Darker Days

7 Nunca será o suficiente.


As pastas e folhas estavam estacadas em cima do livro, sua organização estética e prazerosa aos olhos do anticristo. Ele adorava a sensação de terminar sua cota de trabalho do mês, significava que estava livre para descansar o quanto quisesse, ao menos por metade do dia.

O problema de trabalhar no inferno era especialmente isso: a falta de tempo. Considerando que cerca de 98,7% da população ia pro inferno quando morria, sempre chegavam mais e mais perfis para Damien analisar, mal dando-o tempo de respirar. Sua sorte vinha na forma de pastas organizadas e objetivas, que propiciavam um julgamento mais simples e uma sentença rápida. Contudo, não diminuía o fato de que passar o dia inteiro fazendo sempre a mesma coisa era extremamente exaustivo, e Damien se entediava facilmente.

Às vezes sentia falta de ser criança de novo; não precisar se preocupar com nada fora obedecer às ordens do pai, divertir-se torturando almas pecadoras, xeretar os livros de sua biblioteca e colocar fogo em tudo que visse pela frente. Claro, ele já mudara seus métodos há muito tempo, mas não quer dizer que ele não se divertia quando era moleque.

Fitou a pilha de trabalho concluído, pensativo. Teria de mandar logo aqueles arquivos ao inferno para serem registrados, senão as almas poderiam ficar presas por tempo demais no limbo e se corromperem mais do que já estavam. E Damien odiaria corromper pessoas inocentes por pura negligência.

Não devia dar muito trabalho, mas ele não tinha exatamente muita confiança em seus demônios para realizarem o trabalho. Eles serviam à seu pai, deviam obedecer a cada ordem que ele dava, quer eles gostem ou não. Mas Damien não era seu pai. Ele temia que seus demônios, que não eram exatamente seus, desaprovassem da forma como ele governava e resolvessem mudar seus arquivos pelas suas costas.

O que significava que ele teria de registrar os arquivos pessoalmente.

Poxa, justo agora que as coisas na terra estavam ficando interessantes. Damien estava gostando de sua experiência lá até o presente momento. Embora tivesse que lidar com os, ugh, pecadores, o lugar era bem mais silencioso e calmo que o inferno. Não tinha pessoas gritando ou o constante som de espíritos sendo torturados com chicotes, correntes ou seja lá o que for. Estava longe de ser pacífico, mas era bem mais agradável para o anticristo que seu lugarzinho no inferno.

E também era a companhia.

Damien terminou seu chá e, após fazer toda a higiene necessária e pegar uma última coisinha, pegou o livro e partiu em direção ao colégio.

Ele só não esperava encontrar Pip tão cedo, e tão próximo de sua casa. Mas, também não esperava que a encheção de saco começaria tão cedo.

O britânico estava a conversar, ou melhor, receber xingos de um outro garoto, sobre um assunto que Damien estava longe demais para ouvir.

Ele era mais alto que Pip, e tinha cabelos quase na altura do ombro, presos atrás da orelha e jogados para a nuca. O anticristo tinha quase certeza de que seu nome era Terrance, ou algo assim, mas se importava demasiadamente pouco para ter certeza.

Conforme caminhava em direção à eles, as vozes iam ficando cada vez mais claras.

— É bom que esteja tudo pronto até amanhã, francesinha. — ergueu a mão e desferiu-lhe um tapa na bochecha, tão forte que quase fez o britânico perder o equilíbrio. — Ou vai receber um pior que esse.

Ele já estava se afastando quando Damien se chegou perto o bastante, seu bom-humor há muito perdido. Estava se tornando cada vez mais difícil se conter, testemunhando as mesmas cenas todos os dias — quando não era pior. Ter que andar ao lado daqueles pecadores imundos já era insuportável o bastante por si só, agora, ter de vê-los abusando e agredindo uma alma pura, seja a de Pip ou não, o deixava revoltado além da compreensão. Sinceramente, não fazia ideia de como ele não havia explodido ainda. Esse tipo de atitude no inferno conseguiria ao pecador sete anos de tortura, no mínimo. Mas ali, que não era seu reino, ter que ver esse tipo de situação acontecer todos os dias e não poder fazer nada era como se ele mesmo estivesse sofrendo uma tortura.

Ao aproximar-se de Pip, percebeu o loiro com a mão na bochecha, a pele provavelmente ardendo pelo tapa. Mesmo assim, ele conseguiu forças para sorrir em sua direção quando seus olhares se cruzaram, recebendo um em retorno.

— Bom dia. — Pip cumprimentou ao se aproximar.

Pra quem acabou de tomar um tapa o dia deve ‘tá ótimo! — ironizou Damien em sua mente.

— Bom dia. — disse simplesmente, rápido em enlaçar a mão do britânico na sua. Seu sorriso então despencou ao se desfazer da fachada que era seu bom-humor. — O que aquele cara queria?

Oh. Ele viu.

Pip ergueu as sobrancelhas e desviou o olhar por um segundo enquanto apertava a mão na alça da mochila. Ele não queria que Damien tivesse visto aquilo. Na verdade, não era para eles terem sequer se encontrado antes de chegar ao colégio, mas ele havia perdido o horário em que costumava acordar, dando-o alguns minutos de desvantagem. Mas, fazer o que? Já aconteceu.

— Ele me pediu pra fazer uma lição pra ele. Aparentemente, Terrance está com dificuldade em física.

Damien franziu levemente o cenho.

— Mas você não faz aula de física.

Pip foi rápido em contestá-lo.

— Não, mas sou tenho uma facilidade natural com exatas! — sorriu, orgulhoso de si mesmo. — Saiba que eu fui o quarto aluno melhor colocado nas provas de matemática do segundo ano.

Pip realmente era uma peça rara. Mesmo quando lhe davam um tapa na cara — literalmente -, ele conseguia manter-se animado e positivo, como se não tivesse nada de errado com o mundo. Era realmente admirável.

Damien sorriu e puxou os lábios de Pip aos seus, contagiado por tal atitude positiva. Ele mexia com ele de formas que não conseguia explicar, ele não podia simplesmente ficar parado e deixar o britânico se safar com ser estupidamente fofo.

O loiro arquejou, surpreso com o beijo, mas logo sorriu e retribuiu o contato, o qual, na verdade, não durou mais que alguns segundos. Ainda assim, seu coração bateu forte, ansiando por mais. Damien beijava tão bem que ter que parar chegava a doer.

Trocando sorrisos e pensamentos aéreos, seguiram para o colégio de mãos dadas, sem se importar com os olhares que poderiam receber nesse meio tempo.

De repente, quando estavam quase chegando ao colégio, Damien recordou-se.

— Eu te trouxe uma coisa. — parou de andar, atraindo o olhar curioso de Pip enquanto tirava algo da mochila.

— Oh, obrigado. — disse o britânico ao tomar a boina em mãos e colocá-la na cabeça, onde era seu devido lugar. — Perdão, eu só percebi que tinha esquecido quando já estava em casa.

— Sem problema. — dispensou Damien com um gesto de mão.

Ao entrarem pela porta, não demorou muito para que os olhares começassem a se voltar para eles. Em especial, para suas mãos. Era como se nunca tivessem visto alguém andando assim antes — e ambos Damien e Pip sabiam que tinham, considerando que não eram o único casal gay do colégio -, eles seguiam com suas vidas até perceberem os dois juntos, como sempre estiveram desde o retorno de Damien, vale lembrar, até colocarem os olhos no anticristo e no britânico andando de mãos dadas. Aí parecia que o mundo virava de ponta cabeça.

Damien não parecia ligar para a atenção que estavam recebendo, pois, como o mesmo dissera outro dia, estava cagando para a opinião daqueles simples mortais.

Pip não estava muito diferente, embora um tanto mais autoconsciente. Ele não se envergonhava de suas escolhas ou de sua orientação sexual, mas se preocupava com como os outros lidariam com isso.

O que ele havia percebido através dos anos que passou em South Park, é que enquanto as coisas mudavam no mundo lá fora, lá é como se eles vivessem numa bolha. Podia ser o ano que for, eles sempre estariam vivendo, socialmente falando, nos anos 90. Pessoas podiam se revoltar pelo que fosse, eles sempre as encaravam com a ignorância das pessoas da década passada. O britânico até se surpreendeu quando Tweek e Craig resolveram sair do armário, ainda mais por terem sido recebidos de braços abertos por suas famílias. Ele não reclamaria, é claro, pois era um bom sinal, o fazia pensar que ainda havia esperança para ele, mesmo que a probabilidade disso fosse extremamente baixa.

Como já era de costume, e agora não mudava, Damien e Pip se sentaram debaixo do armário do primeiro e pegaram seus materiais para trabalhar como sempre faziam: Damien com os assuntos do inferno e Pip com a lição de casa.

Quando chegou a hora de ir para a aula, despediram-se com um selinho e seguiram em direções opostas, cada um para sua respectiva sala.

Eles não tinham aulas em comum naquele dia, então se veriam apenas na hora do lanche e na saída, mas aquilo não incomodava-os como parecia incomodar os casais mais dramáticos. Estes agiam como se fosse o fim do mundo se tivessem que se separar por cinco minutos de seus parceiros, coisa com o que Pip não conseguia se identificar. Sim, ele gostava da companhia de Damien, mas sobreviveria muito bem sem ele. Sua relação não era de codependência, como era comum de encontrar entre alguns casais — o que é bem preocupante, diga-se de passagem. Pip havia sobrevivido todos aqueles anos sem Damien, assim como ele o fez, poderia continuar seguindo mesmo com um coração partido, ainda mais quando estavam tão perto de se formar e ele enfim escaparia daquele inferno.

Pelo que deveria ser a primeira vez, nada demais aconteceu durante a aula. A professora de geografia passou um trabalho em grupo, mas, fora isso, nada demais aconteceu. Pip tinha até ficado em um grupo com gente decente pra variar!

Ele entrou com um sorriso na cantina e sentou ao lado de Damien com um maior ainda, ansioso para contar ao novo namorado as novidades das aulas enquanto ele escrevia em seu livro.

— Ela dividiu a gente em grupos de quatro, então ficamos eu, o Tweek, o Butters e a Wendy. Precisamos entregar um trabalho de cinco páginas sobre os problemas ambientais dos Estados Unidos.

— Isso não vai fazer as pessoas se importarem mais com o clima. — o anticristo murmurou. — Forçar as pessoas a fazer esses trabalhos chatos dificilmente vai deixar alguém interessado.

Se em todo esse tempo as aulas de geografia faziam exatamente isso e as coisas acabaram do jeito que estão, não é agora que mudaria. E, acredite, Damien sabia muito sobre impacto ambiental e consciência humana; era meio que obrigado a saber.

Quando a conversa dissipou e o silêncio uma vez mais prosperou, Damien prendeu o ar em seus pulmões e tomou coragem para enlaçar a cintura de Pip com o braço, o contato não passando despercebido pelo britânico. Olhos azuis reluzentes ergueram da bandeja de comida e o encararam como se quisessem encontrar sua alma. Eles brilhavam como nada que Damien havia visto, como se fossem todo um tipo novo de minério, ainda a ser descoberto pela humanidade. E Damien queria mantê-lo todo para si.

Pode parecer um pouco estranho, sim, que aquele sentimento o atingisse daquela forma com apenas pouco mais de uma semana de retorno à South Park. Talvez fosse uma parte demônio clamando por uma alma para corromper, mas, como o próprio Damien já tinha repassado em sua mente tantas vezes, aquela não era sua função, mesmo sendo o novo governante do inferno. Talvez fosse seu lado protetor querendo manter segura a única pessoa que foi gentil com ele durante uma época tão difícil em sua vida, e que ainda foi bom o bastante de perdoá-lo por traí-lo por seus interesses egoístas — um ato do qual Damien nunca conseguiu se perdoar. Mas o anticristo se conhecia bem o bastante para saber que ele não queria Pip apenas como amigo, então não poderia ser apenas aquilo.

Olhos carmim percorreram seus arredores. Ninguém olhava para eles. Então, aproveitando-se da situação, Damien deu um rápido beijo na bochecha do loiro, que riu com a surpresa agradável.

Damien nunca tinha percebido o quanto amava a risada de Pip até agora.

Para falar a verdade, Damien não se importava com o pouco tempo que passaram juntos desde que veio à terra. Ele gostava das coisas como estavam agora, gostava da atenção, gostava do afeto e gostava de Pip o dando atenção e afeto. Se o britânico estava disposto a retribuir, não havia motivos para não tentar fazer isso dar certo.

O loiro continuou a comer seu lanche encostado no ombro de Damien, os dois trocando olhares de vez em quando. Para a surpresa do britânico, era uma posição bem confortável, como se ele devesse estar ali. O fazia não querer voltar pra aula.

Ele nunca tinha amaldiçoado tanto um sinal em toda sua vida.

Antes que pudesse levantar, o britânico sentiu a mão de Damien segurar seu pulso, impedindo-o de se levantar.

— Você gostaria de vir em casa hoje? Acredito que seja mais tranquilo para você estudar.

E realmente era. Apenas no dia em que Pip dormiu lá, já conseguiu adiantar muitas de suas atividades pedidas em sala, além de trabalhos e questões que ele não havia resolvido em aula. Era mais fácil resolver tudo quando se tinha alguém que conhecia praticamente tudo sobre tudo sentado bem do seu lado. Seu namorado era tão inteligente. Além do que, ele não tinha que estar em casa até a hora do chá.

— Eu adoraria.

Damien sorriu, levantando da mesa.

— Então, te vejo na saída. — suavizou o toque no pulso do britânico, acariciando a pele macia debaixo de seus dedos com apreço.

Os dois levaram as bandejas ao balcão e dirigiram-se para a sala, porém, o anticristo parou abruptamente no meio do caminho, bem quando estavam para sair pela porta. Todo o resto da classe já tinha ido embora.

— Ah, espera, eu estava esquecendo meu livro.

Ele rapidamente voltou à mesa em que estavam para buscar seus pertences, mas, antes que pudesse, um garoto loiro, alto, e que Damien, infelizmente, reconhecia chegou antes dele.

— Ei, aberração! Procurando por isto? — Trent caçoou, erguendo o livro negro pela ponta da capa, como se fosse um brinquedo. — Pelo jeito como você carrega isso pra todo lugar, deve ser muito importante.

Imediatamente, as emoções de Damien se esvairam, cedendo lugar à uma única expressão: raiva.

— Me devolva isso. — ele mandou, estendendo a mão. Ele estava sendo bem paciente, na verdade, pois poderia muito bem apenas explodir sua cabeça e tomar o livro de volta de seu cadáver. Mas isso ia contra seus valores.

— Hum… Eu me pergunto se eu deveria… — o loiro levou um dedo ao queixo, claramente tirando sarro dele. — Acho que, depois do que você fez com meu celular, você me deve uma. — girou o livro na mão, levando todo o ar de Damien junto. Não que ele fosse demonstrar isso. — Me diz, o quão puto você ficaria se eu tacasse fogo nisso aqui?

O livro era a prova de fogo, pois o anticristo não era burro de fazê-lo com páginas normais quando sua principal habilidade era justamente com aquilo que as destruiria, então não aconteceria nada, não havia motivos para ficar puto. Porém, aquilo ainda era uma ameaça. Igual à uma criança: se sua autoridade fosse questionada e ele não a reafirmasse, seria como um sinal verde para Trent achar que poderia fazer o que quiser com ele.

Não podia, óbvio, mas, considerando que ele e Pip não tinham todas as aulas juntos…

— Encoste em uma folha que seja desse livro e você morre. Devolva.

Trent não era lerdo, percebeu a forma como o anticristo estava perdendo a paciência. Ele não encontrava alguém que ficava com raiva de suas provocações ao invés de assustado. Que divertido.

Ele sorriu.

— Nossa, cara, isso é tão importante assim pra você? O que é? Um diário? Isso é tão gay, cara. — pela primeira vez naquela discussão, Trent ergueu o olhar, não olhando para o anticristo mas para quem estava atrás dele. — Ei, Pip, quantas páginas você acha que ele fala sobre o jeito que ele te come durante a noite?

— EU MANDEI DEVOLVER, CARALHO!

Com um erguer de sobrancelhas, a blusa de Trent começou a pegar fogo, espantando o adolescente e fazendo-o derrubar o livro, o qual Damien foi muito rápido em pegar de volta. Um problema a menos para se preocupar.

Quando o fogo apagou, o britânico e o anticristo já não estavam mais lá.

(...)

Nenhum dos dois ficou no colégio por muito tempo após a saída, não querendo dar sorte ao azar de encontrar com alguém que gostaria de ver suas cabeças em uma bandeja de prata, não tinham tempo para isso.

Jogavam conversa fora durante o percurso à casa do anticristo, escolhendo focar nas aulas do que em seus outros colegas de classe e tudo que aconteceu naquele dia. O incidente da cantina já tinha praticamente ficado para trás, nenhum dos dois se importando muito com o assunto enquanto caminhavam de mãos dadas. Apesar de que, se parar para pensar, a situação fora um tanto cômica, e, uma hora, arrancou um riso dos lábios de Pip.

— Do que você está rindo? — Damien questionou, sorrindo e arqueando a sobrancelha.

— Só estava pensando numa coisa…

— E o que seria?

O britânico desviou o olhar para cima, deliberadamente evitando, o que ele sabia que iria se tornar, o olhar atravessado do anticristo.

— Sobre como você me disse pra tomar mais cuidado com as minhas coisas, mas esqueceu seu livro na mesa da cantina.

E ele estava certo.

Damien estreitou o olhar em sua direção e estalou a língua no céu da boca, mas não permaneceu amargo por muito tempo.

— Na verdade, esse livro é mais resistente do que você imagina. Eu só prefiro que esses mortais não fiquem encostando nele com suas mãos grudentas e sujas. Gosto de manter meu trabalho organizado.

Mais uma vez, Pip sorriu, desta vez conseguindo mascarar o riso. Ele achava cômico a forma como Damien conseguia alternar entre irritado e tranquilo em menos de um segundo, além da forma como se referia à seus colegas de classe, o lembrava do jeito estranho e bizarramente bíblico que ele falava quando tinham oito anos. Ele não tinha percebido o quanto tinha sentido falta de conversar com ele antes.

Chegando à casa de Damien, os dois garotos deixaram a matéria de lado e, por insistência do anticristo, foram almoçar.

Não havia muito na geladeira de Damien, mas o britânico dizia não ter problema, pois não era seletivo com comida. Do jeito que passava fome em sua casa, Damien não estava exatamente surpreso com este fato.

Pip praticamente atacou a comida, desculpando-se pela falta de educação mas continuando a enfiar o garfo na carne. Parecia até que não tinha jantado. Damien também não duvidava que fosse verdade.

— Você não vai almoçar? — perguntou o loiro após terminar de comer.

Negando com a cabeça, o anticristo se levantou e começou a retirar a louça.

— Eu não estou com fome. — respondeu.

Ao menos, não de comida.

Voltando para a sala e pegando o material para estudar, Pip encarou o relógio de soslaio. Ele precisava estar em casa pelo menos às cinco da tarde, precisamente na hora do chá, ou sua prima começaria a suspeitar de suas desaparições.

Para falar a verdade, ele não devia ter passado o dia fora nem no dia após dormir na casa de Damien ou no dia de seu encontro ou qualquer outro. Sua prima sempre dizia que as ruas daquela cidade eram perigosíssimas.

“Ora, é claro que são! De que outra forma você conseguiria essas cicatrizes horrendas?”— ela o disse uma vez, e Pip nunca mais deixou uma única ferida exposta depois disso.

Sua mente se enchia com mais e mais pensamentos enquanto o lápis deslizava pelo papel. Ele estava muito aéreo naquele dia. Por mais que a lição o chamasse e exigisse sua atenção, ele não conseguia parar de encarar Damien pelo canto do olho.

O anticristo escrevia em seu livro sem uma vez sequer se distrair, parecia hipnotizado por ele. Ele levava seu trabalho muito a sério, sempre mantendo o livro próximo a si e o protegendo com a própria vida quando ameaçado.

Pip riu baixo, imaginando se teria que disputar atenção com o trabalho de Damien para conseguir que o anticristo olhasse em sua direção.

Aparentemente não, visto que apenas seu riso já foi o bastante para conquistar sua curiosidade.

— Por que você tá rindo agora?

O loiro suspirou, ainda aéreo. Havia algo de diferente na forma como Damien sorria que conseguia esse efeito nele, o fazia querer se jogar em seus braços, mergulhar no carmim de seus olhos e se afogar em seu calor.

— Não é nada demais. — ele respondeu e colocou os livros de lado, pois não queria acabar derrubando tudo e bagunçando todos os papéis muito bem arrumados. Ele podia terminar mais tarde.

Enquanto Pip se inclinava no sofá, Damien também colocou seu livro de lado, seus movimentos, automáticos. Antes que percebesse, seu trabalho se tornou a última prioridade em sua mente, a primeira sendo o britânico que acabava de guardar o material bem ao seu lado.

Ele não conseguia entender o que havia em Pip que o fazia sentir assim, não conseguia entender o que ele tinha que o deixava com tanta fome, mas, seja lá o que for, abria caminho entre seus pensamentos e disparava seus instintos como um verdadeiro demônio, plantando ideias em sua cabeça que não estavam ali há duas semanas atrás. Definitivamente não estavam ali.

Inclinando-se na direção de Pip, capturou seus lábios no exato segundo em que ele se virara para encará-lo.

Pip pareceu surpreso no início, mas logo cedeu ao contato, entregando-se de coração aos encantos daquela criatura bíblica temida por tantos. Ele, é claro, não o via daquela forma. Conhecia Damien desde que eram crianças, e sabia, tão bem quanto sabia a história da família real inglesa, que ele era apenas uma criança perdida entre as expectativas de todos, seu destino e sua própria vontade. Ele não sabia o que fazer na maioria do tempo, apenas seguia as ordens do pai. Isto até ele ascender ao trono. Pip não sabia exatamente o que aconteceu para Damien assumir e conseguir um trabalho tão cedo, e não incumbia à ele a responsabilidade de descobrir, por isso preferia não comentar. Ele ficaria incrivelmente chateado se acabasse pegando em algum nervo de Damien. Não gostaria de vê-lo chateado. Damien podia passar a impressão de alguém imponente e duro como rocha, alguém que raramente demonstrava qualquer emoção e que, com apenas um flash em seu olhar, podia destruir qualquer um que atravessasse seu caminho, mas, na verdade, ele era alguém sensível e justo, que daria de tudo para proteger e agraciar aqueles que amava. E o presente momento só ressalta seu ponto.

Pip apartou os lábios, sentindo a língua de Damien deslizar pela carne, um pedido de passagem, e um suspiro lhe escapou ao sentir sua língua enlaçar-se à dele. Sensações extraordinárias, toques viciantes, ele não se via se cansando disso em momento algum. Haviam apenas começado, afinal.

Pip agarrou-se aos ombros de Damien quando o mesmo começou a se debruçar mais sobre ele, empurrando os dois deitados no sofá. Seu corpo, ainda não acostumado com seu coração acelerado daquela maneira e a forma como as mãos de Damien percorriam sua cintura e encaixavam sua cintura entre suas pernas, estremeceu.

Ele não lutou contra, no entanto, quando o peso do anticristo caiu sobre si, quase roubando todo seu fôlego, e suas mãos subiram desde suas coxas até suas bochechas, onde aprofundaram o beijo e permitiram que sua língua explorasse cada cantinho de sua boca.

O britânico estava completamente entregue quando seus lábios se descolaram com um estalo, seus olhos fechados e sua respiração descompassada. Uma fina trilha de saliva escorria pelo canto de sua boca, a qual ele limpou com o braço, sobrepondo-o aos olhos, cansado. Tanto entusiasmo e sentimento arrancaram toda sua energia. E ele ainda queria mais.

— Você está bem? — perguntou Damien, preocupado com a forma que Pip respirava e parecia cansado.

— Eu sinto como se fosse desmaiar. — ele murmurou com a voz arrastada, seu sorriso oculto pela manga da blusa.

Embora no bom sentido, Damien acabou por interpretar da maneira errada a afirmação de Pip, instintivamente se afastando do loiro e encarando-o com olhos preocupados. Ele temia ter ido longe demais com suas vontades e deixado seu lado demônio tomar conta demais de seu corpo. Ele odiaria forçar Pip a fazer algo que ele não queria ou que não o agradasse.

— Quer ir ao banheiro?

Ainda tentando recuperar o fôlego, Pip tirou o braço da frente do rosto e encarou seu namorado com ternura.

— Não. Não é desse jeito. É de um jeito bom.

Leve. Era a única palavra em que conseguia pensar para descrever o que sentia. Ele não sentia seus pés grudados ao chão, como se estivesse sendo elevado à um novo nível de êxtase.

Damien exalou o ar pelo nariz, um pouco mais aliviado, porém, ainda se preocupava com o estado de Pip. Pelo que tinha dito, ele nunca passou por nenhuma experiência parecida, chegando a pensar que não sabia nem beijar direito — o que o anticristo já havia provado que estava longe de ser verdade -, ele temia acabar indo longe demais com o pobre britânico e a experiência se tornar algo mais forçado que prazeroso, e isso era tudo que ele menos queria.

— Me avise se quiser que eu pare.

Vendo a preocupação reluzindo no olhar carmim do anticristo, Pip sorriu em adoração. Damien era tão precioso, ele queria colocá-lo num potinho e guardar com ele para todo o sempre.

— Está tudo bem. Eu não quero que você pare.

O coração de Damien deu um pulo. Céus, Pip tornava incrivelmente difícil para ele se conter quando falava coisas assim.

Queria tomar seus lábios, seu corpo, seu coração, seu tudo. Só para ele. Queria gravar seu nome por cada centímetro de pele e amá-lo até se esquecer do próprio nome.

Debruçando-se sobre ele, Damien afastou os cabelos loiros e beijou sua orelha, o estalo deixando os cabelos da nuca do britânico em pé e o fazendo rir com o arrepio. Ele então voltou a clamar os lábios de Pip como se fossem seus, deixando o calor crescer em seu peito e esperando convir, com todo o carinho e ternura que podia oferecer, o quanto Pip mexia com ele.

Sabendo de tudo que ele passava, do quanto sofria diariamente, ele precisava que ele soubesse o quanto ele valia, o quanto se tornou importante para ele naquele pouco tempo.

Ele queria que Pip se sentisse querido.

Ele queria que Pip se sentisse amado.

Ele queria desesperadamente tirar aquela sensação de seu peito, mostrar à ele o quão bem ele fazia para ele apenas por sentar ao seu lado, o quão forte ele era por conseguir aguentar tanto e ainda levantar no dia seguinte para fazer tudo de novo.

Ele merecia todo o amor do mundo, e Damien estava mais do que disposto a dar, tudo que ele precisar.

Porque ele o amava.

Deus, ele o amava. Como aquilo havia acontecido em tão pouco tempo ele não sabia, tampouco se importava. Só sabia que não podia negar aquela sensação que queimava tão profundamente em seu peito. E faria questão de que o britânico soubesse.

Enquanto o anticristo atacava a boca de Pip com sua língua, alguns pequenos gemidos reverberaram do britânico. Sendo ainda virgem, Damien estava sendo extra-cauteloso para com até onde Pip queria chegar; não queria acabar traumatizando-o por caminhar rápido demais, como sabia que acontecia com algumas pessoas. Ele puxou seus lábios de volta e os dois caíram em uma dança de beijos curtos, mas eufóricos, arrancando de seus pulmões todo o ar.

Mas, mesmo assim, não podiam parar, não queriam parar, apesar de precisarem.

Droga, os beijos de Pip eram mais viciantes que heroína.

— Ok, é melhor pararmos senão você vai morrer por falta de oxigênio. — disse o anticristo ao se afastar. Em seguida, estendeu a mão para o britânico para ajudá-lo a se sentar.

Pip riu e tomou a mão estendida à ele para que Damien o puxasse e o sentasse no sofá, ou, neste caso, em sua perna.

Acariciando suas costas com a mão, o anticristo plantou uma trilha de beijos por seu ombro, a risada e o sorriso de Pip um deleite tanto para seus olhos quanto seus ouvidos.

Pip estava nas nuvens, sua respiração estava ofegante e ele não conseguia sentir seus lábios, os quais estavam inchados pela forma que foram abusados com beijos, não que o britânico fosse reclamar, pois amou cada toque, cada carícia e cada segundo em que a pele de Damien tocava a sua.

Ele gostaria tanto de poder ficar até depois das cinco.

Ainda com os dedos de Pip entrelaçados aos seus, o anticristo trouxe a costa aos lábios, pressionando beijos desde seu pulso até a pontinha de seus dedos.

E foi então que ele se recordou que aquele momento não duraria para sempre. Ele precisava voltar para o inferno e resolver assuntos de trabalho, e aqueles beijos não passariam de uma lembrança dos confins de sua mente.

— Eu preciso te contar uma coisa. — sua voz cortou o recinto e deixou o britânico em alerta. Ele podia não saber muito sobre relacionamentos, mas sempre ouvia os rapazes provocando Craig quando ele dizia que Tweek disse que precisava lhe contar algo, e não parecia ser algo bom.

— O que?

— Eu vou ter que sumir por alguns dias. Vou voltar ao inferno para resolver alguns assuntos importantes. Se tudo correr bem, devo voltar em uma semana ou menos.

Pip piscou duas vezes.

E eles reclamavam que Tweek era o dramático da relação.

— Está bem. — disse simplesmente, mais calmo por não ser nada grave.

— Consegue sobreviver até lá?

O britânico deu de ombros e sorriu, inocente.

— Se consegui me manter de pé por quase dezenove anos, uma semana vai passar voando. — soltou o ar pela boca, esbaforido. — Quando você parte?

— Em dois dias.

Pip sorriu.

— É mais que o suficiente. — ele disse, dando um beijo acima de sua orelha pontuda.

Deus, não dá.

Damien voltou a capturar os lábios de Pip nos seus com um movimento súbito, inserindo sua língua em sua boca ao ter seus lábios separados pelo susto.

Pip se espantou com a atitude do anticristo, porém não estava em uma situação de negar sua atenção. Não que isso o fosse impedir de tirar sarro dele.

— Nós não íamos parar? — perguntou com uma sobrancelha arqueada ao separarem os lábios.

— Mudei de ideia. — disse e voltou a deitar o britânico no sofá, vorazmente atacando seus lábios.

Pip arfou em surpresa, mas não negou a passagem da língua de Damien por sua boca. A sensação o arrepiava, viciava, ele estava caindo mais rápido do que jamais pensou que fosse possível. Damien tinha um poder inacreditável sobre ele, e ele jamais pensou que alguém poderia significar tanto para ele em tão pouco tempo.

Mas faz sentido, disse ele à si em sua mente, Ele foi meu primeiro amigo.

A primeira pessoa que se importou com ele e que se importava até agora. Apesar do sufoco que passaram quando crianças, aliviava o coração do britânico saber que Damien havia mudado, que ele era uma pessoa diferente, mesmo que ele sentisse falta do jeito esquentadinho que ele tinha quando criança.

Ele não trocaria aquele momento por nada.

Com os dedos quentes do namorado percorrendo seu corpo e seu coração inchando em êxtase, ele se entregou de corpo e alma ao anticristo.

Deus, por favor, faça durar para sempre. Será que ele poderia ter isso, apenas isso, como a única coisa boa em sua vida? Ele estava tão cansado de estar sempre do lado que apanha. Pela primeira vez, aquela era sua oportunidade de vencer em algo, de se sentir satisfeito, como se sua vida valesse a pena, como se tivesse um propósito, uma razão para acordar todos os dias com um sorriso no rosto.

Ele não aguentaria ficar sozinho de novo, não depois de ter sido introduzido à ideia de que ele também, assim como qualquer outro, poderia ser feliz.

Por favor, só continue me beijando. Continue me amando. Leve minha dor pra longe. E eu te amarei em retorno.

(...)

Dois dias não chegaria nem perto de ser suficiente. Ao menos, não para Damien.

Eles passaram aquele tempo tendo certeza de que tirassem o maior proveito de cada segundo que passassem juntos, o que se resumia à troca de beijos e carícias sempre que estavam a menos de um metro de distância um do outro. A única exceção à regra era quando estavam na escola, onde apenas andavam de mãos dadas e se davam beijos na bochecha e nas mãos.

Em compensação, as idas à casa de Damien estavam quase se tornando rotina, e a bagunça de papéis no sofá também.

Damien soltou um grunhido alto enquanto caminhava para o colégio. Aquele era seu último dia na terra e ele não sabia o quanto ia aguentar. O segundo dia com Pip chegou num piscar de olhos, e agora, no momento em que o relógio marcar cinco da tarde, eles ficarão uma semana sem se ver.

Damien havia se acostumado demais com a presença de Pip em seu dia a dia, e agora seria estranho não tê-lo ao seu lado para conversar e manter companhia.

Seria tão estranho ter que aguentar o inferno do inferno sem ele para ouvir seus comentários sarcásticos sobre como sua vida era uma maravilha. Céus, ele estava muito mal-acostumado.

Cada momento em que seus dedos dolorosamente se desenrolaram naquela manhã foi como uma amostra grátis da torturosa semana que teriam de passar, muito mais do que apenas a distância os separando. Damien fez questão de ter certeza de sempre se despedir de Pip com um beijo naquelas situações, contrariando o sentimento anterior com a lembrança que guardaria por toda aquela semana em seu peito.

Não é para sempre. Eles se veriam novamente, só teriam que ser pacientes.

Comparado com tudo que tinha que testemunhar e suportar enquanto naquela escola com esperar uma semana para ver Pip novamente, aquilo era brincadeira de criança. Nenhum teste de paciência poderia superar a forma como ele se conteve ao ver o estado do braço do britânico naquele dia — que, aliás, estava se recuperando muito melhor do que o esperado, especialmente se considerar que ele não se alimentava direito.

As cicatrizes já não eram mais tão aparentes quanto antes, Damien tendo usado seus poderes para curá-las mais rápido. Em pouco tempo, nem precisaria mais dos pontos. Tudo que restava à Pip era manter o braço coberto para não correr o risco de mais alguém descobrir e tentar fazer algum mal à ele.

Deus, não tinha forma alguma de Damien prestar atenção na aula de geografia com o britânico aparecendo em cada um de seus pensamentos. Sem fazer barulho, ele guardou o livro no bolso e se dispensou da sala, precisava tomar um pouco de água e clarear a mente. Se as coisas continuassem daquela forma, ele não iria progredir em nada de seu trabalho.

Passando pelo corredor, ele não encarava nada em particular, contudo, um detalhe que julgou estranho e incrivelmente suspeito foi ver três garotos encostados na parede na esquina do corredor. Eles conversavam como se fossem uma gangue de filme planejando um assassinato ou um grupo de foras da lei indo cobrar uma dívida de alguém. De qualquer forma, aquilo estava estranho e Damien fez uma nota mental de ficar de olho naqueles três.

Quando estava passando pelo corredor onde estava o bebedouro, o anticristo surpreendeu-se ao ouvir uma batida vinda de um dos armários. Ele se virou e franziu o cenho na direção do som, que, após se fazer presente mais uma vez, quase o matou de susto.

Estava vindo de um dos armários.

Se aproximando a passos lentos do armário onde pensava ser o som, usou sua força para puxar a porta sem precisar adivinhar o segredo, e tomou ainda outro susto quando Pip cambaleou de dentro dele. Por sorte, Damien foi rápido o suficiente para segurá-lo antes que ele caísse de cara no chão.

— Obrigado, Damien. — o britânico agradeceu, usando o namorado de apoio para se colocar em pé.

Ainda pasmo, o anticristo tardou em encontrar as palavras certas para dizer.

— O que você tava fazendo ali?

Pip exalou o ar pelo nariz e se endireitou, estralando as costas. Ficar preso num armário depois de tomar uma surra não era exatamente muito confortável.

— Eu esqueci de fazer a lição que o Fosse me pediu, então eles me prenderam aqui até eu terminar.

— Por que não arrebentou a porta com o pé?

— Minhas pernas doem, não consigo mexer direito. — só então Damien realmente pôde olhar como Pip estava roxo. Hematomas cobriam suas pernas e ele tinha mais um se formando em sua bochecha. Isso explica por que ele tombou quando ele abriu a porta. — E também não adiantaria nada se eu saísse. Assim que eu passar pelo corredor, eles vão me prender de novo.

E isso explica porquê aqueles idiotas estavam sorrindo com o armário aberto quando Damien passou por eles.

O anticristo mordeu o interior da bochecha, tentando conter sua raiva. Aquele não era um dia para se estressar.

Sem esperar uma resposta, Pip continuou:

— Eu não aguentaria quebrar uma trinca dessas duas vezes, elas são bem mais fortes do que parecem.

O britânico fechou a porta do armário, tentando fazer o menos de barulho possível, porém, quando não se tinha mais ninguém no corredor além dele e Damien, não era muito fácil mascarar o som.

— Ei, Terrance, parece que o passarinho saiu da gaiola. — os dois ouviram Bill cantarolar do fim do corredor.

O coração de Pip bateu forte no peito, seguido de um suspiro.

— Eu preciso ir. — disse ele à Damien. — Te vejo no intervalo.

Após dar um rápido beijo em sua bochecha, Pip saiu correndo pelo corredor, dobrando a esquina o mais rápido que suas pernas finas conseguiam.

— Sai da frente, aberração! — Terrance gritou ao bater ombros com Damien, ele e seu grupinho seguindo atrás do britânico.

E mesmo com as pernas cheias de manchas roxas, Pip ainda conseguia correr.

Vê-lo daquela forma doía mais do que Damien podia descrever, e o enfurecia o sorriso na cara daqueles pecadores imundos, tirando prazer em derrubar uma das únicas almas boas que havia naquela escola.

Naquele momento, ele se decidiu: paciência é o caralho.

Ele estava prestes a seguir atrás deles quando a porta da sala do conselheiro escolar se abriu.

— Ei, Damien, será que eu poderia falar com você por um minuto? — pediu Mackey.

Damien não imaginava ver aquele homem novamente, na verdade, ele não queria. Depois de toda a merda pela qual ele o fez passar com seus conselhos inúteis de “ser passivo”, dizer que o anticristo tinha ranço dele era pouco. Se não fosse por ele, Damien não teria recebido aquele apelido ridículo e sentido mais ódio de seus colegas de classe. Em poucas palavras, Mackey não era uma pessoa com quem Damien gostaria de conversar.

— Eu preciso voltar pra aula. — apontou para o corredor com o polegar, como se fosse óbvio que estivesse ocupado.

— Eu posso te escrever uma dispensa. — disse o conselheiro, abrindo a porta. — Entre aqui, por favor, mkay? — já que ele não parecia ter outra escolha, o anticristo suspirou e obedeceu suas ordens. — Por favor, Damien, sente-se. — e ele o fez.

— O que foi agora?

Mackey tomou seu lugar atrás da mesa e respirou fundo.

Damien tinha a impressão de que alguém ia pegar fogo.

— Sabe, Damien, chegaram denúncias pra mim que você foi o responsável pela bagunça na cantina nessas duas semanas, é verdade?

— É.

Mackey arregalou os olhos. Ele provavelmente não estava esperando que Damien assumisse a culpa pelo ato, mas ele o fez, afinal não via motivo para esconder algo que foi, sim, sua culpa.

— Mkay… Você pode me dizer o porquê?

Damien revirou os olhos por trás das pálpebras.

— Estavam machucando alguém na minha frente, eu não ia ficar parado e deixar acontecer, né?

— Mas, Damien, você não pode simplesmente jogar seus colegas de classe na parede. Violência não vai resolver nada, mkay.

Damien piscou uma, duas vezes.

— Eu não posso me defender, mas eles podem me atacar?

— Não é isso. Eu só estou dizendo que violência não vai fazer eles pararem, mkay, pelo contrário, só vai deixá-los com mais raiva. Você precisa ser passivo, não mostrar para os outros que o que eles fazem mexe com você.

De novo o mesmo conselho. A mesma conversa e o mesmo conselho inútil.

Ele estava começando a ficar irritado.

— Foi o que você falou pro Pip e, olha, tá ajudando pra caralho.

Mackey tomou uma golfada de ar em seus pulmões. Ele estava tentando se acalmar.

— Damien, você causou duas comoções na cantina desde que chegou. Eu entendo que você queira proteger seu namorado e que você não goste de vê-lo se machucar, mas suas atitudes não o estão ajudando. Se você retribuir as agressões no nome dele, não estará acabando com o bullying, mkay.

Ok, agora Damien estava oficialmente puto.

— E ser passivo ajudou muito ele nos últimos dez anos, né? Nunca mais tomou um tapa na vida! — cruzou os braços e rangeu os dentes. — Ninguém veio mexer comigo depois que eu rebati, e você quer que eu pare? Pra acabar igual ele? Não. Eu não vou parar de rebater e, francamente, o Pip também devia.

Mas não é sua culpa que ele é bom demais pra essa escola.

— Mas, Damien, você já pensou que eles possam, sim, ainda estar te atacando, só não diretamente?

— O que você está insinuando? — ele perguntou, ainda bravo. Porém, admitiria que estava curioso.

Mackey começou a atropelar as palavras, tendo visto que finalmente estava conseguindo atravessar a barreira entre eles.

— Estou insinuando que, talvez, eles estejam atacando o Pip por saberem que isso vai te atingir.

O anticristo arregalou os olhos.

Ele está se machucando por sua causa.— Eram essas as palavras exatas que Mackey queria dizer.

— Contra-atacar só vai gerar mais violência, talvez não pra você, mas pra ele sim.

Damien estava sem palavras. Por um segundo, se esquecera completamente do rancor que as pessoas também guardavam, não era só ele que passava por isso, e elas, com suas mentes perversas e descaso completo com a moral, iam a grandes distâncias para conquistar seus objetivos. Até mesmo machucar as pessoas próximas ao seu alvo.

E já que não podiam atingir Damien diretamente, encontrariam outra forma de machucá-lo. Através de Pip.

Ele estava se machucando por culpa dele. Damien o estava machucando. De novo.

Ele estava quase se deixando convencer por aquele discurso, até se tocar de algo importante.

Pip já sofria bullying antes de Damien voltar. Essa perseguição não era algo recente, o próprio Pip o disse isso. As pessoas iam atrás dele sem motivo, não mudava uma única vírgula que o anticristo agora o estivesse defendendo.

Mas Mackey parecia pensar que sim, e Damien o odiava por isso.

— Me dói fazer isso, Damien, de verdade, ainda mais considerando o quanto Pip deve ser importante pra você, mas, se algo assim acontecer de novo, eu vou ter que te suspender, mkay?

Damien se retirou da sala sem dizer mais nada, apenas assentindo em compreensão, mas teve certeza de que as palavras do conselheiro entraram por um ouvido e saíram pelo outro.

Ao fechar a porta atrás de si, a primeira coisa que o anticristo percebeu foi a peça de roupa jogada no chão. Ele havia perdido sua boina de novo.

Suspirando, Damien recolheu a peça do chão e pressionou o tecido contra o rosto, envolvendo o tronco com o braço livre.

Ele estava completamente fodido.

Não fazer nada não ajudaria, e agora, se ele fizesse, poderia ser suspenso, o que significava que, seja lá o que resolvessem fazer com Pip nesse meio tempo, ele não poderia impedir.

Ele não conseguia pensar em nada que pudesse resolver aquele problema. Não podia abandonar Pip naquele inferno, mas também não podia ficar parado sem fazer nada.

Ele precisava pensar.

Talvez essa semana longe de South Park o ajude a clarear a mente no fim das contas.

(...)

Ele estava tão cansado de correr.

Pip foi preso no armário mais duas vezes durante as trocas de classe e ainda tomado mais uma surra da última vez que o pegaram, justamente por ele ter fugido.

E agora estava sendo perseguido de novo.

Ele estava tão cansado daquilo tudo, não queria mais ficar fugindo daquela forma. Já era hora do intervalo e Damien certamente ficaria preocupado se não o encontrasse na cantina.

Infelizmente, o britânico não tinha escolha — como se algum dia tivesse -, precisava continuar correndo ou tomaria outra surra, na frente de todos ainda por cima.

Antes que ele pudesse virar no corredor, uma mão agarrou seu pulso e ele foi puxado para dentro do armário do zelador, seus perseguidores seguindo direto, sem perceber seu súbito desaparecimento.

— Calma, calma, tá tudo bem. — uma voz calma sussurrou em seu ouvido antes que Pip tivesse a chance de se desesperar, dedos familiares acariciando seus cabelos com movimentos circulares.

Soltando um suspiro, Pip virou-se para encarar Damien, que sentava em cima dos próprios joelhos.

— O que você tá fazendo aqui?

Ele deu de ombros.

— Imaginei que a essa hora do dia você estaria fugindo de alguém, já que não estava na cantina, então achei que poderia te interceptar aqui. Aparentemente, eu estava certo. — Pip abaixou o olhar, constrangido sob o olhar do anticristo, o qual envolveu os braços ao redor de sua cintura. — O que aconteceu dessa vez?

— O mesmo motivo de antes, são as mesmas pessoas.

Damien grunhiu.

— Eles ainda não se cansaram? Porra…

Ninguém verdadeiramente se cansava de perseguir Pip. Havia algo no britânico que o tornava um alvo tão divertido de atormentar que, mesmo que ele não lutasse de volta, todos continuavam a odiá-lo. Mas não havia porquê ele dizer isso à Damien, afinal, ele já sabia. Portanto, Pip se deixou relaxar no colo do namorado e soltar um suspiro aliviado. Estar próximo dele já era o suficiente para lavar quase todas as suas dores para longe.

— Quanto tempo vamos ficar aqui?

— Até eles cansarem e irem embora. Eu não vou te deixar ir lá fora com um bando de malucos correndo atrás de você.

Pip sorriu, apoiando a cabeça no ombro de Damien.

— Você não cansa de sempre se sacrificar desse jeito só pra me ajudar?

É claro que ele se cansava. Damien não tinha costume de correr, se esconder em armários de zeladores e usar seus poderes para jogar todos os seus colegas de classe até o outro lado da cantina.

Mas Pip não precisava saber disso.

— Não é como se eles não fossem receber as punições deles mais cedo ou mais tarde. — deu de ombros.

Pip murmurou em compreensão, se ajeitando no colo do namorado.

— E o que fazemos agora?

— Eu não sei. O que você quer fazer? — ao invés de responder a pergunta, Pip riu. — Você pensou em alguma coisa. O que é?

Ele negou com a cabeça, ainda sorrindo.

— Nada, é só coisa boba, e inconveniente.

— Mais inconveniente que estar no armário do zelador com seu namorado de quatro dias não pode ser. — Damien sorriu ao vê-lo rir mais uma vez e apertou o abraço. — Fala.

Ao ver o britânico corar, suas expectativas para aquilo ficaram ainda mais altas.

— Eu só pensei que você fica bonito com a luz vindo da janela. — disse apontando para a abertura tampada da porta.

— Ok, isso é besta.

— Damien!

— Eu tô brincando! — se defendeu com um sorriso, balançando de um lado para o outro com Pip no colo e beijando sua bochecha. — Além do que, se pegar no armário do zelador não é meio que uma tradição pra vocês?

— Não! — exclamou o britânico enquanto ria. — Mas admito que muitos casais já foram pegos aqui dentro.

Que tolos— Damien pensou. Não sabiam eles que o armário do zelador era o lugar mais clichê para se engraçar pra cima de alguém? Todos checavam o armário do zelador quando procuravam algum casal. Ao menos podiam tomar as providências necessárias antes de se esconder em um lugar óbvio, assim como ele o fizera.

— Pelo menos nós sabemos algo que eles não sabem.

— O que? — perguntou Pip, curioso.

Damien sorriu, e fazendo um gesto de mão para a porta, começou com um beijo no pescoço do namorado.

— Como trancar uma porta.

Damien encostou na parede e virou Pip de frente para si, rápido em encaixar as mãos em suas bochechas e puxar seus lábios de encontro aos seus, retribuído tão rápido quanto.

Ele conseguia ouvir passos ao fundo, passando diretamente pelo armário do zelador, sem fazer a mínima ideia do que estava acontecendo lá dentro.

Com cada beijo, cada toque, cada carícia, Damien conseguia sentir seu autocontrole se esvaindo em um ritmo avassalador. Suas calças estavam começando a ficar apertadas e suas mãos lentamente desceram para além de apenas as costas de Pip, dedilhando caminhos até suas coxas e prendendo-se ali. Por sorte, eles pararam os beijos antes que ele pudesse deixar seu outro lado dominá-lo.

— Por que você está me olhando desse jeito? — Pip perguntou quietamente.

— Desse jeito como?

— Como se quisesse me devorar.

Damien hesitou em engolir em seco e, ao invés disso, sorriu com o canto da boca.

— É assim que eu pareço?

— Um pouco. — o britânico riu, inconsciente do rubor em suas bochechas. — É meio charmoso, na verdade.

O anticristo arqueou as sobrancelhas, ainda sorrindo.

— Charmoso?

— E assustador, mas isso é só porque eu não estou acostumado com essas coisas.

Não da mesma forma que você deve estar.— acrescentou em sua mente.

Sendo descendente de um demônio, além de incrivelmente atraente, era impossível acreditar que Pip era o primeiro namorado de Damien, ou a primeira pessoa que ele beijava. Do jeito que ele era, o britânico duvidava com todas as suas forças que Damien não devia ter milhares de admiradores o esperando no inferno.

De certa forma, o fazia se sentir pequeno.

Damien murmurou em compreensão.

— Entendo. Bom, eu não sou exatamente oposto à ideia, mas não vou fazer nada que você não queira.

O britânico inconscientemente desviou o olhar. Se ficasse encarando Damien daquela forma enquanto pensava no que dizer, só ficaria ainda mais nervoso; embora ele já tivesse pleno conhecimento do que queria.

— Será que podemos só… Continuar nos beijando? — perguntou com timidez. — Eu não sei se me sinto pronto pra… Fazermos isso, especialmente no armário do zelador.

Damien compreendia, eles tinham acabado de começar aquele relacionamento, e nenhum dos dois tinha namorado antes, era tudo muito novo, é óbvio que ele gostaria de desacelerar as coisas.

Talvez até ele mesmo precisasse desacelerar um pouco. Os pensamentos que alagavam sua mente estavam começando a preocupá-lo e ele não queria colocar o britânico no fogo cruzado.

— Tudo bem então.

Eles passaram o resto do intervalo naquele espaço confinado, apenas trocando beijos e carícias, às vezes palavras, mas suas bocas, na maioria das vezes, estavam ocupadas demais para isso. E as horas que se seguiram depois do fim das aulas, aproveitaram perambulando por South Park, caçando o que fazer.

No geral, não fizeram muito: caminharam de mãos dadas, passaram pelo parque para relaxar e sentaram debaixo de uma árvore para conversar.

Às vezes era bom passar um tempo juntos sem ser em algum ambiente interno, onde pudessem respirar ar fresco e tomar vitamina D ao mesmo tempo que passava aquele tempo com a pessoa amada.

Eles apenas tomaram o caminho familiar para suas casas quando já estava quase na hora do chá, a hora de Pip ir embora.

O casal caminhava de mãos dadas e corações pesados. Não queriam ter que se separar tão cedo, nem que fosse por apenas uma semana. Os dois estavam mal-acostumados com a presença um do outro e, quando acabasse, teriam que lidar de boca fechada com estarem sozinhos novamente.

Damien acompanhou Pip até o começo de sua rua, ambos apenas parando para não levantar as suspeitas da prima do britânico, que, segundo ele, era uma pessoa demasiadamente religiosa.

As implicâncias daquela afirmação praticamente garantiam o lugar daquela mulher no inferno.

O casal se despediu com um beijo doloroso e sorrisos pequenos ao separarem as mãos. Aquilo doía, mas era necessário.

— Tem algo que eu quero te dar. — disse Damien, segurando o pulso de Pip antes que ele pudesse descer a rua. Tirando a mão do bolso, estendeu à ele uma chave preta com um pentagrama estampado na ponta. Brega e clichê, mas Damien tinha gostado do design. — É uma chave reserva pra minha casa. Se as coisas não estiverem bem na sua e você quiser um lugar pra ficar sozinho sem ser incomodado, te garanto que ninguém vai te achar aqui.

Pip encarava a chave com olhos arregalados e a dedilhava como se fosse feita de vidro, remexendo o objeto entre seus dedos.

— Eu nem sei o que dizer… Obrigado. — sorriu.

— Que nada. Só não faz bagunça no meu quarto. — brincou o anticristo.

— Right-o! Quer que eu limpe a casa enquanto você está fora?

— Não precisa. Não tem muito pra ficar sujo por lá, então nem se preocupe. Apenas use aquele espaço como um tipo de lugar seguro, um lugar pra onde você possa ir quando quiser se sentir protegido. Te garanto que ninguém além de mim consegue entrar lá.

Pip o agradeceu mais uma vez e puxou-o para um abraço apertado, afinal, não o veria por uma semana inteira depois daquele dia.

— Por favor, se cuida. — pediu o moreno, enterrando o rosto no ombro do britânico.

— Vou tentar, prometo.

Damien suspirou.

— Eu volto em uma semana.

— Estarei te esperando.

Ele não resistiu. Puxou Pip pela cintura e colou seus lábios em um beijo, o qual foi retribuído com euforia. Aquele seria seu último contato com ele antes de ir embora. As mãos pálidas de Damien seguravam no casaco de Pip com força enquanto as dele, em troca, se entrelaçavam em seus cabelos, enrolando e puxando alguns fios conforme aprofundavam o beijo.

Se separaram com corações pesados, mas, resistindo à tentação de fazer tudo de novo, Pip deslizou as mãos pelas bochechas de Damien e seguiu seu caminho de volta para sua casa, apenas sabendo que Damien tinha ido embora de fato ao fechar a porta.

Ele não procurou por sua prima ao entrar, não procurou por ninguém. Subiu diretamente para o quarto e trancou a porta atrás de si. Cansaço tomou conta de seu corpo ao jogar a mochila no chão e se jogar na cama, estava completamente exausto.

Descansando a cabeça no travesseiro, ele conseguia apenas sentir o fantasma dos lábios de Damien sobre os seus enquanto sua consciência lentamente desaparecia.