Dark as night.

12 Dieo Merno.


Notas iniciais
DEMOROU, sim, porque estou doente, mas acabou sendo o maior capítulo de Dark as Night. Espero que gostem e que continuem lendo.

Joko e eu combinamos manter segredo sobre os treinos desde que não bisbilhotasse mais. Não tive outra alternativa que não fosse concordar com seus termos.

Papai não ficou a par de absolutamente nada, o que foi bem melhor para mim.

Os dias seguintes pareciam cada vez mais agitados. Todas as manhãs quando ia tomar banho com Neah, víamos crianças correndo e brincando, o que já era algo grande em minha opinião. Quase sempre chamavam minha pequena garota, mas ela nunca soltava minha mão e os ignorava.

Deslizava os dedos por entre os fios loiros e cacheados da garota quando ela começou a jogar água em mim. Defendi-me com os braços.

– Neah, e o banho?

– Mas tia, brincar é tão bom!

– E por que não brinca com as outras crianças quando te chamam?

– Não gosto delas.

Ri diante da afirmação de Neah, mas não retruquei. Aos poucos novas palavras eram acrescidas ao vocabulário da garota, logo Joko estaria separando alguns velhos pergaminhos para ensiná-la e fazê-la estudar. A cena em minha mente me fez rir.

Estava cansada e com sono quando voltamos. Parte de mim estava arrependida pelas noites em claro, tudo por causa de minha tola curiosidade e desconfiança. Ainda conseguia repassar em minha mente todos os momentos do treino do mago e seus aprendizes, peguei-me sorrindo, admirada. Eles eram ainda mais incríveis do que eu realmente imaginava.

Estávamos todos juntos no cômodo novamente quando Serna apareceu com seus filhos. Sorria largamente, o que nos fez curiosos imediatos.

– Hoje teremos peixe, carne, verdura, legumes e até mesmo vinho para o almoço. – Anunciou a loira.

Lena levantou desconfiada e fez a pergunta que eu mesma quase fiz.

– O que está havendo?

– O rei tem nos observado e teme a presença de um Nascido que ele não tem conhecimento algum. – Ela me encarou, suas bochechas estavam rosadas e sua alegria era verdadeira e evidente. – Desde que Thena chegou Beile vem sendo presenteada. Vê, garota? Você é um presente dado a todos nós.

Tentei sorrir em resposta, mas me sentia mal sempre que falavam algo sobre eu ser uma Nascida. Pareciam jogar o peso do mundo em minhas costas.

A ideia de o rei agir daquela maneira me fez refletir, mas guardei meus pensamentos para mim mesma.

– Comida, dinheiro, moradia.. – Serna fantasiava.

– Certo, e cadê a comida? – Perguntou Cyen, fazendo Lena abafar uma risada.

– Ah, claro. Na barraca. Eu preparei tudo enquanto vocês estavam aqui embaixo.

Levantamo-nos um a um. O caçula de Serna pegou Neah pela mão e tentou levá-la na frente, mas ela não soltou a minha, então tive duas crianças em meu encalço até subirmos para a barraca e irmos todos almoçar juntos.

Serna não havia separado o banquete exatamente na barraca, mas havia conseguido uma mesa e um bom pedaço de seda cor vinho. Nisso, montou-a em frente à barraca, ao lado de uma placa que dizia que não estávamos abertos naquele dia.

Tentei analisar bem a refeição antes de perceber que todos pareciam babar sobre a mesma sem nem ter se colocado diante da mesa ainda. Era realmente algo grandioso e completamente diferente se comparado com tudo que vínhamos comendo nos dias anteriores: sopas e restos de alimentos. Não havia do que reclamar, mas naquele exato momento tudo que pude fazer foi sorrir assim que o aroma delicioso invadiu minhas narinas e me deixou em transe. Minha fome seria saciada e eu poderia morrer feliz.

Todos à mesa, aos poucos comemos. Ninguém ousou falar muita coisa durante o almoço. Algumas poucas risadas e breves agradecimentos compunham o ambiente pelo tempo que durou a refeição e os poucos minutos em que todos ficamos parados olhando uns aos outros, satisfeitos. Neah acabou cochilando com a cabeça em minhas pernas, sequer notei até ter que levantar para ajudar a recolher a mesa.

Estávamos satisfeitos, e eu podia demonstrar com clareza, embora cada um estivesse dizendo à sua maneira, fosse com atitudes ou palavras.

Como não trabalharia, tirei a tarde para cochilar e fiquei feliz por recuperar o sono perdido.

Havia tranças por todo meu cabelo quando acordei, e por isso minha cabeça doía muito. Estava anoitecendo ainda e as risadinhas das filhas de Serna me irritaram. Neah riu de mim e fez-se de inocente quando a encarei.

– Thena, minha filha, o que te fizeram? – Até meu pai ria de mim.

– O que há de tão engraçado? – Perguntei, apalpando meu cabelo e percebendo que não estava realmente muito bom de se tocar, imagine de se ver.

– Parece que puseram restos de animais em sua cabeça. – Lena respondeu ao se aproximar, começou a desfazer as tranças assim que me sentei.

– Vocês nunca mais vão tocar no meu cabelo. – Disse às garotas de Serna.

Neah continuou rindo de mim até começar a chorar a rir, parava para respirar e chorava de tanto rir de novo. Revirei os olhos, passando-os pelo cômodo e observando as feições dos demais, quase todos segurando os risos abafados, Moune parecia o único indiferente, mas algo me dizia que mentalmente ele ria tanto quanto qualquer um dos outros. Coloquei as mãos no rosto e bufei, esperando que Lena terminasse o que estava fazendo.

Conforme as tranças eram desfeitas, minha cabeça doía menos e eu relaxava. Joko e meu pai acenderam as tochas que iluminavam o local quando anoiteceu de vez. Demorou um pouco até que eu tivesse meu cabelo livre de tranças, mas ele mais parecia uma juba de leão que cabelo quando Serna me entregou uma tapeçaria que me permitiu ver meu reflexo. Foi um choque. Meus cabelos, sempre lisos, mais pareciam um grande emaranhado de feno.

– Vou tomar banho. – Anunciei, ficando em pé de repente.

– Acalme-se, garota. – Lena pousou a mão em meu ombro e riu baixo.

Passei a mão por meus cabelos e enrolei-o num coque alto.

– Vou tomar banho. – Disse mais uma vez, finalizando o burburinho e risadas.

Pude, pela primeira vez, ir sozinha. Neah parecia ter se dado bem com as filhas de Serna e não se preocupou quando me viu partir rumo ao Cortese.

Poucas eram as pessoas na rua àquela hora. Os que mais estavam por ali eram os guardas do rei que protegiam os lugares durante a noite, mesmo que eu não me lembrasse deles na noite que saí atrás de Joko e os outros magos, talvez por culpa magia, supus.

Recuperei a mim mesma no banho. A água estava morna como sempre e só eu estava ali, para minha alegria. Notei algumas mulheres, pouquíssimas, passando por mim e me olhando surpresas. Uma garotinha corria ao lado da mãe quando me viu e correu agora em minha direção.

– Moça, não dói? – Perguntou ela. Não entendi.

– O que?

– A água escaldante. – Disse-me.

– Mas a água está morna, como durante o dia.

– Não, está quente, olhe. – A menina apontou para a outra extremidade do Cortese.

Havia vapor, muito. Eu não notei em momento algum, talvez por realmente não perceber qualquer mudança na temperatura da água. A mãe da menina apareceu, puxou-a pelo pulso e a levou dali. Apenas vi a pequena acenando em despedida enquanto tropeçava para acompanhar o ritmo da mãe.

Engoli em seco e saí da água às pressas alguns minutos depois, colocando as calças e o blusão que Serna me conseguiu. As mangas iam até meus pulsos e a calça arrastaria no chão se não fosse a maneira que eu a dobrara. Calcei as botas e sacodi os cabelos, tirando o excesso da água enquanto voltava para o cômodo.

Estavam rindo e brincando de algo que não entendi. Percebi que eu era o assunto quando Serna virou-se em minha direção.

– Você vai nos trazer grandes alegrias, Thena. Já está fazendo isso e nem mesmo percebe. – Seus filhos assentiram.

Tentei sorrir, agradecida. Aproximei-me de Neah mais uma vez e passei a cuidar de seus cabelos.

– Tia, o que é isso? – Perguntou a mais velha das filhas de Serna, de repente.

– O que? – Estreitei os olhos. Não havia notado a repentina queda de temperatura. Se eu não havia notado a elevação da temperatura do Cortese, como notaria o frio que tomou conta do cômodo?

Na verdade, eu realmente não sentia, mas Neah e os outros começaram a tremer e enfim notei uma fina camada de gelo se formando nos móveis e nas paredes, as tochas apagaram e apenas um feixe de luz do luar invadia o cômodo. Abracei Neah contra o peito e ouvi um estrondo, como uma pancada contra madeira.

– Pai! O que está havendo? Joko? – Gritei.

Vi as silhuetas de Cyen e Rehr correndo até a porta que dava acesso da barraca ao cômodo subterrâneo, eles seguravam-na com força, fazendo visíveis suas veias mesmo diante da fraca iluminação.

– Estão tentando arrombar. – Disse Cyen.

A camada de gelo começou a engrossar. Lena e Serna seguraram as três crianças enquanto eu mantinha minha pequena loira em meus braços.

– Te encontraram, Thena. Fuja! – Joko gritou, agitando seu cajado no ar, fazendo um pequeno tornado de fogo, o qual derreteu um pouco de gelo e aqueceu o ambiente por alguns poucos segundos até ser apagado.

– Enlouqueceu? Eu não vou deixar vocês para morrer!

– Não vamos morrer, ficaremos bem. – Eu queria, mas não conseguia acreditar no que o velho me dizia.

Mais um estrondo, dessa vez seguido por risadas. Todos os pelos de meu corpo eriçaram.

Outro estrondo, Cyen e Rehr estavam começando a ceder.

– Fique aqui com elas, está bem? – Pedi a Neah, soltando-a com Serna.

Corri para ajudar os rapazes assim que meu pai fez o mesmo e, também, no exato momento em que a porta de madeira foi destruída, completamente partida ao meio. Caímos os três em meio à poeira e gelo, escorregando até bater com as costas na parede. Assim que pudemos observar e nos atentar melhor ao que acontecia, um grupo de homens muito bem vestidos fez fila e entrou no cômodo. Eram homens do rei, guardas. Não fui capaz de contar quantos, mas engoli em seco quando vi um garoto pálido e de olhos completamente brancos tomando a frente.

Naquele momento eu soube que era um Nascido e tremi.

Devia ter catorze anos, de acordo com meus cálculos, e era magricela apesar das boas e pesadas vestes.

– Ele é cego. – Rehr me informou em um sussurro.

Cego ou não, o garoto estava descendo as escadas e caminhava diretamente até mim.

Estava prendendo a respiração enquanto o fitava. Seus passos eram lentos e calmos, todos os homens estavam quietos e observavam o garoto assim como eu, pareciam admirá-lo, e talvez até devessem, pois era óbvio que sabiam quem era, ou o que era.

Alguns guardas seguravam Serna, Lena e as crianças. Meu pai e os outros dois rapazes estavam no chão comigo. Joko estava paralisado contra a parede, o cajado que trazia consigo estatelado no chão. O que ele estava fazendo? Ele era um mago, por que não agia e fazia algo para nos ajudar e proteger?

– Shhh! Estou sentindo ela. – O garoto cego falou, sua voz era um misto, visto que parecia estar na época em que a mesma mudava. Adolescentes..

Parei para pensar, ninguém havia dito absolutamente nada. Talvez o garoto lesse mentes, aquilo seria terrível.

Quando chegou ao fim dos degraus, parou, virando o rosto como se enxergasse tão perfeitamente bem que via a alma de cada um de nós.

– Olá, Thena. – Seu movimento foi rápido, sequer pude nota-lo andar ou correr, ou fazer o que quer que fez, até que estivesse frente a frente comigo.

Seu nariz estava a apenas um centímetro do meu, seu hálito era frio, assim como o sorriso. Seus cabelos eram brancos, completamente brancos. Não havia nada de negro no garoto, a não ser seu interior, disso tive certeza. Ele era tão negro quanto Hyth, tão negro quanto um Gor ou um Berene, e tudo o que eu queria era vê-lo longe dali, longe de todos aqueles que eram meus amigos e queridos, aqueles que eu queria bem.

– O que quer? – Indaguei.

Sua gargalhada me doeu os ouvidos. Ele se colocou de pé e passou a caminhar entre todos nós, tocou o cabelo de Neah assim que estava ao lado dela e me encarou com um sorriso perverso.

– Afaste-se dela. – Bufei.

Rehr segurou minha mão esquerda e a pressionou, entendi que queria que eu me acalmasse ou acabaria conseguindo um massacre ali dentro. Estava escrito nos olhos brancos do garoto.

– É tão divertido encontrar um Nascido, sabia? Não são muitos, como tenho certeza que já tem algum conhecimento sobre nós. Ainda mais uma mulher, e tão mais velha.. E ainda mais: que não esteja servindo a rei.

– E você serve. – Murmurei.

– Sirvo. Ele cuida de mim, da minha família.. Escolhas, Thena. Você pode fazer a sua, sabia? – Voltava a caminhar até mim.

Esforcei-me para ficar de pé, o gelo me fazia escorregar.

– Ah, não. Fica quietinha aí. Só vai se levantar quando eu quiser que levante, e será à minha maneira. – Resmungou com um tom de voz mimado. – Loye, leve esses três para longe dela. Encontramos nosso alvo e não quero ter que me ocupar com vermes insignificantes.

– Não ouse falar assim deles! – Retruquei.

– Shh, Thena. – Ele colocou a mão sobre minha boca, aos poucos senti uma camada de gelo se formando e antes que pudesse perceber, estava incapacitada de emitir qualquer som que não fossem os resmungos e ruídos abafados.

Era como uma máscara, mas colada à minha boca. Preferi ficar quieta e esperar para ver o que viria a seguir. Queria conseguir não pensar em minha preocupação para com meu pai e Neah.

Um dos guardas deu alguns passos adiante e eu pude ver quem era o tal Loye. O homem tirou seu elmo, mostrando o rosto igualmente pálido ao do garoto, porém os olhos eram negros e concentrados. Com um breve gesticular com as mãos, chamou outros cinco homens e assim apanharam Cyen, Rehr e meu pai, os quais ainda estavam comigo no chão. Rehr tentou agir, mas Joko logo o repreendeu com um mover breve de sua cabeça. Eles foram levados para longe de mim, para perto de Joko, as mulheres e crianças.

– Bom, sinto lhes informar o óbvio, mas temos que partir, e ela vem conosco. – O garoto sorria.

– Refioh, meu irmão, não acha bom mata-los ou ao menos deixa-los inconscientes? – Indagou Loye.

– Os homens cuidarão deles. Levem-na. – Ordenou Refioh, fazendo um par de guardas apanharem-me pelos braços e me erguerem.

Olhei para meu pai e tentei gritar por socorro, pedindo para que me ajudassem, para que fizessem alguma coisa, qualquer coisa. Ele tentou se mover, mas os guardas o nocautearam com um golpe na cabeça. Neah começou a chorar junto às outras crianças e eu me debatia, tentando me livrar das mãos que me arrastavam escada acima, perdendo aos poucos a vista que tinha de meu pai, Neah e os outros.

Estava tão escuro do lado de fora que cheguei a duvidar se havia lua para iluminar aquela noite. Jogaram-me dentro de uma carruagem e logo vi Refioh e outros três homens se juntarem a mim ali dentro. O garoto passou a mão em frente ao meu rosto quando a carruagem começou a andar e o gelo logo sumiu.

– Se resistir será pior, é apenas o que lhe direi.

– O que o rei quer comigo? Me matar? Caso a resposta for sim, me será um grande favor. – Ri com escárnio, balançando a cabeça de modo a tirar meus cabelos agora úmidos do rosto.

– Claro que não, Thena. Veja-me. Observe-me bem, estou morto?

– Não, mas é cego. Aposto que foi o rei.

– Claro que não. Ele foi a pessoa que me salvou, a pessoa que evitou minha morte. Devo minha vida ao rei, por isso faço o que faço.

– Captura os que são iguais a você para ser um bonequinho dele. Me diga, como é não ter vontades, fazer o que o rei quer que você faça? – Havia uma janela ao meu lado, eu podia bem me lançar para fora através da mesma, mas era pequena demais.

– Não ouse. – Disse um dos guardas, puxando-me brutalmente para seu colo, o que me fez grunhir.

Engoli em seco ao sentir suas mãos em mim, ele me apertou a barriga e a coxa.

– Solte-a, imundo. Ainda não terminei com ela, e só o rei dirá o que deve ou não ser feito a ela. Thena é uma Nascida, não uma das serventes que você traça no castelo em horas vagas de bebedeira.

O homem me largou no banco de couro da carruagem, embora não estivesse sequer contente de estar ali, fiquei aliviada ao ouvir Refioh me defender e proteger, se aquela fosse mesmo sua intenção.

– Agora, se não se importa, vamos ficar calados um pouco enquanto não chegamos a Allter. – Eu não fazia a mínima ideia de onde era essa tal Allter, e algo me dizia que eu não gostaria de conhecer.

O gelo surgiu novamente em minha boca e desta vez até em meus pulsos num tipo de algema. Eu queria saber como Refioh conseguia fazer aquilo, mas não tive a chance de perguntar e ele adormeceu à minha frente dentro de poucos minutos. Peguei-me bolando fugas inúmeras vezes, mas sempre que olhava para os lados algum dos guardas me vigiava com tanto afinco que me irritava. Aqueles malditos não dormiam? Nem mesmo por um minuto? Eu só precisaria de um minuto para arrombar a porta da carruagem e saltar da mesma, quebrando o gelo no processo.

Tentei passar a língua no gelo em minha boca para fazê-lo derreter aos poucos, mas não derretia. Não derretia e eu continuava não sentindo frio ou qualquer coisa que beirasse o mesmo.

Não saberia dizer quando tempo durou a viagem, mas chegamos a Allter durante o amanhecer. Refioh bocejou como uma criancinha e se espreguiçou. Eu não havia pregado os olhos um segundo sequer para dormir, e estava pagando por isso com uma ardência incômoda. Mal respirava bem também, pois vez ou outra me sentia sufocada.

– Bom dia a todos. – Murmurou o garoto, fazendo o gelo sumir de minha boca, mas não de minhas mãos. Não respondi. – Eu disse: bom dia a todos. – Ele me fuzilou com os olhos.

– Bom dia. – Respondi.

Achei melhor não agir muito contra a vontade de Refioh ou poderia arcar com sérias consequências. Eu tinha conhecimento do pouco que podia fazer, mas ele era alguém que eu não deveria subestimar.

A carruagem parou de andar. Todos saímos, um por um.

Allter é grande, muito grande. Grandes casas e mansões estavam devidamente distribuídas e organizadas à minha volta, e em volta do castelo que havia logo em frente. Grandes e altas torres em tons dourados e prateados faziam daquele um lugar que poderia cegar uns e outros com tamanha luminosidade quando o sol refletia ali. Engoli em seco e fui empurrada para frente com um chute nas costas, atitude do guarda que me apalpou dentro da carruagem.

Atrás de mim havia uma fila com outras várias pessoas, grande parte mulheres. Cada uma tinha algemas nos pulsos, mas diferentes das minhas. Ri sarcasticamente de minha sorte e segui o caminho que me era indicado agora por guardas.

– Ela vem comigo. – Refioh disse, segurando-me pelo braço e me empurrando.

Deveria ser uma cena um tanto cômica, não é? Claro, se não fosse trágico eu ser arrastada por um garoto magricela e menor que eu, e cego.

– Não sou tão cego assim, Thena.

– Consegue ler minha mente? – Bufei, apressando o passo e cruzando uma ponte rumo à entrada do castelo.

– Algumas vezes, um pouco. Um presentinho de um dos magos do rei, mas não foi muito eficiente por eu ser um Nascido. – Soou aborrecido com aquele fato, mas tratei de não me importar e acompanha-lo.

Entramos no castelo e me deparei com o lugar mais espetacular que eu já pusera os olhos. Nunca tive luxo algum e aquilo realmente me arrancou suspiros de surpresa. Grandes bandeiras estavam hasteadas rente às enormes janelas feitas com vidraças coloridas. Um grande trono havia sido colocado ao fundo do enorme salão e escadas levavam ao andar superior.

Eu estava sendo escoltada por Refioh e mais alguns homens, não parei para contar quantos eram. Levaram-me pela escadaria da esquerda e logo um extenso e estreito corredor estava à minha frente, fazendo-me ficar boquiaberta com o número de quadros e armaduras que estavam colocados ali. O chão era coberto por um tapete vermelho com alguns fios formando desenhos diversos. Tentei caminhar lentamente, quase parando, mas sempre recebia um empurrão de alguém ou Refioh me puxava pelo braço, jogando-me à frente dele com tamanha força que vez ou outra cheguei a cair.

Subimos mais alguns degraus e pouco antes de mais um lance com inúmeros degraus, paramos diante de duas grandes portas que subiam até quase alcançar o alto teto do castelo. Engoli em seco ao ouvir gritos vindo de dentro do quarto. Refioh bateu na porta e ouvi um “entre” abafado e forçado.

Dentro do quarto havia uma cama extremamente bonita e bem planejada, com muito ouro, prata e diamantes, além de outras pedras preciosas que eu não saberia nomear nem mesmo se quisesse. Móveis diversos, candelabros e velas distintas por todos os lados, duas grandes janelas abertas e algumas poltronas e outros móveis que eu desconhecia.

Ao lado da cama estava uma fila de mulheres com correntes nos pés, todas nuas. Na cama estava um homem forte de cabelos castanhos longos que chegavam aos ombros, os olhos eram verdes e seu rosto era tão masculinamente marcado que muitas mulheres não se incomodariam de estar na cama com ele como a que ele penetrava naquele momento. Isso se ele não estivesse sendo tão violento a ponto de puxá-la pelos cabelos e quadril como se quisesse mata-la.

Os gritos eram da loira que ele tinha na cama consigo, ambos estavam suados e logo me vi paralisada, engolindo em seco. Desviei o olhar para Refioh e os guardas: todos pareciam indiferentes e entediados. O moreno urrou em êxtase e caiu sobre a mulher que agora chorava e soluçava.

Um dos guardas caminhou até a cama e apanhou a mulher, arrastou-a para fora da cama e levou-a para fora do quarto, deixando atrás de si um rastro de sangue. Felizmente nunca tive problemas reais com sangue.

– Próxima! – Gritou o homem na cama, rindo e ofegando enquanto um novo guarda ia até a fila de mulheres e soltava as algemas da primeira.

Ela gritou e se debateu quando puxada para cima da cama, eu não queria ver qualquer coisa do que sabia que estava por vir.

– Diga, Refioh. Quem é a morena? – Perguntou o homem.

– Thena, meu Senhor. A nascida que estava sendo escondida em Beile. – Informou Refioh ao rei.

– Bom, finalmente nos encontramos, morena. – O rei sorria, exibindo dentes brancos e perfeitos.

– Thena, este é o Rei Dieo Merno. – Refioh caminhou comigo até perto da cama.

– Olá, minha dama. – Dieo forçou a mulher contra a cama e penetrou-a, ignorando o grito de dor e o sangue que escorreu pelas coxas dela.

Monstro. Era o que o rei Dieo Merno era. E eu o odiei a partir daquele momento, de graça, sem esforços.

Notas finais
Sugestões, críticas, sempre sempre espero por elas. []