Darker Days
6 Me diga que me queres e me terás.
Choveu no dia seguinte. Uma tempestade como ninguém nunca vira em South Park. Tiveram até que cancelar as aulas, pois os alunos estavam saindo voando quando tentavam sair de suas casas e acabavam parando quase do outro lado da cidade.
Damien encarava a chuva com um olhar sério, a verdadeira tempestade ocorrendo dentro de si. Por fora, parecia pleno, calmo, mas, por dentro, havia uma tempestade furiosa de emoções muito pior que aquela que acontecia do lado de fora. Ele se esforçava para contê-la, para parar de interferir no mundo daquela forma, mas ele não podia. Seu ódio era tão grande que ele simplesmente não conseguia mais conter tudo dentro de si, e pequenos pedaços daquela imensa tempestade escapavam e se tornavam reais.
Talvez tenha sido justamente essa raiva o que o levou ao quarto de Pip, pois, ao mesmo tempo em que queria colocar fogo no mundo, queria proteger a única coisa que nele importava.
Gentilmente abriu a porta, sendo agraciado com a visão de um pequeno Pip adormecido, impossibilitado de perceber sua presença. Ele parecia tão relaxado enquanto dormia, seu rosto sem nenhuma ruga e os lábios levemente apartados enquanto a respiração calma se anunciava como o único som que fazia.
Depois de jantar, Damien cuidou de separar algumas de suas roupas para o britânico vestir no dia seguinte e deixá-lo usar seu banheiro para fazer a higiene pessoal, além de lhe dar seu próprio quarto. Enquanto ele estivesse em sua casa, teria certeza de tratá-lo da melhor forma que podia. Ele não merecia nada menos.
Ainda não fazia o menor sentido para Damien a necessidade dos humanos descontarem sua raiva uns nos outros. Cada um tinha suas inseguranças, problemas e individualidades, não fazia o menor sentido que, para se sentir melhor, precisassem colocar alguém abaixo deles. Ele odiava competitividade. Quando se para para pensar, uma grande parte dos problemas de convivência social das pessoas pode ser atribuída à ideia de melhor e pior que a sociedade criou e o momento em que começou a aplicá-lá entre as próprias pessoas. Quem tinha o melhor carro, as melhores notas, as melhores companhias, a maior quantidade de dinheiro… Aquilo não significava nada para Damien. Todos eles foram avisados. No momento em que sua ficha fosse parar sobre sua mesa, não será um carro bonito ou dinheiro que vai livrá-lo do sofrimento eterno no fogo do inferno.
Pip se revirou na cama enquanto dormia, atraindo a atenção de Damien, que travou ao pé de sua cama. Merda, ele tinha pensado alto demais? Às vezes perdia o controle de sua influência naquele mundo. Trabalhando ou não, ele ainda era o anticristo, sua mera existência já era uma grande alteração na balança do universo, podia vir a fazer coisas sem nem mesmo perceber; o clima cinzento e tempestuoso era um bom exemplo disso.
Os olhos azuis cintilantes do britânico lentamente se abriram, acompanhados de um bocejo, enquanto a luz adentrava suas pupilas e o mundo ao seu redor tomava forma.
— Bom dia. — sorriu Pip ao ver Damien, embora as algumas mechas de seu cabelo bloqueassem parte de sua visão.
Seu coração palpitou ao ver o sorriso nos lábios e o brilho terno nos olhos carmim de Damien ao vê-lo. Fechou os olhos ao sentir sua mão acariciar seus cabelos com movimentos suaves e ternos, quase o suficiente para arrancar-lhe um gemido de satisfação. Pip nunca tinha percebido o quanto ansiava por algum contato até tê-lo em seu alcance. E, Deus, não queria que parasse nunca.
— Bom dia. — Damien respondeu, aproveitando o espaço vazio entre o travesseiro e a borda da cama para se sentar ao seu lado. — Dormiu bem?
O britânico demorou a responder, distraído com as carícias dos dedos gelados em sua nuca, arrepiando seus pelos. Ele assentiu lentamente com a cabeça e voltou a se aconchegar no travesseiro.
— Que horas são? — perguntou, gravitando entre a sensação acolhedora do sono e o peso da realidade.
— Umas oito da manhã. — Damien respondeu, retirando algumas mechas que tornaram a cair em frente aos olhos do britânico. — Aulas foram canceladas por causa da chuva.
Para complementar seu argumento, um trovão ressoou do lado de fora da casa, atraindo a atenção de Pip, que murmurou em compreensão. As cortinas estavam fechadas, porém, o barulho da água batendo com força em sua janela, como se quisesse entrar para fugir de algo, mostrava que, realmente, o clima estava terrível.
— Hmm, que estranho. Eles raramente cancelam as aulas, mesmo com neve. Deve estar um inferno lá fora.
Considerando a quantidade de pessoas que Damien viu serem arremessadas de lá pra cá, tanto jovens como adultos, durante o tempo em que esteve observando os pingos caírem e as nuvens escurecerem a cada segundo, supôs que sim.
— Agora nem tanto, mas, há algumas horas atrás, eu diria que estava meio perto. — brincou, sorrindo de canto.
Pip riu, puxando cuidadosamente as cobertas por seu ombro a fim de deixar o braço machucado exposto; não seria bom irritar as feridas com o contato incômodo dos lençóis.
Encarando as marcas avermelhadas e roxas e a umidade que estampou as gazes com manchas, a mão de Damien desceu dos cabelos loiros de Pip para sua mão, tomando-a na sua e entrelaçando seus dedos amavelmente.
— Como está seu braço? — perguntou, encarando a região com inexpressividade em seu rosto. Ele estava distante, o único jeito que sabia até agora de garantir que ninguém saberia o que se passava por sua cabeça.
Os olhos azuis do britânico desceram para o braço, observando o estado dos pontos e as faixas úmidas com o restante do sangue que escorrera pelas frestas abertas. Pulsava ao ritmo de seus batimentos cardíacos, irritante, mas nada com que ele não pudesse viver. Comparado à como estavam quando os conseguiu, se sentia muito melhor. Um sorriso surgiu em seus lábios acompanhado de um suspiro.
— Mal consigo dizer que algum dia chegou a doer. — respondeu cansado, flexionando a mão para provar seu ponto. Os músculos ainda puxavam e os pontos doíam, mas já era um excelente progresso.
— Em algumas horas, te dou um analgésico pra dor não voltar. — disse Damien, voltando a acariciar os cabelos do loiro com carinho. Ele sorriu. — Evite de ficar mexendo pra não abrir os pontos. — Pip assentiu e soltou um suspiro, deixando-se perder na sensação maravilhosa proporcionada pelos movimentos dos dedos do anticristo. Como ele podia ser tão bom nisso ele não sabia, mas, Deus, se pudesse continuar assim para sempre, ele agradeceria muito. Se tinha uma coisa que ele adorava mais do que tudo, era um bom cafuné. — Quer descer pro café? — bom, isso e comida, é claro.
O movimento dos dedos parou para que o loiro pudesse se sentar e espantar o sono para longe. Com um bocejo, esticou os braços e ajeitou uma mecha loira atrás da orelha, sorrindo por trás do olhar cansado.
— Eu estou, sim, com um pouco de fome. — disse ao esticar as pernas para fora da cama. No entanto, antes de seus pés tocarem o chão, um par de mãos o agarraram pelas coxas e a cintura e o ergueram no ar diretamente para o colo do anticristo. — Oh!
Com um movimento de seus olhos, a porta do quarto se abriu e Damien carregou Pip pela escada até a sala, sorrindo de canto ao sentir os braços finos — o não machucado, para ser mais específico — ao redor de seu pescoço.
— Sabe, você é leve demais pra sua idade. — comentou ao descer o último degrau, dando um pequeno pulo sem a menor dificuldade para mostrar seu ponto. O britânico pulou em seus braços, mas não deslocou-se mais do que na posição que já estava, como se seu peso realmente fosse irrelevante para o anticristo. Ele era bem leve. Preocupantemente leve.
Pip abriu um pequeno sorriso e, balançando as pernas inconscientemente, riu.
— Você fala como se fosse muito mais velho do que eu. — ambos fariam dezenove anos ainda naquele ano, a diferença não deveria ser maior que apenas alguns meses. Contudo, realmente, se comparassem seus pesos, o britânico não estaria nem perto do que seria considerado saudável para sua idade. Ele era magro, de ossos finos e estranhamente baixo, como se não tivesse crescido direito. Ainda era possível identificar o jovem adulto que era, mas o olho destreinado teria relativa dificuldade em acertar sua idade se, por exemplo, o visse no meio de uma multidão.
Parecia que não era apenas em suas relações sociais que Pip precisava melhorar.
Damien estreitou os olhos, a mão que segurava as coxas do britânico apertando a pele branca e sentindo os músculos ali presentes. Ele conseguiria facilmente encontrar suas artérias e ossos se quisesse, apenas dedilhando a pele fina.
— Mesmo assim, você precisa de mais carne nesses ossos. — aconselhou Damien, apertando os dedos pelo corpo do britânico e mentalmente mapeando seus ossos e tecidos. Pip corou sentindo aquelas mãos trilhando caminhos em sua coxa e em sua cintura, estremecendo com o contato gélido. — Se continuar assim, mal vai conseguir andar.
Ao colocá-lo no chão, já na cozinha, Pip realmente perdeu o equilíbrio, sua mente perdida naquela conversa e nas mãos viajantes do anticristo. Sorte a dele que conseguiu se segurar na cadeira a tempo.
Tomando seu lugar na mesa posta, ambos voltaram a atenção à comida disponível. Nada extravagante ou chique, apenas pães, geleias, alguns biscoitos e chá. Damien não tinha tanta fome pelas manhãs, não que precisasse comer, por isso a falta de diversidade, mas o britânico não se importou, pois também não era do tipo que comia tudo que via pela frente à essas horas da manhã, embora seus motivos para fazê-lo sejam diferentes dos do anticristo.
Ele tomou um gole de chá para acalmar os nervos e, em seguida, tomou um dos biscoitos em mãos para quebrar o jejum, e quase perdeu completamente o controle de si ao colocá-lo na boca.
Por um segundo, ele esqueceu completamente as regras de etiqueta que lhe foram ensinadas há tantos anos, estufava a boca com o máximo de comida que conseguia antes de tomar grandes goles do chá para engolir, parecendo um verdadeiro animal. Estava tudo simplesmente tão bom que ele não conseguia se conter. Parecia que não havia comido nada nos últimos dez anos de sua vida e agora foi apresentado à um banquete com tudo aquilo que mais gostava — embora, na vida real, não passasse de um simples pão com geleia, chá e biscoitos, a coisa mais básica para um café da manhã.
— Isso está tão bom! — disse sonhador com a boca cheia, rapidamente voltando a enfiar tudo na boca.
Deglutindo o pedaço de pão em sua boca, Damien riu com a bobeira do garoto britânico.
— Que bom que gostou tanto assim.
A ficha pareceu finalmente cair para Pip ao arregalar os olhos e apressar-se a engolir a comida e ajeitar as mãos por cima das coxas. Ele deu um sorriso bobo e uma risada nervosa.
— Perdão pela minha falta de etiqueta. — desculpou-se com um sorriso. — É que estava simplesmente tão bom.
Damien não conteve o sorriso de tomar seus lábios, sequer se esforçou. Deus, ele era simplesmente adorável e ele estava caindo rápido.
— Quer mais? — perguntou, esticando a bandeja com biscoitos em sua direção, ou melhor, levitando a bandeja com biscoitos em sua direção.
— Por favor. — respondeu com um sorriso, dessa vez comendo com mais calma.
Durante o tempo que se seguiu e Pip concentrou-se inteiramente na comida que tinha em mãos, como se nunca tivesse sentido gosto antes, os olhos carmim do anticristo não desviaram por um único segundo dele, não conseguia. Sem seu casaco, Pip vestia apenas sua blusa branca de mangas cumpridas e uma calça preta comprida que Damien havia lhe emprestado na noite passada. O lembrava vagamente de roupas casuais de filmes de época, geralmente datando a antiga Inglaterra, o que fazia sentido, afinal, Pip era inglês. O cabelo loiro caía ternamente por sua faceta suave, levemente desorganizado por ter acabado de acordar, mas reluzente ainda assim. E seus olhos… Por Satã, ele podia passar o dia inteiro admirando o profundo brilho azul que tanto atraía o carmim dos seus próprios. Sua aura radiante praticamente o arrastava para si como mariposas para a lâmpada; isso ele assumia que vinha por parte de pai, pois demônios e criaturas infernais eram naturalmente atraídas por almas puras e inocentes. E, céus, como aquela alma o atraía; não de um jeito ruim, pois, depois de tudo que passou em seus anos de aprendizado, conhecia seu dever em não tocar em uma única alma daquele plano terreno. Ele não desejava clamar aquela alma ou arrastá-la para o inferno — ao menos, não conscientemente — aliás, quanto mais distante Pip pudesse ficar do inferno, melhor seria para ele. Era uma realidade não muito apelativa, mas era o melhor.
Encarando o britânico, não passou despercebido para ele a forma como suas bochechas eram mais vazias que as de seus colegas. O detalhe não chegava a destacar-se da mesma forma como as roupas que usava, por exemplo, mas era algo que estava presente, uma característica sua, e, pensando nas condições para tal, Damien franziu o cenho.
— Você não come direito.
Pip engoliu a comida e encarou o anticristo de soslaio, levemente confuso.
— Perdão?
— Eu disse que você não come direito.
Colocando as mãos de volta no colo, o britânico desviou o olhar, ocultando-o entre as mechas loiras. Não era uma pergunta, mas uma afirmação. Damien não estava esperando que ele contestasse, sequer procurava algum tipo de resposta, também não estava se referindo à seus modos e etiqueta a mesa.
Autoconsciente, Pip levou uma mão à bochecha direita, mantendo o olhar baixo.
— Suponho que eu tenha, sim, um problema de alimentação. — murmurou, sentindo a parte mais côncava da bochecha afundar debaixo de seus dedos indicador e médio. — Mas é mais que o suficiente para me manter de pé. — completou, otimista. Pip sempre tentava ver o lado positivo das coisas, pois acreditava que não conquistaria nada sendo sempre tão negativo.
— Mas não chega nem perto do mínimo pra te manter saudável. — Damien, no entanto, preferia ser mais realista. Ele não estava gostando nada daquela situação.
Pip abriu a boca para falar algo a mais, mas, no fim, resolveu calar-se. Já tinha estragado as coisas com Damien o suficiente por uma semana inteira, não precisava piorar a situação. Acomodou as mãos no colo e olhou para a frente, evitando cruzar o olhar com o anticristo. Ele não negava que sua alimentação era ruim, mas não se sentia em posição de ditar à sua prima a forma como comandava as coisas na casa dela. Além do mais, as coisas sempre foram assim, e realmente não o incomodava muito; ele já tinha aprendido a viver com o estômago pela metade. Às vezes doía, às vezes ele se irritava, às vezes suas feridas demoravam mais para sumir, às vezes ele queria sumir, mas estava tudo bem. Ele já estava acostumado.
Não significava que os outros haviam de aprovar a forma como vivia.
Estremeceu ao sentir a ponta dos dedos de Damien erguerem seu queixo e virá-lo em sua direção, forçando seus olhos a se encontrarem mais uma vez.
— Suas bochechas são muito vazias. Até mesmo para os fenótipos europeus. — observou com olhos estreitos. Pip ficou quieto. — … Sabe cozinhar? Tem dinheiro pra pedir comida pelo menos? — para as duas perguntas, o britânico negou com a cabeça. O anticristo tentou ao máximo ser complacente, mas Pip realmente não estava facilitando as coisas pra ele. — Isso explica porque você é tão pequeno, magro e leve pra sua idade. — ponderou em voz baixa, mais para si mesmo do que para o britânico. — Vai fazer dezenove, não? Você realmente não devia estar tão leve com essa idade.
— Por favor, para.
Pip quebrou a troca de olhares e voltou a focar no próprio colo, criando um silêncio incômodo entre ele e o anticristo, o qual também hesitou em continuar a falar. O carmim desviou de suas bochechas para onde as mãos repousavam, dando atenção especial às faixas usadas que escondiam suas feridas. Seu olhar amoleceu, e, com a maior delicadeza em suas mãos, lentamente deslizou os dedos entre os do loiro. Ele puxou o braço em sua direção, tendo pleno conhecimento do par de pérolas azuis que seguiam seus movimentos, e gentilmente acariciou a pele machucada.
— Isso poderia te matar. — o britânico não disse nada, porém ficou claro pelo reflexo em seus olhos que ele estava prestando atenção mais do que o suficiente nas coisas que saíam da boca de Damien. Envolvendo sua mão nas dele, o anticristo apertou-a com uma pegada firme, mas não forte o bastante para machucar. Levou a palma aos lábios, encostando-a pouco abaixo de seu nariz e, exalando o ar trêmulo, acariciou-lhe os dedos. — Eu não quero que você morra.
O ar pareceu faltar nos pulmões do britânico e tinha quase certeza de que seu coração parou por um milésimo de segundo. Isso era algo com o que ele realmente não estava acostumado. Era doloroso e acolhedor ao mesmo tempo, e, céus, ele não podia evitar de derreter e se entregar por completo às sensações que as palavras de Damien causavam em seu peito.
Um sorriso triste formou-se em seus lábios.
Você deve ser o primeiro.
— Fico feliz em saber. — disse em um sussurro, retribuindo as carícias na mão do anticristo.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Damien se ergueu de seu assento, ainda com a mão do britânico entre suas palmas e puxou seu rosto contra seu peito, envolvendo-o em um abraço.
Por estar com as mãos presas em seu peito, o loiro não pôde retribuir, mas a forma como seu corpo relaxou contra o calor do anticristo era sinal o suficiente para dizer que o contato era bem-vindo.
Damien gentilmente pressionou os lábios no topo de sua cabeça e aninhou-o em seus braços, puxando-o para seus pés e erguendo-o do chão para seu colo.
— Precisamos trocar esses curativos. — justificou-se, encarando o menor em seus braços pelo canto do olho.
Ao vê-lo assentir e relaxar, fez seu caminho até o banheiro. Sentou-o no vaso tampado e tirou as faixas de dentro do armário, onde ele guardava o kit de primeiros-socorros.
Trocar as faixas foi fácil, especialmente considerando que Pip não tinha muitos pelos no braço. Também porque ele não ofereceu resistência e, pela primeira vez, deixou Damien fazer seu trabalho direito e se encarregar de todas as feridas que precisavam de atenção. Aquela talvez fosse a primeira vez.
— Por que você é assim? — Damien perguntara ao terminar de enfaixar a primeira camada de feridas, mais próximas do cotovelo do britânico.
Pip ergueu o olhar do próprio braço e arqueou a sobrancelha.
— Assim como?
O anticristo grunhiu baixo, não por estresse ou qualquer coisa que ele tenha feito, mas sim pelo impasse de não tornar a situação incômoda da mesma forma que estava na cozinha. Ele não queria deixar Pip mais desconfortável do que ele já estava, mas, com a oportunidade de esclarecer tudo em mãos, não podia deixar passar.
Suspirou e, cortando a segunda camada de faixas usadas, continuou:
— Vive recusando ajuda quando claramente precisa. — ergueu o olhar brevemente, sem levantar a cabeça. — Você sabe que não está fazendo um favor pra ninguém assim, não sabe?
O britânico mordiscou o lábio inferior e gemeu ao sentir a faixa suja deixando sua pele, eriçando seus pelos ao descolar-se das feridas ainda não cicatrizadas.
— Eu sei… — disse de cabeça baixa.
— Então por que nega?
Pip observava as faixas moverem-se em círculos ao redor de seu braço, aos poucos ocultando a pele abusada e cheia de hematomas de sua vista, substituída por uma fina camada de tecido branco que logo perderia a cor. Na sua cabeça, não fazia sentido. Para que enfaixar quando logo teria que descartar novamente?
— Eu não sei. Eu só sou assim. Não quero ser um estorvo pra ninguém. Não tem nenhum motivo a mais. Eu sinto que estou atrasando as pessoas quando peço ajuda para coisas com as quais consigo lidar sozinho.
Ele estava sendo sincero dessa vez. Não havia uma vírgula de mentira ali. Com todo o tempo que ele teve para se acostumar à ideia de nenhuma alma viva se importando com sua existência ou simplesmente desejando sua morte, conseguiu aprender praticamente tudo que precisava para sobreviver nas condições em que foi colocado por tantos anos.
Além de que não é como se alguém viesse ao seu auxílio caso pedisse ajuda.
Ao não ouvir nenhuma resposta de Damien, entrelaçou suas mãos no próprio colo e pressionou os lábios em uma fina linha, seus olhos concentrando-se mais em suas ataduras do que deveriam.
— Acho que também estou um tanto mal acostumado. — suspirou. — Como disse: todos me odeiam. Não estou acostumado com pessoas se importando comigo.
Ouvi-lo falar sobre isso várias vezes não devia continuar doendo tanto quanto ainda doía. Mas doía. Muito.
— E o tal Wallace? — resolveu perguntar, hesitante.
Pip permaneceu calado por alguns instantes, coletando seus pensamentos dispersos. O anticristo começou a se arrepender de ter continuado no assunto ao ver o britânico encolher com os braços ao redor de si, defensivo.
— Isso foi há muitos anos atrás, Damien. Eu não o vejo desde os meus nove anos. Sequer sei se ele se lembra de mim.
A realidade quanto àquela história é que, de todos, Wallace era quem o tratava menos pior. Ainda tinham suas desavenças de vez em quando, como todo relacionamento normal e humano, mas ele sempre o tratou bem, nunca dizendo como era inútil e uma pedra no sapato de todo mundo que colocava os olhos nele. Pip preferia pensar que ele realmente se importava com ele ao invés de imaginar que sentia apenas pena. Pena do pobre órfão britânico que sempre se metia em encrenca atrás de encrenca, mesmo quando não fazia nada, que sempre era espancado de graça e nunca era defendido por ninguém.
Mas, claro, o tempo alcançava a todos. E, depois de quase onze anos, não seria Pip que sobreviveria à ele. Não o britânico inútil, bom pra nada e saco de pancadas que todos odiavam.
Damien conseguia praticamente sentir nas costas o peso que aquele assunto tinha para o britânico. Devia realmente ser muito difícil de falar sobre sua utilidade em um mundo onde a única certeza que se tem é a morte. No caso de Pip, quando o universo parece estar — e provavelmente está mesmo — contra você, devia ser ainda pior. Ele podia apenas imaginar como era passar pelas coisas que ele passava em uma frequência diária.
Suas feridas eram feias, dolorosas e profundas, mas não eram incuráveis. Elas só precisavam de um pouco de amor.
Damien dedilhou a superfície limpa das faixas, como se tentasse ler algo escrito em braile. Aquilo levaria um certo tempo para cicatrizar, com certeza, mas, assim como ele tinha a capacidade de machucar, o tempo também pode curar.
— Me fala uma comida, qualquer coisa que gostar. Apenas me diga e eu farei para comermos no almoço.
Pip hesitou por um segundo, absorvendo a informação. O pedido de Damien era muito mais do que a superfície podia mostrar. Era, primeiro de tudo, um pedido para que ele ficasse. Ele queria passar mais tempo com ele.
O pensamento fez o rosto do britânico esquentar, suas bochechas tingidas de um vermelho tão claro que mal dava para ver.
Segundo, e talvez o que mais chamou sua atenção, era uma oferta de ajuda, apesar de que essa parte não o devia ter surpreendido tanto quanto o fez. Em meio à escuridão em que ele mergulhava, Damien o estava estendendo a mão para tirá-lo de lá. Pip desconhecia a razão, mas ele queria ajudá-lo.
Deus, ele devia demais à ele, não devia?
Ignorando a conversa e o clima estranho que a mesma tinha deixado, Pip sorriu com o canto da boca.
— Preciso pensar. Depois eu te falo. Além do que, ainda são oito da manhã.
— Nove. — corrigiu Damien. — Mais precisamente nove e dois.
O britânico arregalou os olhos.
— Mas já? Que rápido!
O anticristo riu baixo com o espanto nos olhos de Pip. Ele se impressionava com as coisas mais bobas. Bom, Damien escolheria isso à vê-lo triste a qualquer hora do dia.
Pip ergueu-se do vaso, curativos novinhos em folha, e acompanhou Damien até a sala, onde um bule com chá fervendo e duas xícaras o aguardavam.
— Agora eu tenho que trabalhar, mas você se importa de ficar por mais algumas horas? — perguntou o anticristo ao pegar o livro negro de dentro de uma gaveta.
Em resposta, o britânico sorriu e negou com a cabeça.
— De forma alguma. Preciso mesmo fazer a lição que perdi do primeiro período.
Em comunhão, os dois coletaram seus materiais e foram para o sofá para terminarem suas respectivas tarefas.
As horas pareceram voar, apenas o som de lápis correndo pelo papel branco sendo ouvido. Eles não trocavam palavras, não mais do que Damien respondendo às dúvidas de Pip quanto à matéria; deixavam o silêncio os aconchegar naquele ambiente confortável e caseiro. Antes que percebessem, já era quase meio dia, hora do almoço, e Pip ainda não havia decidido o que queria comer.
O som de Damien fechando o livro o assustou, fazendo-o pular com o impacto.
— Já decidiu o que vai querer? — o anticristo perguntou enquanto se erguia para guardar o livro.
Pip sentia-se bobo por não ter pensado em nada, mesmo depois de já ter terminado a lição e focado apenas nos exercícios. Ele teve tantas horas para pensar em algo tão ridículo como sua comida favorita e nem isso ele conseguiu fazer. Era um cabeça de vento.
— Qualquer coisa está bom. — disse com um sorriso. — Eu não sou muito seletivo com comida. — e se fosse seria um idiota.
Por sorte, o anticristo não percebeu o vacilo por trás da falsa humildade de Pip e simplesmente dispensou o britânico com um dar de ombros. Também não percebeu o suspiro aliviado quando se mandou para a cozinha.
Damien não era o melhor dos cozinheiros, ou era o que ele dizia para si mesmo. Sendo um demônio, não tinha realmente muita necessidade de comer, fazia mais por rotina que por obrigação, apesar de seu lado humano sim requisitar comida de vez em quando. Cozinhar funcionava como um hobby para si do que uma necessidade, e ele gostava de provar da própria comida; apenas julgava existirem cozinheiros melhores.
Enquanto o anticristo estava na cozinha, Pip resolveu tirar um livro da mochila. Já que já tinha terminado toda a lição de casa, podia aproveitar o tempo para continuar lendo o livro que pertencera à sua irmã. “Great Expectations” era o nome do livro, e, até onde o britânico tinha lido, era bem interessante. Ele se encontrava perdido entre as páginas e a história, como se estivesse dentro do livro, perdendo horas e horas na trama e conflitos dos personagens, o que também foi o caso aqui, pois mal percebeu o tempo passar, tão vidrado nas páginas, e, no que pareceu um piscar de olhos, Damien saiu da cozinha para chamá-lo para o almoço.
Marcou a página em que estava e deixou o livro de lado, acompanhando o anticristo para o outro cômodo. Na mesa, nada que Pip julgasse fora de um almoço comum: arroz e frango, acompanhados de salada e suco de laranja. Da mesma forma, estava tudo apresentado de uma forma tão caseira e aconchegante que parecia até chique. Talvez fosse pelo fato de Pip nunca ter um almoço normal, sempre deixado de lado enquanto sua prima cuidava dos próprios assuntos. Seus almoços eram solitários.
Sentaram-se à mesa, cara a cara, e puseram-se a comer em silêncio, trocando apenas alguns comentários aqui e ali sobre a comida ou qualquer coisa que estivesse em suas mentes na hora. A comida estava uma delícia, tanto que Pip repetiu o prato duas vezes, pedindo a permissão de Damien, é claro. A esse ponto, o anticristo estava em uma posição na qual nem se atreveria a pensar em negar comida ao britânico.
Uma coisa que o chamou a atenção, quando já tinha terminado de comer e esperava por Pip, foi como ele começou a comer devagar depois de um tempo. A princípio pensou que ele estava sem fome, mas não julgava o britânico como sendo daqueles que para de comer faltando apenas uma ou duas garfadas para terminar — um desperdício de comida, sinceramente.
— Não vai terminar? — perguntou, gesticulando para o prato com a cabeça. — Pra quem estava com tanta fome há alguns minutos atrás, você encheu bem rápido.
O britânico sorriu de canto e desviou o olhar, constrangido. Ele não estava sem fome, apenas resistente em terminar. Ele não queria ter que ir embora tão cedo. No fim, Pip não disse nada e continuou comendo, terminando a refeição silenciosamente.
Damien retirou a louça e negou a oferta de Pip para ajudar a lavar, tomando toda a tarefa em suas mãos. Dispensou o britânico para a sala para que pudesse voltar ao seu livro e voltou a atenção para a louça, ouvindo vagamente o som das páginas sendo viradas na sala.
A tarefa em si foi cumprida rapidamente, mas, quando Damien voltou à sala, percebeu Pip um tanto mais cabisbaixo que anteriormente, e não era por causa do livro, pois ele já o estava guardando na mochila.
— Por que você está guardando tudo? Achei que fosse ler mais. — disse o anticristo, parando ao lado do britânico.
Pip abaixou o olhar.
— Já são quase duas horas. — ele disse. — Achei que seria melhor ir andando.
Ele realmente não queria ir agora, gostava da companhia do anticristo, por mais estranho que isso possa soar. Ele não queria ter que voltar para sua casa, onde ficava sozinho o dia todo e sem poder fazer qualquer outra coisa que não fosse tarefas ou seja lá o que sua prima exigisse dele. Ele gostava de ter companhia, gostava de se sentir querido, sendo ele e Damien amigos ou qualquer outra coisa. Céus, ele tinha ficado mal-acostumado.
Damien não estava muito melhor neste aspecto. Estando na terra apenas para seu trabalho, estava destinado a se sentir solitário uma hora ou outra. Pip era o equilíbrio perfeito entre um e outro. Ele precisava de silêncio para se trabalhar, e Pip também precisava de paz para fazer as próprias tarefas; tê-lo ao seu lado seria unir o útil ao agradável. E ele simplesmente gostava de estar perto de Pip, ele tinha uma aura tranquila e reconfortante, bem diferente do que ele se acostumou no inferno.
— Você não tem que ir agora se não quiser. — o anticristo disse, seu olhar suavizando. — Podemos continuar o encontro de ontem, já que tivemos alguns contratempos.
Pip deliberadamente deixou as lembranças da noite anterior passar por debaixo do radar e não conseguiu conter o sorriso que surgiu em seus lábios.
Ele já estava em roupas de casa mesmo, podia muito bem continuar por algumas horas.
— Seria legal poder fazer as coisas direito dessa vez. Se você não se importar que eu fique um pouco mais…
Ele podia ficar 6.000 anos e Damien não se incomodaria de forma alguma.
— Claro que não. — sorriu. Pip nunca tinha percebido o quanto o sorriso de Damien era bonito. — O que você quer fazer?
— Eu não sei. — o britânico deu de ombros. — Não sou muito criativo. Talvez assistir um filme?
Agora o anticristo quem deu de ombros.
— Pode ser. O que quer assistir?
Eles decidiram assistir “Orgulho e preconceito”. Um filme de época, ultrapassado, mas que ainda era muito interessante de assistir.
Não que eles tenham se concentrado tanto nas imagens passando pela tela para aproveitar.
Damien estava tendo incríveis dificuldades em concentrar-se no filme com Pip encostado em seu ombro e seus dedos entrelaçados. Não sabia quando isso aconteceu ou porque isso o estava deixando nervoso agora quando no cinema não foi assim, mas a verdade é que estava e ele não estava sabendo como lidar.
Lentamente e com movimentos circulares, acariciava a pele macia debaixo de seu polegar, sentindo-a aquecer com o calor compartilhado. Trouxe a mão aos lábios e, capturando o olhar curioso do loiro, trilhou beijos por seus dedos, um a um.
Pip sorriu, contraindo os dedos ao seu toque. Suas bochechas queimaram mais forte dessa vez, acompanhadas dos batimentos fortes e rítmicos de seu coração.
Damien tinha uma facilidade tão grande de mexer com ele que lhe impressionava que teria passado apenas uma semana e pouco desde que se encontraram novamente. Talvez fosse seu charme ou a forma que ele o encarava que o fazia se sentir desejado, algo que ele raramente sentia em seu dia a dia, ou o carinho com que ele fazia questão de tratá-lo desde que chegou na cidade, contrastando fortemente com o Damien que Pip conhecera no terceiro ano do ensino fundamental, mas tinha algo nele que o puxava em sua direção, como um imã. Ele não sabia o que era, mas conseguiu agarrar-se nele de um jeito que já não deixava nenhuma esperança de se soltar, não que Pip quisesse, de qualquer forma.
Num impulso, decidiu tomar partida e, ternamente, beijou-lhe a bochecha. Não achava justo que fosse sempre Damien a dar o primeiro passo, o único a colocar algum esforço em seja lá o que que estava se desenrolando entre eles. Certamente ele também apreciaria um pouco de atenção, não?
A julgar pela forma como o anticristo foi rápido em clamar seus lábios para si, sim, estava correto.
Pip sentiu-se rapidamente cedendo aos avanços do anticristo ao ter sua cintura rodeada por seus braços, puxando-o mais próximo de si e aprofundando o beijo. Damien era tão bom nisso que parecia até que já tinha feito milhões de vezes, fazia Pip ficar autoconsciente sobre a própria capacidade. Sua falta de experiência no assunto era um estorvo naquela situação, pois ele não se sentia no controle das próprias ações e temia estar fazendo algo errado. Damien o tinha elogiado após seu primeiro beijo, porém ele não sentia confiança em si mesmo — afinal, nunca tinha feito isso antes. Como poderia?
Seus lábios fizeram um estalo ao apartar-se de Damien, a sensação do contato ainda perceptível em sua pele. Suas bochechas queimavam como fogo, e ele percebeu a mesma coloração nas bochechas do anticristo, que, mais pálido que ele, não tinha realmente como esconder.
Pip poderia facilmente perder-se em seus olhos carmim, assim como o azul de seus próprios enfeitiçava Damien e o colocava em um transe. Era natural que demônios fossem atraídos por almas puras, assim como era natural que humanos tivessem uma curiosidade e um desejo de entender aquilo que não podiam; era uma força que afetava a ambos, criando laços que dificilmente seriam quebrados.
Com um terno sorriso, Pip selou seus lábios novamente, sendo retribuído com rapidez. Os braços em sua cintura apertaram-no possessivamente, e o britânico podia sentir seu peito encostado no de Damien, seus corpos praticamente colados. Não era uma sensação ruim, longe disso, era como um abraço, uma fonte de calor que o aquecia por inteiro. Ele queria se afogar nesse calor, enrolar-se nele como um cobertor e não sair nunca mais.
Um gemido baixo escapou de seus lábios ao tê-los apartados pela língua de Damien, que deslizava com maestria sobre a sua em uma dança eufórica, ao mesmo tempo que relaxante. Sem saber muito o que fazer, optou por copiar os movimentos do anticristo, visto que era a única opção boa que tinha, e tomou o grunhido que escapou de Damien como um bom sinal.
As respirações estavam visivelmente mais pesadas quando se separaram pela segunda vez, e Pip estava bem mais aéreo. Sentiu falta do contato no mesmo segundo que se separaram para respirar. Aquele contato e sensações eram tão viciantes, não podia resistir.
Damien acariciou ternamente sua bochecha, provocando outro sorriso em seu rosto. Céus, o que ele não daria para ver aquele sorriso maravilhoso todos os dias. Ele estava caindo tão rápido que se não parasse logo ia estourar a cara no chão. Soltando um suspiro, encostou a cabeça no ombro do britânico, sorrindo ao sentir seus dedos gelados acariciarem seus cabelos negros.
— Damien. — ele chamou-o de repente.
— Esse é meu nome.
Pip mordeu o lábio inferior, tentando contei o nervosismo que aquele pensamento o trazia.
— O que exatamente nós somos?
Damien ponderou. O que eles eram? Até algum tempo atrás, não eram nem amigos. A últimas vez que tinham se falado foi no terceiro ano, e não saíram de lá em bons termos. Agora, dez anos depois, agiam como se tudo que aconteceu naquela época nunca tivesse acontecido, como se fossem pessoas completamente diferentes. E, de fato, eram. Os dois mudaram muito desde que eram pequenos, o meio os acompanhando a cada passo do caminho, já não eram as mesmas pessoas de antes. Se reconectaram há pouco tempo, pouco mais de uma semana, não tinha como a cena presente se desenrolar em tão pouco tempo, quando mal tiveram tempo de descobrir a pessoa que sentava ao seu lado.
Mas não é exatamente para isso que encontros servem?
Não ajudava que Damien desconhecesse sobre relacionamentos amorosos. Desde criança, já tinha dificuldade para se encaixar por si só, quem dirá como funciona um namoro.
— Me diga você. — ele respondeu com um dar de ombros. — Eu não conheço muito dos rituais de relacionamento humano fora o básico: lealdade, traição e sexo. Eu recebi uma educação um tanto quanto pobre nessa parte.
— Entendo… — Pip divagou, concentrando a mente apenas nos movimentos de seus dedos nos cabelos de Damien, que eram bem macios, por sinal.
Os lábios do anticristo se estreitaram com a resposta vaga, e seus olhos encararam o britânico pelo melhor ângulo que conseguiam. Ele parecia angustiado.
— Você quer que a gente namore?
Por algum motivo, a pergunta fez Pip estremecer, seus dedos cessando os movimentos nos cabelos de Damien.
O que ele queria? Nunca teve realmente muita oportunidade de pensar nisso, considerando que seu dia a dia estava sempre fora de seu controle. A decisão de morar nos Estados Unidos não foi sua. A decisão de morar com sua prima não foi sua. A decisão de estudar em South Park não foi sua. Nada do que aconteceu em sua vida foi decisão sua, nunca era. Sua realidade e a forma como tudo se moldava ao seu redor estava além de seu controle, e não foi por falta de querer que Pip desistiu de tentar tomar as rédeas da própria vida. Ele tentou, outra e outra vez, mas nada parecia dar certo. Entrou em provocações junto de seus colegas para caçoar de outros colegas em várias ocasiões, diversas tentativas de se encaixar e conseguir se adaptar àquele lugar estranho, mas ele não só se sentiu mal consigo mesmo por prejudicar os outros, como nenhuma de suas tentativas deu certo — uma vez, inclusive, foi recebido com uma pedrada no rosto. Independentemente do que Pip fazia, as coisas jamais seguiam o rumo que ele previa, até mesmo quando tentava a mesma dança que os demais. Era como se ele estivesse fadado a fracassar, não importa o que fizesse.
Querer não é poder, muitos diziam, e não podia ser mais verdade para Pip. Ele podia tentar o que for, mas era praticamente regra universal que jamais conseguia o que queria, fosse chegar às primeiras aulas intacto ou o simples direito de tomar uma xícara de chá ao chegar em casa.
Ao menos, foi assim até agora.
O loiro engoliu em seco, seus olhos azuis grudados no carmim de Damien, sem saber o que dizer. Ele admitiria: estava nervoso, não queria se machucar. Pip nunca esteve em um relacionamento antes, nunca se abriu para alguém daquela forma. Era um dos únicos pedaços de si que ninguém conseguiu quebrar. E depois do que aconteceu com Trent e sua gangue, ele soube que não queria sentir aquilo, a dor de uma traição, nunca mais. Era mais do que ele conseguia aguentar, e não foi a primeira vez que passou por isso; a diferença é que agora, aos dezenove anos, ele já estava cansado.
Mas ele queria tanto. Ele olhava nos olhos de Damien e sabia que daria de tudo para afogar em seu carmim reluzente e sentir o calor de seus braços ao seu redor. Por Deus, ele estava faminto por atenção, e finalmente tinha encontrado alguém diferente de todos os outros naquela cidade da montanha, alguém bom — mesmo que essa pessoa fosse, ironicamente, o anticristo. Ele queria amar e ser amado em retorno, mesmo que fosse por um momento efêmero, pois sabia que jamais conseguiria a mesma oportunidade novamente.
E ele conhecia Damien. Podem não ter passado mais que uma semana juntos quando crianças e apenas um pouco mais que isso atualmente, mas, apesar das mudanças, era como se eles nunca tivessem se separado de fato. Damien era a única pessoa que tratava Pip como um semelhante, e não como alguém apenas para ser usado como saco de pancadas, independentemente da aprovação ou não dos outros. De todas as pessoas naquela cidade, se tivesse alguém em quem o britânico tivesse que confiar sua vida, seria ele.
Um sorriso tímido se expressou em seus lábios e o anticristo não falhou em perceber o brilho em seus olhos.
— Se você estiver disposto, creio que gostaria de tentar. — disse, tentando manter uma expressão fixa em seu rosto.
Damien quase suspirou de alívio, mas conteve-se nos últimos segundos, substituindo o ar por um sorriso de canto.
— Pois bem, então aí está sua resposta. — o anticristo murmurou, virando-se para ficar mais confortável naquela posição e depositando suaves beijos no pescoço de Pip, sua pele aquecendo sob seu toque e um suspiro escapando se seus lábios. Damien ergueu o olhar e, acariciando suas costas com a palma da mão, expandiu o sorriso com carinho. — Estamos namorando.
Pip mal pôde se conter em abraçar o anticristo, sorriso de orelha à orelha, enquanto seus lábios atacavam sua pele com beijos, rapidamente subindo por seu pescoço até voltar aos seus lábios.
Ele precisava disso, ansiava por isso. Podia finalmente receber o amor e o carinho com os quais sempre sonhou. Damien era tão atencioso e delicado, seus dedos o percorriam como se ele fosse uma joia preciosa, traçava e mapeava todo o caminho por suas costas até o pescoço, onde se entrelaçavam aos cabelos curtos em sua nuca. Seus lábios eram quentes contra os seus, mordendo e chupando e tocando cada pedacinho que conseguiam alcançar, apartando seus lábios com a língua que foi de encontro com a sua, arrepiando-o por inteiro. Ele queria se perder naquelas doces sensações para sempre.
Eles só pararam quando Damien começou a deslizar a mão por seu braço, parando bem acima de seus machucados. Ele puxou os próprios lábios de volta para si, ternamente acariciando a bochecha de Pip com a outra mão. Deus, o que ele não daria para tê-lo eternamente para si. Estava ficando cada vez mais difícil se conter e não avançar para cima do britânico, especialmente quando ele era tão bom no que fazia com a boca. Os suspiros baixos e pequenos gemidos que ele soltava durante os beijos também não eram de muita ajuda para o autocontrole de Damien, que, até mesmo agora, só conseguia pensar no quanto desejava aquele homem à sua frente. Seus beijos eram tão intoxicastes, ele não tinha como resistir.
— Você tem certeza de que nunca beijou alguém antes? — perguntou, sem fôlego. — Não tem como você ser tão bom logo na primeira tentativa.
Pip corou e negou com a cabeça. De fato, ele nunca tinha beijado ninguém na vida, ao menos, não da forma que ele e Damien estavam fazendo. O máximo foi aquele beijo que aquela garota estranha o deu quando estavam no terceiro ano, mas ele não contava, já que não durou mais que três segundos.
O britânico arfou ao sentir Damien o puxando pelos ombros, encostando sua cabeça em seu peito e se voltando para a televisão, a fim de continuarem assistindo o filme. Seus dedos acariciavam sua nuca, entrando e saindo dos chumaços de cabelo que ele tinha. Era tão bom.
Apoiando-se em seus cotovelos, Pip encaixou a palma das mãos nas bochechas de Damien e puxou seus lábios para si, sentindo uma mão subindo por sua nuca e prendendo seus fios loiros entre seus dedos enquanto a outra trilhava sua coluna.
O som do filme foi ficando cada vez mais insignificante em sua mente conforme a língua de Damien se entrelaçava à sua. Pip podia sentir os lábios ficando entorpecidos, cansados com o movimento e atenção que o anticristo os dava. Mas não parava, seria tolo de fazê-lo. Ele podia apenas rezar por sua sanidade ao entregar-se ao filho do diabo.
A risada do britânico ao apartarem os lábios era como música para os ouvidos de Damien. O brilho em seus olhos e aquele sorriso, tão terno em seus lábios, eram como presentes divinos, e ele era a criatura mais sortuda em todos os três planos por ser o único a poder testemunhá-lo.
Mantendo o sorriso nos lábios, Pip recostou a cabeça no ombro de Damien, escondendo o rosto na curva de seu pescoço em um afago enquanto voltavam a assistir o filme. Podia sentir as mãos do anticristo envolverem sua cintura, transmitirem calor, aninhando-o em seu peito.
Pip podia ficar ali o dia todo, apenas aproveitando de toda a atenção que seu novo namorado estava disposto a oferecer. Infelizmente, isso não seria possível, pois, após um dia inteiro fora de casa, sua prima com certeza notaria sua ausência. Por mais que, para ela, o britânico fosse nada mais que um estorvo, ainda era ele quem fazia quase tudo na casa; que lhe trazia chá, que perambulava de um lado ao outro para tirar o ar de morte do lugar, que cuidava da louça e limpava a sujeira que ela propositalmente deixava para trás, apenas para colocá-lo abaixo dela. E, quando ela percebesse que seu pequeno mordomo estava tardando mais do que deveria para iniciar as tarefas, sairia a sua procura, possivelmente fazendo uma cena e humilhando-o em frente à todos os seus colegas, mais do que já era humilhado diariamente.
Assim que o filme acabou, Damien ajudou Pip a arrumar suas coisas e o acompanhou até a porta, lascando-lhe um beijo nos lábios em cima do capacho.
— Tem certeza de que consegue chegar bem em casa? — perguntou, seus olhos brilhando em preocupação. — Não quer que eu te acompanhe?
Damien era um amor de pessoa. Deus, Pip não ia aguentar.
— Não precisa, está tudo bem.
Compartillharam de um abraço apertado e Pip pôs-se a caminhar duas ruas abaixo, sem perceber a falta de uma boina em sua cabeça.
Mais uma vez, ele se encontrou aéreo na volta para casa. Sua mente constantemente divagando para aquele misto de sensações viciantes e incríveis que Damien o proporcionara com tanto louvor. Ele mal processou a caminhada para casa, chegando até mais cedo do que poderia ser considerado costume. Por pouco os gritos de Lorraine também não passaram despercebidos.
— Pip! Onde demônios você esteve? — gritou ao ouvir a porta dos fundos bater. O loiro, a princípio, não respondeu, olhos fixos nos próprios sapatos enquanto estes, com vida própria, o guiavam para dentro da casa bagunçada. — Pip!
O loiro então ergueu a cabeça, seu sorriso desmanchando-se por dois segundos antes de regressar como se nunca tivesse deixado seu posto.
— Oh. Eu estava fora.
A loira ergueu-se do sofá e caminhou em sua direção, mãos no quadril.
— Eu entendi isso, idiota. Perguntei onde você estava.
Como se ela nem estivesse lá em primeiro lugar, desviou dela e trotou até o pé da escada.
— Ah… Com um amigo.
De alguma forma, ocultar a verdade na cara dura daquela forma se mostrou muito divertido.
— E por que está desse jeito?
— Desse jeito como? — ele questionou com rapidez, temendo ter dado muito na cara.
Lorraine revirou os olhos, detestava aquela cara de inocente que Pip vivia exibindo no rosto.
— Sorrindo igual um idiota.
— Oh… Por nada! Só estou feliz, só isso.
É claro que estava, como não estaria? Não é como se o britânico se esforçasse de alguma forma para esconder o que se passava em sua cabeça. Mas é claro que Lorraine não via isso. Para sua sorte.
— Imbecil. Deixe seus trapos no quarto e vá fazer o chá!
Pip sorriu.
— Right-o!
Passos apressados seguiram para o quarto e ele bateu a porta após entrar. Soltando a mochila, deslizou com as costas pela madeira até cair de bunda no chão. Seu sorriso estava plastificado em seu rosto.
Ele não conseguia parar de pensar em Damien. Ainda conseguia sentir o sabor de seus beijos, o fantasma de suas mãos percorrendo seu corpo, mapeando sua pele e cicatrizes em sua memória, arrepiando cada pontinha de seu corpo com seus toques tão delicados e atenciosos.
Pip mal conseguia conter as lágrimas que ameaçavam correr por seus olhos. Seu coração batia forte em seu peito e seus nervos estavam a todo o vapor. Seus dedos trilharam delicadamente a superfície de seus lábios, quase como se pudesse reviver aquele contato angelical mais uma vez
Pip sorriu.
Pela primeira vez em todo o sempre, ele se sentia amado.
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