Notas iniciais
Demorei a escrever, mas saiu. Não foi o melhor dos capítulos, mas prometo que o próximo será melhor!

Beile era calma boa parte do tempo, poucas foram as vezes em alguns dias que notei algum alvoroço que fugisse do normal. Quase sempre era alguém que passava fome tentando roubar ou importunando os vendedores. Felizmente há algum tempo eu não via nenhum se aproximar de nossos peixes. Estávamos em Beile há mais de uma semana, e a vida lá era boa o suficiente para me fazer sonha vez ou outra.
Ainda dormíamos no cômodo subterrâneo, mas com o dinheiro que vínhamos ganhando vendendo os peixes enquanto andávamos nas ruas mais ricas da pequena cidade logo conseguiríamos um lugar para nós, assim vendíamos por um preço um pouco mais alto, não tanto, afinal era luxo até mesmo para os mais ricos.
Houve certa manhã que acordei mais cedo que o normal, talvez pelo calor que senti repentinamente, não soube ao certo, mas não me importei muito graças à movimentação quase que silenciosa do cômodo. Fingi ainda estar dormindo e vi que faltava algum tempo para amanhecer, mas que já eram visíveis alguns sinais de claridade. Joko, Lena, Cyen, Rehr e Moune saíam furtivamente, fiquei curiosa e até mesmo desconfiada. Por que diabos estavam saindo escondidos àquela hora? Continuei deitada e me mexi preguiçosamente, como quem ainda dormia. Mantive os olhos fechados e fiquei quieta. Ouvi um estalo, e então tudo ficou silencioso de vez. Quando voltei a abrir os olhos eles já haviam saído.
Levantei rapidamente e me inclinei na direção da pequena e única janela do cômodo, pude ver suas pernas e acompanhei com os olhos seus passos firmes e apressados até onde era possível, supus que seria má ideia tentar segui-los.
Voltei a me deitar e rolei algumas vezes no chão, pensando comigo mesma e refletindo sobre o que acabara de ver. Eu queria que não estivessem fazendo algo que destruísse e a confiança que havia no grupo.
O único problemas era que o simples fato de saírem daquela maneira já fazia-me não querer confiar mais neles.
Acabei voltando a dormir.

Lena me chamou histérica e eu quis matá-la com minhas próprias mãos por ter me acordado. Crispei os lábios e bocejei em seguida, desejando mais algumas horas para dormir. Estavam todos à uma mesa tomando café da manhã. Serna nos conseguiu leite, pão e frutas. Peguei uma goiaba e fui com Neah ao Cortese para tomar banho.
Serna nos fez roupas novas, então eu também aproveitava o banho para lavar nossas peças em uma área onde vi outras mulheres fazendo o mesmo. Esperávamos a roupa secar enquanto banhávamos e, às vezes ao final, as usávamos mesmo úmidas.
Passei o restante do dia na barraca, vendendo os peixes, com Neah sempre ao meu lado, correndo de cá para lá da rua, e logo corria para dentro novamente. Mais um dia bem sucedido nas vendas, mas eu tinha algo mais em mente. Joko e seu pequeno grupo de aprendizes estavam tramando algo e isso me perturbava.
Distraí-me boa parte da noite, ouvindo histórias contadas por meu pai e o velho Joko.
– Quando nos conhecemos, Callec estava prestes a cair de seu cavalo. Imaginem a cena! Ele tinha quase dezessete anos e era muito estabanado. – Ria alto o velho, e meu pai o acompanhava sem pensar ou se incomodar.

Todos dormiram tarde naquela noite, com exceção de Neah, que rapidamente apagou em meu colo.

Mantive-me quieta grande parte do tempo, rindo quando era propício e aguardando pacientemente uma nova história.

Preferi não dormir até pouco antes do amanhecer, tive que esperar e lugar contra o sono e o cansaço, ou não teria visto Joko acordar de repente.

O pedaço de madeira que trazia consigo brilhou na ponta, como uma tocha. Um brilho azulado e extremamente claro, iluminando o cômodo enquanto o homem se levantava. Ele mexeu na barba e bocejou longamente. Encolhi-me em meu canto, fingindo dormir. Aos poucos ouvi os ruídos de cada um que acordava. O brilho tornou-se tão azul claro que beirava o branco, pensei que se olhasse de perto e diretamente eu poderia ficar cega.

Neah se mexeu ao meu lado, assustando tanto a mim como o grupo de magos que saía escondido mais uma vez. Paralisei, fazendo-me de estátua por um tempo até que pudesse ouvir ou sentir alguma movimentação de novo. O ar abafado estava me irritando, a ansiedade me deixou nervosa e logo eu estava suando frio. Não entendi o porque de estarem demorando tanto. Ouvi um estalo abafado e alto e sentei de repente com o susto. Corri com o olhar pelo cômodo e encarei o grupo já esperado acordado, todos me encararam com espanto. Fingi sono, não que não estivesse com sono, claro.

– O que estão fazendo? – Questionei em um sussurro abafado. – Está muito cedo..

– Está sonhando, Thena? – Indagou Moune, eu nunca havia escutado sua voz, era fina para um homem, mas tinha um tom severo.

– Eu não.. – Comecei, mas ele me interrompeu.

– Sim, está. – Moune gesticulou com as mãos.

Não soube como ou de onde surgiu, mas vi nitidamente uma névoa em tom violeta rodeando-o e flutuando até mim. Tinha um aroma doce e suave que me fez fechar os olhos e sorrir com tranquilidade. Acabei dormindo mais uma vez.

Tudo parecia ter sido um sonho, mas eu tinha certeza de que era real. Moune havia usado magia para me confundir e mudar minha visão sobre a realidade naquela manhã, sentia-me furiosa por ter sofrido algo daquela maneira.

O dia todo passou como nossa velha rotina. Por três dias seguidos acordei cedo ou simplesmente não dormia, apenas para ver Joko e seus aprendizes saindo sempre às escondidas.

No quarto dia esperei que acordassem e saíssem, para que logo em seguira eu pudesse, enfim, acompanhá-los para onde quer que fossem. Eu precisava saber o que estava acontecendo, e logo, antes que alguma coisa grave acontecesse a ponto de comprometer tanto a vida de Neah como a de meu pai.

As ruas estavam vazias e silenciosas, com exceção de um gato ou outro que vi passar por ali. Eu nunca havia visto gatos assim, mas não me importei. Tinha algo mais importante a tratar. Escondia-me em becos e atrás de barris e caixas que estavam sempre no caminho. Estava descalça e havia prendido o cabelo, enrolando-o de modo que nada pudesse atrapalhar o que eu fazia, fosse o que fosse.

Eles se enfiaram na mata e eu fui atrás. A caminhada não durou muito, mas eles eram rápidos e eu tinha que olhar constantemente para onde pisava mesmo não enxergando quase nada. Eles tinham o cajado de Joko iluminando o caminho enquanto eu só tinha minha intuição e o medo terrível de fazer algum barulho que me denunciasse.

Quando enfim pararam, observei o ambiente. Era uma clareira, quase como um campão aberto, mas não tão grande, apenas o suficiente para que eles pudessem ficar a dois ou três metros um do outro. Fiquei atrás de arbustos e observei o que aconteceu a seguir.

Lena se colocou de frente a Joko e o vi agitar o cajado. O clima se alterou e a tensão ali era quase tangível, a morena gesticulou com as mãos e vi algo saindo de sua pele. Ramos, como se ela fizesse parte de alguma árvore, ou como se ela fosse uma árvore. Tentei enxergar melhor e pude então observá-la agitar as mãos no ar mais uma vez, seus olhos brilharam como em um flash e logo o chão onde ela e Joko estava ergueu-se com um estrondo. Um cubo de dois metros arrancado diretamente do chão para o ar. Joko balançou o cajado e começou a lançar bolas de fogo contra a mulher, vi-a engrossar os ramos que saíam de várias partes de seus braços e usá-los como forma de chicote, jogando as bolas para longe, tudo ainda sobre o cubo de terra que ela mesma havia arrancado do chão. Engoli em seco.

Aquilo não durou muito, os olhos de Lena brilharam repentinamente no meio de tudo aquilo e ela caiu. A terra se encaixando ao chão novamente me assustou e eu tapei os ouvidos. Lena estava inconsciente no chão, Rehr caminhou até ela e a apanhou no colo, carregando-a até onde Cyen e Moune se encontravam parados, apenas observando.

Foi a vez do loiro no momento seguinte. Ele caminhou de encontro ao pai e parou cerca de dois metros à frente. Encararam um ao outro e pude observar nitidamente seus peitos subindo em suspiros longos e profundos, pareciam se concentrar antes de tudo. Tudo aconteceu muito rápido quando parei para repassar tudo em minha mente.

Cyen era rápido, tão rápido que eu não havia conseguido acompanhar de primeira, mas logo depois meus olhos se acostumaram. Seu corpo estava revestido por fogo, mas ele não se queimava. Seu pai lançava-lhe bolas de fogo, mas estas eram azuis e apagavam as chamas vermelhas de Cyen onde quer que tocassem. O loiro rodopiava no ar e girava o corpo com uma perfeição incomum, saltava alto e desviava das investidas de seu pai, sempre tentando acertá-lo também com suas próprias chamas. Recuei alguns centímetros, surpresa com o que via. Eu não sabia o que magos faziam, e ainda não compreendia quase nada, aquilo só estava piorando minha mente.

Mais giros no ar e eu o via ir cada vez mais alto, dando saltos que ultrapassavam a realidade na qual eu acreditava, e não sabia nem mesmo o porque de duvidar de tudo aquilo, afinal, eu mesma vinha passando por coisas que jamais imaginaria poder passar.

Cyen correu ao redor do pai, só podia ver seu rastro de fogo na grama e a ventania que fazia subir algumas folhas que estavam no chão. Rehr e Moune riam de onde estavam, Joko estava atento e em posição defensiva. Cyen surgiu atrás do velho e gargalhou alto, como se tivesse vencido. Bom, ao menos eu sabia que nunca se deve comemorar vitória antes de realmente consegui-la. Joko derrubou o filho com o cajado em um movimento que não fui capaz de acompanhar e logo o atingiu no peito com uma bola de fogo que o fez apagar completamente.

Mais um inconsciente agora ao lado de Lena.

Foi a vez de Moune caminhar na direção de Joko, mas este se aproximou muito do velho e logo sussurrou algo em seus ouvidos. Os olhos do velho percorreram todo o ambiente à sua volta, e naquele momento eu soube que o homem sempre coberto por seu manto negro havia me notado e esperou pelo momento certo para me denunciar. Levantei rapidamente e comecei a correr.

Rehr surgiu à minha frente e eu paralisei. Recuei alguns passos, não sabia o que fazer. Ele era um mago e havia sido o único o qual eu não havia visto o que era capaz de fazer. Suspirei longa e profundamente.

– Thena, o que está fazendo aqui, garota? Deveria estar dormindo. – Joko apareceu algum tempo depois.

– O que é que vocês estão fazendo? – Perguntei, exaltada.

– Treinando. – Rehr respondeu, acabei me virando para ele e engolindo em seco ao me deparar com seus quase dois metros de altura.

– Você deveria estar dormindo, garota. Já pensou no que aconteceria se fosse atingida por algo? – Joko me advertia com um tom severo, tive que me conter.

– E por que sair às escondidas assim? Sem avisar ninguém, sem deixa rastros! – Retruquei, furiosa.

– Porque os magos são raros hoje em dia. São pessoas que estão sendo caçadas para servir ao rei ou serem mortas. Acha que queremos ser apanhados? Acha que queremos morrer? Pense um pouco, Thena. Você é mais inteligente que isso. – Joko bateu levemente o cajado em minha cabeça e eu massageei a região, resmungando mentalmente.

– Perdão. – Murmurei, incapaz de pronunciar qualquer outra palavra.

Eu não precisei pensar muito para concluir que o que ele dizia era verdade. Estava tão claro quanto a água, eu só não quis enxergar até o velho esfregar isso em meu rosto.

– Vamos voltar. – Disse Joko a todos. Rehr apanhou Cyen e Lena com facilidade e jogou-os nos ombros como sacos de batatas.

Senti-me mal por ter chegar àquele ponto, mas eu precisava sanar todas as minhas dúvidas, e agora que entendia o que estava acontecendo, talvez pudesse seguir mais tranquilamente o que estaria por vir.