Dark as night.
8 Sou cega?
Notas iniciais
Meu corpo parecia ter sido esmagado quando todas avançaram em mim, eram muito fortes. Eu não sabia que efeitos o veneno de uma sereia tinha, mas meu corpo todo estava sofrendo com uma dor que eu nunca havia sentido.
Suas unhas me rasgaram a pele e eu não conseguia e mover. Conforme as feridas eram feitas, rapidamente eram curadas, e era o que piorava minha situação. As risadas invadiam minha mente como lâminas.
— Como se sente, Thena? Está se divertindo? – Enolia segurou meu pescoço e me colocou de pé.
— Nós estamos. – Responderam as outras.
Eu realmente não tinha noção do que era capaz de fazer, mas Joko dizia que eu era grandiosa por alguma razão. Queria não acreditar naquilo. Eu só sabia, até então, de minha força, embora não tivesse certeza se ainda a possuía ou não. Teria que arriscar, por mais temerosa que estivesse, afinal, aquilo só provava ainda mais as palavras de Hyth e Joko. Não gostava de pensar a respeito, mas não era como se houvessem outras alternativas.
Mais uma vez as risadas, me irritei. Chutei Enolia no peito e ela foi jogada para longe enquanto eu caí no chão bruscamente. Vi-a afundar na água e notei os olhares surpresos das outras em mim. Me arrastei alguns poucos centímetros até Carya me puxar pelo tornozelo e atirar-me contra uma árvore. Elas vieram andando atrás de mim. Com algum esforço, fiquei de pé. Tentei lembrar dos treinos com meu pai, embora não achasse que aquilo funcionaria tão bem com sereias. Uma das outras loiras saltou e investiu contra mim, me esquivei e chutei suas costas, fazendo-a cair. Carya e a outra vieram logo em seguida.
Segurei seus pulsos em uma brecha e puxei-as com força, ouvi um estalar desagradável antes de ouvi-las gritar. Eu havia quebrado seus braços?
Recuei alguns passos e fui apanhada pela primeira loira, seu braço estava em volta do meu pescoço e eu o agarrei para tentar me soltar, prendi a respiração um segundo e gritei.
Foi da mesma maneira de quando estivera no Hellore, mas, por ter consciência de que era eu, meus ouvidos não doíam. A sereia me soltou e eu a apanhei, jogando-a no chão. Pisei em seu ombro e ouvi um novo estalar seguido por mais um grito.
Senti-me bem com aquilo, bem o suficiente para sorrir. Não parei para pensar se era certo ou errado me sentir daquela maneira, não tinha tempo. Carya e a outra estavam agachadas e atordoadas graças a meu grito. O trio começou a rastejar de volta para a água. Foi quando vi Enolia caminhar em minha direção com o rosto totalmente diferente e desfigurado.
Sua pele havia se tornado azulada, as unhas eram garras longas e as escamas pareciam sobressair como lâminas, os dentes de tubarão pareciam saltar de sua boca e seus olhos agora fitavam-me estreitos enquanto ela se aproximava quase que correndo.
— Merda! – Girei o corpo rapidamente e corri.
Busquei me agarrar a uma árvore quando Enolia se aproximou e por pouco não atingiu minhas pernas com as garras. Um grande pedaço do tronco foi arrancado e senti a árvore pender um pouco para o lado já que não era das maiores e meu peso era algo significativo para sua sustentação. Despenquei rolando alguns metros dali, a mata me fazendo pequenos cortes pelo corpo. Por que diabos eu ainda estava de vestido quando podia arrumar calças e uma blusa? Quando me coloquei de pé Enolia estava diante de mim e me esmurrou o rosto, caí novamente. Seu pé parou em meu peito e ela o forçava, segurei-a pelo tornozelo e tentei respirar, por mais difícil que fosse.
— Inútil, não? – Não soube como consegui distinguir, mas ela sorria.
— Você que é inútil. – Resmunguei.
Com uma das pernas, forcei o corpo, girando no chão e dei uma rasteira em Enolia, podendo respirar tranquilamente quando ela foi parar no chão. Subi na sereia e agarrei seu pescoço com uma das mãos enquanto a esmurrava com a outra. Suas unhas estavam mais uma vez em meus pulsos, mas eu já não sentia dor ou qualquer efeito de seu veneno. Continuei esmurrando seu rosto, minha mão parecia anestesiada, pois nada eu sentia. A cada novo murro eu sentia cada vez mais suas unhas em minha carne, Enolia começou a se debater abaixo de mim, mas não movi um músculo sequer até ver seu sangue começar a espirrar, o vermelho escuro se destacando em meio às folhas verdes e algumas poucas secas no chão. Aquilo me aliviava, quanto mais ela se debatia, mais eu apertava seu pescoço e esmurrava seu rosto. Estava sendo consumida pelo ódio e pela raiva, por tudo que havia guardado durante anos que envolvesse criaturas como ela. Suas unhas afrouxaram aos poucos em minha pele e eu mesma comecei a sangrar, mas não parei de investir contra ela. Olhei para cima e vi Carya e as outras duas sereias observando-me de longe, pareciam refletir se viriam ajudar Enolia ou não. Exibi um sorriso que eu soube no mesmo instante que não era normal, algo que beirava o sádico e satisfeito. Elas recuaram e mergulharam na água. Quando olhei para baixo, Enolia já não se movia e seu rosto estava destroçado. Respirei longa e profundamente quando parei, ao observar minha mão pude notar uma espécie de pele ou casca revestindo-a em um tom prateado escuro. Aos poucos desapareceu, foi quando finalmente senti a dor em minha mão.
Escorei-me numa árvore e senti minhas pernas bambearem, mas eu não podia fazer muito mais que apenas esperar e me recuperar. Fiquei ali alguns poucos minutos, esperando até que estivesse firme novamente, sempre com os olhos e ouvidos atentos a qualquer coisa que pudesse surgir, isso incluía Carya e as outras sereias, já que o corpo de Enolia permanecia na mata a apenas alguns passos de mim.
Decidi que era hora de sair dali e me vi perdida quando finalmente olhei com atenção a floresta. Poderia tentar voltar e encontrar os outros, mas as chances de continuarem lá eram mínimas levando em consideração que eu havia sido carregada pelas sereias até ali, de certo viriam atrás de mim. Suspirei longa e pesadamente, praguejando em meus pensamentos o quanto aquilo estava se tornando complicado nos últimos tempos. Segui a esquerda, sabe-se lá o porque.
As folhas não eram tantas naquela parte, mas ainda me impediam de enxergar perfeitamente. Continuei caminhando, parando algum tempo depois para pensar que havia me esquecido de pensar no principal que meu pai me ensinou por anos: procurar por água e comida.
Estupidez a minha.
Curvei o corpo e me apoiei em meus joelhos enquanto olhava em todas as direções, eu não fazia a mínima ideia de onde estava, mas sabia que chegaria a algum lugar em algum momento.
Sentia sede e aos poucos a fome começou a tomar conta de mim, tentei ignorar ao máximo e forçava meus pés a andar ainda mais. O longo vestido começou a atrapalhar, então sentei e forcei o tecido até que começasse a rasgar, arranquei um bom pedaço que acabou deixando parte de minhas pernas amostra, seria mais fácil caminhar daquela maneira, embora tivesse consciência de que poderia me machucar mais facilmente.
— Ora, ora, mas já estamos íntimos assim? Não era eu quem deveria despi-la? – Disse uma voz masculina logo à minha frente.
Levei um belo susto e encostei na árvore, pegando o tecido rasgado e colocando-o na frente de meu corpo.
— Rehr, encontrei ela! – Gritou o homem.— Venha logo.
— Quem..? – Murmurei.
— Cyen, muito prazer. Parece que você não me notou muito, não é? Isso não costuma acontecer, se é que me entende. Não tive a chance de conversar direito contigo antes.. – Ele cruzou os braços e sorriu para mim.
Por desatenção ou talvez puro desinteresse, demorei a relacionar aquele homem a o que ele falava. Era um dos homens de Joko. Era alto, até mesmo para mim, mas não alcançava 1,90 de altura. Deixei o tecido cair e encarei os olhos claros em um verde que me lembravam esmeraldas, seu cabelo era de um loiro médio que parecia há muito precisar de algum cuidado tamanha era a bagunça que estavam, mas ele não pareceu se importar. As veias de seu pescoço saltaram quando ele arqueou a sobrancelha direita, na qual havia uma cicatriz que ia até o canto do olho, parecia curioso; seu corpo era trabalhado, mas não tanto.
— É, não teria porque notar. – Respondi sem expressão. – Onde estão os outros? E quem é Rehr?
— Eu sou Rehr. – O moreno apareceu atrás de Cyen, ele sim era alto, com quase dois metros, disso eu tinha certeza.
Naquele momento comecei a resmungar comigo mesma como não os havia notado anteriormente? Rehr tinha os ombros visivelmente largos, e eu tive curiosidade de ver suas costas, pois certamente sua silhueta seria, no mínimo, curiosamente atraente. Os cabelos pretos eram curtos e bagunçados de modo que ficassem arrepiados, além dos braços definidos e dos olhos de cores diferentes, o direito sendo violeta e o esquerdo castanho claríssimo. Eu nunca havia visto aquilo e percebi, talvez tarde demais, que o estava encarando sem cessar, o que deixou tanto ele como eu envergonhados.
Cyen e Rehr eram, completamente, um o contrário do outro. E onde diabos Joko encontrou homens como eles para transformar em magos? Ou talvez já fossem. O que faz de alguém um mago? Isso seria algo que eu teria que perguntar ao velho quando o encontrasse.
— Certo, então.. Cyen, Rehr.. Onde estão os outros? Meu pai, Neah..?
— Vão nos encontrar a alguns metros de distância. Moune está nos esperando aqui perto. – Cyen mantinha o sorriso no rosto quando se aproximou e ofereceu a mão para que eu pudesse seguir caminho.
— Não precisa. – Murmurei, passando ao lado dele e indo até o lado de Rehr.
O moreno virou-se e tomou a frente, guiando-me, Cyen não ficou muito para trás, pois logo correu e se colocou ao meu lado. Perguntava-me quem era Moune e tentava acompanhar os passos dos dois homens. Ambos tinham vestes semelhantes: calça folgada e surrada, botas feitas da pele de algum animal e uma blusa que mais lembrava um colete. Eles realmente precisavam deixar os braços amostra? Passei a me perguntar se não estavam com uma espécie de sobretudo ou um casaco quando os vi pela primeira vez. Talvez não pudesse refletir sobre isso ao certo, já que não havia notado-os perfeitamente até aquele momento.
Andamos menos de cinco minutos e logo me deparei com mais um homem, este menor que eu e que cobria o corpo quase por inteiro com um manto negro, incluindo um capuz que me impedia de ver seu rosto. Parecia mais velho que os outros dois ao meu lado, mas percebi seus olhos brilhando um pouco e curiosamente eram violetas, assim como um dos olhos de Rehr. Seriam parentes?
— Esse é Moune. – Cyen sussurrou em meu ouvido. — Ele não gosta que saibam seu nome, mas finja que não sabe.
Gostaria de saber o porque daquilo, mas preferi manter-me quieta quando Rehr olhou para trás e me encarou seriamente antes de balançar a cabeça negativamente. Engoli em seco e prossegui, seguindo os três até parar em uma clareira onde havia uma pequena fogueira. Ao redor desta, Neah balançava o corpo para frente e para trás, assoprando vez ou outra o fogo enquanto Lena mexia em seus fios louros e cacheados.
— Chegamos, sentiram nossa falta? – Cyen caminhou até para ao lado da mulher e rapidamente se sentou.
— Tia Thena! – Neah correu em minha direção e me abraçou.
— Você está bem?
— Sim. E você, tia? – Os grandes olhinhos verdes me olhavam com preocupação.
— Estou bem. – Garanti, segurando-a no colo e beijando seu rosto.
Era bom vê-la novamente, mas não vi meu pai e nem mesmo Joko.
— Onde estão..? – Comecei a perguntar.
— Já devem estar voltando, foram te procurar, mas combinamos de voltarem antes de anoitecer. – Lena estava de pé e vinha até mim. — Que bom que está bem, Joko e Callec estão realmente preocupados. Vão ficar contentes em te ver. – Ela pegou minhas mãos e sorriu, ao menos até ver os pontos negros em minha pele.
Eu mesma não havia notado aquilo até aquele momento. Os furos feitos pelas unhas de Enolia não haviam desaparecido e o veneno negro ainda estava em minha pele, mesmo que não estivesse surtindo efeito algum.
— Vocês três, me ajudem aqui. Neah, meu anjo, fique sentada ali, por favor. – Disse a mulher repentinamente, a pequena atendeu o pedido e se sentou a alguns passos de distância, mas sem tirar os olhos de nós.
— O que foi? – Eu mesma comecei a me preocupar.
— Cyen, me traga um frasco vazio.
O loiro atendeu o pedido e rapidamente trouxe o frasco. Lena pressionou as pontas dos dedos em minha pele e pude ver, pouco a pouco, o veneno escorrer pelos furos em uma forma gelatinosa que me deu enjoos. Logo o recipiente estava cheio e Lena e Cyen pressionavam meus braços no intuito de retirar todo o veneno, até que meu braço estivesse em sua tonalidade natural e os furos estivessem cicatrizando rapidamente.
— Vamos acordar, Thena. Você está com uma cara terrível, viu algum monstro? – A piadinha de Joko não foi das melhores, mas me fez sorrir com o canto dos lábios.
Cochilei e não notei, Neah dormia em meu colo e meu pai me olhava do outro lado da fogueira. Já era noite.
Fale com o autor