Darker Days
11 Devia ter sido você.
Aquele fim de semana foi eufórico, para dizer o mínimo. Ao acordarem pela manhã, envolvidos nos braços um do outro e trocando sorrisos, Pip e Damien finalmente colocaram tudo para fora. Despejaram seus corações um no outro até que não sobrasse nada a esconder. As últimas semanas foram doidas, realmente: eles se reencontraram depois de anos, voltaram a conversar, reconstruíram a amizade e até ganharam algo mais: um ao outro, entregue ao contrário por inteiro. Era algo mágico, do tipo que só se realizaria em seus sonhos mais profundos, mas ali estava: Pip nos braços de Damien, ambos sussurrando um ao outro o quão forte era o que sentiam um pelo outro. Eles estavam completamente apaixonados.
O britânico já imaginava que ter seus sentimentos correspondidos seria a sensação mais doce a preencher seu coração, mas o alívio que sentiu ao ver aquelas três palavras escorrerem pela língua de Damien foi inexplicável. Como se o quebra-cabeça de sua vida tivesse sido colocado no lugar — ao menos, o que representava sua relação com o anticristo. Ele finalmente tinha alguém para tê-lo em seus braços, para despejar-se sobre ele e ter um lugar seguro para sentir as emoções mais fortes e confiar-lhe seus maiores segredos, pois seu amor também era seu melhor e único amigo.
Pip não conseguiu largar de Damien por um único segundo naquela manhã. Até mesmo pularam o café da manhã para passar todo o tempo que podiam nos braços um do outro. O alívio era mútuo, ambos sentiam-se mais leves agora que tudo fora colocado em xeque. Não havia o que discutir, o que argumentar: eles estavam completamente caídos um pelo outro. Pip até mesmo se pegou chorando por um momento, tamanha era sua felicidade em ter o homem que amava em seus braços. Damien tinha rido de sua reação, mas beijou a trilha de lágrimas por suas bochechas mesmo assim, limpando-as com a linguagem e os lábios enquanto fazia um caminho sigiloso para os lábios do britânico.
E não foi apenas juras de amor que trocaram. A experiência daquela bela noite de sexta-feira, tão nova e única em tantos sentidos, era simplesmente deliciosa demais para ser experienciada apenas uma vez. Durante boas horas do dia, aquelas ânsias e impulsos levariam Damien e Pip exatamente para o mesmo lugar de onde saíram naquela manhã, e seus corpos se entrelaçariam um no outro, perdendo-se na bagunça de lençóis desorganizados e travesseiros amassados, um eterno prazer de arrepiar os pelos e dobrar os dedos dos pés.
Mas, ah, o anticristo jamais se cansaria de ouvir aqueles suspiros e gemidos baixos que escapavam dos lábios inchados de beijos de seu amante. Quanto mais cediam àquela tentação, àquele vício, àquela droga, mais a fome e a sede pareciam aumentar. A cada estocada, cada movimento de quadril, Damien enterrava-se mais e mais fundo em Pip, entregando ambos um ao outro, completamente expostos e abertos para aquela sensação doce e maravilhosa, que apenas os deixava ansiando por mais e mais.
As unhas de Pip percorriam as costas de Damien como se memorizassem cada centímetro que percorressem, arranhando e gravando todos os movimentos, rangidos e golpes de eletricidade com trilhas vermelhas em pele pálida. E, em retorno, Damien estava mais do que disposto a arrancar o sorriso transbordando com prazer dos lábios de Pip, clamando-lhe os lábios para si e memorizando cada canto de sua boca com a língua. Por Deus, ele queria explorar cada mínimo cantinho de seu corpo, percorrê-lo com as mãos e a boca e todo o resto até que não houvesse um milímetro dele que não conhecesse seu nome. Desde seus lábios, pescoço, mamilos, barriga até o fim de seu interior, ele queria conhecer tudo, gravar tudo, só para ele. Ele queria Pip de corpo e alma, entregue à ele da mesma forma como ele havia entregue a si mesmo há tanto tempo atrás.
O vaivém de seus corpos, o suor que os banhava a pele, os arranhões, entrelaçar de perna, mudanças de posição e puxões de cabelo que arrancavam gemidos altos e prazerosos da boca de Pip toda vez, eles nunca se cansariam de nada disso. Mais provável seja que abandonassem tudo e desaparecessem para sempre do que desistir daquele laço, a única forma de consumar e controlar o fogo que queimava incessante, impiedoso, em seus corações, consumindo-os de dentro para fora em combustão espontânea. Eles ansiaram por aquilo há tanto tempo, simplesmente não conseguiam parar. O demônio em Damien fora desperto, o qual era indomável, e Pip, em troca, apresentado a sensações completamente novas, um prazer e felicidade que ele nunca sentiu em todos os seus quase dezenove anos de vida, não havia forma alguma de parar. Não agora. Não enquanto tivessem o outro à ponta de seus dedos e os lábios tão próximos, tão doces, tão perfeitos um para o outro.
Damien não teve dificuldade ou remorso algum em chupar o sorriso dos lábios de Pip enquanto este curvava as costas e os pulmões arfavam por ar pela quinta vez naquela manhã. Seus músculos se contraíam debaixo do anticristo e a poça entre suas barrigas aumentava um pouco mais, a tremedeira arrepiando até seu último fio de cabelo e o êxtase fixando o sorriso bobo em seus lábios ao tê-los soltos e devolvidos à si. Um suspiro cansado escapou destes ao mesmo tempo em que seu corpo relaxou contra a colcha, exausto e sem qualquer mínima força restante, sua mente embaçada ainda perdendo-se no êxtase e a descarga por sua coluna.
Pip logo teve a agraciada companhia de Damien ao seu lado, seu corpo mole se retirando de cima dele após o orgasmo e repousando ao seu lado, igualmente exausto. O anticristo descartou a camisinha com um estalar de seus dedos, o plástico e o líquido desaparecendo em uma rápida combustão, e então a única coisa que precisava ter em sua mente era o anjo que repousava ao seu lado.
Seus dedos, trilhando carícias desde as bochechas de Pip até seu pescoço, entrelaçavam-se em seu cabelo e puxavam seu rosto na direção do de Damien, permitindo que o anticristo selasse seus lábios juntos. Apesar de sem forças, sua língua facilmente encontrou o caminho pela boca do britânico, explorando cada cantinho que pudesse tocar.
Pip estava nas nuvens. Ele nunca tinha se sentido tão amado antes. A forma como Damien o tocava, os sussurros que dizia em seu ouvido, arrepiando cada pelo em seu corpo, Deus, a forma como o beijava, ele nunca se sentiu assim antes. Nunca imaginou que pudesse ascender daquela forma; deixar o próprio corpo e esquecer o próprio nome. Havia muito sobre si mesmo que Pip detestava, a maioria fruto do abuso e desprezo com que sofreu durante os anos, mas agora finalmente sentia que podia se amar por inteiro de novo. Ele nunca tinha se sentido tão bem, e tinha Damien a agradecer por isso.
Pip gemeu involuntariamente ao ter seus lábios afastados dos de Damien, cujos dedos puxaram seus cabelos mais curtos de leve, como se, apesar da distância, ainda o provocasse para mais um round. Um sorriso enfeitou seus lábios ao sentir o polegar de Damien trilhando-os, tão delicados e gentis sobre sua boca entorpecida, tantos foram os beijos que compartilharam naquela manhã. Ele mal conseguia sentir os próprios lábios. Entretanto, isso não o incomodava de forma alguma, apenas servia para lembrá-lo de todas as vezes que Damien o fez tocar o céu.
As mãos quentes do anticristo agarraram o britânico pela cintura e colaram seus corpos, jogando-o por cima de seu braço e a cabeça sobre seu ombro.
— Eu te amo. — ele ternamente sussurrou em seu ouvido após beijar sua testa.
Pip sorriu mais uma vez, cedendo o corpo aos carinhos que a mão de Damien fazia por suas costas.
— Eu sei, dearest. É a quinta vez que você me fala isso na última hora. — respondeu ele, afagando o ombro do namorado com a bochecha e a ponta do nariz.
Damien sentiu, sentindo-se um tolo apaixonado. Ele não podia evitar de tornar-se repetitivo. Estava muito feliz por ter seus sentimentos correspondidos. Ele nunca teve um romance como aquele com Pip antes, e não gostaria de saber, em momento algum, como seria se acabasse. Se pudesse, guardaria o britânico em seu bolso para carregá-lo consigo à todos os lugares e nunca perdê-lo de vista. Ele o protegeria de tudo e todos que pudessem o fazer qualquer mal.
Pip ergueu a mão da barriga para o peitoral depilado de Damien e lentamente fez seu caminho até sua bochecha, onde acariciou colmo polegar.
— Não tome como uma reclamação, é claro. Eu amo quando você diz isso.
Damien podia apenas olhar fundo naqueles belos olhos azuis enquanto estes fechavam-se pelo cansaço, o corpo e a mente do britânico cedendo ao sono. Depois de tanto tempo gastando tanta energia, era apenas natural que ele ficasse cansado. O anticristo apenas tinha sorte de ter muita estamina — e de não precisar dormir de fato.
Por um segundo, ele considerou deixar Pip dormindo e descer para trabalhar um pouco mais, visto que não tinha conseguido fazer muito desde que retornou há dois dias atrás, mas acabou por se decidir contra; passou as próximas uma hora e trinta minutos deitado ao lado de Pip, admirando-lhe o rosto e acariciando suas bochechas com ternura.
Talvez os demais discordassem, mas Pip era incrivelmente atraente aos olhos de Damien. Não de alguma maneira física e estereotipada — principalmente em questão de ele ter um peso e uma forma muito abaixo do padrão para um jovem de quase dezenove anos -, mas sim de alma. Diferente dos demais, Pip nunca cometera nenhum crime ou pecado grave; exceto, talvez, pelo de deitar-se com o filho do capeta, mas isso caía em tecnicalidades com as quais Damien podia lidar depois. Em contraste com a cidade, ou melhor, qualquer pessoa que o anticristo conheceu em toda sua vida, Pip ainda guardava a pureza e inocência de sua alma.
Damien não gostava da ideia de dar cores às almas; branco para as puras e preto para as corrompidas; julgava aquele princípio muito antiquado. Se tivesse que definir uma alma pura, usaria o termo “translúcido”. Uma alma pura permite-se ser facilmente examinada, identificada, como um álbum de fotos bem organizado. Uma alma pecadora, no entanto, tornava-se opaca, impossível de se ver através desta, como um cesto de memórias esquecidas em um sótão.
Era isso que a alma de Pip era: translúcida. Damien conseguia ver clara e facilmente através dela; ler todos os seus feitos, onde errou e como consertou, ao contrário do que acontecia com seu colegas de escola, cuja alma era tão densa que ele sentia estar olhando para uma parede.
A clareza da alma de Pip o tentava de uma forma que ele nunca viu antes. Ele era gentil e bom, ao mesmo tempo que sabia quando levantar a voz para proteger seus amigos; ou ao menos isso era o que seus relatórios diziam. O anticristo nunca conheceu alguém como Pip, e, francamente, esperava nunca ter de conhecer, pois ele certamente não planejava separar-se de Pip em qualquer momento no futuro.
Ao finalmente despertar, o casal trocou algumas carícias e logo se levantou para aproveitar o restante do dia, já que passaram quase que o tempo todo indo e voltando para o quarto. Não que algum deles se arrependesse disso, é claro.
Foi quando quase caiu ao tentar sair da cama que Pip começou a imaginar o quão difícil seria ir à escola no dia seguinte. Com certeza seus colegas perceberiam a forma que ele cambaleava e frequentemente parava para se sentar em algum lugar, mesmo que fosse no chão; e tendo Damien com a mão agarrada à sua, ligar os dois pontos não seria difícil. Ele havia de se preparar para a zoação e os comentários homofóbicos que sem dúvida seriam atirados em sua direção.
Ao menos ele não teria que lidar com eles sozinho. Damien estaria ao seu lado por todo o momento, com os dedos entrelaçados aos seus e sempre uma resposta afiada na ponta da língua.
Já tendo gastado as demais horas do dia, não tiveram muito tempo para trabalhar e estudar até terem que mais uma vez se deitar naquela cama, cujos lençóis foram trocados pelo anticristo mais de três vezes. Não fizeram muito progresso nas respectivas tarefas, mas um pouco era melhor do que nada.
Isso era algo para o que teriam que ficar atentos: a forma que seu relacionamento influenciava em suas vidas escolares e no trabalho. Não podiam se perder demais um no outro ou acabariam, os dois, com problemas. E Damien não gostaria de ser obrigado a se afastar de Pip para conseguir fazer seu trabalho, aquilo pelo que veio à Terra em primeiro lugar. Ele certamente perderia a credibilidade com Deus e os habitantes do inferno começariam a questionar suas habilidades como governante.
Eventualmente, o dia acabou e a noite também, a manhã de segunda se anunciando presente com um raio de sol através das cortinas. Seguindo a rotina, que agora já fora gravada em suas mentes, os dois se levantaram da cama e se dirigiram ao banheiro para fazerem a higiene pessoal. Em seguida, tomaram um café básico, sem querer demorar demais para irem ao colégio, ou seriam sufocados pela turma antes de chegar ao armário de Damien. E, quando tudo estava pronto, deixaram a casa para trás e seguiram o caminho de sempre, mão em mão.
Pip estava tendo algumas dificuldades para andar naquela manhã. Não chegava a doer pelo sexo incansável, mas mais pelo cansaço de seus músculos. Damien o disse que era normal, assim como sua aula de biologia, e que passaria com o tempo. O britânico não se incomodava, de qualquer forma. Se aquele fosse o preço a pagar pelas noites incríveis que passou com Damien, ele faria tudo de novo. Ele apenas se preocupava se seus colegas perceberiam demais, pois não sentia muita vontade de ser humilhado logo tão cedo.
Para sua sorte, Damien passou o tempo todo ao seu lado, sempre se certificando de que ele conseguia caminhar e que não cairia no chão em momento algum, muito menos fosse abordado por algum idiota no corredor. Qualquer pessoa que se aproximou dele foi rapidamente espantada com um gesto da mão do anticristo, que arremessou-os com facilidade contra os armários mais próximos.
Entretanto, no único segundo em que se separaram, quando Damien deixou Pip de lado para ir ao banheiro e o britânico foi beber água, Terrance e seus grupinhos de sempre passaram bem ao seu lado, e seu líder fez questão de esbarrar em seu ombro.
— Na saída, francês. — Terrance cochichou em seu ouvido em um milésimo de segundo, mal dando para perceber antes que ele seguisse em frente como se nada tivesse acontecido.
Pip estremeceu, imaginando o que ele havia feito para que quisessem se encontrar com ele especificamente depois da aula. Se fosse alguma circunstância normal, ele teria apanhado no corredor mesmo, na frente de todos. Se o problema fosse Damien, o pegariam durante um intervalo de aula, quando ele não o pudesse encontrar. Havia sempre um jeito de machucar Pip, independentemente das circunstâncias, então não havia necessidade de um horário e um lugar.
E isso era o que deixava o britânico assustado.
Aquilo já aconteceu várias vezes, mas não com ele. Pip só ouvia relatos daqueles que passavam no corredor sobre todos os alunos que eram levados à parte de trás da escola e eram surrados até não conseguirem mais enxergar. Alguns iam parar no hospital. E os professores não faziam nada, não importa quantas vezes os alunos reclamem.
Mesmo assim, Pip sabia que, se não fosse, cedo ou tarde o caçariam, e a surra seria duas vezes pior. Ele não tinha outra escolha.
Quando o sinal da saída tocou, Pip deu um jeito de escapulir por entre a multidão e não se encontrar com Damien. Ele odiava evitar seu namorado daquela forma, mas sabia que se ele descobrisse o que estava acontecendo, não o deixaria ir, ou pior: iria junto. Pip não podia continuar metendo ele em seus problemas, seja lá o que for dessa vez.
Enquanto os outros seguiam pelo caminho da saída e deixavam as dependências da escola, Pip deu a volta no prédio, acabando na parte de trás. Seu corpo imediatamente tensionou ao encontrar Terrance o aguardando. Sozinho.
Ele ia tomar uma surra das grandes.
Bom, é melhor encarar tudo de uma vez do que ficar apenas se corroendo de medo, não é?
Ao avistá-lo, Terrance não se deu ao trabalho de desperdiçar tempo. Marchou até Pip e desferiu um soco na bochecha, forte o bastante para fazê-lo perder o equilíbrio por um instante.
E é óbvio que não parou por ali.
Agarrando-o pelos ombros, o moreno deu uma joelhada em sua barriga e o jogou no chão. Pip mal teve tempo de processar a dor antes que ele subisse por cima dele, prendesse suas pernas entre as dele e continuasse a socar seu rosto.
Todas as vezes que ele erguia as mãos para tentar se defender, Terrance era mais rápido, e o acertava antes que ele pudesse fazer qualquer coisa.
— Você porquê tá apanhando? Hein? — ele perguntava entre socos, quando Pip simplesmente desistiu de lutar.
É claro que ele não sabia. Desde quando havia motivo? As pessoas o faziam de alvo sem ele precisar ter feito qualquer coisa além de viver a própria vida; o famigerado caso de estar no lugar errado, na hora errada. Para aquela maldita escola, ele não era nada mais que um saco de pancadas. Assim como estava sendo agora.
No meio dos socos, algo estranho começou a tocar seu rosto. Algo molhado. Ao abrir os olhos, Pip percebeu que Terrance estava chorando.
Seus socos começaram a fraquejar e ele desabou em cima de Pip, esbravejando e gritando palavras das quais o britânico não sabia o contexto.
Até que, sem mais nem menos, Pip recebeu uma vaga dica do que tinha acontecido.
— Ele morreu! — ele gritou. — Nosso melhor amigo está morto! E você continua vivo.
Pip não sabia o que dizer, não sabia nem de quem ele estava falando. E, mesmo antes de abrir a boca, foi recebido com um soco.
— Devia ter sido você! Devia ter sido você preso naqueles fogos de artifício! Devia ter sido você quem queimou até a morte!
Ele não conseguia ouvir. Tinha um zumbido em seus ouvidos. Terrance disse algo sobre fogos de artifício…? Alguém morreu?
Ele não conseguia escutar.
Mais um soco em sua bochecha, seguido de um puxão de cabelo que o fez gritar involuntariamente.
— Peça desculpas!
Seu corpo começou a tremer. As coisas já não processavam direito, ele só precisava de um jeito de sair dali. Rápido.
— D-desculpa. — ele exclamou com a voz chorosa, mas, pela expressão de Terrance, não era o suficiente.
— Não pra mim, seu francês estúpido! Peça desculpas pra ele! Peça desculpas pro cara que morreu preso na porra da sua casa enquanto os fogos de artifício explodiam os miolos dele!
Pip arregalou os olhos, a ficha finalmente caindo.
Eles tentaram fazer uma pegadinha com ele e um deles acabou morrendo. Ele não sabia quem, mas alguém já não aparecia mais na escola. E ele sequer percebeu.
Pip tentou abrir a boca, mas as palavras se recusavam a sair de sua boca. O pouco orgulho que tinha não o deixava repetir aquelas palavras. Não para o cara que tentou pegá-lo por aquilo que mais o machucava.
Ao perceber que ele não diria nada, Terrance o agarrou pelo pescoço, quase o engasgando com o movimento. Involuntariamente, Pip agarrou-se ao braço dele, tentando se soltar, mas em vão.
— Você se acha super gostoso só porque tem um namorado com poderzinho de mágica, não é? Você se acha o bonzão, Pip?! Você é só um francês imbecil! Um desperdício de oxigênio! — tomou um bolsão de ar em seus pulmões, observando com olhos castanhos a forma como o britânico pateticamente se remexia debaixo dele. — O Trent não merecia ter morrido por sua causa… Devia ter sido você! — cuspiu em seu rosto, saliva escorrendo por sua bochecha surrada. Aquele garoto era patético. Terrance não estava fazendo nada mais que um favor para o mundo. — E você vai pedir desculpas pra ele. — levou a mão livre ao bolso da blusa, sacando de lá um canivete e erguendo-o alto, a ponta prateada brilhando sob a luz do sol. — De um jeito ou de outro.
Naquele momento, o corpo de Pip entrou em modo de defesa automático. Agarrou o pulso de Terrance com força, seus olhos azuis arregalados encarando a lâmina afiada que fazia força para se aproximar de seus olhos com desespero. Ele não fazia a menor ideia de onde ele tirou tanta força para segurar um golpe por tanto tempo, especialmente depois de tomar uma surra daquelas. De qualquer forma, não importava. Seu instinto falava mais alto que sua razão naquele momento, e ele não o deixaria morrer.
Apertando os dedos ao redor daquele pulso grosso, Pip impulsionou o próprio corpo e rolou por cima de Terrance, aproveitando da surpresa nos olhos do moreno para torcer-lhe o pulso e fazê-lo soltar a faca. Ele imediatamente a jogou para longe com um chute e, desesperado ao ver Terrance erguer um soco em sua direção, foi mais rápido e desferiu um primeiro.
Ele não estava mais em seu corpo. Aquele que agora não apenas apanhava, mas também batia, não era Phillip. Ele sentia como se estivesse sendo controlado, como se sua consciência tivesse se esvaído e seu corpo agora não passasse de uma marionete no controle de alguém. E esse alguém era ele mesmo.
Durante muitos e muitos anos, Pip aguentou calado. As surras, socos, chutes, cuspidas, todo o desprezo, aquilo nada mais era que rotina, algo que ele já havia aceitado em sua vida. Ele para sempre e até o fim de seus dias seria o saco de pancada, tanto verbal quanto físico, de todos enquanto vivesse naquela cidade, e não havia nada que ele pudesse fazer. Mas ele não iria morrer. Não quando finalmente encontrou um mínimo de felicidade, um motivo para sorrir. Ele não se deixaria cair agora.
Trocando chutes e socos com Terrance, os dois garotos imundos rolavam na grama, batalhando por sobrevivência. O moreno tentava chegar na faca enquanto o loiro fazia de tudo para impedir.
Eu não vou morrer. Eu não vou morrer. Eu não vou morrer. Eu não vou morrer. Eu não vou morrer. Eu não vou morrer. Eu não vou morrer. Eu não vou morrer.
EU NÃO VOU MORRER!
Enquanto Pip batalhava com toda sua força para ficar por cima, nenhum deles percebeu que a barulheira que estavam fazendo começou a atrair uma plateia, especialmente pelos gritos desesperados que escapavam da boca do britânico vez ou outra.
Terrance puxava seu cabelo e ele o dele, enquanto as mãos livres agarravam-se nas roupas um do outro, arranhando, rasgando, desesperadas por alcançar um mínimo de pele possível. Terrance lutava para matar. Pip lutava para sobreviver. Nenhum deles queria perder.
A plateia que se formava ao redor dos dois garotos sujos arfava e arquejava a cada golpe que um deles conseguia. É claro, a maioria torcia a favor de Terrance, mas muitos ficaram impressionados com a forma como Pip revidava. Ninguém esperava que o britânico tivesse tanta força de vontade para lutar, principalmente no estado que estava.
A luta acabou quando, praticamente encurralado contra a parede, Terrance agarrou-se ao pescoço de Pip, seu polegar e sua unha pressionando forte no fundo de sua garganta. O britânico estava perdendo o ar depressa, assim como deixando-se ser tomado pelo cansaço que a outra surra acumulou em seus ombros. Ele ia morrer. Ele ia morrer e não conseguiu sequer lutar direito. Por Deus, Pip era um inútil. Entretanto, no último segundo, quando sua visão estava começando a escurecer, ele usou a força em sua perna e, com um último suspiro, chutou as bolas de Terrance. O moreno imediatamente soltou seu pescoço e caiu para o lado, agarrando-se à região como se sua vida dependesse disso. E Pip pôde finalmente respirar.
Com o pouco de força que lhe restava, tentou ficar de pé e correr para longe de Terrance. Entretanto, a falta de ar que o acometia não o deixou dar mais que dois passos antes de seu corpo vir ao chão. Ele estava cansado. Não aguentava mais correr. Não aguentava mais lutar. Ele só queria ir para casa.
Quando se recuperou, Terrance não demorou em voltar a pular em Pip. Contudo, antes que ele pudesse, um soco o mandou voando de volta para a parede.
Colocando-se entre ele e Pip, Damien não estava o mínimo interessado no contexto da situação. Que se foda se a maldita plateia o xingasse depois, dizendo que ele estava estragando a diversão deles. Ele não podia deixar o britânico continuar apanhando daquela forma. Se precisasse mesmo saber, perguntaria à ele depois.
Ignorou completamente a existência de Terrance e caminhou na direção de Pip, levantando-o do chão com cuidado, um braço por cima de seu pescoço enquanto sua mão livre o segurava por debaixo do outro. O rosto de Pip estava repleto de hematomas e um de seus olhos estava começando a inchar. O resto também não estava em boa forma: sua roupa estava completamente amassada e sua gravata rasgada, e sua boina desaparecida. E ele tremia. Por Deus, a forma como tremia e agarrava-se a Damien como se fosse morrer caso não o fizesse cortava seu coração de mil e uma formas diferentes. Se as feridas já não fossem o bastante, o olhar cheio de lágrimas desesperadas que ele o dava esmagou seu espírito completamente.
Enquanto levantava do chão com relativa dificuldade, Terrance via, com um olhar borrado, a forma como Damien agarrava-se em Pip e consertava suas feridas com um estalar de dedos. Todo o seu trabalho foi por nada. Todo o seu esforço, sua dedicação, foi por água abaixo.
Aquele maldito francês. Se apenas estivesse morto, as coisas seriam muito melhores. Seu amigo ainda estaria vivo e a cidade estaria livre da praga que ele trazia consigo. Terrance não suportava olhar para a cara de mongol que o britânico usava todos os dias, a forma como sorria para tudo e todos, mesmo que ninguém quisesse nada mais que ele desaparecesse de uma vez. Ele não aguentaria olhar mais um segundo para aquela cara nojenta. A forma como ele sorria para o namoradinho todo-poderoso e caminhavam de mãos dadas no corredor era simplesmente repugnante. Ele tinha vontade de vomitar sempre que via. E ele estava tão perto de se livrar daquela praga, de purificar aquela cidade dos infernos e tirar o pobre francês de seu sofrimento eterno. Ele estava tão perto de se vingar pela morte de seu amigo, que só não estava lá porque aquele maldito francês não estava em casa para a recepção calorosa que tinham para ele. Como ele ousa? Terrance partiria todos os seus ossos ao meio e rasgaria sua pele em milhões de pedaços, arrancaria cada músculo de seu rosto e o desfiguraria de tal forma que ninguém jamais o reconheceria. Se banharia em seu sangue e na glória de finalmente ter se livrado daquele maldito estorvo, o espinho no sapato de todo mundo. Ninguém jamais sentiria falta dele, nem mesmo seu namoradinho de merda, que seria o próximo.
Não. De novo não. Eu não vou deixar você escapar impune dessa, seu francês de merda.
Com as pernas trêmulas, o moreno se ergueu do chão com uma gargalhada. Os olhares da plateia e de Damien e Pip se voltaram para ele, e o britânico agarrou-se ao braço do anticristo por reflexo. Ele limpou o nariz cheio de sangue na manga da blusa e parou seu olhar em Pip, o castanho de suas íris o queimando por dentro.
— Você se acha o máximo, não é, Pip? Exibindo o anticristo pra cima e pra baixo como seu brinquedinho brilhante, seu cavaleiro de armadura branca. Você acha que ele sempre vai estar lá pra te proteger de qualquer coisa que acontecer, que ele vai fazer aquilo que você não tem coragem pra fazer, não é, francês inútil? Mas, adivinha, ele não pode te proteger pra sempre. Porque, adivinha, isso é South Park! Você não tem pra onde fugir! Seja lá onde você esconda sua cara de francês vagabundo, eu vou te achar, e eu vou encher sua cara de tanta porrada que nem a porra da tua mãe vai te reconhecer, aquela vadia!
O britânico estremeceu e apertou os dedos na roupa de Damien, tremendo. O anticristo sentia perfeitamente, e estava perdendo o controle. Suas palmas estavam começando a esquentar além de seu controle, a que segurava a cintura de Pip soltando uma fina trilha de fumaça em sua roupa.
Terrance podia ver a ameaça, podia vê-la clara como o dia, refletida nos olhos carmim do anticristo. Mas ele já havia perdido a capacidade de se importar.
— E tá vendo aquela faca ali? Da próxima vez, eu não vou errar. E você vai pedir desculpas pro Trent pessoalmente. No inferno!
Com um arregalar de seus olhos, as mãos de Damien explodiram em chamas, tal explosão afastando todos, incluindo Pip, dele. Ao fundo, além de suas chamas, conseguia vagamente ouvir os gritos de dor de Terrance ao ser envolto por elas, queimando e dilacerando cada centímetro de sua pele, de fora até por dentro. Nada restaria dele ao final, seria carbonizado dolorosamente pelas chamas do anticristo, consumido por elas, alimento para seu ódio.
Damien também estava envolto em chamas, mas não físicas. Pela primeira vez, perdeu completamente o controle do próprio corpo. Os gritos desesperados de Terrance não o atingiam, os dizeres de Deus, lembrando-o das regras que devia seguir, também não. Nem mesmo os de Pip, que suplicava para que ele parasse, agarrando-se à sua cintura, braços e costas, chacoalhando-o, desesperado. Damien estava envolto em chamas, e não sabia como sair delas.
— DAMIEN! DAMIEN, PARA! VOCÊ VAI MATÁ-LO! — Pip continuava a gritar ao chacoalha-lo.
Ele não queria isso. Ele nunca quis que ninguém se machucasse. Terrance fez algo terrível, sim, mas aquele não era o jeito de lidar com isso. Não com fogo.
Mas nada que ele fazia parecia chegar ao anticristo. Era como se ele estivesse surdo, alheio para todo o restante do mundo. E Pip estava começando a entrar em desespero.
Num impulso, o britânico ergueu a mão e desceu um tapa no rosto do anticristo. E deu certo; suas chamas se apagaram por um segundo e seus olhos se arregalaram.
— Desculpa, desculpa, desculpa. — ele repetiu diversas vezes enquanto agarrava-se ao casaco de Damien. — Você não ia parar, não importa o quanto eu gritasse, e eu entrei em pânico!
De repente, a mão do anticristo o agarrou pelo ombro e o atirou para trás. O corpo do britânico facilmente veio ao chão e sua cabeça se chocou com uma pedra, arrancando dele um grito de dor.
Quando Damien recobrou os sentidos e finalmente colocou os olhos em Pip, suas órbitas se arregalaram ao verem-no com uma mão atrás da cabeça e os dentes rangendo de dor.
Ele tinha feito isso. Ele o tinha machucado. Ele tinha machucado Pip. De novo.
Esquecendo de Terrance mais uma vez, Damien correu para o britânico e se ajoelhou ao seu lado, desespero visível em seus olhos carmim.
— Merda! Merda! Merda! Desculpa! Eu não queria…!
Enquanto o anticristo amparava o britânico, a plateia começou a se dispersar ao ver Mr. Mackey se aproximando da muvuca, parecendo incrivelmente zangado.
— PIP! DAMIEN! O QUE CARALHOS ACONTECEU AQUI?! — ele gritou, gesticulando para tudo em volta. — OS DOIS VÃO PRA MINHA SALA! AGORA! MKAY?!
Sem mais opções, os dois se levantaram do chão, Damien mantendo certa distância de Pip e o observando de soslaio, e foram junto a Mackey para dentro da escola.
No meio da plateia, Cartman olhou ao redor ao escutar um barulho estranho aproximando-se ao longo.
— Filho da puta, chamaram a polícia! — gritou ele em desespero.
Todos que ali estavam saíram correndo o mais rápido que podiam. Ninguém voltou para ver como Terrance estava.
(...)
Damien e Pip voltaram para casa em silêncio. Depois do sermão que Mackey os deu, nenhum deles estava preparado para conversar. O barulho do vento os acompanhou durante todo o caminho, uma perpétua lembrança da humilhação e passada de perna que sofreram, um de cada vez, na sala do conselheiro.
Damien foi suspenso por uma semana.
Ele na verdade tinha sorte por não ter sido expulso. Sorte dos adultos de South Park serem estúpidos a ponto de ainda o manter por perto. Mas nada disso o incomodava de verdade; para ele pouco importava seu registro na escola ou suas notas, afinal, ele morava no inferno e já tinha um emprego decente. Não. Ele se preocupava com Pip.
Sem Damien por perto, certamente aproveitariam a chance para encher ainda mais o saco dele e puxá-lo para baixo. Sempre que voltasse para casa, sua pele estaria manchada de hematomas e sangue seco, se não tivesse algum osso quebrado também. E Damien teria que ver.
Ele será jogado na boca do inferno e Damien não podia fazer nada.
Talvez pudesse convencê-lo a não ir na próxima semana, mas isso acabaria por prejudicar seus estudos; e, ao contrário de Damien, Pip precisava de um bom currículo escolar e passar de ano. Ele estava tão perto…
Mas aquele era seu castigo. Damien não devia ter perdido o controle daquela forma. Ele não tinha permissão de interferir e defender os mortais com as próprias mãos. Ele podia ter a melhor das intenções quando tentou proteger Pip, mas não quer dizer que estava correto aos olhos de Deus.
Chegaram em casa também em silêncio e se sentaram no sofá, um esperando o outro começar a falar e quebrar aquele silêncio desconfortável.
O anticristo encarou Pip de soslaio, focando na faixa que enrolaram ao redor de sua cabeça. Quando a bateu na pedra, quando ele o arremessou, acabou se machucando e a região começou a sangrar, o que o obrigou a ir à enfermaria antes de falar com o conselheiro.
Nenhum dos dois sabia a punição do outro.
Incapaz de resistir mais um minuto àquele silêncio, Pip desabou:
— Eu sinto muitíssimo, Damien. — choramingou, levando as mãos ao rosto. — Eu não devia ter te batido daquele jeito.
Damien negou com a cabeça, inconscientemente acariciando a bochecha levemente vermelha.
— Não, você fez certo. Eu não sei o que aconteceu comigo. Eu nunca fiquei tão irritado assim antes. — olhou para as próprias mãos, sujas com as cinzas de seu fogo. Ele quase não as reconhecia. — … Talvez seja bom que eu tenha sido suspenso. Eu preciso espairecer um pouco. Esse lugar tá acabando comigo.
Pip se chocou ao ouvir da suspensão, mas resolveu não comentar sobre.
— Você vai voltar pro inferno?
— Não. Talvez só fique em casa e termine minha cota de trabalho do mês. — deu de ombros e encarou o britânico de soslaio. — Qual foi sua punição?
— Duas semanas de detenção. — ele também deu de ombros. — Não é tão ruim assim. Me dá uma oportunidade de terminar as lições que ainda não estão em dia.
O silêncio mais uma vez prevaleceu e nenhum dos dois sabia o que dizer quanto ao que aconteceu. Era muito recente, mas tinham tanto que gostariam de dizer que simplesmente se sufocavam com as palavras.
Damien encarou a faixa que rodeava a cabeça do loiro com pesar. Ele perdeu o controle naquele dia. Machucou um aluno e machucou Pip. Em sua cegueira de fúria, o empurrou direto para uma pedra. Se ele não tivesse se desesperado com a ameaça de Terrance, nada daquilo teria acontecido. As coisas estariam normais e ninguém estaria no hospital.
— Me desculpa. Eu não queria te machucar. — ele disse em voz baixa, com as mãos juntas no colo.
Realmente não queria ter machucado Pip daquela maneira. Ele se sentia sujo, podre, como se a alma que ele nem tinha estivesse começando a se tornar opaca. Não devia ter tratado Pip daquela forma e se arrependia amargamente por ter deixado seu desespero o guiar. — Eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo.
Doía para Pip ver o arrependimento nos olhos de Damien. Ele podia ver como aquilo o estava afetando, como ele se sentia mal por tê-lo machucado, mesmo que sem intenção.
— Hey, está tudo bem. — ele murmurou com a mão nos ombros de Damien.
— Não, não está! — ele esbravejou. — Eu prometi pra mim mesmo que não te machucaria de novo.
Pip nunca tinha visto Damien chorar. Em todos aqueles anos, desde que eram pequenos e até desde que ele voltou, ele jamais imaginou que veria o anticristo daquela forma: curvado em um sofá, com as mãos sobre o rosto e o corpo tremendo com os soluços.
— Oh, Damien… — Pip envolveu-o em seus braços e o apertou entre os mesmos, escondendo seu rosto em suas costas e suplicando em sua mente que ele parasse de chorar.
Damien virou para o lado e agarrou-se à cintura de Pip, enterrando a cabeça na curva de seu pescoço e se deixando descansar ali.
— Por favor, me perdoa. — ele sussurrou, apertando as mãos ao redor do menor.
Com a forma que Damien falava e agia, era fácil esquecer que ele tinha apenas dezenove anos. Ele ainda era jovem, por mais que não agisse como tal. Ele tinha o direito de ter emoções e sofrer assim como qualquer um. E Pip estava pronto para abraçá-lo e confortá-lo quantas vezes precisasse.
— É claro que eu te perdoo. — ele sussurrou de volta, acariciando seus cabelos negros.
Quando as coisas se acalmaram, os problemas não tinham acabado. É claro que não. Pois Pip ainda tinha muito que queria falar.
Ele tomou as mãos de Damien nas suas e encarou fundo em seus olhos carmim.
— O Damien que eu vi hoje… Ele parecia tão irritado… E não era apenas pelo que aconteceu. É quase como se tivesse algo a mais por trás. — ele engoliu em seco. — Damien, seja sincero comigo. O nosso relacionamento está te sobrecarregando?
— … Um pouco, sim. — admitiu ele, apertando as mãos de Pip nas suas.
Ele não estava acostumado com relacionamentos, muito menos considerando as coisas pelas quais Pip passava todos os dias. Damien, como amigo e namorado, se sentia na obrigação de protegê-lo e mantê-lo seguro de tudo, o que incluía ficar sempre atento para quem pudesse estar com os olhos gordos em cima do britânico para fazê-lo mal.
Pip murmurou.
— Entendo.
O silêncio não era algo muito confortável para se ter naquela conversa, pois ele abria espaço para paranoia e conclusões precipitadas, o que Damien não tardou em tirar.
— … Você vai me dar um pé na bunda, não vai? Dizer que quer o que é melhor pra mim e que, se a forma como você lida com as coisas me incomoda então que será melhor para nós dois que você se afaste?
Pip riu baixinho com aquela teoria. Damien era tão inteligente.
— Não vou mentir, você disse tudo que eu estava pensando. — admitiu ao abaixar a cabeça. Em um segundo, seu sorriso desapareceu por completo, e suas mãos agora brincavam com os próprios dedos. — Mas, agora eu sendo o sincero, eu não acho que consigo. Na verdade, eu consigo, eu só não quero. Eu esperei tanto tempo por companhia, esperei tanto tempo por alguém que se importasse; eu não quero voltar à como as coisas eram antes. Eu não quero ficar sozinho de novo. E eu realmente gosto de você, Damien, gosto mesmo. Eu não quero ter que abrir mão de algo que faz nós dois felizes.
Damien assentiu em compreensão, encarando Pip entre as pálpebras baixas.
— Então, o que fazemos? — ele perguntou.
— Se quisermos continuar do jeito que estamos, e de um jeito que agrade a ambos, precisamos entrar em comunhão. — disse Pip. — Sabe, Damien, eu sempre tentei ser meu “eu” mais autêntico com você. Eu tento meu melhor pra ser o mais verídico possível e ocultar o mínimo de coisas possível, mesmo que eu falhe.
Damien já tinha perdido a conta de quantas vezes Pip tinha escondido algum ferimento ou dispensado sua ajuda desde que havia retornado. Ele insistia que não precisava de ajuda e que não queria atrapalhar, o que, francamente, era ridículo aos olhos de Damien.
— Eu sei que eu não sou perfeito, longe disso, mas eu tento. — o britânico continuou. — Eu tento porque você me faz querer tentar. Mas eu sinto que você se segura perto de mim, como se estivesse escondendo alguma coisa.
Ele estava falando a verdade. Damien era naturalmente reservado, especialmente nos últimos anos, mas ele estava se contendo ainda mais nos últimos meses, como se não pudesse falar.
Pip apertou as mãos do anticristo e soltou um suspiro trêmulo.
— Me responda: tem algo maior por trás disso ou você simplesmente não confia em mim?
— É claro que eu confio! — Damien exclamou.
— Então por que você não fala comigo? — Pip rebateu. — É como se existissem dois de você: um sério e outro amoroso, e eu não consigo dizer onde está o meio termo e isso está me deixando louco! Por favor, só me diz o que tá acontecendo.
Damien ficou quieto, remoendo as palavras do britânico. No fim, o que ele estava fazendo para tentar ajudá-lo, só o fez sofrer mais ainda.
É como seu pai dizia, Damien: você não pode se guardar totalmente. Precisa aprender a confiar nas pessoas, ou vai acabar se machucando e a outros no processo.
— Eu só… Não queria colocar mais peso nos seus ombros. — admitiu. — Você já sofre tanto todos os dias… Eu não queria que acabasse tendo que lidar com o meu jeito ruim também. Eu consigo ficar bem fora de mim quando fico bravo.
— Eu percebi. — Pip murmurou.
— Eu achei que você não precisava de toda essa pressão também; de estar comigo. Eu estive me contendo, sim, mas porque eu não queria que você passasse por mais estresse do que normalmente passa.
O britânico ergueu as sobrancelhas, um pequeno sorriso puxando o canto de seus lábios.
— Damien, eu te conheço desde que nós tínhamos oito anos, desde a época que você era todo endiabrado e colocava fogo em tudo que via pela frente. E, mesmo assim, eu ainda queria ser seu amigo; ainda quero. Independentemente de você ser o anticristo ou não, eu gosto de você. Talvez você dê trabalho? Sim, mas eu sei o quanto você vale a pena, assim como você me fez acreditar que eu valho. — ergueu uma mão para a bochecha de Damien e virou seu rosto em sua direção, para que olhasse fundo em seus olhos. — Eu entendo seus motivos, realmente entendo, mas, se vamos fazer isso funcionar, eu quero estar com você. Você de verdade. Eu quero poder te abraçar quando você estiver triste e ouvir seus gritos e xingos quando estiver revoltado. Só talvez não faça isso quando for comigo.
Damien riu.
— Não se preocupe com isso. Eu nunca gritaria com você por algo que você fez.
— Fico feliz com isso. Mas, ainda assim, meu ponto ainda é válido. Eu quero ser pra você o parceiro que você é pra mim. Quero poder te ajudar da mesma forma que você me ajuda, mesmo que seja só como alguém para ouvir suas lamúrias, até porque eu não entendo nada de advocacia.
O anticristo sorriu.
Por Deus, Pip era simplesmente perfeito.
— Está certo. Acho que posso tentar.
O britânico retribuiu o sorriso com um beijo casto em seus lábios esticados.
— Obrigado. — disse ele após o beijo, deixando seu sorriso esvair pouco depois. — Por favor, não faz aquilo de novo. Eu sei que você não gosta deles, mas eu não quero que você machuque ninguém por causa disso. Eu sei que eles não são as pessoas mais gentis e boas do mundo…
É claro que não são, esse é você.
— Mas, mesmo assim, eu não acho certo que combatamos com mais violência. Não é porque o Mr. Mackey falou isso; eu realmente não quero que você machuque nossos colegas de classe desse jeito. Por favor, o que aconteceu hoje… Não faça de novo. Se eu precisar de ajuda, deixe que eu te chamo. Me promete?
Apesar de hesitante, Damien suspirou e assentiu. Por mais que quisesse proteger Pip, não podia fazê-lo se isso o deixaria chateado com ele. Às vezes, sacrifícios precisam ser feitos, mesmo que para ele doa, mais do que o fogo mais ardente, ter que ver a forma como os outros tratam seu namorado. As coisas não mudariam por causa dele. Damien precisava parar de querer pagar de super-herói.
— Prometo. — ele disse, mas Pip não pareceu convencido.
— De dedinho. — esticou a mão direita com o mindinho levantado. — Não pode quebrar depois.
— Promessas já são para não serem quebradas. — retrucou Damien, apenas depois analisando as próprias palavras.
Quantas vezes alguém devia ter lhe prometido algo apenas para cuspir em sua cara depois? As pessoas de South Park não eram confiáveis, uma simples promessa não faria nada. Para os humanos, uma promessa de dedinho era como um laço de sangue para humanos: perpétuo. Impossível de ser quebrado. Pip queria sua garantia completa de que o que aconteceu jamais se repetiria.
Damien ergueu o dedo mindinho e o enlaçou ao redor do de Pip.
— … Prometo.
Isso foi o suficiente para colocar o sorriso de volta aos lábios do britânico, que, aliviado, abraçou o pescoço de Damien.
— Obrigado, Damien.
O anticristo logo retribuiu, deixando-se apegar ao conforto dos braços de seu amado e o calor que seu corpo esbanjava. Podia ficar ali para sempre se não tivessem mais coisas a fazer.
— Ah, eu peguei isso. — disse ao separar-se do abraço, entregando a boina à Pip. — Você deixou jogado no chão.
— Obrigado. — disse com um sorriso. — Mas não sei se vou precisar agora; estou pensando em tomar um banho.
O britânico ergueu-se do sofá e caminhou pelo corredor, parando apenas ao chegar na porta do banheiro para se virar para trás.
— Você vem?
Damien arregalou os olhos, surpreso com a oferta, mas imediatamente deixou suas coisas de lado e seguiu o britânico para o fim do corredor. Ele não podia negar qualquer pedido de Pip quando ele o olhava daquela forma.
O banho era uma das melhores partes do dia segundo Pip. Toda a sujeira e podridão que se esfregava nele durante o dia ia embora pelo ralo e seu corpo podia mais uma vez respirar. Ele se sentia mais leve, como se nascesse de novo. E, agora que podia ser acompanhado por Damien, era ainda melhor.
Após ensaboarem-se, o anticristo ajudou o britânico a passar a barra por suas costas, lugares onde ele normalmente não conseguia alcançar. Era uma sensação estranha para Pip, pois nunca teve ninguém para compartilhar um momento assim, mas havia de admitir que os dedos de Damien subindo e descendo por sua pele era bem relaxante. Ele sabia exatamente onde tocar, quando tocar, o que fazer, era como receber uma massagem divina.
Ele se pegou suspirando e inclinando-se direção dos toques lentos e carinhosos, seu corpo aquecendo-se mesmo debaixo da água fria. Ele estremecia quando Damien tocava seu ombro, a pele ainda um tanto sensível por causa da tatuagem, e parte de si pensava que Damien estava demorando demais para ensaboar suas costas.
Pip deu um passo para a frente, colocando-se debaixo do chuveiro e puxando Damien junto com ele. Virou-se e se permitiu ser prensado na parede, puxando os lábios do namorado para si e apertando suas bochechas entre suas palmas. O beijo foi retribuído de forma eufórica e faminta, ambos deixando-se levar pelo calor e sede de seus corpos, completamente alheios para todo o resto do mundo.
Foi quando Damien se afastou dos lábios de Pip e começou a beijar seu pescoço que seus pensamentos clarearam um pouco mais. Eles ainda estavam no chuveiro, em uma posição que não seria muito confortável e sem qualquer lubrificante, e, ao contrário do que poderiam pensar, as pesquisas diziam que água é péssimo para isso. Apesar do britânico não ser contra explorar novas posições e coisas do gênero no futuro, ele havia de admitir que havia se acostumado ao conforto do colchão de Damien e a ter onde se agarrar. Em outras palavras, ele ainda não estava pronto para transar no chuveiro.
— Eu não acho que devíamos gastar água desse jeito, amor. — ele murmurou entre suspiros, enfim ganhando a atenção de Damien, que se afastou dele por um segundo para desligar o chuveiro.
A água fria não fez nada para diminuir o calor, de qualquer forma.
Um problema a menos, o anticristo voltou a puxar os lábios do britânico para si, o qual não tardou em agarrar-se a seus ombros e retribuir os beijos com intensidade e paixão, abrindo os lábios para que Damien os invadisse com a língua.
Os acontecimentos daquele dia foram rapidamente esquecidos, ocultos pela névoa que mais uma vez escurecia suas mentes, tornando-os alheios a todo o resto. Não queriam pensar nisso agora, já ficou tudo pra trás, e o que restava podia ser resolvido outra hora. Agora, a necessidade e o calor falavam mais alto, e tudo que queriam era afastar as preocupações por um segundo e se perderem um no outro.
Um leve estalo de dedos os deixou secos de um segundo ao outro, tornando deitarem-se na cama viável novamente. Os dois cambalearam para fora do banheiro e, em um segundo, já estavam deitados.
Debruçando-se sobre Pip, Damien trilhou sua pele com os lábios, sentindo quase que na ponta da língua a forma como o britânico estremecia e prendia a respiração a cada nova área tocada.
Os dedos finos de Pip entrelaçavam-se em seus cabelos negros como se tentassem descobrir um labirinto. Puxavam e bagunçavam e Damien só queria tomá-lo ainda mais.
— Oh, Pip…
Seus beijos intercalavam entre o pescoço e a clavícula do britânico, chupando de leve quando retiravam-se e subiam a outro lugar. Subia ao lóbulo de sua orelha e lá estalava os lábios, estremecendo o corpo de Pip e tornando a contrair seus dedos em seus cabelos. Pip era incrivelmente sensível nessa área e no tronco, que eram os lugares que Damien mais abusava para atiçá-lo.
Enquanto sua boca provocava-lhe o pescoço, uma mão desocupada subia e descia por entre suas pernas, passando por dentro das coxas, por cima do escroto, até chegar à pontinha de sua glande. Tudo para arrancar mais e mais gemidos e suspiros da boca do britânico, o que estava dando muito certo.
Selando seus lábios, Damien abafou os gemidos de Pip em sua boca, aproveitando-se deles para invadir com a língua. Tinha sempre a certeza de tocar as áreas que sabia que deixariam Pip nas nuvens, esquecendo-se do próprio nome. Depois do longo e cansativo e estressante dia que tiveram, ele só queria que Pip se sentisse bem. E ele estava mais do que disposto a dá-lo o que quer que ele precisasse para que isso acontecesse.
Parou de masturbá-lo por um segundo e esticou a mão para pegar o tubo de lubrificante, rapidamente despejando um pouco do líquido na mão e começando a inserir os dedos em Pip, um a um. Massageava a região com movimentos lentos, aos poucos conseguindo adentrar mais e mais fundo dentro dele conforme o esfíncter relaxava.
Após encerrar as preliminares e colocar a camisinha, Damien agarrou-se a Pip por debaixo dos ombros e se afundou nele. Os arquejos, arranhões e movimentos de cintura eram puro combustível para acelerar os movimentos de vaivém e cobrir o corpo de Pip com beijos; clamaria cada cantinho dele para si e o faria estremecer com tal prazer que os acontecimentos daquele dia não passariam de uma sombra distante.
As pernas do britânico apertaram-de ao redor da cintura do anticristo, prendendo-o o mais fundo possível dentro de si. Deus, ele era tão bom nisso; Pip jamais se contentaria com uma vez só. Ele precisava de mais. Precisava tê-lo inteiro. Forçou a própria cintura em um ritmo mais acelerado, um sinal que Damien rapidamente captou. Segurando Pip por debaixo dos braços, colou seus troncos e suas pélvis, e usou de uma das mãos livres para masturbar o membro do britânico.
Era demais. Ele mal conseguia se segurar nos ombros de Damien direito. Seu controle estava rapidamente escorregando de seus dedos, pois mais e mais ele se aproximava de seu ápice. Quando o anticristo gozou, ele não sabia mais qual era o próprio nome.
Sem diminuir as estocadas, Damien continuou os movimentos rítmicos, tanto da cintura quanto da mão. Seus lábios beijavam-lhe desde os ombros até a parte de trás de sua orelha, sempre buscando aqueles pontos que levavam Pip à loucura.
— Damien… — ele deixou seu nome escapar algumas vezes antes de atingir o orgasmo.
Ao som do próprio nome despejado da boca de Pip, o anticristo não conteve-se: gozou mais uma vez, além de ter certeza de acelerar mais as estocadas e beber seu nome dos lábios de Pip.
O britânico arqueou as costas e arranhou as costas de Damien ao gozar. Seu corpo cansado não tardou em deslizar dos braços do anticristo, caindo sem forças na cama, sendo seguido pelo maior logo depois.
Damien retirou-se de dentro de Pip, arrancando-lhe um último gemido, e, após descartar a camisinha, pôde finalmente relaxar ao seu lado. Estava igualmente esgotado. Com a mão limpa, acariciou a bochecha do britânico, atraindo seu olhar em sua direção, assim como seu belo sorriso.
— Você ainda vai me matar desse jeito. — disse Damien ao correr o lábio inferior de Pip com o polegar.
Pip abriu a boca para tentar dizer algo, mas tudo que saiu foram pequenos risos e sua respiração cansada. As palavras que dizia não faziam sentido algum. Damien o tinha deixado completamente fora de si.
Sorrindo com o canto dos lábios, o anticristo pressionou a palma da mão contra a bochecha de Pip e afagou seu rosto com o nariz.
— Descanse, amor. Temos um longo dia amanhã.
Inclinou-se para beijar os lábios de Pip uma última vez, sendo retribuído brevemente até o britânico adormecer, ainda com o sorriso no rosto.
Ele podia passar a noite toda beijando aqueles lábios e adorando aquele corpo se pudesse. Aos olhos de Damien, Pip era perfeito; desde o primeiro fio de cabelo à a pontinha dos pés, até o fundo de sua alma. Ele mal podia esperar para tê-lo em seus braços por toda a eternidade.
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