Dark as night.

10 Rotina dos sonhos.


Notas iniciais
Booooa noite, meu pessoal. Tá aqui mais um capítulo pr'ocês, espero que gostem e aproveitem a leitura. Quaisquer errinhos e sugestões, só me dizer!

Havia um enorme cômodo subterrâneo ali, mas somente Serna, Baryo e sua mãe tinham conhecimento disso. Ao menos foi o que me disseram.

Não tomei um banho propriamente dito, apenas um pano encharcado e uma banheira improvisada atrás de algumas cortinas, mas me foi o suficiente para poder trocar de roupa e me sentir ao menos um pouco limpa. Usava agora calças e uma blusa masculina em gola V costurada para me trazer menos constrangimentos, por assim dizer. Apesar de parecer pequeno, o cômodo acomodava perfeitamente todos nós. Era hora de descansar após um longo dia de caminhada. Só consegui dormir depois de meu pai e Neah. Os demais apagaram fácil e rapidamente, senti uma pontada de inveja, foi inevitável.

Quando acordei já era noite outra vez, todos estavam ali e pude observá-lo melhor. As paredes eram escuras e me lembravam uma caverna, havia bancos de madeira em algumas extremidades, a iluminação agora era dada por tochas nas paredes, o que deixava aquele buraco cada vez mais apagado. Uma mesa disposta em um canto nos deu a bela visão de algumas frutas frescas. Uma pequena janela, ou quase janela, nos permitia olhar a rua do lado de fora dali, mas supus que não servia muito bem como janela, já que era pequena até demais. Dispostos no chão estavam os tecidos e retalhos utilizados para dormir.

– Como chegaram aqui? – Indaguei ao fitar Serna, seus três filhos estavam ao meu redor, mas Neah, possessiva, sentou em meu colo e deitou a cabeça em meu peito.

A pequena loira apanhou uma mecha de meu cabelo e começou a enrolar nos dedos.

– Baryo só me contou sobre sua mãe e Beile quando chegamos aqui.

– Tem notícia de alguém mais que conhecíamos? – Prossegui.

– Vi vários fugindo, não muitos, mas vários. Que eu conheça, nenhum por estas bandas de cá. – Serna mexia inquieta o tecido de seu vestido.

– Entendo. Fico feliz que você e as crianças estejam bem. – Acariciei o rosto de Neah e sorri. – Meio que adotei esta aqui..

– Ela parece bem apegada a você.

– Não é para menos. Thena a salvou de um Berene. – Surgiu Joko, eu jurava que ele ainda estava dormindo, como os outros.

– Como sabe disso? – Crispei os lábios, as filhas de Serna começaram a trançar meu cabelo.

– Seu pai ainda conta histórias, Thena e, bem, praticamente todas são verídicas. – E com dois tapinhas em meu ombro, foi acordar o filho e os outros.

Não soube exatamente reagir àquilo, mas preferi não demonstrar e mantive-me atenta à Serna. A mulher sorriu e se dirigiu a mim com um sorriso pesaroso.

– Callec me contou, Thena. Sobre o que você é..

Senti como se uma rocha de uma tonelada tivesse sido lançada em meus ombros. Abaixei a cabeça e Serna ergueu meu rosto, segurando-me pelo queixo.

– Isso é tanto um presente quanto imagina. Use para o bem, garota. Já vi pessoas aqui sendo levadas para o rei por Nascidos, como você. Mas eles não são bons.

– Sei disso.

Mais uma vez tudo parecia estar sendo jogado em mim, uma grande responsabilidade. Algo que eu não queria, que eu nunca quis, e mesmo assim estavam lançando contra mim e me mandando tomar as rédeas de uma situação que eu sequer tinha total conhecimento. Ou qualquer conhecimento.

Fiz-me de forte, mas a verdade era que ultimamente eu estava abalada, tanto física quando emocionalmente, mas não deixaria que ninguém soubesse. Forcei um sorriso e assenti às palavras da loira.

Serna levantou e informou a todos minutos depois que havia preparado o jantar. Era um ensopado de peixe, todos comeram com vontade e logo depois deitaram e dormiram novamente.

Acordei tarde, mas fiquei feliz ao ver que não era a única. Moune e Joko permaneciam em sono profundo a alguns passos de mim.

Levantei o mais silenciosamente possível, evitando os móveis e quaisquer objeto que fizessem barulho. Subi os poucos degraus e abri a porta que dava acesso à loja.

– Olhem quem acordou! – Disse Cyen com um sorriso cativante. – Descansada?

Neah estava ali também e correu para me abraçar. Não vi as crianças de Serna, nem Baryo ou sua mãe. Dei de ombros.

– Sim. Quase renovada. – Confessei com um sorriso.

– Você precisa se arrumar, Thena. Venha cá. – Serna me puxou levemente pelo braço e me fez sentar.

Penteou meus cabelos com as mãos, fazendo-os baixar e depois os trançou, levou-me para um cubículo coberto por cortinas e jogou-me um vestido azul que, quando vesti, ia até minhas canelas, as mangas eram curtas e seu decote era em formato de coração. Papai estava do lado de fora quando saí.

– Nunca a vi tão bonita, minha filha.

– Agora que vou mesmo torná-la minha. Olhem que mulher! – Cyen puxou-me pela cintura, mas logo o empurrei.

– Obrigada, pai.

– Bom, Thena. Você vai me ajudar nas vendas hoje enquanto os outros pescam. – Disse Serna.

– Onde está Baryo? – Meu pai perguntou à loira.

– Saiu cedo. Eu correria se fosse vocês. – Ela riu.

– Vou acordar meu pai. – Cyen disse, mas Rehr surgiu ali apenas para interrompê-lo. Como conseguia ser furtivo assim?

– Deixe-o dormir. – Foi só o que disse.

– Ele está certo, Cyen. – Lena apareceu ali também, eu estava distraída, supus.

O loiro assentiu. Apenas observei enquanto meu pai saía na companhia de Rehr, Cyen e até mesmo Lena. Neah surgiu debaixo da mesa onde estavam dispostos alguns peixes frescos à venda.

– Tia Thena. – Resmungou a loirinha. – Eles fedem. Eca!

– É normal, meu anjo. – Disse-lhe, pegando sua mão e levando-a para fora da barraca.

Estava bastante claro e quente, as pessoas passavam andando e correndo por todas as ruas que eu conseguia enxergar. Homens e mulheres em carroças ou com cestas nos braços e nas cabeças. Não paravam nunca. Havia um número razoável de pessoas vendendo e comprando os diversos produtos daquele grande mercado.

Poucas eram as crianças que vi por ali, o que me fez voltar para dentro com Neah e mantê-la sempre ao meu lado.

Por ser uma região pobre, naturalmente houveram aqueles que simplesmente passavam pedindo qualquer tipo de esmola ou alimento. Serna me dizia para ser firme sempre que eu me sentia tentada a ceder, era difícil ver pessoas passando fome. Eu sabia bem o que era sentir o corpo pedir por um pouco de alimento, qualquer que fosse.

Peguei Neah escondida algumas vezes, como se estivesse brincando e sem que tivesse me avisado.

A manhã passou rápido e Joko e Moune acordaram pouco antes do almoço, assim como meu pai e os outros voltaram também por aquele mesmo horário.

Almoçamos o cômodo subterrâneo enquanto Lena e Baryo cuidavam das vendas. Não tive contato com o homem, mas vi-o de relance: pouco mais de 50 anos, cabelos castanhos com alguns fios grisalhos, curtos e lisos, olhos do mesmo tom castanho e um porte que o deixava ainda mais velho. Era calado, tive certeza.

Alguns resmungaram do almoço, eu apenas saboreei. Não reclamaria de comida nunca mais em minha vida. Após um breve cochilo, voltei às vendas com Serna e Neah enquanto os outros iam pescar novamente. Foi só então que me lembrei dos filho da loira, mas ela disse-me que estavam na casa da mãe de Baryo ali mesmo em Beile. Não sei a razão, mas jurava que a casa dela era ali, mesmo que fosse quase óbvio o contrário.

Os peixes eram vendidos rápida e facilmente, por mais que houvessem outras barracas iguais à nossa. Peixes pareciam ser luxo ali, eu só não sabia o porque, mas preferi não questionar e continuei com as vendas. No mais, todo o trabalho que tive foi apenas contar algumas moedas e joias no fim da tarde, além de carregar algumas sacolas e sacos de alimentos usados como moeda de troca.

Fomos todos tomar um banho, de verdade, em um rio próximo que eu sequer sabia que existia, mas que parecia ter sido dividido entre homens e mulheres. Caminhei com Serna, Lena e Neah para a área feminina. Tive certo receio e até mesmo vergonha antes de começar a me despir e entrar na água. Para minha surpresa, estava morna e agradável.

– Este é o rio Cartese, Thena. Dizem que um Nascido morreu aqui, e um dragão, que era seu companheiro, secou o rio com sua sede e fogo. Dois dias depois a água voltou a fluir novamente, porém nesta temperatura. – Era Serna quem me contava a história.

Preferi não me dar ao trabalho de refletir sobre a história, enquanto isso apenas pousei a cabeça na margem e fitei o céu escuro. Não havia estrelas naquela noite, de repente senti saudades de quando deitava antes de dormir e fazia aquilo, simplesmente me deitava e apreciava o céu. Mais uma vez me senti acolhida pela escuridão noturna e o silêncio, deixei que a água morna do tio Cartese me banhasse enquanto afundava aos poucos.

Desliguei-me do mundo por alguns bons segundos assim que submergi na água. A quietude e a temperatura me acolhiam e eu só conseguia pensar no quanto queria aquilo pelo resto de minha vida.

Logo voltamos ao cômodo subterrâneo, alguns dos homens já estavam lá.

No dia seguinte trocamos os papéis: Moune, Joko, eu e Neah fomos pescar enquanto os outros descansavam e cuidavam das vendas. Foi um dia tranquilo e realmente razoável. Não conversei muito com Moune ou Joko durante o serviço, estava ocupada demais cuidando de Neah e tentando ensiná-la a fisgar os peixes sem deixar que escapassem, além de tentar desesperadamente evitar que ela se machucasse com qualquer coisa que visse diante dos olhos.

Voltamos três vezes com peixes frescos para a barraca e sempre ficávamos satisfeitos quando eram vendidos rapidamente. Era sinal de que poderíamos nos manter bem alimentados por algum tempo e até mesmo começar um novo negócio. Beile era um bom lugar para ficar e morar, ao menos nos dias que estávamos por ali tudo se mostrou calmo e satisfatório o suficiente para que eu chegasse a tal conclusão. Tanto meu pai quanto a pequena Neah concordavam comigo sempre que eu comentava ou simplesmente mencionava morar por ali.

Certo dia decidi conhecer um pouco melhor as ruas de Beile. Acabei descobrindo que ali era como uma sessão de alimentos, enquanto outra rua era voltada apenas para vestimentas e sapatos, outra já era destinada a joias e itens caros e raros, e assim por diante. Porém, quanto mais caras eram as mercadorias, mais as ruas adentravam a cidade e mais próxima eu estava do castelo. Sequer notei tal fato, até o momento que comecei a ver guardas em armaduras com certa frequência, além de pessoas mais bem vestidas e de alta classe.

Cheguei a ser insultada por um casal que passou por mim e Neah pelas roupas que usávamos, mas tomei-a nos braços e disse-lhe para não se preocupar. As roupas de quase todos eram repletas de babados e cores que me ofuscavam os olhos. Peguei-me rindo com Neah de algumas pessoas que por nós passavam. Se caçoavam de nós, não havia razão para que ficássemos caladas e não fizéssemos o mesmo com os outros.

– Aquele ali parece ter comido uma pedra! – Ria Neah apontando um velho com a barriga maior que todo seu corpo.

– Aquela ali precisa comer um pouco, está pior que os galhos de algumas árvores que vimos, não é? – Retruquei, gargalhando um pouco.

Um guarda nos viu imitando um casal e gritou, chamando nossa atenção. Rimos um pouco e rapidamente começamos a correr com o homem em nosso encalço. Nos enfiamos em um beco e esperamos o guarda passar antes de sairmos e continuarmos correndo para voltar à barraca onde Serna e Lena nos esperavam.

Os olhares desconfiados voltados para nós duas acabaram arrancando algumas boas risadas. Suspiramos e recuperamos o fôlego para pouco depois irmos até o rio Cartese tomar um banho.

Eu poderia viver uma vida assim sem me preocupar. Os dias se passavam e acabava por nos ver vivendo perfeitamente bem ali, em paz, seguindo aquela rotina e aproveitando tudo que o lugar nos proporcionava. Toda a diversão e calmaria que eu desejava a mim, meu pai e Neah, e até mesmo aos outros que nos acompanhavam. Quem não gostaria de viver assim? Não era uma vida luxuosa, não era uma vida com grandes riquezas, mas me era o suficiente para ser feliz e seguir em frente sem grandes preocupações, as quais me perturbavam nos últimos tempos. Ali eu esquecia que era uma Nascida.