Dark as night.
6 Verdades.
Notas iniciais
Estávamos no meio da mata mais uma vez quando acordei, sentia minha cabeça doer tanto que queria ter continuado dormindo. Sentia-me aquecida e ainda dolorida, havia quebrado uma costela até onde achava e me lembrava. Não queria me mover, não queria sequer respirar, tudo me remetia à dor que me torturava.
Era noite mais uma vez, a brisa estava tão suave que me lembrava os dias abafados em vilas distantes do reino de Kernevath, ao menos era o que eu achava. Meu pai não me dizia muito os nomes dos lugares onde passávamos, talvez para evitar que eu tivesse más lembranças ou até mesmo para que eu não pensasse sequer em voltar para determinados lugares, sabendo quais seriam seus fins nos anos que decorreram.
As árvores eram altas e a mata era densa, mal podia ver o que havia a dois metros de mim. Meu pai parecia ter encontrado o lugar perfeito para nos escondermos. Ele havia feito uma pequena fogueira ao meu lado que me aquecia, Neah estava sentada do meu outro lado em uma quase cama feita de folhas e galhos certamente montada por meu pai, e ele sentava num tronco não muito distante e me encarava de modo preocupado.
— Tia Thena acordou, tia Thena acordou! – Gritou Neah ao meu ouvido, queria pedir para que ela parasse, mas meu pai o fez.
— Acalme-se, garota, não precisa gritar. Estamos no meio do nada.
— Pai.. – Choraminguei, minha voz era apenas um sussurro. Notei naquele momento o quão fraca estava.
— Fique quieta, Thena. Foi fácil trazê-la para cá desacordada, mas agora não será fácil se mover, você tem graves ferimentos.— Disse ele, fazendo-me virar o rosto para vasculhar com os olhos o lugar em que nos encontrávamos. – Mas já tomei as devidas providências.
— O que fez? – Olhei para baixo em desespero, buscando ver qualquer tipo de curativo desesperado de meu pai: ele não era bom com ferimentos, muito menos os graves.
— Acalme-se. Apenas tratei de seus arranhões e cortes, sua costela está a cargo de outra pessoa.
Não gostei de ouvir aquilo. A última coisa que eu queria era outra pessoa entre nós. Neah e meu pai me eram o suficiente para seguir em frente.
— Pai, eu não vou confiar minha vida a um desconhecido. – Retruquei como pude, sentindo meu corpo responder à minha atitude: uma boa pontada.
— Você não tem escolha agora, Thena.
— Sempre há escolhas, pai. Eu tenho outras opções. Posso andar ainda, minhas pernas estão inteiras, aguento a dor e vamos seguir em frente.
— E se alguém ou algo aparecer? O que fará? Servirá de isca e morrerá para que eu e Neah sobrevivamos e sigamos sem você? Isso não está na minha lista de opções. Você será devidamente tratada e cuidada, não seja teimosa.— Ele falava sério, mas aquilo ainda não era uma ideia que me agradasse.
— Quem? – Foi só o que perguntei.
— Um velho amigo nosso.
— Nosso? – Arqueei uma de minhas sobrancelhas.
— Sim, nosso.
— E como esse nosso amigo vai nos encontrar no meio do nada? – Meu tom era irônico e exigiu algum esforço de mim, logo a dor me fez gemer e praguejar mentalmente.
— Digamos que ele saiba das coisas. – Eu soube naquele momento que não teria mais respostas, então apenas me contentei em fitar o céu noturno quase completamente impossível de se ver graças às copas das árvores altas que nos rodeavam.
Demorei um pouco até passar a respirar mais calmamente, embora ainda sentisse dor. Tudo começou a voltar à minha cabeça em flashes até que eu me lembrasse perfeitamente de tudo que havia acontecido no Hellore. Tudo naquele momento me trouxe um sentimento de desespero e dúvida. Corri os olhos até meu pai e vi-o afiar uma lança ao lado de seu arco. Engoli em seco.
— Está bem? – Perguntou-me ele.
— Sim. – Menti.
Bom, talvez não fosse uma completa mentira. Não quis pensar a respeito e continuei apenas debatendo em minha mente tudo que me havia sido dito e tudo que havia acontecido. Lembrei das feições de Hyth se transformando, dos Gors carregando meu pai e de todas as palavras sobre os Nascidos que entraram em meus ouvidos e se fixaram à minha memória como sanguessugas. E aquelas informações me estavam sugando a energia e toda calma e concentração que eu tinha. Eu não diria nada ao meu pai por hora.
O som de galhos se quebrando me tiraram de meu transe e rapidamente vi meu pai se colocar de pé segurando sua lança e tirando, repentinamente, um facão da cintura. Era horrível ser apenas uma espectadora e possível vítima do que quer que fosse. Neah levantou-se e segurou minha mão com firmeza, apertei sua pequena mão como me foi possível, mas até aquilo me fez sentir uma pontada na costela.
— Sou eu, Callec. – Disse uma voz cansada no meio da mata.
Tentei ver quem era, mas não consegui, quem quer que fosse ainda estava coberto pelas folhagens.
Bem, não era apenas uma pessoa, mas sim um grupo de cinco pessoas. Senti-me como um animal em exposição, só faltava discutirem entre si quem me compraria e me faria de jantar.
Todos me olhavam, aquilo me incomodou. Odiava ser notada, odiava sequer que me dirigissem o olhar. Quanto mais invisível fosse, melhor, mas não foi o que consegui naquele momento. Eu era, de fato, o centro das atenções.
Mordi o lábio e virei o rosto para o lado contrário, encarando Neah e vendo-a sorrir e assentir para mim, como se tentasse me encorajar, como se tentasse dizer que eu poderia confiar naquelas pessoas. O problema era que eu não confiava, não acreditava.
— Então esta é Thena? – O dono da voz cansada que eu ouvi era um velho de cabelos cinza escuros e longos, assim como sua barba.
Os olhos eram azuis, do tipo que beirava o branco, tão claros que hipnotizavam. Sua boca estava escondida pela barba, mas ainda assim pude ver seu sorriso de orgulho e satisfação. Trazia um cajado consigo, ou um simples pedaço de pau usado para se firmar de pé, as roupas eram simples e mais me lembravam um vestido longo e coberto de panos, visto que ele usava alguns casacos improvisados com restos de tecidos velhos.
Não me atentei muito aos demais, o velho era o foco naquele momento, pois era quem conversava com meu pai.
— Garota, você cresceu. – Disse o velho ao se aproximar de mim, senti o nervosismo de Neah ao vê-lo tão próximo a mim.
— Relaxe, pequena, eu vou te proteger. – Murmurei, olhando-a. Não sabia de onde me vinham tais palavras tão repentinamente, ainda mais em minha atual situação. Ela relaxou assim mesmo.
— No momento, digamos que eu esteja aqui para protegê-la de você mesma. Se continuar a falar e se movimentar, só vai piorar para que melhore.
— Esse é Joko, ele me ajudou quando você ainda era um bebê.— Meu pai havia se colocado ao meu lado e tinha uma expressão triste.
Meu peito doeu, como uma facada. Aquilo estava prestes a começar. Eu sabia o que estava por vir.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas, quis balançar a cabeça negativamente de maneira frenética, mas sabia o quanto aquilo doeria ainda mais em mim se o fizesse. Fiquei quieta, embora chorando.
— Deixe que eu explique a ela, Callec. – Disse Joko, dando uma batidinha no ombro de meu pai e se voltando para mim. Senti-o segurar minha mão, eu quis puxá-la para longe, mas ele a segurou firmemente. — Seu pai fez muito por você, Thena. Veja bem, dezenove anos é o maior tempo que um Nascido sobreviveu sem ter que virar um caçador da própria raça, sem ter que virar um escravo do rei, como o que eu soube que você matou.
Meus olhos ardiam e meu rosto estava quente, Neah apertou minha mão e correu a mãozinha livre para meus cabelos, estes espalhados no chão em como um rio negro.
— Tia Thena vai ficar bem.. – Murmurava ela.
— Quando seu pai veio até mim, foi porque eu mesmo o havia alertado do filho que teria, eu alertei sobre o que você seria. Seu poder era notável quando ainda na barriga de sua mãe. Callec e sua mãe, Bertha, conseguiram sobreviver por um longo tempo com minha ajuda. Não quero que me veja como um inimigo, pois é a última coisa que quero que me veja como. Sou um amigo, não inimigo. – Explicava Joko, eu não queria ouvi-lo.
— O que é você? Eu não sou uma Nascida! – Gritei, as lágrimas descendo fervorosamente.
— Você é, Thena. Pois bem, sou um mago curandeiro, anulei seu poder e a fiz invisível às criaturas e demais seres que pudessem buscar por você.— Sua mão apertou a minha de modo suave, eu ainda queria tirá-la dali.— Seu poder foi se acumulando com o tempo, mas ainda assim o que fiz a manteve longe da atenção do reino, mas notaram que faltava alguém dentre aqueles que eles buscavam e achavam. Acredite, o Rei tem grande poder, tanto que não deixa que nem mesmo um Nascido escape de suas garras, mas você escapou, e foi por isso que Hyth foi mandado atrás de você, pois um Nascido sente o outro.
— Por que eu não o senti, então, se sou uma Nascida?— Retruquei quase sem voz.
Se continuasse chorando, logo começaria a soluçar, e os soluços me causariam dor, mas não pude evitar. Tentei respirar fundo e virei o rosto para encarar Joko. Olhei rapidamente para os outros quatro que estavam atrás dele, todos nos observavam com curiosidade, especialmente para mim, vez ou outra. Encarei o velho.
— Pois até então você simplesmente não aceitava a possibilidade de ser uma Nascida, não até Hyth ir até você. – Ele soltou minha mão e tocou minha testa repentinamente. — Ela está com febre, Lena, venha cá. – Joko chamou uma mulher de cabelos castanhos curtos que rapidamente se colocou ao meu lado também e me tocou a testa quando o velho tirou a mão, não devia ser muito mais velha que eu. Ele continuou: — Agora que você foi informada, seu poder se tornará ainda mais visível e notável. Dezenove anos de poder acumulado e suprimido, sem ter sido gasto com nada, suponho.. Você nunca fez nada de muito extraordinário para uma garota, não é mesmo?
— Ela gritou, vovô! Ela gritou muito alto, doeu os ouvidos de todo mundo! Doeu. – Neah levantou de repente ao meu lado, os bracinhos erguidos enquanto ela gesticulava e colocava as mãos nos ouvidos para demonstrar. — Ela fez homem mau cair, os bichos correram, ela gritou alto.
Fiquei surpresa, pois aquilo era algo do qual eu não me lembrava, mas que voltou rapidamente à minha memória quando vi Neah com as mãos nos ouvidos.
— Então você já rugiu.— Joko sorriu.
— O que.. o que isso significa?— Indaguei, olhando a tal Lena com a mão em minha testa, eu não fazia ideia do que diabos ela estava fazendo.
— Você usou seu poder sem saber.
— Eu não quero saber de poderes. Eu não tenho poderes. Eu não quero ser uma aberração que causa mortes todos os dias. – Resmunguei, parando então para pensar nas pessoas que haviam morrido em todos os lugares que eu já havia estado. As lágrimas tornaram mais uma vez a cair rapidamente. — Quer dizer.. então.. Todas as pessoas que morreram, foi tudo por minha causa, minha culpa?
— Não pense dessa forma, Thena.
Eu odiava O Nascido e, depois, Os Nascidos, e agora descobria que me odiava. Por que aquela história me parecia tão verídica? Por que eu não conseguia duvidar de nada que me era dito? Eu costumava duvidar, costumava retrucar. Mas tudo parecia tão verdade que me limitei a ouvir e chorar, e me odiar daquele momento em diante. Eu não merecia viver, não pelo número de vidas que haviam sido sacrificadas por alguém como Hyth, alguém como eu.
— Me matem. – Pedi.
— Não. – Meu pai rapidamente voltou para perto de mim.
— Me matem!
— Não, Thena! Você é mais forte que isso, você não é assim, você não desiste facilmente de nada. Não peça para ser morta, não faça isso. – Meu pai me segurou pelos ombros, Lena havia se distanciado e Joko tentava tirar meu pai de cima de mim.
— Thena, você verá que isso não é uma atrocidade, você verá que há muito a ser feito por você.
— Eu só queria paz, uma vida normal, cuidar de meu pai e cuidar da Neah. Ter uma família, não precisar fugir, não precisar ter medo, não precisar dormir do lado de fora para ter certeza de que não há Berenes, Gors ou quaisquer outras coisas se aproximando para nos matar.
— E morrer vai fazer tudo parar? Outros nascerão depois de você, é um ciclo.. Você pode evitar isso, Thena. E para isso, tem de desejar viver. – Joko estava sério, meu pai estava no chão e me olhava preocupado.
— O que? – Solucei, a costela doendo.
— Você vai ter que acreditar em mim, vai ter que confiar no seu pai e em mim.. Em nós.
— Não quero. – Murmurei, voltando os olhos para o céu.
— Mas vai. – Joko bateu palmas duas vezes e tudo escureceu para mim.
Eu estava acordada, mas meus olhos estavam fechados, podia ouvir e sentir tudo à minha volta. Não sabia o porquê de tudo aquilo, mas logo senti o tecido de meu vestido ser cortado na altura de minha barriga até pouco abaixo dos seios. Tentei me mover, mas não consegui. O que estava acontecendo? Eu não via nada, não me movia, e não pude falar quando tentei.
— Acalme-se, Thena. Temos que curá-la o mais rápido possível ou não vai ser fácil recuperar sua costela. – Dizia Joko.
Não conseguia dizer o que eles poderiam estar fazendo comigo, mas logo senti minha pele ser aquecida até que começou a ser agonizante. Gemi e tentei me retorcer, mas tudo foi em vão.
— A tia vai ficar bem? – A voz de Neah era distante, onde ela estava?
— Vai sim. – Disse outra voz, esta, masculina, provavelmente de alguém que estava com Joko, mas não reconheci.
'Por favor, faça isso acabar logo!'
Não soube quanto tempo aquilo durou, mas quando abri meus olhos, todos já estavam a alguns passos de distância e me observavam com curiosidade, incluindo meu pai, Neah e Joko.
— O que estão olhando? – Indaguei, perturbada.
Por impulso, me coloquei sentada rapidamente, como que procurando vasculhar o que quer que tivesse em meu corpo que os deixasse tão curiosos. Não havia nada, nem mesmo um pequeno corte, apenas minha pele intacta e clara como sempre foi.
— Você estava se curando sozinha, não precisei fazer muito. Apenas acelerei o processo.— Joko sorriu e gargalhou, a voz rouca e cansada fazendo os outros sorrirem. Meu pai pareceu aliviado.
Eu não sentia mais nada, nem dor, nem agonia, nada. Tudo estava perfeitamente bem. Até mesmo os cortes e arranhões haviam desaparecido. Neah correu em minha direção e me abraçou. Segurei-a e encarei os seis olhares voltados para mim.
— O que fez comigo?
— Você está fazendo tudo sozinha, Thena. Você é grande. Esperamos muito por você.— Disse Lena com um sorriso esperançoso.
Nada estava me agradando desde que a caravana havia sido destruída, mas algo me dizia que as coisas só piorariam dali em diante. Eu tinha certeza.
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