porta novamente antes de desabar completamente em choro.
Ele tinha perdido tudo. Tudo. Sua casa, seus pertences, suas lembranças, o único membro que restava de sua família. Já não havia mais nada além de cinzas.
Cabisbaixo e ainda com lágrimas escorrendo por suas bochechas, Pip cambaleou em direção ao primeiro quarto do corredor, o qual não pertencia à ele, mas à Damien. Ele se jogou no colchão e se enrolou no lençol branco que decorava a cama, sentindo o frio do toque inicial dissipando e dando lugar ao calor emanado de seu corpo.
A cama também tinha o cheiro dele. A mesma sensação de conforto também, como se ele tivesse os braços envolvidos ao redor do corpo de Pip e o tomasse por inteiro, como ele tanto desejava que acontecesse.
— Desculpa. Eu sei que você falou que eu não deveria bagunçar o seu quarto, mas… Eu não acho que consigo dormir no outro quarto hoje. — ele fungou, algumas lágrimas molhando o travesseiro. — Eu arrumo tudo antes de você chegar, prometo.
Pip tentou se conter para não chorar mais ou seu nariz ficaria entupido durante a noite e ele não conseguiria dormir direito, mas era difícil. A cada dia que passava as pessoas arrancavam mais e mais dele, tirando cada gota de sua sanidade que havia restante em sua mente e toda a compaixão de seu coração. Ele estava tão cansado. Queria simplesmente fechar os olhos e dormir até não restar nada em seu peito além da entorpecência de seus sentimentos se esvaindo.
E foi isso que ele fez.
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