Dark as night.

7 Descoberta.


Notas iniciais
Bom, mais um capítulo. Espero que estejam gostando, huh? Boa leitura.

Aquela história toda de esperarem muito de mim simplesmente não entrava na minha cabeça, era impossível. Apenas isso.

Dormirmos no meio da mata naquela noite, não que fosse um problema, mas passei a noite toda rolando na folhagem com a sensação de estar sendo observada, acordando e dormindo. Certamente levantaria com olheiras quando todos acordassem.

Minhas costas doíam, mas era tudo consequência da noite que tivera. Meu pai tocou minha testa para me acordar como quando era pequena. Neah dormia ao meu lado, foi difícil nota-la ali.

Passamos boa parte do dia caminhando, meu pai ia na frente com Joko, os assistentes do velho logo atrás, e Neah e eu por último. O tempo quase todo a loirinha estava em minhas costas.

Eu evitava pensar em qualquer coisa que me foi dito, por mais difícil que fosse. A caminhada me cansava, mas logo estava recuperada novamente. Estava começando a sentir falta de quando ficava exausta.

— Então, como se sente? – Era Lena ao meu lado, quase saltei de susto.

— Terrível. – Respondi quase sem vida em minha voz.

— Tia Thena, quem é ela? – Neah estava em meu pescoço.

— Esta é Lena, amiga do velho.

— Oi, pequena. – Lena cumprimentou a loirinha, que sorriu.

— E então, o que pretende fazer daqui em diante? – Perguntou a mulher.

Mordi o lábio.

— Sobreviver. – Respondi.

Ela não pareceu gostar de minha resposta, mas nem eu mesma gostei, mesmo que fosse verdade.

— Pelo que sei, vocês, Nascidos, têm poderes. Quais os seus?

— Não faço a mínima ideia. – Concluí naquele momento que Lena era tão irritante quanto uma criança birrenta.

— Pois em breve deve descobrir, sinto isso.

— Não estou interessada nesses tais poderes. – Comentei rapidamente.

— Deveria.

— Qual seu grau de proximidade com o velho, Lena? – Mudei de assunto ou estouraria com ela.

— Joko quase me criou. Sou sua aprendiz há alguns anos.

— Interessante.

Talvez fosse, talvez não, eu só queria que ela calasse a boca e me deixasse em paz. Consegui o que queria quando Lena passou a conversar com Neah, a pequena pareceu estar contente com aquilo.

Ouvi um breve ruído não muito longe de nós, algo que parecia ser grande.

Era uma queda d’água. A água era tão cristalina quanto qualquer outra que me lembrava ter visto. Neah imediatamente quis descer.

— Temos que atravessar para continuar. – Disse meu pai, repentinamente, para todos.

— Não podemos contornar? – Indagou um dos homens de Joko.

— Não podemos nos arriscar perder tempo, há criaturas em todos os lugares. Se está interessado em morrer, vá sozinho. – Foi Joko quem respondeu.

— Não seja rude, velhote. – Lena foi até o homem e o abraçou. Preferi ficar longe da confusão.

Mantive os olhos em Neah e os ouvidos na conversa que ocorria ali, tinha que prestar atenção em tudo. Detalhes eram indispensáveis.

Não houve um único momento em que a mata não fosse densa até então, por alguma razão aquilo me preocupava.

— Temos que fazê-la exigir de si. – Comentou Joko para meu pai, eu sabia que falavam de mim.

— Como?

— Ela é a mais forte dentre todos nós, só não sabe ainda. – Respondeu o velho.

Me enfiei entre os dois.

— Sou um bebê que não retruca pra vocês debaterem entre si sem que eu opine por acaso?

— Relaxe, filha.

— Relaxar.. Relaxar é a última coisa que posso fazer. – Todos os olhares estavam em mim.— Façamos o seguinte: vamos um pouco mais adiante, onde a água não esteja tão forte como aqui, eu vou na frente com Neah no pescoço e vocês farão uma fila atrás de mim. Ninguém tem corda aqui até onde sei.

— Eu tenho. – Disse outro dos homens de Joko, o mais novo depois de Lena, supus.

— Você tem? – Joko pareceu surpreso.

— Tenho. – O homem deu alguns passos em minha direção e me entregou a corda.

Era fina, mas supus que serviria de algo ao menos em algum momento se fosse necessário. Esperava não haver momento algum que realmente precisássemos da corda quando fossemos atravessar.

Suspirei longa e profundamente enquanto amarrava a corda em minha cintura, concluí que seria burrice amarrar Neah da mesma forma que seria burrice deixa-la em meu pescoço: amarrada ela poderia se afogar por ser pequena, em meu pescoço nada além de meus braços poderiam protegê-la. Os demais seguraram a corda enquanto eu segurava as pernas de Neah em meus ombros.

— Vamos. Todos seguros e prontos?— Olhei para conferir.

A água corrente era fria como gelo, mas àquela altura era, também, refrescante. Alcançava minha cintura e vez ou outra quase alcançava meu busto. As pedras debaixo de meus pés eram escorregadias e quase o tempo todo eu tinha que gritar para alertar os demais. Neah se firmava como podia e aos poucos íamos atravessando.

Eu tinha que tatear o chão sempre em busca de pedras mais firmes e o menos escorregadias possíveis para evitar acidentes. Vez ou outra vacilava graças à força da água que, mesmo fraca, ainda não era nula.

Foi Lena a única pessoa a quase ser carregada pela água, mas meu pai a segurou a tempo.

— Thena, eu não quero te preocupar, filha, mas tem como apressar o passo? – Papai disse do final da fila.

— O que houve? – Virei o rosto e notei todos fazendo o mesmo.

Havia uma criatura sobre uma das pedras não muito distante de nós. Achei que fosse alguma pegadinha que meus olhos estavam me pregando.

— Pai.. – Murmurei, mas ainda com o tom de voz audível.

— Não, eu não sabia que ainda existiam, achei que estivessem extintas. – Ele me respondeu sem que eu precisasse pronunciar a pergunta que pairava em minha mente.

— Fiquem quietos. – Engoli em seco logo depois de falar.

A criatura lembrava uma mulher, exceto pela parte inferior que se assemelhava a um peixe. Sim, uma sereia. Ou ao menos era o que eu achava que aquilo era. Dei mais um passo, mas ela me encarava. Neah agarrou-se mais firmemente a mim como pôde. Todos acompanharam meu passo, eu continuava andando, mas ao mesmo tempo mantinha os olhos fixos à criatura. Ela riu e desceu da pedra, os cabelos loiros platinados misturados à água. Sua risada parecia presa em minha mente enquanto eu paralisava.

— Rápido! – Gritei repentinamente, apressando ainda mais as passadas, mas a água parecia simplesmente não estar cooperando naquele instante.

— Por que a pressa, Nascida? – A sereia surgiu diante de mim, parei.

— Precisamos atravessar. – Respondi seriamente, mas minhas pernas tremiam, e não era pelo frio da água.

— Não pode ficar um pouco para brincarmos?

Sua voz era suave e jovial, algo que beirava a adolescência e toda a inocência de uma criança. Tinha os olhos amarelados e afunilados, tais como os de um felino, podia observar seu olhar acompanhar meus movimentos. A pele era pálida e eu conseguia enxergar algumas de suas veias arroxeadas, seu aspecto lembrava uma garota comum. Algumas poucas escamas eram facilmente notáveis em seus braços, busto e pescoço, o rosto brilhava debaixo da luz solar e eu facilmente me perderia em seu rosto bem desenhado. Seus dentes não enganavam, eram afiados e em grande quantidade, como um tubarão.

— Não, não posso.

— Devo insistir? – Indagou-me a criatura, nadando à minha frente, indo de um lado a outro. Aproveitei para dar um passo, todos seguiram meu passo e a sereia rapidamente parou os movimentos. — Na-não, Nascida.

— O que quer?

— Brincar.

— Aposto que nossos conceitos de brincar são bastante diferentes um do outro.

— Talvez.

— Com licença.

Dei mais um passo, ela emitiu um ruído desagradável e expôs os dentes, a pele enrugando diante da careta feia que tomou seu rosto.

— Eu disse: com licença. – Repeti, dando mais um passo.

— THENA! – Gritou Lena no final da fila, quando virei para ver, meu pai havia desamarrado a corda e tentava enforcar a morena.

— Pai, o que está fazendo?

— Estamos brincando. – Os cabelos platinados estavam em meu ombro, a cabeça da sereia pousava próxima ao meu.

Seus dedos deslizavam por minha bochecha, as unhas longas e afiadas correndo por meu pescoço e o sorriso serpenteando em seu rosto. Lena engasgou quando meu pai apertou ainda mais a corda em seu pescoço.

— Você o está manipulando. – Sussurrei mais para mim mesma que para a sereia.

— Sou Enolia, pertenço a estas águas.. Péssimo lugar para estarem. – Ela riu, uma risadinha irritante que ecoou em meus ouvidos por alguns bons segundos.

— Pare com isso. – Exigi, soltando uma das pernas de Neah e segurando o braço de Enolia, forçando-a para frente a fim de encará-la. — Estou mandando.

— Você sequer tem conhecimento de seus poderes, Nascida, como espera poder mandar em mim? Posso fazê-la em pedaços em questão de segundos. – Seu tom era ameaçador, eu estava com medo, mas não admitiria nem que fosse a última coisa que me restasse.

— Estou mandando, Enolia.

— Thena.. – Meu pai choramingou.

Agarrei o pescoço de Enolia com a mão livre e ela segurou meu pulso com suas mãos, as unhas começando a furar minha pele. Ardia, muito, mas não demonstrei qualquer emoção senão ódio quando apertei sua garganta. Foi a vez da sereia de engasgar, seu rosto passou de ameaçador a amedrontado.

— Solte-os. – Repeti.

Meus braços queimavam por dentro e minha cabeça parecia prestes a explodir.

— Sereias também possuem veneno, sabia? – Enolia murmurou entredentes, fincando as unhas ainda mais em minha pele.

Não era tão branca como ela, mas pude ver as linhas negras que minhas veias estavam se tornando com o veneno da sereia.

— Droga.. Pai! – Praguejei, olhando em desespero para meu pai.

— Tia Thena... Tia Thena é forte. – Neah abaixou a cabeça e me encarou ao dizer.

— Criança tola. – Enolia soltou meu pulso e ia erguendo os braços até Neah.

— Não ouse! – Gritei, furiosa.

O corpo da criatura que era Enolia pareceu leve como uma pena para mim, não foi difícil lança-la contra uma rocha a alguns metros de distância de nós. A rocha foi quebrada e Enolia agarrou-se nos restos da mesma. Seus olhos eram de um vermelho sangue quando me encarou de longe, eu não tinha tempo para pensar em minha força naquele momento. Quando olhei para trás, Lena já massageava o pescoço e meu pai já voltava a amarrar a corda na cintura. Desamarrei a parte que estava presa à minha cintura.

— Certo, sinto que isso é comigo agora. – Resmunguei, correndo dentro da água até a margem.

— O que vai fazer?— Indagou Joko, não parecia preocupado mas, sim, curioso.

— Bom, pelo visto eu tenho mais força do que imaginava. Se me desculparem.. – Saí da água e pus Neah no chão.

Comecei a puxar a corda, ela estava arrebentando quando passei a tirar todos da água, um por um. Enolia havia desaparecido e aquilo fez todos os meus sentidos entrarem em estado de alerta. Meu pai foi o último e eu suspirei aliviada quando vi todos ilesos respirando de maneira ofegante. Pus as mãos na cintura e respirei longa e profundamente, meus braços doíam e minha cabeça parecia estar sendo esmagada.

— Tia Thena.. – Neah segurou meu rosto e me olhava preocupada. — Por que seus olhos estão vermelhos? – Perguntou-me.

— Não estão. – Respondi.

— Thena, estão.. – Joko murmurou, parecia confiante e extasiado quando se aproximou.

— Não tão rápido, Nascida! – Enolia surgiu na margem, colocando mais da metade de seu corpo para fora da água e agarrando meu tornozelo.

Escorreguei e finquei os cotovelos na grama, mas não estava adiantando muito.

— Corram! – Gritei antes de ser puxada para dentro d’água.

Enolia não estava sozinha: havia outras seis sereias à minha volta. A água agora me arrastava para longe de onde estavam os outros. Vi-os jogando a corda inúmeras vezes dentro da água, mas na única vez que consegui agarrá-la, ela arrebentou. As sereias me levaram mais rapidamente para adiante, eu já não conseguia ver meu pai, Neah, Joko e os outros. Pedras faziam o caminho ser doloroso, algumas boas vezes Enolia e as demais sereias empurravam-me contra as pedras, fazendo-me bater contra e sentir meu corpo todo doer.

Havia uma queda d’água logo à frente. Todas as sereias se agarraram à rochas antes, consegui agarrar a cauda de uma morena, a mesma se debatia e eu senti minha mão sendo cortada. A força da água estava além do que eu imaginei que estaria. Exigiu muito esforço para que eu conseguisse escalar a cauda da sereia e agarrar seus ombros para me segurar e não cair.

— Solte-me, Nascida! – Gritou ela, os dentes visíveis o suficiente para me aterrorizar.

Engoli em seco e agarrei seus pulsos, ela soltou a rocha e arranhou-me no rosto, mas caímos juntas.

— Carya! – Enolia gritou do alto e se jogou em seguida.

Aquilo não acabaria bem.

Quando chegamos ao fim da queda, havia quatro sereias à minha volta: Enolia, Carya e outras duas loiras.

Acreditei ser a única ferida ali, eu manquei até a parte mais rasa e vi-as se aproximando aos poucos, nadando, até ver pernas surgirem.

— Isso é sério? – Resmunguei.

— Talvez te matar não seja necessário.. – Murmurou Enolia.

— Talvez ganhemos alguma recompensa pela Nascida.. – Disse outra loira.

— Pobre garotinha.. – Carya estava ao meu lado e repentinamente segurou meu rosto.

Caí sobre alguns poucos cascalhos e apoiei-me com as mãos, só então notei o veneno em meus braços se tornando ainda pior, escurecendo também minha pele.

— Normalmente, Nascidos se recuperariam fácil disso, mas você é uma pobre que não sabe de nada, não é mesmo, Thena? – Estavam todas em cima de mim naquele momento, os hálitos cheiravam a sangue, o odor metálico me enojava e só depois pude perceber algumas ossadas ao meu redor.

— Pobre Thena.. – Repetiam uma após a outra.

Meu corpo queimou em fúria.

❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖❖

— Ela vai ficar bem, Callec. Confie em sua filha, ela vai se descobrir aos poucos. Nossa prioridade agora é chegarmos até onde quer que ela possa estar. – Joko caminhava de um lado a outro tentando acalmar o pai de Thena, que tentava acalmar Neah, chorosa, nos braços.

— E se ela não sobreviver à queda, Joko? – Indagou Lena.

— Ela vai sobreviver. Ela é diferente.

Notas finais
Vamos lá, quero interação de vocês. Seguinte, no último capítulo Joko apareceu com mais 4 pessoas, certo? Certo. Uma dessas pessoa é a Lena, as outras três pessoas são homens. Quero que vocês participem, dando ideias de características e nomes para esses personagens. *-* Quero que sugiram nomes, idade, características físicas e alguns pontos sobre as personalidades. Eu vou escolher e vão aparecer no capítulo seguinte ao que eu postar hoje. Imaginem que liiiindo isso, ó. rs Então, os personagens que vocês descreverem serão um pouco mais presentes e conhecidos no seguinte. Comecem, vamos. *-*