Dark as night.
13 Curiosidade.
Notas iniciais
Dieo é um homem grosseiro para o posto de rei. Talvez só fosse apresentável quando lhe convinha, ou nem isso.
A mulher gritava histericamente até receber um soco na face. Um soco, não um tapa O rei a puxava contra si pelos braços e vez ou outra gemia de prazer enquanto tentava manter a conversa e a mulher sob seu controle.
– Ainda tenho minhas dúvidas quando às informações de ela ser uma Nascida. Não tem poder algum, não reagiu ou revidou. Apenas a sinto como uma, isso me confunde, meu senhor.
– Basta, Refioh. Retirem-se. – Dieo largou a mulher chorosa sobre a cama. – Lavem-na e a preparem para Voil e Zaaer, eles saberão o que fazer com ela, e eu também, logo depois. – Os olhos do rei estavam voltados para mim e pareciam querer desvendar meus segredos mais obscuros. Não cedi.
Tivemos que esperar pacientemente as mulheres serem levadas dali, uma chegou a me sussurrar um “obrigada” ao passado. Não consegui entender muito bem, ou talvez só tivesse bloqueado minha mente para não pensar o que provavelmente ela queria dizer com aquilo.
Havia no quarto somente o rei, Refioh, eu e outros três guardas. Dieo deslizou para fora da cama e sorriu em minha direção. Seu porte me lembrou Rehr, mas não era mais alto que Cyen. Arrumou os cabelos lisos e médios enquanto caminhava, ainda banhado em suor, até mim.
Desviei o olhar enojada e ele puxou-me o rosto pelo queixo. Os dentes brancos de um sorriso perfeito foram exibidos, queria tê-los quebrado.
– Será ela uma virgem? O que acham, homens? Refioh? – Dieo riu sonoramente, inclinando-se sobre mim.
Ele perguntava com tanta naturalidade até mesmo para um garoto de catorze anos, e o que mais me surpreendia era o desdém e indiferença que o garoto tanto exibia no rosto pálido.
Senti sua língua em minha bochecha e tentei empurrá-lo, o que resultou em dois dos guardar segurando-me pelos braços. A risada de Dieo ecoou pelo quarto e ele se aproximou novamente, puxando-me dessa vez pelo quadril, fiquei parada. Ele deslizou os lábios por meu pescoço e empenhei-me em manter minha concentração e paciência, fechando os olhos e pensando em minha família. Perguntava-me como estariam, onde estariam e o que faziam naquele momento. Tentei ao máximo me deixar leve o suficiente a ponto de esquecer do lugar onde me encontrava, com quem estava e o que estava fazendo comigo.
Os guardas seguravam-me com firmeza e eu me sentia ainda mais incapaz com as mãos presas nas algemas de gelo de Refioh. O rei aspirou o ar profundamente rente a minha jugular, voltei a abrir os olhos e fitei um ponto qualquer noutra direção, totalmente contrária. Sua risada invadiu meus ouvidos e ele colou o corpo ao meu em um tranco que me fez cambalear, a destra em minha nuca, segurando meus cabelos e a canhota em minha coxa e subindo. Mordi meu lábio como que para me conter. Sempre me orgulhava de minha paciência, queria saber onde diabos ela havia sido enfiada naquele momento. A mão em minha nuca desceu até meu pescoço, clavícula, busto até que ele tivesse alcançado meu seio. Tentei me mover, mas mais uma vez fui incapacitada. Queria gritar, mas não daria o gosto de estar no comando a Dieo, não mais do que ele já sabia estar. Puxou minha perna a ponto de me fazer desequilibrar e pousou-a em sua cintura, fiquei de pé com dificuldade e ele passou a pressionar seu pênis contra minha coxa. Eu já não estava mais em mim de tanto ódio. E ele notou. Apertou forte meu seio e gargalhou alto, acompanhado pelos guardas que também começaram a rir. Assim que cessou, me soltou e deu a volta, suspirando e passando a mão nos cabelos mais uma vez.
– Você é divertida, Thena. Gostei de você.
– Obrigada. – Murmurei com ironia e vi em seus olhos que não esperava uma resposta, sorri com dificuldade apenas para provoca-lo e deliciei-me com sua expressão indignada.
– Levem-na. – Ordenou por fim.
Fiz o que estava ao meu alcance para tirar o que havia acabado de ocorrer de minha memória. Eu queria uma pancada que me fizesse sofrer uma perda de memória, mesmo que por alguns minutos. Estava com nojo de mim mesma.
Saí do quarto sendo puxada pelos braços e demorei até acompanhar o ritmo dos guardas que me escoltavam pelo extenso corredor até a escada que eu tinha visto pouco antes de ter que conhecer o tão falado rei que me temia até o dia anterior, isso segundo Serna. Ingênua.
Demorei o máximo que pude em cada degrau até chegarmos ao novo corredor cheio de portas e tochas que iluminavam nossos passos. Quis entender a razão para uma pessoa morar num lugar tão grande com tantas portas e cômodos. Eu duvidava que Dieo tivesse alguém que pudesse chamar de família àquela altura.
– Já avisamos Voil e Zaaer, mas ele exigem que a limpem primeiro. – Disse Loye, surgindo de repente, ou talvez eu não estivesse tão atenta como pensava.
– Chame as mulheres, Loye. – Murmurou Refioh, os olhos brancos a me encarar.
Ainda me era estranha a maneira como ele se movia e agia, como se enxergasse.
Caminhamos até a quinta porta do corredor, minutos depois duas mulheres na mesma faixa de idade de Serna surgiram apressadas. Questionei-me se eram escravas ou empregadas. Talvez ambos.
– Fiquem aqui fora. – Disse Refioh aos guardas. – Também mereço um banho. Vocês duas, cuidem dela. – Ordenou, por fim.
O garoto só saiu dali quando fui empurrada para dentro de um quarto com as duas mulheres.
– Olá, moça, perdoe-nos por isso, mas.. – Disse uma delas, ruiva e de grandes olhos escuros.
– Tudo bem. Compreendo sua situação. – Murmurei em resposta.
Não havia muito que eu pudesse fazer. Senti o gelo em minhas mãos desaparecendo aos poucos, ele não derreteu, simplesmente sumiu gradativamente. Massageei os pulsos e senti a outra, uma morena de cabelos cacheados e castanhos escuros, mexer em meu cabelo com cuidado. Quis perguntar a ela o que estava fazendo, mas fiquei em silêncio, observando enquanto a ruiva ia até uma porta e a abria. Pude ver a banheira que havia ali dentro, grande como um caldeirão gigante, redonda e muito bem cuidada e luxuosa. A morena me empurrou levemente na direção do banheiro e eu apenas caminhei.
A ruiva preparou o banho com água morna, a qual foi esquentada em um uma espécie de fogo à lenha numa fornalha não muito longe de onde ficava a banheira, agradeci por ela ter misturado um pouco da água fria à quente, ou eu teria morrido com graves queimaduras. Tentaram me despir, mas pedi que saíssem enquanto eu rapidamente tirava minhas roupas e mergulhava na banheira. Gritei por elas, avisando que já estava na banheira. Vieram correndo, tive certeza de que pensaram que eu fugiria, e eu cheguei a pensar em fazê-lo, mas supus que seriam castigadas caso eu desaparecesse. Ali seria fácil de se fugir, por assim dizer. Era um banheiro grande, com duas enormes janelas que iluminavam o lugar, caso eu tivesse tido coragem e certeza de que nada me aconteceria, teria me arrastado rente à parede do lado de fora até algum outro cômodo, mas a altura não me agradou. Preferi ceder ao banho e ao que quer que estivesse por vir.
Havia pétalas e um aroma adocicado, eu mergulhei o quanto pude na água e esperei pelas duas mulheres que àquela altura tratavam meu cabelo. Com panos de um tecido fino e muito bonito, limparam-me os membros com cuidado e leveza. Não disse absolutamente nada durante o banho.
Ao fim, recusei-me a ficar nua diante das duas e pedi que me deixassem secar meu próprio corpo. O fiz e enrolei-me noutro tecido que trouxeram, caminhando de volta ao quarto. Encarei-as e rapidamente a ruiva estendeu-me um vestido muito bem trabalhado e sorriu, incentivando-me; o problema era que eu não queria colocar aquilo. Era azul, um azul turquesa com a saia longa e mangas que iam até meus pulsos, o decote em coração estava logo acima das fitas que me serviriam como um quase espartilho ao me apertar. Relutei um pouco, mas aquela era a única peça que me era disponível, pois quando procurei pela calça e a camisa que usava até chegar ali, já as tinham carregado sabe-se lá para onde. Suspirei longa e profundamente, vestindo-me por fim.
Os guardas me levaram pelo extenso corredor até que encontrássemos Dieo e Refioh novamente, o rei me olhou dos pés à cabeça e sorriu parecendo satisfeito, eu ainda achava exagero terem me feito uma trança nos cabelos e decorado com alguns ramos e pequenas flores, mas não contestei e continuei seguindo o caminho que faziam, descendo as escadas e indo cada vez mais para baixo.
Começou a ficar quente e realmente ruim de se respirar, mas ali estava mais uma porta em um corredor completamente feito de tijolos e rochas cinzentas.
– Voil! Zaaer! Trouxe um presente para vocês. – Dieo pareceu quase saltitante após abrir a porta.
Me pareceu um laboratório, com vidros e recipientes e materiais diversos que fariam qualquer um querer sair correndo. Eram poucas as janelas ali, mas não era abafado e nem mesmo escuro. Algumas cadeiras de madeira estavam perto de mesas de mesmo material, onde vários livros e pergaminhos jaziam ladeados por velas e canecas com bebidas inacabadas.
Havia dois homens ali.
– Bem vinda, senhorita. – O primeiro caminhou até mim, tinha o rosto coberto por algumas boas rugas e cabelos ralos, grisalhos e bem cuidados, os olhos eram verdes brilhantes, o sorriso convidativo parecia ter sido entalhado no rosto dele, além de não ser muito mais alto que eu e extremamente magricela. – Sou Voil, é um prazer conhecê-la. – Tomou minha mão e a sacudiu antes do sorrir e olhar para Dieo. – Sim, ela tem grande poder..
Recuei, puxando minha mão, completamente atordoada com aquilo. Sem contar a maneira que Voil me olhou, como se eu fosse uma iguaria a ser tomada, a ter um dono.
– Não assuste a garota, velho insolente e insensível. – Disse o outro, pouco mais novo que Voil, supus ser Zaaer. Ele era um bem diferente de Voil em alguns aspectos: os cabelos estavam um misto de fios pretos e grisalhos, os olhos violeta me lembraram Moune e Rehr, assim como a altura exagerada que me fazia olhá-lo de baixo. – Zaaer Betri à sua disposição, querida. – Beijou minha mão, recuei da mesma maneira.
Dieo ria de onde estava até se aproximar e puxar-me pela cintura para si, apertou o corpo contra o meu e tocou-me o rosto sem me soltar.
– Deixarei minha doce Thena aos seus cuidados, espero que sejam gentis com nossa convidada, tenho certeza de que ela não reagirá muito bem se não o fizerem. E, aliás, eu ainda pretendo ter alguma diversão com esta morena, se não se importarem de minha pobre pessoa querer que sejam um pouco breves com o que quer que magos como vocês façam.. Ficarei agradecido. – Soltou-me por fim, caminhei para longe e acabei esbarrando em uma mesa com alguns livros variados.
Olhei para Voil e Zaaer, ambos sorriam para mim e não demorou até que eu os visse empurrando Refioh, Dieo e os guardas para fora dali. Tentei não imaginar o que fariam comigo, mas era difícil me concentrar estando em um lugar desconhecido com dois homens suspeitos e completamente estranhos, magos como Joko, mas de um modo estranho. Então eles eram os magos do rei? Talvez fossem apenas os favoritos.
– Vamos ao que interessa, Thena. – Riu escandaloso, Voil.
– É fato que você é uma nascida, mas nossa questão é: como conseguiu se manter fora de nossa vista? Como se escondeu? Por que seu poder se acumulou e o que a torna tão.. perigosa para Dieo? – Zaaer era sério em suas palavras e começou a me rodear.
– E para nós. – Finalizou o outro mago.
– O que querem dizer com isso? – Tomei coragem pra dizer.
– É mais que óbvio que você não é uma Nascida qualquer, cabe a nós descobrir o porque, e o que você trará com sua exposição e poder. – Voil girou-me com um breve empurrão em meu quadril. Qual era o problema dele?
– Venha cá, venha cá. – Zaaer segurou meu pulso e me levou até uma cadeira coberta por alguns panos e me pôs sentada.
Voil trouxe, segundos depois, alguns recipientes com pós e começou a jogar sobre o vestido que eu usava, soprava-os em meu cabelo e em meu rosto. Tossi algumas vezes e pensei em correr dali, mas não sabia do que eram capazes e nem achava que eram fracos a ponto de me fazer arriscar sem pensar nas consequências.
– Comecemos! – Zaaer gargalhou alto e eu me vi em choque.
Meus olhos doíam, minha cabeça parecia receber marteladas a cada novo segundo, gritei com uma dor repentina e ainda ouvia as gargalhadas agora dos dois magos. Eu precisava ir embora daquele lugar.
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