Dark as night.
9 Beile.
Notas iniciais
Demorei alguns segundos até absorver toda a situação, mas fiquei feliz e satisfeita apenas pelo simples fato de ter Neah e meu pai por perto, e bem.
O restante do grupo estava ocupado, cada um cumprindo alguma tarefa, todas diferentes. Joko e meu pai conversavam quando finalmente me levantei, consegui atrair alguns olhares, mas preferi ignorar. A pequena loirinha sorriu ao meu lado e segurou minha mão, começou a saltitar e rir ao mesmo tempo que me fazia rodar no mesmo lugar.
– Neah, vou ficar tonta. – Declarei após alguns giros, parando para pegá-la no colo. – Estão todos bem? – Fiz de meu tom de voz audível o suficiente para todos.
– Nós que deveríamos te perguntar se está bem, não? – Disse o velho ao se colocar de pé e caminhar em minha direção.
Todos pararam o que estavam fazendo e voltaram sua atenção para nós, mantive minha postura e tentei me convencer que aqueles muitos olhares não me fariam agir de maneira diferente, eu tinha que aprender a lidar com aquilo.
Ainda estava confusa com muitas coisas e sabia que devia agradecimentos em demasia a Joko e todos os outros desde que apareceram. Limitei-me a encará-lo, forçando-me a sorrir com o canto dos lábios.
– Estou bem, obrigada. Aliás, seus homens me acharam, Cyen e Rehr.. E o outro. – Murmurei, lembrando-me do loiro me informando que Moune não gostava que soubessem seu nome, achei importante continuar fingindo que não sabia.
– Ah, sim, eles me contaram. E Lena fez questão de enfatizar o quanto meu filho pareceu empolgado. – Joko crispou os lábios e pousou a mão na barriga protuberante. Quem era seu filho?
Como se tivesse lido meu rosto, ele puxou Cyen para perto e olhou-o de baixo, tamanha a diferença de altura entre ambos. Seria possível serem pai e filho?
– Ele está seguindo meus passos, embora de início não tivesse qualquer talento para a magia, até começar a aprontar durante a adolescência.
– Entendi. – Murmurei.
Meu pai veio para meu lado e me abraçou pelos ombros. Eu sabia que ele ia começar a falar algo de mim, então rapidamente ergui a mão para impedi-lo e no momento seguinte pude ter certeza de que ele havia compreendido meu gesto. Suspirei aliviada assim que Lena deu uma risadinha e Neah escondeu o rosto em meu ombro.
– Perdão, aliás.. Eu não notei nenhum deles perfeitamente até encontrá-los na floresta. – Disse rapidamente, Cyen sorriu e se colocou à frente, tomando minha mão e beijando-a. Arqueei a sobrancelha em desconfiança, puxando minha mão. – Isso não era necessário.
– Ah, era sim. – Disse-me o loiro.
– Devo fazer algo? – Indagou Rehr assim que surgiu ao meu lado.
– À vontade, Rehr. – Foi Joko quem respondeu.
De repente houve uma troca de socos e golpes aleatórios entre os dois homens, aquilo me chocou, mas não falei nada, apenas me preocupei com o fato de que algum deles poderia acabar caindo contra a fogueira. Queimaduras eram a última coisa que eu queria ver. Ou quaisquer ferimentos. Estava cansada demais para isso.
– O que estão fazendo? – Decidi perguntar, só então atraindo a atenção para o ponto que eu realmente me interessava. Joko compreendeu o que eu quis dizer.
– Nos preparando. Talvez não devêssemos, mas estamos próximos ao reino de Kernevath. Nos distanciamos de Leorea e chegamos até Beile, estamos pelas redondezas. É uma região pobre, mas que ainda usufrui de riquezas que nem mesmo nós conhecemos. Somos nômades e meros seres inúteis até mesmo para os mais pobres dessa região. – O velho me passava as informações e aos poucos notei que as pessoas do grupo agora estavam todas sentadas de um só lado da fogueira. Sentei também, Neah ainda em meu colo, Joko de um lado e Cyen de outro. – Temo dizer que seja parte de tudo isso que devamos ir justamente para as terras do rei. – Joko parecia aflito ao dizer aquilo, eu queria não perguntar, mas não me contive.
– E por que eu deveria ir até as terras do rei?
– É lá que você se descobrirá como Nascida de verdade. – Seus olhos brilharam com entusiasmo. Eu nunca gostei quando Joko agia daquela maneira.
Abaixei a cabeça e fitei Neah em meu colo, tratei de acariciar seu rosto e fazer alguns afagos em seus fios loiros enquanto ouvia o que me era dito.
“Lembro-me que disse não conhecer por completo a história d’Os Nascidos, eu também não tenho total conhecimento, seu surgimento sempre foi um mistério, assim como sua evolução e como tudo acontece acerca destes. Por anos disseram que foram experimentos de magos, uma das muitas experiências onde uniam o sangue humano ao de animais. Os Nascidos fazem parte da única que aparentava ter dado certo. Fortes, com dons incompreensíveis fornecidos através da magia. Muitos morreram sem nem mesmo nascer, outros cederam ao rei e os restantes eram caçados e assassinados se não fizessem a vontade do rei e da classe mais rica.”
Todos pareciam fascinados o suficiente para sequer desviar o olhar de Joko. Neah parecia gostar de histórias também, eu gostaria de tê-la em meu pequeno círculo de crianças quando contava histórias antes de tudo começar a desmoronar e dar errado.
– Muitas das capacidades d’Os Nascidos ainda é desconhecida, e você é o que podemos chamar de espécime raro..
– Sem essa, por favor, já chega.
– Certo. Chega por hoje. Temos que comer! – Joko atendeu meu pedido e todos pareceram despertar de um tipo de transe.
Me espreguicei e observei enquanto Lena ia até uma grande trouxa e apanhava alguns velhos pratos de porcelana que me atraíram o suficiente para supor que deveriam ser roubados, no mínimo. Preferi não questionar a origem daqueles pratos e esperei até poder ver o que seria a tal refeição da noite.
Lena havia preparado uma mistura de feita de legumes e arroz e separou alguns peixes em pedaços de pau para assar. Esperava que tivessem conseguido aqueles peixes em algum lugar que não fosse nas águas onde Enolia, Carya e as outras sereias viviam.
Desfrutamos da refeição em grupo como foi possível. Há muito eu não passava algum tempo apenas distraída e sem me importar com o que quer que fosse.
Passamos a noite naquele pequeno acampamento, combinamos de montar guarda um a um enquanto os outros descansavam. Moune e Cyen foram os escolhidos da noite, mas pouco antes de amanhecer acabei acordando com alguns ruídos vindos de dentro da mata. O céu estava escuro e aparentemente nublado, as nuvens estavam baixas e não havia sequer uma estrela para atrair meu olhar curioso. Era Moune quem estava acordado, notei-o de pé não muito distante de mim e pisquei algumas vezes antes de vez sua sombra negra coberta pelo manto preto.
Ele virou bruscamente quando me sentei e esfreguei os olhos, tinha um enorme facão em mãos e o rosto franzido demonstrava uma selvageria animal que eu jamais havia visto no rosto de uma pessoa normal até então, engoli em seco quando notei a ponta da lâmina em meu pescoço, roçando suavemente. Permaneci imóvel até que ele recuasse a arma e me encarasse.
– Desculpe. – Sussurrou, eu apenas assenti.
Preferi ficar quieta observando-o enquanto abraçava os joelhos e respirava da melhor forma que me era possível após uma situação daquelas. Levantei depois de alguns segundos e limpei minhas vestes, apanhei o arco e flecha de meu pai e fui para a outra extremidade do acampamento, Moune não pareceu me notar, mas eu sabia que havia, e ainda assim não se dirigiu a mim. Agradeci por isso.
Dei alguns passos mata adentro, mas sempre mantendo uma distância que ainda me permitisse ver a fraca chama que queimava no meio dos outros que ainda dormiam. Tentei pensar comigo mesma em como meu punho havia ficado enquanto eu esmurrava Enolia, mas não importava o quanto eu refletisse sobre aquilo, quanto mais veementemente eu pensava, mais perturbador me parecia.
Senti algo tocar meu braço e girei o corpo rapidamente com o arco já preparado para um disparo. Cyen me olhou desconfiado e ergueu as mãos em rendição.
– Não me assuste assim. Quer morrer?
– Perdão, Thena. Sabia que é arisca, mas não a esse ponto.
– Tanto faz.
– O que está fazendo acordada?
– Não consigo dormir, achei que não faria mal acompanhar o Moune ali na vigia.
– Então acho que não fará mal acompanhar vocês dois a vigia. – Ele disse com um sorriso.
Não foi de meu total agrado, mas era escolha dele. Desde que não ficasse em meu pé, estaria tudo perfeitamente bem.
Cyen escorou-se numa árvore ao meu lado e segurava um pedaço de pau, ficou girando-o por alguns segundos pouco antes de eu me virar e perguntar, com um sorriso sarcástico nos lábios.
– Então você é filho de Joko? Cyen, um mago?
Sua expressão deixou bem claro que ele não havia gostado.
– O que há de errado, Thena?
– Bom, digamos que você tenha mais cara de ser um daqueles brutamontes sem cérebro.. Não alguém que vá fazer magia para, por exemplo, salvar a vida de alguém. – Dei de ombros, rindo baixo.
– Saiba que estou quase chegando ao nível de meu pai! – Vociferou o loiro, avançando em minha direção.
– Que bom para você, não? – Provoquei-o, desviando o olhar e virando o corpo noutra direção. – Enfim, e quanto a Moune e Rehr? Eles são parecidos, digo, os olhos.. – Murmurei, queria sanar minhas dúvidas.
– Moune e Rehr são irmãos. Moune é o mais velho, ele e Rehr também foram experimentos, mas dos mais atuais, quando ainda adolescentes. Sobreviveram por sorte, por serem parte de uma nação resistente e com grande força..
– Moune não parece muito resistente ou forte. – Comentei sem querer, lembrando de Rehr.
– Ouça, Thena! – Cyen me advertiu e logo me calei, permitindo que continuasse. – Ainda não se sabe o porque de Rehr ter olhos de cores diferentes, mas meu pai crê que há um grande propósito em tal homem ser tão especial. Moune é esperto ao seu modo, ele quase não fala, mas algo me diz que meu pai e ele conversam bastante.. de outra forma. Enfim, grandes e longas histórias que você pode descobrir com o tempo. Agora, me fale de você. – Cyen voltou a sorrir e se aproximou de mim novamente, colocando-me contra a árvore.
Pensei em nocauteá-lo ali, eu sabia que no mínimo o deixaria com algumas marcas após uns murros e outros, mas preferi não fazê-lo.
Ele estava bem próximo, mas conteve-se ao perceber minha postura rígida, agradeci mentalmente e voltei meu olhar para os outros lados, buscando rastros de criaturas.
O loiro não iniciou nenhum outro tipo de diálogo comigo até amanhecer, quando corremos aos demais e os acordamos um por um para levantar e caminhar até sabe-se lá onde quer que fossemos depois dali.
O sol estava tão forte quanto eu me lembrava, era difícil racionar a água e Neah resmungava o tempo todo de dores nas pernas. Eu também sentia dores, mas não podia dizer isso ou preocuparia os demais mais do que já estavam preocupados. Joko chegou a me perguntar uma ou duas vezes como havia sobrevivido, comentei rapidamente que havia tido sorte, e disse o mesmo ao meu pai quando ficamos sozinhos e ele tomou minhas mãos perguntando como havia sido lidar com aquelas criaturas.
Tentei contornar perguntas como relacionadas ao ocorrido com Enolia e as outras sereias assim como qualquer outra que remetesse ao fato de eu ser uma Nascida.
– Estamos em Beile. – Meu pai surgiu ao meu lado no meio do caminho.
Quando olhei adiante, observei a grande cidade que havia à nossa frente. De início apenas algumas poucas casas de madeira, barro e palha, nada que revelasse muitas riquezas. Certamente que aquela era a área mais nobre de Beile, mas não me incomodei muito. Segui caminho, observando mais atentamente tudo que se tornava ainda mais visível para todos nós, Neah parecia hipnotizada, pois começou a puxar meus cabelos sempre que via algo que a atraía. Marrom e pastel eram tons predominantes quando entramos na primeira rua que vimos. Era como um comércio, pessoas indo de um lado a outro com cestas e redes, as mãos cheias de alimentos e animais mortos. Crianças corriam de um lado a outro com uma energia que somente elas tinham, vê-las me fez rir e olhar de soslaio para a loirinha que caminhava ao meu lado.
De fato, as vestes que usavam eram melhores se comparadas às minhas ou de qualquer outra pessoa em nosso grupo. Peguei-me perguntando a Joko como faríamos para passar a noite em Beile, sua resposta não me foi satisfatória e muito menos convincente.
– Tenho amigos aqui.
Da última vez que fiquei em um lugar com algum “amigo” ou conhecido de alguém, quase meu pai, Neah e eu fomos mortos. Suspirei e tentei me manter calma, senti uma mão em meu ombro e quando virei para olhar, era Rehr, meneando a cabeça como se tentasse me acalmar. Bufei e segui caminho.
Conforme passávamos em frente às várias casas e pequenas barracas, olhares vinham em nossa direção e alguns cochichos me faziam querer gritar e mandá-los calar a boca. Sempre era repreendida pelos olhares de meus companheiros, até mesmo Neah apertou minha mão quando me viu encarar uma mulher que passava ao nosso lado.
Quanto mais andávamos, mais movimentadas ficavam as ruas pelas quais passávamos. O sol era escaldante e, por mais que eu procurasse, não havia casa alguma que demonstrasse o mínimo de luxo que eu esperava que haveria por estamos agora numa área onde o rei tinha total controle, por assim dizer.
– Serna está nos esperando. – Ouvi o velho dizer assim que paramos em uma barraca de peixes.
Senti todo meu corpo em alerta.
– Serna? Ela está aqui? Onde? Cadê Serna? E as crianças?
– Baryo está cuidando da barraca da mãe agora e trouxe Serna e os filhos, Thena, acalme-se. – Disse Joko, segurando-me pelos ombros e me encarando.
Era difícil manter a calma quando havia passado alguns bons dias longe de Serna e de seus filhos. As crianças eram minha maior preocupação, tendo em mente que por noites e noites eu havia convivido com as mesmas.
Baryo estava na entrada da barraca, vendendo alguns peixes, quando nos viu e chamou Serna. Olhei-o atentamente, mas não me lembrava de tê-lo visto muito na caravana quando ainda a tínhamos. Serna surgiu minutos depois, os passos rápidos podiam ser ouvidos conforme ela se aproximava e, ao nos ver, logo correu e abraçou a mim e meu pai.
Foi uma grande sensação de alívio, mas eu ainda não sabia o que estávamos fazendo ali.
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