Dark as night.
16 Restos.
Notas iniciais
Não fui capaz de desviar o olhar, Refioh estava mesmo mudando de forma enquanto Cardo apenas aumentava seu tamanho outra vez, e eu duvidava que a veria pequena novamente.
– É, também estou começando a pensar assim.
Não saímos do lugar, algo me dizia que correr seria o pior a se fazer naquela ocasião. Refioh ficou de pé, seu corpo havia sido alongado e agora ele tinha garras, presas e até mesmo asas. Lembrava Cardo de um modo bizarro.
– Deveríamos fugir, não? – Perguntei a Lael.
– Só se quiser morrer mais rápido. – Respondeu ele.
Tornou-se difícil raciocinar e logo senti frio, os olhos de Refioh presos aos meu, tão azuis que pareciam duas estrelas em um céu noturno.
– Thena, acorde. Desvie o olhar, não caia no truque deles. THENA! – Ouvia Lael, mas era como se ele estivesse longe e se distanciasse cada vez mais de mim, sua voz sumia gradativamente.
Meu corpo estava leve e eu não sentia mais frio, sentia sono e cansaço, tanto que deixei meus olhos se fecharem e em problemas eu logo estaria dormindo.
O teria feito se não fosse a dor.
Voltei a mim, tudo havia acontecido muito rápido. Fui capaz apenas de ver o garoto e seu dragão investindo contra mim, Lael tentou me apanhar, mas Cardo o atingiu rapidamente e os dois passaram a se atracar com garras e presas no ar, enquanto caíam. Distraída, nesse breve momento Refioh cortou meu braço esquerdo, sequer pude vê-lo investindo contra mim. Olhei para o ferimento, o sangue descia profusamente e não parecia que iria parar tão cedo.
Pousei a mão sobre o corte, torcendo para que me curasse logo, mas o frio voltou e eu me peguei batendo os dentes.
– Thena, por favor, concentre-se. Você pode com ele. – Lael quase gritava comigo, ainda em alerta.
Meu braço doía, duvidava que estivesse me curando. Refioh investiu uma segunda vez contra mim e eu rolei pelo telhado do castelo, agarrando-me no último segundo com a destra na beirada. Senti meu sangue descer por meu braço, mas estava gelado.
– Concentre-se. Balance o corpo e se lance para cima, Thena, eu a apanharei no ar. – Meu dragão estava longe, mas eu ainda podia ouvi-o em minha cabeça.
– Como supostamente devo fazer isso?
– Arrume um jeito, rápido e breve. Caso contrário Refioh vai te cortar aos poucos até que sangre e morra. – Brigou comigo, sua voz demonstrava urgência. – Agora, comece. Estou indo.
Se eu não fizesse aquilo provavelmente acabaria morta. Meu braço começou a doer por suportar todo meu peso, o que estava ferido parecia mais pesado que o normal e aquilo passou a me preocupar. Comecei a me balançar, inclinando as pernas para frente e para trás, usando toda minha força para permanecer firme, sem cair. Vez ou outra cheguei a crer que cairia, foi quando olhei para baixo. Não tinha a mínima noção da altura que me encontrava, mas sabia que a queda faria de mim apenas restos ao chegar no chão.
Estava cada vez mais pesado e, embora parecesse ter demorado mais ainda, tudo aconteceu em poucos segundos: puxei meu corpo para cima com o braço direito pouco depois de repentinamente ouvir Lael gritar.
O dragão me segurou com as patas e me jogou no ar de modo que eu caísse em suas costas.
Eu teria que reagir brutalmente aos ataques do garoto ou ficaria fugindo até ser assassinada no final de tudo.
– Eles vão sempre nos separar, Thena, mas você tem que ficar o mais próxima de mim que puder. – Dizia o dragão negro, concordei com a cabeça.
Senti frio e uma pontada na nuca: estacas de gelo vinham em nossa direção, Refioh e Cardo logo atrás em alta velocidade.
Em força eu sabia que poderia não ser tão boa quanto Refioh, afinal, tudo era novo para mim, mas sabia que ele muito dependia de Cardo e meu combate corpo-a-corpo era mais avançado. Teria que fazer bom uso e tirar algum proveito disso.
Ainda pensava, eu sabia que Lael acompanhava o que se passava em minha mente. Eu o sentia em meus pensamentos. A fuga, por enquanto, estava a cargo dele. Minha preocupação era o contra-ataque. Finalmente tive uma ideia.
– Lael? – Comecei.
– Sim, Refioh usa boa parte do tempo a visão da Cardo.
– E se a cegássemos também?
– Provavelmente seriam alvos mais fáceis. Ele é cego, mas tem os demais sentidos aguçados, razão pela qual ele te atingiu facilmente mesmo enquanto eu lutava com Cardo.
– Certo. Pode ser algo.
– E como pretende cegá-la? – Ele riu irônico.
Eu não tinha sequer uma arma comigo, notei, além de meu próprio corpo.
Lael desviava rapidamente das torres, mas ainda éramos perseguidos.
– Cardo tem que ficar perto de Refioh tanto quanto você de mim. – Pensei em voz alta.
Mais ataques com gelo.
– Eles nos separaram, e se os separarmos? Acha que seria capaz de cegar Cardo? – Indaguei.
– Thena, seu braço! – Disse Lael.
Eu ainda sentia a dor, mas preferi ignorar. O problema era que eu não havia notado a camada de gelo que começou a revestir meu membro e aos poucos o transformava.
– Lael, foco, se não fizermos algo logo vai ser pior. Temos algo mais preocupante que eu virar uma estátua de gelo. – Repreendi-o pela primeira vez até onde me lembrava.
– Sim, consigo cegá-la. – Respondeu-me sério.
– Certo, eu aguento Refioh. Ele está tomado, eu posso provoca-lo e atraí-lo para cada vez mais longe. – Falei, pausando para olhar para trás. – Ainda corro muito. A primeira parte é sua, quando ele estiver vulnerável, será a minha parte. Combinado?
– Tem certeza, Thena?
– Estou aberta para mais sugestões, caso tenha alguma.
– Não. Vamos logo.
– Me deixe no telhado, eu vou para um lado, você para outro. Caso os dois corram até mim, você puxa Cardo para que ela vá até você. Nisso provocarei Refioh para que ele me persiga.
Teria que aguentar e agir apenas na defensiva por tempo suficiente para que Lael pudesse cumprir sua parte perfeitamente.
Assim que ele se aproximou de uma torre, saltei sem avisá-lo, finquei os dedos como um gancho na estrutura, aproveitando a proteção que tinha na mão.
O ouvi repreendendo-me enquanto eu apenas gritava para que ele continuasse. Tomei impulso e pousei sobre o telhado.
Pus-me a correr o mais rápido que conseguia, quando olhei para trás, Refioh e Cardo me seguiam. Continuei correndo, fazendo o máximo para me equilibrar.
O garoto caiu sobre mim de repente. Pude ver Lael mordendo o rabo de Cardo, atraindo-a. Refioh riu.
– Seu lagartinho acha que tem alguma chance contra ela. E você... está morta. – Sua voz era horrível.
– Ainda não. – Rolei, afastando-me dele e logo me pus de pé novamente.
Meu braço em nada ajudava, apenas pesava mais e mais. Tentei saltar algumas vezes a fim de aumentar a distâncias, mas estava ficando cada vez mais difícil.
Já não era capaz de sentir tanto a presença de Lael. Logo chegaria aos limites do castelo e não teria para onde correr.
Parei ofegante, olhando em volta à procura de Refioh. Ele veio de cima, voando e rapidamente me socou a barriga, fui lançada longe, totalmente sem ar e incapaz de me mover. Refioh é forte, pensei, maldito garoto. Tentei me levantar ao recuperar um pouco de meu fôlego, mas recebi outro golpe do garoto, este com o joelho, também na barriga. Ele me segurou de modo que eu não fosse para longe naquele momento. Sentia-me fraca e vulnerável a cada novo golpe desferido.
Todo meu corpo doía quando ele decidiu expor as garras, deixando claro que as usaria. Não gostei, ninguém gostaria.
Refioh investiu, recuei alguns passos em meio a tropeços, desviando, talvez, por sorte. Isso se repetiu mais duas vezes até ele cortar meu rosto, três longos cortes de minha sobrancelha direita até o canto da boca.
Os filetes de sangue desciam por meu rosto até o pescoço e busto, mas me mantive firme, de pé. Por que Lael estava demorando tanto? O que estaria acontecendo na outra extremidade daquele lugar?
E lá veio o garoto novamente, voando. Apanhou-me facilmente e girou meu corpo no ar, jogando-o para cima apenas para me chutar contra uma das torres, esta desabou. O castelo estava sendo facilmente destruído, mesmo que aos poucos.
Bom, eu também estava.
Agarrei-me aos restos da torre que ainda desabava, procurando à minha volta qualquer lugar no qual pudesse pular para evitar os destroços. Não precisei me preocupar, Refioh agarrou-me novamente e repetiu seu feito anterior. E lá ia-se outra torre.
Eu era apenas restos, meu braço começara a se transformar em puro gelo e já alcançava meu ombro. Estava despencando quando caí no telhado e rolei até atingir o chão de algum tipo de pátio, do tipo que se faziam execuções públicas.
Refioh pousou, fazendo um pequeno buraco no chão. Olhei-o de onde estava, sem conseguir me mover.
– Então a tão promissora Nascida encontra-se agora prestes a morrer. – Zombou o garoto.
Olhei para o céu, ignoraria Refioh ao máximo. Passei a contar estrelas como fazia antes de toda aquela loucura começar. Estava calma e relaxada, tanto que cheguei a sorrir e fechar os olhos.
– O que está fazendo? – Indagou, o tom de voz era de pura ironia e excitação.
Consegui sentar com algum esforço, havia pilastras à nossa volta e eu me sentia tranquila naquele instante. Esqueci a dor, os problemas, toda a situação em si. Foi naquele segundo que ouvi Lael em minha mente.
– Isso, relaxe, Thena. – Dizia em tom baixo e calmo. – Respire e se acalme.
Alarguei o sorriso e, olhando para cima, fui capaz de ver Cardo e Lael investindo um contra o outro, logo veio o urrar de um dele que me ensurdeceu pelo tempo que durou. Só soube que foi Cardo quando ouvi Refioh gritar e cair de joelhos com as mãos tapando os olhos.
– Agora, Thena! Sua vez. – Lael disse, eu sorri.
O tempo parada e relaxando me bastou para que voltasse a sentir-me quase menos pior do que realmente estava. Meu braço ainda era um empecilho, mas teria que ignorar minha dor, eu disse que aguentaria e que daria conta de Refioh.
Cardo caiu aos poucos, tentando voar, mas sem ter a mínima ideia de para onde ia, Refioh então parecia realmente cego, mesmo com os demais sentidos aguçados.
Em pé, sustentei bem o peso de meu braço, mesmo que com dificuldade, quase não o movia, mas ainda o sentia como parte de mim.
O estrondo de quando Cardo finalmente atingiu o chão levantou poeira e estremeceu toda aquela área do castelo; Lael pousou suavemente ao meu lado e deitou, o dragão branco ao lado de Refioh estava imóvel.
– Estou esperando o show. – Disse meu dragão negro, fingindo um bocejo apenas para me provocar.
Seu sarcasmo me fez rir. Ainda ouvia Refioh gritar, perdido à procura de Cardo. Corri até ele.
Acertei-o com o ombro, derrubando-o com facilidade. Não havia sido forte, mas ele foi cerca de três metros para longe de mim. Voltei a correr e saltei, ia pisar em Refioh, mas ele me sentiu próximo e rolou para o lado.
Fiz um buraco no chão e não pude conter a gargalhada.
– Espere aí, eu não ia morrer, garoto?
Refioh urrou e fumaça saiu de sua boca, mas eu sabia que era gelado. Estávamos frente à frente, o silêncio dominava e algo me dizia que aquilo era algo bom para ele. Abaixei lentamente e apanhei algumas pedras do buraco que eu havia feito, o garoto estava quieto, esperando algum movimento que facilitasse seu ataque. Joguei as pedras, Refioh virou o rosto na direção e correu rumo ao local de onde vinha o som. Corri atrás e o segurei rapidamente, passando o braço quase congelado por seu pescoço, enforcando-o.
Sou mais alta, então foi fácil tirá-lo do chão. O garoto se debatia e fincou as unhas em meu braço, tentando me ferir, porém, seu gelo de certa forma me protegia, o que me pareceu estranho. Claro que ter o braço congelado doía, mas algo me dizia que teria sido picado noutro tipo de situação.
– Imunda, solte-me! Cardo! – Gritou Refioh em desespero.
– Ela está inconsciente. – Disse ao garoto o que Lael me dissera no mesmo momento.
– E se ela acordar, cuidarei para que fique longe e aprecie o show ao meu lado. – Riu o dragão negro, acabei rindo junto.
– Vamos ver se aguenta como eu aguentei. – Bufei, meu corpo se recuperava, com exceção do braço.
Pulei para o telhado com Refioh ainda preso em meus braços. Soltei-o e o girei no chão, derrubando-o com uma rasteira, levantei em alta velocidade e o agarrei pelo tornozelo. Era tão leve.
Rodei, rindo, e lancei o garoto contra uma torre, ele atravessou esta e atingiu uma segunda logo atrás. Saltei até ele, tive a bela visão de seu sangue.
– Olha, você é como eu. – Comentei.
– Jamais.. – Começou ele.
– Calado! – Chutei sua barriga e ele voou contra uma parede.
Entramos no castelo após ele ter destruído a estrutura, Refioh se arrastava sobre um tapete, guardas me olhavam com surpresa.
– Ajudem-me. – Gritou o garoto. – Estou ordenando.
Caminhei até pisar na perna de Refioh e encarei os guardas, estes desembainhavam suas espadas.
– Ousem.. – Pisei forte e tive certeza de que todos ali ouviram os ossos da perna do garoto quebrando. Os guardas recuaram. – Ótimos rapazes..
Refioh gritava sob meu pé, as asas retraindo até sumir em suas costas, sem qualquer dano à vestimenta. Concluí: eu era incomparavelmente mais forte.
Forcei um pouco mais o pé contra a perna dele apenas para ouvi-lo gritar. Inclinei-me e o encarei, meus olhos estavam negros.
– Foi bom conhece-lo. – Urrei.
Desci o punho agora quase completamente congelado contra a face de Refioh, sua boca abriu em um grito e separei sua mandíbula com o murro, instantaneamente o gelo em meu braço se despedaçou e caiu, unindo-se ao sangue no chão.
Relaxei por fim, os guardas estavam horrorizados, sem saber se ficavam onde estavam ou se me atacavam.
Lael pousou, destruindo o restante do teto e da parede e ficou ao meu lado.
– Cardo...? – Comecei, levemente curiosa.
– Não vai querer ver o que sobrou. Quando o Nascido morre, seu dragão vira apenas restos. Vamos. – Lael alçou voo comigo em suas costas.
Eu precisava sair dali, mas tinha certeza que deixaria uma boa lembrança para Dieo Merno, e ele saberia que havia sido eu, seus guardas se encarregariam de informa-lo.
Fale com o autor